Antes de Lula falar em jararaca, Deltan já planejava degola de ex-presidente: “Quem pode arrancar a cabeça do nosso alvo e queimar é a OAS”
Da Redação
Era 16 de fevereiro de 2016.
Os procuradores da Força Tarefa da Lava Jato em Curitiba, agora extinta, estavam em atividade frenética, trocando provas com colegas da Suíça e dos Estados Unidos ainda sem passar pelo Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional (DRCI), do Ministério da Justiça.
É o que manda a lei.
Tudo indica que, de maneira ilegal, tentavam esconder informações do governo.
Dilma Rousseff ainda ocupava o Planalto e seu ministro da Justiça era José Eduardo Cardozo.
Encarregado da cooperação internacional, o procurador Vladimir Aras, baseado em Brasília, fazia alertas a Deltan Dallagnol sobre o risco de algum trâmite ilegal comprometer a Lava Jato no futuro.
Os contatos “informais” incluiam a presença clandestina, no Brasil, de investigadores estrangeiros e viagens dos promotores da Lava Jato à Suiça e aos Estados Unidos.
Uma das preocupações de Deltan era com o dinheiro da multa que a Petrobras teria de pagar nos três paises. Ele queria que a maior parte do dinheiro ficasse no Brasil.
Mas na troca de mensagens de 16 de fevereiro de 2016 a preocupação maior era com as provas — ou falta de — contra o ex-presidente Lula.
“É possível que [José Carlos] Bumlai saiba de origens de $ para Lula que não seja da nossa investigação”, especulou Deltan Dallagnol na troca de mensagem com colegas.
Ele se referia ao pecuarista, amigo de Lula, cuja delação incluiu a declaração de que teria emprestado um engenheiro e um arquiteto para a reforma do sítio atribuído a Lula em Atibaia.
“Quem pode arrancar a cabeça do nosso alvo e queimar é a OAS”, escreveu Deltan sobre Lula, acrescentando: “Nossa pressão teria que ser forte na OAS”.
Deltan, um homem que se diz muito religioso, exibia sangue nos olhos.
O chefe da Lava Jato parecia preocupado em basear a acusação contra Lula apenas na delação de Léo Pinheiro, o executivo da OAS.
Pinheiro, para reduzir sua pena, disse que a empresa deu o triplex do Guarujá a Lula e fez a reforma no sítio frequentado pela família do ex-presidente em troca de vantagens para a empreiteira.
Mas a acusação não conseguiu demonstrar que Lula era dono do sítio, nem do triplex, nem que ao longo de seus mandatos tenha tomado alguma decisão formal favorecendo a empreiteira.

Três dias depois desta mensagem, Moro autorizou a interceptação dos telefones ligados a Lula, inclusive do escritório de advogados do ex-presidente.
A escuta duraria de 19 de fevereiro até 16 de março.
Foi neste ínterim, em 5 de março, que Moro determinou a condução coercitiva do ex-presidente.
Lula, em entrevista na sede nacional do PT, depois de depor, afirmou: “Se quiseram matar a jararaca, não fizeram direito, pois não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva”.
Em retrospectiva, está claro que Moro determinou a condução coercitiva para provocar Lula, na expectativa de que em suas conversas telefônicas o ex-presidente revelasse algum plano para embaraçar as investigações — o que não aconteceu.
A conversa ilegalmente interceptada entre a presidenta Dilma e Lula, gravada depois que a escuta telefônica já havia sido suspensa por Moro, serviu ao intuito político do juiz, que era derrubar Dilma para afastar o PT do poder.
O processo de impeachment, afinal, estava em andamento.
Em 23 de fevereiro, Dallagnol antecipou ao juiz Sergio Moro qual seria o conteúdo da denúncia contra Lula, que só apresentaria meses depois.
Em 5 de março, dia da condução coercitiva, a procuradora Carol Rezende demonstrou preocupação com a falta de provas: “Vamos torcer pra esta semana as coisas se acalmarem e conseguirmos mais elementos contra o infeliz do Lula”.
No dia seguinte, voltou a falar na cabeça de Lula, já depois do discurso da jararaca: “Depois de ontem, precisamos atingir Lula na cabeça (prioridade número 1), para nós da PGR, acho que o segundo alvo mais relevante seria Renan [Calheiros]”, escreveu na troca de mensagens.

Dallagnol só formalizou a primeira denúncia contra Lula em 14 de setembro, na famosa entrevista do power point em que não apresentou provas, mas apenas convicções.
De acordo com a defesa de Lula, ele fazia pressão junto à PGR para que Lula fosse denunciado por “organização criminosa”– por isso, incluiu na apresentação da denúncia do triplex fatos não relacionados ao apartamento do Guarujá.
O power point falou em “enriquecimento ilícito”, por exemplo, mas não apresentou qualquer conta bancária de Lula no Brasil ou no Exterior — mais tarde o fato do triplex e do sítio não estarem em nome do ex-presidente foi usado contra ele, como “prova” de ocultação de patrimônio.
A frustração dos procuradores tinha razão de ser: não havia prova definitiva, tipo batom na cueca.
Uma das grandes apostas da Lava Jato havia caído por terra: a operação esperava encontrar alguma empresa de fachada ligada mesmo que indiretamente a Lula na contabilidade da filial da empresa Mossack&Fonseca, baseada na avenida Paulista, em São Paulo.
O jornalista Ken Silverstein, que havia investigado a empresa panamenha, foi citado por praticamente toda a mídia brasileira na época.
“Todo mundo conhece a Mossack Fonseca no mundo da lavagem de dinheiro”, ele disse, citando como clientes Bashar Assad, Muammar Gaddafi e o presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe.
O nome de Lula acrescentado a esta lista seria a cereja no bolo da Lava Jato.
Em vez de Lula, no entanto, os papéis da Mossack&Fonseca demonstraram que uma herdeira do Grupo Globo pagava as anuidades de três empresas de fachada no Exterior, em Nevada, no Panamá e nas Ilhas Seychelles.
Outra linha de investigação na qual a Lava Jato ainda apostava àquela altura era a das “falsas” palestras de Lula.
Só que as provas que inocentavam o “9”, ou 9 dedos, apelido que os procuradores deram a Lula, eram suprimidas.
Ouvida informalmente, a testemunha Paulo Dalmazzo, da Andrade Gutierrez, disse que tinha visto uma palestra de Lula e afirmou que “foi muito boa e o cara saiu ovacionado”.
“Não botei no termo”, acrescentou o procurador, engavetando a informação que beneficiaria o réu.

Abaixo, o quinto pacote de mensagens que o perito contratado pela defesa de Lula encaminhou ao ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal.
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