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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

POLÍTICA - Mais uma traíra na área.






10 frases da filiação de Marta ao PMDB





Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:


A senadora Marta Suplicy oficializou no sábado (26) sua filiação ao PMDB em grande estilo.

Depois de 33 anos no PT, a septuagenária Marta inaugura não apenas uma fase em sua vida política, mas uma nova carreira: a de comediante de stand up.

No Tuca, no bairro das Perdizes, ela brindou a plateia com tiradas inspiradas, que levaram os presentes às gargalhadas - consta que alguns militantes pagos tiveram que ser hospitalizados.
Divido com vocês dez piadas da rediviva Marta Suplicy e seu peemedebismo maroto, seu politiquês moleque, sua graça, seu frescor e seu humor contundente e honesto:

*****


- “Michel Temer vai reunificar o Brasil”

- “Olhei nos olhos de Michel e senti confiança”

- “José Sarney é um gigante da política”

- “O PMDB soube devolver a nós o que há de mais valioso na vida. A liberdade, o direito de ir e vir, de mudar de ideia”

- “Eu senti que eu caibo por causa disso, é um partido amplo”

- “A gente quer um Brasil livre da corrupção, livre das mentiras, livre daqueles que usam a política como meio de obter vantagens pessoais”

- “Vamos todos unir o país”

- “Chalita, a vida pública é cheia de armadilhas, mas Deus escreve certo por linhas tortas”

- “Juntos, vamos fazer o PMDB cada vez mais forte”

- “Um, dois, três, quatro, cinco mil, Marta e Michel em São Paulo e no Brasil” (junto com a audiência, num momento orgástico)

domingo, 8 de março de 2015

POLÍTICA - A falta de politização dos beneficiários dos programas sociais está pagando seu preço.


Santayanna: Quando não se reage, se apodrece

  Autor: Fernando Brito
urub
Como é bom que alguns percebam que levar o discurso político-ideológico às grandes massas do nosso povo, mostrar-lhes em palavas as razões dos sofrimentos que vivem, faze-las ver qual são os choques e impasses em que este país vive e que o impedem de ser tão feliz quanto é grande…
O PT, talvez por sua origem na base operária metalúrgica,  muitas vezes desdenhou deste discurso e desta prática, imaginando que ela brotaria naturalmente, tese que atingiu seu corolário na esdrúxula tese do “controle remoto” que desenvolveram para a mídia, repetindo a ideia da “livre escolha” dos neoliberais, como se esta escolha não fosse livre apenas dentro do conjunto de uma mídia dominada pelo poder econômico e por nenhum amor ppor um desenvolvimento libertador e inclusivo para o povo brasileiro.
Este é o tema de mais uma “aula” do velho mestre Mauro Santayana, no JB, mostrando o que se perdeu e o que mais não se pode perder, para não cevar tanto aos urubus que eles, além de nós, devorem também um país transformado em carniça.

O PT, o PSDB e a arte de cevar os urubus

 Mauro Santayanna
Se houve um erro recorrente, que pode ser trágico em suas consequências, cometido pela geração que participou da luta pela redemocratização do Brasil, foi permitir que a flor da liberdade e da democracia, germinada naqueles tempos memoráveis, fosse abandonada, à sua própria sorte, no coração do povo, relegada a segundo plano pela  batalha, encarniçada e imediatista, das suas diferentes facções, pelo poder.
Perdeu-se a oportunidade – e nisso também devemos nos penitenciar – de aproveitar o impulso democrático, surgido da morte trágica de Tancredo Neves, para se inserir, no currículo escolar  de instituições públicas e privadas, obrigatoriamente, o ensino de noções de cidadania e de democracia, assim como o dos Direitos do Homem, estabelecidos na Carta das Nações Unidas, e esse tema poderia ter sido especificamente tratado na Constituição de 1988 e não o foi.
Não se tendo feito isso, naquele momento, a ascensão ao poder de um auto-exilado, o senhor Fernando Henrique Cardoso, poderia ter levado ao enfrentamento dessa mazela histórica, e, mais ainda, pelas mesmas e mais fortes razões – a questão deveria ter sido enfrentada quando da chegada ao poder de um líder sindical oriundo da camada menos favorecida da população, pronto a entender a  importância de dar a outras pessoas como ele, o acesso à formação política que lhe permitiu mudar a si mesmo, e tentar, de alguma forma,  fazer o mesmo com o seu  país.
Em vários anos, nada foi feito, no entanto, nesse sentido.
Mesmo tratando-se de questão fundamental – a de explicar aos brasileiros para além das eventuais campanhas feitas pela Justiça Eleitoral a divisão e a atribuição dos Três Poderes da República, noções do funcionamento do Estado, dos direitos e deveres do cidadão, e de como se processa, por meio do voto, a participação da população – nunca houve, e tratamos do tema muitas vezes, nenhuma houve nenhuma iniciativa desse tipo, mesmo que pudesse ter sido adotada, a qualquer momento, por qualquer administração municipal.
Pensou-se, erroneamente, que bastava voltar à eleição, pelo voto direto, do Presidente da República,  e redigir e promulgar um novo texto constitucional,  para que se consolidasse a Democracia  no Brasil.
Na verdade, essas duas circunstâncias deveriam ter sido vistas apenas como o primeiro passo para uma mudança mais efetiva e profunda, que teria de ter começado por uma verdadeira educação cívica e política da população.
Imprimiu-se a Democracia em milhões de exemplares da Constituição da República, mas não nos corações e mentes da população brasileira.
De um povo que vinha, historicamente, de uma série de curtas experiências democráticas, entrecortadas por numerosos golpes, contra-golpes, de todo tipo; educado ao longo das duas décadas anteriores, dentro dos ritos e mitos de uma ditadura que precisava justificar, de forma peremptória, a derrubada de um governo democrático e nacionalista – ungido pelo plebiscito que deu vitória ao presidencialismo – com a desculpa do bovino anticomunismo da Guerra Fria, cego e ideologicamente manipulado a partir de uma potência estrangeira, os Estados Unidos.
À ausência de um programa de educação democrática para a população brasileira –  e da defesa da Democracia como parte integrante, permanente, necessária, no nível do Congresso e dos partidos, do discurso político nacional, somou-se, nos últimos tempos, a deletéria criminalização e judicialização da política, antes, depois e durante as campanhas eleitorais.
Assim como parece não perceber que a desestruturação da Petrobras, do BNDES, das grandes empresas de infra-estrutura, de outros bancos públicos, criará um efeito cascata que prejudicará toda a nação, legando-lhe uma vitória de Pirro,  caso venha a chegar ao poder em 2018, a oposição também não compreende, que ao incentivar ou se omitir, oficialmente, com relação a ataques à Democracia e aos apelos ao golpismo por parte de alguns segmentos da população, está dando um tiro pela culatra, que só  favorecerá uma terceira força, com relação à qual comete terrível engano, se acredita que tem a menor possibilidade de vir a controlar.
A mesma parcela do público radicalmente contrária ao Partido dos Trabalhadores, estende agora, paulatinamente, o processo de criminalização da política ao PSDB e a outros partidos contrários ao PT, e já há quem defenda, na internet, e nas redes sociais, a tese de que o país precisa livrar-se das duas legendas, e  de que a saída só virá por meio do rápido  surgimento de outra alternativa política, ou de uma intervenção militar.
Bem intencionado na área social, na macroeconomia, em alguns momentos, e em áreas como as Relações Exteriores e a Defesa, e atuando quase sempre  sob pressão, o PT cometeu inúmeros erros – e não apenas de ordem política – nos últimos anos.
Abrir a porta a paraquedistas que nada tinham a ver com os ideais de sua origem, atraídos pela perspectiva de poder, foi um deles.
Outro, foi o de fechar os olhos para o fato de que alguns de seus militantes estavam caindo, paulatinamente, na tentação de deixar-se seduzir e contaminar, também, pelas benesses e possibilidades decorrentes das vitórias nas urnas.
O maior de todos, no entanto, foi se omitir de responder, do começo, àqueles ataques  mais estapafúrdios, sem outra motivação do que a do ódio e do preconceito, que passou a receber desde que chegou à Presidência da República.
Ao adotar, de forma persistente, essa posição,  o PT prestou um terrível, quase   irreparável, desserviço à Democracia.
Em um país em que blogueiros são condenados a pagar indenizações por chamar alguém de sacripanta, a própria liturgia do cargo exige que um Presidente ou uma Presidente da República usem a força da Lei para coibir e exemplar quem os qualifica, pública e diuturnamente, na internet, de fdp, ladrão, bandido, assassina, terrorista,  vaca,  anta, prostituta, etc, etc, etc.
E tal liturgia exige que isso se faça desde a posse, não apenas para preservar a  autoridade máxima da República, que a ninguém pertence pessoalmente,  já que  conferida foi pelo voto de milhões de brasileiros, mas, sobretudo, para defender a democracia em um país e uma região do mundo em que quase sempre esteve ameaçada.
Existe, é claro, a liberdade de expressão, e existem a calúnia, o ataque às instituições, ao  Estado de Direito, à Constituição, que ameaçam a estabilidade do país e a paz social, e o governo que se furta a  defender tais pressupostos, nos quais se fundamentam Estado e Nação, deveria responsabilizar-se – fossem outras as circunstâncias – direta, senão criminalmente,  por essa omissão.
Se Lula, Dilma, e outras lideranças não se defendem, nem mesmo quando acusadas de crimes como esquartejamento, o PT, como partido, faz o mesmo, e  incorre no mesmo erro, ao omitir-se de ampla e coordenada defesa da democracia – e não apenas em proveito próprio –  dentro e fora do ambiente virtual.
Em plena ascensão do discurso anticomunista e “anti-bolivariano” – o Brasil agora  é um pais  “comunista”, com 55 bilhões de reais de lucro para os bancos e 65 bilhões de dólares de Investimento Estrangeiro Direto no ano passado, e perigosos marxistas, como Katia Abreu, Guilherme Afif Domingos e Joaquim Levy no governo – sua militância insiste em se vestir de vermelho como o diabo, como adoram lembrar seus adversários,a cada vez que bota o pé na rua.
Isso, enquanto, estranhamente, abandona, ao mesmo tempo,  o espaço de comentários dos grandes portais e redes sociais, lidos pela maioria dos internautas, a golpistas  que se apropriam das cores da bandeira, agora até mesmo como slogan.
Ao fazer o que estão fazendo, o Governo, o PT e o PSDB, estão fortalecendo uma terceira força, e especializando-se na perigosa arte de cevar os  urubus.
De que se alimenta a extrema direita?
Do ódio, da violência, do preconceito, da criminalização da política, da infiltração e do aparelhamento do estado, do divisionismo, da disseminação terrorista da calúnia, do boato e da desinformação.
No futuro, quando for estudado o curto período de 30 anos que nos separa da redemocratização, será possível ver com clareza – e isso cobrarão os patriotas pósteros, se ainda os houver, nesta Nação –  como a hesitação, a imprevisibilidade, a aversão ao planejamento, a anomia e a mais absoluta incompetência por parte da comunicação do PT, principalmente na enumeração e disseminação de dados irrefutáveis; e o irresponsável fomento ao anti-nacionalismo e à paulatina criminalização e judicialização da política, por parte, PSDB à frente, da oposição, conseguiram transformar o país libertário, uno e nacionalista, que emergiu da luta pela Democracia e que reunia milhões de pessoas nas ruas para defender esses ideais há 30 anos,  em uma nação fascista, retrógrada, politicamente anacrônica, anti-nacional e conservadora, que reúne, agora, nas ruas, pessoas para atacar o Estado de Direito, a quebra das regras que o sustentam, e a interrupção do processo democrático.
Um país cada vez mais influenciado por uma direita “emergente” e boçal – abjeta e  submissa ao estrangeiro e preconceituosa e arrogante com a maioria da população brasileira –    estúpida, golpista e violenta,  que está estendendo sua influência sobre setores da classe média e do lumpen proletariado, e crescendo, como câncer, na  estrutura de administração do estado, na área de segurança, nos meios religiosos, na mídia e na comunicação.
Destruiu-se a aliança entre burguesia nacionalista e trabalhadores, que conduziu o país à Campanha das Diretas e à eleição de Tancredo Neves como primeiro presidente civil, depois de 21 anos de interrupção do processo democrático.
Destruiu-se a articulação das organizações e setores mais importantes da sociedade civil, na defesa do país, do desenvolvimento e da democracia.
Destruiu-se, sobretudo, a esperança e o nacionalismo, que, hoje, só a muito custo persistem, no coração abnegado de patriotas que lutam, como quixotes  aguerridos e impolutos, em pequenas organizações,  e, sobretudo, na internet, para evitar que a Nação naufrague, definitivamente, em meio à desinformação, ao escolho moral e à apatia suicida da atualidade; ao pesado bombardeio das forças que cobiçam, do exterior, nossas riquezas; e que o Brasil abandone e relegue, como quinto maior país do mundo em território e população, qualquer intenção que já tenha tido de ocupar, de forma altiva e soberana, o lugar que lhe cabe no concerto das Nações.
Quando se veem brasileiros encaminhando pedidos à Casa Branca de intervenção na vida nacional, defendendo a  total privatização, desnacionalização e entrega de nossas maiores empresas, em troca, alegadamente, de comprar, como no país do Tio Sam,  por um real um litro de gasolina – se for por esta razão, por que não se mudam para a Venezuela, e vão abastecer seus carros em postos PDVSA, empresa 100% estatal, onde ela  está custando 15 centavos ? –  tratando meios de comunicação estrangeiros e pseudo organizações de todo tipo sediadas na Europa e nos Estados Unidos como incontestáveis oráculos aos que se deve reverência e obediência absolutas, os inimigos do Brasil riem, e sua boca se enche de saliva, antecipando a divisão e o esgarçamento da nossa sociedade, e nossa entrega e capitulação aos seus ditames, com a definitiva colonização da nossa Pátria, e, sobretudo, da alma brasileira.
Pouco mais há a fazer – correndo o risco de sermos tachados mais uma vez de loucos, ridículos e senis, extintos, e sem mais lugar neste mundo, do que os répteis que outrora cruzavam as planícies de Pangea – do que pregar, como João Batista, no deserto, mastigando os gafanhotos do ódio e do sarcasmo.
É preciso reunir os democratas e os nacionalistas onde os houver, para evitar e se contrapor, de forma inteligente, coordenada, ao fortalecimento descontrolado, já quase inevitável, das forças antidemocráticas e anti-nacionais.
O governo e a oposição – ao menos a mais equilibrada – precisam parar de cevar as aves de rapina, que, dentro, e fora do país, anseiam e já anteveem nossa  destruição, e o controle definitivo de nossa população e de nossas riquezas.
Quando acabarem, pelo natural esgotamento e imposição das circunstâncias, os equívocos, as concessões, os enganos, as omissões, as pequenas felonias, as traições à verdade, ao passado e ao futuro,  de que se alimentarão os urubus ?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

ARÁBIA SAUDITA - Sauditas financiam fundamentalismo.

Sauditas financiam fundamentalismo que os EUA guerreiam


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Comício do partido Aurora Dourada, da Grécia: a gente já viu este filme nos anos 30, com os comunistas no lugar dos imigrantes, inclusive muçulmanos
por Luiz Carlos Azenha
2001. Universidade de Darul Uloom, Deoband, ao norte de Nova Delhi, na Índia – Eu e o cinegrafista Sherman Costa viemos conhecer a escola onde foi formulada a teologia do talibã. Uma mesquita novíssima ao lado do campus acaba de ser inaugurada. Nossa visita foi garantida por um excelente contato do nosso produtor indiano, Rajan. O jovem professor de informática que se dispôs a nos receber e ciceronear é mais aberto aos ocidentais, pelo envolvimento que tem com a internet. É através dela que os teólogos deobandi respondem a perguntas de fieis de todo o mundo. Eles buscam respostas sobre a interpretação do Alcorão para questões cotidianas.
Pergunto ao professor quem financiou a mesquita. Resposta: a Arábia Saudita. Trata-se da batalha travada no interior do islamismo, especialmente entre sunitas e xiitas. Montados no petróleo, os sauditas financiam a expansão de sua própria corrente do islamismo, o wahhabismo. Mas também dão dinheiro para outros sunitas dispostos a enfrentar os xiitas, especialmente os do Irã e do Iraque. É uma ironia que o dinheiro saudita financie, hoje, as principais correntes fundamentalistas, considerando que a Arábia Saudita é o principal aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio. Eram sauditas os autores do ataque às Torres Gêmeas, lembram-se?
O poder da grana faz a mensagem saudita — que enfatiza uma interpretação ultraconservadora do Alcorão — chegar longe. Curiosamente, não atrai necessariamente os desesperados da periferia de Túnis ou do Cairo.
Repercute especialmente entre os jovens da classe media baixa muçulmana, que encaram o desprezo dos europeus nas periferias de Paris ou Londres. Mais que uma saída religiosa, o fundamentalismo é uma porta de escape para se livrar do profundo sentimento de inferioridade. A humilhação privada e cotidiana nas ruas anda paralela à humilhação política e militar dos muçulmanos sob os Estados Unidos, Israel e os ocidentais.
Em Deoband, a universidade é uma válvula de escape para os filhos de agricultores pobres do interior da Índia. Aqui eles mergulham numa vida ascética. Não tem colchão, nem espelho, nem ouvem rádio, nem lêem jornal. As representações gráficas, inclusive do profeta, são banidas. O espelho seria um convite à vaidade, à egolatria, quando a ideia é justamente submeter o indivíduo à vontade maior, coletiva, da Ummah.
Somos, os ocidentais individualistas da globalização consumista, uma ameaça à noção da comunidade. Por isso os estudantes nos olham extremamente desconfiados. Olhares de curiosidade — alguns, de ódio.
2003. Bagdá – Nosso motorista na capital iraquiana não é um fã de Saddam Hussein, mas acha que a invasão dos Estados Unidos, que se anuncia para as próximas semanas, será um desastre. Ele acha que acima de Saddam está o nacionalismo que une os iraquianos, independentemente de serem sunitas ou xiitas.
São resquícios do pan-arabismo. Aquele, do líder egípcio Gamal Abdel-Nasser. Houve, um dia, o sonho de uma grande nação árabe, socialista. Egito e Iraque chegaram a formalizar uma união, que nunca se concretizou. Ambos tiveram governos seculares e nacionalistas, um nacionalismo que pregava o controle dos recursos naturais (Suez e o petróleo, respectivamente).
Talvez Sattar, o motorista, não tenha se dado conta de que a derrubada de Saddam tinha, também, esta dimensão: enterrar de vez o pan arabismo e seu nacionalismo que nunca interessou às potências ocidentais.
No Iraque, eu e o Sherman vimos pessoalmente a justificativa para os olhares de ódio em Deoband. Durante as sanções econômicas impostas pelas Nações Unidas ao Iraque, por mais de dez anos, a estimativa é de que entre 200 e 500 mil crianças tenham morrido por falta de comida e/ou de remédio. O sofrimento dos iraquianos comuns durante este longo período, raramente noticiado no Ocidente, enfureceu os muçulmanos quase tanto quanto o massacre de palestinos por Israel.
2008. Algum lugar do interior do Quênia, na África – Alguns matatus passam por nós na estrada. Estávamos a caminho da casa da família de Barack Obama.
Os matatus são ônibus que fazem transporte urbano ou entre as comunidades. Costumam trazer as imagens de ídolos dos donos ou passageiros. Muhammad Ali. O imperador Haile Selassie. Osama bin Laden. Osama bin Laden? Perguntamos ao guia: como é que o autor de um pavoroso ataque contra civis, com mais de 3 mil mortes, pode ser idolatrado?
Ele nos respondeu que os muçulmanos locais tinham uma visão de longo prazo da História. Eles não se lembravam apenas do 11 de setembro. Tinham na memória a derrubada do governo nacionalista do Irã, a expulsão dos palestinos na nakba, o fracasso nos confrontos militares contra Israel, etc. etc. etc. Neste contexto, bin Laden tinha sido bem sucedido quando deu uma resposta às humilhações. Fiquei boquiaberto e calado, me perguntando se Obama, quem sabe, provocaria uma reviravolta na eterna “guerra ao terror”.
2012. Karachi, Paquistão – Não, Obama não provocou uma reviravolta. Aquela geração lá de trás, que vi com o Sherman Costa em Deoband, cresceu. Cresceu testemunhando que neste mundo a resolução de conflitos se dá pela força. Pelo terrorismo. De estado ou assimétrico.
Há milhares de pessoas nas ruas e não é recomendado que circulemos à vontade na maior metrópole do Paquistão. Esta é a cidade em que o jornalista Daniel Pearl, do Wall Street Journal, foi decapitado. Padu e Lucas, os cinegrafistas, se misturam à multidão para fazer imagens. É um protesto de um grupo ultrafundamentalista, sunita, que denuncia os ataques de drones dos Estados Unidos contra civis. Suspeitos de terrorismo morreram, mas também morreram homens, mulheres e crianças que nada tinham a ver com a guerra de Washington.
Um militar se aproxima para dizer que devemos abandonar as vestes ocidentais. Rumamos para o mercado para atendê-lo e compramos as longas batas tradicionais do país, nosso “disfarce”.
O Paquistão é um país pobre, que destina uma quantia considerável de recursos à manutenção de sua máquina militar. Bombas atômicas contra o inimigo número um, a Índia. Homens e fuzis contra o talibã, que quando interessava aos Estados Unidos o Paquistão ajudou a fomentar — era preciso afastar o “perigo comunista” do vizinho Afeganistão.
No Paquistão, a presença do Estado em serviços públicos é tão rala que Karachi está dividida entre milícias que representam interesses econômicos e religiosos.
Quando eu me sento com um líder sindical ligado ao agora minúsculo Partido Comunista local ele desabafa que nunca foi tão difícil militar: tanto o governo pró-Estados Unidos quanto os fanáticos religiosos que o combatem representam o feudalismo econômico. A luta social foi sequestrada pelo fascismo religioso, afirma ele na gravação.
2013. Budapeste – O livro A ‘ameaça’ Cigana, editado por Michael Stewart, ocupa um lugar de destaque na vitrine da livraria. Logo vou entender o motivo. O partido Jobbik, de extrema-direita, está em ascensão na Hungria. Num contexto mais amplo, a extrema-direita cresce em todo o Leste Europeu.
Assim como o nacionalismo árabe não conseguiu dar resposta às demandas econômicas e perdeu espaço para o fundamentalismo religioso, aqui o neoliberalismo fracassou e é impensável uma guinada à esquerda — que encarnou até recentemente o colonialismo vindo de Moscou. O fracasso das reformas pós-queda do muro de Berlim se reflete nos números espantosos do desemprego. E na busca por bodes expiatórios.
Se apenas a Hungria retornasse ao seu passado pastoril, sem a “contaminação” dos ciganos e outros elementos “estranhos” ao corpo social…
Com este discurso o Jobbik tem consistentemente obtido entre 15 e 20% dos votos. É um fenômeno regional. Na vizinha Ucrânia a extrema-direita já faz parte da coalizão governista. Russos e judeus são o alvo. Na Grécia, as tropas de assalto do partido Golden Dawn aterrorizam refugiados e imigrantes em geral. Perto deles, a Frente Nacional francesa e o Freedom Party holandês, que combatem a imigração e promovem a islamofobia, são moderados.
Comentaristas europeus atribuem a ascensão da extrema-direita aos efeitos persistentes da megacrise financeira que teve início em 2008 e afeta a economia de todo o mundo, inclusive muçulmano. Os extremos se encontram na Europa, em meio à crise.
Os irmãos Said e Cherif Kouachir, que cometeram a barbárie em Paris, são franceses. Um deles, preso anteriormente, declarou em seu julgamento que ficou ultrajado com a tortura cometida por soldados dos Estados Unidos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. São de uma família tão vulnerável que ambos foram tirados de casa e ficaram sob os cuidados do Estado francês. Cherif fez parte de uma rede de recrutamento de militantes para lutar contra a coalizão que ocupou o Iraque.
É como se fizessem parte ao mesmo tempo dos dois lados da moeda. Em ambos predomina a busca por soluções violentas para enfrentar o ambiente de degradação econômica e social.