Mais rápida que o Granma, a radio bemba, rede informal de difusão de notícias e boatos boca a boca, se encarregou de fazer a novidade chegar logo a todos os confins da Ilha. No fim da manhã a multidão começou a chegar. A pé, de carro, de ônibus, de bicicleta, sozinhas e em grupos, as pessoas foram tomando, aos poucos, todos os espaços disponíveis no velho casarão colonial. Os mais fortes logo ocuparam os melhores quartos e os escritórios mais amplos. Superlotada a residência, foram sendo tomadas as edículas, dependências de empregados, garagens, depósitos, adegas e logo depois o sótão da casa e os jardins. Até nos galhos das árvores havia gente encarapitada. “A maioria era visivelmente composta por delinquentes e antissociais armados de facas e porretes”, se lembraria o embaixador De Habich, “mas também havia muita gente decente e, para preocupação adicional, muitas crianças.” Quando a noite caiu, 10.800 pessoas haviam entrado na casa, na qual não cabia mais ninguém. De Habich abandonou o imóvel, levando consigo todo o pessoal diplomático, à exceção de um encarregado de negócios que passou a responder pela legação. O governo cubano instalou dezenas de banheiros químicos nas calçadas em torno da casa e montou um sistema de distribuição de alimentos para a multidão alojada lá dentro. O abacaxi agora estava nas mãos do general Morales Bermúdez: como receber um grupo de exilados mais numeroso que a população da maioria das cidades peruanas? A comunidade internacional não parecia interessada em compartilhar o problema com o Peru. O Canadá se dispunha a receber mil pessoas, e a Costa Rica, trezentas. O governo de Lima alegava só ter condições de oferecer asilo a mil refugiados. Oito mil continuavam sem destino.
É então que entra em cena o presidente Jimmy Carter. Dos seis ocupantes da Casa Branca desde o triunfo da Revolução Cubana, três republicanos e três democratas, Carter tinha sido o menos hostil a Cuba. Foram suas as iniciativas de levantar restrições a viagens de exilados à Ilha e de implantar Seções de Interesses em Havana e Washington. Tais gestos seriam reconhecidos por Fidel Castro. Em uma entrevista concedida ao autor deste texto para a revista brasileira Veja, em julho de 1977, o Comandante afirmara que “Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon e Ford estavam comprometidos com uma política de agressões a Cuba, e este é o primeiro governo dos Estados Unidos, em dezoito anos, que não está comprometido com aquela política. Nixon era um farsante, um velhaco, um indivíduo sem ética de qualquer natureza. Eu não penso o mesmo de Carter”.
Em abril de 1980, porém, a situação interna nos EUA era outra. Candidato à reeleição, Carter aparecia nas pesquisas com índices de rejeição ameaçadores. Além de enfrentar uma inflação que galopava rumo aos dois dígitos, a população ainda não digerira o que considerava os três piores pecados da política externa do presidente democrata: a devolução aos panamenhos do controle sobre o canal do Panamá, que vinha sendo explorado pelos EUA desde o começo do século XX; o sequestro de cinquenta civis norte-americanos por um grupo de jovens iranianos que ocupara a embaixada dos Estados Unidos em Teerã, seguido por uma malfadada tentativa de resgate dos reféns por um comando antiterrorista das Forças Armadas norte-americanas; e, finalmente, a opinião pública considerava também que Carter fora leniente com a URSS, em 1979, ao não reagir à invasão do Afeganistão por tropas do Exército Vermelho.
A crise instalada na embaixada do Peru em Havana – e que acabaria desembocando em Mariel – parecia oferecer uma oportunidade para salvar do naufrágio a popularidade do presidente. A distensão política entre Cuba e Estados Unidos chegou ao fim quando Carter convocou a imprensa para anunciar, sob o nome de “Braços e Corações Abertos”, uma nova política migratória para a Ilha. A partir de então, todo cubano que conseguisse “se livrar do jugo comunista” e chegar aos EUA, não importava por que meios, receberia asilo político, status de residente permanente e permissão para trabalhar e inscrever-se no serviço social. Para a estratégia de Carter dar certo, Fidel Castro deveria cercar Cuba de soldados armados para impedir uma fuga em massa para Miami. O tiro, no entanto, saiu pela culatra. O presidente cubano respondeu no mesmo dia e no mesmo tom: ante as ofertas de Carter, a partir daquele momento o porto de Mariel estava aberto para quem quisesse se asilar nos Estados Unidos. Não apenas os 10 mil inquilinos da embaixada peruana, mas qualquer um dos 11 milhões de cubanos que desejasse partir.
E a fila de candidatos aos privilégios prometidos por Carter era cada dia mais extensa. No início de maio, duas semanas depois do anúncio das decisões do governo cubano, mais de 15 mil pessoas já tinham deixado Mariel rumo aos Estados Unidos, obrigando o governo a decretar estado de emergência em várias regiões da Flórida e abrir um crédito de 10 milhões de dólares para as despesas iniciais com os recém-chegados. Para aumentar ainda mais a tensão, no dia 8 de maio o governo norte-americano iniciou uma manobra militar gigante no Caribe. Da operação, batizada de Solid Shield 80, participaram 350 aviões de combate, 42 navios de guerra e 20 mil soldados.
Fidel Castro acusou a Casa Branca de estar realizando um “vulgar, descarado e intolerável ensaio de invasão do território cubano” e reagiu colocando nas ruas multidões como nunca se vira antes, em 21 anos de Revolução. A inevitável lembrança dos dias terríveis da Crise dos Mísseis de outubro de 1962, ressurgiu quando o Pravda, jornal oficial do Partido Comunista da URSS, publicou um ameaçador editorial intitulado “Tirem as mãos de Cuba”: