terça-feira, 17 de agosto de 2021

"As guerras humanitárias americanas".

 

O que o momento Saigon do Afeganistão nos ensina sobre as 'guerras humanitárias' dos EUA

 

 
17/08/2021 12:22

Um dirigível passa no céu enquanto um helicóptero Chinook do Exército dos EUA sobrevoa Cabul, Afeganistão, 15 de agosto de 2021 (Reuters)

Créditos da foto: Um dirigível passa no céu enquanto um helicóptero Chinook do Exército dos EUA sobrevoa Cabul, Afeganistão, 15 de agosto de 2021 (Reuters)

 

Há 20 anos, o mundo foi inundado, e convencido, de que a ocupação do Afeganistão pelos Estados Unidos seria sua salvação. ''A realidade é que, nos últimos 20 anos, não transcorreu um só dia sem violência, e isso deixou o Afeganistão em ruínas'', declara Maram Susli, analista sírio-australina. Ela qualifica como ''ridícula'' essa ideia de real interesse dos EUA pelos direitos das mulheres, afinal quem alçou o Taleban ao poder foram os próprios EUA. Por quantas décadas mais o mundo deveria permanecer refém das narrativas de ''guerra humanitária'', pergunta ela.

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O que acabamos de testemunhar no Afeganistão é uma repetição histórica do 'momento Saigon'. Mas as horas finais da ocupação dos Estados Unidos foram acompanhadas por uma cacofonia de neoconservadores condenando a decisão de encerrar a guerra.

Eles citam os direitos das mulheres, a estabilidade regional e o antiterrorismo como motivos pelos quais os EUA deveriam ter permanecido no Afeganistão. Mas essas foram as razões citadas para começar a guerra em primeiro lugar, em 2001. Por quantas décadas mais eles esperam que o mundo seja refém das narrativas da 'guerra humanitária'? É agora, no final da guerra mais longa dos Estados Unidos, que devemos refletir sobre os últimos 20 anos, e considerar como foi que aquelas falsas narrativas ''humanitárias'' nos trouxeram a este ponto.

Algumas das violações de direitos humanos mais graves ocorreram no início da guerra

Nos primeiros meses, os Estados Unidos lançaram milhares de bombas de fragmentação amarelas em torno de aldeias afegãs. Pareciam pacotes de ajuda - também amarelos. As crianças corriam para pegar o que acreditavam ser comida, apenas para acabar mortas depois de pegar e acionar um dispositivo explosivo.

Em um incidente agora conhecido como 'o comboio da morte', os combatentes do Taleban que se renderam à Aliança Afegã do Norte foram colocados em contêineres selados e foram asfixiados enquanto eram conduzidos pelo deserto - supostamente sob o olhar vigilante da CIA.

A lista de crimes de guerra dos EUA cresceu com o passar dos anos. Surgiram relatos de que soldados norte-americanos estavam matando civis e supostamente mantendo partes de seus corpos como lembranças. Graças à bravura do ex-major do Exército britânico que se tornou advogado do Exército australiano David McBride, que vazou documentos secretos, descobrimos que as forças especiais australianas tinham uma equipe de extermínio semelhante operando no Afeganistão.

Uma das narrativas mais fortes que ‘venderam’ a guerra no Afeganistão ao público foi o que a remoção do Taleban poderia fazer pelos direitos das mulheres. Mas a noção de que os EUA tinham algum interesse real nos direitos das mulheres é ridícula, já que, em primeiro lugar, foram os EUA que ajudaram o Taleban a tomar o poder no Afeganistão do governo secular apoiado pelos soviéticos.

Em 2001, quando os ex-comandantes islâmicos da época da insurgência antissoviética chegaram ao poder, o 'bacha bazi' - uma prática ligada à opressão dos direitos das mulheres e ao abuso sexual de crianças que havia sido proibido pelo Taleban - tornou-se comum novamente . Os soldados norte-americanos foram instruídos a não intervir, nem mesmo quando seus aliados afegãos abusassem de meninos em bases militares dos Estados Unidos. Na verdade, em 2010, um telegrama do WikiLeaks revelou que mercenários norte-americanos a serviço da DynCorp pagaram para trazer meninos 'bacha bazi' a uma base militar para dançar para comandantes afegãos.

As mulheres afegãs merecem direitos, mas não por meio da ocupação dos EUA

E, já que estamos falando sobre abusos de direitos, o que dizer dos direitos dos soldados norte-americanos? Quantos jovens foram enterrados na consecução desta malfadada guerra? Muitos dos que sobreviveram enfrentam uma vida inteira de dor ou doença mental. Os veteranos têm probabilidade duas vezes maior do que a do norte-americano médio de morrer de overdose de opioides - que, ironicamente, provavelmente se originaram no Afeganistão.

De acordo com os militares dos EUA, 90% da heroína do mundo é feita de ópio afegão. Em 2000, o Taleban proibiu seu cultivo, mas após a invasão dos Estados Unidos, houve um recorde de produção ano após ano. Os EUA efetivamente transformaram o Afeganistão em um narco-estado. Até mesmo o presidente afegão mais antigo apoiado pelos Estados Unidos, Hamid Karzai, tinha um irmão que era um traficante de drogas e supostamente estava na folha de pagamento da CIA. Talvez não seja coincidência que os Estados Unidos estejam enfrentando uma das epidemias de opióides mais mortais em um século.

Para acreditarmos que a retirada dos EUA será uma ameaça à paz e à estabilidade na região, primeiro teríamos que acreditar que a ocupação do Afeganistão foi uma fonte de paz e estabilidade. A realidade é que, nos últimos 20 anos, não transcorreu um só dia sem violência, e isso deixou o Afeganistão em ruínas. A invasão foi propagandeada como uma forma de derrotar a Al-Qaeda na Guerra ao Terror, mas em vez disso, vimos a ascensão do Estado Islâmico (IS, antigo ISIS) em todo o Oriente Médio e um aumento na atividade terrorista em todo o mundo. Mais uma vez, se os EUA realmente quisessem derrotar o terrorismo, não estariam apoiando militantes ligados à Al-Qaeda na Síria.

Não há razão para acreditar que os objetivos dos Estados Unidos no Afeganistão tenham algo a ver com a manutenção da estabilidade. Embora os militares norte-americanos tenham desistido, isso pode, na verdade, fazer parte dos cálculos de Washington para causar instabilidade à distância - uma alternativa mais barata para a ocupação. Afinal, enquanto caminha para um confronto com a China, os EUA precisam economizar seus recursos. A instável província de Xinjiang, na China, faz fronteira com o Afeganistão. Querer-se-ia evitar qualquer instabilidade que pudesse significar militantes fluindo por aquela fronteira. Talvez os EUA esperem atrair a China para o cemitério dos impérios.

Ninguém tem mais interesse na manutenção da estabilidade do Afeganistão do que seus vizinhos - em particular, Paquistão, China, Irã e Rússia. Após 40 anos de conflito, o Taleban agora é decididamente mais pragmático ao lidar com todos eles. A Rússia, apesar de sua própria história de guerra no Afeganistão, decidiu normalizar as relações com o Taleban no interesse da estabilidade. O Irã, que teve sua cota de animosidade contra o antigo Taleban antixiita, promoveu negociações de paz com os militantes e o governo afegão apoiado pelos Estados Unidos. A China também teve seus problemas com o Taleban, já que membros de sua minoria uigur já cruzaram a fronteira para se juntar à Al-Qaeda e lutar ao lado deles. O Taleban prometeu não intervir na questão uigur da China e, em troca, a China ofereceu construir a infraestrutura do Afeganistão e trazê-la de uma era de ruína para uma era de prosperidade econômica. Isso é outra coisa que as décadas de controle dos Estados Unidos não conseguiram realizar.

Aconteça o que acontecer, quando o último Chinook decolar da embaixada dos Estados Unidos, os afegãos finalmente terão a capacidade de decidir seu próprio destino. Que possamos todos parar para pensar duas vezes quando os próximos neoconservadores lançarem mão de uma narrativa humanitária para violar a soberania de uma nação.

Maram Susli é um analista político e comentarista sírio-australiana. Ela escreve para o Journal New East Outlook e Sputnik UK, além de ter sido entrevistada pela France24 e Sky News, entre outros. Siga-a no Twitter @partisangirl (enquanto ela não for banida) e no YouTube SyrianGirlPartisan.

*Publicado originalmente por RT | Traduzido por César Locatelli

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