A vida é especialista em criar traidores. E um dos mais luminosos , ao menos nas últimas muitas décadas , foi o argentino Carlos Menem.
Ele morreu ontem aos 90 anos de uma vida coalhada de escândalos , corrupção e , acima de tudo , traição , muita traição.
Filho de imigrantes muçulmanos sunitas , Menem virou peronista ainda jovem. Estudou Direito em Córdoba , e se formou dois meses antes do golpe que derrubou o então presidente Juan Perón em 1955. Foi preso pela primeira vez um ano depois , acusado de conspirar com o peronismo. Levou dois anos para ser libertado , e então fundou , na clandestinidade , a Juventude Peronista em seu estado natal , La Rioja. E foi assim , numa ''semiclandestinidade'' e militando junto à esquerda , que se lançou na vida política.
Ao longo de décadas , se mostrou de uma fidelidade radical a Perón. Exibiu sempre um talento ímpar para o equilibrismo , permanecendo , porém , fiel ao líder argentino.
Essa fidelidade foi compensada até mesmo pelo lugar marcado no frustrado voo de Perón de regresso à Argentina em novembro de 1972. A frustação ficou por conta da ditadura brasileira , que impediu , numa escala , que o voo chegasse até lá.
No ano seguinte , ganhou o governo de La Rioja. E a primeira coisa que fez foi homenagear os grandes heróis da libertação argentina do jugo espanhol , sempre ao lado da Juventude Peronista de esquerda. Ao mesmo tempo , soube manter boas relações com os Montoneros , o grupo armado dessa mesma esquerda peronista.
Até então , uma trajetória coerente desde a juventude. Com a morte de Perón , em 1974 , e com o caos surgido , começou a mudar de trajetória.
O golpe sangrento de 1976 levou Carlos Menem para a cadeia. Ficou , durante dois anos , ''zanzando'' de um presídio militar a outro. Quando enfim conseguiu cumprir a pena em casa , escolheu Mar del Plata para morar.
Em 1983 , com a volta da democracia , foi eleito governador de seu estado natal. E começou a se preparar para as eleições presidenciais de 1989 , que ganhou de lavada. Então surgiu o verdadeiro Menem , o traidor canalha.
Fez de tudo um pouco , sempre para o mal. Quando assumiu a presidência , em meio à crise econômica brutal do fim do governo de Raúl Alfonsin , primeiro presidente eleito depois da ditadura que durou de 1976 a 1983 , recebeu o apoio mais eloquente dos donos do dinheiro.
E nenhum deles ficou frustrado: em seus anos de presidente (dez e meio , o mais longínquo mandatário argentino) Menem desfez tudo que o peronismo havia armado de política social e econômica: Privatizou dos serviços de água e luz e gás às comunicações , das siderúrgicas às ferrovias , da Aerolíneas Argentinas até a petroleira estatal YPF. Nem Paulo Guedes , o ex funcionário do sanguinário Augusto Pinochet , sonhou em chegar tão alto.
Como se tudo isso fosse pouco , Carlos Menem ainda anistiou todos os militares e agentes públicos responsáveis por crimes de lesa humanidade durante a mais recente ditadura argentina (1976-1983) , equiparando seu país à vergonha abjeta que ainda impera neste Brasil destroçado.
Sua vassalagem a Washington superou a de Jair Bolsonaro e seu ministro Ernesto Araújo: declarou que as relações entre os dois países não eram diplomáticas , e sim ''carnais'' , e equiparou o peso argentino ao dólar norte-americano , o que acabou de afundar de vez uma economia que já vinha sendo arrasada.
Roubou o que quis e até o que não quis , e em 2003 se candidatou de novo à presidência de seu país. No primeiro turno , saiu bem na frente. Faltando pouco para o segundo , percebeu que seu rival ia arrasar , e desistiu. E foi assim que Néstor Kirchner se elegeu e devolveu o país aos trilhos.
Pensando bem , se Jair Bolsonaro tivesse um lampejo de lucidez , não teria Donald Trump como exemplo e modelo: teria Carlos Menem.
Só que , ao contrário do genocida e de Donald Trump , Carlos Menem não era desequilibrado. Era apenas um canalha. Tão canalha quanto os outros dois.
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