terça-feira, 3 de setembro de 2013

DILMA ESTÁ EM DÍVIDA COM SNOWDEN.


Dilma está em dívida com Snowden

Paulo Nogueira 
Ela deve informações preciosas ao jovem ativista a quem não ofereceu asilo.
Dilma devia ter sido mais solidária com Snowden
Dilma devia ter sido mais solidária com Snowden
Oliver Stone, o cineasta, lamentou há pouco tempo no twitter, a ausência de Lula no comando do Brasil.
Ele criticava Dilma por não haver oferecido asilo a Snowden. Maduro e Correa, por exemplo, se apressaram em abrir as portas a Snowden, ainda que num gesto mais simbólico que prático, dado o cerco americano ao jovem que denunciou o ubíquo esquema de espionagem de Washington.
Stone estava certo.
A maior prova disso reside na reação justificadamente enraivecida  de Dilma ao saber que foi objeto de espionagem especial.
Não fosse Snowden, não saberíamos de nada. Dilma continuaria a oferecer aos Estados Unidos uma deferência obsequiosa que, fora do campo da retórica vazia, claramente não encontra correspondência.
Snowden sacrificou seu futuro em nome de uma causa grandiosa. Morava no Havaí com uma namorada linda, tinha um bom salário e levava aquela vida que costumamos definir como próxima do ideal.
Hoje é caçado. Se for apanhado pelos americanos, pode-se imaginar o que o aguarda pela sentença de Manning – 35 anos de prisão.
O crime, aspas, de Snowden foi revelar um crime, sem aspas, dos Estados Unidos.
Dilma, como mostrou a reportagem de Glenn Greenwald no Fantástico feita com material de Snowden, foi vítima desse crime.
O homem a quem deve uma informação tão importante não mereceu uma retribuição – ainda que simbólica, repito – no momento em que buscava um teto.
Não há, agora, o que ela possa fazer quanto a isso.
Mas pode, pelo menos, aprender uma lição preciosa.

EUA - Império sem máscaras


Império sem máscaras


A descoberta de que o governo americano construiu um gigantesco sistema de espionagem do governo Dilma Rousseff é mais relevante do que se poderia imaginar.

Não se trata, obviamente, de só mais uma intervenção indevida do serviço secreto dos EUA no país.

Nas relações reais entre os povos e governos, tolera-se a presença de espiões e agentes secretos – desde que seu comportamento possa ser conhecido e até certo ponto monitorado por seus alvos. Todas embaixadas possuem seus adidos, que realizam funções de espionagem e contatos militares.

Nada impede que um governo estrangeiro monte uma empresa de fachada num país onde tem interesses específicos, que irá permitir que faça um trabalho mais discreto de investigação e apuração de informações.

Isso não tem nada a ver com a descoberta revelada pelo Fantástico.

Trata-se de um ato agressivo, invasor, como política externa. Desrespeitoso, quando se considera as relações soberanas entre os povos. Inaceitável, quando se pensa no convívio equilibrado entre países. E absurdo, quando se recorda o conjunto de gentilezas que Washington tem oferecido ao governo brasileiro, culminando com a visita de Estado marcada para o próximo mês. Será possível a Dilma participar de um evento desses? Duvido.

Mas é, acima de tudo, um ato que confirma que, essencialmente, os Estados Unidos preferem manter relações com outros países a partir de situações de força, apoiadas em seu imenso poderio militar.

Sem os freios que encontrava no período da Guerra Fria, sem o respeito devido pela única instituição com legitimidade para dirimir diferenças entre os países, a ONU, o governo americano age como um império, se rearticula no que se pode chamar sem nostalgia esquerdista de uma nova política de colonização. Sua atuação é baseada no uso do convencimento diplomático, quando ele funciona, e da coerção, quando não há outro jeito. Mas é sempre uma política que começa e termina nos EUA, porque é fundada, em última análise, em seu aparato militar – sempre a postos para defender os interesses da maior economia do mundo.

Se a guerra de outros tempos travava-se em trincheiras, com garruchas e canhões de ferro, a guerra dos tempos modernos trava-se na informática e na informação. Permite convencer, operar e manipular -- pois é para isso, a manipulação, que servem informações reservadas e confidenciais.

Não há anjos nem querubins nas conversas diplomáticas, vamos combinar. Também não há idealismo.

Mas a força permite aos EUA impor uma política, o que é diferente. Seja no plano do meio ambiente, ou no controle das armas bélicas, e mesmo em políticas comerciais, o poder dissuasório americano permite aplicar a política do faça o que eu digo mas não o que eu faço.

Como tendência geral dos últimos anos, o poderio militar americano se acentuou, em vez de recolher-se. Em uma década, os Estados Unidos elevaram seus gastos militares em US$ 10,3 trilhões. Na Rússia, segundo país a elevar investimentos militares no período, o crescimento foi grande, mas muito mais modesto, de US$ 1 trilhão. Sem adversários no plano militar, o gigante americano dá cada vez menos importância aos atos políticos, o que leva a um esvaziamento progressivo da Organização das Nações Unidas e a uma elevação da tensão internacional. Num levantamento do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, aprende-se que, entre 1945 e 1991, o governo dos EUA foi contrariado em 118 vetos no Conselho de Segurança. Nas duas décadas seguintes esse número foi reduzido várias vezes, para 29 vetos.

Capazes de enfrentar diferenças políticas razoáveis no plano interno, democratas e republicanos são irmãos gêmeos na defesa de uma política externa de natureza imperial. Isso explica a comunhão de ações entre Eisenhower e Kennedy, nos anos 1950-1960, numa intervenção que incluiu o ataque a Cuba; entre Johnson e Nixon, uma década depois, na entrada e saída do Vietnã; entre o Bush pai e Clinton, Bush filho e Barack Obama, mais tarde. Em países como o Egito, os EUA mantém um exército que tem vinculos maiores com Washington, que sustenta seus oficiais, do que com a própria sociedade local.

Se os países tem um interesse nacional, que se confunde com sua soberania, a elite que governa os EUA desde sua consolidação como potência número 1 do planeta combina interesse nacional com interesse imperial.

Não é simples coincidência que a alta espionagem sobre o governo Dilma seja contemporânea dos preparativos da nova operação de guerra da Casa Branca no Oriente Médio, desta vez na Síria. As guerras de conquista e domínio são atividade cotidiana de um império e tornaram-se uma prática cotidiana desde a invasão do Afeganistão, com o pretexto emocional-eleitoral de que era preciso responder ao ataque de 11 de Setembro; a guerra do Iraque, iniciada com a mentira fabricada de que o país possuía armas de destruição em massa; e a intervenção na Líbia para destituir Kadhafi.

Se os homens de leitura tiveram a oportunidade de conhecer um pensamento capaz de antecipar em alguma medida o espírito que dominam as ideias reinantes em Washington neste período, cabe reconhecer que seus fundamentos intelectuais se encontram no artigo “Choque de Civilizações” de Samuel P. Huntington. Assumindo a visão de que “o eixo central da política mundial no futuro tende a ser o conflito entre o Ocidente e o resto”, o trabalho de Huntington irá servir de sustentação à política americana nas décadas seguintes, procurando dar legitimidade ideológica ao esforço da Casa Branca para defender a supremacia americana no planeta. Radicalizando o conflito entre nações a um duelo insuperável entre valores fundamentais e insuperáveis – daí o termo civilização – Huntington denuncia o “relativismo cultural” como prova de fraqueza num horizonte de ameaça e risco. Em sua visão, a emergência dos povos distantes e emancipados torna-se um perigo permanente ao que ele chama de Ocidente, universo que não inclui sequer todos os povos de religião cristã, pois Huntington registra, também, a existência de uma certa civilização “latino-americana.” Huntington afirma que os conflitos “entre as civilizações vão suplantar os conflitos de natureza ideológica” e define que “o Ocidente terá de manter o poderio econômico e militar necessário para proteger seus interesses diante dessas civilizações.”

Precisa de mais alguma coisa?

EUA - A força dos interesses.

A força dos interesses

Ser amistoso em retribuição a atos 
inamistosos é, no mínimo, subserviência
- e não parece próprio de Dilma
Na estreita margem de reação ao seu alcance, a mais (ou única) eficaz resposta do governo brasileiro ao dos Estados Unidos é pôr em suspenso a visita da presidente Dilma Rousseff a Barack Obama, marcada para o próximo mês. E confirmá-la ou sustá-la a depender do que o governo americano faça com a exigência de explicação escrita que lhe fez ontem o governo brasileiro, sobre a violação das comunicações oficiais e pessoais até da presidente brasileira.
Assuntos importantes podem haver, mas não assuntos graves para negociações de Dilma e Obama. A visita foi prevista, portanto, sobretudo como um gesto amistoso. Mas ser amistoso em retribuição a atos inamistosos é, no mínimo, subserviência. O que não parece próprio de Dilma Rousseff e, de uns poucos anos para cá, deixou de ser a atitude brasileira com os Estados Unidos.
A interceptação das comunicações da Presidência não é só uma transgressão das normais internacionais de convivências soberanas, praticada pelo governo americano contra o brasileiro. São ações inamistosas dos Estados Unidos. De duas ordens.
Uma, sub-reptícia, de violação de direitos e de sigilos brasileiros protegidos pelo direito internacional e por tratados de que os dois países são signatários. Outra, a depreciação da soberania brasileira, se não for a negação mesma.
Neste segundo aspecto, a visão de um país sob condições neocoloniais ficou explicitada outra vez, diretamente, ao ministro da Justiça brasileiro, José Eduardo Cardozo, quando levou a Washington, na semana passada, uma proposta de acordo para meios honestos e legais de coleta americana de informações no Brasil (sem embaraços, desde que autorizada judicialmente, como exige a Constituição do Brasil).
O governo americano recusou a proposta com um argumento dado como definitivo e apresentado de modo que o ministro descreveu como "peremptório": os Estados Unidos agem com base na sua legislação interna e consideram-se cumprindo uma missão internacional. As leis que regem a conduta americana no Brasil, como na violação do sigilo das comunicações presidenciais e quaisquer outras, são as leis americanas, não a Constituição brasileira e seu corpo de leis. E pronto.
Com a sugestão a Washington, o Brasil cumpriu o papel de diplomacia respeitável, mas, a rigor, mesmo o acordo seria inócuo: os Estados Unidos não são confiáveis. Vale lembrar, a propósito, um ensinamento, tão pouco aproveitado no jornalismo, dado por John Foster Dulles, o mais proeminente secretário de Estado americano desde a Segunda Guerra Mundial: "Os Estados Unidos não têm amigos, têm interesses".
E força. Da qual abusam segundo seus interesses. "Se o Congresso aprovar, a ação dos EUA na Síria ocorrerá mesmo que o Conselho da Segurança da ONU seja contrário" - é uma resolução destes dias. A desproporção de forças militares reflete-se sobre os organismos internacionais de regulação e julgamento, o que sinaliza, por antecipação, as escassas perspectivas dos recursos a cortes internacionais insinuados pelos ministros Cardozo e Luiz Alberto Figueiredo, o estreante de Relações Exteriores.
A menos que se constitua um movimento de países com alguma dose de representatividade, algo bastante problemático. E dependente, quem sabe, dos arquivos e da disposição de Edward Snowden de divulgar violações graves em outros países, como fez com seu coadjuvante Glenn Greenwald nestas revelações sobre o furto americano de sigilos da Presidência brasileira.
Se o Brasil não tem meios para dar a resposta à altura, será muito pedagógico que ao menos se mantenha ereto - como se mostra até aqui. 
Janio de Freitas
No fAlha

MÍDIA - Globo admite "erro". E o resto?


Por Pedro Ekman, na revista CartaCapital:

No sábado 31, por meio de editorial, o jornal O Globo reconheceu ter errado ao apoiar o golpe e a ditadura militar, que, ao longo de duas décadas, enterraram a democracia em nosso país, com consequências que perduram até os dias de hoje. Admitir um erro é um grande avanço, mas é preciso refletir sobre como a Globo o fez e qual o alcance dessas "desculpas".


Os historiadores podem analisar muito melhor do que nós os fatos elencados pelo jornal para, logo após reafirmar seu "apego pelos valores democráticos", justificar a opção feita na época por Roberto Marinho, insistentemente relembrado como alguém que "sempre esteve ao lado da legalidade". Em cinco linhas o periódico admite o erro; em 50 ele explica porque o pratico. Nem os colegas de imprensa - Folha, Estadão, Jornal do Brasil e Correio da Manhã - também defensores do golpe, escaparam dos argumentos do Globo para dizer "eu errei, mas "todo mundo" errou também".

A realidade é que, por mais que o Globo tente nos fazer crer que sua tardia auto-crítica "não é de hoje, vem de discussões internas de anos", foi o grito das ruas que forçou sua confissão. Nos protestos de junho, a grande mídia - ao lado das demais instituições em crise de representatividade - também se tornou alvo. Parcela significativa da população brasileira deu visibilidade àquilo que o movimento de luta pela democratização das comunicações diz há muito tempo: chega de monopólio! Queremos mais diversidade e mais pluralidade! O povo tem direito e quer exercer sua liberdade de expressão!

Felizmente, essa crítica não arrefeceu de junho para cá. Na última sexta-feira, em São Paulo, assim como em outros estados do país, o 2º Grande Ato contra o Monopólio da Mídia teve novamente a sede da Rede Globo como cenário. Uma enorme bandeira denunciava a relação entre a Globo e o senador Fernando Collor e pedia que o Supremo Tribunal Federal julgue procedente a ADPF 246, que questiona a outorga e a renovação de concessões de radiodifusão a quem possui mandato eletivo, seja como sócio ou associado das empresas concessionárias de rádio e TV.

Sem acesso e representação nos meios de comunicação de massa, os manifestantes mais uma vez ocuparam a mídia pelas pelas frestas. Com feixes de luz, invadiram pela segunda vez o estúdio do SPTV, jornal paulista da TV Globo, pintando de verde a apresentadora Monalisa Perroni, que falava ao vivo para milhões de telespectadores. Nas pareces da emissora, foram projetadas as palavras invisíveis na programação da TV: "Globo Sonega", "Globo Mente", "Globo Collor" e "Ocupe a Mídia".

O editorial do Globo também ignora que, diante das ações que marcaram - e continuam marcando - a história da Rede Globo, é preciso ir além. Primeiro, falta reconhecer que a Rede Globo teve inúmeros benefícios em troca do apoio à Ditadura Militar, como o acordo inconstitucional com a empresa Time-Life, que permitiu que a Globo tenha se tornado um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo. Falta reconhecer que o grupo escondeu durantes anos a campanha pelas Diretas Já! Que também errou, em 1989, ao favorecer o então candidato à Presidência da República, Fernando Collor de Mello, com uma edição manipuladora do último debate eleitoral. Falta admitir que esse mesmo ex-Presidente deposto pela pressão popular hoje controla a retransmissora da Globo em Alagoas.

Mais do que nunca, falta admitir que, atualmente, o grande ataque à democracia brasileira reside no fato de possuirmos um dos sistemas de comunicação social mais concentrados do mundo. Tal situação é sustentada pela emissora e defendida em sua movimentação constante nos corredores de Brasília. Ao continuar se negando a levar ao debate público a necessidade de um novo marco regulatório para o setor no país, a Globo impede que a democracia chegue também aos meios de comunicação de massa.

O clamor das ruas, no entanto, revela que esta pauta não pode mais ser adiada. Ao contrário do que prega a grande mídia, os manifestantes sabem muito bem o que estão fazendo e o que querem. Seja com com raios lasers em estúdios; projeções nas paredes ou bandeiras e cartazes nas ruas, a mensagem é clara: é preciso democratizar a mídia. Se, antes, poucos apostariam ser possível ver as ruas repletas de pessoas dispostas a questionar o poder inabalável da máquina de sedução do monopólio midiático, hoje estamos vendo demonstrações cada vez mais fortes de que esse é um debate imprescindível para o Brasil.

Mas, assim como apoiadores da ditadura não vêm a público por livre e espontânea vontade admitir seus erros, não será da boca de quem detém o monopólio da fala que sairá a defesa de leis que permitam maior diversidade e pluralidade na comunicação. Por uma lei da mídia democrática, o povo saiu às ruas e nelas se manterá, até que a democracia possa vencer novamente.

MÍDIA - O dia em que a Globo piscou.


O dia em que a Globo piscou

Por Luis Nassif, em seu blog:

Na sexta-feira passada, as Organizações Globo surpreenderam o país com uma autocrítica de seu apoio à ditadura militar.

Soou artificial.

Um dia antes, manifestantes jogaram merda em sua sede, em São Paulo. Nas redes sociais, com exceção da revista Veja, não existe organização capaz de despertar tanto amor e ódio.


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Para entender essa demonstração de fraqueza da Globo, é preciso analisar o atual estágio da mídia brasileira.

O mercado da Internet está sendo disputado por três grupos: a mídia convencional, as empresas de telefonia e as grandes redes sociais, como Google e Facebook.

Antes, mídia vendia publicidade; telefonia vendia pulsos; redes sociais vendiam sonhos. Agora, as redes sociais vendem publicidade, ligações telefônicas e filmes sob demanda. Nos EUA, já dominam completamente a publicidade nacional (dos grandes produtos) e os classificados.

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No ano passado, o Google tornou-se o segundo faturamento em publicidade do país, atrás apenas da Globo, e à frente da Abril e demais grupos de mídia, com R$ 2,5 bilhões. Este ano, deverá crescer R$ 1 bi.

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Tanto grupos da velha mídia como empresas de telefonia têm razão ao pleitear isonomia com grupos de fora – que não pagam impostos no Brasil nem contribuições às quais são obrigadas TVs a cabo.

Para estabelecer a isonomia, haveria a necessidade de um novo ordenamento jurídico. O caminho seria a Lei dos Meios – proposta há anos pelo então Secretário de Comunicações do governo federal Franklin Martins.

No entanto, demonizou-se a Lei dos Meios, como se fosse um instrumento para calar a mídia. Agora, necessita-se de uma mudança legal que defina os novos marcos das comunicações. E a Globo quedou-se só.

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Dias atrás, um interlocutor de João Roberto Marinho – um dos herdeiros da Globo – ouviu dele manifestação de surpresa com o ódio que a empresa desperta, o desassossego com a crise dos aliados - seus três maiores aliados, Folha, Abril e Estadão, perdem fôlego a cada dia que passa -, o desconforto com a competição das redes sociais.

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De fato, as empresas de telecomunicações contam com o lobby escancarado do Ministro Paulo Bernardo.

Já a Globo enfrenta o momento mais delicado de sua história sem dispor do antigo poder de definir as leis a seu talante e estando cada vez mais isolada.

É por aí que se entendem as mudanças.

Nos últimos tempos, a Globo trocou seu lobista em Brasília – Evandro Guimarães, competente porém herdeiro dos tempos do “eu sou o senhor do universo”- por outro, mais político. Nomeou para cargo de direção uma executiva incumbida de começar a enxugar a estrutura de custos para adaptar-se aos novos tempos.

Provavelmente seu noticiário começará a se tornar menos tendencioso e poderá até a voltar a praticar jornalismo de primeira, crítico porém plural. Ouvintes da CBN, telespectadores do Jornal Nacional e da Globo News voltarão a saborear comentaristas equilibrados, com bom senso, criticando, sim, mas sem prever mais o fim do mundo e a invasão do país pelas forças de Fidel Castro.

Seja qual for a mudança, continuará poderosa. Mas os tempos de poder absoluto não mais voltarão. Nos próximos anos, terá que fazer algo impensável para quem se considerava um império: sair do pedestal, legitimar-se novamente, montar redes de aliados.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

NOVO SUSPEITO NO ATAQUE QUÍMICO: ARÁBIA SAUDITA.

Com aparente convicção, David Cameron, o primeiro ministro do Reino Unido, garantiu que Assad fora responsável pelas bombas químicas lançadas em Ghouta.

Baseou-se em informações do seu serviço secreto cuja lógica seria “perfeita”: os vídeos provavam o ataque e, como os rebeldes não teriam condições de produzir os gases tóxicos, o culpado só poderia ser o regime sírio.
A conclusão desse raciocínio parece ter sido desmontada.
Matéria do MintPress News, publicada em 30 de agosto, revela que o dedo da Arábia Saudita pode estar na operação proibida.
Entrevistas feitas no próprio local do incidente entre moradores, combatentes rebeldes, seus pais e esposas, apontam para uma possível cumplicidade da Arábia Saudita.
Através dos bons ofícios do príncipe Bandar, chefe da segurança do petro-reino, grupos rebeldes receberam carregamentos de gás sarin.
Sob a orientação do miliciano saudita, Abu-Ayesha, líder de um batalhão, o gás, acondicionado em tubos e imensos garrafões, foi armazenado  em túneis.
Abdel-Monein, pai de um miliciano do exército rebelde, conta que seu filho e mais 12 combatentes morreram nesses túneis, durante o ataque químico.
Uma miliciana das forças anti-Asssad, cognome “k”, reclamou que não foram informados sobre o gás e nem como fazer seu manuseio.
“Quando o príncipe Bandar forneceu essas armas, deveria fornecê-las a quem sabe manusear e usá-las.”
Parece que o grupo Nussra, ligado à al-Qaeda, foi um dos contemplados. Logo após o ataque químico a Ghouta, o Nussra ameaçou que retaliaria, promovendo um ataque similar contra civis da cidade de Lathakia, o coração do regime Assad.
Esse príncipe Bandar mantém excelentes relações com os serviços de inteligência americanos e foi nomeado pelo rei da Arábia Saudita para promover a todo custo a derrubada de Assad.
O jornal inglês Daily Telegraph relata que em encontro com Putin, tentou convencê-lo a abandonar Assad em troca de uma venda de 15 bilhões de dólares em armas para seu país, além de petróleo a preços de banana.
Acrescentou uma proposta de transação bem no estilo de Al Capone, Lucky Luciano e outros cidadãos da honorabile societá: a venda de proteção.
Conforme o Daily Telegraph : “O príncipe Bandar prometeu a manutenção da base naval da Rússia na Síria, no caso do regime Assad cair.” Ele teria explicado: “Eu posso dar a vocês garantia de proteger os Jogos de Inverno, no próximo ano. Os grupos chechenos que ameaçam a segurança dos jogos são controlados por nós.”
Como se sabe, Putin não topou – nenhum estadista que se preze vende a política externa do seu país.
Acostumada a comprar tudo (inclusive consciências), a Arábia Saudita parece estar seriamente implicada no uso das armas químicas na guerra da Síria.
Convinha que a ONU liderasse uma nova investigação para apurar melhor os fatos e as responsabilidades deste país.
Hipocritamente, a monarquia absolutista saudita é um dos mais indignados acusadores do governo da Síria.
Parece que sua veemente condenação da desumanidade das armas químicas se restringe a apenas quando o regime de Damasco as teria usado.
A reportagem da Mint Press News derruba o argumento-chave da inteligência britânica para culpar Assad beyond a reasonable doubt.
Fica claro que também os rebeldes teriam condições de lançá-las.
O autor da matéria, Dale Gavlak, é correspondente do Mint Press News e da Associated Press, para o Oriente Médio. Expert no assunto, ele vive há mais de duas décadas em Aman, Jordânia.

SÍRIA - CONTRA O BOMBARDEIO AMERICANO.

Ser contrário a um bombardeio da Otan ou a uma invasão dos EUA não significa defender o regime de Assad

Por Pascual Serrano, no eldiario.es. Tradução: Jair de Souza / Viomundo

Tudo parece indicar que os EUA bombardearão a Síria nos próximos dias. É o que a mídia e a diplomacia denominam eufemisticamente como “intervenção”.
Para começar, devemos esclarecer que temos a humildade de reconhecer que, embora pareça indiscutível que houve um massacre por armas químicas, não sabemos quem foram os responsáveis.

Obama anunciou que intervenção militar na Síria é “necessária”
É por isso que a ONU enviou inspetores à região.
Ignorado isto, podemos apresentar algumas deduções lógicas.
A primeira delas é o princípio estabelecido no Direito Romano e utilizado em criminalística de “cui prodest” (quem se beneficia?).
Há semanas que na agenda das potências ocidentais e de seus subordinados árabes estão as acusações contra o governo sírio pelo uso de armas proibidas.
O mais absurdo que poderia fazer esse governo seria assassinar um milhar de civis, incluindo crianças, num bairro que não faz parte da frente de combate e, assim, pôr na bandeja a justificativa para uma intervenção militar dos EUA ou da OTAN.
Leia também
  • Ou seja, a resposta de “quem se beneficia” com o massacre por agentes químicos aponta os partidários dessa intervenção militar contra a Síria.

O que comprovamos a seguir foi a rápida difusão da notícia assinalando a autoria do governo sírio.
Tão rápida que já no dia 21 a mídia internacional estava informando sobre um massacre de 650 pessoas cometido pelo exército sírio utilizando como fonte informativa um tuíte da oposição síria, nada mais!
Não me vem à cabeça nenhum agente social que possa conseguir ser manchete mundial com apenas um tuíte.
Imediatamente, os governos que vêm externando seu apoio aos rebeldes sírios começaram a exigir a presença dos inspetores na zona para confirmar o ataque e determinar seus responsáveis, e acusaram o governo sírio de não colaborar.
No entanto, quatro dias depois, esse governo estava autorizando a presença dos inspetores e dotando-os de escolta para seu deslocamento à zona.
Ao se dirigirem ao terreno, estes inspetores sofrem um tiroteio. Novamente, o governo é acusado da responsabilidade dos disparos de franco-atiradores sobre a comitiva.
Seria uma coisa curiosa que um dos lados escolte alguns inspetores da ONU e, ao mesmo tempo, dispare contra eles.
À continuação, os mesmos que exigiam a presença de inspetores dizem que já é tarde, que não precisam dos inspetores.
Sem esperar as conclusões da equipe de investigadores das Nações Unidas, o secretário de Defesa estadunidense, Chuck Hagel, diz que já têm a informação de inteligência que demonstrará que “não foram os rebeldes e que o governo sírio foi o responsável”.
Não adianta nada que o governo sírio negue isto, ou que Médicos sem Fronteiras afirmem que “não podem determinar a autoria do ataque”.
A informação do governo sírio, difundida pela televisão nacional desse país, assegurando que o exército localizou no dia 24 um depósito dos opositores armados em Jobar, localidade na periferia de Damasco, onde encontrou vários barris de agentes tóxicos com a inscrição “feito na Arábia Saudita”, além de máscaras antigas e pastilhas para neutralizar os efeitos da exposição a tais agentes químicos, só a Prensa Latina difundiu essa notícia.
O governo que mais mortes já provocou na história por armas atômicas (Hiroshima e Nagasaki) e por armas químicas (agente laranja no Vietnam) é o que se apresenta como protetor mundial contra os danos dessas armas.
O governo que iniciou uma guerra no Iraque, a qual ainda está em andamento, justificada por umas armas de destruição massiva que não existiam, agora propõe fazer o mesmo por umas armas químicas fundadas nas mesmas provas.
A sensação de dejá vu com a invasão do Iraque é inevitável. Naquele então, pediram inspetores e, quando estes se encontravam no terreno, obrigaram-nos a sair precipitadamente porque começavam a bombardear.
São os mesmos governos que se ampararam numa resolução da ONU para proteger os líbios e acabaram bombardeando a comitiva do presidente para que uma turba de mercenários o linchasse e postasse o vídeo na internet.
É a mesma OTAN que bombardeou a Yugoslávia sem autorização do Conselho de Segurança argumentando uma limpeza étnica que os legistas demonstraram ser falsa e que, uma vez mais, voltarão a fazê-lo na Síria sem se importar com a legislação internacional.
Os mesmos países que invadiram o Afeganistão para liberar as mulheres dos talibã, as quais hoje continuam sendo lapidadas, e o país aumentando seu recorde de produção de ópio, corrupção e pobreza.
A todas essas pessoas bem-intencionadas que dizem que não podemos permanecer impassíveis diante do massacre de centenas de civis na Síria devemos explicar que esses libertadores, que esgrimem o direito de proteger, a defesa dos direitos humanos e a implantação da democracia, carregam antecedentes em excesso para que possamos acreditar em suas boas intenções.
Como ressalta Jean Bricmont (Imperialismo humanitário. O uso dos Direitos Humanos para vender a Guerra, El Viejo Topo, 2008), estamos vendo que grande parte do discurso ético da esquerda considera a necessidade de exportar a democracia e os direitos humanos lançando mão das intervenções militares do primeiro mundo, e tacham de relativistas morais e indiferentes ao sofrimento alheio àqueles que criticam essas ingerências.
De modo que é precisamente essa esquerda a que inventa e interioriza “a ideologia da guerra humanitária como um mecanismo de legitimação”.
É um erro argumentar que existem governos bons – que podem invadir – e maus, que merecem ser invadidos e derrubados.
Não nos esqueçamos que, se aceitarmos essa opção, a invasão legítima, no fundo, estaremos autorizando a do forte sobre o fraco.
Por acaso o Brasil (tão democrático como os EUA) invadirá o Iraque para instaurar a democracia?
Aceitaríamos que o Líbano bombardeasse Israel em caráter preventivo?
Recordemos que o Líbano foi atacado algumas vezes por esse país e seu ataque preventivo estaria muito fundamentado.
Esquecem-se também que o poder sempre se apresenta como altruísta. Dizer que bombardeia a Yugoslávia para impedir uma limpeza étnica, que invade o Afeganistão para defender os direitos das mulheres, ocupa o Iraque para levar a democracia e libertar o país de um ditador, ou ataca a Síria para derrotar um tirano não difere muito do discurso da Santa Aliança para enfrentar as ideias do Iluminismo que inspiraram a Revolução Francesa, ou do discurso de Hitler que justificou sua invasão dos Sudetos checoslovacos para defender a minoria alemã.
Parece que essa esquerda de fervor internacionalista humanitário se esquece que, já nos tempos mais recentes, o intervencionismo estrangeiro ocidental, que vem a ser o mesmo que dizer estadunidense, é o que apoiou Suharto contra Sukarno na Indonésia, aos ditadores guatemaltecos contra Arbenz, a Somoza contra os sandinistas, aos generais brasileiros contra Goulart, a Pinochet contra Allende, ao Xá do Irã contra Mossadegh e aos golpistas venezuelanos contra Chávez.
Se se trata de intervir para salvar vidas, bastaria “bombardear” muitos países da África com tetra briks de leite, em lugar de bombas de fragmentação.
Não é que estejamos defendendo os talibã, Sadam, Gadafi, nem Al Assad.
Estar contra um bombardeio da OTAN ou uma invasão estadunidense não exige um rechaço expresso a esses regimes, como se buscasse protegê-los.

A questão que devemos debater é a violação da legislação internacional por parte de uma potência invasora — e as mentiras nas quais se ampara para justificá-la.

POLÍTICA - O plebiscito bate à porta.


O mais difícil está feito

O Eduardo é da base e opera com os tucanos.

O Projeto de Decreto Legislativo, PDC, número 1258 foi subscrito na Câmara por 188 deputados.

Eram necessários 171.

É o projeto que convoca o plebiscito que a Dilma enfiou pela goela abaixo do Congresso e da Oposição.

A liderança do PT entregou o pepino ao presidente da Casa, Henrique Alves, que dizia que o plebiscito não ia pra frente.

Basta que duas Comissões – Finanças e de Constituição – aprovem para que a questão vá ao plenário.

Aí, desde que estejam presentes pelo menos 257 deputados, a maioria simples aprova.

Ou seja, o mais difícil foi conseguido: as 188 assinaturas.

O plebiscito saiu empurrado na marra, contra o PiG e seus tentáculos.

O Superior Tribunal Eleitoral diz que não pode fazer plebiscito em 2013, por causa do principio da anualidade.

Muito simples.

Por que não fazer o plebiscito no começo de 2014 ?

O TSE pode definir a data, assim que o plenário da Câmara aprovar.

A presidenta Dilma recebeu os líderes do PT que foram levar a boa notícia.

Ela ficou radiante.

Até porque, segundo um dos presentes, o plebiscito vai tratar de um tema que não constava da proposta inicial dela: a participação popular via internet.

Permitir que, pela internet, o povo submeta ao Congresso projetos de Lei.

Hoje, o Projeto de Lei de Iniciativa Popular, o PLIP – e já existe um, o PLIP contra o PLIM, que que pretende escrever a Ley de Medios – exige um milhão de assinaturas.

Além do projeto via internet, o plebiscito vai tratar de:

– formas de financiamento da campanha;

– e coincidência de todas as eleições numa mesma data – de vereador a Presidente da República.


Essa última proposta foi uma concessão do PT ao PSB de Eduardo Campriles, que,  irremediavelmente, se tornou o Viagra dos tucanos.

Para respeitar a “base aliada”, o PT concordou em submeter essa proposta ao plebiscito.

Mas, não gosta da ideia.

O problema é que, embora, cada vez mais, o PSB se alie aos tucanos, formalmente, ainda é da “base”.

(Quando é que o Eduardo vai devolver os cargos no Governo Federal ?)

Durante a negociação, o PT pretende reforçar a proposta – difícil – de financiamento público exclusivo das campanhas.

Com certeza, porém, deve ser proibido – ou limitado de forma severa – o financiamento de empresas.

O líder do PT na Câmara, José Guimarães, deve se encontrar nos próximos dias com a liderança da CNBB, Confederação Nacional dos Bispos, e com a Ministra Carmen Lucia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, para pedir apoio à ideia do plebiscito no inicio de 2014.

O amigo navegante se lembra de a Presidenta Dilma Rousseff ter proposto, no auge das manifestações de junho, uma Constituinte exclusiva, convocada e ratificada por plebiscito e referendo.

A Constituinte Exclusiva foi torpedeada pelo PMDB.

Então, ela insistiu no plebiscito.

Era uma forma de responder às manifestações – clique aqui para ler sobre como o Caixa Dois faz e acontece no Brasil, “Quem é o Senhor X que gravou a compra da reeleição do FHC” – e, rapidamente, aperfeiçoar o sistema eleitoral.

O plebiscito foi tratado com desdém e descrença pelos colonistas (*) merválicos do PiG (**).

Deram-se mal.

O plebiscito bate à porta.


Paulo Henrique Amorim

SOBRE A INTERVENÇÃO NA SÍRIA.


Sobre a intervenção na Síria

O regime sírio estava restabelecendo lentamente seu controle sobre o país, contra a oposição armada pelo ocidente e seus Estados subordinados na região (Arábia Saudita e Qatar) - uma situação exigia um corretivo urgente. Essa é a explicação para o eminente ataque ocidental sobre a Síria. 

Por Tariq Ali -  Carta Maior

O objetivo da "guerra limitada", conforme foi colocado pelos Estados Unidos e seus vassalos europeus, é simples. O regime sírio estava restabelecendo lentamente seu controle sobre o país, contra a oposição armada pelo ocidente e seus Estados subordinados na região (Arábia Saudita e Qatar). Essa situação exigia um corretivo. A oposição, nessa deprimente guerra civil, precisava ser fortalecida militar e psicologicamente.

Visto que Obama disse serem as armas químicas a "linha vermelha", elas foram obrigadas a entrar em jogo. ‘Cui prodest?’, como os romanos costumavam perguntar. Quem lucra? Certamente, não o regime sírio.

Algumas semanas atrás, dois jornalistas do ‘Le Monde’ já haviam descoberto as armas químicas. A questão é a seguinte: se elas foram usadas, quem as utilizou? O governo Obama e seus simpatizantes gostariam que acreditássemos que Assad permitiu a entrada dos inspetores de armas químicas da ONU na Síria, e, em seguida, marcou sua chegada com um ataque químico contra mulheres e crianças, a cerca de 15 km de distância do hotel onde os inspetores estavam hospedados. Isso simplesmente não faz sentido. Quem realizou essa atrocidade?

No Iraque, sabemos que os EUA utilizaram fósforo branco em Fallujah, em 2004 (lá não havia linhas vermelhas, exceto aquelas feitas com o sangue iraquiano); portanto, a justificativa permanece tão obscura como nas guerras anteriores.

Desde a guerra e a ocupação do Iraque, o mundo árabe está dividido entre sunitas e xiitas. Apoiando as ameaças à Síria estão dois velhos amigos: Arábia Saudita e Israel. Ambos querem que o regime iraniano seja destruído. Os sauditas, por razões de facção, e os israelenses, porque estão desesperados para exterminar o Hezbollah. Esse é o fim de jogo que eles têm em vista e que Washington, depois de resistir um pouco, voltou a jogar. Bombardear a Síria é o primeiro passo.

É tolice se preocupar muito com a Grã-Bretanha. Trata-se de um Estado vassalo, governado de fato por um governo nacional que inclui o trabalhismo parlamentar. Seus partidos políticos vêm aceitando situar-se permanentemente no "quintal da Casa Branca". Cameron empolgou-se com a guerra há alguns meses. Quando os EUA aderiram friamente à ideia, a Downing Street calou-se. Agora, está de volta à ação, com o pequeno Ed dizendo que apóia a guerra "relutantemente", a mais patética das posições. Parlamentares conservadores estão articulando uma resistência mais dura. Será que mais conservadores do que trabalhistas se posicionarão contrariamente? Veremos.

Os iranianos reagiram com força e ameaçaram levar a cabo uma retaliação apropriada. Isso pode até ser um blefe, mas revela que, mesmo com um novo e "moderado" líder, elogiado pelos meios de comunicação ocidentais, essa postura não difere da de Ahmadinejad. O Teerã entende bem o que está em jogo e por quê. Cada intervenção ocidental no mundo árabe e em seus arredores piorou as condições. Os ataques planejados pelo Pentágono e seus parceiros da OTAN parecem propensos a seguir o mesmo caminho.

Enquanto isso, no Egito, um Pinochet árabe está restaurando a "ordem" tradicionalmente, com o apoio um tanto envergonhado dos líderes do conglomerado EUA/UE.

ANOS DE CHUMBO - Torturador Fleury foi morto pelos militares.

A morte do torturador Fleury pelos militares

Jasson de Oliveira Andrade
O assassinato mais enigmático, estranho, perpetrado por militares foi a do torturador Sérgio Fernando Paranhos Fleury, o delegado Fleury. Ele se destacou como chefe do Esquadrão da Morte, que executava delinquentes. Pelo menos era o que se dizia. No entanto, a verdadeira história foi contada pelo então procurador da Justiça do Estado de São Paulo, Hélio Bicudo, atualmente com 91 anos, no livro “Meu Depoimento sobre o Esquadrão da Morte”, escrito em 1976, com prefácio de Ruy Mesquita, diretor do Estadão (falecido em 21/5/2013, aos 88 anos).
Bicudo, na Introdução, revelou a verdadeira face dessa facção de extermínio: “E o ‘Esquadrão da Morte’, depois de resvalar para a pura satisfação de interesses pessoais ou de pequenos grupos sequiosos de poder, passou na verdade a servir de interesses de quadrilhas de entorpecentes, de jogo e de prostituição, através de grupos de proteção”.
Mestre em tortura, Fleury passou para o Dops, agora prendendo e torturando presos políticos. Vários deles foram assassinados em suas mãos. Com o tempo foi afastado do cargo e faleceu no dia 1º de maio de 1979, aos 45 anos. Segundo a versão oficial, em acidente no seu iate em Ilha Bela, morrendo afogado.
Ao noticiar sua morte, o jornalista Luis Padovani, na Folha de 2 de maio, descreveu como se deu o acidente, baseado no Boletim de Ocorrência, concluindo: “O corpo foi levado para Santa Casa local, onde foi assinado o atestado de óbito, tendo o médico dispensado a autópsia”. Atitude estranha!
No mesmo jornal, Edson Flosi, no texto “Amado e odiado: herói ou torturador?”, fez essa surpreendente revelação: “[Fleury] Ficou muito rico, construiu uma mansão no Alto da Boa Vista, comprou um iate que lhe custou dois milhões de cruzeiros [dinheiro da época], apesar de sempre ganhar relativamente pouco na Secretaria da Segurança Pública”. Isto, tudo indica, foi uma das causas de seu suposto assassinato, como vamos ver a seguir.
No Número 4 de “Caros Amigos”, julho de 1997, em entrevista à Ana Maria Ciccacio, Hélio Bicudo assim se referiu à morte do torturador Fleury em 1979: “Foi queima de arquivo, sim. Ao ser posto no ostracismo por aquele processo de abertura do Geisel, o problema é que Fleury começou a falar demais. Não convinha aos órgãos de segurança que uma pessoa, a essas alturas com péssima imagem pública, porque usava drogas e bebia muito, saísse contando fatos que realmente não interessavam aos governos militares”.
Quinze anos depois, em maio de 2012, o ex-delegado do Dops na época da Ditadura, Cláudio Guerra, no livro “Memórias de uma guerra suja”, confirma essa versão de Bicudo.
Tales Faria, do IG Brasília, em 2/5/2012, no item “Queima de Arquivo”, relata: “O delegado Fleury tinha de morrer. Foi uma decisão unânime de nossa comunidade, em São Paulo, numa votação feita em local público, o restaurante Baby Beef”, afirma Cláudio Guerra”.
Ele, a seguir, cita vários militares, entre eles, o coronel Brilhante Ustra, que torturou a atriz Bete Mendes. Ustra abriu a reunião.
Adiante Cláudio Guerra afirmou: “Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar. Não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava. (…) Nessa época, o hábito de cheirar cocaína também fazia parte de sua vida. Cansei de ver”.
Tales Faria, no final, diz: “A história oficial é, de fato, que o delegado paulista morreu acidentalmente em Ilha Bela, ao tombar da lancha. Mas Guerra afirma que Fleury na verdade foi dopado e levou uma pedrada na cabeça antes de cair no mar”.
O torturador e ex-herói Fleury, ironicamente, foi morto por militares. Teve o mesmo fim que Alexandre Baumgarten, dono da revista O Cruzeiro (na penúltima  fase), e pelo mesmo motivo: “queima de arquivo”. Outra coincidência: morreram no mar!
(artigo enviado por Sergio Caldieri), publicado na Tribuna da Imprensa.

AFINAL, ONDE QUEREM CHEGAR OS MASCARADOS?


anonymus ultraderecha inglesa CP 620x500 Afinal, onde querem chegar os Anonymous e os Black Blocs?
Depois que os manifestantes das "Jornadas de Junho" se retiraram gradativamente das ruas e foram cuidar da vida, restaram os "protestos" isolados com pouca gente _ na verdade, atos do mais puro vandalismo, organizados por dois grupos que se apresentam como Anonymous e Black Blocs.
Além de infernizar a vida de quem precisa se locomover entre a casa e o trabalho nas nossas grandes cidades, fechando quase todos os dias suas principais ruas e avenidas, atacar fachadas de bancos e de concessionárias de automóveis, o que mais move estes grupos? Onde querem chegar? Derrubar o governo, fechar o Congresso Nacional e acabar com o capitalismo?
Ao ver as imagens destes guerrilheiros urbanos arrebentando o que encontram pela frente a marretadas e pontapés, me lembrei de um velho amigo jornalista, Matinas Molina, jejuno na matéria, que assistia à inauguração de uma cancha de bochas em Curitiba, muitos anos atrás, sem conseguir descobrir o que estava em jogo. "Eu só queria entender qual é a finalidade...".
Como não há líderes nem porta-vozes capazes de explicar os objetivos dos mascarados, a polícia tateia no escuro para enfrentar as depredações que viraram rotina, sem que se tenha notícia de algum plano dos órgãos de segurança para acabar com esta baderna, tirar de circulação ou punir os seus responsáveis. É como se fosse algo que já fizesse parte da paisagem. Não é. Ou, ao menos, não deveria ser assim.
Entre os assuntos listados para os protestos estão a prisão dos mensaleiros (algo que só depende do Judiciário), o fim do voto obrigatório e a saída de Renan Calheiros da presidência do Senado (temas restritos ao Legislativo) _ ou seja, nada que dependa do governo federal para ser resolvido e, certamente, não o será, na base do grito ou do quebra-quebra.
"O Estado não tem demonstrado competência para fazer cumprir a lei, seja por leniência, fechando os olhos para o vandalismo, seja por receio de que a força policial puxe para baixo a imagem já negativa de seus governantes, ou ainda por falta de qualificação do aparelho policial para lidar com uma nova ordem social. O fato é que o descontrole fica patente, ensejando, a cada nova manifestação, atos cada vez mais virulentos. Imagine-se o efeito bola de neve se a criminalidade crescente não receber um basta", advertiu o professor da USP Gaudêncio Torquato, em seu artigo "A preamar dos mascarados", publicado domingo último no Estadão.
Leio no noticiário desta segunda-feira que  os valentes Anonymous, que não mostram a cara nem dão o nome, preparam desde junho "o maior protesto da história do Brasil" para o próximo sábado, em que pretendem "comemorar" o 7 de Setembro com atos de protesto programados em 140 cidades, a começar por Brasília, onde a presidente Dilma Rousseff assistirá à tradicional parada cívico-militar.
A página do grupo de ativismo hacker já havia distribuído até o último final de semana 4,8 milhões de convites, recebendo a confirmação de 362 mil seguidores, segundo a Folha. Embora a presidente Dilma tenha recomendado um reforço na segurança, com a revista de bolsas e mochilas, o clima no Palácio do Planalto não é de muita preocupação. "Não vai ser essa coisa toda que estão falando, não é essa a nossa avaliação", disse-me agora de manhã um interlocutor da presidente.
Dilma viaja hoje à noite para a Rússia, onde participará da reunião do G-20, em que todas as atenções estão voltadas para a Síria. Na bagagem, ela leva também as últimos denúncias sobre o esquema de espionagem que teria sido montado no Palácio do Planalto pelo governo Obama, um assunto que provavelmente será levantado se houver um encontro reservado entre os dois.
Apesar da aparente tranquilidade, a presidente sabe que deixa para trás um potencial perigo de recrudescimento das manifestações violentas de rua, em que o 7 de setembro pode ser um divisor de águas. A não cassação do mandato do deputado presidiário Natan Donadon e o resultado do julgamento dos embargos dos réus condenados no caso do mensalão, previsto para sair ainda esta semana, podem fornecer combustível para quem só joga no quanto pior, melhor. Com a oposição e a mídia aliada sem candidato competitivo até agora, todo cuidado é pouco.

SÍRIA - O alvo é o Irã.

Robert Fisk 
O governo iraniano está cada vez mais envolvido com a Síria — e isso não é tolerado pelo Ocidente.
síria
Publicado originalmente no Common Dreams 
Antes que a guerra mais estúpida na história do mundo moderno comece — eu estou, naturalmente, me referindo ao ataque à Síria que nós teremos de engolir –, é preciso dizer que os mísseis de cruzeiro que vão varrer uma das cidades mais antigas da humanidade não têm absolutamente nada a ver com a Síria.
Eles têm como objetivo prejudicar o Irã . Eles têm a intenção de atacar a República Islâmica agora que ela tem um novo e vibrante presidente – ao contrário do maluco Mahmoud Ahmadinejad –, que pode ser um pouco mais estável.
O Irã é inimigo de Israel. O Irã é, portanto, naturalmente, o inimigo da América. Então, é preciso disparar os mísseis do Irã em seu único aliado árabe.
Não há nada agradável sobre o regime de Damasco. Nem estou dizendo, aqui, que o regime deva ser ignorado por ataques de gás em massa. Mas eu sou velho o suficiente para lembrar que quando o Iraque, então aliado dos Estados Unidos, usou gás contra os curdos de Hallabjah em 1988, não invadimos Bagdá. Na verdade, o ataque teria que esperar até 2003, quando Saddam não tinha mais gás ou qualquer uma das outras armas que causam pesadelo.
E eu também me lembro que a CIA acusou o Irã, em 1988, de ser responsável pelo gás em Hallabjah, uma mentira que servia para atacar o inimigo da América contra o qual Saddam estava lutando em nosso nome. E milhares – não centenas – morreram em Hallabjah. Mas vá lá: dias diferentes, padrões diferentes.
E vale a pena notar que, quando Israel matou mais de 17 mil homens, mulheres e crianças no Líbano em 1982, em uma invasão supostamente provocada pela tentativa de assassinato, pela OLP, do embaixador israelense em Londres — foi o companheiro de Saddam, Abu Nidal, que organizou a matança, não a OLP, mas isso não importa agora –, a América meramente chamou os dois lados para exercer a “moderação”. E quando, alguns meses antes daquela invasão, Hafez al- Assad — pai de Bashar — enviou seu irmão até Hama para eliminar milhares de rebeldes da Irmandade Muçulmana, ninguém murmurou uma palavra de condenação.
De qualquer forma, há uma Irmandade diferente estes dias — e Obama não pôde nem mesmo dizer “bu!” quando seu presidente eleito foi deposto.
Mas espere. O Iraque — quando era o “nosso” aliado contra o Irã –também não usou gás contra o exército iraniano? Sim. Milhares de soldados iranianos na guerra de 1980-1988 foram envenenados até a morte por esta arma vil.
Eu viajei de volta para Teerã durante a noite em um trem militar cheio de soldados e senti o cheiro do material, abrindo as janelas nos corredores para liberar o gás. Esses jovens tinham feridas sobre feridas — literalmente . Ferimentos horríveis, indescritíveis. No entanto, quando os soldados foram enviados para hospitais ocidentais para tratamento, os jornalistas — com provas da ONU infinitamente mais convincente do que as apresentadas em Damasco — os chamavam “supostas” vítimas de gás.
Então, o que, em nome de Deus, estamos fazendo? Depois de milhares de pessoas morrerem na incrível tragédia da Síria, por que só agora, depois de meses e anos de prevaricação, estamos ficando chateados com algumas centenas de mortes? Terrível. Inconcebível. Sim, isso é verdade. Mas deveríamos ter sido empurrados para esta guerra em 2011. E 2012. Por que agora?
Eu acho que sei a razão. Eu creio que o exército implacável de Bashar al-Assad pode estar ganhando dos rebeldes a quem secretamente damos armas. Com a ajuda do Hezbollah libanês — aliado do Irã no Líbano –, o regime de Damasco derrotou os rebeldes em Qusayr e pode estar no processo de derrotá-los ao norte de Homs. O Irã está cada vez mais envolvido na proteção do governo sírio. Assim, uma vitória de Bashar é uma vitória do Irã. E vitórias iranianas não podem ser toleradas pelo Ocidente.
E já que estamos no assunto da guerra, o que aconteceu com aquelas magníficas negociações palestino-israelenses de que John Kerry se gabava? Enquanto expressamos a nossa angústia nos horríveis ataques de gás na Síria, a Palestina continua a ser engolida. A política do Likud de Israel — de negociar a paz até que não sobre mais nenhuma Palestina — continua em ritmo acelerado, razão pela qual o pesadelo do rei Abdullah da Jordânia só aumenta: de que a “Palestina” seja na Jordânia, e não na Palestina.