Bolsonaro semeia o que Trump quase colheu
Trump denunciou, repetidamente, uma fraude que não conseguiu provar

Trump tentou permanecer no poder sem ter recebido os votos necessários para isso. Marcou um comício para o mesmo dia, 6 de janeiro, em que o Congresso certificaria a eleição de Joe Biden. O parque Ellipse, local escolhido para a manifestação, fica a uma pequena distância do Capitólio. Trump incitou seus apoiadores a caminharem e deterem o suposto roubo que ocorreria pelas mãos de senadores e deputados. Denunciou, repetidamente, uma fraude que não conseguiu provar.
A preparação para esta apoteose foi longa e eficaz em convencer muita gente da justeza da causa.
O jornal New York Times recolheu milhares de vídeos dos eventos desse dia, requisitou até mesmo as imagens da câmeras corporais dos policiais que tentaram conter a invasão ao Capitólio. Depois de meses de trabalho, o jornal apresentou o documento em vídeo denominado “A Fúria”. Aqui foram selecionadas cinco cenas da invasão, bem como cinco falas de Trump.
Ao final relembra-se a fala, há alguns dias, de Jair Bolsonaro a propósito da eleições de 2022.
* * *
Cena I
Palavras de Trump
“Essa não é apenas uma questão de política interna - é uma questão de segurança nacional.
Portanto, hoje, além de contestar a certificação da eleição, estou conclamando o Congresso e as legislaturas estaduais a aprovarem rapidamente reformas eleitorais abrangentes, e é melhor se fazer isso antes que não tenhamos mais país algum.
Hoje não é o fim, é apenas o começo.
Com a sua ajuda, ao longo dos últimos quatro anos, construímos o maior movimento político da história do nosso país e isso é inquestionável. (…)
Mas nossa luta contra os grandes financiadores de campanha, a grande mídia, as grandes empresas de tecnologia e outros está apenas começando. Este é o maior [movimento] da história. Nunca houve um movimento assim. (…)
Devemos impedir o roubo e, em seguida, devemos garantir que essa fraude eleitoral ultrajante não aconteça novamente, que nunca possa acontecer novamente.”
Estes são trechos do discurso de Trump aos participantes do comício no Ellipse, parque ao lado do portão sul da Casa Branca. O comício aconteceu a apenas uma hora antes do Congresso começar o processo de confirmação da vitória de Biden no Colégio Eleitoral.
Ação do apoiadores de Trump
Um ônibus, chegando em Washington DC para as manifestações de 6 de janeiro, todo pintado com as cores da bandeira do Estados Unidos e as inscrições: “Marcha por Trump” e “ para demandar transparência e integridade das eleições envie a palavra ‘recontagem’ para o número…”
Os passageiros fazem um juramento, repetindo em coro: “juro fidelidade à bandeira dos Estados Unidos da América e à república que ela representa, uma nação, sob Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos.”
Após a vibração no final, entra a voz do locutor: “eles vieram de todos os 50 estados movidos por algum senso de dever patriótico …”
“É muito mais do que apenas lutar pelo presidente Trump. É realmente importante para o nosso modo de vida. O sonho americano, contra notícias falsas”, diz um dos passageiros.
Complementa o locutor: “para protestar contra uma eleição que eles acreditavam ter sido roubada.”
* * *
Cena II
Palavras de Trump
“Nenhum de nós aqui hoje quer ver nossa vitória eleitoral roubada por insolentes democratas, radicais de esquerda. É isso que eles estão fazendo. E [nossa vitória é] roubada pela mídia mentirosa. Isso é o que eles fizeram e o que estão fazendo. Nunca vamos desistir, nunca vamos reconhecer [a derrota]. Isso não vai acontecer. Não se reconhece quando há roubo envolvido.”
“Nosso país está farto. Não vamos aguentar mais e é disso que se trata. E para usar um termo que vocês mesmos criaram: vamos parar o roubo. Hoje vou apresentar algumas das evidências que provam que vencemos esta eleição e a vencemos de forma esmagadora. Esta não foi uma eleição apertada.”
Ação dos apoiadores de Trump
“Nós amamos Trump! Nós amamos Trump!”
O entorno do Congresso já recebe muita gente. São 12h50 e um grande número de Proud Boys, um grupo radical de extrema direita, se aglomera com outros manifestantes bem perto da cerca interposta pela polícia do Capitólio.
Joe Biggs, um dos organizadores do grupo na Flórida, está na liderança, quando é abordado por Ryan Samsel, um apoiador de Trump da Pensilvânia. Eles conversam, não se sabe o quê. Mas um minuto depois, Samsel é o primeiro a se aproximar da linha policial em evidente postura de confronto. Neste momento o protesto se torna violento.
“USA, USA, USA!”
A multidão se aproxima da frágil cerca guardada por poucos soldados. Sem hesitar, a multidão domina a polícia. Perto dali, um segundo grupo avança em outra abordagem. Outros pulam cercas. E agora centenas de manifestantes avançam em várias frentes.
“DC é uma [palavrão] de uma zona de guerra”
A polícia recua para o prédio do Capitólio.
“É para isso que nós viemos! Yeah!”
Uma mentalidade de turba começa a tomar conta. A polícia está em tão menor número que é forçada a recuar novamente para defender com mais firmeza os pontos de acesso ao Capitólio.
Cinco minutos após o início do cerco dos apoiadores de Trump ao prédio do Congresso dos Estados Unidos, o chefe da Polícia do Capitólio pede apoio da polícia local, conhecida como Polícia Metropolitana, e pede a outros líderes do Capitólio que mobilizem a Guarda Nacional.
Um dos presentes desafia um soldado: “Você fez um juramento! Isso não significa nada para você, não é?"
A Polícia Metropolitana chega em 15 minutos. A Guarda Nacional demoraria mais de 4 horas.
* * *
Cena III
Palavras de Trump
“Agora, cabe ao Congresso enfrentar esse ataque flagrante à nossa democracia. E depois disso, vamos descer [em direção ao Congresso], e eu estarei aí com vocês, vamos descer, vamos descer.
… vamos caminhar até o Capitólio, e vamos incentivar nossos bravos senadores, congressistas e mulheres, e provavelmente não vamos incentivar alguns outros.
Pois você nunca terá de volta nosso país com fraqueza. Você tem que mostrar força e tem que ser forte. Viemos exigir que o Congresso faça a coisa certa e conte apenas os eleitores que foram legalmente habilitados, legalmente habilitados.”
Ação dos apoiadores de Trump
Quando Trump termina de falar, milhares mais agora preenchem o espaço ao redor do Capitólio. Enquanto isso, dentro do prédio, Nancy Pelosi e Mike Pence começam a certificar os resultados das eleições presidenciais de 2020.
Uma hora depois do início do ataque, a multidão está lutando contra uma linha policial ao longo da face oeste do Capitólio. Mas essa violência se espalhará para vários pontos de ataque, à medida que manifestantes do lado oeste fluem ao redor do Capitólio e incitam a multidão no leste.
“Parem o roubo! Parem o roubo! Parem o roubo!”
Eles percebem que um andaime, erguido para a posse de Joe Biden, cobre uma escada que dá acesso direto a um nível superior e a dezenas de portas e janelas.
Três linhas policiais protegem essa rota. Mas no nível do solo, os oficiais estão em número tão menor que apenas alguns poucos cobrem esse ponto de acesso crucial.
Vários Proud Boys percebem a fraqueza e começam um luta contra a polícia e, com ajuda de outras pessoas na multidão, eles abrem o caminho.
No topo, eles brigam novamente com um pequeno grupo de oficiais … que desiste depois de apenas um minuto. A multidão agora tem acesso direto às entradas do Capitol.
“Não consigo acreditar que isso seja real. Conseguimos essa [palavrão]. ”
E mais centenas de manifestantes abaixo, avançam.
"Vamos! O cerco é nosso.”
É um caos total e está prestes a piorar.
Esta cena está sendo filmada a partir de incontáveis ângulos, permitindo juntar, momento a momento, o que vem a seguir. O Proud Boy Dominic Pezzola usa um escudo policial que roubou para quebrar uma janela.
E às 14h13, o Capitólio é violado. Michael Sparks, um apoiador de Trump de Kentucky, é a primeira pessoa a entrar.
* * *
Cena IV
Palavras de Trump
“A Suprema Corte teve ZERO interesse no mérito da maior fraude eleitoral já perpetrada nos Estados Unidos da América”, escreveu Trump no Twitter, ainda em dezembro, chamando a decisão de “um vergonhoso erro judiciário”.
Trump alegou fraude eleitoral generalizada sem evidências, enquanto Biden procedeu ao planejamento de sua administração, nomeando conselheiros seniores e escolhendo o gabinete, apesar dos esforços do presidente para minar sua legitimidade.
Trump, novamente no comício de 6 de janeiro, acusa a Suprema Corte e a imprensa: “Eu não estou feliz com a Suprema Corte. Ele adoram decidir contra mim”. “A mídia é o maior problema que temos, no que me diz respeito, o maior problema de todos. A mídia mentirosa e as grandes empresas de tecnologia.”
Ação dos apoiadores de Trump
“Abram a porta!” Uma multidão de 100 ou mais grita para entrar. E em alguns momentos, estão empurrando as portas do plenário da Câmara.
"Parem o roubo!"
Do outro lado, a Polícia do Capitólio ergue uma barricada e saca suas armas.
"Você é um traidor."
No plenário, os legisladores são evacuados para o fundo da câmara.
“Abram a porta!”
Ashli Babbitt, veterana da Força Aérea e apoiadora do Qanon, uma legião de adeptos de teorias da conspiração de extrema direita, está entre os primeiros a chegar aos fundos da Câmara.
"Abram a porta."
Eles veem os legisladores fugindo. O saguão poderia estar vazio se a Casa tivesse sido evacuada antes. Mas os invasores agora ficam furiosos. Zachary Alam, um apoiador de Trump da Pensilvânia, soca os painéis de vidro com os punhos nus.
“Abram a porta.”
Apenas três policiais e um segurança tentam conter. Nenhum está usando equipamento antimotim e mantém as armas no coldre. “Vai piorar.” "Abram a porta." Quando uma equipe de policiais fortemente armados chega agora, os três policiais se afastam.
A troca cria uma lacuna crucial que permite que os manifestantes espatifem o vidro.
São 14h44 e, atrás da porta, um policial saca sua arma. Babbitt salta para a janela e o oficial atira nela uma vez. É um ferimento fatal.
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Cena V
Palavras de Trump
“Olhando para todos os incríveis patriotas aqui hoje, nunca estive mais confiante no futuro de nossa nação. (...)
Se permitirmos que este grupo de pessoas assuma o controle ilegal de nosso país, porque é ilegal quando os votos são ilegais, quando a forma como eles chegaram lá é ilegal, quando os estados que votam recebem informações falsas e fraudulentas.”
Ação dos apoiadores de Trump
Quando a calma volta, o presidente tuíta novamente. Ele repete que a eleição foi anulada, chama seus partidários de grandes patriotas…
Nas semanas e meses seguintes, mesmo com um braço do governo acusando centenas de manifestantes, os legisladores republicanos continuam os esforços para normalizar o que aconteceu com uma mistura de negações e teorias da conspiração.
“Algumas das pessoas que violaram o Capitol hoje não eram apoiadores de Trump.”
“Eu sabia que essas são pessoas que amam este país, que realmente respeitam a lei, nunca fariam nada para infringir a lei. E então eu não estava preocupado."
Eles incluem Paul Gosar, que esteve no comício de Trump.
“O Deparatamento de Justiça está assediando patriotas pacíficos em todo o país.” E Andrew Clyde, visto numa barricada dentro do Congresso para conter os invasores a poucos metros de distância, diz: “não houve insurreição. E chamar isso de insurreição, na minha opinião, é uma mentira descarada.”
Os líderes republicanos bloqueiam uma investigação independente que poderia trazer novos detalhes à luz. “Tomei a decisão de me opor à proposta tendenciosa e desequilibrada dos democratas da Câmara de outra comissão para investigar os eventos de 6 de janeiro.”
E em maio, um importante republicano foi afastado da liderança do partido depois de culpar Trump por inspirar o motim.
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Tuíte de Trump após a invasão do Capitólio
“Estas são as coisas e eventos que acontecem quando uma vitória eleitoral esmagadora e sagrada é tão sem cerimônia e cruelmente retirada de grandes patriotas que foram mal e injustamente tratados por tanto tempo. Vão para casa em amor e em paz. Lembrem-se deste dia para sempre!”
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Palavras de Bolsonaro sobre as eleições de 2022
"As eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições"
"Eles vão arranjar problemas para o ano que vem. Se este método continuar aí, sem, inclusive, a contagem pública, eles vão ter problemas. Porque algum lado pode não aceitar o resultado. Este algum lado, obviamente, é o nosso lado, pode não aceitar o resultado"
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