quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

POLÍTICA - O retorno do velho senhor.

Por Mauro Santayana


Sob a alucinação da idade madura, que costuma ser mais assustadora do que a dos adolescentes, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está conseguindo o que sempre pretendeu, desde que deixou o governo, há oito anos: o tumulto no processo sucessório. Ele – e não mais ninguém – impediu que as bases nacionais de seu partido fossem consultadas sobre o candidato à sucessão do presidente Lula. Se pensasse mais no país e menos em sua própria vaidade, teria, como o líder que se arroga ser, presidido à construção do consenso que costuma antecipar as convenções partidárias. Haja os desmentidos que houver, ele sonhava em criar impasse entre os dois principais postulantes, a fim de ser visto como a grande solução apaziguadora. Ele continua animado por essa miragem no sáfaro horizonte de suas ambições.

Assim, estimulou o governador de São Paulo ao exercício de uma tática de desgaste contra as pretensões de Minas. Decretou a precedência de José Serra e acenou com a “chapa puro-sangue”. Acreditava que levaria Aécio Neves a renunciar a servir a Minas, ao servir ao Brasil, com novo pacto federativo para o desenvolvimento de todas as regiões do país, e a contentar-se em ser caudatário de projeto hegemônico alheio.

Na verdade, essa ilusão era instrumento de outra maior: a de que, com o afastamento do mineiro da disputa, seu próprio cacife aumentaria. Com isso, buscou inviabilizar Serra e Aécio, de tal maneira que, com o crescimento da candidatura de Dilma Rousseff – alvo de tenaz campanha desqualificadora da direita – as elites viessem a assustar-se e batessem às portas de seu escritório político, pedindo-lhe que as salvasse de uma “terrorista”.

Se esse não fosse o objetivo essencial do ex-presidente, poderíamos considerá-lo um tolo – e Fernando Henrique não é tolo. Seu comportamento poderia estar dentro da advertência de Galileu, de que muita sabedoria pode transformar-se em loucura, mas por enquanto, ele está apenas deslumbrado pela ambição. Se se prontifica a discutir com o presidente Lula, e aceitar a comparação entre os dois governos, isso só pode ocorrer na hipótese de que venha a ser ele mesmo o candidato. Do contrário, estará forçando o candidato de seu partido, seja Serra, seja Aécio, a se transformar em mero defensor de sua administração, e não postulante sério à sucessão. Ambos sabem que a comparação será desastrosa em termos eleitorais. Talvez ela pudesse realizar-se, nos meios acadêmicos, pelos economistas e sociólogos, companheiros de sua ex-excelência, e ainda assim é certo que Fernando Henrique perderá, se a discussão for séria. Entre outras coisas, o ex-presidente multiplicou as universidades pagas; Lula, ao contrário, criou novos centros universitários federais e promoveu maciça inclusão dos pobres no ensino médio e superior.

Pergunte-se ao eleitor do Crato e da periferia de São Paulo se ele estava mais feliz durante os anos de Fernando Henrique. Faça-se a mesma pergunta ao pequeno empresário que consolidou o seu negócio com a expansão do consumo, os créditos facilitados e os juros mais suportáveis que paga hoje. Até mesmo os banqueiros se sentem mais satisfeitos.

Ao promover o vazio – para o qual contribuiu o governador de São Paulo em suas íntimas incertezas – Fernando Henrique tenta, com seus artigos de campanha, identificar-se como o único capaz de preenchê-lo. Seu jogo perturba todo o processo político, tanto no plano nacional quanto nos estados. Fruto indireto desse exercício de feitiçaria macunaímica, foi a maldade que fizeram ao vice-presidente José Alencar. O ato de oportunismo estimulou a natural e justa autoestima do vice-presidente, e sua disposição de luta, para a disputa do governo de Minas. Não se tratava de real homenagem ao conhecido homem público. Se Alencar viesse a ser candidato ao Palácio da Liberdade, a verdadeira homenagem que lhe prestariam os competidores seria tratá-lo como adversário, e submetê-lo ao duro debate eleitoral. Do contrário, seria deixar explícita uma cínica comiseração, o que constituiria ofensa ao grande brasileiro.

ELEIÇÕES - Então a campanha vai ser com FHC?

Depois do artigo dominical do ex-presidente FHC...

ImageDepois do artigo dominical do ex-presidente Fernando Henrique, duas perguntas não querem calar: então a campanha vai ser com FHC? Mas os tucanos, governadores-candidatos, Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) não teriam como explicar?

Duas razões para o artigo de FHC e sua entrada com tudo na campanha: a primeira, natural, o ex-presidente se sente na obrigação de defender seu governo, tão mal avaliado pelos brasileiros; a segunda, ele precisa urgentemente levantar a militância tucana e sua base social tão desmobilizada pelos escândalos do PSDB do RS, SC e SP, e de seu aliado o DEM-Brasília.

Ao se enfiarem na lama das irregularidades e da corrupção, PSDB e DEM tiraram de FHC e dos tucanos a única bandeira - falsa, mas bandeira - que tinham: a da moralidade da velha UDN.

O novo "chefe" da campanha assume o posto acuado com os governos Serra e Kassab (prefeito da capital) vivendo um momento de crise em São Paulo, resultado da falta de política e investimentos na infraestrutura da cidade e na defesa civil do Estado; com os péssimos resultados das pesquisas - Dilma alcançou Serra, empata e em alguns cenários já o ultrapassa; e com Aécio entrincheirado nas montanhas de Minas sob o risco de enfrentar uma aliança PT-PMDB com Zé Alencar candidato a governador.

Assim, só resta a FHC polarizar com o presidente Lula e desqualificar Dilma na tentativa de mobilizar seu partido. Mas, é uma tática que tem um preço para eles: confirma o caráter plebiscitário (e de comparação) das eleições. Seguí-la é cair na armadilha montada por Lula. É por isso que Serra está quieto, como se não fosse com ele. Sabe - e sente - que essa intervenção do ex-presidente e do senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) são tiros no pé, o chamado fogo amigo.

Fonte: Blog do Zé Dirceu.

BLOGS - Blog da Dilma.

Do BLOG DA DILMA.


QUEREMOS ULTRAPASSAR OS 10 MILHÕES DE ACESSOS


O Blog da Dilma nasceu em 4 de novembro de 2008, e até hoje já ultrapassamos a marca de 5 milhões de acessos, uma prova do grande sucesso que alcançamos, trabalho árduo dos 10 editores, colaboradores e correspondentes. Queremos convocar toda militância para uma grande campanha de divulgação do endereço do Blog da Dilma entre o povo brasileiro. Mande e-mail, fale no msn, no orkut, nas salas de bate-papo, twitter, sonico, ning, etc. etc. Fale, não deixe de falar para seus amigos e parentes que o Blog da Dilma é importante nessas eleições:
http://dilma13.blogspot.com/

ELEIÇÕES - FHC defende FHC.

Do blog BALAIO DO KOTSCHO.

FHC defende FHC: é tudo o que o PT queria

Deu uma quizumba danada o artigo publicado domingo pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em que ele faz a defesa do seu governo, com críticas duras ao presidente Lula e à sua candidata à sucessão, Dilma Roussef.

Era tudo o que o PT queria na campanha eleitoral para fazer uma eleição plebiscitária baseada na comparação entre os governos FHC e Lula. Além disso, serve para vincular ainda mais o nome de Dilma ao de Lula, um presidente com 80% de aprovação popular.

E era tudo o que não queria José Serra, o provável candidato de FHC nas eleições de outubro, que pretendia centrar a disputa nas biografias políticas e administrativas dos candidatos, se e quando lançar sua campanha presidencial.

Serra recusou-se a comentar o artigo do principal líder do PSDB, depois de chegar com duas horas de atraso a um evento nesta segunda-feira para a inauguração da Biblioteca de São Paulo, em que os dois se desencontraram. Ali o ex-presidente voltou a disparar suas baterias contra Lula e a sua candidata, subindo o tom de um embate que o governador paulista procura adiar o máximo possível.

Esquecido nos palanques e nos discursos pelos candidatos tucanos em 2002 e 2006 (Serra e Alckmin), e já que ninguém defendia seu governo na campanha deste ano, FHC decidiu sair dos seus cuidados e foi à luta ele mesmo, desafiando o “lulismo” a fazer comparações “sem mentir” e “sem descontextualizar”.

No artigo, o ex-presidente citou conquistas e números do seu governo, dizendo que não teme comparações. O governo comemorou: “Enquanto a oposição não falar o que quer fazer daqui para a frente, nós temos que comparar com o que eles fizeram”, reagiu o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha.

Do outro lado do ringue, FHC disse que, ao contrário de Serra, Dilma não inspira confiança: “Ela pode até vir a ser, mas por enquanto não é líder. Por enquanto, é reflexo de um líder. Serra já tem liderança e mostrou que faz”.

Pelo que conheço dos dois, Lula deve estar achando ótima a entrada de FHC na linha de frente da campanha tucana, posto que até agora ele estava nos palanques brigando sozinho, já quem nem Serra nem Aécio mostravam disposição para bater de frente com ele e o seu governo.

Desde os tempos de sindicato, o atual presidente sempre precisou de um antagonista para contrapor suas idéias, adora uma boa briga na base do “nós contra eles”. Cresce quando é contestado ou desafiado, ainda mais por um ex-presidente que deixou o governo em baixa, sem deixar saudades na maioria da população, como demonstram todas as pesquisas.

De outro lado, FHC não tem o que perder. Exilado em seu próprio partido, que recebeu com muxoxos suas últimas manifestações públicas, a esta altura do campeonato só lhe interessa mesmo defender a sua biografia e seus oito anos de governo. Se isso vai ajudar ou atrapalhar o candidato tucano, é outro problema.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

FHC - Cabo eleitoral da Dilma.

Do blog TIJOLAÇO, do Brizola Neto.

FHC vira cabo-eleitoral de Dilma, definitivamente

Nem no mais delirante sonho a campanha de Dilma Roussef poderia contar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fosse ajudar, como está ajudando, a eleição a se polarizar entre ele – naufragado numa enorme rejeição popular – e Lula, apoiado nos maiores índices de aprovação já alcançados em seu Governo. Mas FHC está fazendo mais que isso, está se encarregando, ele próprio, de transferir para Dilma o apoio que vem das más lembranças que traz.

Agora há pouco, em O Globo, ele leva mais água para o moinho da candidata, ao dizer que “ela não inspira confiança” e ao insinuar que não seria honesta, ao dizer que “tem que ver se a pessoa inspira confiança. Nós precisamos de gente competente e que não roube. E que inspire confiança”.

O Governo Fernando Henrique, como se sabe, foi um governo que inspirou confiança e onde ninguém roubou nada. Ou alguém seria capaz de fazer perversas suposições sobre os negócios que envolveram a privatização das estatais, o sistema financeiro, o Banco Central, nas desvalorizações cambiais…

No twitter, o Antonio_Borges me disse, outro dia: “Cara! Pedi agora mesmo que FHC não se calasse! Minhas preces foram ouvidas!

Ou podíamos fazer como o Rei Juan Carlos: Fernando, por favor, no te callas

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

UM RETRATO REVELADOR DE LULA.

Do BLOG DO SARAIVA.

Um retrato revelador de Lula


Do Blog DESABAFO BRASIL.


Correio Braziliense: O seu livro já vendeu 31 mil cópias, segundo a informação da Objetiva. O livro tem uma vendagem boa para o histórico brasileiro, muito melhor do que se considera a bilheteria do filme. A que você atribui essa diferença: o livro ser um sucesso e o filme um fracasso?
Denise Paraná: Minha pesquisa biográfica sobre o presidente Lula já era um sucesso antes da realização do filme. Já havia sido publicada em vários países, e bem recebida pela crítica nacional e estrangeira. Foi citada nos principais jornais do mundo ocidental como New York Times (EUA), Le Monde, L´Humanite, Le Figaro (França), La Reppublica (Itália), The Guardian (Inglaterra), El País (Espanha) e emissoras como BBC, NBC e Al Jaazira.
Mesmo aqui no Brasil, os órgãos de imprensa que fizeram as críticas mais duras ao filme, antes, haviam elogiado muito meu livro. ( A Folha de São Paulo, por exemplo, publicou: “O livro de Denise Paraná é um trabalho magnífico. Ninguém produziu um retrato de Lula tão revelador” “Um memorável depoimento.” A Revista Veja escreveu “Lula, o filho do Brasil, é um retrato magistral da trajetória política, pessoal e familiar do presidente”.“Um livro monumental”.)
É muito bom ver meu livro ser tão valorizado no mundo todo.
Em relação ao filme, houve uma estratégia equivocada de lançamento: exibi-lo junto com o maior recorde de bilheteria da história do cinema, o Avatar. Também não era um filme para estrear em janeiro, época propícia para comédias e filmes infantis.
Há muita gente na imprensa repetindo que o filme foi um fracasso, mas não foi. Não bateu recordes de bilheteria, como alguns anteviram, mas isso, de modo algum, significa fracasso. No Brasil, a média de espectadores para filmes nacionais de qualidade é de 220 mil. “Lula, o filho do Brasil”, já bateu 800 mil e ainda está em cartaz. Deve chagar a um milhão de espectadores, ou seja, quatro vezes mais do que a média. Só para se ter uma idéia, o último filme do Daniel Filho, com Tony Ramos no elenco, produzido pela Globo Filmes, teve 90 mil espectadores. E era um filme muito bom. Então, onde há fracasso?

É possível transferir o apelo popular do presidente Lula para as páginas de um livro?
Denise Paraná: Não, carisma é uma coisa intransferível.

Você que conhece o presidente acha que ele é uma figura facilmente vendável?
Denise Paraná: Não sei o que você quer dizer com “vendável”. Posso dizer que o presidente é muito carismático, que mobiliza muito as pessoas, dificilmente é ignorado por onde passa. Mas isso não significa que sua imagem possa ser transformada num produto que seja rentável do ponto de vista financeiro.

Hoje existem mais livros na praça do presidente Lula do que edições sobre times de futebol como o Flamengo e o Corinthians. Os escritores e os editores estão tentando surfar na onda da popularidade do Lula para alavancar vendagens?
Denise Paraná: Há publicações bastante oportunistas, sim. É uma pena. Várias são compilações de pesquisas realizadas por outras pessoas, de material que saiu na imprensa reeditado em tom sensacionalista. Algumas podem até vender bastante, mas terão vida curta, porque não se sustentam como bons livros.

Há um apelo sentimental na história de Lula, no brasileiro retirante pobre que chegou a presidente da República?
Denise Paraná: Há algo muito maior do que um apelo sentimental. Sua história de vida é simplesmente fantástica, uma trajetória de superação inigualável. E, mais do que isso, é o retrato vivo de todo o povo brasileiro, com suas limitações e possibilidades.

A principal crítica ao filme é que ele criou um personagem irreal, com Lula quase como um santo. Pessoas que conviveram com ele na época do sindicato dizem que Lula era uma figura bem mais bruta do que o personagem que aparece no filme do Fábio Barreto. Há um descompasso nas histórias do livro e do filme? Houve uma tentativa de "beatificar" o presidente?
Denise Paraná: O filme é uma leitura que o diretor Fábio Barreto fez da biografia “Lula, o filho do Brasil”, escrita por mim. Ou seja, é o olhar do Fábio a respeito de uma história de vida. E esta leitura se prendeu muito à vida real, portanto, ao livro, às entrevistas que Lula e sua família me concederam. Por isso acredito que o Fábio foi muito feliz.
Há uma série de fatos “heróicos” na vida do Lula, que foram reais, que não entraram no filme. Fábio não beatificou Lula, pelo contrário, expôs uma série de fragilidades suas.
O filme foi criticado por setores politicamente conservadores por ter beatificado Lula e foi, ao mesmo tempo, criticado por setores progressistas por ter apresentado um Lula fraco, menor do que realmente é. Quase toda a crítica feita ao filme tem um viés político, quase ninguém conseguiu analisar o filme como aquilo que ele verdadeiramente é, uma obra cinematográfica. Sem julgar o presidente Lula que está agora no poder. Este filme só vai ser “visto” de verdade no futuro, quando as paixões políticas em torno do Lula esfriarem um pouco.
É possível apontar os erros do filme?
Denise Paraná: Sim, claro, tudo o que é humano é imperfeito. Mas neste filme, as qualidades superam as imperfeições. Como o filme já foi muito bombardeado com críticas superficiais e tendenciosas, prefiro deixar minha crítica para o futuro, quando, espero, o fogo das paixões já tenha diminuído e ele possa ser realmente “visto” com suas qualidades e defeitos reais.

ELEIÇÕES - A LA LACERDA.

Do BLOG DESABAFO BRASIL.

A LA LACERDA

O professor Wanderley Guilherme dos Santos publica na Carta Capital desta semana artigo magistral.

A tese central é “decida Serra o que decidir, o PSDB e seus aliados sairão perdedores”.

E a oposição vai para o Golpe.

“Aos poucos, as pesquisas eleitorais conduzirão o candidato a candidato (Serra) a seu devido lugar”.

E aí reside o perigo, segundo Wanderley.

“A súbita consciência de que a excitação em torno do governador de São Paulo não corresponde à opinião pública nacional pode empurrar os admiradores de Serra, sobretudo os ex-esquerdistas, ao extremismo institucional. Gosto para isso não lhes falta, há muito.”

“O sucesso do governo Lula, não seu antecipado fracasso, é o que faz com que a intensidade oposicionista aumente exponencialmente.”

“Justificar o fracasso como consequência de atos ilegítimos do governo é tradição antiga entre nós.”

“ … o mais provável é que a oposição acuse o governo de sufocá-la e de fraudar o processo competitivo. As solicitações ao Judiciário e as insinuações de ‘chavismo’ se multiplicarão. As manchetes se tornarão assustadoras em busca dos milhões de ‘Reginas Duartes’ que compensem a ausência de votos na urnas. Outra oportunidade para que se manifeste o poder desestabilizador dos meios de comunicação.” Correspondente: Marcelo Fernandes.

CINEMA - A volta das patrulhas ideológicas.

Do BLOG DEMOCRACIA&POLÍTICA.

A VOLTA DAS PATRULHAS IDEOLÓGICAS

LUIZ CARLOS BARRETO

"Em vez de falar da obra, os críticos escolheram contestar o direito que todo cineasta tem de fazer um filme sobre o assunto que bem entender

A abertura do Festival de Brasília, 17/11/09, primeira exibição pública de "Lula, o Filho do Brasil". Enquanto o filme se desenrolava na tela, já estava em curso o massacre político promovido por um exército de escribas, comentaristas políticos, colunistas sociais improvisados, ex-militantes políticos de aluguel, cientistas políticos de plantão convocados a se manifestar apenas do ponto de vista especulativo sobre seu potencial político-eleitoral, afirmando que a eleição presidencial de 2010 seria decidida a partir da força emocional do filme.

Além da ingenuidade infantil dessa tese (ou de sua má-fé?), o que eles questionavam era o nosso direito de fazer um filme sobre o assunto que escolhemos. Pode-se fazer filmes sobre Bush, Berlusconi ou Mitterrand pelo mundo afora, como tem acontecido. Pode-se fazer filmes sobre Getúlio, Juscelino, Tancredo, Jânio ou o empresário Boilesen. Mas sobre Luiz Inácio da Silva, não.

Há os que viram (mais de 800 mil pessoas), os que não viram ainda e os que viram, mas não quiseram ver o filme como um filme com todos os seus méritos e valores cinematográficos, como testemunharam e assinaram embaixo Ziraldo ("Uma história bem contada e bem filmada. Impossível não se comover"), Zuenir Ventura ("O filme mexe com a emoção e vai inundar os cinemas de lágrimas") e Cacá Diegues ("A história de vida que esse filme conta com muita emoção nos ajuda a compreender melhor o valor da democracia, do direito de todos à liberdade e oportunidade").

Falar dos méritos e eventuais deficiências desse filme de Fábio Barreto era uma obrigação dos críticos, e é claro que todo mundo tem direito de externar sua opinião, de gostar ou não gostar do filme que viu.

Mas, de tudo que li, poucos tiveram a honestidade intelectual e profissional de criticar o filme como uma obra cinematográfica, escolhendo contestar o direito que qualquer cineasta tem de fazer um filme sobre o assunto que bem entender. A maioria dos que escreveram sobre "Lula, o Filho do Brasil" preferiu este último caminho elitista, censor e autoritário.

Esse processo revela o espírito "patrulheiro" que ainda resta no Brasil como sequela do período autoritário da ditadura militar, quando Cacá Diegues denunciou as patrulhas ideológicas. O espanto é que, em pleno regime democrático que o Brasil vive e respira, haja lugar para esses procedimentos e expedientes antidemocráticos.

A democracia não é o regime que deve silenciar aqueles com os quais não concordamos, eliminá-los ou evitar que eles se manifestem. Na democracia, quando não estamos de acordo com alguma ideia que nos incomoda, produzimos a nossa para que haja um confronto livre entre as duas e a população possa escolher a sua alternativa. Mas os nossos detratores preferiram contestar nosso direito de realizar o filme, manifestando seu desejo antidemocrático de que esse filme jamais fosse feito ou exibido.

Toda a engenharia financeira foi montada às claras e de forma transparente. Desde a partida, decidimos não utilizar nenhuma forma de renúncia fiscal nem buscar o aporte de empresas estatais. Mesmo assim, levantaram-se dúvidas e insinuações de que estávamos utilizando recursos incentivados, acusações que serviam e serviram para provocar antipatia ética pelo filme, pondo em segundo plano suas qualidades cinematográficas.

Agora estamos reformulando algumas estratégias do lançamento comercial, que está iniciando sua sexta semana e já acumula mais de 800 mil espectadores, e sabemos que ainda resta muito chão pela frente, seja no sistema convencional de exibição em salas, seja no sistema alternativo de exibição, que vai levar o filme a uma grande parte de 90% dos municípios do Brasil que não têm cinema.

É lá no Brasil profundo, a preços populares e condizentes com o poder aquisitivo dessas populações, que iremos atingir o público alvo do filme: os Silvas deste país, que precisam e querem conhecer o exemplo de força, persistência e superação de Dona Lindu e seus oito filhos, exemplo que vai correr o mundo em telas de cinema, TV aberta, cabo, DVD e internet.

Nesse sentido, já temos estreias marcadas na Argentina, no Chile, no Uruguai e no Paraguai ainda neste primeiro semestre de 2010, e na Colômbia, no Peru, na Venezuela, no Equador, na Bolívia e no México no segundo semestre de 2010.

Qualquer mudança nessa trajetória do nosso pau de arara cinematográfico, informaremos, na certeza de que não vamos influir nas eleições de nenhum outro país.

Queremos apenas ter o direito de contar e ver acompanhada pelo público uma história que julgamos relevante para a consolidação da autoestima de nosso povo, para a consolidação de nossa democracia e para o progresso do cinema brasileiro como um todo."

FONTE:
escrito por LUIZ CARLOS BARRETO, 81, produtor cinematográfico. Produziu, entre outros filmes, "Lula, o Filho do Brasil", "Dona Flor e seus Dois Maridos" e "O que É Isso, Companheiro?". Publicado hoje (07/02) na Folha de São Paulo.

FHC - Fernando Henrique Cardoso precisa de amigos.

Isso é FHC. A exigência egóica de ser admirado o torna, paradoxalmente, um líder sem liderados. Para quem acredita que fez um grande favor ao mundo nascendo, sua irritabilidade é permanente e justificada.

Em seu texto “Luto e Melancolia", Freud diz que manifestações melancólicas assumem várias formas clínicas, se caracterizando, entre outros sintomas, "por uma depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, diminuição do sentimento de auto-estima e inibição de todas as atividades." A identificação com o objeto perdido é inevitável e, na medida em que não consegue incorporação simbólica, o que sobra ao sujeito é a identificação com o vazio de um pai ausente.

Se a psicanálise sofre hoje contestações de diferentes ordens, as palavras do seu criador sobre o comportamento melancólico se encaixam como uma luva para o amontoado de sandices que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu e disse no último domingo, 7/02, tentando deter e repudiar a impopularidade que o persegue desde o segundo mandato.

Há alguns anos, Carlos Heitor Cony, em artigo na Folha de São Paulo, não poupou palavras para melhor definir o “príncipe dos sociólogos: "Diziam seus admiradores que FHC era uma cabeça, um intelectual, um produtor de coisas inteligentes. Sua exposição no cargo mais alto do país rebaixou-o à dimensão de um demagogo banal, incapaz de articular um argumento alem do insulto aos que não acreditam nele e o acusam inclusive de improbidade."

Isso é FHC. A exigência egóica de ser admirado o torna, paradoxalmente, um líder sem liderados. Um prócer a ser evitado em anos eleitorais. Para quem acredita que fez um grande favor ao mundo nascendo, sua irritabilidade é permanente e justificada. Afinal, deve ser duro para quem esteve no poder durante oito anos, constatar que o resto do mundo político não reconhece sua importância. Pior, o que ganha realce são os erros grosseiros de um dirigente que governou de acordo com os humores do capital financeiro.

Seu governo passou para a história como um modelo que acentuava a exclusão social e penalizava as classes de menor renda. A estratégia de estabilização de preços baseada na captação de capital externo de curto prazo, através da sobrevalorização da moeda e da manutenção de elevadas taxas de juros, levou o país a níveis de desemprego sem precedentes, à desarticulação da estrutura produtiva e à deterioração do tecido social no campo e na cidade.

O mau desempenho do comércio brasileiro na época foi minuciosamente construído pela equipe de FHC que, realizando uma abertura irresponsável da economia, pôs em prática políticas monetárias e cambiais que minaram em grande parte nossa capacidade de competição internacional.

Mostrando a miopia fiscalista que o orienta até hoje, Cardoso escreveu em seu artigo (“Sem medo do passado”), publicado no Globo: "Esqueceu-se [Lula] dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal."

A entrega do patrimônio público ainda é apresentada como fórmula eficaz de fazer caixa. O que FHC faz questão de esquecer faz parte de sua história: grande parte do programa de privatização brasileiro foi financiada pelo BNDES. No cassino tucano, muitas empresas privatizadas não queriam fazer investimento aqui e se aproveitavam de polpudos créditos que também beneficiavam transnacionais já instaladas no país. O argumento utilizado era o de que a vinda desses setores permitiria agregar elementos de financiamento ao desenvolvimento nacional.

Quando se lê um artigo assim, descontextualizado, mal costurado em seus argumentos, é que nos damos contas da importância de olhar pelo retrovisor. É ele que sinaliza as perspectivas do futuro. Nesse ponto, o texto de Cardoso é didático, quase leitura obrigatória.

FHC sabe que a grande mídia corporativa exercerá o prestimoso papel de guiar suas mãos na hora de legitimar a irrelevância dos seus escritos. Somente os exércitos de colunistas destacados pelas famílias que controlam os meios de comunicação garantem sua vida política vegetativa.

Quando compara a ministra Dilma Rousseff a um boneco manipulado pelo presidente Lula não faz qualquer ponderação política, apenas evidencia que sua cabeça está longe de ser privilegiada. É uma mente que destila bile (que está na raiz da palavra melancolia) para desqualificar seus adversários. É o menestrel da política pequena buscando a facilidade da ribalta midiática.

Antes de dizer que “o PT “tenta desconstruir o seu mandato”, o ”príncipe” deveria dedicar mais tempo à leitura do que andaram falando sobre seu governo as principais lideranças do seu partido, em especial o governador de São Paulo. Uma boa sugestão seria o livro “Conversas com Economistas Brasileiros II", que a Editora 34 lançou em 1999. Lá ele encontraria o seguinte trecho:

“A política cambial do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso foi um desastre gratuito e total. Foi resultado de pouca reflexão analítica de seus condutores. Suas conseqüências foram devastadoras em muitas áreas da economia, inclusive comprometendo as metas fixadas no processo de privatização."

Essa crítica, das mais contundentes feitas por um economista que participou dos dois mandatos do governo FHC, é de José Serra em entrevista a dois professores da FGV, Guido Mantega e José Márcio Rego. E agora, quem é o boneco de quem? Nem mesmo um governador que submergiu com as enchentes em São Paulo, levando com ele a suposta capacidade gerencial do tucanato, pôde endossar a política arrasada do ex-presidente. O que esperar da oposição? A compaixão que deve ser concedida aos incapazes?

As palavras do ex-presidente devem ser vistas como movimentos de descompressão da realidade. Quando, a partir da melancolia e solidão de sua maturidade, um ator político faz a volta à infância, o ridículo se apodera do cenário. Fernando Henrique precisa de amigos.


Gilson Caroni Filho/Agência Carta Maior.

MST - Mídia alardeia pesquisa contra o MST.

Do BLOG DO MIRO.


Mídia alardeia pesquisa contra o MST

A senadora demo Kátia Abreu, também chamada por seus próprios pares de Ivete Sangalo do Congresso devido a seus modelitos exóticos e ao seu exibicionismo, transformou uma pesquisa fajuta na nova arma contra o MST. Já o grosso da mídia privada, que sempre defendeu os interesses do latifúndio, amplifica os resultados para rotular os que lutam pela terra de “vândalos”, “terroristas”. Ela nem se dá ao trabalho, tipicamente jornalístico, de esclarecer quem financiou a pesquisa e qual metodologia foi aplicada.

A violenta campanha contra o MST, cuja pesquisa é a nova peça publicitária, surge no bojo da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), convocada no final de 2009 por insistência da bancada ruralista. Feita pelo Ibope, instituto desmoralizado por suas ligações carnais com os demos-tucanos, entrevistou 2.002 pessoas e foi financiada pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), a suspeita entidade presidida pela própria Kátia Abreu, que bancou ilicitamente a sua campanha ao Senado.

As manipulações do Ibope

Willian Bonner, Boris Casoy e outros picaretas midiáticos nada falam sobre o dinheiro da pesquisa, mas fazem alarde com alguns de seus resultados. Destacam que “60% dos brasileiros (não dos entrevistados) desaprovam o MST” e que “53% o associam à violência”. Porém, eles não informam aos ingênuos das telinhas que 73% dos entrevistados declararam “conhecer pouco” este movimento tão demonizado pela própria mídia. Quase ninguém sabe dos assentamentos dos sem-terra, da elevada produção de alimentos da agricultura familiar, das premiadas escolas dos acampamentos, etc. Isto não aparece na TV.

Os venais da mídia também não divulgaram as perguntas asquerosas da pesquisa CNA-Ibope. Uma das mais matreiras, indaga: “O senhor está de acordo com a frase: o que lhe pertence ninguém pode tomar”, e obteve, logicamente, 87% das respostas positivas, sendo interpretada como “repúdio às ocupações de terra”. Mas nem todas as respostas agradaram os ruralistas. Somente 4% dos entrevistados concordaram que os latifundiários usem seus próprios recursos para evitar ocupações de terra – o que significa forte rejeição a jagunços, assassinatos e outros métodos comuns no campo. Mas esta resposta a mídia abafou!

Instrumento político da CPMI

Além de tentar desmoralizar o MST, a pesquisa CNT-Ibope visou desgastar o governo Lula, insinuando que as ocupações de terra são financiadas com recursos públicos. Mesmo assim, 35% dos entrevistados avaliaram que o governo não apóia o MST. Entre os contrários ao movimento, o governo só perde para a mídia (40%) e para o parlamento (41%). No seu conjunto, a pesquisa teve resultados contraditórios. Para a alegria dos ruralistas, 82% declararam apoio à CPMI; para a sua tristeza, 58% consideram o MST um movimento legítimo. A primeira foi alardeada pela mídia; já a segunda não apareceu na TV Globo.

Como argumenta o historiador Jeansley Lima, a pesquisa CNA-Ibope visou “criar um novo fato político para desmoralizar o MST e contou com a habitual complacência das principais emissoras de TV e dos grandes jornais”. Ela foi financiada com milionários recursos para servir aos intentos dos latifundiários, muitos deles travestidos de modernos barões do agronegócio, na CPMI. Esta comissão parlamentar será o novo palanque da oposição num ano de sucessão presidencial e tem como objetivos criminalizar os movimentos sociais, barrar a atualização do índice de produtividade rural e encurralar o governo Lula.

ECONOMIA - O que dá começar a repartir o bolo...

O que dá começar a repartir o bolo…

O Globo e o Estadão, hoje, trabalham em cima dos mesmos dados da Fundação Getúlio Vargas, mostrando a redução da pobreza no Brasil desde o início do Governo Lula, em 2003.

O Globo, porém, não consegue sair da “visão de mercado” e vai ouvir…publicitários e dirigentes de empresa, para saber como estão adptando seus produtos para essa “nova classe média”.Embora seja jornalisticamente válido, é uma pena que algo tão importante para a cidadania seja tratado exclusivamente sob a ótica de seu impacto comercial.

O Estadão tem uma matéria melhor: a entrevista com o economista Marcelo Néri, da FGV, responsável pelo estudo. Depois de avisar logo que “não é tucano nem petista” (e, pela entrevista, se vê que não é mesmo), ele vai ao ponto:

-Nos números da Pnad de 2001 a 2008, se observa uma queda muito forte na desigualdade. Ela só tinha se alterado significativamente no Brasil uma vez: nos anos 60, e para cima. A desigualdade aumentou na época do milagre econômico. Por isso o (economista) Edmar Bacha cunhou o termo “Belíndia” (segundo o qual, em termos sócio-econômicos, o Brasil seria uma mistura de Bélgica e Índia). Apenas de 2004 para cá, 32 milhões de brasileiros subiram para a classe ABC. Em cinco anos, 19,3 milhões saíram da pobreza. Então, a boa notícia é que dá para transformar o País rapidamente, aos saltos. A má é que a desigualdade continua grande: ela ainda precisa cair três vezes para convergir ao nível norte-americano, que já é muito alto.

Tirar quase vinte milhões de pessoas da pobreza é algo de uma dimensão que se tem dificuldade até de imaginar. Isso equivale, por exemplo, quase a metade de toda a população nordestina. E e fazer 32 milhões de pessoas entrarem no mundo da inclusão é, evidentemente algo ainda mais impressionante.

É muito, com certeza, mas está muito longe de bastar. Como Neri afirma com propriedade, o Brasil, mesmo ficando um país mais justo, ainda continua extremamente injusto socialmente.

Os jornais não publicaram, mas eu fui buscar para vocês os gráficos elaborados no trabalho do de Marcelo Neri, intitulado Consumidores, produtores e a nova classe média: miséria, desigualdade e determinantes das classes , que publico aí ao lado, mostrando o quanto diminuiram os dois estratos mais pobres de nossa população.

A entrevista de Neri, que merece ser lida, revela ainda algo que sempre sustentamos: o trabalho e o emprego é que sustentam esta mudança.

- O que cresceu significativamente no País foi renda do trabalho, não aquela proveniente dos programas sociais – o que já garante certa sustentabilidade. Outro fator é o aumento da formalização do trabalho. De 2003 a 2009, o número de empregos formais novos foi de 8,5 milhões, o que mostra que o empresário, que é o símbolo e a força dinâmica do capitalismo, está apostando. Parece que a sociedade brasileira como um todo, que sempre aceitou a desigualdade, agora aceita menos.

Digamos, professor, que a elite brasileira está tendo de aceitar a redução da desigualdade. E , reconheça-se, a parte mais humana e mais inteligente dela até percebe que, sem isso, este país será um inferno para todos.

Por que esta elite não pensa senão em negócios. Por isso trata a saída de tantos brasileiros da miséria como um fenômeno de consumo. Não festeja, não se emociona com que seus irmãos passem a viver de forma minimamente digna. Estão sempre arranjando um motivo para justificar a drenagem da renda do trabalho para os grandes negócios.

Grande negócio, para o Brasil, mesmo, é a história de ex-faxineira Marilene Silva, que o Zero Hora de hoje publica.

“Na tarde do último dia 22 de janeiro, a recepcionista Marilene Cardoso da Silva vestiu uma toga preta e entrou no auditório do prédio 41 da PUCRS para receber o seu diploma de pedagoga. Foram os últimos passos de uma caminhada iniciada em 1997, quando Marilene dois filhos pequenos na época e só com a sexta série do Ensino Fundamental decidiu voltar a estudar.

Depois de finalizar um supletivo para o antigo 1º Grau, cursou o Ensino Médio em um colégio estadual da Capital. Para poupar com a passagem de ônibus, os guris Guilherme e Gabriel ficavam em casa, aos cuidados da avó – e Marilene ia direto do trabalho, na própria PUCRS, para as aulas. Formada, em 2006, decidiu encarar um curso superior. Saía de casa às 5h20min para voltar perto da meia-noite. No orçamento apertado, a faculdade pesava mesmo com o desconto que recebia como funcionária da universidade. Ela é agora a única de uma família de 12 irmãos com diploma de curso superior.

– Não quero ter as dificuldades que a minha mãe teve para nos criar. Isso, só com estudo – explica.

As marlenes silva deste país não precisam de muito. Precisam de trabalho e educação. O resto são valentes para conquistar sozinhas. Viva, Marilene, parabéns! Este país é feito de gente, não de “mercado consumidor”!

Brizola Neto

CINEMA - Filme com Cháves.

Oliver Stone teme censura mídia em filme com Chávez

O blog sobre cinema de O Globo publica hoje uma entrevista de Rodrigo Fonseca com o cineasta americano, vencedor de dois Oscar com “Platoon” e “Nascido em 4 de julho” . Stone diz que está tentando que seu filme South of The Border, lançado este ano no Festival de Veneza, não sofra o mesmo boicote que outros, por não ter uma visão hostil a Chávez.

— Tenho muito carinho por esse documentário. Ele foi feito no espírito de flagrar a cobertura hipócrita que a mídia americana deu a Chávez, chamando-o de ditador. A América Latina hoje tem um time de governantes, Lula entre eles, que se preocupam em ouvir quem passa fome.

Stone fala até sobre a candidatura Dilma, provocado pelo repórter:

— Não conheço a mulher (Dilma Rousseff) que Lula escolheu para concorrer nas eleições. Mas, se foi escolha dele, ela deve ser uma política progressista, e isso é um convite aos ataques dos que detêm o controle bancário no Brasil. O segredo para ela é reconhecer desde já aqueles que podem se tornar seus inimigos.

Ele está finalizando um filme sobre o mundo das finanças – “Wall Street: o dinheiro nunca dorme” - e cuidando do lançamento do documentário sobre a Venezuela:

-É importante o cuidado com “South of the border”, porque eu sofri um boicote cultural nos EUA com um projeto de formato similar, o documentário “Comandante”, no qual filmei Fidel Castro. Ele não foi lançado nos cinemas americanos, e os canais de TV daqui se recusam a exibi-lo. E ainda dizem que este país não tem censura.

A propósito, o repórter comete um ato falho. Ao escrever sobre o filme – de grande sucesso de Stone, JFK, a pergunta que não quer calar, sobre o assassinato de John Kennedy, escreve Chávez, a pergunta que não quer calar.

Tudo bem, não quer calar também a pergunta sobre por que o filme não pode ser visto logo, sem boicotes.

Brizola Neto

ELEIÇÕES - Dilma aparecerá na frente, em próxima pesquisa!

Do BLOG DO MORANI.

Dilma aparecerá na frente, em próxima pesquisa!

Há cerca de 30 dias atrás, neste blog, afirmei que Dilma ira aparecer em empate técnico, com Serra. Adivinhação? Não. Um pouco de análise dos noticiários, e "um muito" de INTUIÇÃO. Usando as mesmas ferramentas, AFIRMO agora que Dilma irá aparecer "ainda um pouco" à frente de Serra. Explico.
O Globo (ou será O Goebbels) de HOJE, domingo dia 6 de fevereiro, trás na primeira página o óbvio que vem negando a sete anos. Diz a manchete " Classe C do Brasil já detém 46% da renda" e por dentro revela que isso aconteceu de 2003 até hoje. Qual o significado disso, além de reconhecer o óbvio da verdade? É a preparação para que seus ETERNOS leitores hávidos por ver o Governo LULA desabar, se conformem, não só com a derrota de Serra, já começando a se desenhar, como talvez uma desistência do mesmo em concorrer.
Outro fato importante é, novamente colocarem o trombone para FHC tocar. "O farol de Alexandria" sobe o tom, de novo, e vem com a velha cantilena de que o governo atual é continuação do dele. Diz que o que deu certo até agora é porque ele plantou e, pasmem, credita a LULA a culpa do fracasso dos dois ultimos anos de seu governo, com inflação nos píncaros, credibilidade internacional abaixo de zero, dólar na estratosfera,
FMI mandando "arrochar a economia" e, num desatino total, diz que a PETROBRÁS foi " modernizda em seu governo" quando sabemos que só não foi privatizada pela reação firme do povo e dos Sindicatos dos Trabalhadores (leia-se FUP, greve de 95, etc.)
Mas vem para à luz com a discussão dois pontos que reforçam a afirmação do título desse texto.
1) Diz que não se governa pelo retrovisor, não se olha para o passado.
2) E, num arroubo juvenil e "ALOPRADO" DIZ QUE A "BRIGA É BOA" se houver comparação entre os governos dele e atual, CONTRARIANDO TOTALMENTE a estratégia do PSDB, que é fugir do plebiscito, ou seja, do debate entre os dois modos de governar.
Ancelmo Góis sinaliza que Montenegro e o IBOPE "podem estar errados" e avisando que o Montenegro pode ficar sozinho nessa.
E, por último o Elio Gáspari (ainda não sabemos o chapéu que usa, como diz PHA) DESANCA o Serra, e me dá a certeza DEFINITIVA de que Dilma aparecerá em próxima pesquisa, à frente de Serra.
Para não perder o mote, nem dar o braço a torcer, a Veja trás uma reportagem de capa dizendo que o alagão de S. Paulo "é uma conjugação de fatores" e tenta, "salvar" o Serra.
O cenário está pronto. Vem aí uma pesquisa com Dilma na frente. E a "grande imprensa" vai começar a recolher o trem de pouso e amenizar os ataques. Afinal, podem ser tudo, menos burros.
Quem viver, verá!
Paulo Morani
6 de feveriero de 2010

ECONOMIA - Aprofundamento da crise da dívida.

Aprofundamento da crise da dívida
A renomeação de Bernanke: perigoso, muito perigoso

por Michael Hudson

Goya, 'O homem enfeitiçado', 1798, National Gallery, Londres. Clique a imagem para ampliar. Se a economia vier a deteriorar-se bruscamente em forma de L como muitos economistas prevêem, que preço político irão pagar o Presidente Obama e os Democratas por terem devolvido as chaves financeiras aos Republicanos nomeados por Bush que foram os primeiros a ceder terreno? Voltar a nomear Bem Bernanke como Presidente do Federal Reserve pode vir a prejudicar não apenas a economia mas também o Partido Democrata durante muitos anos. Reconhecendo isto, os Republicanos ganham pontos populistas opondo-se à sua renomeação durante as sessões de confirmação do Senado na passada quinta-feira, 27 de Janeiro – um dia depois do discurso de Obama sobre o Estado da União.

As sessões concentraram-se no papel do Fed enquanto principal grupo de pressão e desregulador de Wall Street. Apesar do facto de que o início da sua Carta o orienta para a promoção do pleno emprego e estabilização de preços, na prática o Fed é contra a força de trabalho. Alan Greenspan, como é conhecido, gabou-se de que o que tem levado à imobilidade dos sindicalistas, quando se trata de fazer greve por salários mais altos – ou mesmo por melhores condições de trabalho – é o medo de ser despedido e não poder cumprir os pagamentos das hipotecas e dos cartões de crédito. "A falta de um cheque para ficar sem casa", ou um crédito ultrapassado equivalente a juros altíssimos, tornou-se a fórmula para gerir a força de trabalho.

Quanto à tarefa que lhe cabe de promover a estabilidade de preços, a bolha do crédito fácil do Fed fez com que a via para a riqueza fosse a inflação dos preços dos activos, em vez do investimento de capital tangível. Isso encheu de contentamento os departamentos comerciais da banca, visto que os proprietários de casas, os consumidores, as empresas oportunistas, os estados e as localidades se endividaram cada vez mais na tentativa de melhorar a sua posição através do investimento em dívidas. Mas a economia negligenciou a sua base industrial e o emprego está ligado à produção. O lema do Fed desde o mestre das bolhas Alan Greenspan até Ben Bernanke tem sido "Inflação dos preços de activos, bom; inflação dos salários e dos preços dos bens de consumo, mau".

Reside aqui o problema com esta política. A subida dos preços da habitação aumentou o custo de vida e dos negócios, alargando o fosso entre o excesso do preço de mercado e os necessários custos sociais. Noutros tempos, o governo teria recolhido a receita crescente do imobiliário criada pelo aumento da prosperidade e pelo investimento público em transportes e outras infra-estruturas que tornaram determinados locais mais valiosos. Mas ultimamente os impostos diminuíram. Os terrenos continuam a custar tanto como sempre, porque o seu preço é estabelecido pelo mercado. O terreno em si não tem custo de produção. O valor da localização é criado pela sociedade, e deveria ser a base natural de tributação porque um imposto sobre o terreno não aumenta o preço do imobiliário; pelo contrário, fá-lo baixar deixando uma menor renda "livre" a ser paga aos bancos.

O problema é que a parte de que o cobrador de impostos abdica fica assim disponível para ser pago aos bancos como juros. E os potenciais compradores concorrem uns contra os outros até que o vencedor é aquele que for o primeiro a pagar aos bancos a renda da localização do terreno, sob a forma de juros.

Este desvio de impostos – em benefício dos banqueiros, e não dos proprietários das casas – fez com que a esperança de Obama em duplicar as exportações americanas durante os próximos cinco anos soem a falso. É este o resultado de "criar riqueza" sob a forma de uma bolha do mercado imobiliário alavancado pela dívida e do mercado de acções. A força de trabalho tem que pagar mais pela habitação e ensino financiado pela dívida, para não falar sobre os pagamentos aos oligopólios dos seguros de saúde e sobre os impostos sobre vendas e rendimentos mais elevados, aliviados dos ombros do capital financeiro e imobiliário.

Quando os Republicanos perceberam qual a direcção que o voto deveria tomar, puderam dar voz a algumas simpáticas declarações populistas para as eleições intermédias em Novembro próximo. Jeff Sessions do Alabama e Sam Brownback do Kansas votaram contra a confirmação de Bernanke. Jim deMint da Carolina do Sul alertou para que a sua renomeação seria "O maior erro que vamos fazer por muito tempo". E acrescentou: "Confirmar Bernanke é continuar as políticas que deitaram abaixo a nossa economia".

Entre os Democratas candidatos à reeleição, Barbara Boxer da Califórnia realçou que, ao estimular a inflação dos preços dos activos, a pró-Bolha (ou seja, a política pró-endividamento) do Fed estraçalhou a economia, reduzindo o emprego. O Fed devia proteger os consumidores, mas Bernanke é um opositor confesso da Agência dos Produtos Financeiros ao Consumidor, declarando que apenas o Fed, de forma desreguladora, devia ser o único regulador financeiro – o que parece ser um paradoxo.

Obama apoia Bernanke e o seu discurso sobre o Estado da União evitou notoriamente sancionar a Agência dos Produtos Financeiros ao Consumidor quando, anteriormente, tinha afirmado que essa agência iria ser a peça central da reforma financeira. Os lobistas de Wall Street deram-lhe a volta. A lógica deles foi a mesma fórmula mágica que o senador Chris Dodd, da indústria de seguros de Connecticut, repetiu nas sessões de confirmação: Bernanke "salvou a economia".

Como é possível dizer que o Fed fez isso quando o volume de endividamento está a aumentar exponencialmente para além da capacidade de pagar? "Salvar a economia" indo em socorro dos credores – acrescentando dívidas incobráveis privadas ao balanço do sector público – é sobrecarregar a economia, não é salvá-la. Esta política só adia a crise ao mesmo tempo que aprofunda o volume final de dívida que devia ser liquidada – e portanto muito mais difícil de liquidar, anulando um volume correspondente de poupanças do outro lado da folha de balanço (porque as poupanças de um lado são as dívidas do outro lado).

O que está de facto em causa é a filosofia económica que Bernanke vai aplicar durante os próximos quatro anos. Lamentavelmente, os contestatários de Bernanke esquecem-se de fazer perguntas pertinentes quanto às linhas desta política e à teoria económica ou lógica subjacentes a esta abordagem prática. O que devia ser abordado não era apenas a sua atitude desreguladora perante a Bolha da Economia e a explosão da fraude aos consumidores, nem sequer os erros que cometeu. O senador Republicano Jim Bunning só apresentou um sorriso amarelo e exibiu um ar contrito quando Bernanke apoiou o queixo na mão, como se quisesse dizer, "Vou ser paciente e deixar-vos falar". Os outros senadores quase pediram desculpas.

Uma descrição popular (e cuidadosamente enganadora) de Bernanke, que tem sido citada até ao enjoo para promover a sua renomeação, é que ele é um especialista quanto às causas da Grande Depressão. Se vamos criar um novo colapso, isso certamente ajudará a compreender esta última. Mas os historiadores económicos que compararam os escritos de Bernanke à história real chegaram à conclusão de que é precisamente a sua má interpretação da Depressão que o está a levar a repeti-la de forma trágica.

Enquanto apologista do "gotejamento" (trickle-down) [1] para a alta finança, o prof. Bernanke tem retirado sistematicamente conclusões falsas quanto às causas da Grande Depressão. O preconceito ideológico por detrás das suas opiniões é obviamente a razão principal que lhe valeu o seu cargo porque, como muitos observadores satirizaram, uma condição prévia para ser contratado como presidente do Fed é que não se perceba como funciona realmente o sistema financeiro. Em vez de reconhecer que um endividamento crescente, salários baixos e a canalização da riqueza para o topo da pirâmide económica foram as causas principais da Depressão, o prof. Bernanke atribui o problema principal simplesmente à falta de liquidez, que provocou a baixa de preços.

Conforme escreveu recentemente o meu colega australiano Steve Keen no seu Debtwatch no. 42 ( http://www.debtdeflation.com/blogs/ ), o processo contra Bernanke devia concentrar-se na sua abordagem neoclássica que esquece o facto de que o dinheiro é dívida. Ele encara o problema financeiro como sendo o de um nível de preços demasiado baixo para que os activos possam ser colateralizados para empréstimos bancários. E para Bernanke, "riqueza" é sinónimo do que os bancos vão emprestar, nas condições de crédito existentes.

Em 1933, o economista Irving Fischer (principal responsável da tautologia monetarista "moderna" MV = PT) [2] escreveu um artigo clássico, "A Teoria Dívida-Deflação da Grande Depressão", desmentindo a visão neoclássica que o levou a perder a sua fortuna pessoal no colapso do mercado de acções de 1929. Explicava como a incapacidade de pagar as dívidas estava a provocar bancarrotas, acabando com o crédito bancário e poder de consumo, encolhendo os mercados e consequentemente o incentivo para investir e empregar a força de trabalho.

Bernanke rejeita esta ideia, ou pelo menos a sua interpretação que parafraseia nos seus Ensaios sobre a Grande Depressão (Princeton, 2000, p. 24), conforme cita o prof. Keen:

No entanto a ideia de Fischer foi menos influente nos círculos académicos, por causa do contra-argumento de que a dívida-deflação não representava senão uma redistribuição de um grupo (devedores) para outro (credores). Na ausência, pouco admissíveis, de grandes diferenças nas tendências de despesas marginais entre os grupos, sugeria-se, as redistribuições puras não teriam efeitos macroeconómicos significativos.

Tudo o que um endividamento excessivo faz é transferir o poder de compra dos devedores para os credores. Nisto Bernanke faz lembrar Thomas Robert Malthus, cujos Princípios de Economia Política defendiam que os proprietários (a classe de Malthus) tinham necessariamente que manter um equilíbrio económico num modo parecido com os teóricos do 'trickle-down' ao longo dos tempos. O que seria do emprego inglês, argumentava Malthus, se os patrões não gastassem os seus rendimentos em cocheiros, roupas dispendiosas, mordomos e criados? Foram os gastos dos patrões a partir dos seus rendimentos de rendas (protegidos pelas tarifas agrícolas de Inglaterra, as Leis do Trigo, até 1846), que mantiveram o trabalho dos fabricantes de carroças e de outros fornecedores. E, pela mesma lógica, é o que os financeiros abastados de Wall Street fazem hoje com o dinheiro que ganham nos empréstimos, possibilitando que os proprietários de casas e os poupadores fiquem ricos conseguindo ganhos de capital com a inflação do preço dos activos.

A realidade é que os abastados financeiros de Wall Street, que ganham salários e bónus de multi-milhões de dólares, gastam o seu dinheiro em troféus: belas artes, apartamentos ou casas de luxo em condomínios privados, iates, carteiras de marca e alta moda, festas de aniversários com a participação de cantores pop da moda. ("Estou a ver os iates dos corretores de títulos; mas onde é que estão os dos seus clientes?") Não é este o tipo de despesas que reflecte o perfil de produção da economia "real".

Bernanke não vê qualquer problema, a não ser que os ricos gastem uma parte menor dos seus ganhos em bens de consumo e de produtos do trabalho do que os assalariados médios. Mas claro que esta tendência para consumir é precisamente o ponto que John Maynard Keynes realçou na sua Teoria Geral (1936). Quanto mais ricas as pessoas ficam, mais baixa é a proporção do seu rendimento que consomem – e mais poupam.

Esta tendência decrescente para consumir é o que preocupava Keynes quanto ao futuro. Achava que, quando as economias poupavam mais do que a subida dos seus níveis de rendimentos, iriam gastar menos em bens e serviços. Portanto a produção e o emprego não conseguiriam acompanhar o ritmo – a não ser que o governo se intrometesse para preencher o fosso.

Os gastos de consumo estão de facto a cair, mas não porque a economia estejam a assistir a uma taxa de poupança mais alta. A taxa de poupança americana caiu para zero – porque, apesar do facto de as poupanças brutas se manterem altas (cerca de 18 por cento), a maior parte é emprestada para se transformar em dívida de outras pessoas. O efeito é portanto uma lavagem com base numa economia alargada. (18 por cento de poupanças menos 18 por cento de dívidas = poupanças líquidas zero).

O problema é que trabalhadores e consumidores se afundaram cada vez mais em dívidas, poupando cada vez menos. Isto é exactamente o oposto do que Keynes previa. Só os 10 por cento mais ricos da população poupam cada vez mais – principalmente sob a forma de empréstimos aos "90 por cento de baixo". Mas poupar menos vai de mãos dadas com consumir menos, por causa das receitas que o sector financeiro extrai do fluxo circular da economia "real" (assalariados que gastam as suas receitas para comprar os bens que produzem) como serviço da dívida. O sector financeiro está envolvido na economia de produção-e-consumo. Portanto, a incapacidade de consumir faz parte integrante do problema da dívida. A base da política monetária em todo o mundo moderno devia ser pois como salvar as economias de se encolherem em resultado do seu alto endividamento de crescimento exponencial.

A apologia de Bernanke do capital financeiro: as economias parece necessitarem de mais dívida, e não de menos

Bernanke acha que o "decréscimo na procura total" é o factor dominante na Grande Depressão (p. ex, conforme citado por Steve Keen). Isto é verdade em qualquer depressão económica. Mas, na sua leitura, a dívida parece não ter nada a ver com a redução dos gastos dos bens que o trabalho produz. Assumindo o ponto de vista de um banqueiro, acha que o problema mais grave é a procura de acções e de imobiliário. Bernanke promete não deixar cair de novo a procura de activos (e, portanto, dos preços dos activos). O seu antídoto é inundar a economia com crédito como está agora a fazer, imitando a política de bolha de Alan Greenspan.

Os 10 por cento mais ricos da população, evidentemente, poupam a maior parte do seu dinheiro. Emprestam as poupanças – e criam novo crédito – aos outros 90 por cento de baixo, ou jogam em derivativos ou outras actividades de 'soma zero' [3] em que os seus ganhos (se, claro, os tiverem) encontram a sua contrapartida nas perdas de outras pessoas. O sistema mantém-se em andamento, não através das despesas do governo, ao estilo de Keynes, mas pela criação de novo crédito. Isso sustenta o consumo e, claro, o empréstimo para imobiliário, acções e títulos permite que os emprestadores aumentem os seus preços, permitindo que os seus possuidores contraiam mais empréstimos com base nesses activos. A economia expande-se – até que as receitas correntes deixem de cobrir os encargos decorrentes da dívida.

É isso que faz rebentar a Bolha da Economia. A inflação dos preços dos activos dá lugar à queda dos preços e a um património negativo do imobiliário e também a grande parte da alavancagem da dívida financeira. É neste sentido que Bernanke considera que a Depressão teve como causa os preços mais baixos. Quando os preços do imobiliário ou de outros colaterais mergulham, deixa de ser possível fazer mais empréstimos para manter em andamento o fluxo circular de empréstimo e reembolso da dívida.

O fluxo circular financeiro é muito diferente do fluxo circular que Keynes (e a Lei de Say) discutia – a circulação em que os trabalhadores e os seus empregadores gastavam os seus salários e lucros em bens de consumo e bens de investimento. O fluxo circular financeiro processa-se entre os bancos e os seus clientes. E este fluxo circular incha à medida que desvia cada vez maior quantidade de despesas do fluxo circular da economia "real" entre receitas e despesas. O capital financeiro aumenta em relação ao capital industrial. [i]

Os preços mais altos na economia "real" podem ajudar a manter o fluxo circular financeiro, dando mais receitas correntes aos que contraem empréstimos para pagar as suas hipotecas, empréstimos para estudos e outras dívidas. Assim, Bernanke considera que a desvalorização do dólar de Franklin Roosevelt ajudou a voltar a inflacionar os preços.

Mas actualmente um dólar em queda tornaria as importações (tanto matérias-primas como bens de consumo) mais caras. Isso iria comprimir os orçamentos da maior parte das famílias, dada a crescente dependência da América em relação às importações, visto que a sua economia está pós-industrializada e financiarizada. Portanto, a política preferida de Bernanke é levar os bancos a voltar a emprestar – não para que o governo gaste mais em despesas deficitárias em infra-estruturas, serviços sociais ou outros projectos de pleno emprego. As despesas governamentais que Bernanke patrocinou são puras operações de salvamento dos bancos, companhias de seguros, especuladores de imobiliário e outras instituições de Wall Street para que elas possam estimular os preços dos activos e dessa forma salvar o balanço financeiro da economia, e não o emprego e o nível de vida.

Portanto um maior endividamento não é o problema, na perspectiva do presidente Bernanke. É a solução. É isto que torna tão perigosa a sua renomeação.

A desvalorização do dólar ao estilo de Roosevelt tornaria o imobiliário, as empresas e outros activos americanos mais baratos para os investidores globais. Teria pois os mesmos efeitos "positivos" (se é que é um efeito "positivo" tornar as casas e os edifícios de escritórios mais custosos para os compradores) do que o aumento do crédito – e sem que seja necessário eliminar o serviço da dívida da economia. Esta política é parecida com o programa de austeridade e de "estabilização" do Fundo Monetário que tem causado tanta destruição nas últimas décadas. [ii] É a política que está a ser preparada para ser imposta aos Estados Unidos. É isto também que torna a renomeação de Bernanke tão perigosa.

O problema é uma mistura da perigosa leitura errada de Bernanke da história económica, e a perspectiva de banqueiro que está subjacente a essa leitura – que ele agora foi mandatado para impor do seu poleiro de planificador central no Federal Reserve Board. O apoio do Presidente Obama à sua renomeação sugere que a recente retórica económica ouvida na Casa Branca é um falso populismo. O Presidente promete que desta vez vai ser diferente. Os antigos nomeados por Bush – Geithner, Bernanke e os gestores da Goldman Sachs emprestados ao Tesouro – estarão dispostos a defender a Golden Sachs e os outros banqueiros. E desta vez os rapazes 'rubinomics' [4] da era de Clinton não vão fazer à economia dos EUA o que fizeram à União Soviética.

Com esta postura, não admira que os Democratas de Obama estejam a abrir mão da carta populista anti-Wall Street a favor dos Republicanos!

O estorvo Bernanke

Bernanke esquece-se do problema de que as dívidas têm que ser pagas – ou pelo menos renegociadas. Este serviço da dívida deflaciona a economia "real" não financeira. Mas a análise do Fed pára mesmo antes do colapso. É uma teoria de "boas notícias" limitada ao período de tempo feliz em que a bolha está a aumentar e os proprietários de casas vão pedindo aos bancos mais e mais empréstimos para comprar casas (ou mais rigorosamente os seus terrenos) que estão a subir de preço. Foi essa a bolha Greenspan-Bernanke em poucas palavras.

Não é preciso olhar para tão longe como a Grande Depressão. O Japão, a partir de 1990, é um bom exemplo. Os preços dos terrenos caíram todos os trimestres durante mais de 15 anos depois de a bolha rebentar. O Banco do Japão fez o que o Federal Reserve está agora a fazer. Baixou as taxas de empréstimo aos bancos para menos de 1%. Os bancos "conseguiram a sua saída da dívida" emprestando a especuladores globais que trocaram os empréstimos em ienes por divisas estrangeiras e compraram activos de rendimento mais alto no estrangeiro – sobretudo títulos do governo islandês que rendiam 15% e meteram ao bolso a diferença de câmbio.

Esta conversão contínua de dinheiro especulativo a partir do iene em divisas estrangeiras fez baixar a taxa de câmbio do Japão, ajudando os exportadores. Da mesma forma hoje, a política de juros baixos do Fed leva os bancos americanos a contrair empréstimos e a emprestar aos intermediários comprando títulos de rendimento mais alto ou outras garantias designadas em euros, libras esterlinas e outras divisas.

O problema do câmbio externo surge quando estes empréstimos são reembolsados. No caso do Japão, quando os mercados financeiros globais entraram em baixa, e as taxas de juro japonesas começaram a subir em 2008, os intermediários decidiram inverter a sua posição. Para reembolsar os ienes que tinham pedido emprestado aos bancos japoneses, venderam títulos denominados em euros e dólares e compraram divisas japonesas. Isto forçou a subida da taxa de câmbio do iene – erodindo a competitividade de exportação e lançando o caos na economia. O Partido Democrático Liberal, que há muito governava, foi corrido do poder quando o desemprego alastrou.

No caso actual dos EUA, o regime de taxas baixas de juros do presidente Bernanke no Fed estimulou um comércio denominado em dólares avaliado em US$1,5 milhões de milhões. Os especuladores contraíram empréstimos de dólares a juros baixos e compraram títulos de divisas estrangeiras de juros altos. Isto enfraquece a taxa de câmbio do dólar em relação às divisas estrangeiras (cujos bancos centrais estão a aplicar taxas de juro mais altas). O dólar enfraquecido leva a que os gestores de dinheiro dos EUA façam sair mais fundos de investimento da nossa economia em busca desses promissores lucros do mercado de acções assim como de um lucro em divisas estrangeiras.

A perspectiva de desfazer esta criação de crédito ameaça encurralar os Estados Unidos numa ratoeira de juros baixos. O problema é que, se e quando o Fed começar a aumentar as taxas de juro (por exemplo, para abrandar a nova bolha que Bernanke está a tentar alimentar), os especuladores globais vão reembolsar as suas dívidas em dólares. Quando for invertida a situação nos EUA, o dólar vai aumentar rapidamente de preço. Isso ameaça fazer da promessa de Obama em duplicar as exportações americanas dentro de cinco anos um sonho impossível.

A perspectiva para os consumidores americanos é serem atingidos por uma tripla ameaça. Têm que pagar preços mais altos pelos bens que compram, quando o dólar cai, tornando as importações mais caras. E o governo irá gastar menos no fluxo circular da economia em consequência do congelamento de despesas por três anos do presidente Obama para abrandar os défices orçamentais. Entretanto, os estados e as cidades estão a aumentar os impostos para equilibrar os seus próprios orçamentos à medida que as receitas dos impostos caem. Os consumos e, claro, toda a economia tem que mergulhar mais profundamente no endividamento para acabar por ficar na mesma (ou então assistir à degradação do nível de vida).

Para Bernanke, a recuperação económica exige que se ressuscite o polvo [5] Goldman Sachs que Matt Taibbi descreveu tão engenhosamente como estando colada no rosto da humanidade, devidamente protegida pelo Fed. Os bancos emprestarão mais para manter a pirâmide da dívida a aumentar para que os consumidores, os negócios e os governos locais evitem a contracção.

Tudo isto enriquece os bancos – enquanto as dívidas puderem ser pagas. E se não puderem ser pagas, irá o governo em socorro deles mais uma vez? Ou desta vez "será diferente"?

Irá a nossa economia debater-se por causa da renomeação de Bernanke enquanto os ricos ficam mais ricos e as famílias americanas ficam sob uma pressão financeira crescente à medida que as receitas descem e as dívidas crescem exponencialmente? Ou sairão os americanos mais ricos da nova bolha quando o Fed voltar a inflacionar os preços dos activos?

A via para a servidão da dívida

Na semana passada, o senador John Kerry de Massachusetts reconheceu a fúria de muitos americanos por causa das operações de salvamento dos grandes bancos. "É compreensível que exista um debate, interrogações e até fúria" quanto à renomeação de Bernanke. "No entanto", acrescentou, "depois desta quase calamidade, acho que o presidente Bernanke exerceu uma liderança que foi urgente, inteligente, forte e vital para afastar um desastre maior".

Lamentavelmente, por "desastre" o senador Kerry parece querer significar as perdas para Wall Street. Partilha com o presidente Bernanke da ideia de que os ganhos decorrentes da subida de preços dos activos são bons para a economia – por exemplo, possibilitando os fundos de pensões a pagar aos reformados e "construir riqueza" para os poupadores americanos.

Enquanto a equipa Bush-Obama espera voltar a inflacionar a economia, os 13 milhões de milhões de dólares da operação de salvamento que gastou tentando alimentar a bolha destrutiva assumem a forma de economia de gotejamento ('trickle-down'). Não desencadearam a dívida pública do tipo keynesiano, com o governo a gastar o mesmo valor no modesto pacote "Estímulo" para aumentar o emprego e as receitas. E não está a proporcionar melhores serviços públicos. Foi destinado apenas a inflacionar os preços dos activos – ou mais rigorosamente, a impedir que eles caíssem.

É isto que significa a renomeação do presidente do FED. Significa uma política destinada a aumentar os preços das casas a crédito, com uma correspondente subida na receita dos consumidores paga aos banqueiros como amortização do serviço de dívida.

Entretanto, a subida dos preços de acções e títulos vai fazer aumentar o preço da compra de um rendimento de reforma. Um preço de acções mais alto significa a obtenção de um dividendo mais baixo. O mesmo acontece com os títulos. Inundar os mercados de capital com crédito para aumentar os preços dos activos faz baixar os lucros dos activos dos fundos de pensões, empurrando-os para o défice. Isto permite que os gestores das empresas ou companhias inteiras, tipo General Motors, fiquem ameaçados pela insolvência dos seus planos de pensões se os sindicatos não renegociarem os seus contratos de pensões para valores mais baixos. Isso ainda "liberta" mais dinheiro para os gestores financeiros pagarem a credores que estão no topo da pirâmide económica.

A oposição de Bernanke à regulamentação de Wall Street

Como é que se ultrapassa esta polarização financeira? A solução aparentemente óbvia é escolher administradores para o Fed e para o Tesouro fora das fileiras dos ideólogos apoiados – aplaudidos mesmo – por Wall Street. A criação de uma Agência de Produtos Financeiros do Consumidor, por exemplo, deixará de ter sentido se for um anti-regulador como Bernanke a dirigi-la. Mas é isso precisamente o que ele está a pedir quando declara que o seu Fed devia ser a única agência reguladora, invalidando os esforços de todas as outras – não vá uma qualquer agência estatal, uma agência federal ou qualquer comissão do Congresso resolver proteger os consumidores contra o empréstimo fraudulento, honorários exorbitantes e penalizações e taxas de juro usurárias.

A luta de Bernanke contra as propostas para essas agências reguladoras a fim de proteger os consumidores do empréstimo predatório é pois uma segunda razão para não o renomear. Como pode Obama fazer campanha a favor da sua renomeação para presidente do Fed e ao mesmo tempo apoiar a agência de protecção ao consumidor? Sem nos vermos livres de Bernanke e Geithner, não interessa o que diz a lei. Os Democratas aprenderam com as administrações de Bush e Reagan que basta nomear desreguladores para as posições chave e as garras legais passam a ser irrelevantes.

A independência do Federal Reserve é um eufemismo para oligarquia financeira.

Isto arrasta a terceira premissa que os defensores de Bernanke citam: a tão gabada independência do Federal Reserve. Que supostamente serve para salvaguarda da democracia. Mas o Fed devia estar sujeito à democracia representativa, em vez de ser independente dela! Devia fazer parte do Tesouro representando o interesse nacional em vez dos interesses de Wall Street.

Isto apareceu como um importante problema com o sistema de dois partidos políticos na América. Tal como a equipa Republicana, a administração Obama também põe os interesses financeiros em primeiro lugar, com a premissa de que a riqueza decorre das suas actividades de crédito, o enquadramento do tempo financeiro tende a ser a curto prazo e economicamente corrosivo. Apoia o crescimento do endividamento geral à custa da economia "real", tomando assim uma posição de política anti-força de trabalho, anti-consumidora e anti-devedores.

Por que razão o sector mais importante das economias modernas – a finança – tem que ser independente do processo eleitoral? Isto é tão mau como tornar o poder judicial "independente", o que acaba por ser um eufemismo para extrema direita.

A bem dizer, para além e acima da questão da independência, está o problema de que o próprio governo está a ser dominado pelo sector financeiro. O secretário do Tesouro, o presidente do Fed e outros administradores financeiros estão subordinados aos conselhos de Wall Street e ao seu consentimento, primeiro e acima de tudo. O poder do lobby torna difícil defender os interesses públicos, conforme vimos pela posição de Paulson e de Geithner. Não acredito que Obama ou os Democratas (para não falar dos Republicanos) estejam sequer perto de chegar à situação de resolver este problema. A única coisa que podemos fazer é lamentar a repetição que Obama faz das suas preferências.

Aliada à questão da "independência" há uma quarta razão para rejeitar Bernanke pessoalmente: o secretismo do Fed em relação à fiscalização do Congresso, realçada pela sua recusa em divulgar os nomes dos destinatários das dezenas de milhares de milhões das operações de salvamento do Fed e permutas de lixo tóxico.

Que é que importa?

Agora que foram rejeitados os argumentos de confirmação contra a renomeação de Bernanke, o que é que isso significa para o futuro?

Na frente política, a sua renomeação está a ser citada como mais uma prova de que os Democratas se preocupam mais com os banqueiros do que com as famílias americanas e com os trabalhadores. Por consequência, isso vai bastar para o que parecia impensável há um ano: possibilitar aos candidatos do Partido Republicano assumir a pose de salvadores tipo Roosevelt da classe média em pé de guerra. Sem dúvida mais uma década de falhanço económico abjecto do Partido Republicano fará apenas com que os Democratas corporativos apareçam mais uma vez como única alternativa. E assim continuará… a não ser que façamos alguma coisa.

O problema não é só que Bernanke não tenha feito o que a carta do Fed impõe fazer-se: promover o emprego num ambiente de preços estáveis. Os Republicanos – e alguns Democratas – lêem pela mesma cartilha de que Bernanke abusa. O Fed podia ter elevado as taxas de juro para abrandar a bolha. Não o fez. Podia ter feito parar a fraude de hipotecas por atacado. Não o fez. Podia ter protegido os consumidores limitando as taxas dos cartões de crédito. Não o fez.

Para Bernanke, tem que se manter o actual sistema financeiro (ou melhor, o endividamento geral) para que a redistribuição da riqueza para o topo possa continuar. O Serviço de Investigação do Congresso calculou que desde 1979 a 2003 o rendimento da riqueza (rendas, dividendos, juros e ganhos de capital) para o 1 por cento do topo da população disparou de 37,8% para 57,5%. Esta receita tem sido espoliada aos trabalhadores americanos empurrados para o triturador da dívida perante salários estagnados.

Entretanto, o governo permite que se forme uma portagem corporativa na nossa economia – e não lança impostos sobre estas receitas para que possam ser capitalizadas em riqueza financializada pagando apenas um imposto de 15% sobre os ganhos de capital. Estes impostos não são pagos à medida que estes lucros se acumulam, mas apenas se e quando eles se realizam. E o imposto nem sequer tem que ser pago se os lucros das vendas desses activos forem reinvestidos! A política financeira e fiscal reforça-se pois uma à outra num modo que polariza a economia entre o sector financeiro e a economia "real".

Por detrás destas más políticas há um corpo inquietante de teoria económica lixo – uma economia que, infelizmente, é ensinada na maior parte das universidades actuais. (Não na Universidade do Missouri em Kansas City e em algumas outras, é preciso que se diga). Bernanke considera o dinheiro como fazendo parte duma equação oferta e procura entre dinheiro e preços – e aqui refere-se apenas aos preços no consumidor, e não aos preços dos activos que o Fed se esqueceu de referir. É uma parte importante do buraco negro do Fed: Greenspan e Bernanke acharam que a carta do Fed se referia apenas à estabilização dos preços no consumidor e dos salários – enquanto que os preços dos activos – o custo de obter uma casa, um curso ou um rendimento de reforma – dispararam em consequência da alavancagem da dívida.

O que falha em Bernanke – tal como com os seus colegas neoclássicos – é que o dinheiro que é gasto no aumento dos preços também é dívida. Isso significa que deixa uma herança de dívida. Quando os bancos "fornecem crédito" subscrevendo empréstimos, o que estão a vender é dívida.

A pergunta que os seus departamentos de marketing fazem é, qual a dimensão do mercado para a dívida? Quando fui trabalhar para o Chase Manhattan em 1967 como analista do departamento de balanço, por exemplo, estabeleci ligação com o departamento de marketing para calcular qual era a dimensão do mercado internacional de dívida – e qual a dimensão da quota desse mercado que o banco podia razoavelmente esperar obter.

O banco quantificou o mercado de dívida medindo até que ponto os emprestadores de excedentes podiam pressionar para além das necessidades básicas. Para empréstimos pessoais, a analogia foi, quanto é que um assalariado podia pagar ao banco depois de satisfazer as necessidades básicas (renda, alimentação, transportes, impostos, etc.). Para o departamento de imobiliário, quanto das receitas líquidas podia pagar o dono de um terreno, depois de pagar o combustível e outros custos operacionais e impostos? O excedente calculado das receitas foi capitalizado num empréstimo. Do ponto de vista privilegiado do departamento de marketing, os bancos estavam dispostos a absorver todo o excedente como serviço de dívida.

O serviço de dívida financeiro não é gasto em bens de consumo. É reciclado em novos empréstimos, depois de pagar os dividendos aos accionistas e os salários e bónus aos seus gestores. Os accionistas gastam o dinheiro a comprar outros investimentos – mais acções e títulos. Os gestores compram troféus – iates, obras de arte, carros luxuosos, apartamentos luxuosos (cujo principal valor é a sua localização – o bairro em que se situa o terreno), viagens ao estrangeiro e outras coisas luxuosas. Nenhuma destas despesas tem grande efeito sobre o índice dos preços ao consumidor, mas afecta os preços dos activos.

Esta ideia está em falta na teoria neoclássica e monetarista. Uma vez gasto o "dinheiro" (ou seja, a dívida), isso tem um efeito nos preços através da procura e da oferta e pronto. Não há dinâmica ao longo do tempo de dívida ou riqueza. Desde que o marxismo empurrou a economia política clássica para a sua conclusão lógica nos finais do século XIX, a ortodoxia económica ficou traumatizada em tratar da riqueza e da dívida. Por isso faltam as relações de balanço no currículo económico académico. Foi por isso que deixei de ensinar teoria económica em 1972, até que a UMKC [Universidade de Missouri-Kansas City] desenvolveu um currículo alternativo ao do monetarismo da Universidade de Chicago, focando a criação da dívida e o reconhecimento de que os empréstimos bancários criam depósitos, invertendo a habitual teoria "austríaca" e outras teorias do universo individualista paralelo.

Notas
[i] Elaborei a lógica com mais pormenor em "Saving, Asset-Price Inflation, and Debt-Induced Deflation", in L. Randall Wray and Matthew Forstater, eds., Money, Financial Instability and Stabilization Policy (Edward Elgar, 2006):104-24. E explico como a recente expansão de crédito e facilidade das condições de empréstimo alimentaram a bolha do imobiliário em "The New Road to Serfdom: An illustrated guide to the coming real estate collapse," Harpers, Vol. 312 (No. 1872), May 2006):39-46.
[ii] Explico o funcionamento destes planos com mais pormenor em Super Imperialism: The Origin and Fundamentals of U.S. World Dominance (1972; nova ed., 2002), "Trends that can't go on forever, won't: financial bubbles, trade and exchange rates," em Eckhard Hein, Torsten Niechoj, Peter Spahn and Achim Truger (eds.), Finance-led Capitalism? (Marburg: Metropolis-Verlag, 2008), e Trade, Development and Foreign Debt: A History of Theories of Polarization v. Convergence in the World Economy (1992, nova ed. 2009).

N.T.
[1] 'economia do gotejamento (trickle-down)' é um termo de retórica política que se refere à política de proporcionar cortes de impostos ou outros benefícios aos negócios na crença de que isso beneficiará indirectamente a população em geral.
[2] MV = PT, em que
M é a quantidade de dinheiro disponível na economia para transacções
V é a velocidade de circulação, ou seja, número de vezes que o total do dinheiro muda de mãos em transacções durante um determinado período de tempo
P é o nível de preços
Q é o número de transacções
[3] Soma zero (zero sum) – situação em que o ganho (ou perda) de um participante é compensado rigorosamente pela perda (ou ganho) do(s) outro(s) participante(s).
[4] Rubinomics (Rubin+economics) – política económica de Clinton e Robert Rubin, antigo secretário do Tesouro; sublinha o efeito que o equilíbrio do orçamento do governo tem sobre as taxas de juro a longo-prazo
[5] "A primeira coisa que é preciso saber sobre o Goldman Sachs é que ele está em toda a parte. O banco de investimentos mais poderoso do mundo é um grande polvo vampiro colado no rosto da humanidade, comprimindo incessantemente as suas ventosas contra tudo o que lhe cheire a dinheiro" (Matt Taibbi, "The Great American Bubble Machine")


O original encontra-se em http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=17346 . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

domingo, 7 de fevereiro de 2010

COLÔMBIA - O indecoroso Uribe.

Do BLOG DIRETO DA REDAÇÃO.

Publicada em:07/02/2010

O INDECOROSO URIBE



Passou despercebida pela mídia conservadora brasileira a proposta do Presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, de contratar e remunerar estudantes como informantes. Ou seja, Uribe quer oficializar os dedos-duros, como acontecia em épocas de ditaduras na área do Cone Sul. Trata-se, sem dúvida, de uma proposta indecorosa e que viola a dignidade dos estudantes, além de colocar em risco a própria segurança.

Uribe é o dirigente preferido dos Estados Unidos no continente americano. Tudo que é pedido pelo Departamento de Estado o presidente colombiano atende prontamente. Acabou de ceder sete bases militares ao Pentágono. Ele conta com o apoio substancial dos grandes órgãos de imprensa latino-americanos, que preferem ignorar o quadro de deterioração dos direitos humanos naquele país sul-americano.

Como se tudo isso não bastasse, há informações procedentes de Bogotá de que grupos paramilitares estão se reagrupando e se preparando para voltar a matar generalizadamente. A Colômbia bate recordes em matéria de desrespeito aos direitos humanos no continente, inclusive com assassinatos impunes de dirigentes sindicais em várias regiões do país.

Mas a mídia conservadora prefere dar destaque, não à Colômbia, mas a vizinha Venezuela, onde, se dependesse do noticiário diário dos grandes jornais e TVs brasileiros, o presidente Hugo Chávez já teria caído. Há até colunistas que defendem um golpe militar e vaticinam, com base em hipóteses sem sustentação na realidade, uma grande derrota dos partidários de Chávez nas eleições parlamentares de setembro. Em anos anteriores, as previsões não eram muito diferentes. Na última eleição, no entanto, prevendo fiasco nas urnas, a oposição, visivelmente estimulada pelo Departamento de Estado norte-americano, decidiu não participar do pleito, o que resultou numa vitória absoluta dos chavistas.

Nessa estratégia midiática se insere o silêncio quase total da informação segundo a qual das seis estações de TV a cabo suspensas pelo Estado venezuelano, cinco já tiveram autorização para voltar porque cumpriram rigorosamente as disposições legais. Falta ainda a RCTV a cabo responder ao Conselho de Comunicação. Mas a mídia, agrupada na Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), prefere insistir na tese de que o governo venezuelano viola o direito da liberdade de imprensa.

Para se ter uma idéia, no dia 1 de março, em São Paulo, um Instituto de nome Millenium estará organizando um seminário com a participação do proprietário da RCTV, Marcel Granier e a fina flor da direita midiática nacional. Lá estarão, entre outros, Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, o opusdeista Carlos Alberto di Franco, tendo como mediadores, os globais William Waack, Tonico Ferreira e Luis Erlanger.

Podem imaginar o que vem por aí em matéria de manipulação da informação e propaganda antichavista, como se fosse uma grande e única verdade?

E voltou à tona a compra de caças para a FAB. A jornalista Eliane Catanhede anunciou na Folha de S. Paulo que o governo Lula bateu o martelo com a aquisição dos caças franceses Rafale. Poucas horas depois o Ministro Nelson Jobim desmentia a informação, da mesma forma que a própria FAB.

Os leitores devem se lembrar que há poucas semanas, jornais como O Globo, a Folha de São Paulo etc previam mais uma “crise militar” porque um suposto relatório da Força Aérea Brasileira dava prioridade a outros modelos.

Poucos dias antes, os mesmos jornais e canais de TV, davam com grande estardalhaço a certeza de que o descontentamento na área militar com o Plano Nacional dos Direitos Humanos tinha gerado uma crise no setor. A “crise militar” fabricada não aconteceu, mas poucos cobraram as barrigas do conservadorismo midiático.

É importante acompanhar com atenção o noticiário dos meios de comunicação conservadores, principalmente agora que no Brasil começa uma nova campanha presidencial para eleger o sucessor de Luiz Inácio Lula da Silva. Pode-se imaginar o que vem por aí em matéria de manipulação da informação, tanto em âmbito interno como externo.

POLÍTICA - O FHC é o maior eleitor da Dilma.

Do BLOG DO EDUARDO GUIMARÃES.

Por que FHC não se cala

Mais uma vez ele veio a público e trouxe de volta as lembranças daqueles anos de penúria que ainda fazem os brasileiros estremecerem. FHC, em artigo publicado no Estadão deste domingo, diz que não tem medo de comparar sua gestão com a de Lula.

O que importa ao país, no entanto, não é a versão dele dos fatos, mas por que o ex-presidente continua se fazendo lembrar por essa maioria avassaladora da sociedade que discorda dele e que comprovadamente acha que o atual governo é muito melhor do que o seu.

Pesquisa CNT/Sensus divulgada em 23 de dezembro do ano passado revelou que 76% dos brasileiros acham que os sete anos do governo Lula são melhores do que os oito anos do governo FHC. A pesquisa ocorreu entre os dias 16 e 20 de novembro e entrevistou 2 mil pessoas, com margem de erro de 3%.

Já FHC, em seu artigo, elenca supostos êxitos de sua administração dos quais a sociedade desdenha de forma tão decidida em pesquisa de opinião e em duas eleições presidenciais.

Surge, assim, uma questão: por que o ex-presidente não se cala e pendura as chuteiras? A cada vez que se manifesta, joga seu governo desastroso sobre os ombros de seu sucessor não só como ideólogo, mas como ídolo de ricaços, de artistas, de acadêmicos e de empresários (sobretudo de mídia) do Sul e do Sudeste.

Esse herdeiro de FHC é o governador José Serra. Ele e o ex-chefe (de quem foi ministro em dois ministérios distintos, o do Planejamento e o da Saúde) continuam sendo a antítese de Lula, e para sorte do governador muitos não se lembram disso.

Aliás, sobre a imagem de Serra no imaginário popular boa parte dos que dizem que poderão votar nele para presidente acham que é o candidato de Lula, conforme detectou pesquisa Vox Populi divulgada no fim de janeiro.

Em quadro tão adverso, FHC não se cala por que?

Vaidade, por exemplo. Acredito que o ex-presidente, que carregou durante a vida de acadêmico um orgulho intelectual imenso e uma visão meio Bóris “escala do trabalho” Casoy da realidade, preferiria a morte a reconhecer que um operário sem curso superior pudesse suplantar a nata da sociedade.

Deve-se entender também, nesse contexto, a fidelidade de Serra ao ex-chefe. Ele tampouco pode aceitar que um governo do qual foi ministro em duas pastas distintas, e por ter sido um dos seus principais artífices, seja considerado tão inferior ao governo do operário.

No caso de Serra, não se trata nem de orgulho. Tendo integrado um governo que a sociedade considera em tão larga escala que fracassou, fica difícil pedir que o povo o escolha presidente em lugar de uma integrante de um governo que quase todos consideram que está sendo muito melhor.

FHC não se cala sobretudo porque ainda não se deu conta de quão duro foi o período da história em que governou o Brasil. E Serra, mesmo rezando para o ex-chefe se calar, acha que tevês, rádios, jornais e revistas poderão fazer com que seja esquecido o sofrimento de parcela tão expressiva da sociedade naquela época.

POLÍTICA - As inquietaçôes das oposições.

Do BLOG DO NASSIF

O Romério mandou uma dica de artigo do Marcos Coimbra, que saiu hoje no Estado de Minas. Como exigia senha, fui pelo Google e acabei publicando outro. Aqui o artigo sugerido.

Jornal Estado de Minas

Marcos coimbra

Inquietação nas oposições
“Existe exemplo maior que Aécio ser apresentado como vice de Serra a toda hora? Apenas para que ele o desminta? Apenas para que Serra se fragilize, seja percebido como alguém que só tem chance se Aécio for seu vice?”

Estamos vivendo, neste começo de ano, um período de inquietação dentro das oposições. Seja em seus representantes políticos e nas lideranças da sociedade civil que se alinham com elas, seja na parcela da opinião pública que não gosta do governo, é nítida a perplexidade. As coisas não estão acontecendo como esperavam.

Ao lado daqueles que nunca o aceitaram, Lula passou a ter, nos últimos anos, uma aprovação quase que a contragosto, característica da classe média com alguma informação. Na maior parte das vezes, vinda de pessoas que jamais votaram nele, sequer no segundo turno de 2006, mas que se viam como que constrangidas a concordar que seu governo tem lá alguns méritos.

Talvez se sentissem fora de lugar, quando eram informadas dos recordes de popularidade que Lula batia a cada pesquisa. Talvez colocassem em dúvida suas próprias antipatias, ao saber que nunca antes, na história deste país, um presidente brasileiro fez tanto sucesso mundo afora.

Daí a aceitar que ele fosse capaz da proeza de eleger alguém como Dilma, no entanto, a distância é grande. Uma coisa é reconhecer, ainda que com várias ressalvas, suas qualidades, outra é se conformar com a possibilidade de ele continuar a ser o que é por mais alguns anos.

Ou seja, enquanto perdurou, entre essas pessoas, a sensação de que o fim do lulismo estava próximo, o cenário podia ser complicado, mas era suportável. Tudo de que desgostavam ainda existia, mas tinha data marcada para acabar.

A larga vantagem de Serra nas pesquisas funcionou como uma espécie de seguro de que a hegemonia de Lula na política brasileira, com tudo que dela decorre, não continuaria. Lendo-as apressadamente, muita gente ficou com a impressão de que Dilma estava fadada a perder a eleição. Alguns foram ao ponto de assegurar que isso já estava definido, o que soou como música para os desafetos do governo, mas não era verdade.

Nenhuma pesquisa nunca disse isso. Ao contrário, todas sempre apontaram o largo potencial de crescimento da ministra, que permanecia atrás nas intenções de voto apenas por ser menos conhecida do que alguns dos outros candidatos e ainda pouco associada a Lula e à ideia de continuidade.

Enquanto Dilma estava “empacada”, distante de Serra, superada por Ciro, perdendo para Heloísa Helena e Aécio, as oposições não viram motivos para se inquietar. Cada pesquisa nova era recebida com alegria, como se decretasse que a “transferência de Lula para Dilma” era balela, um cálculo político mal feito, fruto da onipotência presidencial.

Agora, no entanto, depois da divulgação das primeiras pesquisas feitas em 2010, o panorama mudou. Nos meios políticos, a discussão deixou de ser a respeito de se Lula vai ou não precisar de um plano B e passou a ser sobre quando Dilma assumirá a dianteira.

Essa mudança de cenário provoca reações compreensíveis nas oposições, nelas incluída a mídia simpática às suas lideranças e propostas. Como tudo na eleição de 2010, também o recrudescimento do debate, típico do clima de reta final de campanha, está sendo antecipado. Os ataques continuados e não-justificados ao Bolsa-Família são um exemplo.

Talvez tenha sido Lula quem puxou a fila da incivilidade na campanha, mas, muito provavelmente, fez isso de caso pensado. Ao polemizar em tom agressivo com as oposições, ele torna mais difícil para elas poupá-lo de suas críticas e concentrar o fogo em Dilma.

Fazendo o oposto do que fazem alguns governantes, que se orgulham de posar como magistrados e preferem se colocar “acima” da disputa eleitoral, Lula sobe no palanque (quem não o faria, sabendo que é aprovado por mais de 80% da população?). Assim, reitera que a oposição tem que alvejá-lo, coisa que ela preferiria não ser obrigada a fazer.

Enquanto Lula dá mostras de estar a cada dia mais tranquilo, as inquietações da oposição fazem com que ela se confunda e emita sinais errados para a opinião pública. Existe exemplo maior que Aécio ser apresentado como vice de Serra a toda hora? Apenas para que ele o desminta? Apenas para que Serra se fragilize, seja percebido como alguém que só tem chance se Aécio for seu vice?

POLÍTICA - Dilma diz que vai comparar gestões.

Do BLOG "TERROR DO NORDESTE"

Dilma rebate o boca de sovaco FHC e diz que vai comparar gestões


R7 em Brasília.

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, respondeu neste domingo (7) as criticas feitas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo. No texto, o tucano diz não temer comparações entre o seu governo e de Luiz Inácio Lula da Silva.


Para Dilma, a comparação é saudável para que se possam escolher os caminhos a seguir.

- A comparação, quando se trata de a gente escolher caminhos, é sempre boa. Para escolher qual caminho percorrer daqui para frente, eu olho para o lado. […] Comparar não é ficar olhando pelo retrovisor, é ver para qual caminho eu vou.

Aos gritos de “Dilma presidente” durante evento do PT em Brasília, a pré-candidata à sucessão presidencial afirmou que o governo atual vai continuar discutindo “quem fez o que e quem fará o que”.

- Antes, a gente ia com o pires na mão falar com o sub do sub do sub do FMI [Fundo Monetário Internacional]. Antes, dizia-se que o governo brasileiro era parte do problema. Agora, não vamos dizer que é parte da solução?

O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que acompanhou Dilma no evento, disse que essa não será a primeira vez que o PT disputará uma eleição comparando mandatos de Lula e de FHC. Isso, segundo ele, ocorreu nas eleições de 2006.

- Comparamos os governos, mas também olhamos para frente. O Brasil encontrou um rumo, encontrou um caminho, e é esse o caminho que queremos debater. Quem tiver um projeto alternativo tem que mostrar. Por enquanto não mostraram o que querem fazer, então a gente compara com aquilo que fizeram.

No artigo publicado hoje, FHC antecipa o embate PSDB-PT que acontecerá durante a campanha eleitoral e diz que a briga deverá ser boa. “Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer”, diz.

ANOS DE CHUMBO - O "camaleão" que levou Olívio Dutra à cadeia.


Os infiltrados. O camaleão que levou Olívio Dutra à cadeia

Duas décadas e meia após o fim do período militar, agentes do governo revelam como se disfarçavam para se misturar aos opositores do regime e vigiá-los. Ao longo da semana o jornal Zero Hora vem publicando uma série de reportagens intitulada “Os infiltrados”. Na edição de hoje, o jornal apresenta o caso do policial federal Telmo Fontoura que passou-se por sindicalista e promoveu a prisão de líderes grevistas.

A reportagem é de Carlos Etchichury, Carlos Wagner, Humberto Trezzi e Nilson Mariano e publicado pelo jornal Zero Hora, 03-02-2010.

Às 14h15min de quinta-feira, 6 de setembro de 1979, Olívio Dutra sobe ao palco do auditório Araújo Vianna, segura o microfone com a mão direita e desafia a ditadura militar ao falar para cerca de 800 manifestantes:

– Ignorando as justas reivindicações dos bancários, os banqueiros, mais uma vez, agem com a contumaz arrogância e insensibilidade aos problemas da classe. A greve tem de ser mantida até a vitória final. Piquetes devem ser organizados em frente aos bancos que continuam funcionando.

Menos de uma hora mais tarde, o discurso de Olívio, transcrito num “relatório de missão”, aterrissa na mesa do delegado Carlos Alberto Alves da Costa, responsável pela Delegacia da Ordem Política e Social (Dops) da Polícia Federal no Estado. Às 22h30min, Olívio, presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, é preso, a diretoria da entidade, destituída, e a afronta à ditadura, sufocada. Com Olívio é detido um militante chamado Telmo Fontoura. O líder sindical permanece duas semanas encarcerado. Fontoura, liberado no meio do caminho pelos policiais, volta para casa dos pais.

Olívio não sabe, mas Fontoura é um agente infiltrado pelos federais nos bancários. É dele o documento, entregue ao delegado Costa, que revela o teor do discurso de Olívio e determina a detenção do sindicalista. Infiltrado entre os bancários, o policial produzia relatórios, identificava líderes e fotografava “elementos hostis” ao regime.

Hoje aposentado, Fontoura, localizado por Zero Hora em São Luís, no Maranhão, revela os bastidores da operação numa das categorias mais politizadas e organizadas do movimento sindical gaúcho. Estudante de Engenharia Mecânica, ele era funcionário do Banrisul em 1978, quando prestou concurso para a PF. Aprovado, hibernou por seis meses na academia da PF no Distrito Federal. Retornou à Capital como o agente Chinês – numa alusão aos olhos miúdos.

No primeiro dia de serviço na Superintendência Regional, em Porto Alegre, veio o choque com a realidade. Com os sapatos sobre a mesa, o chefe de Investigação do Dops rosnou ao ver o jovem policial metido numa fatiota, barba feita e cabelo aparado:

– Desse jeito, tu não serves para nada, rapaz. Some daqui! Só apareças com os cabelos crescidos e a barba por fazer.

Policiais lotados no Dops seguem um padrão no final dos anos 70 que o aspirante desconhece: discursam à Che Guevara, usam bolsa de couro atravessada no tórax, vestem surradas calças jeans, cultivam barba como as de guerrilheiros latino-americanos. Fontoura se tornaria um deles.

A Capital arde, em 1979. Motoristas de ônibus ameaçam cruzar os braços. Professores estaduais protestam contra os baixos salários. Operários da construção civil paralisam canteiros de obra. Uma greve dos bancários, setor considerado estratégico pelas Forças Armadas, porém, romperia os limites tolerados pelos militares. É por isso que Fontoura, com o passado de bancário, é incumbido de investigar os ex-colegas em sua missão de estreia.

Reeleito presidente do sindicato em 1978, Olívio comanda uma potência. Organizada e saudável financeiramente, a entidade arrecada mais com contribuições de seus sócios do que com o imposto sindical.

– Tínhamos uma estrutura própria, com cooperativa de consumo, o que significava uma garantia de abastecimento aos companheiros caso seus salários fossem cortados. Isso nos tornava perigosos – diz Olívio.

Bom papo, Fontoura utiliza-se de uma paixão nacional para se aproximar dos alvos e obter informações privilegiadas.

– Como eu jogava bola e era matador, tudo ficava mais fácil – detalha.

Quando lhe perguntam o motivo do longo afastamento, o agente dissimula:

– Eu dava uma volta neles e dizia que estava trabalhando num banco do Interior.

A ordem é misturar-se aos bancários, em 1979. Olívio, espionado 21 dias antes de sua prisão, é o alvo. Documento localizado por ZH mostra que o sindicalista foi monitorado em 16 de agosto, em uma assembleia dos operários da construção civil. Um trecho:

“Cumprindo sua determinação no sentido de fotografar pessoas estranhas à categoria dos empregados da construção civil em greve, apresento-lhe três fotografias batidas no decorrer das concentrações paredistas dos mesmos operários, nas quais se vê o senhor Olívio Dutra, presidente do Sindicato dos Bancários, dando o seu apoio ao movimento. Tais fotografias foram batidas durante assembleia do dia 16 de agosto, no Estádio dos Eucaliptos”.

O informe é assinado pelo autor dos retratos: o agente da PF Gilberto Martins de Oliveira, parceiro de Fontoura na infiltração, morto no Rio de Janeiro em 1982.

Entre 16 de agosto e a prisão de Olívio, Telmo visita a sede do sindicato, conversa com ex-colegas, redige informes.

– Era fácil. E a gente buscava saber onde Olívio estava e o que ele fazia – conta.

Com base nos relatórios, líderes são detidos, e os bancários, desencorajados. Trinta anos mais tarde, Fontoura revela a ZH detalhes da prisão do homem que se tornaria prefeito, governador e ministro:

– Não dava para prender o Olívio no meio da multidão. Então, colegas me chamaram para participar da operação. Entraram pela esquerda, em duas caminhonetes veraneio, estacionadas próximo à saída. Eu subi no palco e chamei o Olívio pelo nome. Quando ele veio, o pessoal o prendeu. Fui preso junto, mas liberado pouco depois – recorda.

Sem ter desfrutado da intimidade do ex-líder dos bancários, Fontoura se vangloria:

– O Olívio me identificou como companheiro. A gente passou a perna neles.

Com Olívio, Luis Felipe da Costa Nogueira diretor da entidade, também dorme atrás das grades. Mesmo sem seus expoentes, a greve se mantém. Novos líderes são monitorados, identificados e também punidos com o cárcere.

Em 11 de setembro, o camaleão Fontoura volta à carga. Acompanha uma passeata que se estende pelas ruas Dr. Flores, José Montaury, Sete de Setembro, General Câmara, Andradas e Avenida Borges de Medeiros, até chegar à sede da Federação dos Bancários. O que vê e ouve faz parte do “relatório de missão” anexado ao inquérito instaurado para investigar a greve – crime naqueles anos sombrios:

“Durante o percurso, os manifestantes gritavam vários slogans e efetuavam paradas em frente às portas dos bancos, agitando várias faixas com dizeres relacionados com a movimentação grevista”.

No final, a descrição que culmina em mais duas prisões, aniquilando o inexperiente comando grevista:

“Foram batidas várias fotos dos manifestantes que mais se destacavam na passeata, tais como Ana Santa Cruz e Namir Bueno, que, logo após a prisão de Olívio e Luiz Felipe, assumiram a coordenação do comando de greve... A liderança de Ana Santa Cruz e Namir tem se constituído um fator decisivo na manutenção do movimento grevista, já um tanto combalido em razão do gradual esvaziamento”.

Às 23h de 12 de setembro, Namir e Ana Santa Cruz são detidos. Milton Mottini, secretário-geral, tenta escapar ao subir na casa de máquinas do prédio da Federação dos Bancários. Despenca por cerca de cinco metros. Com achatamento de vértebras, permanece internado sob a custódia da PF ao longo de duas semanas.

Com os líderes encarcerados, os bancários retornaram suas atividades. Fontoura migraria para o movimento estudantil, iria se infiltrar entre os secundaristas e assessoraria a União Metropolitana dos Estudantes (Umespa)

POLÍTICA - FHC sai da tumba.

Do BLOG "OS AMIGOS DO PRESIDENTE LULA"

FHC sai da tumba... para desespero de José Serra

Incomodado com seus aliados demo-tucanos não defendê-lo das críticas comparativas com o governo Lula, Fernando Henrique Cardoso não resistiu à vaidade, apesar de todas a recomendações de marqueteiros para escondê-lo.

Aproveitando que José Serra (PSDB) está literalmente atolado no alagão, às voltas com um apagão na Segurança Pública, e com protestos contra pedágios abusivos, FHC decidiu "defender-se" com um artigo nos jornais desse domingo com o título “Sem medo do passado”.

O artigo é uma tentativa de falsear a história, e tentar dizer que o governo dele não foi tão ruim assim.

Traz de volta a velha impostura demo-tucana de querer declarar que o que há de bom no governo Lula foi continuidade.

Não foi continuidade. Foi correção de rumos. Onde havia embrião de programas pífios ou meia-bomba (como o bolsa-escola), foram universalizados e ganharam valores mais dignos (como o bolsa-família). Diversos programas projetos que só existiam na teoria ou eram pífios, tiveram que ser resgatados, como a volta do financiamento da moradia popular, a integração das bacias do São Francisco, recolocar ordem no sistema elétrico depois do apagão da privatização, recolocar o transporte ferroviário nos trilhos. A própria estabilidade econômica estava ameaçada com o dólar batendo a R$ 4,00 e inflação média de 2002 batendo em R$ 13% e com inflação mensal fora de controle, acima de 3% ao mês em novembro e dezembro de 2002, na passagem de governo.

Não vou repetir as baboseiras de FHC (no Portal Vermelho tem um resumo do blog do Josias), apenas lembrar das omissões de seu artigo. Ele "se esqueceu":

- do verdadeiro apagão;
- de ter quebrado o Brasil 3 vezes;
- de ter passado a herança maldita do acordo com o FMI para o governo Lula resolver;
- do altíssimo desemprego em seu governo;
- do arrocho salarial e de impostos (não corrigiu salários do funcionalismo nem a tabela de imposto de renda, conforme a inflação);
- do sucateamento do estado, incluindo escolas, unidades de saúde e Polícia Federal;
- da falta de abir uma única universidade federal;

- de abafar escândalos de corrupção, sucateando PF e impedindo CPI's a peso de ouro.
- da decadência do Brasil no cenário mundial;
- da queda do Brasil no ranking do PIB mundial;
- da restrição de crédito e de construção de moradias populares;
- o afundamento da plataforma P-36 da Petrobrás;
- a entrega de estradas esburacadas, sem manutenção;

E contestar o que o ex-presidente considera um êxito:

- é um embuste dizer que a Vale privatizada paga mais impostos do que pagava dividendos quando era estatal, pois a China multiplicou as importações de ferro depois da privatização, portanto, se ela fosse estatal, estaria rentável do mesmo jeito, porém já teria investindo mais em siderúrgicas no Brasil e teria encomendado navios no Brasil, gerando empregos e riquezas aqui, como faz a Petrobras. E a Vale só começa agora a fazer isso, por pressão do governo Lula.

- outro embuste é a privatização da Telebras (uma roubalheira que deu prejuízo direto de R$ 11,7 bilhões). Se não tivesse privatizado, teríamos tarifas muito mais baixas que pagamos hoje, muito mais gente teria acesso a telefonia fixa e à banda larga, e as remessas de lucros que hoje são enviadas para a Espanha e México, seriam reinvestido no Brasil. Isso sem contar a péssima qualidade dos serviços e atendimento das teles privadas, que temos hoje.

- Da Petrobras nem se fala. O demo-tucano simplesmente entregou descobertas e patrimônio da Petrobras para petroleiras estangeiras de mão beijada. Preparou para privatizar a "PetrobraX", inclusive vendendo subsidiárias, afundou a P-36 por cortes de custos, gerou desemprego aqui, quando encomendou plataformas e navios na Noruega e Singapura, e FHC ainda tem a cara de pau de querer pegar carona no sucesso atual da Petrobras.

Mas... fala FHC! Quanto mais FHC, de triste lembrança, falar e reavivar a memória do brasileiro, melhor para lembrar o risco que seria a volta de um demo-tucano, como José Serra (PSDB).