terça-feira, 3 de dezembro de 2013

LEONARDO BOFF - "A vontade de condenar e atingir letalmente o PT."

 
  Do Brasil 247 
O animus condemnandi (a vontade de condenar) e de atingir letalmente o PT é inegável nas atitudes açodadas e irritadiças do Ministro Barbosa

LEONARDO BOFF 

Leonardo BoffTradicionalmente a Justiça é representada por uma estátua que tem os olhos vendados para simbolizar a imparcialidade e a objetividade; a balança, a ponderação e a equidade; e a espada, a força e a coerção para impor o veredito.

Ao analisarmos o longo processo da Ação Penal 470 que julgou os envolvidos na dita compra de votos para os projetos do governo do PT, dentro de uma montada espetacularização mediática, notáveis juristas, de várias tendências, criticaram a falta de isenção e o caráter político do julgamento.
Não vamos entrar no mérito da Ação Penal 470 que acusou 40 pessoas. Admitamos que houve crimes, sujeitos às penas da lei.

Mas todo processo judicial deve respeitar as duas regras básicas do direito: a pressunção da inocência e, em caso de dúdiva, esta deve favorecer o réu.

Em outras palavras, ninguém pode ser condenado senão mediante provas materiais consistentes; não pode ser por indícios e ilações. Se persistir a dúvida, o réu é beneficiado para evitar condenações injustas. A Justiça como instituição, desde tempos imemoriais, foi estatuída extamente para evitar que o justiciamento fosse feito pelas próprias mãos e inocentes fossem injustamente condenados mas sempre no respeito a estes dois princípios fundantes.

Parece não ter prevalecido, em alguns Ministros de nossa Corte Suprema esta norma básica do Direito Universal. Não sou eu quem o diz mas notáveis juristas de várias procedências. Valho-me de dois de notório saber e pela alta respectabilidade que granjearam entre seus pares. Deixo de citar as críticas do notável jurista Tarso Genro por ser do PT e Governador do Rio Grande do Sul.

O primeiro é Ives Gandra Martins, 88 anos, jurista, autor de dezenas de livros, Professor da Mackenzie, do Estado Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra. Politicamente se situa no pólo oposto ao PT sem sacrificar em nada seu espírito de isenção. No da 22 de setembro de 2012 na FSP numa entrevista à Mônica Bérgamo disse claramente com referência à condenação de José Direceu por formação de quadrilha: todo o processo lido por mim não contem nenhuma prova. A condenação se fez por indícios e deduções com a utilização de uma categoria jurídica questionável, utilizada no tempo do nazismo, a “teoria do domínio do fato.” José Dirceu, pela função que exercia “deveria saber”.

Dispensando as provas materiais e negando o princípio da presunção de inocência e do “in dubio pro reo”, foi enquadrado na tal teoria. Claus Roxin, jurista alemão que se aprofundou nesta teoria, em entrevista à FSP de 11/11/2012 alertou para o erro de o STF te-la aplicado sem amparo em provas. De forma displicente, a Ministra Rosa Weber disse em seu voto:” Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”. Qual literatura jurídica? A dos nazistas ou do notável jurista do nazismo Carl Schmitt? Pode uma juiza do Supremo Tribunal Federal se permitir tal leviandade ético-jurídica?

Gandra é contundente: “Se eu tiver a prova material do crime, não preciso da teoria do domínio do fato para condenar”. Essa prova foi desprezada. Os juízes ficaram nos indícios e nas deduções. Adverte para a “monumental insegurança jurídica” que pode a partir de agora vigorar. Se algum subalterno de um diretor cometer um crime qualquer e acusar o diretor, a este se aplica a “teoria do domínio do fato” porque “deveria saber”. Basta esta acusação para condená-lo.

Outro notável é o jurista Antônio Bandeira de Mello, 77, professor da PUC-SP na mesma FSP do dia 22/11/2013. Assevera:”Esse julgamento foi viciado do começo ao fim. As condenações foram políticas. Foram feitas porque a mídia determinou. Na verdade, o Supremo funcionou como a longa manus da mídia. Foi um ponto fora da curva”.

Escandalosa e autocrática, sem consultar seus pares, foi a determinação do Ministro Joaquim Barbosa. Em princípio, os condenados deveriam cumprir a pena o mais próximo possível das residências deles. “Se eu fosse do PT” – diz Bandeira de Mello – “ou da família pediria que o presidente do Supremo fosse processado. Ele parece mais partidário do que um homem isento”.

Escolheu o dia 15 de novembro, feriado nacional, para transportar para Brasília, de forma aparatosa num avião militar, os presos, acorrentados e proibidos de se comunicar. José Genuino, doente e desaconselhado de voar, podia correr risco de vida.

Colocou a todos em prisão fechada mesmo aqueles que estariam em prisão semi-aberta. Ilegalmente prendeu-os antes de concluir o processo com a análise dos “embargos infringentes”.

O animus condemnandi (a vontade de condenar) e de atingir letalmente o PT é inegável nas atitudes açodadas e irritadiças do Ministro Barbosa. E nós tivemos ainda que defendê-lo contra tantos preconceitos que de muitas partes ouvimos pelo fato de sua ascendência afrobrasileira. Contra isso afirmo sempre: “somos todos africanos” porque foi lá que irrompemos como espécie humana. Mas não endossamos as arbitrariedades deste Ministro culto mas raivoso. Com o Ministro Barbosa a Justiça ficou sem as vendas porque não foi imparcial, aboliu a balança porque ele não foi equilibrado. Só usou a espada para punir mesmo contra os princípios do direito. Não honra seu cargo e apequena a mais alta instância jurídica da Nação.

Ele, como diz São Paulo aos Romanos: “aprisionou a verdade na injustiça”(1,18). A frase completa do Apóstolo, considero-a dura demais para ser aplicada ao Ministro.

ECONOMIA - Nobel de economia alerta para bolha em ações nos EUA e imóveis no Brasil.

Nobel de Economia alerta para bolha em ações nos EUA e imóveis no Brasil

Por Madeline Chambers

Um dos norte-americanos que venceram o Prêmio Nobel de Economia de 2013 acredita que as fortes altas nos preços do mercado de ações dos Estados Unidos e do setor imobiliário em algumas cidades do Brasil podem provocar uma perigosa bolha financeira
.

Robert Shiller venceu o prêmio com outros dois norte-americanos por pesquisas sobre preços do mercado acionário e bolhas de ativos.

“Ainda não estou soando o alarme. Mas, em muitos países, as bolsas de valores estão em um nível alto e preços subiram com força em alguns mercados imobiliários”, disse Shiller à revista alemã “Der Spiegel” na edição deste domingo (1º). “Isso pode acabar mal”, acrescentou.

“Estou preocupado principalmente com o ‘boom’ do mercado acionário dos EUA, também porque nossa economia ainda está fraca e vulnerável”, disse, acrescentando que os setores financeiro e tecnologia podem estar sendo superestimados.

Ele também apontou os valores “drasticamente” altos de propriedades no Rio de Janeiro e em São Paulo, no Brasil, nos últimos cinco anos.

“Lá, me senti um pouco como nos EUA em 2004″, disse, acrescentando que tem ouvido argumentos sobre oportunidades de investimentos e o crescimento da classe média que já havia escutado nos EUA perto do ano 2000.

O colapso do mercado imobiliário dos EUA ajudou a motivar a crise financeira global de 2008 e 2009.

“Bolhas são assim. E o mundo ainda está muito vulnerável a uma”, disse.

As bolhas são criadas quando investidores não reconhecem que os crescentes preços de ativos se distanciaram de fundamentos econômicos.

Fonte: Portal UOL

O DELEGADO QUE LÊ HANNAH ARENDT, SLAVOJ ZIZEK......


O delegado que lê Hannah Arendt, Slavoj Zizek e é doutorando em Ciência Política

Orlando Zaccone D’Elia Filho, 49, é um delegado peculiar, e não apenas por ter “hare” tatuado em um antebraço e “krishna” no outro ou fotos de manifestantes mascarados em seu Facebook.
O que mais chama a atenção nesse carioca da Tijuca (zona norte do Rio), formado em jornalismo e em direito, são suas ideias pouco comuns no ambiente policial.
Responsável pelo inquérito inicial do caso Amarildo, foi Zaccone quem desmontou a versão de que o assistente de pedreiro seria traficante -ele desapareceu após ser levado por policiais militares para a base da Unidade de Polícia Pacificadora na Rocinha.
“No Brasil, o criminoso identificado como inimigo perde o estatuto da cidadania. Se o Amarildo fosse identificado como traficante, a forma como morreu passaria a não ter mais importância.”
Esse raciocínio é parte do que ele defende em sua tese de doutorado em ciência política, que será apresentada neste mês na UFF (Universidade Federal Fluminense).
delegado Orlando Zaccone
Delegado Orlando Zaccone critica a violência e defende uso de soluções políticas (reprodução)
Nela, argumenta que a alta letalidade da polícia carioca -cujo pico, em 2007, foi de 1.330 pessoas mortas- é legitimada pela sociedade e pelo sistema judicial.
“A polícia mata porque tem autorização do ambiente social. Tortura e execução, da forma como aconteceu com o Amarildo, já foram aplaudidas no cinema, no ‘Tropa de Elite’. Agora teve grito porque nego começou a sentir nas ruas a violência policial. Aí se sensibiliza com o outro.”
Zaccone conversou com a Folha na delegacia de Ricardo de Albuquerque, bairro na divisa com a Baixada Fluminense, a cerca de 40 km do centro do Rio, para onde foi transferido há três semanas, após oito meses como titular da DP da Gávea, na zona sul.

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A movimentação foi considerada, tanto internamente quanto nas redes sociais, uma punição por sua atuação no caso Amarildo; ele nega.
“Isso tudo foi especulação, eu até expliquei num post que não havia nenhuma vinculação com o caso Amarildo, até porque eu fui mantido na unidade até a investigação chegar ao fim pela Delegacia de Homicídios. Me considerei prestigiado.”
Onde Zaccone claramente tem prestígio é entre os manifestantes que tomaram as ruas, desde os da Marcha da Maconha até “black blocs”.
“As autoridades ficaram velhacas, cara. Pessoas até mais jovens do que eu, que ascenderam ao poder político, operam como seus avós. A garotada olha para as autoridades e não tem em quem se inspirar, até porque não é ouvida, está descartada do processo político.”
Em sua visão, essa falta de espaço para os jovens foi o que gerou os protestos, que qualifica como “revolta”. Ele critica a maneira como a polícia foi usada e a transformação de “revoltosos em criminosos organizados”, inclusive com o apoio da mídia.
“Quando a polícia vira o primeiro argumento, parceiro, fica difícil. Ela é necessária onde você não pode mais contar com a política. O que faltou foi habilidade política para resolver muitas das questões colocadas.”
Zaccone identifica-se com os jovens também por ter sido manifestante. Ao entrar na PUC Rio em 1982, aos 18 anos, participou de um grupo “que não era ligado a partido, tinha propostas meio anarquistas”.
“A gente pegou o final da ditadura, me lembro de organizar, pelo centro acadêmico, a ida dos alunos à passeata das Diretas Já na Candelária.”
Depois de passagens pelo jornalismo (foi repórter do jornal “O Globo”) e por um templo hare krishna (“Raspei a cabeça, botei saia, fui vender incenso na rua”, diz), fez faculdade de direito e entrou na Polícia Civil em 1999.
Sua formação variada lhe deu um discurso bem articulado, que Zaccone entrega num tom de voz calibrado, citando acadêmicos como Hannah Arendt e Slavoj Zizek.
Deu-lhe também segurança para tocar em assuntos polêmicos com frases que sabe que causarão impacto.
“Cumprir a lei muitas vezes é o que pode ter de pior para a segurança pública, dependendo da lei. No caso das drogas, é uma tragédia”, diz o delegado, membro da ONG internacional Leap(Law Enforcement Against Prohibition), que defende a descriminalização total das drogas.
Em sua opinião, o proibicionismo ajudou a criar a figura do “inimigo matável”: traficantes podem ser executados, com aprovação social e jurídica.
“Traficante tem direito e precisa ter defesa. Agora, quem é que vai ter coragem de falar isso? Imagina, o papa Francisco chegou aqui e falou que os traficantes são mercadores da morte. Por que ele não fala isso em relação ao presidente da Ambev?”
Sua preocupação maior é com o transbordamento do que chama de “Estado policial”, onde quem questiona o “estatuto político-jurídico” passa a ser enquadrado como inimigo –a repressão às manifestações seriam um reflexo disso.
“Temos de começar a pensar numa intervenção mais política no ambiente social, acabar com esse fetiche militarizado de segurança pública para resolver problemas que têm de ser resolvidos na esfera política.”
Marco Antônio Martins, Folhapress
Fonte: Blog Pragmatismo Político.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

MAIS MÉDICOS - " Sabemos que o dinheiro que vai para o governo cubano vai financiar a saúde e a educação que vão beneficiar nossos filhos"



Médica cubana: "SABEMOS que o dinheiro que vai para o governo cubano vai FINANCIAR A SAÚDE E A EDUCAÇÃO QUE VÃO BENEFICIAR NOSSOS FILHOS.”



‘Hay’ que curar sem perder a ternura
Hotel no Centro se transforma num prolongamento de Cuba, com 76 médicos que vieram trabalhar por aqui
A médica cubana Odalis Mendes está com o coração dividido. Por um lado, sente-se ansiosa e animada em conhecer uma realidade diferente da sua e por poder exercer os seus conhecimentos médicos com a população carente de São Paulo. Por outro, morre de saudades do filho de apenas 2 anos que deixou em Cuba, aos cuidados do marido, um técnico em raio-X.
Odalis faz parte do contingente de 76 profissionais cubanos que vão atuar na cidade por meio do programa federal Mais Médicos. Ao contrário dos colegas venezuelanos, argentinos, portugueses, bolivianos, uruguaios e espanhóis que participam do programa, os cubanos vão ficar com apenas cerca de R$ 1.260 dos R$ 10 mil pagos mensalmente pelo governo federal a cada um dos profissionais. O restante ficará com o governo de seu país.
“Mas temos humanidade e internacionalismo em nossos corações e nos dispomos a ajudar quem precisa dos nossos conhecimentos”, afirmou Odalis. “Além disso, sabemos que o dinheiro que vai para o governo cubano vai financiar a saúde e a educação que vão beneficiar nossos filhos.”
E mesmo os R$ 1.260 representam muito para os profissionais cubanos, já que com esse salário vão praticamente dobrar o rendimento que recebem em Cuba. “Com o que vou receber aqui no Brasil vou poder melhorar a condição de toda a minha família, filho, marido, pais e avós que moram comigo”, disse a médica.
O grupo de cubanos que vai atuar em São Paulo está todo hospedado no Hotel Excelsior, na Avenida Ipiranga, no Centro, em apartamentos duplos que custam R$ 280 cada um. Ficam lá enquanto estão sendo treinados. Daqui a aproximadamente dez dias cada um vai para a região a qual foi designado. 
“Enquanto isso, nas horas vagas, estamos conhecendo a cidade”, disse Odalis, orgulhosa com as fotos que tem tirado no tablet oferecido aos médico — um luxo pouco acessível em Cuba. O grupo já esteve no Teatro Municipal e na Avenida Paulista e tem sido orientado a tomar cuidado com a violência da cidade.
Alegres e falantes, eles não passam despercebidos na região em que estão morando. Afinal, nunca se viu tanto cubano junto em São Paulo. Para se ter uma ideia, a cidade inteira tinha 304 imigrantes daquele país segundo o último Censo do IBGE. Agora, só naquele pedaço são 76.
Entrevista: Aldo Fornazieri, cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política
O pouco que os médicos vão embolsar é muito em Cuba
Diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ele acredita que o fator econômico é preponderante na decisão de um cubano deixar o seu país e a família para vir atuar no Brasil.
DIÁRIO: Na sua opinião, o que move um cubano a deixar seus familiares e o país para atuar por três anos aqui no Brasil?
ALDO FORNAZIERI: São vários os fatores. O desejo de conhecer outras realidades, o sentimento de querer ajudar quem necessita com o seu conhecimento médico e a questão econômica. 
Eles estão mais interessados no que vão receber diretamente ou no que vão gerar de recursos ao país deles?
Nas duas coisas. Vão ganhar muito mais do que ganhariam em Cuba, isso é fato. Mas eles também têm a consciência de que vão ajudar o próprio país com o trabalho deles, já que a maior parte fica com o governo cubano. Sabem que isso vai ajudar a manter o país com serviços como educação e saúde gratuitos para a população e seus filhos se beneficiarão disso. Os cubanos têm desde muito cedo essa noção e o patriotismo. E já fazem há muito tempo esses intercâmbios.
Ao todo, 94 estrangeiros já se apresentaram em São Paulo
No início de novembro, mais 81 profissionais intercambistas , sendo 76 cubanos, um brasileiro, dois venezuelanos, um uruguaio e um espanhol, do programa federal Mais Médicos se apresentaram nas 58 Unidades Básicas de Saúde da capital. Eles vão atuar em UBSs com Estratégia Saúde da Família. Desse total, 16 serão enviados para a Coordenadoria Regional de Saúde Sudeste, 16 para a Norte, 35 para a Sul e 14 para a Leste. As unidades contempladas estão dentro do critério do programa, que é estar situada nos setores avaliados pelo IBGE como de maior vulnerabilidade social. A maioria das unidades de saúde vai receber um profissional. A UBS Reunidas, na região Sudeste, e a UBS Chácara do Conde, na Sul, vão receber três médicos cada. Na primeira fase do programa na capital se apresentaram 16 médicos, sendo três brasileiros, que já estão clinicando, e 13 intercambistas.
MAIS
R$ 10 mil é a bolsa do programa 
R$ 8.740 é a parte retida pelo governo cubano 
R$ 1.260 é a parte recebida pelo médico

POLÍTICA - A quem FHC pensa que engana?

Diário do Centro do Mundo


A quem FHC pensa que engana com sua conversa de virgem em lupanar?

by Paulo Nogueira
FHC e Roberto Marinho na inauguração do parque gráfico da Globo, em 1999, financiado com dinheiro público

A quem FHC pensa que engana com sua conversa de virgem num lupanar? Apoiar a brutalidade de Joaquim Barbosa  --primeiro verbalmente, agora num artigo -- foi uma das coisas mais baixas que FHC fez em sua vida política.
Octogenário, vivido, inteligente, FHC não tem o direito de achar que alguém possa acreditar, como ele disse, que a Constituição foi defendida com as prisões.
Ora, FHC comprou a Constituição em 1997 para poder se reeleger. Como contou à Folha na época um certo “Senhor X” – que até os mortos do cemitério de Brasília sabiam tratar-se do deputado Narciso Mendes, do Acre – sacolas com 200 mil reais (530 mil, em dinheiro de hoje) foram distribuídas a parlamentares para que a Constituição fosse alterada.
Os detalhes oscilam entre a comédia e a tragédia, como contou Mendes. Os parlamentarem tinham recebido um cheque, como garantia. Comprovado o voto, os cheques foram rasgados e trocados por sacolas cheias de dinheiro, como numa cena de Breaking Bad, a grande série em que um professor de química com os dias contados vira um traficante de metanfetamina para garantir o futuro da família.
E sendo isso de conhecimento amplo, geral e irrestrito FHC defende, aspas, a Constituição que ele comprou há 16 anos?
FHC, no fim de sua jornada, lamentavelmente vai se tornando parecido com o sinistro Carlos Lacerda, o homem – ou o Corvo, como era conhecido --  que esteve por trás da morte de Getúlio e da deposição de Jango.
FHC, em nome sabe-se lá do que, se presta hoje a fazer o jogo de uma direita predadora que, à míngua histórica de votos, faz uso indecente de “campanhas contra a corrupção” para derrubar administrações populares.
É, numa palavra, o antipovo.
Sêneca, numa de suas passagens mais inspiradas, disse o seguinte: “Quando lembro de certas coisas que disse, tenho inveja dos mudos”.
É uma passagem que se aplica perfeitamente a FHC.

POLÍTÏCA - Haddad mal avaliado.


Só Haddad não se recupera dos protestos de junho


 Só Haddad não se recupera dos protestos de junho
Governantes de todos os níveis no país inteiro sofreram tombos variáveis em seus índices de popularidade após os protestos de junho. Aos poucos, eles foram se recuperando nos últimos meses, com raríssimas exceções, a exemplo de São Paulo, justamente a cidade que foi o estopim das manifestações.
Em seu primeiro ano de mandato, o prefeito Fernando Haddad, do PT, não se levantou mais. Caiu dos 34% de ótimo e bom no começo de junho, para 18%, e lá ficou encalhado, como mostra a mais recente pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira.
É um índice desastroso, próximo aos que tiveram os ex-prefeitos Celso Pitta e Gilberto Kassab, de má memória, ao final do primeiro ano de seus mandatos.
Para 39% dos eleitores, a administração de Haddad é ruim ou péssima. No sentido inverso, o governador tucano Geraldo Alckmin, que havia caído de 52% para 38 , em junho, subiu três pontos na nova pesquisa, chegando a 41%, enquanto seus índices de ruim e péssimo caiam de 20% para 17%.
No mesmo período, a aprovação da presidente petista Dilma Rousseff subiu  11 pontos, de 30% para 41% (clique aqui para ler). Tanto Alckmin como Dilma também viram crescer seus índices de intenção de votos e seriam reeleitos já no primeiro turno.
Pressionado pela presidente Dilma e por Lula, Haddad foi obrigado a recuar do aumento das tarifas de ônibus de R$3,00 para R$ 3,20, mas já era tarde demais. Os movimentos de protesto, que depois se transformaram em puro vandalismo, se espalharam por todo o país, enquanto o prefeito e o governador Alckmin participavam de um evento em Paris, onde cantaram juntos o samba "Trem das Onze", de Adoniram Barbosa.
A divulgação do vídeo da cantoria, no entanto, só fez piorar a situação do prefeito, que mantem melhores relações com o governador tucano do que com o PT de São Paulo.
Enfrentando um cerrado fogo amigo e derrotado na batalha da comunicação, quando exagerou na dose do aumento do IPTU, sem explicar direito quem pagaria mais e quem teria o imposto reduzido ou isento, a principal marca de Haddad neste primeiro ano de governo acabou sendo a criação de faixas exclusivas para ônibus. O combate à corrupção dos fiscais do ISS, que também teve apoio da opinião pública, acabou derrubando seu secretário de Governo, Antônio Donato.
Bem aceita no começo, por reduzir o tempo de viagem dos que dependem de transporte coletivo, as faixas exclusivas foram sendo espalhadas aleatoriamente por toda parte, sem estudos prévios, o que apenas fez piorar o já caótico trânsito pré-natalino, que foi parando, à medida em que se intensificam as chuvas.
Os sábios da prefeitura que assessoram Haddad se esqueceram que hoje não apenas os ricos e a classe média alta entopem as ruas com seus carrões, mas também a emergente classe média baixa, que comprou seu primeiro carrinho nos últimos tempos e, agora, simplesmente não consegue circular pela cidade.
Tudo junto, estas ações só fizeram aumentar o mau humor do paulistano com o prefeito, que era a grande esperança do PT para alavancar as candidaturas de Alexandre Padilha, para o governo do Estado, e de Dilma Rousseff, para a reeleição em São Paulo. Deu-se, até agora, exatamente o contrário.
Muitos petistas já se perguntam se não teria sido melhor perder as eleições municipais para José Serra no ano passado. Todo o ônus de uma cidade falida e inviável como São Paulo ficaria para o PSDB, e o PT poderia fazer uma forte campanha de oposição, tanto no plano municipal, como no estadual, onde os tucanos reinam absolutos há duas décadas.
Agora, com Alckmin se recuperando (subiu de 40% para 43% a sua intenção de votos de uma pesquisa para outra) e os outros candidatos bem longe dele (Paulo Skaf, do PMDB, tem 19%; Gilberto Kassab, do PSD, conta com 8% e, na lanterna, vem Padilha, com 4%), ficou bem maior o desafio dos petistas para, pela primeira vez em sua história, conquistar o Palácio dos Bandeirantes.
A grande esperança estava justamente em fazer uma bela administração na capital para melhorar a imagem antipática que o partido tem na classe média tradicional, já que o interior paulista é historicamente conservador e costuma garantir a vitória dos tucanos no Estado.
Como faltam apenas 10 meses para as eleições gerais do ano que vem, Fernando Haddad e o PT têm pouco tempo para mudar o quadro amplamente desfavorável do momento. Para isso, teriam que melhorar urgentemente a articulação política e a comunicação da prefeitura porque a gente sabe que colocar a culpa nos adversários não costuma resolver os nossos problemas.
Grande Marcelo Déda
Déda foi grande em tudo: na bondade e no tamanho, grande amigo, grande político, um dos maiores líderes da nova geração do PT.
Além de tudo, tinha muito bom humor, o que ajuda a tocar o barco mesmo nas horas de tempo ruim.
A última vez que o vi foi semanas atrás, no Hospital Sírio-Libanês, quando ele já estava bem fraco, e ainda sorria.
Mas a imagem que vou guardar dele é a da gente comendo caranguejos até de madrugada, na praia do Atalaia, em Sergipe.
Foi-se embora cedo demais.
Este vai deixar saudades.

POLÍTICA - José Genoíno.





JOSÉ GENOINO VIVE “GENI”


José Genoino, preso e torturado após a guerrilha do Araguaia

“É este ser humano que, para gáudio de seus torturadores, sofre o mais escandaloso linchamento moral a que um homem público brasileiro jamais foi submetido.

Por Roberto Amaral, na “Carta Capital”


De sua vida conheço pouco. O suficiente, porém, para respeitá-lo e nutrir profundo desprezo pelos que tentam depredar sua história e sua honra.

Filho de camponês no interior do interior do Ceará, em pleno semiárido nordestino, conheceu na carne, cedo, as forças telúricas que o sertanejo pobre precisa arregimentar para sobreviver. Menino ainda, trabalharia com o pai como “cassaco” nas frentes de trabalho do DNOCS, carregando pedra e abrindo à força da enxada estradas de terra, pretexto para dar sobrevida aos flagelados da seca de 1958.

O salário era pago em alimentos e querosene para o lampião.

Pelas mãos de um pároco entusiasmado pela “Teoria da Libertação” (por onde andará o Padre Salmito?), do qual fora coroinha, deixa a roça para lutar na cidade grande por melhores oportunidades de sobrevivência digna. Refaz a trajetória atávica de tantos antepassados.

Em Fortaleza, trabalha e estuda à noite em colégios públicos, ingressa na Faculdade de Direito (quando seria aluno de Paulo Bonavides) e é conquistado pelo movimento estudantil, pelo qual se destaca para conhecer a primeira prisão de sua vida severina (severíssima, saberia anos depois): na primeira incursão em defesa da democracia, em uma passeata contra o golpe de 1964 – golpe, relembre-se, maquinado nos quartéis e nos altos círculos do empresariado com papel destacado dos grandes capitães da grande imprensa brasileira, daquele então e de hoje.

Golpe que, não sabia, naquela altura, o perseguiria até hoje. Quatro anos passados, ainda universitário, é preso no Congresso da UNE em Ibiúna (1968), no interior de São Paulo. Solto, tem a prisão preventiva decretada; sem alternativa, ingressa na clandestinidade e vai travar, como lhe permitem as circunstâncias, sua luta na resistência à ditadura.

Não sei o que, naquela altura, faziam seus algozes de hoje.

Da luta de massa, ele transita para a resistência armada. Em junho de 1970, filiado ao PCdoB, ingressa na guerrilha do Araguaia. Conhece o inferno e descobrirá que sua vida severina era uma quase-morte. Preso em 1972 pelo Exército Brasileiro, vê-se, clandestino, incógnito, à mercê da humilhação, da ofensa, da degradação física e moral, a ignomínia da tortura, a mais insidiosa, implacável, fria, bestial e científica, na qual o pau-de-arara, a “cadeira do dragão” (choques elétricos), o sufocamento, os “telefones” (pancadas nos ouvidos) e os pontapés eram o vestibular do inimaginável em termos de perversão e perversidade.

Foi torturado ainda no Araguaia (e como o foi!), em Brasília e em São Paulo. Preso clandestino, incógnito, verdadeiro sequestrado, sem conhecimento da autoridade judiciária, inteiramente à disposição de seus algozes, sem o amparo sequer da lei de proteção aos animais, invocada nos idos do Estado Novo pelo apóstolo Sobral Pinto na defesa de Prestes. Só não padeceu onde não esteve.

Conheci-o no final dos anos 80 (só em 1977 ele recobraria a liberdade), chefiando eu a assessoria da bancada do PSB na Constituinte liderada pelo inesquecível e saudoso Jamil Haddad, ele um dos mais destacados deputados do PT.

Ex-guerrilheiro, líder radical do Partido Revolucionário Comunista (então uma fração dentro do PT), revela-se conciliador e articulador habilidoso, um dos costuradores de muitas das conquistas que a esquerda brasileira logrou trazer para a “Constituição cidadã”. Torturado por militares, poucos como ele, porém, tanto lutariam pela aproximação entre civis e militares.

Eu o reveria, corajoso, dedicado, na jornada do ‘impeachment’ contra o ex-presidente Collor, e continuaria acompanhando sua vida parlamentar, voltada à liberdade, à democracia e à defesa da soberania nacional. Distanciava-se do marxismo-leninismo, mas permanecia obcecado pela justiça social, caminhando do esquerdismo para concepções socialdemocratas avançadas. Para o bem das esquerdas em geral, cultivava a crítica de nossas organizações.

No primeiro governo Lula, é eleito presidente do PT, em substituição a José Dirceu e, por artes e maquinações que desconheço, termina envolvido no chamado escândalo do “mensalão”. Sempre alegando inocência, foi acusado, julgado, condenado e apresentou-se à execução da pena.

É esse ser humano (sim, ser humano!) que, para gáudio de seus torturadores impunes, sofre o mais escandaloso, brutal, injusto linchamento moral a que um homem público brasileiro jamais foi submetido.

Não discuto sua culpa nem o mérito da pena após tão longo e tumultuado julgamento, e sei que sua biografia não absolve os erros do presente. Digo que o linchamento não é pena capitulada em nosso Código Penal. Mais do que o justo clamor da opinião pública ferida em seus brios, cansada de tanta impunidade selecionada, e sedenta de punição, vejo, na sua execração, uma difusa “vendetta”. Mais que os erros que lhe são imputados (dessa, a ainda não suficientemente [provada e] esclarecida aventura do “mensalão”), pesa sobre sua imagem de hoje a sombra do guerrilheiro do passado. É a esse que se pune. A biografia agrava a pena.

Os que não puderam matá-lo (como fizeram com Rubens Paiva, Stuart Angel, Mário Alves, Manoel Alves Filho, Pedro Pomar, Bérgson Gurjão, Joaquim Câmara, Marighela, Herzog e tantos e tantos herois), os que foram derrotados com a redemocratização, os que perderam todas as eleições, querem a revanche e avançam covardemente sobre o carcará sem asas, já sem garras, já sem fôlego.

No momento em que escrevo, a presa é um homem abatido, um cardiopata com uma aorta artificial, lutando contra crises de pressão arterial. É o cadáver atrasado que, impacientes, reclamam. É nesse homem que batem, um prisioneiro da Justiça, cumprindo pena como devem cumprir todos os condenados. Quem ganha com isso? Que benefícios aufere nossa sociedade com a prática de tratar o oponente político como inimigo, e inimigo a ser abatido, destruído, dilacerado?

Estranhos tempos. Estranha história.

Maluf caminha lampeiro pelos gabinetes da Corte e o torturador Brilhante Ustra saboreia a aposentadoria que a impunidade lhe facultou. Mas José Genoino Neto, um homem pobre após quase sete mandatos de deputado federal, cumpre pena “por corrupção”...

Estranhos tempos. Estranha história.

Nesta hora sombria, estendo a mão ao homem José Genoino Neto e nego-a aos que lhe jogam pedras, como na Geni de Chico Buarque. Desprezo os linchadores, como desprezo os que se omitem diante de sua dor.

‘Nenhuma boa ideia merece um cadáver’ (Héctor Erazo, escritor colombiano)”

FONTE: escrito por Roberto Amaral, na revista “Carta Capital”. O autor é cientista político e ex-ministro da Ciência e Tecnologia entre 2003 e 2004. Título original: "Geni". Artigo transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=230165&id_secao=1).

PETROBRAS - Como foi desmontada a Petrobras.

Como foi desmontada a Petrobrás



por Wladmir Coelho
   
Em 1995, a emenda constitucional número nove retirou da Petrobrás a condição de operadora do monopólio estatal do petróleo. A manobra apresentou como fundamento o discurso ideológico neoliberal, incorporado, naquele momento, nos atos e ações do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC).


A tática utilizada foi alterar o texto do parágrafo primeiro do artigo 177 da Constituição, cujo teor determinava: “o monopólio previsto neste artigo inclui os riscos e resultados decorrentes das atividades nele mencionadas, sendo vedado à União ceder ou conceder qualquer tipo de participação, em espécie ou em valor, na exploração de jazidas de petróleo ou gás natural, ressalvado o disposto no art. 20, § 1º”.
Observe: a redação original, votada e aprovada em 1988 por uma Assembleia Constituinte, garantia ao povo brasileiro a propriedade não somente do bem natural petróleo, mas somava a este o bem econômico. A emenda número nove retirou do povo, na prática, a propriedade do bem econômico, determinando que “a União poderá contratar com empresas estatais ou privadas a realização das atividades previstas nos incisos I a IV deste artigo, observadas as condições estabelecidas em lei”.
Esta alteração no texto constitucional – conforme é possível observar – determinou a criação de uma nova lei para o petróleo, aprovada em 1997, recebendo o número 9478. O novo texto legal tornou sem efeito a lei 2004, de 1953, cujo teor garantia à Petrobras o monopólio da exploração petrolífera.
Verifica-se no texto da lei 9478, quanto à propriedade do bem econômico petróleo, a seguinte redação: “Art. 26. A concessão implica, para o concessionário, a obrigação de explorar, por sua conta e risco e, em caso de êxito, produzir petróleo ou gás natural em determinado bloco, conferindo-lhe a propriedade desses bens, após extraídos, com os encargos relativos ao pagamento dos tributos incidentes e das participações legais ou contratuais correspondentes”.
Observe-se a inexistência de qualquer limitação à propriedade do petróleo, após sua extração, bastando a empresa concessionária pagar as compensações, dentre elas os famosos royalties.
O caráter neoliberal da lei 9478 impediu até mesmo a criação de um planejamento econômico voltado para a autossuficiência. Em seu texto fica determinada a necessidade de autorização para exportação de petróleo condicionada ao previsto na lei 8137, de 1990, assinada pelo presidente Fernando Collor, ficando como único limite à exportação pelo "proprietário" do petróleo a necessidade de manutenção de uma reserva estratégica.
Esta reserva seria o mínimo necessário – caso seguisse o modelo dos Estados Unidos – para a manutenção do abastecimento de combustíveis por aproximadamente 60 dias. Não verificamos na legislação brasileira qualquer menção à forma ou método para atingir a autossuficiência.
Desta forma, os "proprietários" do petróleo ficam livres para exportar a quantidade que entenderem as respectivas políticas econômicas de suas empresas, cujo centro de decisões, via de regra, encontra-se no hemisfério norte. Não temos no Brasil, mais uma vez, uma política econômica para o petróleo, voltada a satisfazer um plano de desenvolvimento.
Como agravante, verifica-se a inexistência até mesmo da chamada reserva estratégica, aspecto que não passou em branco nas ressalvas do Tribunal de Contas da União, em 2012, quanto às contas do governo federal, recomendando ao Conselho Nacional de Política Energética: “Assegure o adequado funcionamento do Sistema Nacional de Estoques Estratégicos de Combustíveis e o cumprimento do Plano Anual de Estoques Estratégicos de Combustíveis, e tome providências no sentido de que o Poder Executivo encaminhe, anualmente, o Plano Anual de Estoques Estratégicos de Combustíveis, como parte integrante do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias, conforme previsão insculpida no art. 4º, § 1º, da Lei 8.176/1991”.
Assim observado, seria exagero afirmar que o governo Dilma Rousseff é negligente quanto à segurança energética nacional?
A entrega do patrimônio nacional foi festejada como a entrada do Brasil na modernidade. Traduzindo, seria a quebra de um monopólio em favor da “livre concorrência”, resultando para a economia nacional avanços, como a diminuição no preço dos combustíveis.
Ocultavam, os opositores do monopólio da Petrobrás, alguns fatos de grande importância, como a inexistência de concorrência no setor petrolífero, considerando-se a tradicional concentração do setor somada ao risco para a segurança energética, tendo em vista os objetivos voltados para a exportação das empresas estrangeiras.
Mentiam, os defensores da entrega do petróleo, apontando como prova da concorrência o surgimento de empresas nacionais de petróleo. Hoje não constitui segredo a vinculação destas aos clubes de investimentos internacionais, ficando a elaboração de suas políticas econômicas submetida aos interesses dos controladores, via de regra, associados aos oligopólios petrolíferos internacionais.
Neste ponto, das chamadas empresas privadas nacionais de petróleo, o caso de maior destaque coube ao grupo OGX. Atualmente apontado como causa de prejuízos mundo afora, todavia esquecem o quanto rendeu aos clubes de investimentos internacionais.
O seu supremo dirigente, elevado ao posto de Midas brasileiro, dava a impressão de possuir as chaves dos cofres do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e deste retirava as quantias necessárias para inflar o valor de suas ações, prazerosamente negociadas nas bolsas de valores internacionais. O dinheiro do povo garantia a farra do capital especulativo.
Somente para lembrar: um fato semelhante ocorreu na Rússia quando um "jovem talentoso" chamado Mikhail Khodorkovski iniciou uma aventura, rumo ao posto de maior fortuna do mundo, utilizando dos recursos públicos para assumir o controle da produção petrolífera em seu país. O tempo mostrou a fraude, resultando ao “gênio” empresarial a condenação e prisão. Este também figurou nas listas dos mais ricos.
Wladmir Coelho é mestre em Direito, historiador e membro do Conselho Curador da Fundação Brasileira de Direito Econômico.

POLÍTICA - O crime do PT.

O pior e imperdoável crime

O papel desempenhado pelo PT, com relativo êxito até o momento, tem sido o de incorporar à vida pública camadas economicamente desfavorecidas da população.


Fabiano Santos Arquivo

A principal emissora televisiva do país veio a público se desculpar junto a seu público por ter, 50 anos atrás, apoiado a conspiração civil militar que derrubou fora dos preceitos da legalidade o governo brasileiro legitimamente capacitado para exercer o poder no país. O gesto, até certo ponto, surpreendeu, mas não convenceu aos menos ingênuos que redundaria em guinada significativa nos valores e interesses defendidos pela empresa, de resto bastante similares aos apoiados pelas demais grandes corporações de mídia. Sobretudo, não convenceu de que algo mudaria no modo equivocado de se cobrir a política no Brasil e isto por um aspecto sempre presente no noticiário: a criminalização da atividade política, do Legislativo, dos partidos e entre estes, principalmente, o PT.

Por que a cobertura é essencialmente equivocada? Ora, os brasileiros que agora adentram a meia idade começaram sua vida adulta durante o período militar. Iniciam, portanto, sua socialização política em meio a uma ditadura, regime que resultou de um golpe civil e militar desferido em 1964 contra o governo de João Goulart e as instituições representativas criadas em 1946.

A crise que antecedeu o evento se explica em boa medida pelo processo de radicalização política a envolver os principais atores da cena brasileira à época. À esquerda, facções no interior de alguns partidos de orientação socialista e trabalhista, sindicatos, estudantes e segmentos minoritários das Forças Armadas confrontavam, à direita, facções no interior de partidos conservadores, empresários, o grosso das Forças Armadas, classes médias e principais órgãos de imprensa.

Embora afastados quanto a valores, interesses e visões de mundo, algo unia tais contendores: o desprezo pelas instituições da democracia representativa e seu mecanismo principal, o voto popular. À esquerda e à direita, uma visão negativa, profundamente negativa, prevalecia sobre o modo pelo qual operava o sistema político, sobretudo, o Congresso Nacional e os partidos. Instituições, para uns, controladas por elites atrasadas e pontos de veto às reformas necessárias para tornar o país mais justo, para outros, corruptas, clientelistas, responsáveis pela irracionalidade no gasto e nas contas públicas. O golpe, como é sabido, veio e com ampla vantagem para as forças da direita política.

E, pois bem, qual foi o legado do período ditatorial? No início dos anos 80 do século passado, do ponto de vista político, direitos básicos ainda sofriam severas restrições, como os de livre associação, manifestação, discordância, além da permanência de várias limitações ao exercício do voto. No âmbito macro, Judiciário e Legislativo, estados e municípios, partidos e candidatos se viam praticamente indefesos perante um Executivo federal hipertrofiado e sempre disposto e intervir nas instituições de forma a impedir dinâmicas políticas eventualmente contrárias aos seus desígnios.

Do ponto de vista econômico, o quadro se compunha de inflação galopante, sempre acima de dois dígitos, extrema vulnerabilidade externa, crises cambiais recorrentes, além de recessão, redução do PIB e aumento do desemprego. Finalmente, do ponto de vista social, exclusão, analfabetismo, desigualdade e pobreza crescentes e um cenário de mobilidade estagnado. Com alguma variação em algum dos diversos indicadores, em um ano ou outro, além de algum ensaio de descompressão aqui e ali, a visão geral de quem acordava para a vida adulta, de fato, nada tinha de alentadora.

A democracia e o clamor pela restauração das liberdades civis e políticas, pela volta da competição partidária plena e aberta, pelas eleições diretas para todos os cargos de representação e de chefia dos Poderes Executivos em todos os níveis tornaram-se o grande desiderato da geração que hoje inicia sua maturidade. Não apenas a democracia, mas também os resultados esperados do exercício do voto em larga escala, do exercício da crítica, da tolerância, da livre manifestação do pensamento, da resolução pacífica e institucionalizada dos conflitos. A duras penas a transição foi alcançada e realizada.

Com muito esforço e engenho político se elegeu uma Assembleia Constituinte, se desenhou e promulgou uma nova Constituição. Vitórias e testes importantes foram experimentados pelas instituições recém-criadas, quando, por exemplo, logo após exercer o voto direto para a escolha de seu presidente e a nação se vê compelida a destituir, dentro do marco legal, seu primeiro mandatário escolhido 29 anos após a eleição de Jânio Quadros.

Algo em torno de 30 anos mais tarde, é possível promover balanço do que se alcançou a partir da transição para a democracia. Qual seria então o legado, também de uma perspectiva ampla, do livre funcionamento das instituições do governo representativo? Por definição, os obstáculos políticos existentes durante a ditadura foram removidos, pois do contrário não estaríamos a falar de legado democrático.

Do ponto de vista econômico, temos a retomada do crescimento (tendo sido raros os anos de recessão ou declínio), inflação de um dígito faz quase 20 anos, redução drástica da vulnerabilidade externa, aumento consistente do emprego e da renda, sobretudo das camadas mais pobres. Do ponto de vista social, embora ainda longe de se alcançar patamares razoáveis de qualidade, educação e saúde públicas massificadas, redução significativa nos indicadores de pobreza e desigualdade, além de um quadro de crescente mobilidade.

Vários foram os atores políticos e movimentos sociais que contribuíram para a transposição do regime ditatorial para a democracia. Um, em especial, deve ser mencionado na atual conjuntura política brasileira: o Partido dos Trabalhadores. O papel desempenhado pelo PT, com relativo êxito até o momento, tem sido o de incorporar à vida pública camadas social e economicamente desfavorecidas da população brasileira. Aos olhos da grande mídia brasileira e da elite por ela representada este certamente foi o pior e imperdoável crime cometido pelos que, como José Dirceu e José Genoino, presidiram e ajudaram a criar este poderoso e eficiente instrumento político e eleitoral de inclusão social.

domingo, 1 de dezembro de 2013

POLÍTICA - Dilma cresce, os outros caem



Dilma cresce, os outros caem, e FHC perde o bonde


Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

‘No mesmo sábado em que era divulgada a nova pesquisa Datafolha mostrando que a presidente Dilma Rousseff cresceu e aumentou sua vantagem sobre todos os adversários, que caíram, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ainda o principal líder da oposição, foi a Ribeirão Preto fazer uma palestra e, como de costume, malhou o governo, sem apresentar nenhuma alternativa para o país.

A vantagem de Dilma sobre o tucano Aécio Neves aumentou de 21 para 28 pontos ( 47 a 19); sobre Eduardo Campos, do PSB, cresceu de 27 para 36 pontos ( 47 a 11). Dilma tem 17 pontos a mais do que seus mais prováveis adversários somados, o que indica uma tranquila vitória no primeiro turno, confirmando as pesquisas anteriores (isso só não aconteceria se Marina Silva for a candidata socialista, o que é pouco provável).

Certamente sem saber destes números, FHC perdeu o bonde ao abrilhantar o aniversário de uma cooperativa de crédito, sempre olhando pelo retrovisor e tocando o mesmo disco já arranhado: "Pararam dez anos os investimentos em infraestrutura no Brasil por preconceito ideológico", disse ele, segundo relato de Isabela Palhares, da Folha, como se nos seus dois mandatos o país tivesse sido transformado num imenso canteiro de obras.

O ex-presidente criticou tudo: dos mecanismos de controle da inflação à taxa de juros, do afrouxamento da Lei de Responsabilidade Fiscal ao endividamento dos municípios e Estados, dando a entender que o país está vivendo uma profunda crise, à beira do precipício.

Ao final da palestra de 40 minutos, pregou que "o Brasil precisa de gente nova, gente moderna, que acredita no Brasil", sem citar os nomes dos dois pré-candidatos do seu partido, Aécio Neves e José Serra", e deu a receita: "O Brasil precisa se reinventar. Não só economicamente, mas socialmente. Acabar com a ilusão do marquetismo".

Será que este tipo de discurso acrescenta algum voto aos candidatos tucanos?

Conviria que FHC lesse atentamente as análises sobre os números da pesquisa publicadas neste domingo pela Folha, a começar pelo editorial "Retomada presidencial", em que o jornal afirma: "A taxa de desemprego é historicamente baixa e a renda continua a crescer; os protestos de junho criaram insegurança, que se dissipou com a percepção de que o país não entraria em crise aguda".

"Presidente termina 2013 em alta graças à oposição ineficiente" é o título do artigo de dois diretores do Datafolha. "Ambiente até esteve propício, mas ninguém conseguiu formular discurso adequado às demandas brasileiras."
O abismo entre o discurso sempre negativista de FHC, que passa muito tempo no exterior, e os números da pesquisa, que revelam maior otimismo sobre o poder de compra, embora a inflação ainda preocupe, mostram que, enquanto a oposição não se dispuser a dialogar com o país real, a presidente Dilma Rousseff continuará nadando de braçada, embora dois terços da população queiram mudanças no governo ( o marqueteiro presidencial João Santana gosta de ressaltar que são mudanças no governo e não degoverno).

Os números de Dilma nesta pesquisa só não são melhores do que os do ex-presidente Lula, que venceria em qualquer cenário no primeiro turno, com intenções de voto variando entre 52% e 56%. Ao mesmo tempo em que a oposição e a mídia aliada não conseguem definir um candidato para bancar, o PT tem dois favoritos. Este é o quadro, a dez meses da sucessão presidencial. O resto é o resto e não adianta espernear.

POLÍTICA - Entrevista com a filha do Genoíno.

 'Esperança eu não tenho, meu pai não vai durar na prisão', diz filha de Genoino


MARINA DIAS
DE SÃO PAULO
MÔNICA BERGAMO


Miruna Kayano Genoino se lembra com detalhes da tarde em que seu pai reuniu a família e comunicou: "Lula pediu para eu ser presidente do PT e vou fazer isso porque esse projeto precisa funcionar". O ano era 2002 e Luiz Inácio Lula da Silva tinha sido eleito presidente da República.
Filha do deputado federal licenciado José Genoino, a professora de 32 anos diz que o pai não tem arrependimentos. O petista foi condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha no mensalão e, segundo Miruna, acredita que, "se esse é o preço que tem que pagar para que o projeto do governo Lula e Dilma funcione, ele paga".
Genoino foi preso em 15 de novembro e levado ao Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, para cumprir pena em regime semiaberto. Após uma semana, teve uma crise de pressão alta, foi levado ao hospital e de lá seguiu para a casa da filha Mariana, onde espera o Supremo Tribunal Federal analisar seu pedido de prisão domiciliar.
"Meu pai não tem esperanças de que isso aconteça", disse Miruna à Folha. Leia a seguir trechos da entrevista.
Adriano Vizoni/Folhapress
Retrato de Miruna Genoino, filha de Jose Genoino, preso no processo do mensalão, durante a primeira entrevista exclusiva que ela concede
Miruna Genoino, filha de Jose Genoino, preso no processo do mensalão, durante a primeira entrevista exclusiva que ela concede
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Julgamento e prisão
O momento mais difícil para o meu pai foi quando ele foi condenado. Durante o julgamento ele tinha esperança de ser absolvido. [Os elogios de alguns ministros antes de condená-lo] só o deixavam mais irritado. Era como se fosse um afago para depois meter a faca. Isso, hipócrita.

A prisão não teve o elemento surpresa. Por um lado, quando chegou a notícia, conseguimos respirar. Estávamos vivendo uma situação insustentável com o cerco da imprensa, os repórteres e fotógrafos querendo tirar fotos de tudo. O que vivi como mãe não desejo a ninguém. Posso entender que queiram tirar foto dele se entregando, mas não entendo o desejo de tirar fotos de dois menores de idade indo visitar o avô [os filhos de Miruna têm 5 e 7 anos]. Quando chegou a notícia, foi quase "vamos começar com essa porcaria de uma vez".
Preso político
Meu pai está proibido de emitir opinião, de dar entrevistas, e dizem que ele não é preso político. Então por que ele não pode falar? É preso político, sim. Meu pai foi condenado porque era presidente do PT.

Lembro da vez em que ele se sentou na sala com a gente e falou: "Olha, o Lula pediu para eu ser presidente do PT e vou fazer isso porque esse projeto precisa funcionar".
Às vezes, eu penso que se a gente tivesse falado alguma coisa... Mas não, ele não tem arrependimentos. Nenhum. Ele fala que, se esse é o preço que tem que pagar para que o projeto do governo Lula e Dilma funcione, ele paga.
Saudade
Estou sentindo muita saudade dele, muita mesmo. Na semana passada foi a apresentação de dança da minha filha e só estava eu para assisti-la [chora]. E isso nunca mais vai voltar. Ele nunca mais vai ver essa apresentação.

É difícil porque tenho uma ligação muito forte com meu pai, e o que acontece com ele é como se estivesse acontecendo aqui [coloca a mão em cima do coração e chora ainda mais], como se ele estivesse dentro de mim. Aí a minha mãe vai tentando ajudar a gente. Ela fala: "Você não é ele". Quando tive meus problemas pessoais este ano, ela também falava para o meu pai: "Você não é ela, calma".
Doença
Em julho deste ano meu pai estava com minha mãe e meus filhos em Ubatuba [litoral de São Paulo] e passou mal [foi submetido à cirurgia para corrigir uma dissecção na aorta]. Eu estava viajando. Faço mestrado na Argentina, e passei a noite no avião sem saber se meu pai estava vivo ou morto.

O que mais dói é que foi tão difícil o que nos aconteceu naqueles dias, meu pai tinha só 10% de chance de sobreviver e, graças a Deus, ele venceu. Agora questionam se a gente está usando a doença dele como estratégia. Isso é muito duro porque, se eu pudesse escolher, mesmo com meu pai preso e a gente longe dele, se ele estivesse bem de saúde, eu escolheria isso.
'Querem nos destruir'
Só não larguei o mestrado por causa dele. Soube da aprovação dias depois da condenação [novembro de 2012]. Ele me disse: "Querem nos destruir e você não pode permitir. Você vai continuar lutando e fazendo as suas coisas porque não podem nos apagar".

Se você me perguntar quem é o sujeito do "querem", de cara vou falar que a mídia teve muito a ver com isso. Meu pai teve muitas decepções. Mas com a mídia ela foi devastadora, o coração dele começou a rasgar ali. Ele tem uma mágoa profunda, uma dor com tudo o que é publicado. Quando os jornalistas ficam lá fora de casa, essas manchetes, essa agressividade, esse recorte da realidade é um punhal para ele.
Vontade de morrer
Depois da cirurgia, meu pai se perguntou: "Por que a vida não me levou?" Ele não tinha medo de morrer, mas se questionou muito. Na época da ditadura, ele não tinha nada a perder, mas hoje ele tem os filhos, os netos e minha mãe.

Solidariedade
Lula, Dilma e o PT sempre tiveram solidariedade com o meu pai. E eu só estou falando isso aqui porque se tiver uma pessoa --e só uma-- que ache que ele esteja fingindo e, depois de ler essas minhas declarações, mude de ideia e se convença que ele está mesmo doente e precisa de cuidados, para mim já vai ser suficiente.

Laudo médico
Meu pai passou mal na Papuda e precisou ir para o hospital em Brasília. Ele teve uma alteração de pressão que durou dois dias. Nós tínhamos quatro laudos dizendo que a situação era grave. Quando chegou a junta médica do STF já era o final de dois dias no hospital. É claro que a pressão tinha baixado. Ali ele estava medicado e com a família.

Minha pergunta é: esses médicos foram na Papuda? Foram ver a alimentação do meu pai na prisão? Viram que na Papuda não tem plantão médico noturno? Foram ver? Não foram. E eles se sentiram autorizados a dizer que meu pai não precisa ficar em casa.
Companheiros de cela
Já falei que se eu tivesse mil vidas e durante todas elas eu ficasse dizendo "obrigada" não seria suficiente para agradecer ao José Dirceu e ao Delúbio [Soares] por tudo o que eles estão fazendo pelo meu pai. Porque se teve alguém que cuidou do meu pai foram o Zé Dirceu e o Delúbio.

Eles foram atrás de água mineral para o meu pai parar de beber água da torneira. Insistiram e a polícia levou. É por isso que meu pai deve querer ficar na Papuda caso o STF não dê a domiciliar. Eles não querem se separar.
Próximos dias
Esperança eu não tenho. O único dia em que minha mãe perdeu a cabeça foi quando ele passou mal e o médico disse que ele precisava ir ao hospital, mas o juiz não autorizou. Ela gritou, chorou, ficou nervosa, se descontrolou.


Quando as pessoas falam que ele vai ficar alguns meses no semiaberto e depois já pode pedir progressão da pena, penso que não sei como ele vai chegar. Em uma semana eu vi como ele piorou, como eu vou pensar em meses? Oito meses? Ele não vai durar isso na prisão. Não vai. 

ENERGIA - Sociólogo analisa embates entre países e empresas por energia.

 
Uma estatal chinesa (Cnooc) quis comprar uma petroleira californiana (Unocal), que possuía reservas no Sudeste Asiático, no golfo do México e no mar Cáspio. O negócio, de US$ 18,5 bilhões, era objetivo também da norte-americana Chevron, que buscava compensar a exaustão gradativa de suas reservas.
A disputa foi parar no Congresso norte-americano. Parlamentares afirmaram que o controle da China sobre uma parcela (relativamente pequena) dos suprimentos norte-americanos ameaçava a segurança nacional dos EUA.
Embargos articulados pela Chevron foram providenciados no Congresso, e a pressão política surtiu efeito. A China (com a melhor oferta) saiu da disputa. A Chevron ficou com a Unocal em 2005.
O episódio, que mostra a realidade do chamado "livre mercado", é lembrado por Igor Fuser em "Energia e Relações Internacionais".
Doutor pela USP, sociólogo e jornalista, o autor é professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC. Didático, seu livro percorre as disputas geopolíticas e econômicas em torno de fontes de energia a partir do final do século 19.
Seu estudo passa por guerras, choques de preço e de produção de petróleo e investimentos em alternativas. Fuser foca a política e descreve os embates entre países produtores e consumidores e empresas transnacionais.
Ele afirma que o petróleo e o gás natural são recursos estratégicos que "não podem ser encarados como simples mercadorias, regidas apenas pelas forças de mercado". Relata a ascensão de John Rockefeller, a hegemonia das "sete irmãs" petroleiras e o papel vital do petróleo a partir da Primeira Guerra Mundial.
NACIONALISMOS
Essencial na reconstrução europeia após a Segunda Guerra Mundial, o petróleo tinha um custo de produção de US$ 0,10 na Arábia Saudita em 1945. A Casa Real recebia de royalties US$ 0,16. E o preço de venda oscilava entre US$ 1,05 e US$ 1,13.
Os estratosféricos ganhos das petroleiras foram abalados pela primeira vez em 1948, quando a Venezuela adotou uma regra que dividia os lucros igualmente entre empresas e Estados.
No Irã, a estatal britânica se recusou a compartilhar os ganhos em 50%, e, em 1951, o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh nacionalizou o petróleo.
A seguir, foi derrubado por um golpe promovido pela CIA e pelo Reino Unido. Mas a onda nacionalista continuou. A Opep foi criada em 1960 e mudou a correlação de forças. Em 1973, ocorreu a guerra entre Israel e países árabes. Houve embargo de fornecimento aos EUA e o primeiro choque do petróleo --800% de aumento de preço do combustível.
Hoje, 77% das reservas mundiais de petróleo se encontram sob o controle de estatais ou semiestatais.
CONFLITOS 9
Os EUA, com apenas 5% da população mundial, consomem 21% de todo o petróleo produzido no mundo. Importando praticamente a metade do que usa, o país adotou a "estratégia da máxima extração", com foco no golfo Pérsico e no norte da África.
Assim, enquadra-se a guerra que derrubou Saddam Hussein, um inimigo dos EUA no Iraque, que detém a quarta maior reserva do planeta (atrás da Arábia Saudita, da Venezuela e do Irã).
Após a invasão norte-americana, ExxonMobil, Shell e BP voltaram ao país --de onde estavam afastadas desde 1973-- e levaram os mais vantajosos contratos, conta Fuser. A mesma lógica explica o apoio aos sauditas e a constante pressão sobre o Irã.
Fuser lembra o caso do golpe contra Hugo Chávez e a "guerra do gás" que marcou a ascensão de Evo Morales na Bolívia. Para ele, "a mudança do modelo neoliberal dos hidrocarbonetos do país por uma política de soberania energética trouxe benefícios": a renda do setor passou de 5,5% do PIB, em 2004, para 21,9%, em 2009.
Preocupado em expressar diferentes lados do problema energético, Fuser tenta resumir para leigos um tema complexo. Seria necessário mais espaço para aprofundar alguns pontos. Mas a leitura é útil para quem quer entender a história e a política por trás de eventos cruciais de hoje. Olhando bem, petróleo e energia vão aparecer.
Fonte: Folha de S. Paulo