Sábado, 05 de outubro de 2013
A transformação da agricultura será um dos maiores desafios do século XXI. Entrevista especial com Gerson Teixeira
“Lamento o apagão do pensamento estratégico dentro do
governo. (...) Não bastasse, especula-se sobre a proximidade do anúncio
de um “pacote agrário” para ser dado de presente ao agronegócio e,
assim, mergulhando ainda mais o Brasil nas profundezas dos anacronismos
da sua estrutura agrária”, diz o presidente da Associação Brasileira de
Reforma Agrária – ABRA.
“Há que se pensar, de imediato, em uma ‘nova agricultura’ no decorrer do
século XXI, sob pena de possíveis crises alimentares globais que desdobrarão em eventos sociais e políticos imponderáveis”, considera
Gerson Teixeira, ao comentar a atual produção agrícola e a demanda por alimentos no futuro.
Segundo ele, “o mundo já se depara com processo de redução acentuada
dos níveis da produtividade agrícola (...) e as pesquisas demonstram que
a produtividade dos alimentos básicos declinou de 3% ao ano na década
de 1960 para 1% ao ano na atualidade”.
Na entrevista a seguir, concedida à
IHU On-Line por e-mail,
o engenheiro agrônomo avalia que as políticas adotadas no Brasil estão
na “absoluta contramão do que deveria ser feito para habilitar o país ao
enfrentamento do grande desafio da segurança alimentar”. E dispara:
“Tais políticas refletem, portanto, a temerária hegemonia do agronegócio
e têm a pretensão de transformar o Brasil no ‘fazendão do mundo’ sob o
controle do capital internacional.
Neste caso, vivemos a inacreditável situação na qual o agronegócio,
com o apoio massivo do governo, exporta 100 bilhões de dólares ao ano,
em grande parte para alimentar animais no exterior, e que não produz
comida para a população brasileira, inclusive, sendo responsável pela
evolução do
IPCA dos alimentos em patamares acima do
IPCA geral”.
Gerson Teixeira
é engenheiro agrônomo, especialista em Desenvolvimento Agrícola pela
Fundação Getúlio Vargas – FGV/RJ e presidente da Associação Brasileira
de Reforma Agrária – ABRA.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Como você avalia a declaração do economista
Chris Hurt, especialista em Economia Rural dos Estados Unidos, sobre o
menor crescimento da demanda alimentar no futuro?
Gerson Teixeira - Em entrevista publicada pelo
Valor Econômico
de 02 de setembro, esse especialista defendeu teses que contrariam
prognósticos de instituições internacionais sobre as tendências na
produção de alimentos. Em particular, garante que, doravante, após sete
anos de boom dos preços das commodities agrícolas, teremos uma longa
trajetória de equilíbrio entre demanda e oferta de alimentos, com os
preços retornando à sua trajetória histórica. Segundo Hurt, são
equivocadas as previsões da
FAO e
OCDE sobre as expectativas superlativas para a demanda alimentar nas próximas décadas que desafiam a agricultura mundial.
Portanto, não existiria cenário de ameaças para a segurança alimentar, tampouco de riscos de colapso na agricultura.
O economista fundamenta a sua tese no processo de desaceleração da
economia chinesa e no fato de a demanda de milho para a produção de
etanol nos
EUA supostamente ter alcançado o seu teto. Então, não haveria todo esse crescimento da
demanda alimentar mundial
no futuro. Os agricultores também não enfrentariam crise com o fim do
ciclo de alta dos preços, vez que teriam capacidade de assimilar margens
mais apertadas.
É possível que essas previsões se confirmem, mas a própria entrevista
revelou pouca convicção do seu autor, uma vez que ao mesmo tempo ele
assegurou que, de todo o modo, a
agricultura
dominante estaria apta a responder ao aumento acentuado da demanda
alimentar, pois, ainda segundo o especialista, haveria muita terra e
tecnologia a serem incorporadas ao processo produtivo.
Ora, é verdade que as previsões indicam que a
China,
o grande motor dos mercados agrícolas nos últimos anos, continuará
ostentando taxas importantes de crescimento econômico, mas em patamares
inferiores à média das últimas décadas. Mas algumas variáveis deixaram
de ser consideradas na análise do economista. Primeiro, leve-se em
conta, talvez mais que o crescimento demográfico mundial, os expressivos
contingentes populacionais em processo de urbanização e
migração rural que impactam em demanda maior e menor oferta agrícola potencial.
Veja-se o exemplo da própria
China, onde segue forte
o fenômeno da urbanização, à taxa de 2,5% ao ano (Bird, 2011),
significando que 15 milhões de chineses deixam as áreas rurais a cada
ano. De outra parte, aquele país enfrenta pelo menos mais um gargalo
estrutural para manter o expressivo desempenho agrícola do período
recente: as severas restrições de água em várias regiões. Especialistas
do Ministério da Agricultura, na edição mais recente da
Revista de Política Agrícola, apresentam estudo demonstrando que a China continuará com a segurança alimentar altamente dependente do exterior. Tanto que o
Departamento de Agricultura dos EUA prevê que, em praticamente dez anos, contados do ano de 2011, os consumos de milho, soja e carne bovina na
China terão aumentado em taxas notáveis de, respectivamente, 44,5%, 58,3% e 23,4%. As previsões de
Hurt também ignoram os desdobramentos na oferta agrícola das mudanças climáticas e da questão da produtividade.
IHU On-Line - Então como avalia as previsões da FAO e OCDE,
de que a agricultura enfrentará dificuldades para alimentar nove bilhões
de pessoas até 2050? Haverá crise estrutural para o agronegócio no
futuro?
Gerson Teixeira - São organizações respeitáveis que
conhecem o assunto, portanto, devemos nos orientar pelas suas previsões,
segundo as quais a demanda alimentar em 2050 deverá ser 70% maior
comparativamente à posição de 1996. De fato, trata-se de um enorme
desafio para a agricultura que poderá ser enfrentado. Contudo, não
acredito nessa possibilidade com a manutenção do padrão dominante de
agricultura, de larga escala, geneticamente homogêneo e intensivo em
químicos e energia de um modo geral.
IHU On-Line - Por quê?
Gerson Teixeira - Há alguns anos, com todos os
riscos e limitações, tenho me somado às análises de outros profissionais
nos assuntos agrários indicando essas dificuldades. Mas até os
especialistas das
Nações Unidas que participaram do
Informe da Conferência da Unctad sobre Comércio e Meio Ambiente/Revisão 2013,
lançado no dia 18 de setembro, alertaram, no documento, sobre o
imperativo para a humanidade de uma mudança rápida da produção baseada
em monocultura e intensiva em químicos para uma diversidade de sistemas
de produção sustentáveis, que melhorem a produtividade dos pequenos
agricultores. Advertem que a transformação fundamental da agricultura
pode ser um dos maiores desafios, inclusive para a segurança
internacional, no
século XXI.
O fato é que fatores econômicos e técnicos próprios da organização do
agronegócio, combinados com os efeitos da evolução da crise climática
sobre a agricultura (uma das principais fontes de emissão e, ao mesmo
temo, cada vez mais afetada pelo aquecimento global) sinalizam
dificuldades nada triviais para a subsistência futura da grande
exploração agrícola capitalista sob qualquer forma de organização.
Tentando resumir, diria que razões diversas impuseram trajetória de
declínio dos níveis reais dos preços agrícolas desde o final da década
de 1970. Nos últimos sete anos, a constante volatilidade da oferta
alimentar derivada da competição dos agrocombustíveis e da maior
frequência e intensidade de fenômenos climáticos, perpassada pelos
movimentos especulativos com commodities agrícolas pelos fundos de
hedge, em particular, provocaram a inflexão nesse processo. No geral,
esse fenômeno não resultou em rentabilidade mais elástica na base
primária à medida que os custos de produção também dispararam
notadamente daqueles relativos aos inputs químicos. Ademais, parte do
ganho adicional derivado do aumento dos preços passou a ser apropriada
pelas corporações que controlam o comércio agrícola. Confirmada ou não a
avaliação do economista americano sobre o retorno dos preços à sua
curva histórica, continuará o aperto das margens ‘dentro da fazenda’. Os
orçamentos nacionais para apoio à agricultura serão cada vez mais
robustos, o que implica considerar que se a variável econômica fosse a
única determinante, somente os países ricos teriam condições de
sustentar a atividade agrícola enquanto setor econômico estruturado.
Contudo, devemos agregar que o mundo já se depara com processo de
redução acentuada dos níveis da produtividade agrícola (Revista Science -
março/2010, The Economist - 23/03/2011 e estudos do USDA). As pesquisas
demonstram que a produtividade dos alimentos básicos declinou de 3% ao
ano na década de 1960 para 1% ao ano na atualidade.
Assim, o fenômeno histórico de compressão das margens na fazenda, já
num contexto de declínio da produtividade, tende a assumir graves
proporções no futuro, posto que, com as mudanças climáticas, o
IPCC/ONU estima em um terço a queda dos níveis de produtividade. Isto, caso o aquecimento global não ultrapasse os
2ºC. Essas projeções foram confirmadas recentemente pela
5ª Revisão sobre as mudanças climáticas (reunião do IPCC na Suécia) e pelo
1º Relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.
Vale assinalar que os eventos da pesquisa na tentativa de
adaptação/mitigação a esses desafios estão limitados à busca de
variedades mais resistentes às situações de déficit hídrico e de
temperaturas mais altas e, mesmo assim, no limite de
2ºC.
Em suma, quando consideramos o contexto de erosão da
biodiversidade
no mundo, fruto da “agricultura moderna”; a progressiva restrição da
disponibilidade de água para a continuidade dessa atividade no futuro;
os desequilíbrios ambientais sistêmicos previstos, há que se pensar, de
imediato, em uma “nova agricultura” no decorrer do
século XXI, sob pena de possíveis crises alimentares globais que desdobrarão em eventos sociais e políticos imponderáveis.
IHU On-Line - O governo brasileiro está atento a estes cenários?
Gerson Teixeira - Certamente têm quadros no governo
atentos a esses riscos. Mas uma combinação de fatores, como a correlação
de forças, a contaminação da burocracia por neoliberais com “tucanos de
carteirinha” nos mais altos escalões da administração federal e as
contingências imediatas do quadro de transações correntes, dita
políticas na absoluta contramão do que deveria ser feito para habilitar o
país ao enfrentamento do grande desafio da segurança alimentar. Tais
políticas refletem, portanto, a temerária hegemonia do agronegócio e têm
a pretensão de transformar o Brasil no “fazendão do mundo” sob o
controle do capital internacional.
Neste caso, vivemos a inacreditável situação na qual o agronegócio,
com o apoio massivo do governo, exporta 100 bilhões de dólares ao ano,
em grande parte para alimentar animais no exterior, e não produz comida
para a população brasileira, inclusive, sendo responsável pela evolução
do
IPCA dos alimentos em patamares acima do
IPCA geral.
A propósito, de forma lúcida, a presidente
Dilma
recentemente garantiu que, com o pré-sal, não deixará o Brasil sucumbir à
“maldição do petróleo” (uma alusão aos efeitos macroeconômicos
maléficos de economias centradas em recursos naturais – tese da
‘maldição dos recursos naturais’). Mas o governo deveria voltar a
atenção também para a “maldição instalada do agronegócio”, pois, neste
caso, tem o agravante de um “apagão estratégico”, com consequências
políticas e socioeconômicas potencialmente desastrosas para o futuro do
Brasil. Aliás, vivemos também a “maldição do ferro”, que recairá com
maior intensidade ainda sobre os interesses nacionais caso venha a ser
aprovado o texto da proposta do novo código mineral enviada pelo governo
ao Congresso.
IHU On-Line - Como ficam a reforma agrária e a agricultura familiar nesse debate?
Gerson Teixeira - De plano, me alinho às recomendações dos cientistas da
Unctad
sobre o imperativo de uma “nova agricultura”, fundada na
biodiversidade, menor escala e em sistemas ambientalmente amigáveis como
caminho para enfrentarmos o grande desafio da segurança alimentar em
décadas futuras.
Assim, a iminência de um colapso do agronegócio no futuro oferece
oportunidade histórica inusitada para a agricultura familiar e camponesa
no presente. Esta reúne atributos congênitos que lhe proporcionam maior
capacidade de resiliência aos efeitos das adversidades econômicas e
ambientais comentadas.
Mas, como afirmei, as políticas caminham no sentido oposto. A atual
política para a agricultura familiar, não obstante os méritos
inclusivos, induz à erosão dos fundamentos da economia camponesa,
nivelando-a às bases técnicas e organizativas da agricultura do
agronegócio e, assim, submetendo-a aos mesmos riscos de colapso. Até
mesmo a vocação para a produção de alimentos pelos agricultores
familiares tem sido interditada com a imposição da pauta de produtos do
agronegócio. Enquanto isso, o capital internacional, especulativo ou
não, investe em terras, também para alimentos, pois sabe que
rigorosamente se trata de um ‘negócio da China’ no presente e, mais
ainda, no futuro.
A reforma agrária, cuja importância na atualidade ultrapassa os seus
objetivos clássicos para assumir estratégia de proteção das futuras
gerações contra as incertezas e armadilhas deste século, simplesmente
foi sepultada.
Como petista que reconhece e comemora os avanços do país em várias
áreas desde 2003, lamento o apagão do pensamento estratégico dentro do
governo e obviamente sinto enorme frustração com o fato de, nos últimos
três anos, terem sido publicados apenas 86 decretos de desapropriação de
latifúndios improdutivos. Não bastasse, especula-se sobre a proximidade
do anúncio de um “pacote agrário” para ser dado de presente ao
agronegócio e, assim, mergulhando ainda mais o Brasil nas profundezas
dos anacronismos da sua estrutura agrária. Entre outras medidas,
constariam do “pacote” mecanismos para a transferência, para o mercado,
de áreas dos assentamentos; a homologação das posses nas áreas de
fronteira; e nada sobre a regulação efetiva do acesso a terra por
pessoas estrangeiras. A ver!
IHU On-Line - Como avalia a proposta de Márcio Matos, um dos líderes do MST, de que o governo feche o Incra diante da inoperância?
Gerson Teixeira - Um efeito colateral esperado do sentimento de frustração que também acometeu o companheiro.