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terça-feira, 12 de março de 2013

MÉXICO - Potência econômica no século XXI?



O México ressurge

Thomas L. Friedman (The New York Times)
Na Índia, as pessoas me perguntam sobre a China e, na China, me perguntam sobre a Índia: qual país se tornará a potência econômica dominante no século 21? Agora já tenho a resposta: o México. Impossível?
Bem, o México tem apenas 110 milhões de pessoas para rivalizar com a China ou a Índia em influência econômica global. Mas eis aqui o que aprendi em uma visita ao centro industrial e de inovação do México em Monterrey. Tudo o que você leu sobre o México é verdade: cartéis de drogas, sindicatos do crime, corrupção do governo e frágil aplicação da lei prejudicam a nação. Mas isso é só a metade da história.
Algo aconteceu aqui no México. É como se os mexicanos, subconscientemente, tivessem decidido que a violência relacionada às drogas é uma condição com a qual devem conviver e que devem combater, mas que não mais os define. O México assinou 44 acordos de livre comércio (mais do que qualquer outro país no mundo), o que de acordo com o jornal Financial Times é mais que o dobro da China e quatro vezes mais que o Brasil. O México também aumentou exponencialmente o número de engenheiros e trabalhadores qualificados formados em suas escolas.
INDUSTRIALIZAÇÃO
Somando-se isso com as grandes descobertas de gás natural barato, e com os custos salariais e do transporte subindo na China, não é surpresa que o México esteja retomando da Ásia a participação do mercado industrial e atraindo mais investimento mundial do que nunca da indústria automotiva, aeroespacial e de utensílios domésticos.
“Atualmente, o México exporta mais produtos industrializados que o restante da América Latina em conjunto”, disse o Financial Times em 19 de setembro de 2012. “A Chrysler, por exemplo, está utilizando o México como base para fornecer alguns de seus Fiats 500 para o mercado chinês.” O que mais me impressionou em Monterrey, no entanto, foram as inúmeras empresas em formação que estão surgindo da população jovem do México – 50 por cento da população do país tem menos de 29 anos – graças às ferramentas de inovação de fonte aberta e à computação em nuvem.
“O México não desperdiçou sua crise”, assinalou Patrick Kane Zambrano, diretor do Centro de Integração do Cidadão, referindo-se ao fato de que, quando as empresas mexicanas perderam espaço para a China nos anos 90, não tiveram escolha senão se tornarem mais produtivas.
O website de Zambrano personifica o zelo da juventude daqui para usar a tecnologia tanto para inovar quanto para estimular o ativismo social. O centro reúne mensagens do Twitter, provenientes dos cidadãos, acerca de tudo, desde lâmpadas quebradas da iluminação pública até “situações de risco”, e as projeta em tempo real em um aplicativo telefônico do mapa de Monterrey – que avisa aos moradores quais ruas evitar, alerta a polícia sobre tiros, e conta em dias e horas em quanto tempo as autoridades resolvem os problemas.
“Ele aciona pontos de pressão para forçar a mudança”, disse o presidente do centro, Bernardo Bichara. “Se um cidadão sente que não é impotente, ele pode ambicionar mais mudanças. Em primeiro lugar, a Internet democratizou o comércio; depois democratizou os meios de comunicação e agora está democratizando a democracia.”
UM NOVO PROGRAMA
Se o secretário de Estado John Kerry , dos EUA, estiver procurando um novo programa, ele deve se concentrar em forjar uma integração mais íntima com o México, em vez de bater a cabeça contra as rochas de Israel, da Palestina, do Afeganistão ou da Síria.
Uma melhor integração da industrialização e proeza do México com os Estados Unidos é uma situação de ganho mútuo. Torna as empresas americanas mais lucrativas e competitivas, de forma que possam se expandir domesticamente e no exterior, dá aos mexicanos um motivo para ficarem em casa e reduz a violência. Os Estados Unidos movimentam 1,5 bilhão de dólares por dia em negócios com o México e gastam 1 bilhão por dia no Afeganistão. Isso não é inteligente.
Precisamos de uma visão mais nuançada do México. Enquanto visitava o Centro de Agrobiotecnologia em Monterrey Tech, seu diretor, Guy Cardineau, cientista do Arizona, contou-me :”Em 2011, meu genro voltou de uma missão militar no Afeganistão e conversamos sobre ele vir nos visitar no Natal. Mas ele disse que não podia vir por causa da recomendação do Departamento de Estado acerca de viagens para cá. Achei isso muito irônico”.
E é, em especial quando empresas americanas estão se expandindo para cá – uma razão pela qual o México cresceu no ano passado 3,9 %– e os investimentos estrangeiros diretos alcançaram altas históricas.
MULTINACIONALIZAÇÃO
“Há vinte anos, muitas empresas mexicanas não eram mundiais”, disse Blanca Trevino, presidente e fundadora da Softtek, um dos provedores de informação e tecnologia líderes no México. Eles se concentraram no mercado interno e na mão de obra barata para os Estados Unidos. “Hoje, entendemos que temos de concorrer mundialmente” e isso significa “nos tornarmos eficientes. Temos um centro de desenvolvimento de software em Wuxi, na China, mas somos mais eficientes agora em fazer o mesmo negócio em Aguascalientes (México), do que em nosso centro em Wuxi”.
O México ainda tem muitos problemas de gestão para consertar, mas o interessante é que, após 15 anos de paralisia política, os três principais partidos políticos do país acabaram de assinar “um grande acordo”, conhecido como a “Aliança para o México”, sob a administração do novo presidente, Enrique Peña Nieto. O objetivo é trabalhar em conjunto na luta contra os grandes monopólios da energia, das telecomunicações e do ensino, que atrasaram o país. Se tiverem sucesso, talvez o México ensine algo aos americanos sobre democracia.
Os mexicanos começaram a refletir sobre os Estados Unidos ultimamente, disse Bichara, do Centro de Integração do Cidadão. “Sempre achamos que nossos partidos deveriam se comportar como nos EUA – isso acabou. Sempre achamos que nosso governo deveria funcionar como nos EUA – isso acabou.”
(transcrito do Diário do Comércio, enviado por Wagner Pires)

domingo, 23 de maio de 2010

MÉXICO - Submissão crescente aos EUA.

La Jornada: a submissão crescente do México aos EUA

Visita do presidente do México, Felipe Calderón, ao cemitério de Arlington, nos EUA, rompeu o veto tácito que impedia um chefe de Estado mexicano visitar esse local. Editorial do La Jornada.
Felipe Calderón depositou uma coroa de flores em frente ao Túmulo  do Soldado Desconhecido, no cemitério de Arlington
Felipe Calderón, depositou uma coroa de flores em frente ao Túmulo do Soldado Desconhecido, no cemitério de Arlington

No dia 20 de Maio, no contexto de sua visita oficial aos Estados Unidos, o presidente do México, Felipe Calderón, depositou uma coroa de flores em frente ao Túmulo do Soldado Desconhecido, no cemitério de Arlington, Virgínia, em homenagem “aos soldados mexicano-norte-americanos mortos em campanhas militares dos EUA”. O governante rompeu assim o veto tácito, mantido ao longo dos mandatos anteriores, que impedia um chefe de Estado mexicano de visitar esse local. O motivo desta reserva simbólica sempre foi claro: em Arlington, estão enterrados militares norte-americanos que participaram das diversas agressões armadas perpetradas pelo vizinho país do norte contra o nosso, incluídas aí aquelas por meio das quais Washington arrancou do México mais da metade de seu território, assim como os criminosos e injustificáveis ataques e ocupação do porto de Veracruz (Abril-Novembro de 1914).

Se bem que seja certo que a geografia e a economia tornam pertinente e necessária, no período actual, a construção de uma relação bilateral fluida, produtiva e até cordial, nem por isso deve esquecer-se que os EUA têm sido, há dois séculos, a principal ameaça à segurança nacional e o principal responsável por ofensas contra a soberania e a integridade mexicanas. Uma visita do chefe de Estado a Arlington equivale, pois, a aceitar ofensas pelas quais nunca foi oferecido um pedido de desculpas, nem alguma compensação. Além disso, o gesto era desnecessário se consideramos que durante as últimas cinco décadas foi possível desenvolver vínculos cada vez mais estreitos com o governo do país vizinho sem recorrer à concessão feita por Calderón.

Tão improcedente como este ato protocolar é a determinação de prestar homenagem aos “soldados de origem mexicana mortos nas guerras norte-americanas”, uma vez que, com isso, o governo do México dá a sua aprovação a tais iniciativas bélicas, invariavelmente contrárias ao direito internacional e que violam as soberanias nacionais e os direitos humanos. Em Arlington, estão enterrados os soldados norte-americanos mortos no Panamá, no Afeganistão e no Iraque, para mencionar somente as aventuras militares mais significativas das décadas recentes, todas elas tão marcadas por atrocidades e por espírito de rapina como as lançadas por Washington contra o México nos séculos XIX e XX.

Além disso, é inevitável ver na presença de Calderón em Arlington um episódio a mais de submissão da soberania, o mais recente no contexto de uma agenda claramente definida: a assinatura de Iniciativa Mérida, por meio da qual permitiu-se que agências e órgãos militares norte-americanos se intrometessem em assuntos internos mexicanos, por meio de assessorias, trabalho de espionagem e fornecimento de armas, equipamentos e veículos. Outros exemplos são o empenho calderonista em entregar partes substanciais da indústria petrolífera que, pelo texto constitucional, é propriedade e actividade exclusiva da nação, para empresas transnacionais, muitas delas norte-americanos, e a deplorável decisão, anunciada em Março passado e vigente desde Maio, de renunciar ao visto mexicano como requisito para ingressar no território nacional, aceitando, em seu lugar, um documento análogo emitido pelo governo dos EUA.

Quando Calderón se encontrava em Washington, as autoridades mexicanas pediram auxílio à DEA (Drug Enforcement Administration) e ao FBI na investigação sobre o sequestro de Diego Fernández de Cevallos. Com essa petição, os funcionários mexicanos encarregados da investigação não somente admitem de forma tácita a sua incapacidade, como expõem a atitude classista e discriminatória que os governos federal e queretano têm mantido em torno da captura do político panista (do PAN, Partido Acção Nacional). Até agora, semelhante cessão de soberania não tinha sido realizada por nenhuma das vítimas inocentes da descontrolada violência na qual desembocou a “guerra contra a delinquência organizada”.

Fonte: Esquerda.Net

terça-feira, 30 de março de 2010

MÉXICO - O último rosto do subcomandante Marcos.


O último rosto do subcomandante Marcos

É um rosto, finalmente descoberto, que vem do passado de todos os remorsos dos opressores e de todas as ilusões dos oprimidos, a face certamente "barbuda", guevarista, romântica do companheiro Zero, do "Subcomandante Marcos", que, desde 1994, mantém vivo nas florestas entre o México e a Guatemala o mito da grande revolta agrícola e indígena.

A reportagem é de Vittorio Zucconi, publicada no jornal La Repubblica, 28-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A foto "desencapuchada", sem a balaclava e o cachimbo que foram, por quase 20 anos, a marca e a imagem do último revolucionário mexicano, foi publicada em um jornal progressista do México, La Reforma, aparentemente fornecida por um traidor da causa.

E se não for talvez a primeira foto do ex-professor Ralf Sebastian Guillen, da Universidade Autônoma, como parece ser o seu verdadeiro nome, já vista em seu documento de identidade, esta parece ser mais verdadeira porque corresponde finalmente àquilo que todos os admiradores, os seguidores, os visitadores que desembarcaram na floresta de Chiapas em peregrinação de todo o mundo, os "sandalistas", como eram chamados ironicamente pelos locais e militantes armados do seu Exército de Libertação Zapatista, imaginavam que ele fosse.

Ela pertence, com esse olhar escuro e intenso enquadrado por uma barba fechada e muito preta, à iconografia clássica do "rebelde", do Caribe à Patagônia, do intelectual, do burguês - como eram Fidel, o advogado instruído pelos jesuítas, e "el Che", o médico argentino -, que joga sua própria condição de privilégio social às urtigas e se inclina, com fuzil na mão, do lado dos rejeitados. Entre misticismo e ideologia, missionários da libertação dos pobres, dos indígenas pisoteados e repisoteados antes pelos conquistadores ferozes do império espanhol e depois pelos proprietários de terra e pelos criadores sem coração.

O mito e a figura do "Delegado Zero", um zero, como se autodefinia por humildade de revolucionário confirmada pelo cargo não de comandante, que o Che havia adquirido na Serra cubana, mas de "subcomandante", explodiram em 1994, quando as suas pequenas tropas de indígenas maias com AK-47 surgiram da estupenda floresta centro-americana e apareceram na pequena capital de Chiapas, a cidadezinha colonial de San Cristobal de Las Casas.

Sob a evidente proteção oficiosa do "santo bispo", como os locais consideravam Dom Ruiz Garcia, um dos últimos latino-americanos ainda fiéis à teologia da libertação e ao Cristo dos últimos, o Subcomandante, os seus pequenos militantes, em sua maioria mulheres, a sua mística revolucionária, mas não violenta e certamente nunca sanguinária ou corrompida como a dos terroristas do Sendero Luminoso ou dos guerrilheiros colombianos, acreditaram no mistério daquela balaclava e daquela nuvem de tabaco do cachimbo.

San Cristobal, as suas "posadas", os albergues modestos mas bonitos, a catedral da qual o "santo bispo", tolerado por uma hierarquia católica sensível ainda no desespero temporal dos perdedores, pregava maldizendo a pobreza, os restaurantes improvisados administrados por italianos fugitivos perseguidos por mandatos de captura por grupos armados mas convertidos às massas da cozinha para nós, jornalistas italianos, cansados de guacamole e tortillas, se tornaram o refúgio dos últimos sonhos pós-leninistas e pós-soviéticos.

No encantamento traidor e de fábula de uma floresta ainda virgem, atravessada pelo "caminho" sobre o qual desciam velozmente as multidões de lenhadores maias em carrinhos de madeira sem freios e sem medo, o ex-professor da maior universidade mexicana, a Autônoma, entre bases do Exército impotente, postos de bloqueio da polícia local corrupta, bandos de estrada e os "macacos brancos", os zapatistas aninhados em seus vilarejos inencontráveis, atraíram a simpatia de diferentes personagens como Fausto Bertinotti. Ou Massimo Moratti, o petroleiro proprietário da Inter [de Milão, equipe de futebol], que avaliou a possibilidade de fazer com que seu próprio clube milionário se apresentasse justamente em Chiapas, em solidariedade com o movimento de resgate dos maias oprimidos.

Marcos se tornou o cordeiro mascarado com bandoleira a tira-colo para a Zapata que lavava os pecados de egoísmo do mundo rico, um símbolo, mais do que uma verdadeira e temível força política, capaz de fazer tremer um governo central que negociou e tratou com ele tréguas e reconhecimentos, até a marcha triunfal, "de pop star", como batizou a BBC, que o conduziu entre multidões de San Cristobal à capital, a Cidade do México.

Hoje, 16 anos depois da sua explosão no palco do mundo, com a morte do "santo bispo" no ano 2000, a queda da "teologia da libertação", a vitória política e cruel de líderes como Chávez na Venezuela, o sonho da floresta Lacandona perdeu a sua cor. O "desencapuchamiento" do subcomandante sem rosto é um pouco a normalização de um sonho.

A opressão dos indígenas, principalmente dos maias desaparecidos do Yucatán à Guatemala, continua. Mas é o terror dos grupos do narcotráfico, com os seus 2.600 assassinados apenas em 2009 para garantir o mercado da droga para o grande Norte, é que atormenta o México.