Já reparou que toda vez que acontece um episódio de violência na política brasileira chovem matérias nos jornais e discursos de políticos criticando a polarização?
E essa polarização, claro, tem de um lado os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e de outro os apoiadores do ex-presidente Lula. O problema é que esse discurso iguala os dois como se estivessem em extremos do espectro político, ambos perigosos.
Foz do Iguaçu, no Paraná, e Confresa, no Mato Grosso, já viram eleitores de Lula serem assassinados por bolsonaristas pelo único motivo de serem eleitores do Lula.
Na semana passada, uma mulher foi humilhada por um eleitor do atual presidente por se dizer eleitora de Lula.
Esta semana um bolsonarista bateu no carro de uma mulher porque nele havia adesivos do Lula colados, a ponto de perder o controle do carro e sofrer um acidente na sequência.
No debate dos candidatos ao governo de São Paulo, um candidato a deputado do Republicanos que acompanhava o candidato de Bolsonaro no estado, Tarcísio Freitas, também do Republicanos, intimidou a jornalista Vera Magalhães.
E assim por diante.
A origem disso tudo não é difícil de achar, nem precisa ir muito longe. Não faz nem um mês que o próprio presidente havia atacado a mesma jornalista, em outro debate. Ela foi, aliás, uma de tantas já atingidas por ofensas de Jair Bolsonaro, como você pode ver aqui.
Antes disso, o presidente já falou que a ditadura deveria ter matado mais gente, defendeu “fuzilar a petralhada” e, em julho, incentivou publicamente a reação de seus eleitores à provável derrota nas urnas que se avizinha: “vocês sabem o que fazer”.
Eles sabem. Há anos.
Em 2018, ônibus da campanha de Lula foram alvejados enquanto ele percorria o sul do país em caravana. No mesmo ano, um homem foi flagrado batendo em outro de relho no Rio Grande do Sul. O motivo: votar em Lula.
A ex-deputada gaúcha Manuela D'Ávila (PCdoB) desistiu de concorrer a qualquer cargo na política por causa das violências e ameaças sofridas por ela e sua família, inclusive a filha pequena.
Dava para continuar lembrando casos aqui por parágrafos, infelizmente.
Embora o termo “polarização” continue a ser usado de forma muitas vezes desonesta, as pessoas têm visto claramente o que está acontecendo, e estão cansadas. Por mais que a disputa política seja acirrada, a maioria não gosta de violência. E isso está começando a pegar mal para a campanha de Bolsonaro.
Agora, a equipe do presidente vive um dilema. Por um lado, tenta se distanciar dos episódios de agressão, porque são mal vistos pelos eleitores e prejudicam a campanha. Mas, por outro, esse é o modus operandi do bolsonarismo. Foi a violência que guiou o ex-deputado por décadas na política. Não foi em 2022 que Bolsonaro disse que a deputada Maria do Rosário não seria estuprada porque não merece nem que elogiou torturadores em discurso na Câmara. Foi por meio da violência que ele chamou a atenção e passou a ter alguma relevância no debate público.
Durante mais de 20 anos, desde a eleição de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil viveu, de fato, uma polarização na política. Em 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, a eleição foi disputada por PSDB e PT. Eram essas as forças políticas mais importantes na política brasileira. Elas estavam em espectros políticos diferentes, mas disputavam democraticamente, dentro das regras do jogo. O que existe hoje não é polarização.
A violência é usada para intimidar e silenciar, e funciona. Vai dizer que você não conhece alguém que está com medo de sair com adesivo de candidato na rua? Esse é objetivo de quem usa a violência como tática na política, mas não pode ser a tônica da política no Brasil.
Esse foi um dos temas do podcast Três por Quatro que foi ao ar hoje. Para João Pedro Stedile, o neofascismo prega o medo e a destruição do adversário. Mas ele traz um outro ângulo para o debate. É dessa violência que a gente tem que ter medo? Existem violências muito piores no Brasil, que também estão crescendo. Para entender a opinião do dirigente do MST, fica o convite para você ouvir o Três por Quatro. Clicando aqui você acessa o episódio de hoje no Spotify, mas se preferir outro tocador, é só procurar pelo nome do podcast.
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