quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Os Estados Unidos, o Afeganistão....

 


Os Estados Unidos, o Afeganistão e os limites doutrinários da reflexão permitida

 

 
17/08/2021 14:46

(Reprodução/CNN)

Créditos da foto: (Reprodução/CNN)

 
Um dos princípios doutrinários por trás da cobertura da imprensa corporativa-imperialista dos EUA e dos comentários dos políticos tradicionais é que os Estados Unidos são fundamentalmente uma força benevolente enfrentando dificuldades criadas por seres malignos e por situações desafiadoras não provocadas por Washington. O debate permissível é sobre estratégia e táticas imediatas, mas não sobre o cerne dessas posições advindas da crença no excepcionalismo americano.

Assim, enquanto existe contestação na mídia e na cultura política dos EUA sobre como responder à enxurrada de emigrantes tentando entrar nos Estados Unidos por sua fronteira sul, não há quase qualquer discussão e crítica séria na grande mídia sobre o velho e multifacetado papel que o imperialismo capitalista estadunidense tem desempenhado na imposição de uma abjeta miséria sobre milhões no México e na América Central e do Sul.

A invasão dos EUA ao Vietnã (e Camboja) e Iraque pode ser criticada na mídia dominante como uma má estratégia, como erro, mas nunca como monumentais assassinatos em massa, crimes de guerra e contra a humanidade racistas e imperialistas.

John Kennedy (que deu início ao assalto estadunidense contra o Vietnã e Sudeste Asiático) podia enfrentar críticas por não ter apoiado “apropriadamente” a fracassada invasão da Baia dos Porcos em Cuba e então ser elogiado por conta de como tratou a Crise dos Mísseis cubanos. Mas não houve séria discussão nos meios sobre o tratamento neocolonial dado a Cuba por parte do Império Americano e como sua resposta à brilhante Revolução Cubana alimentou uma levante popular que naturalmente gravitou para o guarda-chuva protetor da União Soviética (ou em outra questão: como a resposta imperialista de Kennedy à evidência da presença de mísseis soviéticos em Cuba levou o mundo à beira da destruição atômica e como a ação de um comandante de submarino soviético evitou tal destino).

A derrota de invasões e ocupações estadunidenses pode ser divulgada e discutida na grande imprensa e na cultura política como consequência de erros de cálculo estratégicos por parte de formuladores de política, mas nunca como resultado da legítima resistência popular ao imperialismo estadunidense.

Como senador estadual, senador dos EUA e candidato presidencial, aquele que tentou dar uma nova roupagem ao império no pós-George W. Bush, Barack Obama deixou claro que via a invasão do Iraque como uma “guerra ruim” apenas no sentido de ser estrategicamente “estúpida”, mas não porque era uma aventura imoral, racista e petro-imperialista com a intenção de colocar a bota estadunidense na torneira das gigantescas reservas de petróleo iraquianas. O candidato Obama até o fim culpou o “erro” iraquiano de Bush ao desejo demasiadamente idealista dele de exportar democracia para o Iraque – uma absurda formulação em linha com a doutrina do excepcionalismo americano que Obama iria articular enquanto pessoalmente matava com drones crianças e convidados de festas de casamento, dizimava Líbia e Honduras e aumentava a devastação do Afeganistão.

A suposição de que os Estados Unidos têm o direito de invadir, atacar e ocupar outras nações é assumida como natural na grande mídia e na política dos EUA. “O povo estadunidense”, disse hipocritamente o candidato Obama no Conselho de Relações Exteriores de Chicago em 2006, “tem visto seus filhos e filhas serem mortos nas ruas de Faluja”. A coisa mais notável deste comentário não é apenas que Obama desprezou a selvagem dizimação da cidade iraquiana-chave pelo Império Americano, usando munição radioativa que provocou uma epidemia de leucemia infantil, mas que ele simplesmente assumiu que as tropas estadunidenses tinham todo o direito de patrulhar as ruas de qualquer metrópole iraquiana.

“Lideramos o mundo,” explicou o então candidato presidencial Obama, “no combate aos males imediatos e na promoção do bem maior... Os EUA são a última, a melhor esperança da Terra.” Obama elaborou o pensamento em seu discurso de posse. “Nossa segurança emana da justeza de nossa causa, da força de nosso exemplo, das qualidades moderadoras de humildade e contenção”, afirmou – num fascinante comentário se lembrarmos de Faluja, Hiroshima, a crucificação do Sudeste Asiático, a “Autoestrada da Morte” etc.

Os EUA são sempre bons e bem intencionados. Isto é tão doutrinariamente incorporado na ideologia da classe dominante estadunidense que a evidência do contrário tem de ser rejeitado imediatamente num reflexo. Com menos de seis meses de sua posse, o crescente registro de atrocidades de Obama no mundo muçulmano incluía o bombardeio indiscriminado da vila afegã de Bola Boluk. Noventa e três dos moradores mortos eram crianças. “Num telefonema colocado em alto-falantes para ultrajados integrantes do parlamento afegão”, noticiou então o New York Times, “o governador da província de Farah… disse que 130 civis haviam sido mortos.” De acordo com um legislador afegão e testemunhas, “moradores levaram dois reboques de trator cheios de pedaços de corpos humanos para seu escritório como prova das mortes. Todos no escritório do governador choraram, olhando a dramática cena”. O governo Obama se recusou a emitir um pedido de desculpas ou reconhecer a responsabilidade da “polícia do mundo”.

Num contraste chocante, Obama tinha acabado de pedir desculpas e demitido um funcionário da Casa Branca porque este havia causado pânico entre nova-iorquinos ao permitir um sobrevoo não anunciado do avião presidencial sobre Manhattan que fez lembrar os ataques de 11 de setembro. A disparidade foi extraordinária. Assustar nova-iorquinos provocou um pedido formal de desculpas e a demissão de um funcionário da Casa Branca. Matar mais de cem civis afegãos não merece desculpa alguma.

Isso nos traz ao atual espetáculo no Afeganistão, que está fazendo o vice de Obama e atual senhor-da-guerra-imperial em chefe Joe Biden parecer um bufão trêmulo devido às caóticas e desesperadas cenas na antiga Embaixada dos EUA e no aeroporto de Cabul. O colapso do regime afegão patrocinado pelos EUA zombou da garantia de apenas um mês atrás de Washington de que tudo estava certo para uma retirada ordeira e a manutenção de um governo não talibã na capital do país. Este subestimação da insurgência, do poder político e de combate das forças anti-imperialistas é consistente com anteriores superestimavas de autoridades estadunidenses sobre a capacidade de ilegítimos regimes cliente de esmagar militarmente movimentos de resistência? Trata-se de novo da mesma história, como no Iraque e no Vietnã, repleta de imagens de helicópteros evacuando pessoas do teto de uma cercada embaixada dos EUA que são assustadoramente parecidas como as de Saigon em 1975. (Em Saigon, os helicópteros puderam levar o pessoal dos EUA direto para porta-aviões imperiais na costa. Em Cabul, eles tiveram de transportar os desalojados imperiais para um aeroporto próximo, onde o cenário era ainda mais caótico).

O governo Biden está sendo justamente ridicularizado por seu erro estratégico e pela má inteligência que produziram imagens memoravelmente humilhantes ("caos e loucura completa e absoluta") em Cabul. Ao mesmo tempo, a partida final de Washington está promovendo uma correta reflexão oficial sobre se “a mais longa guerra dos EUA” foi em primeiro lugar “válida” – se foi um erro estratégico entrar no Afeganistão, um conhecido “túmulo de impérios”.

Observem duas coisas que ficam fora dos parâmetros da discussão permissível: a natureza criminosa da invasão dos EUA e seu papel de longa data de treinar e equipar terroristas direitistas islâmicos no Afeganistão e em todo mundo árabe e muçulmano.

O Afeganistão não atacou os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001; foi a Al Qaeda, fundada e abrigada pela Arábia Saudita e Paquistão, ambos grandes aliados regionais dos EUA. A França não tem o direito de invadir e bombardear o estado de Vermont e os Estados Unidos no geral caso um grupo neofascista supostamente abrigado nas Montanhas Verdes promova ataques contra a Torre Eifel e a Assembleia francesa. Depois do 11/9, os vários atores no Afeganistão, incluindo o governo do Taleban, estavam mais do que dispostos a conversar e negociar, possivelmente até entregar Osama bin Laden para um julgamento internacional. Eles não queriam que a maior superpotência do mundo pulverizasse o país. Os EUA rejeitaram essas tratativas e preferiram usar “imensa força para demolir a infraestrutura do Afeganistão e esgarçar seu tecido social” (Noam Chomsky e Vijay Prashad). Como algo saído dos textos do brilhante anti-imperialista estadunidense Gabriel Kolko, o Império Americano preferiu trilhar o condenado e imensamente destrutivo caminho da punição militar. Mais de 71 mil civis afegãos morreram na violência que se seguiu enquanto companhias de “defesa” (imperiais) estadunidenses, incluindo a Boeing, Raytheon e Lockheed Martin, lucravam com contratos superfaturados de armas de destruição em massa.

Ao mesmo tempo, e parece não poder ser mencionado na mídia dos EUA, o odiado Taleban é, em grande medida, produto dos EUA. Como Noam Chomsky e Vijay Prashad explicaram em maio passado, além dos parâmetros aceitáveis do debate e da memória dos EUA:

O Afeganistão está em guerra civil há meio século, pelo menos desde a criação dos mujahideen - incluindo Abdul Haq - para lutarem contra o governo do Partido Democrático Popular do Afeganistão (1978-1992). Esta guerra civil foi intensificada pelo apoio dos EUA aos elementos mais conservadores e de extrema direita do Afeganistão, grupos que se tornariam parte da Al Qaeda, do Talibã e de outras facções islâmicas. Nunca os Estados Unidos ofereceram um caminho para a paz durante esse período; em vez disso, sempre mostraram uma ânsia de usar a imensa força dos EUA para controlar a situação em Cabul. '

Naturalmente, é inimaginável que qualquer comentarista da CNN ou da MSNBC, para não falar da FOX News, destacaria que o melhor momento dos direitos da mulher e de avanços no Afeganistão moderno ocorreu sob o governo comunista, em aliança com a União Soviética entre 1979 e final da década de 1980. Motivados por preocupações de geopolítica imperial e não por direitos humanos (retórica orwelliana que impera nos EUA), os Estados Unidos patrocinaram uma resistência islâmica arquirreacionária e hiper misógina à socialista República Democrática do Afeganistão, apoiando elementos que eles sabiam iriam esmagar os direitos femininos depois que derrubassem o Estado socialista.

As considerações geopolíticas continuam sendo primordiais para os EUA no Afeganistão, por baixo de todo o horror da mídia sobre as atrocidades e o sexismo do Taleban.

Como Chomsky e Prishad escreveram em maio último: “Parece que Washington está disposto a permitir que o Taleban volte ao poder, mas com duas ressalvas: primeiro, que os EUA permaneçam no país e, segundo, que os principais rivais dos Estados Unidos - a saber, China e Rússia - não tenham papel em Cabul.”

Não se sabe se esses objetivos são alcançáveis, mas uma coisa está clara: a política externa de Washington continua sendo, como ao longo de sua longa e sangrenta história, baseada, primeiro e acima de tudo, em cálculos imperialistas. Discussão sobre direitos humanos é fachada que visa vestir com a pele de cordeiro de preocupações humanitária o lobo das considerações sobre o poder global.

Paul Street é escritor e seu mais novo livro é The Hollow Resistance: Obama, Trump, and Politics of Appeasement.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Carlos Alberto Pavam

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