terça-feira, 9 de novembro de 2021

Anos de chumbo: Subterrâneos da ditadura militar na Amazônia

 

BALAIO DO KOTSCHO

Breno Santos: Nos tempos dos subterrâneos da ditadura militar na Amazônia

Serra Pelada: a corrida ao ouro mobilizou mais de 100 mil homens no garimpo que virou Área de Segurança Nacional controlada pelo famoso major Curió - Sebastião Salgado
Serra Pelada: a corrida ao ouro mobilizou mais de 100 mil homens no garimpo que virou Área de Segurança Nacional controlada pelo famoso major CurióImagem: Sebastião Salgado
CONTEÚDO EXCLUSIVO PARA ASSINANTES
Ricardo Kotscho

Colunista do UOL

06/11/2021 18h56

Recebi, na manhã deste sábado, o texto de um amigo, que me fez viajar no tempo até o garimpo de Serra Pelada, no sul do Pará, onde foi descoberta uma das maiores jazidas de ouro do mundo, no início dos anos 1980, já no ocaso da ditadura militar, tema de várias reportagens que escrevi para a Folha.

Fui um dos primeiros repórteres a entrar lá, onde mais de 100 mil homens se amontoavam naqueles buracos abertos no coração da selva, transformados em área de segurança nacional.

Esse amigo chama-se Breno Augusto dos Santos, um geólogo da Docegeo, subsidiária da Vale do Rio Doce, quando ainda era empresa estatal, que trabalhava na região, e me ajudou a entender aquela frenética corrida ao ouro nos tempos do "Brasil Grande".

Breno escreveu este texto na tarde de setembro de 2001, a bordo de um catamarã, no Rio Pará, em viagem para Manaus, com a esposa Yolanda, nas proximidades da foz do rio Tocantins.

Hoje aposentado, o amigo ainda costuma me mandar mensagens, preocupado com os rumos do país. Por isso, é bom e assustador ler o que ele escreveu há exatos 20 anos para nunca esquecer o que os militares fizeram no Brasil durante a ditadura, tão louvada pelos que hoje estão novamente no poder, utilizando os mesmos métodos para mandar no país.

O relato de Breno é longo, mas vale a pena ler até o fim.

***

Nos subterrâneos do quartel

Breno Augusto dos Santos

Eram tempos difíceis... Em Belém, não tínhamos contato direto com a violência e com o autoritarismo da ditadura militar, como acontecia diariamente com os cidadãos dos grandes centros do sudeste do País, mas sentíamos o medo no ar. Embora na Amazônia as mãos da ditadura militar se tornassem visíveis, quase que exclusivamente, nas agressivas e prepotentes revistas da Polícia Federal durante os embarques nos aeroportos, mesmo assim não estávamos totalmente imunes aos seus desmandos.

Pior que isso, as práticas de exceção ganhavam força na Polícia Militar do Pará, assim como acontecia em outros estados, não escapando de seus atos de violência nem mesmo os inocentes empregados da Docegeo.

Na emergente cidade de Rio Maria, um empregado braçal da Docegeo, contratado na região, encontrava-se em gozo completo de seu período de folga na zona boêmia, quando foi surpreendido pelo arrombamento da porta de seu quarto por um soldado da Polícia Militar. Entrou atirando, sem dar qualquer chance de defesa ao inocente amante, que sequer desconfiava que sua companheira estivesse amancebada com o criminoso.

O tempo passava como se o assassinato por motivo tão fútil não houvesse acontecido, nada sendo feito pela justiça e pela polícia da região. Ingenuamente, solicitei ao responsável administrativo da base da Docegeo em Rio Maria, que fosse ao posto da Polícia Militar, a fim de me atualizar sobre o andamento do inquérito dentro da corporação.

Pouco depois, o radiotelegrafista chamou-me apavorado, para informar que o nosso administrador estava sendo torturado com uma palmatória. Já haviam destruído seu relógio e ferido gravemente suas mãos. A punição era devida ao fato de que nenhum cidadão tinha o direito de questionar o que a Polícia Militar fazia ou deixava de fazer.

A sorte foi a amizade que tínhamos com o gerente da Serraria Maginco, em cujas terras surgira a cidade de Rio Maria. Ante minha solicitação desesperada, via rádio, fez a devida intervenção, interrompendo a dolorosa tortura. A vítima foi imediatamente removida para Belém para o necessário tratamento hospitalar. Felizmente os ferimentos não deixaram sequelas físicas, mas o trauma psicológico e emocional motivou a sua transferência para outro projeto.

Em Belém, competente geólogo gaúcho encontrava-se trabalhando na sede da Docegeo, enquanto recuperava-se de uma malária contraída no Xingu. Toda tarde, ao deixar seu trabalho, caminhava duas quadras pela Avenida Almirante Barroso até o Instituto Evandro Chagas, para tomar sua dose de Aralen.

Numa dessas tardes, ao passar pela calçada do Quartel General da Polícia Militar, que estava de prontidão pelo simples fato de ser o período eleitoral de 1976, ouviu da sentinela:

- Passe ao largo!...

Como bom gaúcho, sabendo que naqueles tempos mandava quem podia e obedecia quem tinha juízo, afastou-se do muro do quartel, passando a caminhar pela beirada da calçada, mas antes dirigindo um leve sorriso irônico ao soldado.

Ao passar pelo portão principal do quartel, uma voz o chamou:

- Você aí!... Me acompanhe que está detido por desacato à sentinela...

Foi levado para uma sala e lá esquecido. Como anoitecesse, ao rever o sargento, solicitou o seu nome para pelo menos poder informar, se necessário, quem o havia colocado lá. O bigodudo PM, com a prepotência da época - que infelizmente ainda persiste como herança até os dias de hoje -, respondeu, mostrando o seu nome na farda:

- Minha ficha está limpa!... Mas pelo teu atrevimento, vou te transferir para a Delegacia de São Braz.

Lá foi colocado numa cela com presos comuns, a maioria simples bêbados, e novamente esquecido. O delegado deu ordens para que não fosse solto de forma alguma, pois se tratava de prisioneiro da Polícia Militar.

À noite, quando a esposa de um dos presos foi levar o jantar, conseguiu, através dela, enviar um recado para a sua mulher. Os amigos da Docegeo se mobilizaram, mas mesmo com a ajuda de outro delegado, sogro de um dos geólogos da empresa, só conseguiu ser solto na manhã do dia seguinte. Mas antes teve que deixar como "taxa" todo o dinheiro que tinha nos bolsos, e que já havia sido confiscado logo na sua entrada...

Eram tempos difíceis... Mas, na verdade, embora atuássemos nas proximidades dos campos de combate da "Guerrilha do Araguaia" - em Carajás, Conceição do Araguaia e Rio Maria -, nossos projetos não chegaram a ser diretamente afetados, quer pela guerrilha, quer pela repressão - no início, do exército, e, depois, de agentes do SNI.

Em raros casos, alguns geólogos e técnicos de mineração chegaram a ser importunados por uma revista mais severa, nos aeroportos de Marabá ou de Conceição do Araguaia, apenas pelo fato de estarem de barba e cabelos compridos, moda comum dos jovens da década de 70, naqueles tempos de Beatles e Rolling Stones.

Como veremos mais adiante, não chegamos a ser importunados pelo simples fato de que, tanto o exército como os órgãos de informação desconheciam totalmente as atividades da Docegeo, e talvez da própria Vale, na região sudeste do Pará.

Mas no sudeste e no leste do País as forças de repressão eram bem mais atuantes. Eliminados os principais líderes da esquerda, no final dos anos 60 e início dos 70, como os dois Carlos - Marighella e Lamarca -, a busca obsessiva de agentes de Cuba e do comunismo internacional vitimava muitos inocentes. Morria Vladimir Herzog...

Enquanto isso, buscávamos jazidas minerais na Amazônia, para diversificação dos negócios da estatal Vale do Rio Doce, que, em última análise, era comandada pelo mesmo governo cuja atuação nos incomodava e atormentava. Contribuíamos para o sucesso tecnológico e econômico do governo que reprovávamos nos campos político e social. Sublimávamos essa contradição com a certeza de que estávamos contribuindo para o desenvolvimento do País, e não para o sucesso do governo que estava de plantão.

Entre os êxitos da época, estava a descoberta, em 1976, da primeira ocorrência de ouro no sudeste do Pará, na serra das Andorinhas. A revelação pública do ouro de Andorinhas, no ano seguinte, devido à invasão garimpeira em áreas próximas a Rio Maria, motivou não só notícias fantasiosas na imprensa nacional, mas até em publicações internacionais, como a revista Newsweek. Tanta fantasia provocou uma grande corrida garimpeira na região, que culminou no garimpo de Serra Pelada, e motivou o surgimento de localidades como Tucumã e Curionópolis - antigo garimpo do Km 30 da rodovia de acesso a Carajás -, que hoje são municípios.

Como o ouro estava associado a uma faixa de greenstones, na base de uma sequência de quartzitos com formação ferrífera associada, levantamos a hipótese de que as estruturas de Xambioá e da outra serra das Andorinhas, ou dos Martírios, pudessem corresponder a ambiente geológico semelhante. Não sabíamos ainda que a serra das Andorinhas, em frente à Xambioá, correspondia à verdadeira "Serra dos Martírios", da "lenda" de Parauapava, dos tempos dos bandeirantes.

Para apressar a obtenção das informações de campo, resolvemos colocar, ainda em 1976, uma força tarefa na região, com vários geólogos e apoiada por helicóptero, sob o comando do saudoso amigo Thomaz Cheney. Mas seria muito temeroso deslocar para essa conturbada região, pouco tempo depois do aniquilamento da "Guerrilha do Araguaia", alguns geólogos cabeludos e barbudos, ainda mais apoiados por helicóptero.

Assim, numa ensolarada manhã de Belém, tirei meu terno e gravata do armário, para uma reunião previamente marcada com o General Comandante da 8ª Região Militar. Esse general era irmão do também general que sucederia o presidente Geisel, e cuja indicação já era tida como certa na corrida sucessória. Ao entrar no quartel, felizmente como voluntário, brinquei com o motorista da empresa:

- Se desaparecer, comunique à minha família...

Quartel General de 8ª Região Militar

Surpreendentemente, fui muito bem recebido na principal sala do quartel. Apresentei-me, descrevi as atividades da Docegeo e expus as razões da minha visita. O general entusiasmou-se pelo fato de haver uma estatal federal atuando na região, com helicópteros e uma bem distribuída rede de rádio. Eventualmente poderia passar a dar apoio ao exército e aos órgãos de informação. Interessava-se particularmente pela atividade dos padres no sudeste do Pará.

Passou a assediar-me, dizendo que ser agente de informação era muito mais apaixonante do que ser geólogo. Sugeriu que cada geólogo poderia ser transformado em informante do exército. Pensava comigo na "fria" em que havia entrado, e tentava, com muito cuidado, dissuadi-lo de tal ideia.

Não satisfeito com a nossa conversa, chamou todo o seu estado maior, inclusive o coronel que chefiava a seção de informação, para expor o seu achado. Felizmente, o coronel de informação começou a ficar enciumado com a simplificação de seu trabalho. Explorei esse fato, reforçando com argumentos de que tal missão era de muita responsabilidade, e só deveria ser exercida por profissionais especialmente treinados. O general acabou concordando com nossos questionamentos, e não criou obstáculos ao nosso projeto de Xambioá. Entretanto, solicitou que retornasse, para informar a localização das bases operacionais da Docegeo, para possível utilização do sistema de rádio para apoio do exército - o que felizmente nunca chegou a acontecer.

Nas janelas menores, o porão

Novamente engravatado, retornei à tarde, mas o cenário e o enredo da novela haviam mudado. O soldado que me recebeu não mais me encaminhou para a sala nobre do quartel e, sem as honras do general e do estado maior, fui conduzido para uma saleta no porão do quartel. Parecia a antessala de um consultório médico, com três poltronas e uma mesa de centro. Só que no lugar das costumeiras revistas, sobre a mesa havia todo tipo de instrumento odontológico, com vários boticões. Lá fiquei esperando por cerca de meia hora. Tentava não me sugestionar pelo "esquecimento" e pelo "cenário odontológico". Mas, com a entrada de dois oficiais à paisana, sem cabelos com corte do exército, minhas fantasias e temores transformaram-se em realidade. Sem nenhuma amabilidade, um deles, com um caderno na mão, começou o interrogatório:

- Nome?

- Breno Augusto dos Santos.

- Profissão?

- Geólogo.

- O que fazia há um ano?

Resolvi virar logo a mesa, antes que fosse tarde:

- Deve estar havendo algum engano. Não vim aqui para ser interrogado, mas sim, como gerente de uma estatal federal, e atendendo solicitação do general, informar a localização das bases de operação da empresa no sudeste do Pará.

Imediatamente, em tom amigável, respondeu:

- Tudo bem. Depois vou procurá-lo para isso no seu escritório. Só que o inimigo já viu que você entrou aqui e sua vida corre perigo.

Tirando um pequeno papel do bolso, anotou um número de telefone, e entregou-me:

- Meu nome é Dr. Fulano (felizmente esqueci). Esse número não consta da lista. Se houver problema é só ligar, a qualquer hora do dia ou da noite.

Ao retornar ao escritório, comuniquei o ocorrido apenas à diretoria da Docegeo, no escritório do Rio de Janeiro.

Já havia quase esquecido o incidente, quando, numa tarde chuvosa, fui surpreendido pela recepcionista da empresa, que tal Dr. Sicrano queria falar comigo. Ao informar que não conhecia o Dr. Sicrano, veio logo a resposta de que de fato tratava-se do Dr. Fulano.

Ao entrar na minha sala, acompanhado por outro oficial, desculpou-se pelo engano do nome e, exibindo uma carteira sanfonada com mais de uma dezena de identidades falsas, disse que não tinha certeza quanto a que fora utilizada no primeiro encontro.

Na sala de reunião, após a minha explanação sobre a localização das bases da Docegeo, com a utilização de um quadro com imagens do Radam, o Dr. Fulano tirou uma 45 de sua maleta e entregou na minha mão:

- Ela é sua... O inimigo deve ter me seguido e visto que entrei aqui. Agora você terá que cuidar de sua própria vida.

Recusei, até a despedida, a aceitá-la... Logo em seguida, liguei à diretoria da Docegeo, solicitando imediata transferência de Belém, pois não dava para continuar aguentando as loucuras do Dr. Fulano. Pediram calma, até que achassem uma solução.

Naqueles tempos havia uma cobrança das autoridades de segurança, para que toda estatal federal tivesse a sua ASI - Assessoria de Segurança e Informação. Além de assegurar certo controle das estatais, possibilitava a abertura de muitas vagas para oficiais reformados.

O diretor-superintendente da Docegeo aproveitou o incidente de Belém para antecipar-se a uma maior cobrança e à possível colocação de um homem de Brasília, contratando um coronel reformado de sua confiança. A primeira missão do simpático e competente coronel da Cavalaria, que algum tempo depois exerceu o cargo de Presidente da Funai, foi manter um contato com o General Comandante da 8ª Região Militar, desfazendo toda a confusa farsa que havia sido montada.

Felizmente, desse dia em diante não tive mais problemas com o Dr. Fulano. Em 1977, quando o ouro de Andorinhas virou manchete de primeira página de todos os jornais, vim a conhecer outros polêmicos doutores do sistema, como o Dr. Moura ou Dr. Luchini, mais conhecido popularmente como Dr. Curió. Mas isso já faz parte de outras histórias...

***

Muitas destas outras histórias estão contadas no meu livro "Serra Pelada - Uma ferida aberta na selva" (Editora Brasiliense, 1984, com fotos de Jorge Araújo), que ainda se encontra à venda nos sebos eletrônicos.

Vida que segue.

Nenhum comentário: