terça-feira, 1 de abril de 2014

ANOS DE CHUMBO - "Não há tema mais atual do que a memória".


"Não há tema mais atual do que a memória". Entrevista especial com José Carlos Moreira

"Dificilmente uma ditadura de 21 anos conseguiria manter-se em um país de dimensões continentais como o Brasil sem que houvesse, desde o início, o apoio de parte expressiva da sociedade civil", constata o advogado e pesquisador.
“Durante um bom tempo a política econômica implementada a fórceps pelos governos militares favoreceu largamente as elites empresariais e o capital estrangeiro no Brasil. Houve um forte estímulo e crescimento das exportações, trazendo uma sensação de euforia que ficou conhecida como ‘milagre econômico’”, afirma José Carlos Moreira. “Aproveitando o crescimento das importações e o afluxo maior do capital estrangeiro, a ditadura reprimiu violentamente as demandas trabalhistas. O arrocho salarial foi praticamente uma constante ao longo dos 21 anos de ditadura, houve quase nenhuma política expressiva ou destinação de recursos significativos para a educação e a saúde, o crescimento da dívida externa foi exponencial, chegando a 43 bilhões e meio de dólares em 1978. Em 1984, já no finzinho da ditadura, e após o ‘milagre’ ter se dissipado e a recessão ter imperado, tinha-se uma inflação anual de 224% e a dívida externa continuava alta”, complementa.
José Carlos Moreira também destaca nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, a relevância e atualidade da memória enquanto tema.
“Como ensinou Benjamin , a realidade do passado não é composta apenas dos fatos ocorridos, mas também dos sonhos, projetos e vidas que não prosperaram. A vida pulsa no instante em que o apelo por justiça e reconhecimento é ouvido no presente e transformado em gesto de interrupção do ciclo automático do progresso, que sempre é indiferente às florezinhas pisoteadas pelo caminho, sempre colocando em primeiro lugar a técnica e o dinheiro, e deixando em segundo plano as vidas, os desejos, as emoções, as pessoas em suas manifestações e identidades plurais”, pondera o professor.
“Quem fará esta sociedade mais inclusiva e humana seremos nós, sempre aqui e agora, e não porque pensemos nos nossos filhos e netos, mas justamente porque recolhemos as vozes e os sonhos dos nossos pais e avós. Entender que o passado está morto é o caminho mais rápido para eliminarmos o nosso futuro”, continua.
José Carlos Moreira Fiho possui doutorado em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná - UFPR; mestrado em Teoria e Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e bacharelado em Direito pela Universidade de Brasília – UnB. Atualmente, é professor da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, exercendo a atividade tanto no Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais quanto na graduação em Direito. É também vice-presidente da Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça; coordenador do grupo de estudos Direito à Verdade e à Memória e Justiça de Transição; membro-fundador do grupo de estudos sobre Internacionalização do Direito e Justiça de Transição – Idejust.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – De que maneira a sociedade civil deu guarida e sustentação ao golpe civil-militar de 1964?
José Carlos Moreira - Dificilmente uma ditadura de 21 anos conseguiria manter-se em um país de dimensões continentais como o Brasil sem que houvesse, desde o início, o apoio de parte expressiva da sociedade civil. Tal apoio, contudo, é conduzido pelos interesses de uma parcela minoritária desta sociedade, em especial a elite econômica. A aposta feita pelo Partido Comunista Brasileiro e até pelo programa de reformas deflagrado pelo presidente João Goulart de que o Brasil seria impulsionado por uma burguesia nacionalista naufragou. Ao contrário, temerosos com as políticas de restrição da remessa de lucros para o exterior, da realização da reforma agrária, da alfabetização política via método Paulo Freire, do aumento de salário dos trabalhadores e efetiva implementação de garantias e direitos para o setor, de estímulo à organização sindical autônoma, de nacionalização de certos setores produtivos, a burguesia brasileira aliou-se ao majoritário grupo de militares e ao seu atávico sentimento anticomunista, urdido desde o início do século XX.
A opção desta aliança, sacramentada simbolicamente com o financiamento da Operação Bandeirantes em São Paulo pela maciça maioria dos empresários paulistas, que concordaram em contribuir com o "chapéu" passado pelo diretor do Grupo Ultra, Henry Boilesen, como bem evidencia o excelente documentário Cidadão Boilesen, de Chaim Litewsky (2009), foi a do alinhamento aos macrointeresses estadunidenses e aos grandes conglomerados internacionais, perfilando-se à doutrina de segurança nacional ensinada pelos militares dos Estados Unidos aos militares brasileiros desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial, o que era reforçado pela elite militar intelectual e acadêmica que grassava na Escola Superior de Guerra, na qual um dos membros mais destacados era justamente o artífice do golpe e futuro líder do primeiro governo ditatorial do período, o general Humberto Castello Branco. Naquela época de amplas oportunidades de lucro para as grandes corporações multinacionais e de uma disputa acirrada entre os blocos estadunidense e soviético, não era tolerável pelos setores alinhados aos EUA a manutenção de um governo que adotasse as políticas nacionalistas e sociais que Jango vinha tentando implementar. Daí a conspiração com largo apoio do governo estadunidense e suas agências e a fabricação da atmosfera paranoica do chamado "perigo vermelho". Esta foi a opção da nossa "burguesia" supostamente nacionalista.
Houve também o apoio dos setores mais conservadores da Igreja Católica, tão ou mais anticomunistas que os próprios militares. A imprensa, de modo quase unânime, também participou da conspiração e apoiou o golpe desde o primeiro instante, estando os seus donos atrelados de maneira profunda aos interesses da elite econômica. Grupos hoje muito poderosos como as Organizações Globo cresceram vertiginosamente com o apoio da ditadura.
Alimentaram o seu império no ninho da repressão. Os jornalistas como Samuel Wainer, do jornal Última Hora, contrários à ditadura, sofreram as consequências com empastelamentos, perseguições e, finalmente, o fechamento dos seus veículos. E no meio disto tudo, a presença de uma classe média temerosa de perder os seus privilégios com as políticas de redistribuição de renda propostas por Jango, ou enfeitiçada pelo canto da sereia do anticomunismo paranoico e pelo anúncio fantasioso de uma revolução comunista no país, ou simplesmente, herdeira de uma cultura escravocrata e autoritária. As camadas mais pobres, apoiadas pelos setores minoritários das classes médias, como setores da Igreja mais abertos, grupos expressivos de intelectuais, estudantes e artistas, bem como políticos mais alinhados à esquerda, trabalhadores mais organizados e uma minoria de militares, não estavam empoderadas ou preparadas suficientemente para fazer frente ao golpe, tanto que nem sequer houve resistência à queda de Jango, e a tentativa depois esboçada foi violentamente massacrada.
Durante um bom tempo a política econômica implementada a fórceps pelos governos militares favoreceu largamente as elites empresariais e o capital estrangeiro no Brasil. Houve um forte estímulo e crescimento das exportações, trazendo uma sensação de euforia que ficou conhecida como "milagre econômico". De fato, a balança econômica externa melhorou em relação ao momento de crise que vivia Jango. Contudo, tal melhora não se refletiu em melhoria de vida para os setores populares. Aproveitando o crescimento das importações e o afluxo maior do capital estrangeiro, a ditadura reprimiu violentamente as demandas trabalhistas. O arrocho salarial foi praticamente uma constante ao longo dos 21 anos de ditadura, houve quase nenhuma política expressiva ou destinação de recursos significativos para a educação e a saúde, o crescimento da dívida externa foi exponencial, chegando a 43 bilhões e meio de dólares em 1978 (para se ter uma ideia do crescimento da dívida, em 1966 ela era de 4 bilhões e meio de dólares). Em 1984, já no finzinho da ditadura, e após o "milagre" ter se dissipado e a recessão ter imperado, tinha-se uma inflação anual de 224% e a dívida externa continuava alta.
Os políticos e empresas que foram fiéis ao regime tinham as denúncias de corrupção arquivadas e eram favorecidos no acesso aos financiamentos e contratos públicos. A corrupção era endêmica e favorecida pela total ausência de transparência das ações públicas e pela rigorosa censura implementada, sem falar que a própria imprensa, de modo majoritário, era fiel ao regime. É bom lembrar disso antes de concordar com o já batido bordão de que "na ditadura não havia corrupção". Mentira feia.
IHU On-Line – Como explicar um Estado que se desenvolve defendendo uma liberdade ampla ao mercado e uma liberdade mínima à democracia? Como isso é atualizado no século XXI?
José Carlos Moreira - O liberalismo econômico não necessita da democracia para funcionar muito bem, especialmente em sua versão monopolista e financeira. Isto fica claro no que disse na resposta anterior. O mercado não é nada democrático, tende a favorecer sempre os mais poderosos e os que possuem mais recursos, com uma ajuda sempre providencial do Estado quando isto for necessário, como se viu na grande crise financeira mundial ocorrida em 2008, ou como se viu nos regimes ditatoriais da segunda metade do século passado na América Latina. Os mais fracos são simplesmente descartados, não há lugar para eles. Quanto ao que vivemos no século XXI, as liberdades são toleradas até o momento em que não ameacem seriamente os interesses dos grandes atores do mercado. As tendências contra-hegemônicas conseguem algumas vitórias sim, muitas delas simbólicas, mas não são páreo, de um modo geral, para o poder econômico assim entendido. Em uma sociedade de mercado, paradoxalmente, o Estado é indispensável para que, através de políticas sociais, ao menos se possa obter alguma melhora na busca da diminuição da desigualdade. É uma luta difícil, mas certamente muito mais favorecida por um regime democrático do que por uma ditadura.
IHU On-Line – Comentaste do temor em relação ao comunismo criado na década de 1960. Atualmente, há um projeto de lei que visa classificar o movimento black bloc como terrorista. Como essas sutilezas contaminam o imaginário coletivo criando um ambiente favorável a posturas golpistas?
José Carlos Moreira - Analisando o caso brasileiro, fica claro que a chamada "ameaça vermelha" era um fantasma muito conveniente para que diferentes setores da elite brasileira (empresários, donos de meios de comunicação, autoridades eclesiásticas, latifundiários, famílias abastadas, entre outros), incomodados com as reformas que o presidente João Goulart buscava encaminhar, conseguissem manter os seus privilégios e aumentar ainda mais o fosso de desigualdade entre eles e a grande massa popular. Tal fantasma também foi conveniente aos interesses geopolíticos do governo estadunidense em manter a liderança econômica, política e militar na América Latina, já fracionada pela Revolução Cubana, sem falar das grandes empresas transnacionais que chegaram inclusive a financiar a repressão a opositores políticos e a perseguir sistematicamente trabalhadores considerados subversivos.
No início da década de 1960 não estavam postas as condições objetivas para que ocorresse uma tomada violenta de poder voltada ao espectro esquerdo da política nacional. O Partido com maior poder de penetração popular era o Partidão . O que pregava o PCB, no entanto, não era a luta armada, e sim o apoio às reformas de base do Jango e ao empresariado nacionalista. A passagem ao socialismo deveria ser gradual. Sem dúvida que existiam grupos de esquerda que eram favoráveis a uma ação política mais radical e violenta, como o PCdoB, por exemplo, mas tais grupos eram pequenos e não tinham nem condições materiais nem políticas para sequer imaginarem a concretização de uma ação como esta.
Como restou muito claramente evidenciado no filme O dia que durou 21 anos (Camilo Tavares, 2012), houve uma ação concertada entre órgãos de inteligência dos EUA e setores contrários às reformas de Jango na ala direita da política para criar um ambiente paranoico e fantasioso em torno de um suposto e iminente golpe comunista que estaria prestes a ser dado. Dois órgãos que se destacaram nesta propaganda anticomunista foram o IPES  e o IBAD , que recebiam mundos e fundos diretamente enviados dos EUA. A própria Marcha da Família com Deus e pela Liberdade foi um produto oriundo desta arquitetura golpista e financiado pela Central Intelligence Agency - CIA (Agência Central de Inteligência).
É incrível que, com tantas evidências históricas sobre a inexistência de uma possibilidade real de um golpe de esquerda no Brasil, muitos jornalistas, professores, militares e cidadãos em geral insistam na tese do "perigo vermelho". Em 2010, chegamos a ponto de um juiz da nossa Suprema Corte afirmar que a ditadura "foi um mal necessário" para afastar tal perigo.
A conexão existente na pergunta entre a criação de um ambiente paranoico fantasioso e a ação autoritária no âmbito institucional foi exatamente a que eu procurei fazer em um pequeno artigo enviado ao jornal Zero Hora, publicado no dia 19-02-2014 , para criticar o projeto de lei, ora em debate no Congresso Nacional, que procura tipificar o crime de terrorismo no Brasil. Tal episódio nos mostra o quão frágil é a nossa democracia, ainda que tenhamos evidentemente avançado após o final da ditadura.
É preciso ter clareza de que o sistema político hoje em vigor – assim como o da segurança pública, inúmeras práticas e regulamentos administrativos, o modelo tributário e outras estruturas institucionais – não se alterou substancialmente desde o período ditatorial.
Tal contexto favorece a possibilidade de que, mesmo em meio a um regime democrático formal, sejamos capazes de produzir normas autoritárias que, na prática, servirão para estimular e encobrir ações de violência policial e de criminalização de movimentos sociais.
O conceito de terrorismo foi largamente aplicado no período ditatorial para estigmatizar, perseguir e desumanizar os grupos que procuraram resistir ao regime de exceção, independentemente de serem grupos armados ou não, de serem comunistas ou não, bastava ser oposição ao governo ditatorial fora dos mínimos espaços consentidos e controlados.
Hoje, no mundo, não existe um consenso semântico a respeito do sentido da palavra "terrorismo". Apesar disso, a ação de grupos como a Al Qaeda  e o ETA  é a que mais se aproxima do que teríamos atualmente como consenso.
Sobre isto digo duas coisas.
A primeira é que raramente surge na legislação mundial e nos grandes veículos de mídia a explícita referência ao que poderia ser considerada a pior forma de terrorismo: aquela patrocinada pelo Estado. É a pior forma, pois o governo detém em suas mãos um aparelhamento bélico, burocrático, técnico e jurídico que nenhum outro grupo nacional pode igualar, a não ser em casos limites de guerra civil, sem falar que violenta a sua função principal, que é a de proteger os cidadãos. Logo, a eficiência em espalhar o terror e o medo na sociedade é exemplar.
A segunda observação é que no Brasil não temos nada que sequer chegue perto às características de grupos como a Al Qaeda e o ETA, nem há evidências da ação do primeiro na chamada Tríplice Fronteira [entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai]. O alvo evidente do projeto de lei que busca tipificar o terrorismo são as manifestações contra a Copa mais especificamente (tanto que estádios esportivos são considerados "bens essenciais", cuja destruição pode tipificar o crime no projeto) e, mais geralmente, os movimentos sociais organizados e suas lideranças, aprofundando a tendência já existente de criminalização dos movimentos sociais.
Para terminar, dou apenas um exemplo do caráter artificial e seletista dos noticiários em geral quando apresentam os black blocs e "vândalos" como uma temível ameaça nacional.
Primeiro, é necessário dizer que não concordo com as ações violentas de alguns pequenos grupos e pessoas que destroem bens públicos e estimulam o confronto. Tais ações são em primeiro lugar contraproducentes, pois dão o pretexto esperado para deslegitimar as mobilizações políticas nas ruas e para justificar (se é que dá pra justificar) a brutalidade das forças de segurança do país.
Em segundo lugar, levam a um beco sem saída político, não estão atrelados a nenhum projeto para o país, não representam um grupo político com demandas e propostas concretas para a sociedade, não disputam o espaço democrático. De todo modo, é bom também filtrar as ações violentas que são obra da própria polícia, seja com a sua brutalidade habitual ao reprimir manifestantes (a porcentagem de mortos e feridos nas manifestações deve-se em sua grande maioria às ações da polícia), seja com agentes infiltrados que executam tais ações para que sejam imputadas aos "vândalos", seja, por fim, com provocações armadas para causar comoção, como ocorre quando um ou outro agente policial resolve provocar grupos mais numerosos dispostos ao confronto sem que estejam devidamente equipados para evitar as prováveis agressões. Isto ocorreu, por exemplo, como tive a chance de apurar junto aos próprios manifestantes, na Marcha do MST ocorrida este ano na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
Voltando ao exemplo que quero dar, é gritante a diferença de tratamento dado aos black blocs, incensados em repetidas manchetes como o bode expiatório do momento, e casos chocantes de violência policial. Não seria mais repugnante e grave o que ocorreu com a Dona Cláudia Ferreira da Silva no Morro da Congonha, na cidade do Rio de Janeiro?
Uma mulher negra, pobre, trabalhadora, que, ao ir comprar pão com mortadela na padaria para os seus filhos e sobrinhos, foi alvejada por uma bala disparada pela polícia, depois foi levada pelos policiais como se fosse um saco de cimento no bagageiro de um carro, no trajeto a porta abre e ela cai no asfalto, sendo arrastada por um bom tempo pelo carro, já que sua roupa ficou presa na porta.
Avisados por motoristas que estavam próximos, os policiais não pararam. E só estamos sabendo disto porque alguém filmou o fato com o seu celular. Este nível de brutalidade por parte da polícia é cotidiano nessas comunidades, transformadas em verdadeiras zonas de exceção. Perto disto, os black blocs parecem um grupo de escoteiros.
IHU On-Line – Por que o senhor sustenta que em regimes autoritários não há crime político?
José Carlos Moreira - Neste particular, eu concordo com o que escreveu Heleno Cláudio Fragoso em um livro publicado em 1981 (portanto, ainda durante a ditadura) e intitulado Terrorismo e Criminalidade Política (Rio de Janeiro: Forense, 1981). Ali ele pondera que a categoria do crime político aponta para um crime que se volta diretamente contra o Estado e a ordem política e jurídica instituídas, visando a sua derrubada, mas que só configura crime se o Estado, alvo da ação tida como criminosa, for um Estado democrático, cujo governo seja legítimo, pois, do contrário, o que teremos é, de um lado, um governo usurpador, ilegítimo e, consequentemente, autoritário, e, de outro, grupos que exercem o seu legítimo direito de resistência.
Por esta razão, por exemplo, considero inadequada a linguagem utilizada na inicial da ação que o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, assinada por Fábio Konder Comparato, ingressou no Supremo Tribunal Federal - STF para questionar a constitucionalidade da Lei de Anistia de 1979. O texto da petição inicial acaba, inadvertidamente, chancelando a linguagem da ditadura, pois afirma que os perseguidos políticos teriam praticado crimes políticos. Entendo que a estratégia era afirmar que os torturadores não praticavam crimes políticos ou conexos ao matarem e torturarem e, portanto, não poderiam ser alcançados pela anistia, mas realmente não concordo com esta linha de argumentação, primeiro porque os opositores da ditadura exerciam o direito de resistência, segundo porque os agentes da ditadura não praticavam crimes comuns, como afirmado na petição, e sim crimes contra a humanidade. Creio que faltou na inicial uma fundamentação mais robusta no campo do Direito Internacional dos Direitos Humanos.
IHU On-Line – A Lei da Anistia de 1979 serviu aos interesses militares, ao arranjar uma explicação para os crimes cometidos durante o regime de exceção?
José Carlos Moreira - Você quer dizer "arranjar uma não explicação para os crimes", não é? Inclusive daqueles ocorridos após a edição da Lei em 1979, como foi o caso do Riocentro, ocorrido em 1981. A Lei de Anistia de 1979 é um claro exemplo de legalismo autoritário, não só pelo modo antidemocrático como foi feita, ainda que até hoje vendida como um produto democrático ou um "acordo", mas também pelo seu conteúdo. Está fora do conceito de democracia qualquer legislação que vise anistiar crimes contra a humanidade. É um limite substancial à vontade da maioria, mesmo quando ela exista (como no caso uruguaio), o que não é o caso no Brasil. É pedra assente e fundamental na ordem jurídica internacional o caráter imprescritível de tais crimes e a impossibilidade de que venham a ser anistiados, especialmente quando esta anistia significa ausência de investigação e responsabilização.
Veja, eu não sou favorável à pena de prisão perpétua ou à pena de morte para qualquer pessoa, mesmo para um genocida como o ditador Videla, na Argentina. Também não acho que a prisão seja uma solução social aceitável para lidar com a criminalidade de modo geral, especialmente se estivermos tratando de crimes que não sejam contra a vida. É mais problema que solução.
Mas, quando estamos lidando com crimes contra a humanidade, praticados pela própria organização estatal, que são realidade e categoria completamente diversa da dos crimes comuns, é inegável o impacto simbólico da punição na prevenção geral da violência estatal e na luta pela mudança da cultura institucional dos órgãos de justiça e segurança.
A meu ver, são os crimes mais graves e os mais difíceis de serem responsabilizados (dado o envolvimento do próprio Estado e, não raro, de setores civis poderosos na sociedade).
Não é à toa que são o alvo, ao menos teórico, quando se trata de certos países, das instâncias judiciais internacionais, como os tribunais ad hoc e, hoje em dia, do próprio Tribunal Penal Internacional. Também é preciso ponderar que uma investigação criminal tende a ter muito mais condições e poderes para descobrir fatos, documentos e narrativas que podem ficar completamente escondidos e afastados de uma Comissão da Verdade, por exemplo.
O Estado democrático tem o dever de usar todas as suas forças e recursos para a produção da "verdade" e o resgate da memória política. Resgatar a memória significa ser permeável às narrativas dos sobreviventes e a elas dar o devido lugar de destaque. Produzir a verdade significa franquear o acesso a todos os documentos públicos, colher os depoimentos dos agentes públicos e privados responsáveis e envolvidos, colher o testemunho dos sobreviventes, utilizar as arenas e palcos públicos disponíveis, dentre os quais se destacam os do âmbito criminal, para a investigação dos fatos. É certo que produzir esta verdade, ao meu juízo, é algo muito diferente de impor uma história oficial ou de atribuir ao resultado final da investigação o status de verdade definitiva.
A academia historiográfica não irá e nem deverá fechar-se nas interpretações construídas até este momento. A pesquisa estará sempre em aberto, assim como também a possibilidade de novos documentos, fatos e narrativas. Nem mesmo o relatório final da Comissão da Verdade poderá ser encarado como um ponto final neste processo. Nossa agenda de transição ainda tem muito o que vencer. As pesquisas sobre o passado são coisa do futuro em um constante processo de presentificação do passado. Por tais razões, vejo como necessários os processos de responsabilização penal desses crimes, mesmo que, em um segundo momento, seja possível algum tipo de diminuição da pena, pois penso que o essencial não é punir, mas sinalizar para as responsabilidades, demarcando-as claramente no plano público, e contribuindo assim para uma cultura de não repetição desses crimes.
Creio que estamos avançando um pouco neste campo. Exemplo disto é a postura do Ministério Público Federal - MPF. Em evento recente ocorrido na cidade do Recife (10 a 14 de março de 2014), organizado pela Comissão de Anistia e voltado ao marco dos 50 anos do golpe e à necessidade de construirmos uma nova agenda de transição política, na qual o relatório final da Comissão Nacional da Verdade é apenas o início, o combativo e qualificado grupo do MPF conhecido como "GT - Justiça de Transição" esteve em peso, e com a presença de promotores de outros países latino-americanos que também lidam com esses crimes, como Argentina, Uruguai e Guatemala, para, pela primeira vez na história do Brasil, prestar contas em público (um público qualificado, composto por familiares de mortos e desaparecidos políticos, militantes de direitos humanos, pesquisadores e acadêmicos oriundos de mais de 16 países, estudantes, professores e agentes públicos) das investigações e ações ora em curso que buscam responsabilizar os crimes da ditadura no Brasil, inclusive com a divulgação e distribuição de um relatório escrito e com a publicização de detalhes incríveis sobre a investigação do emblemático caso Riocentro. Mas, para que tudo isto dê resultado, é indispensável que a Lei de Anistia seja interpretada de acordo com a legislação internacional de Direitos Humanos, de acordo com a nossa Constituição e, inclusive, de acordo com a sentença condenatória do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Gomes Lund.
IHU On-Line – Como o senhor avalia o trabalho da Comissão Nacional da Verdade? Como vê as críticas de que o grupo não pressiona por um posicionamento mais contundente da Presidência da República no sentido de abrir os documentos da época?
José Carlos Moreira - Em primeiro lugar, é preciso ter claro que o trabalho da Comissão Nacional da Verdade não é o único dentro do processo de transição brasileiro. Antes dela, já vinham desenvolvendo um importante acúmulo a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos e a Comissão de Anistia. Ambas são comissões de reparação, mas que também vêm produzindo memória e verdade. Prova disso são, no caso da primeira, a publicação do livro/relatório contendo o resultado das investigações das circunstâncias das mortes e desaparecimentos de perseguidos políticos (o livro Direito à Memória e à Verdade), e, no caso da Comissão de Anistia, dos julgamentos itinerantes de pedidos de reparação, conhecidos pelo nome de Caravanas da Anistia, e nos quais o testemunho dos sobreviventes encontra o seu melhor lugar até agora no espaço público brasileiro .
A Comissão de Anistia tem também produzido publicações acadêmicas a partir de seminários internacionais e mantido um periódico científico, já em seu oitavo volume, intitulado Revista Anistia Política e Justiça de Transição. Digno de menção é também o projeto Marcas da Memória, que já financiou dezenas de projetos culturais e científicos voltados ao resgate da memória política, dentre eles a produção de filmes (como Repare Bem, Eu me lembro e os documentários Advogados contra ditadura e Militares que disseram não, ambos dirigidos por Silvio Tendler).
A posição política da Comissão de Anistia sempre foi no sentido da responsabilização dos agentes públicos da ditadura que cometeram crimes de lesa-humanidade e da abertura dos arquivos, tendo contribuído com várias ações concretas nesta direção. A Comissão Nacional da Verdade, por outro lado, tem uma missão e um lugar institucional privilegiados em função da própria lei que a instituiu.
Desde o início, contudo, assistimos a uma postura claudicante da Comissão, seja em relação à defesa da responsabilização pelos crimes da ditadura, seja em tornar públicas as suas sessões, especialmente os testemunhos, seja em exigir de maneira mais veemente a abertura dos arquivos das Forças Armadas. Tal hesitação manifestou-se, a meu ver, em dois aspectos.
Primeiro, internamente, com um claro desacordo sobre estratégias, métodos e até mesmo opiniões políticas, culminando com brigas entre os comissionados e a saída de um deles.
Em segundo lugar, ficou clara uma interferência férrea da Presidência da República no sentido de colocar panos quentes nas questões mais sensíveis aos militares, especialmente a discussão sobre a Lei de Anistia. Creio que associado a este segundo aspecto está a resistência das Forças Armadas em colaborar com os trabalhos, como se viu quando foi barrada a entrada da Comissão no Batalhão onde funcionava o DOI-Codi  no Rio de Janeiro. Esta resistência, é claro, advém da ausência de qualquer arrependimento pessoal dos altos oficiais e dos que hoje estão na reserva, e institucional, crendo-se até hoje nas escolas, academias e espaços militares que o golpe foi necessário e que a ditadura foi um grande bem para o país.
Apesar deste cenário, acredito que a Comissão Nacional da Verdade conseguiu avançar, e tem conseguido se tornar mais assertiva, especialmente devido à atuação da comissionada Rosa Cardoso e de um ótimo grupo de assessores. Também tem sido positiva, ao meu ver, a atuação do novo comissionado Pedro Dallari.
Algumas ações importantes foram tomadas, como o envolvimento nas investigações dos casos Rubens Paiva e Riocentro (reforçadas pela agenda do general Molina, descoberta quando da morte deste em Porto Alegre) e as determinações da alteração dos atestados de óbito de Vladimir Herzog e Alexandre Vannucchi Leme para que informassem a morte sob tortura. A organização de audiências e a sua abertura e divulgação ao público também vêm melhorando bastante.
Creio que o relatório final da Comissão Nacional da Verdade será para nós um grande começo de um necessário processo de aprofundamento democrático e de continuidade das pendências da ditadura, inclusive no que se refere à produção da verdade, isto é, de publicização dos documentos públicos e das narrativas. Não creio que tão cedo as Forças Armadas abram os seus arquivos ou façam a necessária mea culpa institucional. O poder político instituído ainda as teme. Não vi, por exemplo, nenhuma determinação da Presidência da República, teoricamente comandante das Forças Armadas, para que algo assim ocorresse, como, por exemplo, um pedido público de desculpas e a mudança da orientação política e histórica na formação dos jovens militares.
IHU On-Line – Em que medida o direito à memória se torna um direito à vida?
José Carlos Moreira - Não há tema mais atual do que a memória. Como ensinou Benjamin, a realidade do passado não é composta apenas dos fatos ocorridos, mas também dos sonhos, projetos e vidas que não prosperaram. A vida pulsa no instante em que o apelo por justiça e reconhecimento é ouvido no presente e transformado em gesto de interrupção do ciclo automático do progresso, que sempre é indiferente às florezinhas pisoteadas pelo caminho, sempre colocando em primeiro lugar a técnica e o dinheiro, e deixando em segundo plano as vidas, os desejos, as emoções, as pessoas em suas manifestações e identidades plurais. A memória da violência do passado é a que poderá interromper nossa marcha política, econômica e institucional que se volta hoje para um acirramento das desigualdades e para a exclusão de largos contingentes de seres humanos. Somente levando a sério essas vozes silenciadas, ontem e hoje, é que conseguiremos um mundo melhor e mais humano.
Essa memória é visceralmente política. Ela demarca um novo início, onde a vida é respeitada e cuidada, mesmo a de uma florzinha. Mas ela não garante nada, ela apenas nos lembra do que não pode se repetir e do que devemos preservar, ela apenas aguça os nossos sentidos e o nosso pensamento, ela faz o que a história fria e estatística dos fatos vencedores não nos permite.
Quem fará esta sociedade mais inclusiva e humana seremos nós, sempre aqui e agora, e não porque pensemos nos nossos filhos e netos, mas justamente porque recolhemos as vozes e os sonhos dos nossos pais e avós. Entender que o passado está morto é o caminho mais rápido para eliminarmos o nosso futuro.
Nota: As fontes das ilustrações acima, são, respectivamente, Carta Maior e oabes.org.br

ANOS DE CHUMBO - A ditadura venceu.

A ditadura venceu

"O dever de memória sobre a ditadura fracassou", constata Vladimir Safatle, professor de Filosofia, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 01-04-2014.
Segundo ele, "o que poderíamos esperar de governos, como o de Fernando Henrique Cardoso, cujos fiadores eram Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen, e de Luiz Inácio Lula da Silva/Dilma Rousseff, que tem em José Sarney um de seus pilares e em Antonio Delfim Netto um de seus principais conselheiros? Como esperar uma verdadeira política contra a ditadura de governos que dependem de figuras vindas diretamente da ditadura?"
Eis o artigo.
Hoje é o dia que marca, afinal, os 50 anos do golpe militar ocorrido em 1º de abril de 1964. Durante as últimas semanas, a sociedade brasileira foi obrigada a ler afirmações de personagens como o senhor Leônidas Pires Gonçalves, primeiro ministro do Exército pós-ditadura, insultando o país ao dizer que: "a revolução (sic) não matou ninguém" e que ela teria sido uma necessidade histórica.
Antes, correntistas do banco Itaú, uma instituição tão organicamente ligada à ditadura que teve um de seus donos, o senhor Olavo Setúbal, nomeado prefeito biônico da cidade de São Paulo, receberam uma singela agenda onde se lia que o dia de hoje seria o aniversário da dita "revolução". Ninguém, nem nas Forças Armadas nem no setor empresarial que tramou e alimentou o golpe teve a dignidade de pedir à sociedade perdão por um regime que destruiu o país.
É claro que ainda hoje há os que procuram minimizar a ditadura afirmando que ela foi responsável por conquistas econômicas relevantes. Raciocínio semelhante foi, por um tempo, utilizado no Chile.
Tanto em um caso quanto no outro esse raciocínio é falso. A inflação brasileira em 1963 era de 78%. Vinte anos depois, em 1983, era de 239%. O endividamento chegou, ao final da ditadura, a US$ 100 bilhões, legando um país de economia completamente cartelizada, que se transformara na terceira nação mais desigual do mundo e cujas decisões eram tomadas não pelo ministro da economia, mas pelos tecnocratas do Fundo Monetário Internacional chefiados pela senhora Ana Maria Jul. A concentração e a desigualdade se acentuaram, o êxodo rural destruiu nossas cidades, a educação pública foi destroçada, a começar por nossas universidades.
Mas o maior exemplo desse revisionismo histórico encontra-se na crença, de 68% da população brasileira, de que aquele era um período de menos corrupção. Alguém deveria enviar para cada uma dessas pessoas os dossiês de casos como: Coroa-Brastel, Capemi, Projeto Jari, Luftalla, Banco Econômico, Transamazônica e Paulipetro.
Tudo isso apenas demonstra o fracasso que foi, até agora, o dever de memória sobre a ditadura.
Mas o que poderíamos esperar de governos, como o de Fernando Henrique Cardoso, cujos fiadores eram Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen, e de Luiz Inácio Lula da Silva/Dilma Rousseff, que tem em José Sarney um de seus pilares e em Antonio Delfim Netto um de seus principais conselheiros?
Como esperar uma verdadeira política contra a ditadura de governos que dependem de figuras vindas diretamente da ditadura?
Foi assim, de maneira silenciosa, que a ditadura venceu

ANOS DE CHUMBO - O golpe e a construção da dependência financeira brasileira.


O golpe e a construção da dependência financeira brasileira. Entrevista especial com Fábio Antonio de Campos


"A ditadura serviu para garantir a expansão da industrialização pesada dinamizada pelo capital internacional em proveito dos diferenciais do mercado interno, estabelecidos pela elevada concentração de renda que garantia a valorização à custa da superexploração do trabalho”, avalia o economista.
Passados 50 anos do golpe militar que depôs o ex-presidente João Goulart, na madrugada do dia  1º de abril de 1964, pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento tentam compreender quais razões fizeram com que a ditadura se mantivesse por mais de 20 anos no país. A economia, nesse sentido, “é fundamental para entender o alcance e os limites da ditadura como instrumento do capitalismo brasileiro”, diz, à IHU On-Line, o economista Fábio de Campos, autor da tese de doutorado A arte da conquista: o capital internacional no desenvolvimento capitalista brasileiro (1951-1992).
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o professor do Instituto de Economia da Unicamp assinala que as multinacionais que atuavam no Brasil à época apoiaram e financiaram o golpe, porque ele era “extremamente necessário para dar continuidade à valorização capitalista das empresas multinacionais com o mercado interno brasileiro”. Segundo ele, a ditadura “permitiu a conexão dos interesses de valorização das filiais estrangeiras com o sistema financeiro internacional. A reforma da legislação, além de retirar do marco institucional as medidas que impediam as remessas ao exterior a partir de reinvestimentos de lucro, criou novos instrumentos que liberalizavam o acesso da filial estrangeira ao endividamento externo”.
Campos esclarece que a Lei de Remessas de Lucro, como outras propostas do ex-presidente Jango, entre elas a estatização do setor energético e a negociação da dívida externa, bem como “qualquer política que fosse um pouco mais discricionária em relação à entrada e saída de capitais estrangeiros (investimentos, empréstimos, remessas, repatriações, juros, transferências diversas), afetava a valorização capitalista que sustentava os interesses do complexo multinacional”.
Crítico das interpretações de que a ditadura gerou o “milagre econômico” para o Brasil, Campos frisa que o “capital internacional, ao mesmo tempo que permitiu o avanço da industrialização brasileira, constituindo-se no eixo dinâmico dessa expansão, selou a aliança imperialista entre as burguesias internacionais com suas correspondentes nativas que sempre se subordinaram a essa articulação. Longe de isso criar as condições para autodeterminação do desenvolvimento nacional, acabou por sacramentar nossa dependência externa e subdesenvolvimento”. Essa aliança tem reflexos ainda hoje e pode ser percebida no processo de desindustrialização e primarização da economia nacional.
Fábio Antonio de Campos é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, mestre em História Econômica e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp.
Hoje continua, no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, a programação do Ciclo de Estudos “50 anos do Golpe de 64. Impactos, (des)caminhos, processos. A programação do evento está disponível aqui.
Confira a entrevista.
Foto: Rádio Piratininga
IHU On-Line - Quantas multinacionais havia no Brasil antes do golpe de 64 e como elas atuavam?
Fábio Antonio de Campos - A presença de empresas multinacionais na economia brasileira data desde os tempos do Império, quando se fixaram nas áreas de utilidade pública, transporte, finanças, infraestrutura e atividades ligadas à economia cafeeira. No decorrer da primeira metade do século XX, novos investimentos estrangeiros se destinaram aos setores energético, primários, de comunicações e de representação comercial de indústrias manufatureiras. Mas foi na segunda metade dos anos 1950 que tivemos um marco decisivo na internacionalização brasileira, quando as empresas estrangeiras chegavam ao país para conquistar o mercado interno e, com isso, se constituir estrategicamente nos setores de bens de capital e de consumo duráveis, os mais dinâmicos na implantação e desenvolvimento da indústria pesada brasileira. A origem desse capital foi norte-americana e europeia, e os principais investimentos se destinaram aos setores de transporte, química, metal-mecânica, materiais elétricos, seguidos pelos setores de consultorias, comércio e farmacêuticos.
Mais que uma questão quantitativa que permitiu a economia brasileira crescer a um ritmo de “50 anos em 5”, em Juscelino Kubitschek – JK, e depois intensamente na ditadura militar, o que se consolidou nessa época com o capital internacional foi um novo nexo imperialista que articulou de forma subordinada o Estado brasileiro e os sócios privados internos à estratégia de conquista das grandes corporações. Nesse momento de Guerra Fria, tal articulação era extremamente necessária para dirimir os riscos de valorização capitalista diante da ameaça soviética em espaços periféricos como a América Latina. Junto com a internacionalização produtiva dessa fase que alavancava a industrialização brasileira, estava internalizando também um modo de vida genuinamente fordista e funcional à dominação imperialista. Uma questão complexa, portanto, que ultrapassa em muito a linha de argumentação economicista do período.
IHU On-Line - O então presidente João Goulart tinha alguma proposta em relação à atuação das empresas multinacionais no Brasil?
Fábio Antonio de Campos - João Goulart sempre foi cauteloso nessa matéria porque sabia que qualquer intervenção mais nacionalista intensificava as contradições seculares de nossa dependência externa. No entanto, estas nasceram da nossa formação histórica, convertendo em antagonismos abertos que necessitavam ser enfrentados dentro do contexto da “revolução brasileira”. Demandas históricas de controle ao capital internacional passaram a ser bandeiras de sindicados, movimentos sociais organizados, intelectuais, estudantes e os partidos progressistas. A pressão nacional-popular cresceu tanto que a “Lei de Remessas de Lucro” foi aprovada no Congresso em 1962, sendo que Goulart só a sancionou em janeiro de 1964, já na antessala do Golpe. Portanto, a iniciativa de controlar o capital internacional foi resultado de uma conscientização popular que vinha de longo prazo. Tal como a campanha do “Petróleo é Nosso”, Goulart seria pressionado pela movimentação popular.
Em contrapartida, isso aumentaria a apreensão do Governo norte-americano, das empresas multinacionais aqui instaladas e dos setores estatais e de empresas privadas nacionais que formavam uma associação de interesses que tinha na dependência externa a realização de seus negócios. Como observo em minha tese de doutorado, a história se acelerou naquela quadra, e as condições para uma revolução brasileira emergiram dentro da polarização entre um “complexo multinacional” versus forças nacional-populares.
Foto: Comunisação Popular
IHU On-Line - Qual foi a relação das empresas multinacionais com o golpe de 1964? Quais empresas financiaram o golpe?
Fábio Antonio de Campos - A relação mais evidente foi o financiamento do IPES [instituto de Pesquisas e Estudos Sociais] e IBAD [Instituto Brasileiro de Ação Democrática] — que eram órgãos de conexão política do Governo norte-americano —, empresas multinacionais e as burguesias brasileiras. Buscavam na verdade intervir por meio da conspiração contra os interesses que colocariam em risco a valorização capitalista desse complexo multinacional. Os trabalhos de Dreifuss apresentam de forma pioneira os atores que financiaram tais órgãos. No entanto, é necessária uma mediação mais profunda para entender o estágio de desenvolvimento capitalista brasileiro conectado com a fase imperialista do pós-IIGM – II Guerra Mundial. Diante da conjuntura da Guerra Fria, a viabilidade da realização dos investimentos estrangeiros mediante a conquista do mercado interno exigia parcerias nacionais sólidas, de modo a sancionar uma política econômica favorável à mobilidade do capital internacional, principalmente para realizar seus lucros extraídos com exploração do trabalho brasileiro em moeda de origem (divisas fortes). Essa valorização externa, geralmente em dólares, alavancava negócios internos dentro de um poderoso arco de alianças.
IHU On-Line - Qual era o interesse dessas empresas em que houvesse um golpe militar no Brasil?
Fábio Antonio de Campos - Qualquer política que fosse um pouco mais discricionária em relação à entrada e saída de capitais estrangeiros (investimentos, empréstimos, remessas, repatriações, juros, transferências diversas) afetava a valorização capitalista que sustentava os interesses do complexo multinacional. O capitalismo dependente brasileiro, quando passou a ser questionado por forças populares, cujas classes subalternas passaram a ter alguma voz, dilatando de forma inédita a democracia que sempre fora restrita e dominada por uma burguesia ultraelitista, fez com que o risco dos negócios aumentasse. Do ponto de vista concreto, é possível observar na “Lei de Remessas de Lucro”, ao lado de outras questões importantes como a estatização do setor energético e a negociação da dívida externa, como se manifestava essa correlação de forças.
Dentre várias atribuições, a lei propunha criar um código inédito de seleção de investimentos e uma sistemática regulação das remessas de lucros, royalties, transferências tecnológicas, juros, etc. Em seu dispositivo mais polêmico estava o limite de remessas de lucro em 10% apenas do capital inicial, ou seja, só podia remeter a partir do que de fato entrou, e não de uma base maior em que se adicionavam os reinvestimentos de lucro. Sem falar que, em caso de crise cambial, previa-se paralisação das remessas e outras medidas de controle na conta capital e de serviços do balanço de pagamentos. Na história econômica brasileira, toda vez que se tentou algo semelhante, como durante o período Vargas, por exemplo, tais medidas não duraram mais do que um ano. Essa legislação, a despeito de seu elevado grau de tecnicidades, que atrapalham a compreensão, revela o sentido político dos poderes do capital internacional que estão em jogo, e também como eles se articulavam para obstruir qualquer instrumento que inviabilizasse seus interesses. A partir do momento que no terreno da democracia esses interesses foram sendo vencidos, como no caso da aprovação da Lei de Remessas de Lucro em 1962, a conspiração e o Golpe seriam extremamente necessários para dar continuidade à valorização capitalista das empresas multinacionais com o mercado interno brasileiro.
IHU On-Line - Qual foi a política econômica implementada durante o golpe militar? O que mudou em relação à política econômica anterior?

Fábio Antonio de Campos - O Programa de Ação Econômica do Governo - PAEG e as reformas financeiras que nasceram logo após o Golpe foram mudanças essenciais. Isso porque de um lado as políticas de oferta ampliaram as condições para o financiamento da economia, sendo que as políticas de demanda criaram, por outro lado, uma intensa restrição via cortes de gasto público e arrocho salarial que penalizou boa parte das forças populares que estavam lutando contra o complexo multinacional antes de 1964. Essa política econômica, ao mesmo tempo que criava as condições para aprofundar a desigualdade social brasileira, restabelecia, por meio do financiamento às grandes empresas e às famílias da classe média alta para cima, as condições vitais para o crescimento econômico a partir de uma estrutura industrial montada na época de Kubitschek. Tais medidas que aprofundaram nosso subdesenvolvimento só tiveram êxito porque, com o Golpe de 1964 e a ditadura, o nexo imperialista foi renovado. Além de destituir da Lei de Remessas de Lucro seus dispositivos mais discricionários em relação ao capital internacional, já em agosto de 1964 (Lei 4.390), foram criadas novas medidas que facilitariam o acesso ao mercado internacional de crédito.
IHU On-Line - Como, depois do golpe, a política econômica beneficiou as multinacionais?
Fábio Antonio de Campos - Além da política econômica mais geral que beneficiava tanto as condições de financiamento da empresa multinacional quanto restabelecia a potencialidade do mercado interno por meio de incentivo ao consumo das classes altas, a ditadura permitiu a conexão dos interesses de valorização das filiais estrangeiras com o sistema financeiro internacional. A reforma da legislação, além de retirar do marco institucional as medidas que impediam as remessas ao exterior a partir de reinvestimentos de lucro, criou novos instrumentos que liberalizavam o acesso da filial estrangeira ao endividamento externo. Na medida em que as matrizes intermediavam no Euromercado esses empréstimos para suas filiais no Brasil, tornavam-se suas credoras, e todo pagamento pelo serviço dessa dívida poderia ser superfaturado remetendo lucros disfarçados em juros. Essa foi uma nova fase do endividamento externo brasileiro, cujas empresas multinacionais foram agentes fundamentais desse processo. Essa liquidez internacional foi drenada pelo complexo multinacional no final dos anos 1960, internalizando crédito externo bem acima das necessidades de financiamento industrial para importação de bens de capital. Desse modo, o endividamento externo assumiu um caráter eminentemente financeiro, haja vista que as reservas cambiais que iam se avolumando deveriam ser esterilizadas por meio de emissão de títulos da dívida pública ante o impacto inflacionário que isso causava na economia.
A oferta de títulos públicos com taxas de juros cada vez mais convidativas para o mercado criava um negócio interno extremante lucrativo para o complexo multinacional, originando no futuro a “ciranda financeira”. Assim, a corporação multinacional ganhava tanto no Euromercado, permitindo que suas filiais se endividassem para remeter lucros disfarçados, como credoras internamente, ao lado do grande capital privado nacional, na rolagem de títulos da dívida pública. A chamada modernização do sistema financeiro pela ditadura garantiu essa facilidade, dentre outras, para o complexo multinacional.
IHU On-Line - A política econômica do período do golpe favoreceu os brasileiros?
Fábio Antonio de Campos - A política econômica pós-Golpe favoreceu a minoria da população brasileira, isto é, os brasileiros da classe média alta para cima. A burguesia e seus aliados usufruíram de novas fronteiras de investimentos e de variados negócios que nasceram nesse período.
IHU On-Line - De que maneira o capital internacional influenciou na formação econômica do Brasil? Qual foi a relação do capital internacional com o desenvolvimento capitalista brasileiro entre 1951 e 1992?
Fábio Antonio de Campos - Ao conquistar o mercado interno brasileiro, impondo o ritmo e o compasso da implantação e desenvolvimento das forças produtivas, o capital internacional, ao mesmo tempo que permitiu o avanço da industrialização brasileira, constituindo-se no eixo dinâmico dessa expansão, selou a aliança imperialista entre as burguesias internacionais com suas correspondentes nativas que sempre se subordinaram a essa articulação. Longe de isso criar as condições para autodeterminação do desenvolvimento nacional, acabou por sacramentar nossa dependência externa e subdesenvolvimento. Se antes essa articulação permitia um certo desenvolvimento capitalista, em função de que os investimentos se orientavam por um regime central de acumulação, cuja necessidade era de integrar o mercado interno por rígidas fronteiras adensando as cadeias produtivas, hoje, com a mundialização financeira, a articulação deve ser global.
O Brasil como o elo fraco no modo de produção capitalista, deve se adaptar apresentando uma política econômica liberal que garanta a mobilidade do capital internacional e, com isso, sofrer desnacionalização, privatização, desindustrialização e primarização da economia. A despeito das particularidades da época neoliberal que vivemos, a continuidade dessa dependência foi resultado de um processo histórico que só a partir do período colonial podemos entender em sua totalidade.
IHU On-Line - Qual era a situação econômica do Brasil no período pós-golpe? Alguns especialistas comentam que o Brasil viveu uma situação de milagre econômico durante a Ditadura, mas, com a reabertura, constatou-se que o déficit externo era altíssimo.
Fábio Antonio de Campos - A economia é fundamental para entender o alcance e os limites da ditadura como instrumento do capitalismo brasileiro. A ditadura serviu para garantir a expansão do desenvolvimento capitalista brasileiro definido a partir de JK, ou seja, a industrialização pesada dinamizada pelo capital internacional em proveito dos diferenciais do mercado interno, estabelecidos pela elevada concentração de renda que garantia a valorização à custa da superexploração do trabalho. À medida que se avançava na industrialização intensificando a dependência externa e o subdesenvolvimento, os limites estruturais que se impunham (financiamento e liberalização cambial), exigiam reformas institucionais que aperfeiçoassem o modelo econômico funcional ao complexo multinacional.
O Golpe de 1964 e a ditadura tiveram essa função, ou seja, viabilizar um tipo de indústria que recolocava nossos dilemas de formação histórica numa situação ainda mais dramática. Os problemas que surgem desse período, como desaceleração do crescimento, redução na taxa de investimento, aumento da desigualdade, desemprego e estatização da dívida externa só podem ser compreendidos dentro da “contrarrevolução brasileira”. Na essência, ela significou o divórcio dos meios estruturais que tinham, na utopia de desenvolvimento nacional, os fins. O antagonismo que se abriu nos anos 1950, acirrando em forma de inúmeros conflitos e lutas na segunda metade dos anos 1960, foi enfrentado com uma rota desenvolvimentista antinacional, antidemocrática e antissocial.
Enquanto a ditadura serviu para viabilizar os interesses do complexo multinacional, que, aliás, tinham na industrialização seu eixo de valorização capitalista, ela cumpriu seu papel, mas quando a própria articulação imperialista entre a economia brasileira e o padrão mundial de acumulação teve que ser realinhada em favor do capital internacional, ela perdeu sua função.
IHU On-Line - Ainda hoje o capital internacional exerce influência no desenvolvimento capitalista brasileiro? Em que medida? O que diferencia o período analisado com os dias de hoje?
Fábio Antonio de Campos - O Estado, na ditadura, foi instrumentalizado para atender os fins do capital internacional e seus sócios internos em um determinado padrão mundial de acumulação, e era assim que sua face intervencionista se ajustava às necessidades impostas pelas classes dominantes. Seu raio de manobra foi delimitado por essa dimensão, permitindo apresentar certa legitimidade por meio da ideologia desenvolvimentista, um aparente nacionalismo e o crescimento econômico puxado pela indústria.
Hoje, a intervenção estatal é para garantir a viabilidade dos negócios externos e internos que compõem outro arco de interesses do complexo multinacional, sob uma ideologia neoliberal, cujo aumento do poder do capital internacional na economia brasileira sanciona tanto a secular dependência externa quanto o subdesenvolvimento.
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
Fábio Antonio de Campos - Apenas convidar os leitores para que revisitem a formação econômica brasileira, relendo autores brasileiros clássicos, de modo a extraírem as determinações profundas do significado do capital internacional em nossa história. Naquele difícil contexto do pré-Golpe, o pensamento social brasileiro estava armado para discutir essas questões com enorme fôlego. Atualmente, diante de uma crise estrutural que enfrentamos no capitalismo, se faz urgente estudar nossas particularidades históricas e a posição periférica que o país ocupa em um mundo cujas corporações multinacionais dominam a reprodução material e cultural da sociedade contemporânea.

ANOS DE CHUMBO - Qual a sua história?

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Kennedy cogitou ação militar contra Goulart

Porém, a veloz resignação de Jango à sua própria queda meses depois poupou os brasileiros de verem tropas americanas desembarcando em território nacional - uma ideia que soava tão escandalosa que os próprios americanos relutavam em abraçar, indicam os arquivos da época. Qual a sua história?

A reportagem é de Pablo Uchoa, publicada por BBC Brasil,
A possibilidade estava na manga caso houvesse "uma clara evidência de intervenção do bloco soviético ou de Cuba do outro lado", precisou o então embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, em um plano de contingência discutido com o Departamento de Estado em dezembro de 1963 e obtido pelo historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A hipótese de uma ação armada também foi assunto de conversa entre Gordon e Kennedy em Washington em outubro de 1963, segundo uma gravação revelada pelo jornalista Elio Gaspari na reedição de A Ditadura Envergonhada.
Segundo o registro, o então presidente perguntou ao embaixador se a situação no Brasil estava "indo para onde deveria", ou se era "aconselhável que façamos uma intervenção militar".
'Nova Cuba'

As desconfianças de Kennedy em relação a Jango se exacerbaram entre fins de 1962 e fins de 1963, período em que os Estados Unidos se preocupavam em "evitar uma nova Cuba na América Latina".
Evitar que o Brasil de Jango "deslizasse" para o comunismo virou um "mantra" em Washington, disse à BBC Brasil o historiador Peter Kornbluh, da organização National Security Archives, que pressiona pela desclassificação de documentos históricos do governo americano.
O "ápice" da relação Kennedy-Jango fora durante a crise dos mísseis, em outubro de 1962, quando a inteligência americana revelou que a União Soviética estava posicionando mísseis na ilha comunista de Cuba.
Versão da família de Jango
A pedido de Kennedy, Goulart enviou um emissário à ilha comunista para servir de intermediário secreto entre Havana e Washington, segundo um detalhado estudo de James Hershberg, historiador da Universidade George Washington.
O emissário brasileiro, general Albino Silva, chegou em Havana quando o líder soviético Nikita Kruschev já anunciara a retirada dos mísseis de Cuba.
Mas o episódio é interpretado na historiografia como sinal do "benefício da dúvida" que Kennedy estendia a Goulart. Porém, no fim, serviu para reforçar as desconfianças do norte do continente.
Hershberg diz que a Casa Branca achou que Jango "virava a casaca" em temas importantes conforme sua conveniência.
Kornbluh explica que a Casa Branca não gostou da recusa de Jango em se se alinhar aos Estados Unidos em um voto contra Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA) por ter aceitado esses mísseis.
Em vez disso, Jango defendera uma zona livre de armas nucleares na América Latina. "No final, Kennedy se convence de que, se Goulart não estava com eles, estava contra eles", disse o historiador.
Operação Brother Sam
O líder brasileiro seria deposto apenas meses antes da reunião da OEA em julho de 1964 que expulsou Cuba e resultou no seu isolamento do hemisfério.
Entre a crise dos mísseis e o golpe de 64, as relações Estados Unidos-Brasil "se deterioraram acentuadamente", escreve Hershberg, com Kennedy segredando a um visitante que a situação no Brasil lhe preocupava "mais que Cuba".
Arquivos digitalizados pela biblioteca JFK mostram que, cinco dias antes do assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, o embaixador Lincoln Gordon recomendava ao presidente que não incluísse o Brasil em um giro por países latino-americanos que faria no início de 1964.
Gordon mencionava o baixo comprometimento de Goulart com o esforço regional de integração de Kennedy, a Aliança para o Progresso, e sua aversão a investimentos estrangeiros.
A antipatia do embaixador - que identificava tendências peronistas e ditatoriais em Goulart, apesar de ser questionado pelo Departamento de Estado em ocasiões - é bem documentada.
Hoje os historiadores também sabem que a chamada operação Brother Sam - o envio de uma força naval composta de petroleiros, destróieres e o prestigioso porta-aviões USS Forrestal para a costa brasileira - foi planejada durante o governo Kennedy e executada no período de seu sucessor, Lyndon B. Johnson.
A frota levaria combustíveis, armamentos e gases para controle de multidão para reforçar o arsenal das forças anti-Goulart.
'Cara de legitimidade'
Durante anos, o regime militar brasileiro e o governo americano sustentaram a versão de que os Estados Unidos apenas reconheceram um golpe "made in Brazil", sem interferência dos grande vizinho do norte. Quando a operação Brother Sam veio à tona, Gordon afirmou que se tratava apenas de demonstração de força.
Porém, no plano de contingência obtido pelo professor Carlos Fico, o embaixador previra que os Estados Unidos poderiam apoiar os conspiradores "de forma encoberta ou mesmo aberta, particularmente (apoio) logístico (gasolina, óleos e lubrificantes, alimentos, armas e munição)".
"A ideia era fazer uma espécie de ponte aérea entre o porta-aviões e uma região de São Paulo para a entrega dessas munições e armas. Como é que iriam fazer isso essa entrega sem desembarcar?", questiona o professor. "Seria impossível."
Ao mesmo tempo, os documentos indicam que o embaixador americano se preocupava com a "cara de legitimidade" que permitiria ao governo americano reconhecer o novo regime no Brasil.
Em um telegrama enviado na tarde de 31 de março, por exemplo - disponível nos Arquivos Nacionais americanos -, Lincoln Gordon informa o Departamento de Estado sobre "movimentos militares em Minas Gerais totalmente apoiados pelo governador Magalhães Pinto".
"Tomei ação de repassar aos principais governadores a mensagem sobre (a) importância vital (de) cores de legimitidade", afirma o embaixador.
"Meus intermediários estão se informando sobre como (o) grupo de governadores propõe lidar com (a) questão crítica (do) manto de legitimidade e (a) posição enquanto defensores da constituição (...) se não houver apoio do Congresso."

GEOPOLÍTICA - A crise da Ucrânia, seu significado e desdobramentos.


A crise da Ucrânia, seu significado e desdobramentos

"A crise na Ucrânia evidencia e confirma a análise da política internacional, consubstanciada em no meu livro A Segunda Guerra Fria - Geopolítica e dimensões estratégicas dos Estados Unidos (Das rebeliões na Eurásia às África do Norte e ao Oriente Médio). Moscou não vai tolerar que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) estenda sua máquina de guerra às fronteiras da Rússia, nem que posicione um escudo antimísseis nos territórios da Polônia e da República Tcheca". A avaliação é do cientista político e historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira. A presença da OTAN na Ucrânia, comparou o historiador, representa, para a Rússia, a mesma ameaça que os mísseis em Cuba representavam para os EUA em 1962.
A entrevista é de Marco Aurélio Weissheimer, publicada por Carta Maior, 27-03-2014.
Eis a entrevista.
Qual a sua avaliação sobre os fatos que se sucederam ao plebiscito na Crimeia que decidiu pela anexação dessa região à Rússia?
Não houve propriamente anexação, mas, de fato e de direito, uma reincorporação da República Autônoma da Crimeia à Rússia, aprovada por 96,77% dos 83,10% dos votantes, uma participação massiva, no referendum convocado pelo Parlamento regional. Essa península permaneceu virtualmente sob a soberania da Rússia, desde o Tratado de Küçük Kaynarca, firmado com o Império Otomano, em 1774, durante do reinado da imperatriz Catarina II, a Grande (1729 –1796). Como lembrou o presidente Vladimir Putin foram os bolcheviques que, após a revolução de 1917, cederam, sem consideração étnica, territórios russos que formam atualmente o sudeste da Ucrânia, para a qual, em 1954, Nikita Khrushiov, secretário-geral do Partido Comunista da URSS, transferiu, por iniciativa pessoal, a Crimeia, juntamente com Sevastópol.
A iniciativa de reintegrar-se à Federação Russa constituiu uma reação ao golpe perpetrado pelas storm-troopers, grupos treinados, armados e organizados, militarmente, na Lituânia e na Polônia, com fardas da antiga divisão SS Galitzia (Waffen-Grenadier-Division der SS/galizische SS-Division Nr. 1), formada pelos ucranianos que se aliaram às forças da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Foram essas milícias do Setor de Direita (Pravyi Sektor) e do Svoboda do (Partido Liberdade), que, em fevereiro, conquistaram o poder em Kiev.
O politólogo húngaro-americano, George Friedman, presidente da Stratfor, companhia especializada em global intelligence, embora escrevesse que “não sabe o que ocorreu em Kiev”, referindo-se hipocritamente ao putsch contra o presidente Viktor Yanukovych, reconheceu que “houve certamente muitas organizações financiadas com dinheiro americano e europeu que estavam comprometidas com a reforma do governo” (Geopolitical Weekly - March 18, 2014).

Foram essas ONGs que promoveram as demonstrações - com dois senadores americanos à frente - John McCain (Partido Republicano) e Christopher Murphy (Partido Democrata) – e possibilitaram a captura do poder pelos neonazistas do Setor de Direita e do Svodoba, discípulos ideológicos de Stepan Andrijowytsch Bandera (1909-1959), anti-semita e anti-russo, aliado de Hitler na Segunda Guerra Mundial. O banqueiro Arseniy “Yats” Yatsenyuk, candidato de Victória Nulands (famosa pela frase “Fuck the EU”), autoproclamou-se primeiro-ministro e colocou os neonazistas em postos chaves do governo.
O almirante Ihor Yosypovych Tenyukh, ministro interino de Defesa da Ucrânia é alto dirigente do Svoboda; Dmytro Yarosh, fundador do Setor de Direito, outro partido neonazista, é o vice-presidente do Conselho de Defesa e Segurança Nacional. O poder em Kiev está, de fato, nas mãos de Oleh Yaroslavovych Tyahnybok, o líder neonazista do Svoboda, inimigo declarado do que chama de “máfia judaico-russa”. Com esse governo ilegal, sem legitimidade, oriundo de putsch, foi que a União Europeia firmou no dia 21 de março um tratado de livre comércio.

Qual sua avaliação sobre o atual estágio da crise na Ucrânia?
Um conhecido meu, que vive em Kiev, relatou, por e-mail, que esses grupos neonazistas, que deram o golpe de Estado, a pretexto de integração com a União Europeia, gritando “democracia” e “liberdade”, continuam a aterrorizar os russos e os ucranianos de língua materna russa, bem como os fiéis da Igreja Ortodoxa Russa. Se o governo de Viktor Yanukovych era ruim, corrupto – disse ele - os neonazistas que assumiram o poder são muito piores. São lumpens armados, bandidos, terroristas, e a situação em Kiev continua muito perigosa.
A cidade está fervilhando, com milhares da gangs nazistas, de diferentes movimentos locais, absolutamente ensandecidos e estúpidos. E o banditismo e o terror, que atormentam Kiev, atingem quase todas as regiões da Ucrânia. Nas cidades do leste, principalmente em Donetsk e Lugansk, onde predominam os russos e pró-Rússia, os conflitos com as gangs neonazistas não cessam porque a maior parte da população não aceita e não reconhece o governo instalado em Kiev. A Crimeia é a única região onde a situação é boa, calma, não há banditismo nem terrorismo, porque está sob o controle das tropas da Federação Russa.
Quais as consequências para a Ucrânia e o Ocidente (Estados Unidos e União Europeia) da reincorporação da Crimeia pela Rússia?
As consequências são várias e complexas e daí a histeria dos Estados Unidos e da União Europeia. A Crimeia é uma das maiores regiões no Mar Negro para a exploração da gás e petróleo. A produção de gás aumentou, em 2013, cerca de 40%, com a abertura dos campos de Odessa e Stormovoe na Bacia do Mar Negro. A extração atingiu o nível de 1,5 bcm por ano.
Um dos maiores depósitos de óleo e gás está na área do estreito de Kerch, que liga o Mar Negro ao Mar de Azov. O governo da Crimeia logo anunciou a nacionalização dos gasodutos e campos operados pelas companhias estatais da Ucrânia - ChornomorNaftogaz e Ukrtransgaz – incluindo o subsolo, no litoral do Mar Negro, e as grandes companhias petrolíferas - Royal Dutch Shell Plc (RDSA), Exxon Mobil Corp. (XOM) Shell e Chevron Corp, Eni Span. (ENI) haviam firmado contratos com o governo de Kiev para a prospecção e exploração de petróleo e gás, nessa região.
Ao reintegrar a Crimeia à Rússia, o presidente Vladimir Putin deu notável golpe nas pretensões dos Estados Unidos e da União Europeia. Bloqueou o acesso físico de Kiev às virtuais fontes de energia no Mar Negro e assustou as empresas petrolíferas que lá estavam dispostas a investir. Um consórcio, que incluía a Exxon e Royal Dutch Shell Plc (RDSA) planejava investir US$735 perfurar dois campos - Skifska e Foroska - a 80km no sudoeste do litoral da Crimeia. Mas sem a Crimeia, Kiev não mais tem jurisdição sobre seu litoral, e também sobre o Mar de Azov, e a Ucrânia perde importante área submarina, cuja produção de petróleo poderia alcançar o montante de 70 milhões de cru por ano, o que a tornaria menos dependente da Rússia em termos de energia.
A Ucrânia consome anualmente cerca 55 bilhões de metros cúbicos (bcm) de gás, dos quais 50 por cento importa da Rússia. E a estimativa é a de que as reservas de gás, na bacia do Mar Negro, possam conter de 4 trilhões a 13 trilhões de metros cúbicos. Com um investimento de US$ 8 bilhões a US$9 bilhões, a produção poderia alcançar um nível de 9,7 milhões de metros cúbicos por ano por volta de 2030. O controle dessa riqueza, que os Estados Unidos pretendiam ganhar através da adesão da Ucrânia à União Europeia, passou, juntamente com a Crimeia, para a Rússia.
As companhias petrolíferas terão certamente de fazer novas negociações e aí com as autoridades de Simferopol e de Moscou. A Gazprom já solicitou permissão às autoridades da Crimeia para explorar as reservas do litoral. E a Ucrânia, com uma economia improdutiva, terá outros grandes prejuízos. Necessita de US$ 25 bilhões, em 2014, para cobrir o enorme déficit da conta corrente e pagar aos credores estrangeira. Somente com Rússia, o débito é de US$16 bilhões, conforme informou ao presidente Putin, o primeiro-ministro Dmitry Medvedev, em reunião do Conselho de Segurança da Rússia. E a dívida com a Gazprom pelo fornecimento de gás alcançou o valor de US$1,8 bilhão em fevereiro de 2014.

Porém, suas reservas monetárias somam apenas US$12 bilhões. A perspectiva é de instabilidade social e volatilidade política, sobretudo quando o governo de Kiev aplicar as medidas de austeridades impostas pelo FMI, Estados Unidos e União Europeia para conceder algum bailout.

Quais foram os fatores determinantes para o golpe que derrubou o presidente Viktor Yanukovych? Qual foi o peso do recuo na assinatura do acordo de livre comércio com a União Europeia?
Os fatores foram vários e as ONGs, financiadas por entidades dos Estados Unidos e da União Europeia, e os partidos neonazistas, aproveitaram as péssimas condições domésticas para fomentar as demonstrações na praça Maidan. Porém, um dos principais fatores, foi o fato de que, em 21 de abril de 2010, o presidente Viktor Yanukovych, após ser eleito presidente da Ucrânia contra Yulia Tymoshenko, anunciou um novo acordo, firmado, em Kharkov, com o então presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, estendendo o arrendamento da base naval de Sevastópol, no Mar Negro. O acordo, que devia expirar em 2017, foi prorrogado por mais 25 anos, até 2042, com a possibilidade de ser estendido por mais cinco anos.
Em compensação, a Rússia investiria no desenvolvimento econômico e social de Sevastópol, além de reduzir em 30%, abaixo da cotação do mercado, o preço do gás natural fornecido à Ucrânia, estimado em US$40 bilhões. O acordo de Kharkov previa, como no tempo da União Soviética, a realização de projetos conjuntos, em setores estratégicos, tais como, inter alia, energia nuclear e aviação, e permitiria a Ucrânia retomar um ritmo sustentável de crescimento. E, outrossim, o acordo evitava que a Ucrânia aderisse à OTAN, cuja carta impedia que qualquer dos seus membros instalasse bases no seu território, até o fim do arrendamento pela Rússia. A crise, desde então, estava a fermentar, até que a proposta do acordo para a associação da Ucrânia à União Europeia e tratado de livre comércio, por diversos motivos, voltou à agenda em 2013. Esta seria, provavelmente, uma forma de anular o acordo de Kharkov, firmado em 2010.
O presidente Vladimir Putin sempre se manifestou disposto a não tolerar que a OTAN estendesse sua máquina de guerra às fronteiras da Rússia, ameaçando-lhe a posição estratégica, nem o estacionamento do escudo antimísseis nos territórios da Polônia e da República Tcheca.
Ao perceber o objetivo dos Estados Unidos e das demais potências ocidentais, a ameaça implícita nas suas iniciativas militares, visando a assumir o controle do Mediterrâneo e eliminar a influência da Rússia e da China no Oriente Médio e no Magreb, bem como isolar politicamente o Irã, ele restaurou a frota russa, no Atlântico, e expandiu a frota no Mediterrâneo, que passou a contar, a partir de 2012, com onze vasos de guerra – Aleksandr Shabalin, Almirante Nevelskoy, Peresve, Novocherkassk, Minsk, Nikolay Fylchenkov, ademais de um grande navio anti-submarino - Almirante Panteleyev – um navio de escolta - Neustrashimy’ - um navio de patrulha – Smetlivy – e um cruzador anti mísseis – Moskva.

A ampliação do porto de Tartus, na Síria, como base naval para sua frota no Mar Negro, já havia começado. E o que os Estados Unidos e os países da Europa certamente pretendiam era instalar em Damasco um governo que acabasse com essa base naval, interligada com a base naval de Sevastópol, no Mar Negro, impedindo o acesso da Rússia às águas quentes do Mediterrâneo. Daí que o presidente Vladimir Putin, com grande habilidade, conseguiu impedir que o presidente Barack Obama cometesse a insensata aventura de bombardear a Síria e forneceu ao governo de Bashar al-Assad os modernos e eficientes sistemas antimísseis - SS-N-26, para a defesa da costa, e o SA-21 (S-300 PMU2) para defesa aérea – a fim de enfrentar qualquer intervenção estrangeira.
A crise, que voltou a eclodir na Ucrânia, está interligada, de um modo ou de outro, com a situação na Síria, onde o presidente Bashar al-Assad está retomando o controle de todo o país. Inserem-se no mesmo contexto da guerra fria, que recomeçou, após um interregno, uma vez que a política de Washington não se desviou, em nenhum momento, da diretriz traçada pelo general Colin Powell no sentido de impedir a União Europeia de tornar-se uma potência militar, fora da OTAN, e a remilitarização do Japão e da Rússia, e desencorajar qualquer desafio à sua preponderância ou tentativa de reverter a ordem econômica e política internacionalmente estabelecida. (The Military Strategy of the United States – 1991-1992).
O que o Brasil tem a ver com essa crise? Qual deve ser, na sua opinião, a posição da política eterna brasileira neste caso?
O Brasil não deve envolver-se na crise da Ucrânia. Seus interesses nacionais e estratégicos não são os mesmos dos Estados Unidos nem da União Europeia. O Brasil tem negócios com a Ucrânia, o projeto da empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS), firmado em 21 de outubro de 2003. Trata-se de um acordo de cooperação a longo prazo entre os dois países, para entrar no mercado internacional de lançamentos espaciais. O município de Alcântara, no Maranhão, apenas 2° ao sul da Linha do Equador – onde é maior a velocidade de rotação da Terra – permite um impulso natural para o voo do foguete e possibilita a realização de lançamentos para qualquer direção a partir de um único ponto.
A Ucrânia iria fornecer a tecnologia e os equipamentos, que antes fabricava para a União Soviética, nas indústrias situadas no leste, particularmente em Donetsk e Lugansk. Esse projeto, embora sofresse atraso devido aos problemas financeiros da Ucrânia, que não pôde integralizar o capital, havida sido ultimamente retomado.
Os Estados Unidos, porém, sempre foram contra e, se controlam o governo de Kiev, podem inviabilizá-lo. Por outro, o Brasil não pode reconhecer uma governo ilegal, sem legitimidade, e manifestar-se contra a Rússia, que não cometeu nenhuma agressão contra a Ucrânia. A Criméia já era uma República Autônoma, dentro da Ucrânia, e seu Parlamento decidiu, legalmente, convocar um referendum e a maioria esmagadora votou pela reunificação com a Rússia, que não a invadiu. Suas tropas já estavam dentro em Sevastópol, na Crimeia, uma República Autônoma, de conformidade com o acordo de Kharkov.

O presidente Putin ganhou mais uma disputa do presidente Obama, como ocorreu no caso da Síria? A política externa da Rússia está melhor preparada neste momento?
Sim. O presidente Vladimir Putin é o maior estadista da atualidade. Ganhou mais um lance no xadrez da política internacional. A Rússia tem uma larga experiência e é mais pragmática. A diplomacia nos Estados Unidos é conduzida, porém, por amadores, embriagados pela ideologia do “excepcionalismo” da América, como “the indispensable nation”. E, embora haja nos Estados Unidos notável elite acadêmica e intelectual, com profundo e claro conhecimento dos outros países, a América profunda ignora o resto do mundo. E é essa América profunda, que elege a maioria do Congresso e, portanto, influi também na política exterior, mais e mais militarizada, com base na crença da invencibilidade do seu poderio militar, conquanto, como reconheceu o próprio ex-presidente Bill Clinton, os Estados Unidos não tenham vencido nenhuma guerra desde 1945.
O fato de que o presidente Barack Obama se afoitou e logo reconheceu o governo instalado em Kiev pelos neonazistas e recebeu na Casa Branca o autoproclamado primeiro-ministro da Ucrânia, o banqueiro Arseniy “Yats” Yatsenyuk, evidenciou sua incapacidade como chefe de governo e de Estado. Esse governo não é legal, não tem legitimidade e, qualquer que seja a evolução da crise, o status quo na Ucrânia inevitavelmente se manterá. A situação na Ucrânia é extremamente volátil. E o que é doloroso é ver que a União Europeia se deixa subordinar pelos Estados Unidos, avassalada por meio da OTAN, convertida em gendarme global, cujos comandantes dão opiniões, fazem ameaças e ditam diretrizes políticas, como se fossem chefes de Estados. As sanções contra a Rússia são inócuas. Não reverterão à Crimeia à Ucrânia. Trata-se de um fato consumado. E, se as sanções forem realmente efetivadas, afetarão, sobretudo, as economias da França e da Alemanha, onde se prevê que a suspensão das encomendas militares da Rússia levará mais de 350.000 trabalhadores ao desemprego.
Parece haver um lobby se constituinte na imprensa brasileira e ocidental contra a posição da Rússia. Como o senhor vê o comportamento da mídia neste caso?
Um grande amigo meu escreveu-me que “é muito preocupante notar que a imprensa e TV ocidentais escamoteiam completamente a situação na Ucrânia, que já me fora relatada por outros residentes em Kiev. Esses meios de comunicação, que temos parecem os da Alemanha nazista ou a dos países comunistas! Vivemos como no filme "Farenheit 452"...” Esse filme, dirigido e lançado em 1966, por François Truffaut, constituiu uma adaptação da novela de Ray Bradbury, mostrando o futuro da sociedade americana, onde os livros seriam proibidos e destruídos por autocombustão do papel.
No governo do presidente George W. Bush (2001-2009), Donald Rumsfeld, como secretário de Defesa, criou sigilosamente dentro do Pentágono, o Office of Strategic Influence (OSI), com a tarefa de consistiu em manipular a opinião pública, com falsas informações, e promover psychological operations (PSYOP), o mesmo objetivo do Ministério da Informação Popular e Propaganda do Reich nazista, dirigido por Joseph Goebbels, autor da lição de que “uma mentira deve ser somente muitas vezes repetida e então ela se torna crível” (Eine Lüge muss nur oft genug wiederholt werden. Dann wird sie geglaubt). O MI6 — Secret Intelligence Service (SIS) — do Reino Unido possui igualmente uma para Information Operations (I/Ops) encarregada de planejar as operações de guerra psicológica, como antes faziam a Special Political Action (SPA) e o Information Research Department (IRD). Esses órgão têm como função, inter alia, plantar, na imprensa, falsas estórias, rumores e desinformação, por meio de off-the-record briefing e double-sourcing, i.e., confirmadas por outro agente contratado para essa função. A remuneração era paga a editores, via um offshore bank em acessível paraíso fiscal. Todo esse processo eu demonstro, documentadamente, em meu livro A Segunda Guerra Fria - Geopolítica e Dimensão Estratégica dos Estados Unidos (Das rebeliões na Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio).
Na sua avaliação, há o risco de uma escalada militar nesta crise?
Em uma confrontação militar entre a Rússia e os Estados Unidos há sempre o risco de uma escalação da guerra convencional para o uso de armas nucleares. Daí que um confronto militar entre os Estados e a Rússia afigura-me absolutamente impossível, ademais de que, ao que tudo indica, o eleitorado americano não esteja a favor de qualquer envolvimento na Ucrânia. O povo alemão também. De qualquer forma, a instalação de base militar da OTAN na Ucrânia a Rússia não aceitará. A ameaça à segurança da Rússia equivale, na percepção do presidente Vladimir Putin, à mesma que o estabelecimento de plataformas de mísseis em Cuba representava para os Estados Unidos, em 1962.
A Rússia não é nenhuma potência emergente. É uma antiga potência, que derrotou as forças de Napoleão e de Hitler. Herdou, como sucessora jurídica, vasto arsenal estratégico e não-estratégico (tático) de armas nucleares da extinta União Soviética, mais ou menos cerca de 1.800 ogivas nucleares estratégicas operacionais, reservas de 2.700, contra 1.950 operacionais e 2.500 de reserva dos Estados Unidos. Possui atualmente 558 plataformas estratégicas, com capacidade para carregar 2.500 ogivas nucleares, e disparar novos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) – seis variantes, entre os quais R-36M2, UR-100NUTTH, Topol-M e Yars. Também dispõe de novos submarinos nucleares estratégicos, com mísseis balísticos (SSBN), o projeto 667BDR Kalmar, baseados na frota do Pacífico, em Rybachiy, e seis projetos 667BDRM Delfin, integrando a frota do Nordeste na baía de Yagelnaya.
O poderio nuclear da Rússia é mais ou menos igual ao dos Estados Unidos. A União Soviética não foi militarmente derrotada. O que esbarrondou foi um regime socialista estatal, autárquico, dentro de uma economia mundial de mercado. E não creio na possibilidade de showdown militar da OTAN com a Rússia, nem mesmo com forças convencionais. Cerca de 60% do abastecimento de gás da União Europeia passa pela Ucrânia e seria, necessariamente, destruído. É provável, entretanto, que ocorram conflitos militares locais.
As províncias do leste da Ucrânias, sobretudo, Donetsk e Lugansk tendem fortemente a realizar plebiscito para reintegrar-se à Rússia com a qual tem estreitos laços não apenas étnicos, mas econômicos. E Moscou pode intervir se o governo de Kiev, que não conta com o apoio de toda a população, e seus partidários intensificarem a repressão contra a os que se manifestam pró-Rússia no leste ou em outras regiões da Ucrânia. De modo geral, a perspectiva não é tranquila em toda a região. É imprevisível.

O PAPA E A VENEZUELA.


Venezuela. Papa Francisco, um testemunho de boa fé

Sobre o espírito mediador do papa Francisco havia sido falado, insistentemente, quando uma poderosa guerra internacional esteve a ponto de se desencadear na Síria. Armas químicas, em poder da Síria, e que o governo aparentemente havia usado contra seus opositores internos haviam desencadeado a crise. O Papa se mexeu, comentou-se sobre ligações telefônicas entre a Síria e o Vaticano. Francisco instituiu um dia de jejum e oração pela paz na Síria e escreveu uma carta sobre este assunto para Vladimir Putin, por ocasião do G-20 que ocorreu em São Petersburgo. E o certo é que os Estados Unidos e a Rússia se sentaram para conversar sobre como evitar a guerra e a evitaram.

 
Fonte: http://goo.gl/pzXqjC  
A reportagem é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 31-03-2014. A tradução é do Cepat.
Claro, alguns poderão dizer que o Papa não foi um verdadeiro mediador. Porém, teve a sua influência, e assim muitos reconheceram. Agora, poderia ser a vez da Venezuela, fundada em uma difícil situação, com enfrentamentos entre setores governamentais e opositores que, até agora, provocaram 38 mortes e centenas de feridos. A possibilidade de uma mediação foi aberta, claramente, após as palavras do porta-voz vaticano, o padre Federico Lombardi, nesta semana. Lombardi disse que o Vaticano e seu secretário de Estado, Pietro Parolin (na foto, à esquerda do Papa), “que conhece bem e ama a Venezuela, já que foi núncio apostólico ali, estão dispostos e desejosos de fazer o que for possível pelo bem e a serenidade do país”. Contudo, Lombardi esclareceu que para tomar uma decisão desta natureza a Santa Sé, previamente, deve “aprofundar alguns aspectos para melhor avaliar” a situação e poder apreciar se sua intervenção poderia conduzir ao “objetivo desejado”, e que isso está sendo feito neste momento. Isto significa que o Vaticano, por meio de um enviado ou da própria nunciatura (embaixada) em Caracas, está reunindo informação e sobrepesando cuidadosamente os prós e contras de uma ação desta natureza.
Sabe-se que as partes em batalha, ou seja, o governo de Nicolás Maduro e seus opositores, aceitariam muito bem a mediação do Vaticano e em especial de Parolin. Foi assim que se manifestou Maduro: “Que venha o secretário de Estado, o chanceler do Vaticano, Pietro Parolin? Que venha!”, disse. Durante seus quatro anos como núncio apostólico em Caracas, isto é, como embaixador da Santa Sé, Parolin, segundo a imprensa italiana, conseguiu tecer uma boa relação com o governo de Hugo Chávez. Maduro fez este comentário após ter recebido muito bem a sugestão realizada pela comissão de chanceleres da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) de aceitar uma testemunha de boa fé, que facilite a aproximação entre as partes em conflito.
Não se dá por certo que Parolin será o mediador diretamente, uma vez que, como virtual primeiro-ministro do Vaticano, deve ter sua agenda cheia. Na realidade, o mediador oficial costuma ser o papa pessoalmente, mas este nomeia um encarregado do ofício mediador, que na realidade é quem se ocupa dos detalhes e conversa com as partes, apresentando, em reuniões separadas, propostas para um acordo.
Francisco e Parolin, certamente, já terão em mente alguma pessoa apropriada para esta eventualidade. Ao final das negociações, geralmente se assina um acordo entre as partes, como ocorreu durante a mediação de João Paulo II, em razão do Estreito de Beagle, entre Argentina e Chile.
Argentina e Chile, ambas sob ditaduras militares, estiveram à beira de uma guerra em 1978. João Paulo II se ofereceu como mediador, em 1979, e nomeou encarregado do ofício mediador o cardeal Antonio Samoré. A mediação durou cinco anos e, apesar da morte do cardeal Samoré em 1983, o Tratado de Paz e Amizade entre os dois países se firmou em 1984, no Vaticano, e foi sancionado pelos governos dos dois países um ano depois.
Desde que foi eleito papa, há um ano, Francisco várias vezes mencionou a situação na Venezuela. A última vez, no último dia 26 de fevereiro. “Sigo com preocupação o que está ocorrendo nestes dias na Venezuela”, disse ao concluir a audiência geral da quarta-feira. E acrescentou: “Espero vivamente que as violências e as hostilidades parem o quanto antes e que todo o povo venezuelano, desde os responsáveis políticos e institucionais, favoreça a reconciliação por meio do perdão recíproco e do diálogo sincero, respeitoso da verdade e da justiça”. Para alguns, este foi o primeiro passo de uma mediação.

ANOS DE CHUMBO - "Ninguém vai ser punido por torturar minha mãe?"

Ninguém vai ser punido por torturar minha mãe?

"Minha mãe e meu pai foram torturados por agente do governo. Nada mais justo que agora, pelo menos, meu filho possa ler nos livros de história o que aconteceu no Brasil", escreve Lino Bocchini, editor de midia online de CartaCapital, em depoimento publicado por CartaCapital, 31-03-2014.

Eis o depoimento.

Está lá no meu RG: “Naturalidade: Rio de Janeiro”. Na cédula de identidade do meu irmão também. E só. Pai, mãe, tios, avós... mais ninguém da minha família nasceu na cidade. Adoro o Rio, mas não me sinto carioca. Nasci lá exclusivamente por causa do golpe, 10 anos antes de eu nascer.
Como fui parar lá? Minha mãe teve de abandonar o curso de História na USP quando faltava só um semestre para terminar. Era boa aluna e nunca terminou porque, como tantos outros, abandonou para não ser presa.
A polícia estava toda hora na Cidade Universitária, procurando e levando pessoas, e chegou uma hora que ela não podia mais ir às aulas ou à casa de amigos. E, por fim, não podia mais ir à própria casa. Foi quando meu pai e ela, ainda namorados, foram para clandestinidade, alugando uma casa que ninguém nunca soube onde era e que, para este texto, meu pai me contou que ficava na rua Atílio Inocentti.
Nesses tempos de faculdade, Sônia (minha mãe) era militante do POC, o Partido Operário Comunista. Era uma organização, como se dizia à época, de proselitismo. Ou seja, não pegava em armas. Faziam reuniões, panfletavam, discutiam e imaginavam como poderiam derrubar a ditadura civil-militar e reinstalar a democracia.
A clandestinidade em São Paulo, contudo, não foi o suficiente. Em poucos meses meus pais deixaram a cidade para que ela não fosse presa, e foram então para o Rio, sem avisar nenhum parente e sem nunca ter pisado na cidade. Arranjaram trabalho e por dois anos tentaram levar uma vida, digamos, normal. Até que foram descobertos.
Presos, passaram primeiro pela Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Conta meu pai: “lá ninguém foi interrogado. Apenas nos deixaram separados um do outro, nus, encapuzados, sem comida, sem água, sem banheiro, sem nada. Isso por 24 horas. Nos enfiaram então numa C-14, a temível Veraneio usada pela polícia política, e nos trouxeram para São Paulo, para a Oban, onde ficamos dez dias presos”. (A Operação Bandeirante, conhecida como Oban, foi a estrutura montada pelo exército em São Paulo para interrogar e torturar presos políticos).
Àquela altura o POC não existia mais fazia algum tempo. Todos já tinham sumido ou estavam presos. Processada pela Justiça militar, minha mãe foi julgada à revelia e absolvida, não pesava nada muito grave contra ela. Mas a sentença favorável de nada valeu. Durante o período na Oban, meu pai perguntou a um dos interrogadores por que ela estava lá, se já havia sido absolvida pelo regime. Ele riu e respondeu: “Porque ela ainda não tinha vindo aqui”.
De novo deixo que meu pai conte como foi: “Em dez dias na Oban a sua mãe passou por duas sessões de tortura, choques nas mãos, fios amarrados nos dedos, nua”. E prossegue: “nesses dez dias em que ficamos lá, eu também era interrogado diariamente, mas enquanto ela tinha que falar sobre o POC e seus militantes, eu era questionado sobre abobrinhas diversas. 'Conhece fulano?', 'Onde você estava em tal época?'. A maioria das perguntas era sobre política estudantil que eu tinha feito aos 16 e 17 anos, no colegial, em Catanduva. Era só pra encher o saco mesmo. Não me deram choque; só tapas, socos e uns pontapés. O pior era a ameaça diária, que felizmente não cumpriram, de torturar a sua mãe na minha frente, já que ela tinha que responder sobre o POC. Mas os caras sabiam tudo, muita gente da organização já havia sido presa e interrogada. E então, cada vez que a resposta dela não batia exatamente com o que eles sabiam, vinha mais choque, só por sadismo. Dez dias depois abriram o portão da rua Tutóia e nos mandaram embora. Isso foi um ano antes de você nascer, em janeiro de 1973.”
Em 1979 minha mãe morreu por motivos não relacionados ao que sofreu na ditadura, e então meu pai voltou a São Paulo, comigo e meu irmão. Eu tinha cinco anos, e a partir daí passei minha infância e a adolescência ouvindo relatos emocionados do meu pai sobre aqueles tempos.
Mas ouvi também passagens bonitas. Como quando foram levados por um conhecido à residência de um artista famoso que ajudou dezenas de militantes que viviam na clandestinidade no Rio. Era o Chico Buarque, que recebeu meu pai em casa assim que eles chegaram na cidade e, sem perguntar nada, assinou como fiador o contrato de aluguel do primeiro apartamento em que eles moraram por lá. Meu pai nunca mais o viu, e nunca teve a chance de agradecer – obrigado, Chico.
Ninguém relembra essas histórias terríveis para despertar pena ou ganhar tapinha nas costas. Quero apenas que tanto sofrimento não tenha sido em vão.
Cada um dos responsáveis pelo sofrimento de minha mãe, de meu pai e de todos os demais presos, mortos ou torturados, têm de ser punido. Todos. Seja o general ou um carcereiro que ouvia tudo e nada fez. Mais: meu filho e os outros de sua geração precisam ler nos livros de história o que, de fato, aconteceu. Disso não abro mão. Disso o Brasil não deveria abrir mão.