domingo, 6 de fevereiro de 2022

A guerra das marcas.

 


A guerra das marcas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O fim da URSS não pacificou o mundo, pois os EUA passaram a se comportar como se fosse um império global invencível com a prerrogativa de usar a força militar em qualquer lugar.

A guerra das marcas

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A primeira guerra realmente mecanizada foi uma carnificina sem fim. De 1914 a 1918, os exércitos europeus lutaram como se fosse possível conservar as doutrinas militares do século anterior.

O segundo conflito mundial (1939-1945) fez surgir as primeiras doutrinas militares adaptadas à guerra mecanizada. Os tanques passaram a atuar de maneira coordenada com bombardeiros de mergulho. E o resultado disso foram as vitórias indiscutíveis do III Reich no princípio da guerra. Todavia, a Alemanha acabou sendo derrotada e destroçada pela esmagadora capacidade industrial dos EUA e da URSS.

A explosão de bombas atômicas norte-americanas em Hiroshima e Nagazaki e a construção de armas semelhantes pelos soviéticos imobilizou o mundo. Uma nova guerra mundial passou a ser impensável. A capacidade de destruição mútua das potências nucleares funcionou tanto como meio de dissuasão como de pacificação. Mas isso não impediu a eclosão de conflitos menores, que foram quase sempre lutados com armas fabricadas nos EUA e na URSS.

Os norte-americanos foram derrotados no Vietnã. Os soviéticos experimentaram uma derrota dolorosa no Afeganistão.

O fim da URSS não pacificou o mundo, pois os EUA passaram a se comportar como se fosse um império global invencível com a prerrogativa de usar a força militar em qualquer lugar. Somália, Iraque, Sérvia, Afeganistão, Iraque novamente, foram apenas alguns países em que os norte-americanos atacaram e/ou ocuparam.  Nesse exato momento, um novo conflito militar está sendo fomentado na Ucrânia.

As empresas de comunicação se esforçam para demonizar os russos, mas não conseguem esconder que o regime ucraniano é liderado por nazistas a soldo dos EUA. O governo norte-americano arrota superioridade miliar, mas enviou apenas armas e um pequeno contingente de soldados para a Ucrânia. A tensão está estropiando a coesão dentro da OTAN, pois enquanto os comandantes da organização dizem que enfrentarão a ameaça russa, vários países membros se recusam a ceder tropas e equipamentos para o conflito.

Há diversas maneiras de compreender esse conflito. Mas há uma que parece estar sendo esquecida.

Se ocorrer, a nova guerra não será apenas um conflito da Ucrânia/OTAN (com ou sem tropas EUA) contra a Rússia/Bielo Rússia. A guerra pode se espalhar por toda Europa, Ásia e Oriente Médio. Mas nós não estamos apenas diante de uma guerra entre Estados, povos, raças, religiões, continentes, modelos econômicos, etc como imaginam alguns articulistas.

A próxima guerra será fundamentalmente entre as marcas dos armamentos utilizados por cada contendor.

No Ancien Régime, as fronteiras se deslocavam com os exércitos dos monarcas e se fixavam pela lealdade devotada a cada monarca por seus súditos. A Revolução Francesa colocou um novo ator no campo de batalha: o soldado cidadão. Os exércitos revolucionários franceses serviam à um regime político que se considerava superior a tudo aquilo que foi destruído na França (monarquia, aristocracia, privilégios, distinções sociais, etc). Um regime que deveria ser exportado até os confins da Europa.

O nazismo não pretendia exportar um modelo político, mas apenas expandir o controle territorial de uma raça que se considerava superior a todas as demais. A derrota do colonialismo racial levou à supressão do colonialismo político, militar e econômico exercido pelas potências europeias que ajudaram norte-americanos e soviéticos a derrotar o III Reich. Desde então as fronteiras na Europa se tornaram mais ou menos estáveis.

A ambição dos fabricantes de armamentos utilizados pela OTAN de colonizar todos os países na fronteira da Rússia pode redesenhar novamente o mapa da Europa. Mas se esse conflito evoluir para uma guerra nuclear, nem mesmo os sócios das fábricas de armamentos não serão poupados em nenhum lugar.

Os jornalistas parecem não saber quem exatamente estão servindo quando demonizam os russos. Alguns acreditam ser arautos da democracia, oráculos da moralidade ocidental, pregadores da religião cristã ou até mesmo cronistas da superioridade militar do capitalismo. Talvez as coisas sejam mais simples. Eles são apenas escribas dos fabricantes de armamentos. Nesse momento, a lealdade das empresas de comunicação às marcas das armas utilizadas pela OTAN talvez seja o maior problema enfrentado pela civilização humana.

George Orwell disse que “A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.” Na fase atual, podemos dizer que “As marcas dos armamentos controlam as mídias, e as mídias descontrolam as massas.”

Não é relevante descobrir se as armas da OTAN e dos EUA são mais sofisticadas e eficientes do que as fabricadas pela Rússia. A verdade é que ninguém vencerá uma nova guerra mundial se ela evoluir para um conflito nuclear, algo que pode acontecer assim que os nazistas da Ucrânia, dos EUA e da OTAN atacarem os russos em território russo.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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