ENSAIO
AS DIFERENÇAS FUNDAMENTAIS ENTRE A ESQUERDA E A DIREITA
O PROBLEMA BRASILEIRO COM SUAS CLASSES DOMINANTES QUE PRATICAM O CAPITALISMO PRIMITIVO E PERVERSO, SOB A FARSA DA LIBERDADE
“O conflito não é entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância”-- Buda
Há quem queira ignorar a existência da esquerda e da direita. E pior: há quem queira colocar na mesma vala de aviltamento e degradação a esquerda e a direita, como se ambas as tendências fossem responsáveis, em igualdade de condições, pelas grandes mazelas da humanidade, e dignas das mesmas condenações. Pura ignorância ou pura má-fé. Esquerda e Direita existem. Sempre existiram. E são fundamentalmente diferentes na essência.
É por isso que concordo com Buda: “O conflito não é entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância”.
Eu me permito entender que Buda não quis negar a existência do conflito entre o bem e o mal. Acho que o conflito entre o bem e o mal sempre existiu. (Veja-se a história bíblica de Caim e Abel). Penso que o que Buda quis dizer é que a ignorância pretende ofuscar ou minimizar o conflito entre o bem e o mal. Além da ignorância, entendo que a má-fé e o egoísmo humano contribuem para essa tentativa de desvirtuamento da verdade.
Esquerda e direita são posições ideológicas concretas, existentes, atuantes. Mas são como uma espécie de tese e antítese. Jamais podem ser confundidas, ou colocadas na mesma vala.
A Direita, em geral, defende as elites dominantes e as representa nos Parlamentos: o sistema financeiro internacional (no Brasil, a FEBRABAN, os grandes empresários e os grandes monopólios -- a FIESP/FIRJAN/CNI, com Paulo Skaff à frente); os latifundiários e grileiros (no Brasil, a Bancada “Ruralista”, com Ronaldo Caiado no comando); os grandes depositantes de paraísos fiscais (no Brasil, são alguns poucos milhares, jamais identificados nem pela Receita Federal, nem pelo MPF, nem pela PF, nem pela Mídia reacionária e golpista), mas que possuem depósitos estimados em US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões!), só de brasileiros, dinheiro ganho ou roubado aqui, com impostos sonegados! Só esse dinheiro daria para pagar 10 anos do déficit público do Brasil! A direita é o capitalismo primitivo, clássico. Defende o individualismo, o egoísmo. Defende o lucro a qualquer custo de poucos; e não se preocupa com a miséria e a fome da maioria. A direita defende o mercado absoluto, o Estado mínimo, as privatizações das instituições públicas estratégicas.
(Uma das grandes farsas brasileiras são os partidos “Sociais-democráticos” e os partidos “Sociais cristãos”. A grande maioria deles e de seus membros nem são “sociais”, nem são democráticos, e muito menos “cristãos”. São oportunistas, usurpadores, impostores, mentirosos, falsários...). Estão infiltrados nesses partidos os latifundiários, os grileiros, os falsos pastores evangélicos que se enriquecem à custa de iludir fieis inocentes, a bancada da bala, as organizações representativas da indústria e do comércio (FIESP/CNI, p.ex.)...
A Esquerda, em geral, defende os interesses coletivos; defende a fraternidade; defende a redução das absurdas desigualdades sociais; defende a redução da miséria extrema e o fim da fome de milhões! Defende as instituições públicas estratégicas, que estão voltadas à tutela das populações menos favorecidas. Defende a universalização da saúde e da educação. Defende a justiça tributária, que no Brasil não existe.
Segundo Andrew Heywood, autor do livro “Ideologias Políticas”, diretor de duas faculdades de Economia no Reino Unido:
“o liberalismo lutava pelo individualismo, pelo mercado e, ao menos no início, por um governo de atuação restrita [...], e o socialismo promovia a visão bem diferente de uma sociedade fundada na comunidade, na igualdade e na cooperação”.
“...Cada uma dessas ideologias adquiriu um caráter doutrinário mais claro e passou a ser associada a determinada classe ou estrato social. Em linhas gerais, o liberalismo era a ideologia da classe média em ascensão; o conservadorismo, da aristocracia ou da nobreza; e o socialismo, da classe operária, cada vez mais numerosa... O tema central das argumentações e do debate ideológico daquele período era o conflito entre duas filosofias econômicas antagônicas: o capitalismo e o socialismo.”
Diz, ainda, Heywood:
“Esquerda: inclinação ideológica caracterizada pela simpatia por princípios como liberdade, igualdade, fraternidade e progresso”.
“Direita: inclinação ideológica caracterizada pela simpatia por princípios como autoridade, ordem, hierarquia e dever”.
BRASIL ATUAL
No Brasil atual, de Bolsonaro-Paulo Guedes-Banqueiros privados-FIESP/CNI-Latifundiários e Grileiros, ninguém pode negar, há nítido domínio da direita radical e conservadora. É o liberalismo clássico. Quem manda são os interesses dos banqueiros privados – os maiores criminosos, corruptos e impunes, que cobram os mais elevados juros do mundo, e já desgraçaram a vida de 60 milhões de brasileiros e de centenas de milhares de pequenos empresários produtivos que não puderam pagar juros extorsivos e criminosos e foram levados à falência. São os latifundiários, que, com apenas cerca de 2.000 proprietários, detêm áreas de terras equivalentes a 50% do território nacional; dos grandes empresários, ligados à FIESP/FIRJAN/CNI, que têm à frente Paulo Skaff, com grande poder e influência sobre o governo Bolsonaro; e são os maiores sonegadores de impostos; são os grileiros e invasores de terras públicas, devolutas e indígenas, que já dominam 50% das terras da Amazônia, e cerca de 30 milhões de hectares só no estado do Pará, tudo sem titulação legal. São os rentistas e depositantes de paraísos fiscais, que possuem cerca de US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões) depositados em paraísos fiscais, dinheiro sonegado ou roubado no Brasil! São os falsos evangélicos, como os bilionários como Edir Macedo e Silas Malafaia, e vários outros iguais, que se enriqueceram graças à ilusão de fieis inocentes... dos quais arrecadam coletas milionárias.
Quaisquer vozes que se levantam, hoje, no Brasil, bradando pela redução das desigualdades sociais, bradando pela saúde universalizada, bradando pela educação gratuita em todos os níveis, bradando pela preservação do meio ambiente, bradando pela reforma agrária, bradando contra a brutal concentração de terras nas mãos de pouquíssimos latifundiários e grileiros, bradando por uma legislação tributária mais justa, que reduza os impostos sobre o consumo e aumente os impostos sobre o capital (dividendos, heranças, fortunas, IR progressivo com alíquotas maiores) logo é tachado de esquerdista, de socialista, de comunista.
E a direita está certa na sua acusação, o que, na verdade é um verdadeiro elogio às esquerdas, mas um elogio merecido, pois a direita rançosa brasileira, que pratica o capitalismo mais primitivo e perverso, parece não querer ceder em nenhuma dessas nobres e necessárias causas.
Não é à toa que o governo Bolsonaro vive torpedeando a Educação no Brasil. Teve o dom de escolher e nomear os piores ministros da Educação que o Brasil já teve na sua história: ignorantes, fundamentalistas, incompetentes, ridículos...
É onde entra a validade da frase de Buda:
“O conflito não é entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância”.
É fundamental para o governo Bolsonaro que o povo seja mantido na ignorância, para que ele possa continuar no seu propósito de destruir a nação! É por isso que ele persegue as universidades, persegue os professores universitários, persegue os verdadeiros educadores. Sua perseguição a Paulo Freire e aos seus ideais de conscientização do povo não é mera coincidência. E o pior é que os militares que os rodeiam no governo ou concordam com Bolsonaro ou se omitem, a meu ver criminosamente, pois sabem que a pátria está sendo destruída e envergonhada.
Tenho absoluta certeza de que se João Batista e Jesus Cristo aparecessem por aqui com sua doutrina de justiça, seriam novamente decapitados e crucificados, por ação das classes dominantes e do governo atual, de Jair Bolsonaro-Paulo Guedes, que tem apoio de incontáveis militares da Reserva, com a omissão dos militares da Ativa, o que está deprimindo a confiabilidade de nossas Forças Armadas como instituição que deveria estar em defesa da Pátria, vale dizer do Povo, pois a Pátria nada significa sem o Povo.
Os poucos militares que discordaram dos caminhos adotados pelo governo, foram simplesmente alijados e demitidos, o principal deles, o honrado general Santos Cruz, que acabou por afirmar que “esse governo é um show de besterias”.
Diferenças entre Esquerda e Direita
a base teórica para os progressistas.
Os ideólogos de esquerda pretendem aperfeiçoar o mundo por meio de políticas que instaurem a justiça social, ou o igualitarismo, ou a socialização dos meios de produção econômica, ou qualquer outra ação que remeta à ideia de igualdade.
Já os ideólogos de direita pretendem perfectibilizar o mundo a partir de uma perspectiva idealizada do passado e da tradição, de valores nacionais ou religiosos.
“Há um consenso geral de que a esquerda inclui progressistas, sociais-liberais, ambientalistas, social-democratas, democrático-socialistas, libertários socialistas, secularistas, socialistas, comunistas e anarquistas,
enquanto a direita inclui neoliberais, económico-libertários, conservadores, reacionários, neoconservadores, anarcocapitalistas,[9] monarquistas, teocratas (incluindo parte dos governos islâmicos), nacionalistas, fascistas e nazistas.”(Wikipédia)
“Para a direita, a política é um meio de garantir a ordem e a “liberdade”, criando um ambiente benigno no qual as pessoas possam exercitar as suas virtudes. A política não é vista como uma ferramenta para reformar a sociedade ou alterar a natureza do ser humano, ou seja, a filosofia e a política devem refletir a realidade.
“Essas visões diferentes de mundo levam a diferenças fundamentais na abordagem da política partidária de esquerda e direita. A esquerda tem um caráter eminentemente reformista e acredita no uso da política e do Estado como a maneira mais apropriada para melhorar a sociedade – ou seja, a filosofia e a política devem alterar a realidade... (Site Polize)
https://www.politize.com.br/esquerda-e-direita-historia-teoria/?https://www.politize.com.br/&gclid=EAIaIQobChMI96L0-qXF6gIVhRGRCh1JTwJ7EAAYASAAEgJKrvD_BwE
Mas a abordagem não é nada simples. É extremamente complexa, como são complexos todos os problemas humanos.
Tanto é que José Guilherme Merquior, no seu livro O LIBERALISMO Antigo e Moderno, afirma o seguinte:
“Com a irrupção da guerra, a figura central no liberalismo de esquerda para o mundo de expressão inglesa não foi nem Dewey nem Kelsen, porém John Maynard Keynes (1883-1946). Não o filósofo pedagogo, nem o jurista, mas o economista que reformulou a economia política, tornando-se a principal referência do liberalismo reconstruído. Em seus Essays in Persuasion (1931), Keynes escreveu que
“o problema político da humanidade consiste em combinar três coisas: eficiência econômica, justiça social e liberdade individual”
Magnífica síntese essa de Keynes, que vou até repetir:
“o problema político da humanidade consiste em combinar três coisas: eficiência econômica, justiça social e liberdade individual”
Pois bem, o capitalismo (neoliberalismo atual) pode proporcionar eficiência econômica, mas não proporciona nem justiça social nem liberdade individual. A injustiça social é algo escancarado e facilmente comprovado no capitalismo clássico e primitivo. E a liberdade individual é uma grande farsa, simbolizada por uma mera estátua localizada no Porto de Nova Iorque. Como um Império que já invadiu mais de 100 nações, bombardeando, matando, massacrando, oprimindo, sabotando todos os que não quiseram curvar-se aos interesses econômicos de seus monopólios pode falar em liberdade? Tem uma estrutura “democrática” onde os políticos eleitos recebem fortunas em dinheiro para suas campanhas, 90% vindas dos grandes empresários e do sistema financeiro! Ou seja, o povo é um mero fantoche.
“...Keynes deu ao liberalismo ortodoxo o golpe de morte com seu livro The End of Laissez-Faire, de 1926.”
Ora, Keynes não era comunista. Mas tenho para mim que foi influenciado por Marx-Engels. Keynes foi influenciado, a meu ver, por esses dois grandes pensadores – responsáveis pela grande revolução do pensamento econômico e social -- porque percebeu as mazelas do capitalismo clássico, primitivo, rançoso, explorador, injusto, perverso. Keynes quis, como assim dizer, livrar o capitalismo de suas perversidades. Keynes quis fazer com que o Estado interviesse na economia e nas questões sociais, para corrigir os desmandos do mercado absoluto; quis afastar os governantes das ideias de Adam Schmidt, von Misses e Hayek, ideias estas que serviram de base, principalmente, para Thatcher, na Inglaterra, e Reagan, nos EUA, que atenderem aos interesses das forças econômicas e das elites privilegiadas.
Keynes conseguiu influenciar alguns governos europeus e conseguiu influenciar Roosevelt, nos EUA. Onde foi alcançado algum estado de bem-estar social, o New Deal, foi porque as ideias de Keynes foram seguidas.
Ora, todo mundo sabe que o “Laissez-faire é expressão escrita em francês que simboliza o liberalismo econômico, na versão mais pura de capitalismo de que o mercado deve funcionar livremente, sem interferência, taxas nem subsídios, apenas com regulamentos suficientes para proteger os direitos de propriedade...”
Laissez-faire significa, em outras palavras, “mãos invisíveis” de Adam Smith, “Estado mínimo” de von Misses e Hayek. Significa o “Mercado absoluto”, que “resolve” todos os seus problemas sem qualquer interferência do Estado.
Pura falácia. O “mercado absoluto” “tudo” resolve, é verdade, mas no único interesse das classes dominantes. Promove o enriquecimento exponencial de poucos e o empobrecimento absurdo de milhões. O mercado absoluto e as “mãos invisíveis” nada mais são que o domínio do sistema financeiro internacional, nada mais são que o império dos grandes monopólios.
É exatamente por isso que o Papa Francisco prega a necessidade de uma nova ordem econômica e social. É por isso que o Papa disse, na sua magistral Evangelii Gaudium:
“Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum.”
Não é à toa que o Papa Francisco tem sido acusado pelos neoliberais, ou radicais da direita, e pelos conservadores, como um homem de esquerda, e às vezes até é chamado de “comunista” por especialistas em fake news, como Steve Bannon, p.ex., que foi o mentor das campanhas de Donald Trump, nos EUA, e de Jair Bolsonaro e sua famiglia, no Brasil. (Não por coincidência, esses dois presidentes são responsáveis pelo aumento do número de infectados e de mortos por coronavírus em seus países, que, são, respectivamente, campeão e vice-campeão mundial da desgraça).
O Papa Francisco é chamado de comunista pelo falso católico, o príncipe- deputado bolsonarista Luiz Phelippe de Órleans e Bragança, hipócrita que nada entende de cristianismo. É chamado de comunista pelos fanáticos seguidores do INSTITUTO MISES BRASIL, que defende a privatização de todas as empresas estratégicas estatais brasileiras; que é contra o imposto sobre dividendos, que é contra o imposto sobre heranças e grandes fortunas, que é contra sobre quaisquer impostos sobre os rentistas! Esse Instituto só pensa no lucro e no enriquecimento de poucos. É a pura expressão do neoliberalismo econômico praticado pelo ministro da Economia, o banqueiro Paulo Guedes e por vários de seus asseclas colocados em pontos estratégicos de instituições públicas, para destruí-las, pelo sociopata Jair Bolsonaro, que segue os ditames da FEBRABAN, da FIESP/FIRJAN/CNI e do Consenso de Washington. Tudo pelo lucro! Tudo pelos EUA! Nada para o povo brasileiro!
Norberto Bobbio – o grande filósofo político, historiador, escritor e senador vitalício italiano – apesar de ter sido um crítico de Marx, declara, em seu livro DIREITA E ESQUERDA, que “se considera emotivamente de esquerda”. E se sabe que ele foi defensor da “Democracia-social liberal”. É porque Bobbio considerava valores supremos a “liberdade e a igualdade”. Bobbio chega a citar no referido livro que o “Artigo 3 da Constituição italiana, corretamente considerado como a maior contribuição dada pelos partidos de esquerda à formação da Carta Constitucional da Itália”.
Fui pesquisar o que diz o Artigo 3 da Constituição italiana (que foi editada em 27.12.1947). E encontrei o seguinte:
“Art. 3. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei, sem discriminação de sexo, de raça, de língua, de religião, de opiniões políticas, de condições pessoais e sociais. Cabe à República remover os obstáculos de ordem social e económica que, limitando de facto a liberdade e a igualdade dos cidadãos, impedem o pleno desenvolvimento da pessoa humana e a efetiva participação de todos os trabalhadores na organização política, económica e social do País.” (Negritos e sublinhados não originais).
Portanto, os princípios do Art. 3 da Constituição italiana, significam, objetivamente, que cabe ao Estado interferir para que a tutela das populações menos privilegiadas seja exercida. Isto quer dizer, sem sombra de dúvida, que o Mercado absoluto é incompetente; é causa de injustiças e perversidades. E é indispensável a atuação do Estado para a correção dos desvios.
E segundo Bobbio, como explicitei acima, esse texto “foi uma contribuição dos partidos de esquerda”. Claro que os partidos de direita jamais iriam se preocupar com a justiça social e com “o pleno desenvolvimento da pessoa humana e a efetiva participação de todos os trabalhadores na organização política, económica e social do País”.
Já a Constituição brasileira é de 1988. Penso que os nossos constitucionalistas se abeberaram na Constituição italiana, e em outras Constituições que colocaram a liberdade e a igualdade como fatores fundamentais para o desenvolvimento humano. Tanto que nossa Constituição, em seu art. 5, começa assim:
“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:..” (Sublinhado não original).
Acontece que nossa Constituição é letra morta em muitos de seus artigos. Um deles é este que fala sobre a igualdade. Na prática, a “igualdade” no Brasil é simbolizada pela existência de 6 empresários (6 pessoas!) cujo valor do patrimônio que lhes pertence é igual à soma total do patrimônio de tudo o que possuem 100 milhões de brasileiros mais pobres juntos. Isso para não falar dos rendimentos mensais de nossos banqueiros. O presidente do Banco Itaú, p.ex, recebe por mês R$ 4.000.000,00 (R$ 48 milhões por ano!). E praticamente sem pagar impostos, pois aqui não há imposto sobre rendimentos de capital (o único caso no mundo!). E sabe-se que o IBGE acaba de divulgar que cerca de 100 milhões de brasileiros vivem com R$ 440,00 mensais ou menos! Isso significa que esses 100 milhões de brasileiros pobres teriam de trabalhar 750 anos para conseguir o que o presidente do Banco Itaú recebe num só mês!
Portanto, nossa Constituição, no tocante à igualdade é letra absolutamente morta.
O professor e economista norte-americano N. GREGORY MANKIW nos apresenta em seu livro INTRODUÇÃO À ECONOMIA, um quadro bem ilustrativo da medida de desigualdade em vários países do mundo. Segundo esse quadro, o menor índice de desigualdade é ostentado pela Suécia. Num nível bem próximo estão Alemanha e França. Japão, Canadá, Itália e Rússia vêm logo em seguida. E o Brasil, desgraçadamente, aparece lá no final da lista, como penúltimo país mais desigual do planeta, só perdendo para a África do Sul!
Isso significa que nossa Constituição de 1988, apesar de boas conquistas, (como o SUS, p.ex., que ainda precisa de muito aporte de capital e apoio político para ampliação e aperfeiçoamento), grande parte da letra constitucional ficou só no papel. As elites dominantes, que normalmente se apossaram da maior parte do Congresso, nunca permitiram a colocação na prática de certos ideais constituintes, fundamentais para a criação de uma sociedade de bem-estar social.. Os banqueiros, os latifundiários, a FIESP/CNI, grande parte do Judiciário, a maioria do Parlamento formada por representantes das elites, e boa parte das Forças Armadas, como essa que apoia o governo de Jair Bolsonaro, e outra parte que se omite – todos são responsáveis pela manutenção da grande injustiça e desigualdade que impera no Brasil!
Com esse comportamento, o que aconteceu no Brasil? – Estamos entre os 5 países com maior desigualdade social; estamos entre os campeões de favelas, pobreza extrema, fome e ignorância; estamos entre os campeões de mortes violentas; estamos entre os campeões de acidentes de trânsito; somos os campeões do desmatamento, das queimadas, da mineração ilegal, da invasão de terras indígenas; somos os campeões da grilagem, que é a apropriação de terras ilegalmente; e atualmente somos os vice-campeões mundiais em infectados e em mortes por COVID-19 (graças ao péssimo e desastrado exemplo do presidente da República e de seus ministros militares, que ocupam o ministério da Saúde e gabinetes estratégicos...)
Essas forças representam a Direita. Ou melhor, a Extrema-direita. Representam o individualismo, o egoísmo e a ganância. Elas são o retrato do Capitalismo primitivo, do liberalismo clássico, onde só o lucro interessa – jamais os interesses da coletividade.
Nem mesmo os liberais modernos aceitam tal comportamento, tanto que refutaram o individualismo, o “laissez-faire”, o mercado absoluto, e passaram a defender o estado intervencionista, como tutor das populações mais pobres e agente corretivo das mazelas do mercado desregulado; passaram a defender o coletivismo.
Sempre que a Esquerda tentou mudar o deplorável quadro de desigualdade e injustiça em nosso país, foram perpetrados golpes. Os golpes mais recentes foram o Golpe de 1964 e o Golpe de 2016. Ambos depuseram governos eleitos democraticamente. Ambos tiveram maciço apoio da Direita brasileira e dos EUA. No primeiro caso, os EUA cooptaram os militares brasileiros; no segundo caso, a cooptação foi sobre o Judiciário (o juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol são exemplos emblemáticos), sobre a grande Mídia e sobre o Parlamento corrupto.
Portanto, não se pode falar que existe Democracia no Brasil. A “democracia” só existe por aqui se as forças dominantes da Direita (as elites) forem os governantes.
Resumindo: a Direita quer a manutenção do status quo; quer a continuidade e o avanço da desigualdade social; quer a manutenção de uma legislação tributária reconhecidamente perversa, tida como das mais injustas e iníquas do mundo; quer a privatização de instituições públicas fundamentais e estratégicas; quer o Mercado absoluto e desregulamentado, e o Estado fora das questões sociais (= Estado mínimo). Quer a riqueza sem limites para poucos e a perpetuação da pobreza para muitos.
A Esquerda, ao contrário, propugna pela redução das desigualdades sociais, luta pela universalização da saúde e da educação; luta pela proteção do meio ambiente; luta por uma legislação tributária mais justa, que reduza os impostos indiretos (sobre o consumo) e crie ou aumente os impostos diretos (sobre o capital, sobre o patrimônio, sobre a Renda, sobre lucros e dividendos...).
Não há como pretender colocar na mesma vala de imundície e perversidade a Direita e a Esquerda. Se afirmarem que há corruptos tanto na Direita como na Esquerda, ninguém pode discordar. As instituições e os grupos humanos não são imunes à imoralidade, às mazelas, à ambição. Isso ocorre nas religiões, nas Forças Armadas, no Parlamento, no Judiciário, no Executivo, na Mídia... onde quiserem. A questão crucial é conhecer quais os objetivos e princípios de cada grupo e de cada instituição, se são objetivos egoístas e individualistas ou se são objetivos de interesse coletivo, de fraternidade, de cooperação...
AS CLASSES SOCIAIS
Quando eu digo que a Direita está do lado das elites (empresários, banqueiros, latifundiários, rentistas) e que a Esquerda está do lado dos trabalhadores e do operariado – não quero, de forma alguma, dizer que de um lado só há demônios e de outro, só há santos. Jamais. Conheço inúmeros empresários e empreendedores (principalmente pequenos e médios) que são pessoas honestas e respeitáveis. E conheço incontáveis trabalhadores que comprovaram ser egoístas, desonestos, invejosos e ambiciosos.
Neste particular, considero que o grande brasileiro, pernambucano, PAULO FREIRE, o educador que engrandeceu o Brasil diante do mundo, foi mais perspicaz que Karl Marx. Paulo Freire percebeu as limitações do ser humano. Defendeu a justiça, a conscientização das massas, a educação, mas percebeu as fraquezas humanas, existentes em qualquer classe.
Freire defendeu os oprimidos contra os opressores. Mas foi sábio ao dizer:
“Há algo, porém, a considerar nesta descoberta, que está diretamente ligado à pedagogia libertadora. E que, quase sempre, num primeiro momento deste descobrimento, os oprimidos, em vez de buscar a libertação na luta e por ela, tendem a ser opressores também, ou subopressores. [...] Isto decorre do fato de que em certo momento de sua existência existencial, os oprimidos assumem uma postura que chamamos de ‘aderência’ ao opressor. [...] Desta forma, por exemplo, querem a reforma agrária, não para se libertarem, mas para passarem a ter terra e, com esta, tornar-se proprietários ou, mais precisamente, patrões de novos empregados. Raros são os camponeses que, ao serem ‘promovidos’ a capatazes, não se tornaram mais duros opressores de seus antigos companheiros do que o patrão mesmo.”
Mas os ignorantes do governo federal atual – ignorantes e estúpidos – nada sabem sobre Paulo Freire. Nada sabem sobre esse educador que é o maior patrimônio brasileiro, em nível mundial, sobre a Educação. Paulo Freire quis uma libertação real do ser humano; quis proporcionar-lhe consciência; quis ensinar-lhe o espírito crítico. Pois sabia que opressão e a exploração normalmente ocorre predomina a ignorância. Tal é a razão de as elites retrógradas dominantes (da Direita) serem contra Paulo Freire. Tal é a razão de Bolsonaro perseguir as universidades, seus reitores e professores, com apoio de obscurantistas ditos “evangélicos” e pela Bancada da Bala: não deixar o povo pensar, não deixar o povo saber, não deixar o povo conhecer.
É onde os princípios de Paulo Freire se alinham ao pensamento de Buda, citado no início. É onde eu defendo a ideia de que não se pode jogar na mesma vala a Esquerda e a Direita. Seus princípios são inconciliáveis.
Não há espaço para confusão.
ARIALDO PACELLO
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