Carlos Augusto de Araujo Dória, 86 anos, economista, nacionalista, socialista, lulista, budista, gaitista, blogueiro, espírita, membro da Igreja Messiânica, tricolor, anistiado político, ex-empregado da Petrobras. Um defensor da justiça social, da preservação do meio ambiente, da Petrobras e das causas nacionalistas.
terça-feira, 13 de março de 2012
LULA - Tratamento espiritual.
Reportagem de Alana Rizzo, de O Estado de S. Paulo, informa que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está sob os cuidados dos melhores médicos do País, no Hospital Sírio-Libanês, mas também foi buscar a “saúde da alma” em uma pequena comunidade do interior de Goiás.
João de Deus, um médium especializado em cirurgias espirituais que mal sabe ler e escrever, é quem o acompanha. Ele atende milhares de pessoas em sua clínica espiritual.
Atribuem-se a João Teixeira de Faria, nome real de João de Deus, feitos como fazer cegos enxergarem, reduzir tumores e conseguir que paraplégicos voltem a andar. Uma de suas façanhas é inegável. Ele transformou a pequena Abadiânia, com 15 mil habitantes, em pólo turístico internacional.
Semanalmente, milhares de pessoas dos mais diversos países gastam pelo menos U$ 2 mil para chegar ao município, distante 117 km de Brasília, em busca da cura espiritual, seja por meio da água fluidificada, do remédio feito à base de passiflora ou pelas cirurgias visíveis (com pinças gigantes, tesouras e facas de cozinha) e invisíveis.
Desde que o ex-presidente começou o tratamento no Hospital Sírio e Libanês. Lula e João de Deus se encontraram ao menos três vezes em São Paulo. Porém, ninguém fala abertamente sobre os vínculos entre os dois.
“Lula é um bom filho. Um menino que começou lá de baixo, fez uma história e hoje você vê os brasileiros sorrindo”, elogia João de Deus, como se traçasse um paralelo com a própria trajetória.
Nascido no vilarejo de Cachoeira da Fumaça, em Goiás, João era o mais novo de seis filhos de uma família simples. Com a mediunidade, rodou o mundo e atendeu um incalculável número de pessoas. Essa lembrança é interrompida com mais uma pergunta sobre o paciente.
“Quem trata do Lula é o coração de todos os brasileiros, que estão orando por ele. Aquele homem se dedicou até na hora que a mãe dele estava no caixão ao povo brasileiro. Se desse o contrário, o Brasil e o mundo inteiro estavam em luto”, diz, prevendo o sucesso do tratamento do ex-presidente – sem especificar se o espiritual ou o tradicional.
Em um dos únicos cômodos refrigerados na Casa Dom Inácio de Loyola – onde João descansa entre os trabalhos da manhã e da tarde às quartas, quintas e sextas – há uma foto autografada de Lula com a faixa presidencial, ao lado de dona Marisa.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
LULA - A sacralização do mito.
Maria Cristina Fernandes, editora de política do Valor Econômico, assina um artigo no jornal de hoje cujo título é “O Dono da Voz”. O texto pode ser lido no Vermelho, infelizmente sem nenhuma observação crítica.
Lá pelas tantas ela diz que “está em curso, capitaneada pelo próprio enfermo, a sacralização do mito”.
Segundo ela, Lula teria dito que “nenhum ser humano pode se deixar vencer por uma dor ou por um câncer.
Temos que lutar. Foi para isso que vim à terra. Para lutar e para melhorar a vida de todo mundo“.
Lula não disse isso.
A editora do Valor ou se enganou (e aí precisa se desculpar) ou distorce a frase para contribuir com a campanha já iniciada pela mídia tradicional, a de que o ex-presidente vai tentar tirar proveito político da sua doença.
Abaixo reproduzo a gravação que está disponível no Youtube.
Vá até o trecho que se inicia no 1m30s e veja que Lula diz: “Temos que lutar, afinal de contas foi pra isso que nós viemos para a terra, pra lutar, pra melhorar a vida de todo mundo.”
A frase diz “nós”, ou seja, eu, você, outros e ele também. E está conjugada com o viemos (sem o “s”, porque o Lula às vezes como o “s”), mas é bem diferente do sentido de “foi para isso que vim à terra, pra lutar e melhorar a vida de todo mundo”.
E não tem nada de messiânico.
A partir de agora, você vai ouvir muita gente dizendo que Lula está querendo se aproveitar do seu câncer.
E de repente alguém vai usar essa frase distorcida para comprovar tal tese.
É assim que a mídia tradicional vai construindo suas versões. À base de distorções e mentiras jornalísticas.
Blog do Rovai
quarta-feira, 2 de junho de 2010
ECONOMIA - Sem medo de crescer.
"Nós aprendemos a gostar da estabilidade, do controle da inflação, e da distribuição de renda. Acabamos com o PIB potencial, que era uma imbecilidade de economista, de que o país não podia crescer mais de 3%. Aprendemos que é gostoso crescer 4%, 5%, 6% (ao ano). Não queremos crescer demais porque não queremos ser sanfona - vai a 10% e volta. Queremos crescimento sustentável que dure 10 anos, 15 anos". A análise é do presidente Lula, feita em evento na fábrica de pneus Michelin, no Rio.
Muito bom o enquadramento, um "chega pra lá" que ele dá nos defensores da tese do PIB potencial - muitos deles encastelados no nosso Banco Central (BC); nos que, alinhados na oposição espalham pânico, terror mesmo, na defesa de índices menores de crescimento econômico; e naqueles economistas que só pensam em limitar índices e não querem que o país cresça nem a niveis compatíveis com a sua capacidade - teoria classificada pelo presidente como uma "imbecilidade".
O presidente Lula está coberto de razão, também, quando volta a responsabilizar os países desenvolvidos pela crise econômica. "Se o mundo desenvolvido vivia nos dando lição de moral, devia agora, com humildade, vir aprender a fazer política econômica, combinar controle de inflação com distribuição de renda", destacou o chefe do governo, com a autoridade de quem adotou as medidas anticrise necessárias e adequadas que levaram o Brasil, último a entrar na crise, a ser o primeiro a sair dela já no início do segundo trimestre do ano passado.
Esforço conjugado do governo levou a superação da crise
O Brasil não teria obtido êxito se paralelamente à implementação dessas medidas não tivessem sido mantidos os investimentos públicos via Orçamento da União; os programas sociais - com destaque para o Bolsa Família; os aumentos reais do salário mínimo e dos benefícios da Previdência; e as políticas de governo de ampliação do emprego e distribuição de renda.
Tampouco teríamos saído do sufoco da crise se os bancos públicos - o BNDES à frente - não tivessem desempenhado o seu papel a contento. Nos oito anos do atual governo, como bem lembrou o presidente, o volume de crédito cresceu cinco vezes, começando pela elevação (o dobro) do destinado à agricultura familiar.
Superado o pior, o presidente tem autoridade para fazer essas considerações, principalmente porque tocou todas essas medidas enfrentando cerrada oposição dos tucanos e cia que não tiveram nem a compreensão da gravidade do momento que o país vivia e nem capacidade de avaliar o alcance das providências adotadas.
Foto: Ricardo Stuckert/PR
Fonte: Blog do Zé Direceu
quarta-feira, 26 de maio de 2010
A DIPLOMACIA DA NOVA ERA.
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Leonardo Boff *
Adital -
Essa era e continua a sendo a estratégia das potências militaristas e imperiais que não se dão conta de que o mundo mudou. Elas estão encalacrados no velho paradigma do big stick, da negociação com o porrete na mão ou da pura e simples intervenção para a qual tudo vale, a mentira deslavada como no caso da guerra injusta contra o Iraque, a violência militar mais sofisticada contra um dos países mais pobres do mundo como o Afeganistão ou os conhecidos golpes armados pela CIA em vários países, nomeadamente na América Latina.
Curiosamente, esta estratégia nunca deu fruto nenhum em nenhum lugar. Os USA estão perdendo todas as guerras, porque ninguém vence um povo disposto a dar a sua vida e até suscitar "homens-bomba" para enfrentar um inimigo armando até os dentes mas cheio de medo e exposto à vergonha e à irrisão mundial. O que conseguiram foi alimentar raiva, rancor e espírito de vingança, fermento de todo o terrorismo.A maior ameaça para estabilidade mundial hoje são os EUA pois a ilusão de serem "o novo povo eleito" - pois assim reza o "destino manifesto" que os neocons, muito fortes, como Bush, acreditam piamente - faz com que se sintam no direito de intervir em todo o mundo. Pretendem levar os direitos humanos quando os violam vergonhosamente, querem impor a democracia quando, na verdade, criam uma farsa, visam abrir o livre mercado para suas multinacionais para que livremente possam explorar a riqueza do pais, seu petróleo e seu gás.
A diplomacia de Lula se contrapõe diretamente àquela do Conselho de Segurança e a de Barack Obama. A de Lula olha para frente e se adequa ao novo. A de Barack Obama olha para traz e quer reproduzir o velho.
O paradigma velho supõe que haja uma nação hegemônica e imperial, no caso o USA. Esta se rege pelo paradigma do inimigo, bem na linha do teórico da filosofia política que fundamentou os regimes de força como fez com o nazismo, Carl Schmitt (+1985). Em seu livro O Conceito do Político claramente diz: "a existência política de um povo depende de sua capacidade de definir quem é amigo e quem é inimigo. O inimigo deve ser combatido e psicologicamente deve ser desqualificado como mau e feio". Não fez exatamente isso Bush chamando os países donde vinham os terroristas de "países canalhas" contra quem se deve fazer uma "guerra infinita"? Essa argumentação é sistêmica e funciona ainda hoje na cabeça dos dirigentes norteamericanos. Políticas inspiradas nesse paradigma ultrapassado podem levar a cenários dramáticos com o sério risco de destruir o projeto planetário humano. Esse paradigma é belicista, reducionista e míope pois não percebe as mudanças históricas que estão ocorrendo na linha da fase planetária da história que exige estratégias de cooperação visando proteger a Terra e cuidar da vida.
O paradigma novo, representado por Lula, assume a singularidade do atual momento histórico. Mudou nossa percepção de fundo: somos todos interdependentes, habitando juntos na mesma Casa Comum, a Terra. Ninguém tem um futuro particular e próprio. Surge um destino comum globalizado: ou cuidamos da humanidade para que não se bifurque entre os que comem e os que não comem e protegemos o planeta Terra para que não seja dizimado pelo aquecimento global ou então não teremos futuro algum. Estamos vinculados definitivamente uns aos outros.
Lula, em sua fina percepção pelo novo, agiu coerentemente: não se pode isolar e castigar o Irã. Importa trazê-lo à mesa de negociação, com confiança e sem preconceitos. Essa atitude de respeito trará bons frutos. E é a única sensata nesta nova fase da história humana. Lula aponta e inaugura o futuro da nova diplomacia, a única que nos garantirá a paz.
sábado, 22 de maio de 2010
POLÍTICA INTERNACIONAL -Diplomacia de Lula atua como foguete.
| Diplomacia de Lula atua como foguete para situar o Brasil no alto do cenário global | |
A bola é o símbolo obrigatório da ascensão do Brasil como superpotência. Sua brilhante tradição desportiva obriga a avaliar em termos futebolísticos seus crescentes sucessos econômicos e diplomáticos. Foi o que fez o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, na hora de qualificar o acordo obtido por seu presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, junto com o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad, sobre o programa iraniano de enriquecimento de urânio: "O Brasil só colocou a bola na área". A reportagem é de Lluís Bassets, publicada pelo jornal El Pais e traduzida pelo portal UOL, 21-05-2010. Muitas são as interpretações provocadas por esse compromisso tripartite, que segue os passos da última tentativa pilotada pela ONU para evitar que o programa iraniano desemboque na fabricação da arma nuclear; e pelo qual Teerã se compromete a entregar à Turquia 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido, dos quais devolverá aos iranianos um décimo, por sua vez enriquecido a 20%, para uso médico. De Washington pode ser considerada uma jogada dos novos países emergentes para fechar a passagem à quarta série de sanções econômicas que os EUA estavam preparando e que apresentaram na terça-feira, poucas horas depois da assinatura dos três em Teerã. De Israel, onde seu governo desconfia das sanções diante de um regime que consideram uma ameaça existencial, cabe considerá-lo uma bofetada em Obama, que enche de razão os que aprovam a destruição por meios militares das instalações nucleares iranianas. Da Europa só se pode interpretar como o que é, em qualquer dos casos: essa bola que situa o Brasil no meio do palco e em troca desaloja os que tiveram o maior destaque nos últimos anos, tanto através do chamado Grupo 5+1 (os cinco do Conselho de Segurança, dos quais dois são europeus - França e Reino Unido -, mais a Alemanha) como do Alto Representante da União Europeia, Javier Solana, a quem os seis delegaram o grosso da negociação, coisa que não fizeram com sua sucessora, Catherine Ashton. Os interesses da Turquia e seu primeiro-ministro desembocam diretamente na região à qual Lula viajou em duas ocasiões nos últimos três meses. Estão em jogo as relações de vizinhança e a liderança regional, embora também conte a concorrência com a Rússia. Para o Brasil, por sua vez, tudo se aposta na melhora do estatuto internacional do grande país sul-americano. Lula se colocou em um cenário reservado até quarta-feira às velhas superpotências pela mesma infalível regra de três com que seu país se incorporou ao G-20 na hora de enfrentar a crise financeira, ou entrou na cozinha decisiva da Cúpula de Copenhague sobre mudança climática. Essa atitude corresponde a uma política internacional de cunho realista, que é conduzida sobretudo pelos interesses do Brasil como potência americana com vocação global. É uma aposta que compete diretamente com os europeus, cuja nutrida presença nas instituições internacionais, além de acentuar sua cacofonia e sua capacidade divisora, não faz mais que salientar a antiguidade de uma arquitetura internacional que se mantém quase intacta desde que terminou a última guerra mundial, há 65 anos. Lula sempre desenvolveu uma grande atividade internacional. Mas este ano de 2010, o último de sua presidência, registrou um salto qualitativo, marcado por dois deslocamentos ao exterior que indicam como sondas a profundidade da vocação do Brasil. O primeiro o levou em março passado ao Oriente Médio, região geográfica que jamais havia ocupado um presidente brasileiro. O segundo o levou agora a Teerã e lhe proporcionou o raro privilégio de se encontrar com o guia supremo da revolução, o aiatolá Ali Khamenei, algo que só está ao alcance de uma lista muito restrita de mandatários estrangeiros. Com sua imagem de bonomia proletária e seu enorme prestígio, Lula está atuando como um foguete propulsor do Brasil na nova etapa geopolítica multipolar. Está bem claro que como parte de seu legado político quer deixar o Brasil situado o mais alto possível no cenário internacional, e especialmente bem colocado em suas apostas institucionais. Daí que queira jogar um papel no processo de paz do Oriente Médio e agora em um conflito como o que o Ocidente mantém com o Irã, diretamente ligado à política de não-proliferação. Lula centrou a bola, que agora está dentro da área. Mas são seus sucessores que deverão começar a marcar os gols, como nos melhores tempos da seleção amarela. | |
POLÍTICA - Como Lula deu a volta por cima.
| Como Lula deu a volta por cima | |
O pior momento político do presidente Lula, em quase oito anos de mandato, ocorreu no dia 11 de agosto de 2005, quando o publicitário Duda Mendonça, instigado pelo senador Antônio Carlos Magalhães, deu um depoimento-bomba à CPI dos Correios. No testemunho, Duda associou a campanha presidencial de 2002 a crimes eleitorais e financeiros revelados no escândalo do mensalão. A reportagem é de Cristiano Romero e Raymundo Costa e publicada pelo jornal Valor, 21-05-2010. Foi ACM quem convenceu Duda a contar "toda a verdade" à CPI dos Correios, uma das três criadas pelo Congresso em 2005 para apurar o mensalão, que eclodiu há exatos cinco anos. Duda não fora convocado pela CPI para depor. Em 11 de agosto, no entanto, após várias conversas com ACM, o publicitário decidiu ir à comissão. Antes, pediu proteção. Num depoimento de quase dez horas de duração, Duda confessou ter recebido R$ 15,5 milhões do PT em 2003, em recursos de caixa 2, como pagamento da campanha presidencial do ano anterior. Do total, R$ 10,5 milhões foram depositados numa conta no exterior. O depoimento levou a crise do mensalão para dentro do Palácio do Planalto e derrubou a popularidade do presidente ao nível mais baixo desde que assumiu o cargo - 28%, segundo as pesquisas do Datafolha em outubro e dezembro de 2005, índice impensável para o Lula de hoje em dia (de acordo com pesquisa de abril, o presidente é aprovado por 73% da população). Nos últimos três meses, o Valor conversou com os principais personagens da crise do mensalão para investigar por que a oposição desistiu de levar adiante a proposta de impeachment, que passou a ter "prova material", segundo avaliação de integrantes do próprio governo, após o depoimento de Duda; como o presidente Lula atuou politicamente no seu pior momento; que fatos passaram ao largo das três CPIs; quem foram e como atuaram os "bombeiros" da crise. Além da participação decisiva de ACM para o depoimento de Duda, novos fatos vieram à tona, como a proposta de renúncia ao cargo e à candidatura em 2006 feita a Lula por aliados; a tentativa de Delúbio Soares, então tesoureiro do PT, de beneficiar um banco estrangeiro em troca de auxílio financeiro ao partido; a peregrinação do empresário Marcos Valério, apontado pelas CPIs como o operador do mensalão, no Banco Central (BC), para tentar mudar a lei de liquidação bancária. Thomaz Bastos confidenciou a Fernando Henrique que informara Lula sobre aquele encontro, mas em nenhum momento disse que o presidente lhe pedira para procurá-lo A apuração revela que o governo acreditou mais na possibilidade de impeachment do que a oposição. Mostra, ainda, como o governo Lula mudou de rumo após aquela crise, dando mais poder ao movimento sindical. Durante a crise, um grupo de assessores e ministros, batizado de "Grupo das 8", referência ao horário em que eles se encontravam toda manhã, se reunia, numa sala contígua ao gabinete presidencial, para monitorar as CPIs e bolar estratégias de reação. O grupo era formado por Gilberto Carvalho (chefe de gabinete) e os então ministros Dilma Rousseff (Casa Civil), Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Ciro Gomes (Integração Nacional), Tarso Genro (CDES), Jaques Wagner (Coordenação Política) e Antônio Palocci (Fazenda). O impeachment bate à porta O governo Lula balançou no dia 11 de agosto de 2005, quando Duda Mendonça deu seu depoimento à CPI. No dia seguinte, após longo e calculado período de alheamento, Lula e o governo passaram a tratar o impeachment como uma ameaça concreta. A corte de Lula compreendera exatamente a gravidade das confissões feitas por Duda. Além dos participantes habituais do Grupo das 8, apareceram na Granja do Torto outros auxiliares da copa e cozinha de Lula, como Clara Ant (assessora especial e tomadora oficial de notas nas reuniões), Marco Aurélio Garcia (assessor internacional) e o sempre discreto ministro Luiz Dulci (secretário-geral da Presidência), o encarregado, no Palácio do Planalto, de manter a sintonia fina com os movimentos sociais. Lula não mediu palavras: o depoimento de Duda fora "um desastre" e era "evidente" que o publicitário havia se acertado com a oposição. O presidente estava certo. Duda fora convencido pelo senador pefelista Antônio Carlos Magalhães (morto em 2007) a contar "toda a verdade" à CPI. ACM afastara-se do governo após as eleições municipais de 2004. Lula e o oligarca baiano haviam se aproximado em 2002, nas eleições presidenciais, e selaram a união em convescote na casa de praia de Duda, em Salvador. No ano seguinte, José Dirceu, então ministro-chefe da Casa Civil, ajudara o senador a se desvencilhar da acusação de ter mandado "grampear" metade da Bahia. Dois anos depois, a disputa pela prefeitura de Salvador, um feudo carlista, novamente colocou ACM e Lula em rota de colisão. Senador negociou com Duda O publicitário, que costumava dizer que na Bahia nunca havia feito campanha contra o senador, tinha interesse em conversar com o deputado ACM Neto, um ponta de lança da oposição na CPI dos Correios. ACM colocou o neto na linha com Duda no dia 9 de agosto, uma terça-feira. A preocupação do publicitário, até aquele momento, era com o depoimento na CPI de sua sócia Zilmar da Silveira, agendado para o dia 11. Na quarta-feira, dia 10, Duda deu outro telefonema a ACM Neto. Durante a conversa, deixou o deputado com a impressão de que poderia ir à CPI. Perguntou-lhe, por exemplo, se receberia um tratamento hostil. Na madrugada do dia 11, Duda acordou ACM para informá-lo de que iria à comissão. Mais uma vez, pediu apenas que, pelo menos na Bahia, onde vive sua família, ele tivesse um "tratamento digno". Antes do telefonema, gastou horas definindo com dois renomados advogados paulistas - Antônio Cláudio Mariz de Oliveira e Pedro Dallari - a estratégia do depoimento. Eram aproximadamente 5h30 da manhã de quinta-feira quando o telefone de ACM Neto tocou. Do outro lado da linha, seu avô deu a notícia: Duda estaria sentado ao lado de Zilmar no banco de testemunhas. ACM Neto não perdeu tempo. Naquele dia chegou mais cedo à CPI, para articular o depoimento-surpresa de Duda com os membros mais destacados da comissão, como os deputados Eduardo Paes e Osmar Serraglio e a senadora Heloisa Helena. Conversou também com o presidente da CPI, senador Delcídio Amaral, e tratou de regimento com um especialista - o deputado Arnaldo Faria de Sá. O objetivo era evitar que os governistas da comissão contestassem o depoimento de Duda com base no regimento interno. Com isso, estavam criadas as condições para o publicitário depor. A iniciativa de procurar ACM foi do publicitário, mas o senador aproveitou a chance para articular o pior momento do governo na CPI. Atormentado, Duda julgava-se o responsável "por tudo isso". A ACM Neto, nos bastidores da CPI, disse que queria falar "toda a verdade", pois só assim se sentiria "liberto". Revelou ainda que não queria ver Zilmar na CPI como "boi de piranha". "Vocês não me conhecem" O clima era de funeral no dia 12 de agosto de 2005, uma sexta-feira. Para os principais integrantes do Grupo das 8, a crise havia chegado ao gabinete do presidente da República. Agora não havia mais como Lula continuar a fazer de conta que a crise não era com ele, como fizera até então. Poucos dias depois, ainda no calor provocado por Duda, ao fim das reuniões da manhã no Palácio do Planalto, Lula chamou um auxiliar direto à sua sala e disse: "Foram lá ontem à noite falar comigo", contou o presidente. Segundo Lula, para propor que ele renunciasse publicamente à campanha pela reeleição no ano seguinte. Esse gesto diminuiria o ímpeto da oposição em levar adiante um processo de impeachment. "Esses caras são gozados. Eles não conhecem a minha ligação com o povo. Isso não vai acontecer! Vou ganhar a eleição desses filhos da mãe!", disse em seguida um Lula indignado. O assessor, atônito, dirigiu-se a alguns dos integrantes do Grupo das 8 e deu seu testemunho: "Não sei quem foi lá ontem, mas o cara não gostou da sugestão não". Esta é uma das passagens mais nebulosas da história do mensalão. Dois dos três personagens que estiveram com Lula naquela noite desmentem categoricamente que tenham proposto ao presidente a renúncia à disputa eleitoral em 2006. Um deles admite, apenas, que Lula pode ter entendido dessa forma o tom da conversa. Agravando um clima que já parecia insuportável, um ministro levara ao conhecimento do presidente, naquele dia, uma pesquisa (um "tracking" telefônico) feita logo após o depoimento de Duda, mostrando nova queda na sua popularidade. Numa primeira versão da história, contada com rigor de detalhes por um assessor de Lula logo após os acontecimentos, Dilma foi ao presidente, acompanhada de Palocci, para lhe dizer que, depois do que Duda contou ao Congresso, seu governo tinha chegado ao fim da linha e que o melhor a fazer naquele momento seria renunciar, não ao direito de se candidatar à reeleição, mas à própria Presidência. Ao gesto ousado de Dilma, Lula teria reagido com um riso contido e a frase: "Vocês não me conhecem". Mais recentemente, uma nova versão do episódio, disseminada pelo próprio Lula entre assessores, fala apenas em renúncia à candidatura. A conversa teria ocorrido na Granja do Torto. O temor do impeachment era muito forte dentro do Grupo das 8, mas a iniciativa de verbalizá-lo ao chefe teria sido tomada por Palocci, Thomaz Bastos e Dilma sem consultar os outros integrantes do grupo. Ao mesmo tempo em que reagia, irritado, à sugestão de desistência da candidatura, o próprio Lula alimentava essa possibilidade, possivelmente para testar seus aliados. É um velho hábito. Em 1998, quando julgava que tinha poucas chances de derrotar Fernando Henrique Cardoso nas urnas, Lula aventou a ideia de fazer prévias para a escolha do candidato do PT. Imediatamente, três postulantes se apresentaram, entusiasmados: Tarso Genro, Eduardo Suplicy e Cristovam Buarque. A partir dali, Lula ficou sabendo quem eram os interessados em disputar sua hegemonia no partido. O flerte com Palocci e Ciro No pior momento da crise, o presidente deu uma missão a Gilberto Carvalho: convocar Palocci para uma conversa urgente, na Granja do Torto. Antes, orientou o chefe de gabinete a estimular o ministro a lançar sua candidatura à Presidência em 2006. "Se prepara! Você vai ser o candidato. Eu não quero ser candidato", disse Lula a um incrédulo Palocci. "Só vou ser candidato se a gente não conseguir reverter essa crise porque, aí, eu vou pro pau com esses caras", acrescentou o presidente. O então ministro da Fazenda reagiu negativamente. "Não tem hipótese de o senhor não ser candidato. No dia em que anunciar que não é candidato, aí o nosso buraco aumenta", argumentou Palocci. O raciocínio era que a renúncia à candidatura em 2006 enfraqueceria ainda mais o presidente. Lula decidiu, então, lançar outra carta. "Se você não for candidato, vou chamar o Ciro, mas eu acho que tem que ser você", disse Lula. "Presidente, se o senhor achar que é isso, procure o Ciro, mas eu acho que é errado", insistiu Palocci. Carvalho ajudou a reforçar o suposto plano de Lula. "Estão surgindo os dois nomes, mas nós preferimos você", disse ele a Palocci, que, uma vez mais, rejeitou a sedução. Numa viagem oficial a países africanos, pouco depois, Lula levou o então ministro Ciro Gomes na comitiva. O objetivo não foi outro senão fustigar a vontade de Ciro de ser presidente. Nos meses seguintes, à medida que foi se recuperando da crise, não tocou mais no assunto. "Ele queria que eu fosse o candidato no lugar dele", contou Ciro a amigos, dias mais tarde. A oposição ficou fora desse jogo. Não propôs, em nenhum momento, um acordo com Lula em torno da eleição de 2006. O único a defender publicamente a ideia da não reeleição foi Fernando Henrique. Ele achava que, se Lula declarasse naquele momento que não seria candidato, voltaria a ter "respeitabilidade" e, eventualmente, até poderia se candidatar. Lula reagiu enfurecido à sugestão. "Se eles estão pensando que vão me tirar daqui no tapetão, nem pensar! Vou pra rua", afirmou ele numa reunião. Preocupados com o andamento da crise, que, depois de Duda, chegara às cercanias do Palácio do Planalto, três figuras eminentes da República - um deputado do PT, um ministro do Supremo Tribunal Federal e um funcionário público do alto escalão - decidiriam procurar, separadamente, Thomaz Bastos. Um dos três sugeriu que o presidente mandasse uma proposta ao Congresso, instituindo o mandato de cinco anos e eliminando a possibilidade de reeleição. Um outro propôs que Lula fizesse um pronunciamento à nação, no qual diria que estava abrindo mão da candidatura à reeleição. O terceiro foi pelo mesmo caminho. Os três tinham em comum a avaliação de que Lula só pacificaria o país, naquele momento, se desistisse de se candidatar no ano seguinte. Lula contra-ataca O depoimento de Duda foi uma enorme surpresa para Lula e seus principais auxiliares. Mas, ao contrário do que o presidente deixava transparecer em público, havia muito que o Palácio do Planalto se preparava para o pior. Além do Grupo das 8, armou-se também no Congresso um "bunker" para monitorar permanentemente o trabalho das três CPIs (a dos Correios, a do mensalão e a dos Bingos, também conhecida como "CPI do Fim do Mundo" por tratar de vários temas, entre eles, o assassinato do prefeito petista Celso Daniel). Emissários de Lula mantinham abertos, ainda, os canais com a oposição. Lula não tinha ilusões: a oposição "mexeria com o impeachment", como afirmou no dia seguinte ao depoimento, em reunião na Granja Torto. Alguns auxiliares temiam que ele se deixasse abater, mas o presidente não demonstrou a menor disposição de cair sem briga. Dizia que o PT, um partido com base social, não era o PRN, a legenda de aluguel usada por Fernando Collor de Mello para se eleger em 1989. "Nós vamos pra rua defender o mandato que o povo nos deu", disse. O presidente em pessoa conversou com José Lopes Feijó, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), para armar manifestações de rua em defesa do governo. Essa era a faceta beligerante da reação. A outra, de entendimento com a oposição, particularmente com FHC, prosperava por meio de conversas dos ministros Márcio Thomaz Bastos, que teve um papel destacado nessa costura, e Antônio Palocci e do deputado Aldo Rebelo, do PC do B, que atuou tanto como ministro da articulação política quanto na condição de presidente da Câmara, cargo que ocupou a partir do fim de setembro de 2005. Foram conversas decisivas para conter o ímpeto belicista da oposição, mas não tiveram consequência para uma aproximação entre PT e PSDB após a crise. Na verdade, a oposição sempre teve dúvidas sobre a conveniência de propor o impeachment do presidente. Seria o segundo em pouco mais de dez anos - Collor foi impedido em 1992. Os oposicionistas temiam a pecha de golpistas. Avaliaram, também, que não tinham rua nem votos e, por isso, não revelavam a mesma disposição para o impeachment que Lula demonstrava ter para se manter no cargo que perseguira durante 13 anos. Havia no Palácio do Planalto a percepção de que FHC tinha ascendência sobre o PSDB. E de fato era do ex-presidente o discurso mais bem articulado das oposições, moderado diante do que efetivamente achava da situação. O que no Planalto se achava ser o elemento que a oposição precisava para propor o impeachment, para FHC o depoimento de Duda fora muito além: o publicitário dera a prova material para a Justiça anular a eleição de 2002 e empossar José Serra, o segundo colocado na disputa. Algo como o Tribunal Superior Eleitoral fez recentemente ao anular a eleição de Jackson Lago para o governo do Maranhão e mandar empossar Roseana Sarney, a segunda colocada. Apesar disso, o ex-presidente também estava convencido de que Lula reagiria ao impeachment com o discurso de classe - "o primeiro trabalhador a chegar à Presidência da República ia ser degolado pela elite" - e de que isso poderia dividir o país. "Eles estão na lona!" A conversa de FHC com Thomaz Bastos foi um embate entre dois mestres na arte da boa política. O ministro era a pessoa certa para a incursão exploratória de Lula. O advogado ajudara em campanhas eleitorais de FHC, mas, embora não fossem muito próximos, os pais deles - José Diogo Bastos e Leônidas Cardoso, ambos deputados nos anos 1950 - foram amigos. Thomaz Bastos confidenciou ao ex-presidente que informara Lula sobre aquele encontro, mas em nenhum momento disse que o presidente lhe pedira para procurá-lo. A constatação de FHC foi rápida: "Eles [Lula, o PT e o governo] estão na lona". Thomaz Bastos perscrutou como FHC estava vendo "as coisas". Uma conversa de "cerca-Lourenço", como contaria depois o ex-presidente aos tucanos. Na prática, o que Thomaz Bastos queria saber era se a oposição iria para o impeachment. FHC entendeu o recado e disse: "O impeachment é um ato político, o jurídico é outra coisa. Você vai para o tribunal. O ato político você tem que ter força para ganhar, não é ter a razão". FHC contou para Thomaz Bastos o dilema que rondava a oposição: a CPI dos Correios reunira elementos até para a Justiça anular a eleição. Este era o aspecto legal. Politicamente, a situação era outra: a oposição não tinha força para votar o impeachment. E se tentasse, especulava FHC, dividiria o país. "E eu tenho horror [da divisão] porque vi isso muitas vezes - do Chile de Salvador Allende à Venezuela de Hugo Chávez", disse ao ministro A conversa se estendeu por quase três horas. Já na rua, Thomaz Bastos se deu conta de que FHC não assumira nenhum compromisso contra o impeachment. Também constatou a veracidade da fama de pão-duro que carrega o ex-presidente: num dado momento, percebendo que seu marido nada oferecera à visita, Dona Ruth serviu café e água e deixou os dois conversando madrugada adentro. "Rua não tem regimento interno" "Nós não queremos fazer o impeachment do presidente. Para nós, basta o impeachment moral do Lula, para ele chegar às eleições sem condições de concorrer", disse Fernando Henrique a outro representante do governo, Aldo Rebelo. Na ocasião, Aldo pensou: "É do jogo". O PSDB queria tirar Lula do poder na eleição e não por meio do impeachment, processo que, àquela altura, o governo denunciava como sendo "golpe da oposição". Ao se despedir do ex-presidente, no entanto, Rebelo achou prudente fazer uma advertência: "Rua não tem regimento interno". Uma frase que só confirmou os piores temores de FHC sobre o risco de divisão do país embutido na empreitada do impeachment. Já Palocci procurou FHC para manifestar preocupação com o que chamou de "repercussões sistêmicas" da CPI dos Bingos. "Olha, Palocci, não estou no dia a dia do Senado, do PSDB, não estou no telefone dando ordens. O pessoal pensa que eu faço isso. Não. Eu não sei como é que o PSDB vai se comportar. Não há interesse em botar fogo no mercado", respondeu FHC. O ex-presidente não se comprometeu com os emissários governistas, mas atuou para manter a oposição com os pés no chão. "O problema é o seguinte: temos força?" [para o impeachment], perguntou a Arthur Virgílio, líder tucano no Senado, e a Tasso Jereissati, então presidente do PSDB. Em seguida, contou a história de Josef Stalin, quando o líder comunista russo foi confrontado com o poder da Igreja Católica na reunião dos líderes aliados, no pós-guerra: "Quantas divisões tem o papa?" A oposição ameaçava, foram apresentadas 30 proposições de impeachment, mas o fato é que os oposicionistas não tinham votos para derrubar Lula. Esteve próxima de tê-los, como se pode depreender da eleição de Aldo Rebelo para a presidência da Câmara, após a queda de Severino Cavalcanti no chamado escândalo do mensalinho, que por quase um mês desviou as atenções e ajudou a esfriar o debate do impeachment. A presidência da Câmara era uma posição estratégica: cabe a ela dar início ou mandar arquivar todos os pedidos de abertura de processo de impeachment. Severino era um aliado do Planalto. E o PFL teve atuação também decisiva na investigação que levou à denúncia de que Severino recebia propina de um concessionário de serviços da Câmara. A eleição para a substituição de Severino foi duríssima. No primeiro turno, houve empate em 182 votos entre Aldo e o candidato do PFL, José Thomaz Nonô. No segundo, o governo ganhou por 258 a 243. A eleição de um pefelista, naquele momento, poderia ter mudado o curso da história. Deixa sangrar Sem votos no Congresso e sem apoio nas ruas, a oposição se consumia também em dúvidas. Na avaliação de PSDB e PFL, o PT cometera um erro de cálculo político em 1992, ao apostar todas as fichas no impeachment de Fernando Collor - se tivesse mantido o ex-presidente no cargo, mas enfraquecido, provavelmente Lula seria o presidente da República já nas eleições de 1994. Consumado o impeachment de Collor, o vice-presidente Itamar Franco assumiu e fez um governo de coalizão, do qual só o PT não participou. Após os meses iniciais de hesitação, quando teve quatro ministros da Fazenda, o novo governo decretou o Plano Real, fundamental para FHC derrotar Lula no primeiro turno da eleição de 1994. Empunhando a bandeira "institucional" durante o mensalão, FHC foi chave nas negociações para evitar o impeachment de Lula. Mas ele não esteve sozinho. Parte de PSDB e do PFL seguia a mesma bússola: a oposição não deveria tomar a iniciativa do impeachment, mas, por outro lado, deixaria correr as investigações nas CPIs. Era a tese do sangramento de Lula. Àquela altura, faltava pouco mais de um ano para as eleições de 2006. Com maior ou menor grau de blindagem do presidente, o sangramento foi a linha dominante na oposição, do senador Tasso Jereissati ao pefelista Jorge Bornhausen. E também a trilha seguida pelos ex-governadores de São Paulo e Minas Gerais - respectivamente, José Serra e Aécio Neves. O enterro do impeachment ocorreu numa reunião burocrática de líderes da oposição na segunda-feira seguinte ao depoimento de Duda. Os partidos avaliaram que havia elemento material para o enquadramento jurídico de Lula, mas faltavam votos no plenário e apoio das ruas. Simples assim. "Não há clima político para o impedimento e o pedido, se houver, tem de vir da sociedade", declarou, depois da reunião, o senador Arthur Virgílio. Apenas um representante do tucanato - Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro de FHC - foi a público, em artigo na "Folha de S.Paulo", defender abertamente o impeachment de Lula. "Estamos ante a maior crise moral da história brasileira", escreveu Bresser-Pereira. Ironicamente, em 2007, no segundo mandato de Lula, ele foi nomeado para integrar o "conselho de orientação" de um órgão do governo - o Ipea. Cadáveres insepultos A crise do mensalão já corria solta quando Lula decidiu enviar um emissário para conversar com Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Ele queria entender o tamanho do enredo em que o partido se metera. "Gilbertinho, vai a São Paulo e conversa com o Delúbio. Eu quero saber que encrenca é essa", ordenou Lula ao chefe de gabinete. Numa sala do diretório nacional do PT em São Paulo, Delúbio explicou que o partido fez muitas despesas na campanha eleitoral de 2002. Com uma franqueza que assustou o interlocutor, disse que esperava a ajuda do governo em "algumas operações" e que esse auxílio nunca veio. Diante disso, foi obrigado a buscar outras fontes de financiamento, o que acabou levando-o a conhecer o empresário Marcos Valério. Uma dessas operações, só agora revelada, chegou ao Palácio do Planalto, mas foi abortada pelo ministro Palocci e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. O plano era levantar a liquidação bancária do Banco Econômico, que sofreu intervenção do BC em 1995. Os beneficiários do negócio seriam o antigo controlador do Econômico - Ângelo Calmon de Sá - e o banco português Espírito Santo. A contrapartida da operação seria a concessão de um auxílio financeiro do Espírito Santo ao PT. "Presidente, isso aí é cadeia! Não vamos fazer um negócio desse de jeito nenhum", disse um ministro durante reunião para tratar do assunto. Sem pestanejar, Lula mandou encerrar o assunto ali mesmo. Antes de chegar à cúpula, no entanto, o tema, que não dizia respeito apenas ao espólio do Banco Econômico, mas também ao de outros bancos sob intervenção do BC, correu meses dentro do governo. Os bancos liquidados na primeira fase do Plano Real, quando a queda abrupta da inflação subtraiu grande parte das receitas que eles apuravam com a perda diária de valor da moeda nacional, tornaram-se cadáveres insepultos. As intervenções começavam, mas nunca terminavam. Os ex-controladores dos bancos sempre alegaram que, concluída a liquidação, eles teriam dinheiro a receber do BC. Este, por sua vez, sustenta que isso é fantasia, uma vez que a União injetou bilhões de reais nas instituições para honrar compromissos com os correntistas e cobrir outros buracos. No início do governo Lula, banqueiros cassados pelo BC fizeram intenso lobby em Brasília para amolecer o coração da autoridade bancária. Em 2004, conseguiram, por exemplo, que a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado criasse uma subcomissão para tratar exclusivamente das intervenções. Durante os debates, acusou-se o Banco Central de abuso de poder. Depois, tentou-se limitar legalmente o prazo do processo de liquidação, mas a proposta nunca foi adiante. Em outra frente, Marcos Valério, apontado pela CPI dos Correios como o operador do mensalão, começou a circular com grande desembaraço dentro do governo, representando os interesses do Banco Rural, que, como revelou a comissão, fez empréstimos para salvar o PT da bancarrota. Detentor de 22% do capital do Banco Mercantil de Pernambuco, também liquidado em 1995, o Rural queria uma solução rápida para a intervenção, de forma que, ao fim da operação, pudesse assumir o espólio do banco. As visitas de Valério ao BC Valério não economizou visitas à sede do Banco Central, em Brasília. Esteve lá 14 vezes, segundo registros da instituição. Na primeira ocasião, foi informado das restrições legais para o levantamento de liquidação bancária nos moldes exigidos pelos ex-banqueiros. Não satisfeito, contratou um advogado para instruí-lo na elaboração de um projeto que alterasse a lei que rege as intervenções do BC. O empresário dizia, nos gabinetes de Brasília, que atuava com o conhecimento do então ministro José Dirceu. De fato, ele tinha trânsito livre. No início de 2005, por exemplo, levou o presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Espírito Santo, para uma audiência na Casa Civil com Dirceu. Os laços foram estreitados. Em fevereiro deste ano, por exemplo, o executivo depôs, na Justiça Federal em São Paulo, como testemunha de defesa do ex-ministro no inquérito do mensalão. Nas andanças pela capital federal, Valério esbarrou num funcionário de carreira do BC - Gustavo Matos do Vale, diretor de Liquidações e Controle de Operações do Crédito Rural. Num dos encontros com Vale, Valério levou-lhe uma proposta de medida provisória que alterava a legislação de liquidação bancária. Educadamente, o diretor do BC explicou-lhe que, como haveria impacto na Lei de Responsabilidade Fiscal, qualquer mudança teria que ser feita por meio de um projeto de lei complementar. Valério reagiu de forma colérica às ponderações de Vale. Achou que o diretor do BC estava caçoando dele. Afinal, os dois já tinham conversado várias vezes sobre o tema. Funcionário público há 26 anos, Matos do Vale sabia, desde a primeira visita de Valério, que, para seu próprio bem, não deveria levar a sério a prosa do interlocutor. Nem todo mundo pensava assim em Brasília. A pressão para levantar a liquidação de bancos falidos era tão forte que Henrique Meirelles decidiu fazer uma proposta insólita ao ministro Palocci - a mudança do BC para a Fazenda da diretoria que cuida desse assunto. Palocci argumentou que, se Meirelles estava se sentindo coagido e se isso estava lhe causando um problema de "sustentabilidade", ele poderia analisar a mudança, embora não a considerasse necessária. O ministro temia que a transferência aumentasse ainda mais o interesse da classe política pelo tema. Meirelles estava reticente. Quando começou a dizer "não" aos pedidos de suspensão das intervenções bancárias, um jornalista o procurou. "Olha, dr. Meirelles, vem aí onda de denúncias contra o senhor", disse o interlocutor. Meirelles quis saber o porquê e ouviu que era por causa dos bancos. Nos dias seguintes, apareceram na imprensa as primeiras denúncias. O próprio Palocci foi alvo de pressões. Certa vez, estiveram em seu gabinete representantes de três gerações da família Monteiro, principal acionista do Banco Mercantil de Pernambuco. Entre eles, Armando Monteiro Filho, ex-ministro do governo João Goulart e amigo de longa data do presidente Lula, e Armando Monteiro Neto, deputado do PTB e presidente da Confederação Nacional da Indústria. Na ocasião, Palocci foi a Lula para explicar o que estava acontecendo. "Não quero nem ver", desconversou o presidente. Da conversa com os Monteiro, ficou na memória de uma testemunha a palavra usada pelo deputado durante argumentação em defesa do fim da intervenção no Mercantil de Pernambuco: "anatocismo" (a capitalização de juros acumulados por não terem sido liquidados no vencimento). Apesar da pressão, "a família Monteiro foi institucional", assegurou Palocci em relato feito ao presidente Lula na ocasião. Por meio de sua assessoria, o Banco Espírito Santo confirma que, "em 2001 ou 2002", foi procurado por Calmon de Sá. O ex-banqueiro, segundo a assessoria, queria que o banco português intermediasse, no mercado, a venda de títulos do Econômico. Ocorre que os títulos jamais foram liberados pelo BC. Afinal, o banco estava sob intervenção. Daí o suposto interesse no fim da liquidação. O banco português nega ter cogitado dar auxílio financeiro ao PT, informação confirmada por mais de um personagem ouvido pelo Valor. Quando Lula chorou Durante toda a crise do mensalão, apenas um fato levou o presidente Lula às lágrimas: a entrada, no governo, de dois antigos companheiros do movimento sindical - Luiz Marinho, então presidente da Central Única dos Trabalhadores, que assumiu o Ministério do Trabalho; e Paulo Vannuchi, que se tornou titular da Secretaria de Direitos Humanos. Os dois embarcaram no pior momento de Lula. O primeiro, em julho de 2005; o segundo, em dezembro daquele ano. Marinho, que hoje é prefeito de São Bernardo do Campo (SP), era considerado pelo próprio Lula o seu sucessor no movimento sindical. O presidente trata-o por filho. Vannuchi tem fortes vínculos com o sindicalismo e a esquerda católica. A presença dos dois no governo ajudou Lula a se reaproximar da sua antiga base social, que, em meados de 2005, andava um tanto decepcionada com os rumos de sua gestão, especialmente na área econômica, a mais bem-sucedida. Durante conversa com Thomaz Bastos, Lula chorou ao lembrar que Marinho e Vannuchi encararam o desafio de entrar para o governo naquela situação. Sua popularidade estava no patamar mais baixo de toda sua trajetória na Presidência da República. O índice daqueles que consideravam seu governo "ruim" ou "péssimo" também era recorde - 29% em dezembro de 2005. A inflexão de Lula foi calculada. Como achou que tinha perdido apoio das elites, que na sua visão estavam interessadas em apeá-lo do poder, o presidente concluiu que chegara a hora de fazer acenos em direção a antigos apoiadores. Ao colocar Marinho no Trabalho, iniciou um processo de forte recuperação do salário mínimo, até então evitado por causa dos impactos negativos nas contas da previdência social. No segundo mandato, Lula aprofundou a inflexão, passando a conceder aumentos salariais generosos ao funcionalismo público, categoria com a qual havia rompido parcialmente em 2003 ao propor a reforma da previdência. No pós-mensalão, o presidente manteve o tripé da política econômica herdado de FHC - superávit primário, metas para inflação e câmbio flutuante -, mas desistiu de regulamentar aquela reforma e também de propor novas mudanças constitucionais. Trouxe, finalmente, o PMDB para o governo e montou no Congresso uma espécie de frente anti-impeachment, composta de 14 partidos, da esquerda à direita. Na nova fase do governo, Lula deu força à ideia de uma "República Sindicalista". De alguma maneira, fez o que se dizia que o presidente João Goulart (1961-1964) quisera implantar 40 anos antes e que provocou a sua queda. Os sindicalistas passaram a se sobrepor no PT e no governo, em detrimento dos outros grupos fundadores do partido - a esquerda católica, os ex-guerrilheiros e os intelectuais. "Põe no cofre, Gilberto" Além do Grupo das 8, durante a crise foi montado um "bunker" na liderança do PT na Câmara, no qual o deputado e advogado Luiz Eduardo Greenhalgh monitorava os depoimentos nas CPIs, ao mesmo tempo em que enchia caixas e mais caixas com denúncias contra os adversários de Lula. Os parlamentares do "bunker" registraram que havia algo de errado na movimentação de Duda, mas foi tranquilizado pelo Grupo das 8 - que também participava das reuniões dos congressistas - sobre a lealdade do publicitário. No domingo anterior ao depoimento de Duda, houve uma reunião no apartamento de Greenhalgh para acertar a agenda de trabalho da semana nas CPIs. "Gente, eu estou preocupado. Quem é que está controlando o Duda?", perguntou o deputado. José Dirceu tomou a iniciativa de responder: "Pode ficar tranquilo. O Duda está sob controle". Ciro Gomes, que também estava presente, esgueirou-se até a beira do sofá: "Estou de acordo. O Duda está sob controle, tem mantido contato". Estavam todos enganados. Duda não só foi à CPI, como deu à oposição o elo que havia entre a eleição do presidente e a contabilidade fraudulenta do PT. Durante toda a crise, Lula tentou separar uma coisa da outra. O próprio Grupo das 8 tem origem numa ordem do presidente para tentar desvincular inteiramente o governo do escândalo. "Não quero reunião na hora do expediente (a partir das 9h), não quero encontrar ninguém conversando sobre isso quando eu chegar ao palácio", advertira Lula. No apartamento de Greenhalgh, a extensão da crise era medida pelo consumo de bebida e comida. Havia dias em que Jaques Wagner enxugava sozinho uma garrafa de uísque. Bebia também rum e vinho, mas sempre manteve a compostura e a língua afiada. O nacionalista Aldo Rebelo preferia cachaça. Lula recebeu de Greenhalgh, advogado das causas mais importantes do PT, a famosa "lista de Furnas", matriz do processo que mais tarde levaria o carimbo de "mensalão do PSDB". O PT, enfim, fazia prevalecer a tese segundo a qual eram "todos iguais". O presidente conferiu cada nome da lista, de cima até embaixo. Em seguida chamou Gilberto Carvalho e ordenou: "Põe no cofre, Gilberto. Põe no cofre". | |
sexta-feira, 21 de maio de 2010
NOBEL DA PAZ PARA LULA.
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O prêmio Nobel tem uma ótima oportunidade de se redimir da escolha no mínimo polêmica do ano passado, quando entregou o Nobel da Paz a Barack Obama, e conferi-lo esse ano ao presidente Lula por seus esforços e determinação em evitar sanções ao Irã e que o mundo se encaminhasse para mais um conflito de conseqüências imprevisíveis. |
terça-feira, 18 de maio de 2010
COMÉRCIO DE LUXO E PRECONCEITO CONTRA LULA.
Altamiro Borges *
Adital -
A farra do comércio de luxo é tanta que 13 novas empresas de "marca" já negociam sua entrada no país, segundo reportagem da Folha. "Está havendo um reaquecimento da economia acima do esperado e não há grife estrangeira que não planeje vir ao Brasil", comemora Carlos Ferreirinha, presidente da MCF, uma das principais consultorias deste setor. A Associação Brasileira de Empresas de Luxo (Abrael) avalia que, mantido o ritmo atual de crescimento, o mercado das elites fechará 2010 com receitas da ordem de R$ 8,5 bilhões - contra R$ 6,5 bilhões em 2009.
Pressão e chantagem das elitesMesmo no ano passado, quando a grave crise econômica abalou o sistema capitalista, houve um aumento de 10% na venda do setor. Empresas como Armani, Montblanc, Gucci, Louis Vuitton e outros paraísos de consumo das elites, aproveitaram para aumentar a remessa de luxos para suas matrizes quebradas. Caraduras e ambiciosas, elas ainda reclamam da carga tributária do Brasil e fazem chantagens para obter vantagens. Segundo a Folha, as 13 marcas estrangeiras que estão em negociação para se instalar no Brasil exigem "menos impostos para os artigos de alto luxo".
A pressão das "grifes estrangeiras", apoiada pela histeria dos ricos consumidores da elite, deveria servir de lição para o governo Lula e para os movimentos sociais. No primeiro caso, ela confirma que persistem graves problemas estruturais no país, que ampliam a péssima distribuição de renda e riqueza. Sem reformas estruturais mais profundas o fosso social só crescerá; a elite continuará transformando seus lares em "depósitos de produtos de luxo" -como sempre alerta o economista Marcio Pochmann- e, mesmo assim, manterá a sua postura de oposição hidrófoba ao governo.
Hora de chutar o pau da barraca
Já no caso dos movimentos sociais, a pressão das "grifes de luxo" confirma o ditado de "quem não chora não mama". Mesmo se esbaldando na ostentação, as elites querem muito mais. Dane-se a miséria da maioria da população. As várias categorias que estão em campanha salarial também poderiam aproveitar a retomada da economia -com alguns analistas prevendo crescimento de até 7% no Produto Interno Produto (PIB)- para exigir mais nas suas mobilizações e negociações.
Esta é a hora de chutar o pau da barraca. Os empresários nunca ganharam tanto dinheiro na vida - daí o aumento de 30% no consumo de luxo. Quando da eclosão da crise no ano passado, eles tentaram "socializar o prejuízo" e até fizeram terrorismo para cortar salários e direitos trabalhistas. Agora, eles não têm como alegar dificuldades. Nada mais justo do que "socializar a bonança", contribuindo para atenuar o péssimo quadro de distribuição de renda e riqueza no Brasil.
* Jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB - Partido Comunista do Brasil
sábado, 15 de maio de 2010
LULA, IRÃ, A FOME E A PAZ.
No curto espaço de uma semana, o Brasil viu-se como protagonista em duas questões centrais para a humanidade. Primeiramente quando Lula é condecorado pela ONU com a medalha pelos esforços no combate à fome, fato que a mídia comercial escondeu, para espanto geral. Segundo porque neste final de semana o presidente do Brasil, após conseguir o apoio da Rússia para suas gestões, desembarca em um Irã ameaçado levando uma mensagem clara ao mundo: os problemas devem ser resolvidos pelo diálogo não por sanções, muito menos pela guerra, que, comprovadamente, veja-se hoje o Iraque e o Afeganistão, só trazem solução para o caixa da indústria bélica, a principal economia dos EUA. O artigo é de Beto Almeida.
Beto Almeida
Essas são duas iniciativas repletas de simbolismos, a começar pelo fato de não virem das grandes potências hoje ações concretas para enfrentar a fome e alcançar a paz. Ao contrário, vem do menino que sentiu no corpo a dor da fome e carrega consigo uma mistura de teimosia santa de Dona Lindu com a dialética do retirante.
É muito difícil fazer prognósticos sobre as possibilidades de sucesso para uma empreitada do porte desta que Lula carrega em nome do povo brasileiro, amante da paz. Querer o diálogo e a paz quando o que dá lucro é a guerra, aparentemente seria como nadar contra a corrente. Ramificações industriais complexas e lucrativas estão funcionando inteiramente e a todo vapor para sustentar presença militar estadunidense pelo mundo. A mensagem brasileira põe em cheque este poderio e sua maneira de dominar a política internacional, de impor sanções que terminam comprovando-se mecanismos que ampliam as tensões e desembocam em conflitos bélicos. Os orçamentos militares ampliam-se, sobretudo o dos EUA, que , isoladamente, supera em volume de recursos a soma dos orçamentos militares de todos os países do mundo.
As similaridades entre Brasil e Irã nesta questão nuclear, grosso modo, devem ser olhadas com muita atenção. Em 1987, o presidente José Sarney anunciou ao mundo que o Brasil havia alcançado o estágio do domínio tecnológico completo para o enriquecimento do urânio. O anúncio foi acompanhado da solene declaração de que a conquista tecnológica se destinava exclusivamente a finalidades pacíficas. Para chegar a esta conquista o Brasil percorreu um longo caminho desde o início do Programa Nuclear Brasileiro, iniciado na Era Vargas e conduzido pelo Almirante Álvaro Alberto, que não pode ser esquecido nos debates atuais. E recebeu pressões pelo desejo de sua independência tecnológica. Ao ponto de que turbinas atômicas compradas da Alemanha terem sido seqüestradas por dispositivos militares da OTAN, em 1952, no Porto de Hamburgo, antes de serem embarcadas para o Brasil. Nova pressão imperial veio quando o governo Geisel firmou o Acordo Nuclear com a Alemanha. O recado era claro, bastando para isto lembrar declaração de Henry Kissenger, então secretário de estado dos EUA: “Não permitiremos o surgimento de um novo Japão abaixo da linha do Equador”.
O Irã sofre hoje pressões pelas quais o Brasil já passou. Muito embora atenuadas, aparentemente, quando o governo FHC, erroneamente em em costumeira posição de vassalagem diante do império, assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, dispositivo que não é cumprido à risca praticamente por ninguém. Os que são armados continuam super-armados - e armando-se com novas tecnologias - e os desarmados que se contentem com a ilusão de que não correm os riscos de transformarem-se em torresmo. Claro, desde que renunciem para todo o sempre a qualquer pretensão de desenvolvimento tecnológico nesta área. Mesmo que para finalidades exclusivamente pacíficas, o que não é respeitado por algumas das grandes potências que querem ditar as regras para os outros, mas não para si.
Mídia vassala
Tanto quando do anúncio da conquista tecnológica nuclear brasileira, em 1987, como agora, a grande mídia internacional, controlada pelos anunciantes enraizados em algum ramo da indústria bélica - como também a mídia comercial nativa - revela sua desconfiança editorial. O resumo da ópera é que o Brasil, o Irã e outros emergentes, não devem sequer pretender soberania tecnológica. E que o mundo fique como está.
Curiosamente, nesta semana que antecedeu a visita de Lula ao Irã tambem foram divulgadas matérias propositalmente descontextualizadas condenando o Brasil por vender armamentos para regiões de conflito. Nem uma informação de que o Brasil tem participação residual neste mercado bélico, menos de 0,5 por cento. E claro, nada sobre o estágio de desarmamento unilateral que nos foi imposto pela era da privataria, um verdadeiro serviço prestado às nações que ampliam suas intervenções militares para além fronteiras. E pelas suas imensas riquezas estratégicas, ninguém duvida que o Brasil é alvo. Tal situação começa a ser corrigida com a nova Estratégia Nacional de Defesa que visa recuperar o indispensável em nossa indústria bélica e até mesmo com a compra de equipamentos militares seja da França ou da Rússia, o que é providencial. Fica revelado que quando a mídia colonizada questiona a posição do Brasil em defesa do direito do Irã de avançar em seu desenvolvimento tecnológico soberano para fins pacíficos é porque, no fundo, também questiona o direito brasileiro de alcançar sua independência tecnológica, seja na área nuclear ou em outras. Ou seja, é clara a subordinação editorial desta mídia aos interesses imperiais ditados pelos grandes anunciantes vinculados à fabricação de armas.
É por isso que os maiores absurdos são divulgados de modo distorcido e importantíssimos fatos são sonegados de modo escandaloso. Querem que o Irã se submeta a ditames externos. Sem qualquer comprovação, afirma-se que o Irã está fabricando bombas nucleares, tal como a mídia difundiu quando o Brasil passou a dominar a tecnologia de enriquecimento de urânio. Mas, por que sequer cogita-se uma inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica nas instalações nucleares de Israel? Monumental hipocrisia! Por que sequer cogitam-se sanções a Israel pelo descumprimento, com desprezo, das Resoluções da ONU sobre a Questão Palestina?
Vargas e Mossadeg
Não é simples o desafio de Lula e na altura que escrevemos esta análise ele ainda não chegou pela primeira vez a Teerã, provavelmente a primeira visita de um presidente brasileiro lá. Guardadas as enormes diferenças históricas e culturais entre os dois povos, há elementos comuns. Os mesmos interesses que conspiraram contra o nacionalismo de Vargas e o levaram ao suicídio, também conspiraram para derrubar , em 1953, o governo de Mossadeg, general nacionalista que também como no Brasil havia estatizado o petróleo iraniano. Instalou-se em Teerã, com o apoio o imperialismo petroleiro, uma das mais sanguinárias ditaduras que o mundo conheceu, a do Xá, derrubada apenas em 1979 pela Revolução Iraniana que novamente estatizou o petróleo e outros segmentos importantes da economia, com monumental apoio popular. O curioso é que quando o Xá Reza Pahlev ainda estava no poder sob o controle do imperialismo anglo-saxônico, teve início um programa nuclear iraniano, então interessante para Washington e Londres. Só que esqueceram-se de combinar com as massas revolucionárias iranianas que varreram aquele regime despótico.
Na sua dialética de retirante Lula teve que fortalecer a teimosia de Dona Lindu e enfrentar obstáculos gigantescos, verdadeiras penas de morte do cotidiano, até chegar onde chegou. Tudo poderia parecer inalcançável, tanto agora para muitos parece ser impossível alcançar uma saída para esta crise que ameaça o Irã por meio do diálogo, sem sanções e sem guerra.
O Brasil, muito embora seus governos conservadores, é um país que tem história de posicionamentos independentes contra esta ideologia das sanções. Na década de 70, o Brasil enfrentou o embargo ocidental contra o Iraque que havia acabado de nacionalizar sua economia. Em boa medida o Brasil tem, legitimamente, desobedecido o descabido bloqueio imposto ilegalmente pelos EUA contra Cuba, e, mais que isto, lá tem instalado empresas estatais, realiza obras de infra-estrutura e, sobretudo, cooperando na produção de alimentos e com o envio de toneladas de alimentos ao povo cubano que teve sua economia devastada pela mais recente furacão. O Brasil votou sempre corretamente na ONU em questões emblemáticas como a autodeterminação do Timor Leste, do direito ao Estado Palestino. O Brasil reconheceu e apoiou o governo revolucionário de Agostinho Neto, em Angola, mesmo quando a guerra ainda a intervenção imperial dos EUA-África do Sul continua matando angolanos. O episódio provocou até reclamação do sinistro Kissinger a Geisel de que o Brasil estava fazendo o jogo dos comunistas, posicionando-se ao lado de Cuba. A resposta de Geisel deveria ter servido de lição para o chanceler brasileiro que, com candura, tirou os sapatos sob a ordem de um guardinha de alfândega nos EUA: "Secretário, a política externa brasileira para a Africa nao está em debate com o senhor".
E, mais recentemente, o governo Lula foi contra a intervenção militar no Iraque e está mais que provado que sanções desta natureza não oferecem qualquer solução civilizada, humana, democrática. Prova é que o Prêmio Nobel da Paz, Barak Obama, acaba de enviar mais 30 mil soldados para o Afeganistão, e as encomendas para a indústria bélica nos EUA seguem avançando, seja em mísseis ou em urnas mortuárias para os jovens estadunidenses voltarem, quando nao voltam doidos.....
Cooperação versus sanção
O importante é destacar que o presidente que agora quer convencer o mundo de que precisamos inaugurar uma nova era de diálogo para a solução dos problemas da paz é o mesmo que está buscando desenvolver ações concretas no Brasil e em outras partes para solucionar também os gravíssimos problemas da fome. Claro está que quando se trata de vencer a guerra contra a fome, a grande mídia não tem tanto interesse em dar informações amplas. Mas, quando se trata de temas relacionados à questão bélica - vinculadas aos sórdidos interesses dos anunciantes que fabricam armas - o noticiário se agiganta. Bilhões de dólares logo aparecem para pacotes destinados a salvar bancos, mas jamais aparecem recursos para fazer uma guerra de verdade contra a fome.
Assim, de um lado está a política de cooperação internacional que instala a Embrapa na África bem como em Cuba , Venezuela e Timor Leste para ajudar na produção de alimentos. Até mesmo no Haiti a presença brasileira, reconhecida por Fidel Castro, destaca-se também por implementar obras de infra-estrutura, instalação de hospitais, inclusive com exemplar cooperação entre médicos brasileiros e médicos cubanos, que lá estão às centenas. Ou seja, enquanto o Brasil já começa a exportar também tecnologias para a produção de alimentos pelo mundo, enquanto Cuba exporta médicos e professores, os EUA seguem exportando armas e soldados.
É com esta responsabilidade e com este histórico moral da política externa brasileira que Lula pisa pela primeira vez em solo iraniano para defender, com legitimidade, o fim das políticas de sanções, o direito dos povos a alcançarem soberania tecnológica nuclear para fins pacificos, no que estará defendendo também o inquestionável direito do Brasil em avançar neste desenvolvimento tecnológico, apesar das pressões que já se fazem sentir, como informa o Ministro Sérgio Rezende, da Ciência e Tecnologia, alertando para as dificuldades brasileiras em ter acesso a determinados equipamentos no mercado mundial.
(*) Beto Almeida é jornalista, presidente da TV Cidade Livre de Brasília
sexta-feira, 30 de abril de 2010
POLÍTICA - Lula, o mais influente do mundo.
Os petistas e simpatizantes do nosso partido e do governo Lula que durante os últimos 30 anos ouviram a mesma ladainha da nossa direita, com todo o tipo de preconceito que nem preciso reproduzir aqui contra o presidente da República, na certa acompanham com alegria o reconhecimento internacional que ele angaria mundo afora.
O exemplo mais recente agora vem da prestigiada revista norte-americana Time. Ela acaba de eleger o presidente do Brasil como o líder mais influente do mundo este ano. Sim, 1º lugar. Numa lista que tem o presidente Barack Obama, Nancy Pelosi (presidente da Câmara dos Representantes dos EUA), a ex-candidata a vice-presidente do Império, Sarah Palin...
É uma vitória para todos nós comemorarmos. O chefe do governo brasileiro tem nessa escolha da Time o reconhecimento do sucesso não apenas da sua tão combatida (internamente) política externa, mas também do desempenho de seu governo.
O curioso nessa história é que apesar de já ter sido reconhecido, além da Time agora, pelo Financial Times (Londres), Le Monde (Paris), El Pais (Madrid), Washington Post (DC-EUA) - apenas para citar alguns veículos internacionais -, aqui, no Brasil, a imprensa continua acometida do que Nelson Rodrigues chamava de "complexo de vira-lata". Insiste e teima mesmo em minimizar a liderança do presidente Lula e seu prestígio internacional.
Uma postura lamentável que mostra o quão distante está dos fatos a nossa grande mídia em sua preocupação em fazer o jogo político a favor da oposição. Bem, para os que se mantém com complexo de vira-lata... Deu na revista Time!
Fonte: Blog do Zé Dirceu.
sexta-feira, 26 de março de 2010
O PAPEL DE LULA NO CENÁRIO INTERNACIONAL.
Imagino que o presidente continuará sempre ligado às questões políticas brasileiras. Mas, Lula tem todas as condições de pleitear uma carreira mundial que corresponda ao seu tamanho político. Ou teria? Na grande Imprensa tem sido cada vez mais freqüentes observações no sentido de diminuir este suposto prestígio internacional do presidente. Só nas últimas semanas, eu ouvi três vezes a mesmíssima previsão: o comportamento lastimável que o presidente Lula tem desempenhado ultimamente sepultou as chances reais que ele tinha de vencer o Prêmio Nobel da Paz. Este diagnóstico foi feito, recentemente, pelo advogado Ives Granja, em entrevista ao Jô; pelo jornalista João Domingos, do Estado de São Paulo; e pelo jornalista Cristiano Romero, do Valor Econômico, nas últimas edições do Fatos e Versões – que eu tenha visto. Claro que a previsão do início do declínio de Lula sempre vem acompanhada do escudo retórico “claro que o presidente é muito admirado mundialmente, MAS...”
O problema, na visão dos “entendidos”, é que o desempenho internacional de Lula, ainda que espetacular nos últimos 7 anos, está sendo maculado exatamente neste último ano! Vejam vocês, que infortúnio do presidente! Em linhas gerais, Lula tem sido muito criticado pela simpatia a governos ditatoriais de esquerda (como no episódio em que criticou o recurso da greve de fome, utilizado por um dos dissidentes do Governo cubano que veio a falecer); e por estar se “intrometendo” no conflito do Oriente Médio, entre israelenses e palestinos, adotando postura complacente demais diante do Irã, especialmente no que tange tecnologia nuclear. Bom, ninguém com o mínimo de bom senso pode pensar que Lula será a solução para este conflito milenar. Mas, será que é impossível imaginar que o nosso presidente tenha papel relevante na condução das negociações? O porta-voz da Presidência palestina, Mohamed Edwan, afirmou que espera que o presidente Lula seja o próximo secretário-geral da Organização das Nações Unidas. O jornal israelense Ha'aretz classificou o presidente como o “profeta do diálogo”.
A suposta fraqueza de Lula – ser presidente de um país completamente afastado do conflito no Oriente Médio – pode tornar-se o trunfo. Os americanos e europeus não são levados a sério pelos palestinos, principalmente diante do justo argumento de que eles possuem os maiores arsenais nucleares do mundo, suficientes para destruir o planeta várias vezes (e, cá entre nós, pra quê a segunda?). Que moral têm os americanos para impedir o Irã de desenvolver tecnologia nuclear? A verdade é que a previsão do fracasso diplomático do presidente é feita, hoje, pelos mesmos que estão prevendo o fracasso de Lula desde o seu primeiro dia de Governo, não apenas na área diplomática, como na área econômica e na gestão como um todo. E o que aconteceu na realidade? O presidente Lula só fez aumentar seu alcance político, no mundo e nacionalmente. Nada disso impede que os apocalípticos continuem a prever os fracassos do presidente. Será que eles têm razão?
domingo, 21 de março de 2010
"LULA NÃO DEVE CEDER À PRESSÃO DOS EUA".
ESPECIALISTA DOS EUA: "LULA NÃO DEVE CEDER À PRESSÃO DOS EUA"
"Lula busca todos os lados na disputa pois tenta exercer o papel de mediador. A equipe de Obama tem dificuldade em entender esse conceito
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem sendo criticado recentemente por adversários por negar-se a participar da campanha dos Estados Unidos pela adoção de sanções intensificadas sobre o Irã.
Recentemente, Washington passou de uma breve fase de "engajamento" com o Irã em torno do programa nuclear iraniano para a atitude mais agressiva de ameaças e confrontos, que foi a estratégia seguida da administração Bush. Lula vem argumentando que isso é contraproducente.
O artigo "Visita indesejável" ("Tendências/Debates", 23/11/09), do governador de São Paulo, José Serra, resume os argumentos apresentados contra Lula. Serra ataca Lula por ter recebido Ahmadinejad, dizendo que a eleição do presidente iraniano foi "notoriamente fraudulenta", que seu governo é repressivo e que ele nega a existência do Holocausto.
Na realidade, a primeira acusação é extremamente implausível, como sabe qualquer pessoa que tenha examinado as evidências. A margem de vitória foi de 11 milhões de votos e centenas de milhares de pessoas testemunharam a contagem. Os resultados foram condizentes com as pesquisas de intenção de voto e com as pesquisas de boca de urna.
Não há dúvida de que o governo iraniano é repressivo, embora se possa argumentar que não é mais repressivo do que o de certos aliados dos EUA.
É o caso do Egito, que ultimamente vem prendendo centenas de ativistas e candidatos oposicionistas para afastá-los da próxima eleição.
Quanto à negação do Holocausto por parte de Ahmadinejad, vale lembrar que Lula a condenou fortemente.
Deveria Lula recusar um encontro com Hillary Clinton, que apoiou a invasão e a ocupação do Iraque? Essa guerra completamente desnecessária já matou mais de 1 milhão de pessoas, segundo as estimativas mais confiáveis. Isso é crime, assim como o são as mortes contínuas de civis cometidas por forças dos EUA no Afeganistão.
Lula se reúne com todos os lados na disputa porque está tentando exercer um papel de mediador para impedir outra guerra desnecessária. É isso o que fazem os mediadores.
A equipe de Obama, assim como a do presidente George W. Bush, tem dificuldade em compreender esse conceito. Ela adota uma abordagem "Poderoso Chefão" para as relações internacionais: "Vamos lhes fazer uma oferta que vocês não poderão recusar".
A abordagem da equipe de Lula é oposta, algo que pode dever-se a sua experiência sindical: ele procura o diálogo, as negociações e as concessões, visando solucionar conflitos.
Serra também ataca Lula por ter se recusado a reconhecer o governo de Honduras, eleito sob uma ditadura, ao mesmo tempo em que se reunia com Ahmadinejad.
As duas situações, entretanto, não são comparáveis: a derrubada militar do governo hondurenho eleito é uma ameaça à democracia em toda a América Latina, enquanto o Irã não o é. O Brasil não pode influenciar a política interna do Irã. Já a América Latina tem acordos regionais e uma coordenação de políticas capazes de subsidiar a democracia e prevenir a ocorrência de mais golpes militares no hemisfério.
O único tema comum aqui é a recusa de Lula em render-se às prioridades de Washington. Os especialistas não poderiam ter previsto que o Partido dos Trabalhadores, conduzindo um ex-operário de fábrica à Presidência, pudesse ter feito o Brasil avançar como líder no palco diplomático mundial mais que qualquer governo anterior conseguiu.
Mas Lula se tornou um dos líderes mais respeitados do mundo e, por essa razão, possui potencial singular de ajudar a resolver alguns dos conflitos políticos mais sérios do planeta.
Era previsível que Lula fosse criticado por opor resistência aos EUA. Assim que Washington lança uma campanha contra um governo satanizado, a imensa maioria da mídia internacional adere a ela, e qualquer um que se opuser no caminho pagará um preço. Isso se aplica independentemente de o governo em questão ser uma teocracia repressiva, como o Irã, ou uma democracia, como Venezuela ou Honduras antes do golpe de junho.
Em relação a todos esses casos, Lula vem assumindo uma atitude pautada por princípios e que atende aos interesses mais verdadeiros não apenas do Brasil, mas da humanidade.
Nós, cidadãos dos Estados Unidos, apreciamos particularmente seus esforços para nos manter fora de mais uma guerra insensata, já que nossa própria sociedade civil e nossas instituições democráticas tão frequentemente não têm sido fortes o suficiente para fazê-lo.
O mundo precisa desse tipo de liderança -precisa seriamente dela."
FONTE: escrito por MARK WEISBROT, codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington-EUA ( www.cepr.net ). Publicado hoje (21/03) na Folha de São Paulo, com tradução de Clara Allain.
Sobre o autor, no referido site do CEPR encontramos:
"Mark Weisbrot is co-director of the Center for Economic and Policy Research, in Washington, D.C. He received his Ph.D. in economics from the University of Michigan. He has written numerous research papers on economic policy, especially on Latin America and international economic policy. He is also co-author, with Dean Baker, of Social Security: The Phony Crisis (University of Chicago Press, 2000).
He writes a weekly column for The Guardian Unlimited (U.K.), and a regular column on economic and policy issues that is distributed to over 550 newspapers by McClatchy-Tribune Information Services. He also writes a column for Brazil’s largest newspaper, Folha de Sao Paulo. His opinion pieces have appeared in the New York Times, Washington Post, the Los Angeles Times, and almost every major U.S. newspaper. He appears regularly on national and local television and radio programs. He is also president of Just Foreign Policy."
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
NO DIA 26 DE MARÇO EM JERUSALÉM.
Em novembro passado o governo brasileiro recebeu e presidente do Irã, Ahmadinejad, para tratar do programa nuclear iraniano. Desde que o convite foi formulado, durante e após a visita, na imprensa nacional só apareceram críticas a Lula.
O máximo que circulou na mídia, como justificativa do Planalto ao convite foi falar, faz parte da política; e é preferível manter o diálogo com o Irã, do que isola-lo. Houve uma referência a um incentivo do Obama ao encontro
As críticas partiram de todos os colunistas, Jabor, Mainardi, Caio Blinder.... este último ao apresentar sua origem judia, dava mais peso aos seus argumentos. Afinal, Israel é o país ameaçado pelo programa iraniano. Os clubes e associações judias como a Hebraica e o Israelita ( SP, RJ, RS....) também se manifestaram. A unanimidade midiática era com este tipo de gente não podemos conversar. Não houve uma só linha em contrário.
Logo a seguir, na primeira semana de dezembro, Lula esteve na Alemanha. Antes da reunião do clima em Copenhague . Naquela visita, Lula e Ângela Merkel deram uma entrevista coletiva cuja ênfase era as expectativas e propostas de cada país para Copenhague.
Mas, Merkel falou do Irã. Sou lhe grato por isto. Caso contrário não teria os esclarecimentos que recebi.
Na tradução apresentada na filmagem ela dizia que estava perdendo a paciência com Ahmadinejad. Era evidente a censura ao Brasil pela recepção dada iraniano, na semana anterior. Também transpareceu o ar professoral que a primeira ministra assumia no caso. Como se estivesse em sala de aula, controlava travessuras de alunos.
Lula com firmeza respondeu com três afirmações.
1. O programa nuclear iraniano deve ser voltado para fins pacíficos.
2. Quem tinha autoridade moral para falar com o Irã era o Brasil por que tem na sua Constituição a proibição do uso de energia nuclear para fins limitares.
3. Se os demais paises detentores de armamentos nucleares quisessem impor restrições aos iranianos, deveriam primeiramente desfazer-se de seus arsenais. Caso contrário o Irã não poderia ser forçado a nada.
Não há registro da filmagem após a resposta do Lula. Se houvesse alguma réplica de Merkel, isto nos seria apresentado. Acredito que não houve. Fiquei com sensação de que a professora metera o rabo entre as pernas e se escafedera. Fora buscar lã e saira tosquiada, como se diz no RS . Eu como brasileiro fiquei com a alma lavada. Nunca antes na história deste país, assistira ao vivo e a cores, um presidente brasileiro reduzir a pó um primeiro ministro europeu. ....E dos grandes. Para mim tudo estava concluído e eu satisfeito. Mas, eu estava enganado.
O tempo passou, e o epílogo ainda está por vir.
No dia 26 de março em Jerusalém, a universidade concederá o titulo de doutor-honoris causas a Lula.
As conclusões do episódio são riquíssimas:
a) Apesar das paixões, mesmo que até nacionalistas, o julgamento adequado sempre pode ser feito, se a paixão for contida. Paixão e razão. O dilema eterno. A Universidade de Jerusalém enxergou no gesto do Lula o que a imprensa brasileira foi incapaz. Como explicar isto sem pensar na paixão versus razão?
b) O julgamento definitivo é feito por quem realmente está envolvido no problema, mas com propósitos de evoluir. A Universidade de Jerusalém é um projeto de judeus e árabes pela paz. Para eles entender Lula é fácil. Nem a Hebraica em Sp, nem o Caio Blinder
Fazendo a tradução para o Brasil dos nossos dias. Todos devem ter opinião sobre tudo. Mas, há opiniões que tem mais peso do que outras. Há opinões que claramente querem barrar o nosso crescimento como povo. Há até opiniões que representam apenas interesses individuais.




