Intercept: Lava Jato fez fumaça com denúncia contra Lula e Deltan, messiânico, defendeu acordo que deu vantagens inéditas a corruptores
Da Redação



A Operação Lava Jato usou a denúncia contra o ex-presidente Lula no caso do sítio de Atibaia politicamente, para criar uma cortina de fumaça e proteger a Procuradoria Geral da República no caso da investigação do usurpador Michel Temer.
A denúncia contra Lula poderia ter sido apresentada no dia 17 de maio de 2017, mas foi adiada por estratégia de marketing.
Naquele dia, o diário conservador carioca O Globo noticiou que o usurpador Temer teria dado aval ao empresário Joesley Batista, da JBS, para comprar o silêncio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha — ambos do MDB.
Porém, logo a PGR de Rodrigo Janot se viu questionada pelos advogados do usurpador.
O áudio no qual foi baseada a denúncia não havia ainda passado por perícia da Polícia Federal.
Além disso, um dos responsáveis pela delação do empresário Joesley Batista, o ex-procurador da República Marcelo Miller, que foi da Lava Jato na PGR e integrou a equipe de Janot, era suspeito de atuar dos dois lados do balcão.
Mais tarde, Miller foi indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo próprio MPF sob a acusação de receber R$ 700 mil do escritório de advocacia que fez o acordo de delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
Miller, de acordo com a acusação, começou a receber o dinheiro em fevereiro de 2017, mas só se afastou oficialmente do cargo em abril daquele ano.
“No período compreendido entre fevereiro e 05/04/2017, serviu a dois senhores: mantendo-se no cargo de Procurador da República e valendo-se da confiança do Procurador-Geral da República e membro auxiliar do Grupo de Trabalho Lava Jato, orientou a confecção de acordo de colaboração entre o MPF e seus ‘clientes’, em razão de promessa de pagamento ofertada pelos denunciados Joesley e Francisco”, diz a acusação contra ele.
Francisco é o advogado Francisco de Assis e Silva, que representava o empresário dono da JBS.
Trecho da denúncia contra Miller
Os próprios integrantes da Lava Jato ficaram desconfortáveis com os termos da delação dos Batista, de acordo com o Intercept:
A força-tarefa também se preocupava com as condições do acordo com a JBS, que previa, inicialmente, total imunidade aos delatores: eles não seriam denunciados criminalmente, ficariam livres da prisão e de tornozeleira eletrônica e poderiam se manter no comando das empresas. Dallagnol reportou aos colegas que apoiadores da Lava Jato consideraram “absurdo os batistas nos EUA rindo da nossa cara”, referindo-se aos irmãos Joesley e Wesley Batista, que deixaram o Brasil no mesmo dia em que fecharam a delação.
Apesar das suspeitas, no calor da hora Deltan Dallagnol escreveu um longo texto de apoio a Rodrigo Janot, que compartilhou num grupo com uma centena de integrantes do MPF.
No texto, Deltan defendeu o acordo feito com os irmãos Joesley e Wesley.
Ele aproveitou para “vender” uma reforma anticorrupção que é prerrogativa do Congresso, não do Ministério Público Federal, que não foi eleito para isso.
Finalmente, sugeriu a Janot dar uma entrevista exclusiva ao Jornal Nacional como gatilho de uma “estratégia de marketing”.
Janot refugou. Mais tarde, fez uma manifestação oficial ao STF, defendendo o áudio que incriminava Temer.
Meses depois, com a comprovação do envolvimento de Miller com os irmãos Batista, os acordos de delação foram cancelados a pedido do próprio Janot.
Miller conseguiu trancar a ação do MPF contra si, por “inépcia”.
A defesa apaixonada de Miller e do acordo de delação dos irmãos Batista, feita pelo beato Dallagnol — que não tinha participado do processo —- mostra que o chefe da Lava Jato em Curitiba parecia se mover mais pelo messianismo do que pela cautela:

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