Por causa do ódio, Barbara Gancia está querendo “virar petista só de birra”
Barbara Gancia reagiu ao clima de ódio
que se instaurou no Brasil. A jornalista da Folha e da Rádio BandNews,
crítica confessa em diversos momentos das gestões petistas nos últimos
doze anos, considera que o ódio e a demagogia ultrapassaram todos os
limites no atual cenário político nacional.
“Esse ódio crescente e tão palpável ao PT quanto um transatlântico
que jorra do coração dos “conservadoressauros” na direção daqueles que,
juntos são milhões, mas não conseguem nunca acumular mais riqueza do que
o famoso 1% dos ricos já deu”, escreveu.
A jornalista também ironizou a indignação seletiva dos propagadores
do ódio. “E o problema lá de Furnas e do Aécio? Há uma montanha de
coisas em estados de todas as mais variadas importâncias, está faltando
dizer isso a quem, ao Papai Noel?”.
Leia a íntegra do texto de Barbara Gancia:
Não sou PT, nunca fui. Mas, só de birra, está começando a me dar
vontade de deixar crescer uma barba e/ou a sibilar. O que vier com mais
facilidade, eu mando ver.
Explico. Esse ódio crescente e tão palpável quanto um transatlântico
que jorra do coração dos “conservadoressauros” na direção daqueles que,
juntos são milhões, mas não conseguem nunca acumular mais riqueza do que
o famoso 1% dos ricos já deu.
Pessoal alega que foi o Lula que começou a “luta de classes”, mas,
sejamos sinceros, já se vendia carro blindado e já existia cadeia
superlotada, rebelião na Febem, tiro na cara pra roubar Rolex na Oscar
Freire bem antes de o Lula ir trabalhar na Villares.
Mas voltemos a essa gentalha pobre que incomoda.
Hoje, eles não só ocupam espaço e saem gritando no shopping em
rituais primitivos chamados de rolezinhos, como passaram a ser
identificados por “massa de manobra” ou “vagabundos que votam no PT pra
ganhar Bolsa Família”.
Pois então, esse ódio que antes ficava lá contido, ele começa a
mostrar a fuça. Seja lá pelo motivo que for. Não, eu não acho o Zé
Dirceu santo e, sim, eu creio que, deixado livre para dispor do poder
que tinha, ele teria realizado uma pequena revolução bolchevique a seu
modo, por meio de uma reforma fiscal na surdina.
Se isso seria bem-vindo? Não creio, se fosse feito sem consultar a população e se não fosse à luz do dia.
Mas, voltemos à crua realidade do que temos em mãos, e não daquilo que poderia ter sido.
Agora que o PT e o Lula não metem mais medo no empresariado, o
pessoal que costumava se restringir a frases econômicas como “eu voto na
Arena” ou “eu votei no PSDB” começa finalmente a explicar melhor as
razões pelas quais sempre teve como princípio nunca jamais nemfu votar
num partido de esquerda.
Isso acontece porque a feroz desigualdade que impera no país impõe, digamos, “estilos de vida” deveras conflitantes.
Você se encontra de um lado ou do outro.
Se mora na periferia, não tira selfie com policial e não participa e
panelaço contra nenhum político. Seja ele de que partido for, já que
ninguém que está acima de você ou que você seja obrigado a chamar de
“doutor” inspira confiança.
E se você não mora na periferia e tem a sorte de possuir um jogo de
panelas para brincar de imitar o Cartel de Medellin na hora do jantar
-ueba!- ou se se ufana de vestir a camisa do 7×1 pra cantar aquela
musiquinha insossa, ” …com muito orgulho, com muito amor… Eu, sou…” … se
você tira foto com polícia, se nenhum PM nunca olhou feio pra você,
nunca arrastou seu irmão no meio da noite da cama em que ele dormia e o
levou embora de camburão porque ele se parece muito com um traficante do
bairro; se você acha que vence na vida quem estuda e trabalha e que
todos nós podemos fazer isso -sem discriminar entre ricos e pobres-, sem
essa de vitimização, já que basta olhar para os Estados Unidos ou, quem
sabe, pra Índia onde há inúmeros exemplos de gente humilde que venceu
sem recorrer ao crime, vai dizer que não há?
Parece então que o que nós temos é um problema imenso de comunicação entre duas populações distintas obrigadas a coexistir.
Trata-se de uma diferença de pontos de vista e de experiências de
vida tão vultuosa, que acaba produzindo um mar de preconceito,
indiferença, desconfiança, ignorância e desdém.
Seria lindo se fosse só isso. E olha que isso já seria uma catástrofe
depois de 515 anos empreendendo esta nossa aventura civilizatória.
Mas provavelmente não é à toa que Pero Vaz de Caminha já tenha
conseguido enfiar um pedido de emprego para um parente na sua famosa
missiva, no primeiro episódio de nepotismo da história do nosso país,
aos 10 minutos do primeiro tempo, naquele que depois viria a ser o
paraíso da vantagem em benefício próprio e do desprezo pela
coletividade, o bem maior e o interesse público.
Na minhas páginas nas redes sociais, todo dia tomo porrada (forte) de
indivíduos que se auto intitulam “reaça” disto e “reaça” daquilo. Ontem
um quadrúpede desses tentou me explicar que “reaça” e “esquerdista” são
cosas equivalentes.
E é esse o pior dano que se está perpetrando ao eliminar sem dó nem
piedade o PT da face da terra -como já se fez antes com Collor, Jânio,
Vargas etc
Sem um lado de cá e uma oposição para contra balacear não existe
possibilidade de haver uma fagulha que dê (re) início ao processo
democrático.
Golbery do Couto e Silva, ministro chefe da Casa Civil de Geisel e
Antônio Delfim Neto deram força para o surgimento de Lula como liderança
sindical antevendo um futuro democrático de raiz bipartidária.
A despeito dos problema com a propaganda e o financiamento das
campanhas políticas, sem o equilíbrio Labour/Tory,
Democratas/Republicanos, Democrazia Cristiana/Partito Socialista não
pode haver nem sequer esboço de arremedo de fiofó de burro de democracia
pra inglês ver.
Já não são bem tolerados no país fenômenos que nós não captamos, temos trauma ou consideramos (vá entender) démodé.
“Conservador” por exemplo, é algo que desce mal para o brasileiro. Em
outras sociedades, o termo tem vários significados. Estritamente na
política, sinaliza que o camarada é a favor de menos interferência do
Estado na economia, da valorização dos direitos do indivíduo e da não
interferência de instituições como a igreja ou quaisquer outras na vida
privada. Soa como uma descrição da filosofia do Bolsnaro ou do Tuminha
pra você? Pois é, pra mim também não. E Serra, exilado do regime militar
e Dilma, presa política da mesma turma, trocarem gentilezas com antigos
algozes e fazerem alianças que ultrapassam qualquer limite de vergonha
na cara com o inimigo de ontem, faz sentido?
Não será talvez por esse tipo de “licença poética” que o sonho de um
Estado democrático está naufragando e, mais uma vez, grileiros,
corruptores manjadíssimos, patrocinadores de candidatos marionetes,
falsos profetas, contrabandistas, pilhadores e gente que usa o governo
como mero entreposto para seus fantásticos negócios está vencendo a
parada novamente e pela undécima vez?
Faz sentido ainda não ter sido julgado o mensalão mineiro? Faz
sentido os senhores Renan e Cunha ainda estarem lá firmes e fortes?
Reafirmo: não sou petista, nunca fui, e nem me julgo particularmente de
esquerda.
Mas esse desequilíbrio é indicação grave de golpe branco em
andamento, treta por baixo do pano, arranjo de que tipo não se sabe, mas
coisa boa dali não sai.
Ou por bem julgam tantos deste lado e também do outro e medimos
forças e o país sai lambendo suas feridas, ou anistiamos a todos e vai
todo mundo fritar pastel.
Esta caça às bruxas, em que o camarada está se transformando em
milícia odiosa que sai à caça do “inimigo” na internet e no boteco da
esquina do escritório, e acusa quem quer que lhe dê na telha de bandido e
ladrão e filho e um égua só porque o outro (que até ontem era seu
amigão) não compartilha de sua ideologia começa a se parecer demais com a
Alemanha de Hitler circa 1934.
Cadê o Renan, gente, lembra do processo cabeludo que caiu naquela
cabeça cheia de fio implantado por conta de um caso extraconjugal?
E o envolvimento dele no Petrolão, não há nada ainda? Claro que há, em abundância. Só não vê e não mostra quem não quer!
E o problema lá de Furnas e do Aécio? Há uma montanha de coisas em
estados de todas as mais variadas importâncias, está faltando dizer isso
a quem, ao Papai Noel? Sim, porque ao papa, pode crer, sendo argentino e
odiando a Kirchner como odeia, a esta altura, ele já está ao par de
tudo.
E o Sarney, onde andará, por sinal? Lembra quando o Lula dizia que
ele até não era de todo mau e que nós devíamos respeitar a experiência
que o bigode tinha acumulado nestes anos todos?
Pois não é que, depois que ele desapareceu, eles deram um jeito de cobrir com uma lona.
Agora virou circo de verdade, completinho.
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