A escolha de Marina, por Wagner Iglecias
Por Wagner Iglecias
Marina Silva anunciou somente ontem, domingo, seu apoio ao candidato Aécio Neves. Pagou o preço de, uma vez mais, passar a imagem de indecisão. Até ai, nada de tão novo num passivo que ela já criou para si ou que já foi carimbado nela durante o 1o. turno com as tantas idaas e vindas relativas a seu programa de governo e ao papel de seus aliados. O anúncio pode, também, cobrar um outro preço, interno, já que traz em si o potencial de desestimular muitos de seus correligionários da Rede Sustentabilidade, engajados nos últimos anos de forma sincera e muitas vezes idealista na construção de uma terceira via com potencial para alcançar o comando do país.
Para Aécio o apoio é muito bem vindo, ainda que um pouco tardio e já sem o impacto que teria caso tivesse sido anunciado horas depois de conhecidos os resultados do 1o. turno. Embora, como afirme com razão a candidata Dilma, ninguém seja dono dos votos de ninguém, o aporte de Marina confere à campanha de Aécio um pouco mais do argumento mudancista. Além disso o ajuda na estratégia de apresentar-se ao eleitor como o líder de uma frente ampla de políticos que representam o anseio pelo novo. Ainda que seja lá o que isso, o novo, queira dizer na atual conjuntura. Como se sabe já haviam aderido ao tucano os ex-candidatos Pastor Everaldo e Eduardo Jorge, aos quais vem agora a se juntar Marina.
Para Marina a demora em anunciar sua posição tem também um aspecto positivo. Dá ao eleitor a idéia de que foi uma decisão bastante ponderada. Mais do que isso, pautada em questões programáticas, e não no adesismo rápido voltado a cargos, tão corriqueiro na nossa tradição política. E, jogada de mestre, Marina aderiu a Aécio mesmo sabendo-se que suas exigências em termos programáticos foram aceitas de forma meio solta pelo candidato direitista. É dificil, de fato, supor que um partido conservador como o PSDB vá abraçar com grande entusiasmo questões ligadas aos índios, à reforma agrária ou ao menor infrator, como Marina exigiu para aderir. No entanto, para todos os efeitos Marina botou suas condições na mesa. Caso eventualmente eleito, se Aécio vier a leva-las em consideração Marina sempre poderá lembrar ao eleitor que foram sugestão sua. Caso Aécio ignore as condições de Marina ela poderá dizer que, não tendo exigido cargos, não participou do governo e, portanto, nada teria tido a ver com as decisões de Aécio em não as suas sugestões.
Faltou entender, nessa aliança, como fica a questão do fim da reeleição. Aécio sinalizou que, se eleito, fecha questão. Mas só para 2022. Marina, provavelmente, desejasse o fim da reeleição já para 2018 ou, num acordo maior, com a ampliação dos mandatos para cinco anos e seu fim em 2019. Figura nacionalmente conhecida e após duas eleições presidenciais perdidas, Marina talvez calcule fazer a mesma trajetória de Lula, derrotado em três oportunidades antes de finalmente alcançar a presidência. Se for isso mesmo, Marina poderá estar no jogo em 2018. Ou 2019. Aécio, tendo sinalizado que só topa discutir para 2022, também. E ainda há Geraldo Alckmin, que teve votação consagradora para comandar uma vez mais o mais importante estado da federação. Natural que pense em vôos ainda maiores, até porque não poderá candidatar-se a um novo mandato para o governo paulista. Em política, assim como na vida, não existe o “se”. Mas se Aécio for eleito, deverá haver (se já não houve) uma engenharia complexa para harmonizar tantos interesses.
Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.
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