Segundo turno: balanço da primeira semana, por Wagner Iglecias
Por Wagner Iglecias

E ai vamos nós, rumo a mais um 2º turno entre PT e PSDB pelo comando do país. A campanha segue intensa, com uma primeira semana que tinha tudo para ser de Aécio. Primeiro pela euforia da arrancada final no 1º turno. E segundo pelas denúncias diuturnas que certa mídia tem feito sobre a gestão da Petrobras, que podem fazer Dilma ficar acuada e forçada a perder muito tempo tendo de se defender. Mas nem tudo foram flores para Aécio nesta primeira semana da rodada final. O tão esperado anúncio do apoio de Marina Silva ainda não ocorreu. Talvez nem aconteça. E mesmo se vier o anti-climax já está consumado, com um apoio que terá muito menos impacto do que teria se anunciado logo após o 1º turno. Além disso as pesquisas Ibope e Datafolha, embora apontem Aécio na frente por pequena margem, não repetiram as sondagens de institutos menores e desconhecidos que horas depois da definição dos dois finalistas já davam o direitista como disparado na frente.
O outro anti-climax da semana para a campanha do tucano foi o tão propalado debate entre Guido Mantega e Armínio Fraga, ocorrido na Globonews. Num primeiro momento pareceu muito temerário ao petismo escalar Mantega para missão tão complicada. Não só porque a economia brasileira já não vive seus melhores dias como pelo fato de que Mantega é praticamente um ex-ministro em atividade. E que de mais a mais estaria diante daquele que, para os operadores do mercado financeiro, é tido como um gênio. Mas qual o que? Ao contrário do que tanta gente esperava o já anunciado ministro da Fazenda num eventual governo Aécio não jantou o já anunciado futuro ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. A frustração na direita com o apagado desempenho de Fraga repercutiu até no Financial Times, que afirmou que o tucano se portou de maneira insegura no enfrentamento com Mantega. Para o veículo porta-voz das finanças globais, Armínio decepcionou.
O debate em si foi mesmo monótono, até para quem não está ao lado das finanças globais ou não apoia o candidato do PSDB. Mas teve lá seus momentos engraçados. Miriam Leitão, a certa altura, perguntou a Mantega: "Ministro, inflação em alta, crescimento em baixa, indústria em recessão. E tudo isso sem nenhum evento relevante acontecendo no cenário externo". E Mantega: "Então você acha que a maior crise econômica das últimas décadas não é um evento relevante?". Eu ri. Guido Mantega também riu. Até Armínio Fraga deu uma leve risadinha. E a partir dali Miriam, inadvertidamente, deu a deixa para que Mantega se soltasse, com direito a leves alfinetadas no adversário, a partir da estratégia da comparação dos governos tucano e petista, terreno onde Armínio não queria duelar. O tucano, em declaração controversa, afirmou ainda que a crise econômica mundial acabou em 2009. Talvez só tenha se esquecido de combinar isso com os milhões de desempregados da Europa. Ou com a Alemanha já quase em recessão.
Resumo da ópera: o debate ficou mesmo na comparação entre os governos de PSDB e PT. Para Mantega a gestão econômica do governo FHC foi ruim, e a do governo Dilma tem sido boa. Para Armínio a gestão econômica do governo FHC foi boa, e a do governo Dilma tem sido ruim. Para Mantega a situação econômica lá fora está péssima e aqui dentro está razoavelmente boa. Para Armínio a situação lá fora está razoavelmente boa e aqui dentro está péssima. Empate. Mas com leve vantagem para Mantega, que levou a discussão para onde queria. O que não é pouca coisa num cenário em que tanta gente apostava numa goleada pró-Fraga.
Como boa notícia para fechar uma semana que não foi, como se esperava, de céu de brigadeiro para Aécio, só mesmo as capas de Veja e Época deste sábado, com amplo espaço ao candidato, fundo azul e direito a promessas de campanha. Além da nova palavrinha mágica da direita a partir de agora, em destaque: petrolão.
Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.
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