sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

OS DOIS LADOS DA ELEIÇÃO DE BARACK OBAMA.

John Catalinotto

A eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos significa a continuação das políticas pró-imperialista e pró-capitalista a nível externo e doméstico. A eleição de um afro-americano como presidente dos EUA representa um progresso nos Estados Unidos e uma oportunidade para o avanço das lutas dos trabalhadores e dos pobres. Ambas as afirmações são verdadeiras. As duas asserções contradizem-se, mas não se anulam. Coexistem. São contraditórias porque a campanha de Obama e a sua eleição são acontecimentos contraditórios.

Na maioria dos países da Europa Ocidental, a generalidade dos partidos e dos média de direita apoiou Obama. Mais, apresentaram a vitória de Obama como sinónimo de mudança na natureza dos EUA. Como o fim dos constrangimentos neoconservadores da administração Bush, Washington abrir-se-ia agora ao diálogo com os aliados europeus. Deixa de ser preciso, argumentam, que os europeus sejam anti-EUA.

Trata-se, evidentemente, de um falso argumento. As forças dominantes controlam firmemente as eleições nos EUA. Apesar de haver diferenças na composição dos partidos Republicano e Democrata, ambos servem os interesses dos ricos e poderosos. Ambos conduziram os EUA para guerras de agressão. Por exemplo, os democratas invadiram a Coreia e o Vietname, os republicanos invadiram o Iraque e o Afeganistão. E nenhuma eleição pode mudar a natureza intrínseca dos EUA.

A maioria dos ricos e poderosos nos EUA começaram a apoiar a campanha de Obama depois de previsões secretas terem mostrado que o talentoso político negro podia ganhar. Estas forças queriam uma administração equivalente ao que em termos europeus se pode designar por “grande coligação”. Nos EUA, esta coligação deveria incluir todo o Partido Democrata e todos os republicanos, à excepção da extrema-direita. A maioria das forças dominantes apoiou Obama porque ele se revelou o mais capaz dos candidatos para conseguir esta coligação governamental pró-capitalista.

NOMEAÇÕES DO GRUPO CLINTON PARA O GOVERNO

As nomeações de Obama, muitas das quais ligadas à administração Clinton de 1990, mostram qual é a sua opção. A sua secretária de Estado, Hillary Clinton, é uma centrista com estreitas ligações ao Pentágono. O seu secretário da Defesa, Robert Gates, é um republicano, um escolhido por Bush, que continua no seu posto, mas sem estreitas ligações aos ultraconservadores.

O pró-empresário Tim Geithner da direcção da Reserva Federal de Nova Iorque será o secretário do Tesouro. Richard Rubin, que ocupou esse lugar na administração Clinton, e o presidente da Harvard, Larry Summers, serão os conselheiros económicos de Obama. Todos eles estiveram envolvidos na desregulamentação do sector bancário.

Nenhum dos designados de maior relevo é oriundo do que é considerada a “esquerda” nos EUA. Em termos políticos norte-americanos, “esquerda” significa apenas uma posição mais progressista ou pró-trabalhadores entre os membros do Partido Democrata. Não existe uma esquerda social-democrata significativa equiparável à tradição da Europa Ocidental, e a esquerda comunista está completamente excluída da política eleitoral dos EUA.

A esmagadora maioria dos povos do mundo abomina a criminosa administração Bush. Por outro lado, Bush presidiu também a um sério declínio da hegemonia mundial dos EUA, em grande parte como resultado do falhanço da ocupação do Iraque e do Afeganistão. Os ricos e os poderosos esperam que a equipa de Obama reverta esse declínio. O programa eleitoral de Obama inclui a retirada de algumas tropas norte-americanas do Iraque e o aumento da sua presença no Afeganistão. O que a administração de Obama irá efectivamente fazer é ainda uma incógnita. Permanece o risco de uma nova guerra. O movimento progressista deve continuar atento e pronto a combater qualquer aventura belicista.

A administração de Obama também irá procurar as formas de injectar fundos federais na economia capitalista para tentar estancar a crise económica, mas sem alterar a natureza de base do sistema.

Então por que motivo – e esta é a outra parte do carácter contraditório da vitória de Obama – os dirigentes da classe operária nos EUA consideram a sua eleição como um acontecimento que pode contribuir para a unidade dos trabalhadores?

VOTO HISTÓRICO NUM PRESIDENTE NEGRO

Em primeiro lugar, a eleição de um político afro-americano para o posto mais importante nos EUA é um avanço extraordinário. Nos EUA, a 250 anos de escravatura seguiram-se 150 anos de racismo institucional. O direito de voto dos negros foi conquistado em muitos estados apenas em 1960, após duras lutas. Polícias e grupos racistas organizados mataram pessoas que lutavam pelos seus direitos. O direito de voto continua sujeito a regras restritivas visando os afro-americanos. O racismo institucional continua a meter mais jovens negros na prisão do que nas universidades. A eleição de Obama representa um simbólico grande passo em frente.

Mesmo pensando que Obama teve a mais cara campanha eleitoral de sempre – cerca de 750 milhões de dólares – com forte apoio financeiro de largos sectores de ricos e poderosos, ele podia ter ganho as eleições apenas através da mobilização do movimento de massas. A sua campanha teve de vencer um profundo racismo entre muitos dos eleitores brancos. E levou a cabo uma mobilização entre os afro-americanos como nunca se viu.

Os comícios foram sem precedentes na história eleitoral norte-americana dado o carisma do orador, com a participação de dezenas de milhares de pessoas. Dezenas de milhões votaram antes de 4 de Novembro nos estados onde isso era permitido, com muitos a esperar quatro horas na fila para votar Obama, o que também não tem paralelo. Muitos afro-americanos, incluindo pessoas idosas que tinham estado afastadas da vida política em eleições anteriores, foram votar pela primeira vez e fizeram-no com orgulho. Obama conseguiu o apoio unânime da comunidade negra, na verdade, da nação negra, que viu a sua eleição como uma expressão da sua própria autodeterminação.

Para além da solidariedade da comunidade negra, também os trabalhadores brancos e latinos mais progressistas – que não têm ilusões quanto ao governo de Obama – ajudaram à sua eleição. Obama conseguiu ainda dois terços dos votos dos eleitores de ascendência latino-americana. Na arena eleitoral, milhões de pessoas passaram da apatia política para a actividade política.

Os 45 por cento de eleitores brancos que votaram em Obama representam uma percentagem mais elevada do que a recebida por Bill Clinton, Al Gore ou John Kerry, os três anteriores candidatos do Partido Democrático, em eleições nacionais. Os jovens são particularmente pró-Obama. Muitos eleitores brancos de camadas trabalhadoras ultrapassaram qualquer resquício de racismo ideológico que sentissem em favor dos seus interesses de classe. Mesmo em estados como a Virgínia e a Carolina do Norte, onde republicanos declaradamente racistas têm ganho eleições nacionais, Obama foi capaz de vencer por estreitas margens. Este voto contribui para melhorar as relações entre trabalhadores negros e brancos e tornar mais fácil a solidariedade de classe.

ALÍVIO PELA SAÍDA DE GEORGE W. BUSH

O outro aspecto importante da vitória de Obama foi a esmagadora atitude anti-Bush. O programa público de Obama foi um vago apelo à “mudança”. As pessoas perceberam que Obama era a antítese de Bush. Viram a candidatura de John McCain/Sarah Palin e a sua mal disfarçada campanha racista como uma continuação de Bush. Advogados, sindicalistas, trabalhadores da saúde e todos os progressistas mobilizaram-se para derrotar o gang de Bush. Até ao dia das eleições as pessoas recearam que de algum modo a máquina republicana encontrasse uma forma de usar o racismo para ganhar votos ou para falsear as eleições, como fez em 2000 na Florida e se suspeita que tenha feito em 2004 no Ohio.

A vitória de Obama desencadeou a alegria das massas, com centenas de milhares a manifestarem-se em Chicago, Harlem, Nova Orleães e muitas outras cidades dos EUA. Milhões estarão na tomada de posse de Obama, tanto para celebrar o primeiro presidente negro como para saudar o fim da era Bush. A maioria deseja o fim da guerra do Iraque, emprego e casas para os trabalhadores, um sistema universal de cuidados de saúde e educação para todos, e a vitória de Obama encoraja-os a prosseguir a luta por estes objectivos.

Desde as eleições, algumas lutas importantes mostram o incremento da combatividade dado pela vitória de Obama. Fortes manifestações de protesto de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais exigiram o direito a casar. Trabalhadores imigrantes em Chicago ocuparam uma fábrica reclamando mais salário – e ganharam. Cerca de 4600 trabalhadores de uma empresa de criação de gado suíno na Carolina do Norte – um estado contra os direitos laborais – ganharam o seu direito à representação sindical depois de terem perdido por duas vezes numa batalha que durou 14 anos. Em cada caso, a vitória de Obama foi um ponto de referência, mesmo quando os que lutam não esperam por Obama para resolver os seus problemas.

Estes dois lados do fenómeno Obama continuarão a fazer-se sentir quando o novo presidente dos EUA assumir funções e a sua administração enfrentar a gestão da profunda crise económica capitalista que afecta o centro do mundo imperialista. Por um lado, as massas foram arrastadas pela campanha para eleger o primeiro presidente negro apoiado pelo Partido Democrata, um partido de exploradores e opressores. Mas por outro lado, a campanha pela mudança criou expectativas, gerou optimismo e fez subir o moral dos trabalhadores, o que é o caldo de cultura necessário para a transição para a luta activa contra o sistema e os seus defensores no Partido Democrata.
Fonte: Avante!/Informação Alternativa.

2008, O ANO EM QUE O PLANETA SE TORNOU FINITO.

2008 será recordado como o ano em que o planeta se revelou finito, em que a actividade humana numa parte do mundo teve consequências reais e palpáveis noutra parte do planeta. Tal como a parábola da manta, que tapa de um lado destapando do outro, a crise dos cereais e do petróleo veio evidenciar da pior maneira os reais limites de alguns dos nossos principais recursos naturais.

Texto de Rui Curado Silva.

O brusco aumento da procura de petróleo da parte de mercados emergentes, como a Índia e China, a especulação dos mercados financeiros e a progressiva escassez do petróleo e dos restantes combustíveis primários provocaram uma subida acentuada do preço do crude para preços record, seguida de uma descida brusca provocada pela crise financeira. Um processo semelhante ocorreu com os preços dos cereais e seus derivados, tendo-se agravado o problema neste caso com a quebra verificada no volume de colheitas agrícolas nos últimos dois anos e o aumento da percentagem relativa de solos dedicados à produção de biocombustíveis. Estas oscilações de preço tiveram consequências reais, provocando revoltas, falências, desemprego que resultaram em mortes directas e indirectas destes acontecimentos.

Desde os séculos XVII e XVIII, grande parte do pensamento económico foi orientado pelos escritos de John Locke, de Thomas Hobbes ou de Adam Smith, que simplificavam ou davam pouca importância à escassez ou ao limite dos principais recursos naturais. Na prática, os contemporâneos destes filósofos consideravam quase todos os principais recursos como sendo infinitos ou exploráveis indefinidamente. A explosão demográfica e a exploração intensiva dos principais recursos naturais que ocorreu durante século XX vieram revelar que alguns dos principais recursos naturais, como o petróleo, tinham os dias contados. Ainda assim os alertas lançados sortiram pouco efeito e foi preciso esperar por 2008 para que o cidadão comum percebesse finalmente que o modelo de sociedade dominante estava a pôr em perigo a sua própria segurança alimentar e energética. A emaranhada teia que liga as cadeias de exploração, produção, comercialização e consumo dos produtos de primeira necessidade está sujeita a processos estatísticos complexos de difícil compreensão para o produtor ou o consumidor individual que se encontra no seu canto do mundo e que tem uma perspectiva do problema limitada ao horizonte da sua região ou do seu país. Deste modo, um produtor ou um consumidor que esteja genuinamente convencido que a sua actividade não tem qualquer efeito nocivo poderá estar a contribuir sem saber para uma catástrofe humanitária noutro ponto do planeta. É aqui que falha, em particular a filosofia de John Locke. Segundo John Locke, a natureza não tem qualquer valor até ser transformada pelo trabalho humano para satisfazer as necessidades do homem. No entanto, Locke ressalvava que a exploração de recursos naturais poderia continuar indefinidamente desde que existissem em quantidade e qualidade para todos. Para além de sabermos hoje que a natureza não transformada pode ter um papel importantíssimo para a sobrevivência do homem (os pulmões da Amazónia ou das florestas do Canadá e da Sibéria, os gigantescos reservatórios de CO2 que são os nossos oceanos, etc.), sabemos também que nem sempre quem explora um recurso tem a percepção exacta de que pode estar a comprometer o acesso a esse recurso por parte de outros indivíduos noutra parte do mundo ou por parte das gerações seguintes.

As sociedades de produção e consumo massificado em que nos tornámos precisam de generalizar conceitos como o princípio da precaução da UE que protegem consumidores e produtores da incerteza resultante da massificação de novas actividades económicas e precisam sobretudo de se tornar em verdadeiras sociedades baseadas no conhecimento, em que o conhecimento científico seja devidamente considerado e respeitado pelo poder político e pelos diversos agentes económicos. O resultado desse trabalho científico mostra hoje que o modelo de vida das sociedades ditas ocidentais não é decalcável para o resto dos habitantes do planeta, nem para as gerações seguintes.

A encruzilhada entre o aumento do consumo energético do planeta, a progressiva escassez das reservas de combustíveis primários e o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito de estufa deverá obrigar a uma séria reflexão sobre o nosso modo de vida, sobre a forma intensiva como produzimos e consumimos. A médio prazo será necessário encontrar novas formas de produção de energia em larga escala não dependentes de combustíveis primários com reservas finitas. Será por isso urgente apostar na investigação de novas tecnologias, como o projecto ITER de fusão nuclear, que poderá ser a futura energia de produção em larga escala, limpa e sustentável que substituirá definitivamente os combustíveis primários. Enquanto essas tecnologias não chegam será necessário massificar tanto quanto possível a produção de energia geotérmica, eólica, solar, das marés, das ondas, etc., transformando a habitação e o transporte para o seu consumo em larga escala (ler proposta de Jeremy Rifkin).

A produção de alimentos deverá cada vez mais aderir a métodos de produção sustentável que não esgotem os solos ou os recursos marinhos e deverá ser menos orientada para a exploração animal que requer a produção de grandes quantidades de cereais e um elevado consumo de água, requisitos que poderão ser fatais nas zonas menos férteis do mundo. A introdução de novas tecnologias e de novos produtos químicos na produção de alimentos deverá estar sujeita ao princípio da precaução para garantir a segurança de consumidores, de produtores e dos ecossistemas e responder a novos desafios como o sério declínio da taxa de natalidade nas sociedades mais desenvolvidas.

A nossa segurança alimentar e energética vai requerer uma transformação radical da sociedade, em particular a mudança de indicadores de desenvolvimento. Indicadores baseados essencialmente na produção, como o PIB, deverão ter um peso menor e indicadores dependentes da qualidade de vida, da sustentabilidade da actividade humana e da preservação do ambiente deverão ter um peso bem mais importante nas sociedades futuras. Produzir menos, para ganhar menos e viver melhor, poderá ser o mote das futuras gerações.

Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra.
Fonte:Esquerda.net

MÍDIA - Imprensa não vê o lado palestino.

Gustavo Chacra, Sderot

Em uma estrada que leva à passagem de Erez, usada para entrar na Faixa de Gaza, dezenas de repórteres e câmeras de TV disputavam um espaço no alto de um morrinho em busca do melhor ângulo para filmar. Jornalistas belgas, japoneses, alemães e israelenses faziam expressão de tensão, como se estivessem em meio a bombardeios, como é o caso de seus colegas da rede de TV Al-Jazira, que tem uma equipe em Gaza. Na realidade, estavam no meio de um pasto diante de jovens soldados israelenses com aparência de cansaço.

As tevês israelenses exibiam imagens da cidade mais alvejada pelos foguetes palestinos. O problema é que, apesar das dezenas de Kassam que caíram sobre Sderot nos últimos anos, a cena não é de destruição, pelo menos para quem já viu cidades como Khiam e Bint Jbeil, no sul do Líbano, após uma guerra que não deixou quase nenhum prédio de pé.

No centro de imprensa, membros da chancelaria israelense dão assistência para conseguir entrevistas e concedem todo o tipo de informação. Autoridades e analistas estão disponíveis para responder a qualquer questão.

A dificuldade da cobertura é que não existe o lado palestino. Ou pelo menos do Hamas, já que a Autoridade Palestina pode ser procurada em Ramallah, na Cisjordânia. Alegando razões de segurança, Israel não permite a entrada de jornalistas na Faixa de Gaza.

A Associação de Imprensa Estrangeira de Israel conseguiu na Justiça que o governo israelense liberasse a entrada de um número reduzido de jornalistas no território palestino.

Em conversa com o Estado, que pediu para ser incluído no grupo, Glenys Sugarman, que dirige a associação, disse que a prioridade será de membros do grupo, que tem um total de 500 filiados - este repórter não integra a organização. Destes, dez poderão se juntar aos jornalistas da Al-Jazira para mostrar o outro lado.
Fonte:CMI/Estadão.

ISRAEL NÃO APRENDE.

A REPETIÇÃO DE UM ERRO

A história tem mostrado que o colonialismo só sobreviveu intacto, quando a maioria dos nativos usurpados foram exterminados. Algumas vezes, como na Argélia ocupada, os colonizadores tiveram de fugir. A prosseguir a violência de Israel sem que nada a detenha, os palestinos não aceitarão nem a solução de um Estado igualitário, e os colonialistas de Israel serão forçados a sair.

Nir Rosen - Al-Jazeera

Quando George Bush, presidente dos EUA, pisou pela primeira vez na Casa Branca como comandante-em-chefe, em 2001, os palestinos estavam sendo mortos na intifada de al-Aqsa. Oito anos depois, quando Bush prepara-se para sair de lá, Israel realiza um dos maiores massacres dos seus 60 anos como potência ocupante, na Palestina. Antes, como hoje, os EUA decididamente apóiam a ofensiva israelense, e dizem, até, que seria defensiva.

Recentemente, um general israelense ameaçou usar força militar para obrigar Gaza a "retroceder décadas", a mesma linguagem usada antes de Israel invadir o Líbano, em 2006. Mas, apesar de Israel ter devastado o Líbano, o Hizbóllah emergiu vitorioso, e o movimento social e de resistência dos xiitas emergiu como herói do mundo árabe. Hoje, Israel está próximo de cometer erro idêntico, na luta contra o Hamás.

Israel, para assinar uma trégua com o Hamás, exige que os palestinos aceitem, mudos e imóveis, qualquer tipo de bloqueio ou sítio. Israel negou-lhes até os meios mais básicos para a sobrevivência e, isso, sem falar que sempre lhes negou qualquer chance de construírem uma sociedade funcional. E a cada movimento de resistência, Israel tentou esmagá-los.

Já no Líbano, há anos, Israel deveria ter aprendido, de uma vez por todas, que a força militar não basta, para destruir a resistência dos palestinos.

O papel da mídia
O exército israelense chacina, depois de ter aprisionado, a população de 1,5 milhão de seres humanos que vive em Gaza, e o Ocidente assiste ao sacrifício dos palestinos. A mídia opera para explicar, quando não para justificar, a carnificina em cores.

Até no mundo árabe houve noticiários e comentaristas para informar que o poder de fogo da resistência palestina - praticamente rojões, todos de fabricação caseira - seria grave ameaça à portentosa máquina militar que Israel é, mais do que comanda ou possui.

Pois nada disso é surpresa; os israelenses montaram uma campanha global de propaganda para obter apoio para o assalto, e até conseguiram, sim, a colaboração de alguns Estados árabes.

Um jornal norte-americano convidou-me certa vez para uma discussão sobre se haveria caso ou circunstância em que se justificasse o terrorismo ou o ataque militar a populações civis. Respondi que nenhum jornal norte-americano deveria perguntar a mim sobre justificativas para ataques a civis desarmados. Que essa pergunta só poderia ser respondida por, e portanto só poderia ser feita a, civis que algum dia tivessem sofrido ataque militar: pelos índios nos EUA, há 150 anos; pelos judeus, na Alemanha Nazista; pelos palestinos, hoje.

Terrorismo é termo que se usa hoje, doentiamente, para descrever o que 'outros' fazem, não para descrever o que 'nós' fazemos. Nações poderosas, como Israel, os EUA, a Rússia ou a China, sempre descrevem como "terrorismo" a luta de resistência que seja feita, contra as nações poderosas, pelas suas vítimas.

Estranhamente, não dizem que seria ato de terrorismo a destruição da Chechênia, o massacre lento do que resta dos palestinos, a repressão aos tibetanos e a ocupação, pelos EUA, do Iraque e do Afeganistão.

As mesmas nações, porque são potências militares, definem o que seja legal e permitido, no que tange a matar em grande escala. As mesmas nações formulam o conceito de terrorismo, criam leis terroristas, e fazem parecer que alguma corte neutra houvesse definido alguma espécie de lei do opressor, do ocupante, do invasor, do assassino.

Assim se torna ilegal, por definição, que o oprimido, o ocupado, o invadido, o mais fraco resista.

O uso excessivo do jargão judiciário e legalista de fato mina os fundamentos do que é legítima e verdadeiramente legal e diminui a credibilidade das instituições internacionais como a ONU. A lei passa a ser inimiga dos que resistam.

Já é visível que os poderosos - os que escrevem as leis - insistem na legalidade apenas para preservar relações de poder que lhes sirvam ou para criar ou para manter relações de ocupação e de colonialismo.

Resistência desesperada
Os poderes coloniais sempre usam estrategicamente as populações civis. Sempre cabe a civis ocupar terras e deslocar as populações nativas, sejam as populações indígenas nos EUA, sejam palestinos no que hoje são Israel e os Territórios Ocupados.

Assim surgem os grupos civis armados, em movimento desesperado de resistência, porque a resistência local grupal passa a ser o único modo de enfrentar a ameaça sempre iminente da erradicação.

Os palestinos não atacam civis israelenses porque esperem que aquela violência derrote ou destrua Israel. Eles recorreram à resistência armada quando perceberam que há uma dinâmica poderosíssima, quase irreversível, que os quer extrair da própria terra e da própria identidade, apoiada num poder que parece ser incomensuravelmente maior do que qualquer resistência. Então, sim, recorreram às armas, como qualquer um recorreriam a qualquer meio que encontrasse.

OLP, depois Hamás
Em 1948, quando Israel implantou-se como um novo Estado, houve um processo de 'limpeza étnica' de 750 mil palestinos, deliberadamente arrancados de suas casas; centenas de vilas foram destruídas até serem reduzidas a pó.

A terra que ali havia foi entregue a colonos judeus que até hoje negam que ali existissem palestinos e fazem guerra, há 60 anos, contra as populações nativas e contra todos os movimentos de libertação nacional que os palestinos organizaram por todo o mundo.

Israel, seus aliados no Ocidente e vários países árabes na região conseguiram corromper as lideranças da OLP, com promessas de poder, ao preço da liberdade da Palestina. Assim, Israel neutralizou o poder legítimo da OLP de Arafat e surgiu a OLP que passou a colaborar com a Israel ocupante. Dos restos da OLP de Arafat nasceu então o Hamás. Imediatamente, Israel mudou seu foco: o alvo, então, passou a ser o Hamás.

E o Hamás passou a ser obsessão, para Israel quando, há três anos, venceu as eleições legislativas.

Ao apoiar o boicote e o sítio de Gaza, para atacar o Hamás, o Ocidente, de fato, declara os palestinos 'não preparados' para a democracia. Todas as ditaduras do mundo, até hoje, fizeram, sempre, igual 'avaliação'.

Isolamento e radicalização
Ao declarar aos palestinos que não são livres para votar e escolher seus líderes, líderes nos quais confiam, e têm de curvar-se e aceitar líderes que lhes sejam impostos, a comunidade internacional aprofunda o isolamento – e portanto os leva a radicalização cada vez maior dos palestinos.

Essa radicalização já é hoje maior do que jamais foi, porque Israel continua a bombardear a já precaríssima estrutura de sobrevivência na Palestina ocupada, sob o pretexto falso, como se vê, de estar atacando estruturas do Hamás.

É mentira sobre mentira; as forças de Israel bombardearam instalações da Polícia palestina. Já assassinaram, dentre outros, Tawfiq Jaber, Chefe da Polícia, ex-oficial da OLP de Arafat, que permaneceu no cargo depois que o Hamás foi eleito.

Com o fim dos últimos vestígios de ordem e segurança debilitados ainda mais por sucessivos ataques militares israelenses, haverá caos, em Gaza. Com o Hamás muito enfraquecido, não haverá grupo moderador.

Então, assumirá o poder, não alguma Fatah debilitada, corrompida e impopular, mas um grupo extremista, persuadido pela violência do bloqueio e pela brutalidade dos ataques israelenses, de que nenhuma negociação se pode esperar, que não se pode confiar, porque todo e qualquer acordo sempre será rompido por Israel.

Políticas fracassadas
Nos últimos 60 anos, os políticos israelenses têm incansavelmente repetido que "a violência é a única linguagem que os árabes entendem." Mas Israel, muito mais que os árabes, tem feito da violência, rotina. Na Cúpula Árabe em Beirute, em 2002, a Liga Árabe, coletivamente, ofereceu meios a Israel para pôr fim ao banho de sangue e evoluiu para um acordo de paz regional amplo. Em resposta, Israel invadiu Jenin e matou centenas.

Mês passado, a Fatah lançou campanha, pelos jornais, para reviver a Iniciativa de Paz de 2002. Israel, outra vez, respondeu com brutalidade.

Uma Israel sionista já não é projeto viável. E as colônias armadas, a expropriação violenta de terras e os muros de separação já tornaram impossível qualquer Solução dos Dois Estados.

Só pode haver um Estado, na Palestina histórica. Mais dia, menos dia, os israelenses terão de enfrentar a questão que decidirá seu destino: como construir uma transição pacífica e construir, afinal, uma sociedade de palestinos e israelenses, sociedade igualitária, na qual os palestinos tenham os mesmos direitos que os israelenses.

Mais alguns anos de violência desmedida, nem essa alternativa será possível.

A história tem mostrado que o colonialismo só sobreviveu intacto, quando a maioria dos nativos usurpados foram exterminados. Algumas vezes, como na Argélia ocupada, os colonizadores tiveram de fugir. A prosseguir a violência de Israel sem que nada a detenha, os palestinos não aceitarão nem a solução de um Estado igualitário, e os colonialistas de Israel serão forçados a sair.

Restaurar a Palestina
Apesar de nada fazer na direção de qualquer processo de paz para o Oriente Médio, a Casa Branca, nos anos recentes tem-se mostrado incapaz de resolver o nó da ocupação da Palestina por Israel, principal causa que põe em armas todos os militantes anti-americanos no mundo árabe e fora do mundo árabe.

O anti-americanismo é o denominador comum que modula todos os discursos populistas, no Oriente Médio. Invadir o Iraque ou oferecer vantagens a Estados aliados, não ajudará a resolver o problema em que os EUA converteram em problema quase insolúvel para todo o mundo.

Nas minhas viagens e pesquisas, tenho falado com jihadistas no Iraque, no Líbano, no Afeganistão, na Somália e em outros lugares: todos falam da luta dos palestinos como sua de suas principais motivações.

O apoio a Israel custará muito caro aos EUA. Em breve, as ditaduras árabes, que os EUA consideram moderadas e que contribuem para manter a hegemonia dos EUA na região perceberão que, elas mesmas, estão em posição insustentável.

Perda de prestígio
Já se vêem aparecer novas tensões na região. Damasco retirou-se das conversações tripartites com Telavive. Muitos árabes já temem, não só Israel ou os EUA ou ambos, mas, mais, a própria instabilidade interna de seus governos e regimes, enfraquecidos por décadas de colaboração com Washington.

Também em Israel, a opinião pública começa a apresentar tendências novas. Embora 81% dos israelenses estejam hoje apoiando a guerra, pesquisa recente mostrava que apenas 39% dos israelenses acreditam que o atual governo, com guerra ou sem, conseguirá enfraquecer o Hamás ou reduzir a violência.

Em editorial, há poucos dias, o jornalista Gideon Levy escreveu, no Haaretz, de Telaviv, editorial intitulado "The neighborhood bully strikes again" ("O delinquente do quarteirão ataca novamente" (28/12/2008).

Barack Obama, presidente eleito dos EUA permanece mudo, enquanto Israel assassina palestinos. A mudez é manifestação de cumplicidade.

(*) Nir Rosen é jornalista, professor do New York University Center on Law and Security, autor de "The Triumph of the Martyrs: A Reporter's Journey in to Occupied Iraq" (escrevendo de Beirute).

Publicado originalmente na Al-Jazeera/Agência Carta Maior.

ABBAS ESTÁ TORCENDO PELA QUEDA DO HAMAS.

Não podemos esquecer que o Sr. Abbas é um testa-de-ferro dos israelenses e americanos e que o verdadeiro representante do povo palestino é o Hamas, eleito democráticamente em 2006.
Carlos Dória.

Abbas ordenou a formação de uma equipe de emergência para governar Gaza após a queda O chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, ordenou aos seus oficiais em Ramalá, um dia após o maciço ataque aéreo israelense à Faixa de Gaza que formassem uma equipe de emergência agrupando o ministro do Interior e comandantes das forças de segurança a fim de estarem prontos para tomar o controle dos assuntos de Gaza quando o Hamas for derrubado, revelou um relatório secreto obtido pelo PIC.

O relatório acrescentava que Abbas, que estava no Cairo a caminho da Arábia Saudita, disse que coordenaria suas posições com o regime egípcio para enfrentar quaisquer mudanças em Gaza a seguir à operação das forças armadas israelenses.

O relatório destacou que se espera o retorno de Abbas ao Cairo para este assunto.

Enquanto isso, fontes em Ramalá contaram ao PIC que Nimir Hammad, o conselheiro de Abbas, telefonou a Amos Gilad, coordenador israelense das operações nos territórios ocupados e conselheiro político do ministro da Guerra Ehud Barak, no sábado à noite.

Hammad, segundo as fontes, disse a Gilad que a Autoridade Palestina acredita que Israel em o direito de atacar e liquidar o Hamas mas pedia para centrar os seus ataques sobre as sedes e escritórios do Hamas e tanto quanto possível evitar alvo civis.

Masri: Abbas sabia a data do ataque

O deputado Mushir Al-Masri, do Hamas, acusou Abbas de ter conhecimento prévio do ataque militar israelense e da sua data exacta.

Ele acrescentou num comunicado de imprensa que a informação não era um segredo, mas notou que Abbas deixou as terras palestinas pelas da Arábia Saudita pouco antes de começar o ataque israelense e que ele é conhecido por deixar a Palestina sempre que sucede algum grande acontecimento.

Os ataques aéreos israelenses em andamento desde sábado já mataram 180 palestinos e feriram outros 1750, incluindo 300 em condições sérias.
[ 30/12/2008 - 12:54 PM ]
[*] Palestinian Information Center.

O original encontra-se em http://www.palestine-info.co.uk/en/default.aspx

Esta notícia encontra-se em http://resistir.info/ .

USO DE FORÇAS PARAMILITARES E DE TROPAS MERCENÁRIAS.

Jean-Guy Allard

ENQUANTO centenas de milhares de norte-americanos são demitidos de seus empregos por causa da crise econômica que abala o país, a administração Bush, já no fim de seu mandato, ordena o Pentágono de criar forças militares "irregulares" ou paramilitares — inclusive clandestinas ou de exércitos estrangeiros — como tropas regulares.

Segundo informações reveladas pelo The Washington Post, o secretário adjunto da Defesa, Gordon England, assinou uma importante norma dirigida ao Pentágono, com a qual legitima e orienta a criação acelerada de forças chamadas irregulares e emite disposições para reforçar e estender os planos já encaminhados pelo exército.

Segundo o jornal, a ordem executiva afirma textualmente que o Pentágono deve aumentar a capacidade combativa com métodos não-convencionais, tais como, "forças de segurança estrangeiras, suplentes ou de movimentos de resistência indígena para apoiar estados fracos, estender o alcance das tropas norte-americanas em zonas denegadas ou combater regimes hostis".

Num estilo típico da atual administração, o documento sustenta-se na necessidade de combater o "terrorismo" para justificar intervenções ilegais em nações soberanas.

"Os inimigos sempre dizem que é melhor enfrentarmo-nos de maneira assimétrica", declarou o subsecretário da Defesa para as operações especiais de baixa intensidade, Michael G. Vickers.

Esta política, atualmente oficial, foi concebida a partir das lições "a miúdo, dolorosas", sofridas pelos militares norte-americanos no Iraque e no Afeganistão e para prevenir erros cometidos depois da guerra do Vietnã, "quando as capacidades de luta da contra-insurgência se debilitaram".

O texto, de 12 páginas, expressa que a guerra irregular é "estrategicamente tão importante quanto a tradicional", definindo-a como uma "luta violenta entre atores estatais e não-estatais para a legitimidade e influência numa determinada população", que tem como propósito "minar o poder, a influência e a vontade do inimigo".

Segundo o jornal, um dos propósitos dos líderes é que as tropas norte-americanas participem menos dos combates, e desenvolver a capacidade das forças militares e de "segurança" estrangeiras.

Instando o Pentágono a ampliar suas muitas operações de espionagem e de penetração dos aparelhos governamentais e das forças armadas de outros países, Vickers sublinhou que o exército norte-americano deve tornar-se "uma rede global, com militares norte-americanos e estrangeiros, e com pessoal governamental, em numerosos países, com os quais os EUA não estão em guerra".

O objetivo, explicou abertamente o funcionário, é "criar uma presença constante e onipresente contra os nossos inimigos... isto é, tentar curvá-los no decurso do tempo".

Parte da estratégia é desenvolver habilidades para os idiomas estrangeiros entre os militares, e treinar as tropas estrangeiras.

Os contribuintes norte-americanos, asfixiados pelos gastos do Estado, souberam que se investirá mais dinheiro na ampliação das chamadas Forças Especiais, as famosas ‘Boinas Verdes’, conhecidas pelas suas operações ilegais na América Latina. Também aumentará o orçamento dos serviços militares de inteligência e vigilância, bem como os serviços de aviação para a aquisição de aviões especiais concebidos para a guerra irregular.

A aplicação das novas normas bushistas é responsabilidade do Comando de Operações Especiais, radicado em Tampa, Flórida."
Fonte:Gramna.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

DOCUMENTO ESCRITO EM 1947 - COMO OS ÁRABES VÊEM OS JUDEUS.

Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

COMO OS ÁRABES VÊEM OS JUDEUS

Atualizado em 01 de janeiro de 2009 às 13:44 | Publicado em 01 de janeiro de 2009 às 11:28

Como os árabes vêem os judeus
S.M., Rei Abdállah I, 1947

REI ABDÁLLAH I - "As the Arabs see the Jews". The American Magazine, novembro, 1947. E na internet, em http://politics.propeller.com/story/2006/08/03/as-the-arabs-see-the-jews/, em inglês, com a seguinte introdução: “Esse fascinante ensaio, escrito pelo avô do rei Hussein, Rei Abdállah I, foi publicado nos EUA seis meses antes do início da Guerra de 1948, entre israelenses e palestinenses". Tradução de trabalho, para finalidades acadêmicas, sem valor comercial. (Leitura sugerida pelo Embaixador Arnaldo Carrilho, em palestra em São Paulo, em 2007).
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É prazer especial dirigir-me ao público norte-americano, porque o trágico problema da Palestina não será jamais resolvido sem a simpatia dos norte-americanos, sem seu apoio, sem que compreendam.

Já se escreveram contudo tantas palavras sobre a Palestina – é talvez o assunto sobre o qual mais se escreveu em toda a história –, que hesito. Mas tenho de falar, porque acabei por concluir que o mundo em geral, e os EUA em especial, sabem praticamente nada sobre a causa pela qual os árabes realmente lutam.

Nós, árabes, acompanhamos a imprensa dos EUA, talvez muito mais do que os senhores pensem. E nos perturba muito constatar que, para cada palavra impressa a favor dos árabes, imprimem-se mil a favor dos sionistas. Há muitas razões para que isto aconteça.

Vivem nos EUA milhões de cidadãos judeus interessados nesta questão. Eles têm vozes fortes, falam muito e conhecem bem os recursos da divulgação de notícias. E há poucos cidadãos árabes nos EUA, e ainda não conhecemos bem as técnicas da propaganda moderna.

Os resultados disto têm sido alarmantes. Vemos na imprensa dos senhores uma horrível caricatura de nós mesmos e lemos que aquele seria nosso verdadeiro retrato. Para que haja justiça, não podemos deixar que esta caricatura seja tomada por nosso retrato verdadeiro.

Nosso argumento é bem simples: por quase 2.000 anos, a Palestina foi quase 100% árabe. Ainda é preponderantemente árabe, apesar do enorme número de judeus imigrantes. Mas se continuar a imigração em massa, em pouco tempo seremos minoria em nossa própria casa.

A Palestina é país pequeno e muito pobre, quase do tamanho do estado de Vermont. A população árabe é de apenas 1,2 milhão de pessoas. E fomos obrigados a receber, contra nossa vontade, cerca de 600 mil judeus sionistas. E nos ameaçam com muitos mais centenas de milhares.

Nossa posição é tão simples e natural, que surpreende que tenha sido questionada. É exatamente a mesma posição que os EUA adotaram em relação aos infelizes judeus europeus. Os senhores lamentam que eles sofram o que sofrem hoje, mas não os querem em seu país.

Tampouco nós os queremos em nosso país. Não porque sejam judeus, mas porque são estrangeiros. Não queremos centenas de milhares de estrangeiros em nosso país, sejam ingleses, noruegueses, brasileiros, o que sejam.

Pensem um pouco: nos últimos 25 anos, fomos obrigados a receber população equivalente a um terço do total de habitantes nativos. Nos EUA, seria o mesmo que o país ser obrigado a receber 45 milhões de estrangeiros, contra a vontade dos norte-americanos, desde 1921. Como os senhores reagiriam a isto?

Por nossa reação perfeitamente natural, contra sermos convertidos em minoria em nossa terra, somos chamados de nacionalistas cegos e anti-semitas impiedosos. A acusação seria cômica, se não fosse tão perigosa.

Nenhum povo da Terra jamais foi menos anti-semita que os árabes. Os judeus sempre foram perseguidos quase exclusivamente por nações ocidentais e cristãs. Os próprios judeus têm de admitir que nunca, desde a Grande Diáspora, os judeus desenvolveram-se com tanta liberdade e alcançaram tanta importância quanto na Espanha enquanto a Espanha foi possessão árabe. Com pequenas exceções, os judeus viveram durante séculos no Oriente Médio, em completa paz e amizade com seus vizinhos árabes.

Damasco, Bághdade, Beirute e outros centros árabes sempre incluíram grandes e prósperas comunidades de judeus. Até o início da invasão sionista na Palestina, estes judeus receberam tratamento mais generoso – muito, muito mais generoso - do que o que receberam na Europa cristã. Hoje, infelizmente, pela primeira vez na história, aqueles judeus começam a sentir os efeitos da resistência árabe ao assalto sionista. Muitos judeus estão tão ansiosos quanto os árabes e querem o fim do conflito. Muitos destes judeus que encontram lar acolhedor entre nós ressentem-se, como nós, com a chegada de tantos estrangeiros.

Por muito tempo intrigou-me muito a estranha crença, que aparentemente persiste nos EUA, segundo a qual a Palestina sempre teria sido, de algum modo, “terra dos judeus”. Recentemente, conversando com um norte-americano, desfez-se o mistério. Disse-me ele que a maioria dos norte-americanos só sabem, sobre a Palestina, o que lêem na Bíblia. Dado que havia uma terra dos judeus no tempo de que a Bíblia fala, pensam eles, concluem que nada tenha mudado desde então.

Nada poderia ser mais distante da verdade. E, perdoem-me, é absurdo recorrer ao alvorecer da história, para concluir sobre quem ‘mereceria’ ser dono da Palestina de hoje. Contudo, os judeus fazem exatamente isto, e tenho de responder a este “clamor histórico”. Pergunto-me se algum dia houve no mundo fenômeno mais estranho do que um grupo de pessoas pretenderem, seriamente, reclamar direitos sobre uma terra, sob a alegação de que seus ancestrais ali teriam vivido há 2.000 anos!

Se lhes parecer que argumento em causa própria, convido-os a ler a história documentada do período e verificar os fatos.

Registros fragmentados, que são os que há, indicam que os judeus viviam como nômades e chegaram do sul do Iraque ao sul da Palestina, onde permaneceram por pouco tempo; e então moveram-se para o Egito, onde permaneceram por cerca de 400 anos. À altura do ano 1300 a.C. (pelo calendário ocidental), deixaram o Egito e gradualmente dominaram alguns – mas não todos – os habitantes da Palestina.

É significativo que os Filistinos – não os judeus – tenham dado nome ao país. “Palestina” é, simplesmente, a forma grega equivalente a “Philistia”.

Só uma vez, durante o império de David e Salomão, os judeus chegaram a controlar quase toda – mas não toda – a terra que hoje corresponde à Palestina. Este império durou apenas 70 anos e terminou em 926 a.C. Apenas 250 anos depois, o Reino de Judá já estava reduzido a uma pequena província em torno de Jerusalém, com território equivalente a 1/4 da Palestina de hoje.

Em 63 a.C., os judeus foram conquistados pelo romano Pompeu, e nunca mais voltaram a ter nem vestígio de independência. O imperador Adriano, romano, finalmente os subjugou em circa 135 d.C. Adriano destruiu Jerusalém, reconstruiu-a sob outro nome e, por centenas de anos, nenhum judeu foi autorizado a entrar na cidade. Poucos judeus permaneceram na Palestina; a enorme maioria deles foram assassinados ou fugiram para outros países, na Diáspora, ou Grande Dispersão. Desde então, a Palestina deixou de ser terra dos judeus, por qualquer critério racional admissível.

Isto aconteceu há 1.815 anos. E os judeus ainda aspiram solenemente à propriedade da Palestina! Se se admitir este tipo de fantasia, far-se-á dançar o mapa do mundo!

Os italianos reclamarão a propriedade da Inglaterra, que os romanos dominaram por tanto tempo. A Inglaterra poderá reclamar a propriedade da França, “pátria” dos normandos conquistadores. Os normandos franceses poderão reclamar a propriedade da Noruega, “pátria” de seus ancestrais. Os árabes, além disto, poderemos reclamar a propriedade da Espanha, que dominamos por 700 anos.

Muitos mexicanos reclamarão a propriedade da Espanha, “pátria” de seus pais ancestrais. Poderão exigir a propriedade também do Texas, que pertenceu aos mexicanos até há 100 anos. E imaginem se os índios norte-americanos reclamarem a propriedade da terra da qual foram os únicos, nativos, ancestrais donos, até há apenas 450 anos!

Nada há de caricato, aí. Todas estas aspirações e demandas são tão válidas e justas – ou tão fantasiosas – quanto a “ligação histórica” que os judeus alegam ter com a Palestina. Muitas outras ligações históricas são muito mais válidas do que esta.

De qualquer modo, a grande expansão muçulmana, dos anos 650 d.C., definiu tudo e dominou completamente a Palestina. Daquele tempo em diante, a Palestina tornou-se completamente árabe, em termos de população, de língua e de religião. Quando os exércitos britânicos chegaram à Palestina, durante a última guerra, encontraram 500 mil árabes e apenas 65 mil judeus.

Se uma sólida e ininterrupta ocupação árabe, por 1.300 anos, não torna árabe um país... o que mais seria preciso?

Os judeus dizem, com razão, que a Palestina é a terra de sua religião. Parece ser o berço da cristandade. Mas, que outra nação cristã faz semelhante reivindicação? Quanto a isto, permitam-me lembrar que os cristãos árabes – e há muitas centenas de milhares de cristãos árabes no mundo árabe – concordam absolutamente com todos os árabes, e opõem-se, também, à invasão sionista da Palestina.

Permitam-me acrescentar também que Jerusalém, depois de Meca e Medina, é a cidade mais sagrada no Islam. De fato, nos primórdios de nossa religião, os muçulmanos rezávamos voltados para Jerusalém, não para Meca.

As “exigências religiosas” que os judeus fazem, em relação à Palestina, são tão absurdas quanto as “exigências históricas”. Os Lugares Santos, sagrados, para três grandes religiões, devem ser abertos a todos, não monopólio de qualquer delas. E não confundamos religião e política.

Tomam-nos por desumanos e sem coração, porque não aceitamos de braços abertos talvez 200 mil judeus europeus, que sofreram tão terrivelmente a crueldade nazista e que ainda hoje – quase três anos depois do fim da guerra – ainda definham em campos gelados, deprimentes. Permitam-me destacar alguns fatos.

A inimaginável perseguição aos judeus não foi obra dos árabes: foi obra de uma nação cristã e ocidental. A guerra que arruinou a Europa e tornou impossível que estes judeus se recuperassem foi guerreada exclusivamente entre nações cristãs e ocidentais. As mais ricas e mais vazias porções do planeta pertencem, não aos árabes, mas a nações cristãs e ocidentais.

Mesmo assim, para acalmar a consciência, estas nações cristãs e ocidentais pedem à Palestina – país muçulmano e oriental muito pequeno e muito pobre – que aceite toda a carga. “Ferimos terrivelmente esta gente”, grita o Ocidente para o Oriente. “Será que vocês podem tomar conta deles, por nós?” Não vemos aí nem lógica nem justiça. Não somos, os árabes, “nacionalistas cruéis e sem coração”?

Os árabes somos povo generoso: nos orgulhamos de “a hospitalidade árabe” ser expressão conhecida em todo o mundo. Somos solidários: a ninguém chocou mais o terror hitlerista do que aos árabes. Ninguém lastima mais do que os árabes o suplício pelo qual passam hoje os judeus europeus.

Mas a Palestina já acolheu 600 mil refugiados. Entendemos que ninguém pode esperar mais de nós – nem poderia esperar tanto. Entendemos que é chegada a vez de o resto do mundo acolher refugiados, alguns deles, pelo menos.

Serei completamente franco. Há algo que o mundo árabe simplesmente não entende. Dentre todos os países, os EUA são os que mais pedem que se faça algo pelos judeus europeus sofredores. Este pedido honra a humanidade pela qual os EUA são famosos e honra a gloriosa inscrição que se lê na Estátua da Liberdade.

Contudo, os mesmos EUA – a nação mais rica, maior, mais poderosa que o mundo jamais conheceu – recusa-se a receber mais do que um pequeníssimo grupo daqueles mesmos judeus!

Espero que os senhores não vejam amargura no que digo. Tentei arduamente entender este misterioso paradoxo. Mas confesso que não entendo. Nem eu nem nenhum árabe.

Talvez tenham ouvido dizer que “os judeus europeus querem ir para a Palestina e nenhum outro lugar lhes interessa.”

Este mito é um dos maiores triunfos de propaganda, da Agência Judaica para a Palestina, a organização que promove com zelo fanático a emigração para a Palestina. É sutil meia-verdade; portanto, é duplamente perigosa.

A estarrecedora verdade é que ninguém no mundo realmente sabe para onde estes infelizes judeus realmente querem ir!

Imaginar-se-ia que, tratando-se de questão tão grave, os americanos, ingleses e demais autoridades responsáveis pelos judeus europeus teriam pesquisado acurada e cuidadosamente – talvez por votos –, para saber para onde cada judeu realmente deseja ir. Surpreendentemente, jamais se fez qualquer levantamento ou pesquisa! A Agência Judaica para a Palestina impediu-o.

Há pouco tempo, numa conferência de imprensa, alguém perguntou ao Comandante Militar norte-americano na Alemanha o que lhe dava tanta certeza de que todos os judeus quisessem ir para a Palestina. Sua resposta foi simples: "Fui informado por meus assessores judeus.” Admitiu que não houvera qualquer votação ou levantamento. Houve preparativos para uma pesquisa, mas a Agência Judaica para a Palestina fez parar tudo.

A verdade é que os judeus, nos campos de concentração alemães, estão hoje sob intensa pressão de uma campanha sionista, por métodos aprendidos do terror nazista. É perigoso, para qualquer judeu, declarar que prefere outro destino que não seja a Palestina. Estas vozes dissonantes têm sofrido espancamentos severos e castigos ainda piores.

Também há pouco tempo, na Palestina, cerca de 1.000 judeus austríacos informaram à organização internacional de refugiados que gostariam de voltar à Áustria e já se planejava o seu repatriamento. Mas a Agência Judaica para a Palestina soube destes planos e aplicou forte pressão política para que o repatriamento não acontecesse. Seria má propaganda, contrária aos interesses sionistas, que houvesse judeus interessados em deixar a Palestina. Os cerca de 1.000 austríacos ainda estão lá, contra a vontade deles.

O fato é que a maioria dos judeus europeus são ocidentais, em termos de cultura e práticas de vida, com experiência e hábitos urbanos. Não são pessoas das quais se deva esperar que assumam o trabalho de pioneiros, na terra dura, seca, árida da Palestina.

Mas é verdade, sim, pelo menos um fato. Como estão postas hoje as opções, a maioria dos judeus europeus refugiados, sim, votarão por serem mandados para a Palestina, simplesmente porque sabem que nenhum outro país os acolherá.

Se os senhores ou eu tivermos de escolher o campo de prisioneiros mais próximo, para ali vivermos a vida que nos reste, ou a Palestina, sem dúvida também escolheríamos a Palestina.

Mas dêem alternativas aos judeus, qualquer outra possibilidade, e vejam o que acontece!

Contudo, nenhuma pesquisa ou escolha terá alguma utilidade, se as nações do mundo não se mostrarem dispostas a abrir suas portas – um pouco, que seja – aos judeus. Em outras palavras, se, consultado, algum judeu disser que deseja viver na Suécia, a Suécia deverá estar disposta a recebê-lo. Se escolher os EUA, os senhores terão de permitir que venha para cá.

Qualquer outro tipo de consulta ou pesquisa será farsa. Para os judeus desesperados, não se trata de pesquisa de opinião: para eles, é questão de vida ou morte. A menos que tenham certeza de que sua escolha significará alguma coisa, os judeus continuarão a escolher a Palestina, para não arriscarem o único pássaro que já têm em mãos, por tantos que voam tão longe.

Seja como for, a Palestina já não pode aceitar mais judeus. Os 65 mil que havia na Palestina em 1918, saltaram hoje para 600 mil. Nós árabes também crescemos, em número, e não por imigração. Os judeus eram apenas 11% da população, naquele território. Hoje, são um terço.

A taxa de crescimento tem sido assustadora. Em poucos anos – a menos que o crescimento seja detido agora – haverá mais judeus que árabes, e seremos significativa minoria em nossa própria terra.

Não há dúvida de que o planeta é rico e generoso o bastante para alocar 200 mil judeus – menos de um terço da população que a Palestina, minúscula e pobre – já abriga. Para o resto do mundo, serão mais alguns. Para nós, será suicídio nacional.

Dizem-nos, às vezes, que o padrão de vida árabe melhorou, depois de os judeus chegarem à Palestina. É questão complicada, dificílima de avaliar.

Mas, apenas para argumentar, assumamos que seja verdade. Neste caso, talvez fôssemos um pouco mais pobres, mas seríamos donos de nossa casa. Não é anormal preferirmos que assim seja.

A triste história da chamada Declaração de Balfour, que deu início à imigração dos sionistas para a Palestina, é complicada demais para repeti-la aqui, em detalhes. Baseia-se em promessas feitas aos árabes e não cumpridas – promessas feitas por escrito e que não se podem cancelar.

Declaramos que aquela declaração não é válida. Declaradamente negamos o direito que teria a Grã-Bretanha de ceder terra árabe para ser “lar nacional” de um povo que nos é completamente estranho.

Nem a sanção da Liga das Nações altera nossa posição. Àquela altura, nenhum país árabe era membro da Liga. Não pudemos dizer sequer uma palavra em nossa defesa.

Devo dizer – e, repito, em termos de franqueza fraterna –, que os EUA são quase tão responsáveis quanto a Grã-Bretanha, por esta Declaração de Balfour. O presidente Wilson aprovou o texto antes de ser dado a público, e o Congresso dos EUA aprovou-o, palavra por palavra, numa resolução conjunta de 30 de junho de 1922.

Nos anos 1920, os árabes foram perturbados e insultados pela imigração dos sionistas, mas ela não nos alarmou. Era constante, mas limitada, como até os sionistas pensavam que continuaria a ser. De fato, durante alguns anos, mais judeus deixaram a Palestina, do que chegaram – em 1927, os que partiram foram o dobro dos que chegaram.

Mas dois novos fatores, que nem os britânicos nem a Liga nem os EUA e nem o mais fervoroso sionista considerou, começaram a pesar neste movimento, no início dos anos 30, e fizeram a imigração subir a patamares jamais imaginados. Um, foi a Grande Depressão mundial; o outro, a ascensão de Hitler.

Em 1932, um ano antes de Hitler tomar o poder, só 9.500 judeus chegaram à Palestina. Não os consideramos bem-vindos, mas não tememos que, àquele ritmo, ameaçassem nossa sólida maioria árabe. Mas no ano seguinte – o ano de Hitler –, o número saltou para 30 mil. Em 1934, foram 42 mil! Em 1935, 61 mil!

Já não era a chegada ordeira de idealistas sionistas. Em vez disto, a Europa jorrava sobre nós levas de judeus assustados. Então, sim, afinal, nos preocupamos. Sabíamos que, a menos que se detivesse aquele fluxo gigantesco, seria a catástrofe para nós, os árabes, em nossa pátria palestina. Ainda pensamos assim.

Parece-me que muitos norte-americanos crêem que os problemas da Palestina são remotos, que estão muito distantes deles, que os EUA nada têm a ver com o que lá acontece, que o único interesse dos EUA é oferecer apoio humanitário.

Creio que os norte-americanos ainda não viram o quanto, como nação, são responsáveis em geral por todo o movimento sionista e, especificamente, pelo terrorismo de hoje. Chamo-lhes a atenção para isto, porque tenho certeza de que, se se aperceberem da responsabilidade que lhes cabe, agirão com justiça e saberão admiti-la e assumi-la.

Sem o apoio oficial dos EUA ao Lar Nacional preconizado por Lorde Balfour, as colônias sionistas seriam impossíveis na Palestina, como seria impossível qualquer empreitada deste tipo e nesta escala, sem o dinheiro norte-americano. Este dinheiro é resultado da contribuição dos judeus norte-americanos, num esforço pleno de ideais, para ajudar outros judeus.

O motivo foi digno: o resultado foi desastroso. As contribuições foram oferecidas por indivíduos, entidades privadas, mas foram praticamente, na totalidade, contribuições de norte-americanos, e, como nação, só os EUA podem responder por elas.

A catástrofe que estamos vivendo pode ser deposta inteira, ou quase inteira, à porta de suas casas. Só o governo norte-americano, voz quase única em todo o mundo, insiste que a Palestina admita mais 100 mil judeus – depois dos quais incontáveis outros virão. Isto terá as mais gravíssimas conseqüências e gerará caos e sangue como jamais houve na Palestina.

Quem clama por esta catástrofe – voz quase única no mundo – são a imprensa dos EUA e os líderes políticos dos EUA. É o dinheiro dos EUA, quase exclusivamente, que aluga ou compra os “navios de refugiados” que zarpam ilegalmente para a Palestina: as tripulações são pagas com dinheiro dos EUA. A imigração ilegal da Europa é montada pela Agência Judeus Americanos, que é mantida quase exclusivamente por fundos norte-americanos. São dólares norte-americanos que mantêm os terroristas, que compram as balas e as pistolas que matam soldados ingleses – aliados dos EUA – e cidadãos árabes – amigos dos EUA.

Surpreendeu-nos muito, no mundo árabe, saber que os norte-americanos admitem que se publiquem abertamente nos jornais anúncios à procura de dinheiro para financiar aqueles terroristas, para armá-los aberta e deliberadamente para assassinarem árabes. Não acreditamos que realmente estivesse acontecendo no mundo moderno. Agora, somos obrigados a acreditar: já vimos estes anúncios com nossos próprios olhos.

Falo sobre tudo isto, porque só a franqueza mais completa pode ser-nos útil. A crise é grave demais para que nos deixemos deter por alguma polidez vaga, que nada significa.

Tenho a mais completa confiança na integridade de consciência e na generosidade do povo norte-americano. Nós, árabes, não lhes pedimos qualquer favor. Pedimos apenas que ouçam, para conhecer a verdade inteira, não apenas metade dela. Pedimos apenas que, ao julgarem a questão palestina, ponham-se, todos, no lugar em que estamos, nós, os palestinos.

Que resposta dariam os norte-americanos, se alguma agência estrangeira lhes dissesse que teriam de aceitar nos EUA muitos milhões de estrangeiros – em número bastante para dominar seu país – meramente porque eles insistem em vir para os EUA e porque seus ancestrais viveram aqui há 2.000 anos?

Nossa resposta é a mesma.

E o que farão os norte-americanos se, apesar de terem-se recusado a receber esta invasão, uma agência estrangeira começar a empurrá-los para dentro dos EUA?

Nossa resposta será a mesma.
Fonte:Blog Vi o Mundo.

ORIENTE MÉDIO -EUA E UE são cúmplices do massacre em Gaza.

O artigo abaixo explica porque o Hamas tem a popularidade que tem entre os palestinos.Esse partido venceu as eleições em 2006 e dessa forma tinha o direito de formar governo em toda Palestina. Porém Israel e os EUA não permitiram que isso acontecesse. Passaram a admitir somente com interlocutor, o líder do partido que perdeu a eleição, Mahmoud Abbas, testa-de-ferro dos americanos e israelenses.
Carlos Dória

Os palestinos assassinados são trunfo eleitoral, numa disputa cínica entre a direita e a extrema-direita israelenses. Seus aliados em Washington e na União Européia, perfeitamente informados de que Gaza estava para ser atacada, exatamente como no caso do Líbano em 2006, sentaram e esperaram. A análise é de Tariq Ali.

Tariq Ali - The Guardian

O assalto a Gaza, em planejamento há mais de seis meses e executado em momento cuidadosamente selecionado, foi feito, como Neve Gordon observou corretamente, como instrumento de campanha eleitoral, com vistas às eleições do mês que vem e para manter no poder os partidos que estão hoje no governo de Israel. Os palestinos assassinados são trunfo eleitoral, numa disputa cínica entre a direita e a extrema-direita israelenses. Seus aliados em Washington e na União Européia, perfeitamente informados de que Gaza estava para ser atacada, exatamente como no caso do Líbano em 2006, sentaram e esperaram.

Washington, como sempre faz, culpa os palestinos favoráveis ao Hamas, com Obama e Bush cantando pela partitura do sempre mesmo AIPAC (American Israel Public Affairs Committee). Os políticos da União Européia souberam dos planos, assistem aos ataques, ao sítio, ao bloqueio, ao castigo coletivo imposto à população em Gaza, aos assassinatos de civis etc. (sobre isso, ver o impressionante ensaio de Sara Roy, de Harvard, na London Review of Books [em português, "Se Gaza cair...").

Apesar de ver e saberem de tudo isso, foram facilmente convencidos de que alguns rojões de quintal teriam "provocado" a reação de Israel. E puseram-se a 'exigir' o fim da violência dos dois lados. Efeito? Zero.

A ditadura-come-mosca de Mubarak no Egito e os islâmicos preferidos da Otan em Ancara não se deram o trabalho, nem isso, de registrar algum tipo de protesto simbólico; sequer retiraram seus embaixadores de Israel. A China e a Rússia não convocararm reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir a crise. Para discutir. Que fosse.

Resultado da apatia oficial, um dos resultados das mais recentes agressões de Israel será incendiar as paixões nas comunidades muçulmanas em todo o mudo e fazer crescer a influência e o prestígio até das organizações terroristas que, no ocidente, apresentam-se como líderes de uma "guerra contra o terror".

A carnificina em Gaza obriga a discutir questões estratégicas cruciais para os dois lados, todas relacionadas à história recente. Fato que todos têm de reconhecer é que já não existe Autoridade Palestina. Jamais existiu. Os Acordos de Oslo foram completo desastre para os palestinos, criando um conjunto de guetos desconectados, todos sob obcecada vigilância de um cão-de-guarda brutal. A OLP, onde uma vez depositaram-se todas as esperanças dos palestinenses, é hoje pouco mais que mendigo que suplica migalhas do dinheiro da União Européia.

O entusiasmo pela democracia torna-se zero entre os aliados ocidentais, no instante em que, no oriente, os eleitores elejam partidos e candidatos que se oponham as políticas ocidentais. Israel e o ocidente fizeram de tudo para eleger candidatos do grupo Fatah: os palestinenses enfrentaram manobras, ameaças, golpes, tentativas de suborno pela "comunidade internacional" e sua campanha incansável de perseguição aos candidatos do Hamás e outros grupos de oposição. A campanha foi incansável. Os candidatos do Hamas eram rotineiramente perseguidos ou atacados pelos soldados e pelas polícias de Israel, os cartazes eram confiscados e queimados, rios de dinheiro dos EUA e da União Européia enriqueceram a campanha a favor do Fatah, e, nos EUA, deputados e congressistas discursavem, para dizer que, se eleito, o Hamás não poderia governar.

Até a data das eleições foi planejada para alterar o resultado das urnas. Marcadas para o verão de 2005, foram adiadas até Janeiro de 2006, para que Abbas pudesse distribuir vantagens a mancheias porque – nas palavras de um oficial da inteligência egípcia –, "depois, o público apoiará a Autoridade, contra o Hamas."

O desejo popular de promover limpeza geral, depois de dez anos de corrupção, de conversações sem propósito e sem objetivo, sob governos do Fatah, foi mais forte que tudo. O triunfo eleitoral democrático do Hamas foi tratado como sinal do renascimento do fundamentalismo e preocupante derrota nos planos de paz com Israel, por governos e por todos os grandes impérios de mídia em todo o mundo atlântico.

Imediatamente começaram as pressões financeiras e diplomáticas, para forçar o Hamas a adotar as mesmas políticas do partido derrotado nas urnas.

Sem qualquer ligação com o misto de ganância e dependência, com o sonho de enriquecimento rápido dos porta-vozes e políticos servis do Fatah de depois de Arafat, sem o mesmo tipo de subserviência a qualquer idéia de que algum "processo de paz" fosse algum dia possível mediante as políticas do Fatah de depois de Arafat e de Israel, o Hamas construiu na Palestina a alternativa e a lição de seu próprio exemplo.

Sem ter a abundância de meios com que conta o atual Fatah, o Hamas construiu clínicas, escolas, hospitais, ofereceu programas de assistência social para as populações mais pobres. Os líderes e quadros dirigentes do Hamas vivem frugalmente, como vivem todos os pobres na Palestina.

Esse tipo de resposta social e política às reais necessidades da vida no dia a dia explica o amplo apoio popular e eleitoral de que o Hamas goza hoje, não alguma recitação diária do Corão. Não se sabe ainda o quanto a conduta do Hamas na II Intifada aumentou sua credibilidade na Palestina.

Os ataques armados a Israel, como os da Brigada dos Mártires, a Al-Aqsa, do Fatah, são respostas de retaliação à ocupação muito mais mortal do que qualquer ação armada de resistência. Avaliadas na escala dos massacres perpetrados pelo exército de Israel, a reação dos palestinenses é rara e sempre é muito menos violenta.

A assimetria pode ser bem avaliada durante o cessar-fogo (que foi proposta unilateral do Hamas), iniciado em junho de 2003, e mantido durante o verão, apesar dos inúmeros ataques israelenses e das prisões em massa que aumentaram muito durante o cessar-fogo, quando mais de 300 combatentes do Hamás foram 'desaparecidos' ou mortos na Cisjordânia.

Em 19/8/2003, uma célula autoproclamada do Hamas, de Hebron, já denunciada e desautorizada oficialmente pelos dirigentes do Hamas, explodiu um ônibus em Jerusalém Oeste. Como reação, Israel imediatamente assassinou Ismail Abu Shanab, negociador-chefe, pelo Hamas, do cessar-fogo. O Hamas respondeu. Resposta à resposta, a Autoridade Palestina e os Estados árabes suspenderam todo o fluxo de ajuda financeira às inicitivas sociais do Hamas e, em setembro de 2003, a União Européia acedeu a pedido que Telavive fazia-lhe há muito tempo: incluiu o Hamas na sua relação de "organizações terroristas".

O traço que distingue o Hamas em toda a Região, obrigado a lutar uma luta desesperadamente desigual, não são os homens-bomba – recurso desesperado que se vê em muitos outros grupos –, mas uma espécie superior de disciplina, firmemente orientada para atender necessidades vitais de uma população também desesperadamente desamparada. Prova desse tipo de disciplina dedicada é, por exemplo, a competência com que o Hamás conseguiu implantar o cessar-fogo, também entre seus grupos, apesar das provocações de Israel, durante todo o ano passado. Todas as mortes têm de ser condenadas, sobretudo a morte de civis, mas Israel é, de longe, autor de muito maior número de assassinatos na Região, estatística que os euro-norte-americanos ignoram completamente. Na Palestina, nem que quisessem os palestinos matariam na escala em que os israelenses matam.

O exército de Israel é o mais modernamente armado exército de ocupação que há no mundo. E é, sem dúvida, o mais fortemente armado exército de ocupação de toda a história moderna.

"Ninguém pode condenar que uma população se revolte, depois de viver 45 anos sob ocupação militar", disse o General Shlomo Gazit, ex-chefe da inteligência militar de Israel, em 1993.

O verdadeiro problema dos EUA e da União Européia, motivo da oposição obcecada ao Hamas, é que o Hamas recusou-se a aceitar a capitulação implícita nos Acordos de Oslo, e, depois, de Taba a Genebra, tem-se recusado a esquecer as calamidades que EUA e a União Européia têm imposto aos palestinos. Desde Oslo, EUA e a União Européia têm, como prioridade, quebrar a resistência do Hamas. Cortar os financiamentos à Autoridade Palestina é instrumento óbvio, para minar a influência de qualquer iniciativa política local na Região. Outro, é inflar os poderes de Abbas – escolhido a dedo, por Washington, como, também, Karzai, em Cabul –, ao mesmo tempo em que minam a influência do Conselho Legislativo.

Não houve qualquer esforço sério na direção de negociar com as lideranças políticas eleitas na Palestina. Duvido muito que o Hamas se deixasse rapidamente subordinar aos interesses israelenses e ocidentais, mas se assim acontecesse, não seria o primeiro. O próprio Hamas carrega uma pesada hipoteca sobre os ombros, desde a formação: a fraqueza fatal do nacionalismo palestino, que sempre acreditou que só haveria duas vias, ou a completa rejeição de Israel ou a completa aceitação do desmembramento dos retalhos da Palestina, até ser reduzida a 1/5 de seu próprio território. Entre o delírio maximalista da primeira via, ao patético minimalismo da segunda, praticamente não há caminho para fora do abismo, como o demonstrou a história do Fatah.

O teste de vida e morte para o Hamas, não é ser ou não ser 'adaptado' de modo a tornar-se palatável para a opinião pública ocidental, mas, sim, conseguir separar-se do peso devastador de seu passado. Logo depois da vitória eleitoral do Hamas, em Gaza, um palestino perguntou-me, numa entrevista, o que eu faria se estivesse no lugar do Hamas, recém-eleito. "Dissolveria a Autoridade Palestina", respondi. Para acabar com a encenação. Isso feito, seria possível repor a causa nacional palestina sobre bases adequadas para exigir que o território e seus recursos sejam partilhados proporcionalmente entre populações assemelhadas em quantidade – não com 80% para os israelenses e 20% para os palestinenses, uma violência tão grande que, no longo prazo, nenhum povo jamais a aceitará. A única solução aceitável é um único Estado, para israelenses-palestinenses, no qual os crimes do sionismo possam afinal ser reparados. Não há outra possibilidade. Só essa.

Os cidadãos de Israel bem podem meditar sobre essas palavras de Shakespeare (n'O Mercador de Veneza), em que introduzi pequenas mudanças:

"Sou palestino. Palestino não tem olho? Não tem mãos, órgãos, altura, peso, sentidos, afeições, afetos, paixões? Não come a mesma comida, não morre pelas mesmas armas, não padece as mesmas doenças, não se cura pela mesma cura, não se aquece no mesmo verão e não congela no mesmo inverno, como o judeu? Se nos furam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos? Se nos fazem mal, não nos podemos defender? Se somos iguais em tudo, não reclamem de sermos iguais também nisso… A vilania que nos ensinaram, nós a aprendemos; seremos vis; menos vis que vocês, sim, porque viemos depois. Aprendemos com vocês, mas a vilania purga-se, no tempo. Mais do que isso, não posso prometer."
Fonte: Agência Carta Maior.

ECONOMIA - FMI renega as receitas neoliberais.

Confrontado com a profunda crise do capitalismo, o FMI apela aos governos para que intervenham no sistema financeiro e na economia para evitar a «Grande Depressão».

O recém-nomeado Economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, alertou os governos para agirem com urgência e de forma decidida para travar a «perda de confiança» e reanimar a procura, substituindo-se inclusive ao sector privado, de modo a se evitar que «a recessão se transforme em Grande Depressão», numa alusão expressa à crise mundial de 1929-33.
Em entrevista ao jornal francês Le Monde (23.12), Blanchard, que ocupa aquele cargo desde Setembro, justifica a viragem de 180 graus nas posições do FMI com a rápida degradação da conjuntura mundial. Por outras palavras, é a profunda crise do capitalismo que torna insustentáveis as receitas neoliberais desde sempre impostas por este organismo, defensor incondicional do mercado e inimigo feroz dos défices públicos e da regulação estatal.
«Estamos confrontados com uma crise de magnitude excepcional, cuja principal componente é a queda da procura», constata Blanchard. «Os índices de confiança dos consumidores e das empresas nunca estiveram tão baixos desde que existem. É algo nunca antes visto. A partir do mês de Outubro, as intenções de investimentos paralisaram de forma súbita e a nível mundial.»
(...) «É claro que num período normal teríamos recomendado à Europa a redução dos défices. Mas não estamos num período normal.»
Assim, para evitar o pior, este responsável apela a que se utilizem os «instrumentos monetários e orçamentais, mas também medidas destinadas a recuperar o sistema financeiro». «Os bancos continuam a reduzir os créditos tanto aos particulares como às empresas ou aos países emergentes. Não haverá relançamento do crescimento sem que este problema seja resolvido».
E para o resolver o FMI vai ao ponto de defender a intervenção directa do Estado na actividade bancária: «Se a recuperação do mercado de crédito privado é demasiado morosa, então é preciso que os estados se disponham a substituir-se, pelo menos parcialmente e temporariamente, ao crédito privado».

Investimento público

Por outro lado, sublinha, é preciso que «os governos e os bancos centrais indiquem claramente que estão dispostos a tudo para evitar a Grande Depressão», defendendo o investimento público e o reforço dos orçamentos do Estado:
«Neste momento uma expansão orçamental de dois por cento [do PIB] parece ser suficiente. Mas se as circunstâncias o exigirem, é preciso que os estados estejam preparados para ir mais longe, três por cento ou mais se necessário.»
Parecendo inspirar-se do New Deal dos EUA dos anos 30, o economista do FMI
afirma que «é preferível que o relançamento se efectue mediante o aumento das despesas públicas do que através da diminuição das receitas públicas. Dito de outro modo, a construção de pontes ou a renovação de escolas poderão ter mais efeitos sobre a procura que as reduções de impostos».
A julgar pela avaliação que faz da situação da banca europeia, a verdadeira dimensão da crise estará ainda por determinar. «Na Europa, os balanços dos bancos são ainda parcialmente fictícios e a compra de activos abrange quantidades negligenciáveis.
«O resultado é que os bancos continuam a liquidar as suas posições. Não apenas nos respectivos países, mas também no estrangeiro. Estão a recuperar capitais em proporções consideráveis que tinham aplicado no estrangeiro. Calculamos que os créditos que tinham nos países emergente se elevassem a quatro biliões de dólares [(milhões de milhões), cerca de 2,872 biliões de euros]. Nos últimos meses terá saído destes países um bilião de dólares».
Fonte:Jornal Avante.

VATICANO - Ódio como prenda de Natal.

Bruno Maia

A igreja faz escolhas. O papa faz escolhas. Todos escolhemos de que forma queremos olhar o mundo. Todos escolhemos estratégias e discursos para o transformar. O papa, este Natal, escolheu o ódio: ódio estratégico, ódio discursivo.

O recente discurso de Ratzinger, no qual se referia aos homossexuais e à emancipação da mulher, não deixa dúvidas sobre o teor da sua mensagem: "[A Igreja] deverá proteger o homem de se destruir a ele mesmo. É preciso uma espécie de ecologia do Homem". Para o papa o "homem" e a "mulher" e todos os papéis que desempenham na sociedade segundo o seu género são pré-definidos "naturalmente". Até aqui nada de novo, é uma velha discussão sobre essencialismo e construtivismo, que nas últimas décadas tem ganho novos patamares ao passo que a antropologia vai descobrindo novas culturas e novas sociedades em que esta "naturalidade" se encontra alterada e, em alguns casos, invertida. Conhecemos hoje tribos matriarcais e estamos cientes das diferenças que o género feminino representa no ocidente e no oriente, no norte e no sul e mesmo dentro do ocidente, entre o mundo rural e o mundo urbano. Para além disso também sabemos hoje, que os papéis de "homem" ou "mulher", para além desta variação no espaço, também se modificaram ao longo dos tempos - a "mulher" ocidental de hoje não representa o mesmo papel da "mulher" ocidental há 2 séculos atrás.

Também no mundo animal esta divisão de género é tão diversa quanto possível. Na maioria das aves são os "machos" que usam a beleza natural nos contactos sexuais - penas extravagantemente coloridas, longas asas e bicos "enfeitados" - cuidando de uma forma obsessiva da sua aparência exterior, ao passo que as fêmeas são mais "descuidadas". Veja-se o caso do pavão com a sua vaidade. Os cavalos-marinhos "machos" engravidam, isto é, são "eles" que transportam o feto. E em muitas outras espécies são os "machos" que cuidam dos recém-nascidos, ao passo que "elas" vão à caça. Toda a assumpção dogmática sobre o "feminino" e o "masculino" esbarram no conhecimento e nesta diversidade intra e inter-espécies. A sociedade da informação e a massificação do conhecimento colocaram-nos novos desafios e trouxeram todas estas realidades para debates seculares.

O papa pode achar que a mulher é naturalmente "isto" ou "aquilo", mas ao fazê-lo demonstra a sua ignorância porque rejeita este conhecimento sobre a diversidade. Mas o que torna as declarações do papa realmente graves é a conclusão que tira do seu dogmático e fraco raciocínio: a necessidade de proteger a heterossexualidade, combatendo os desvios. O apelo que o papa faz, abertamente, é o apelo ao ódio, à diversidade e à diferença. Ao impor a necessidade de "combater" algo, não está a limitar-se a veicular dogmas e preconceitos usurpados mas a incentivar atitudes de discriminação. Já há alguns meses, quando a França tentou aprovar nas Nações Unidas uma resolução que incentivasse alguns países a abolirem sanções criminais a homossexuais, o Vaticano opôs-se. Não discutimos aqui direitos legais como o casamento ou a adopção, o que está em causa (o que o papa e o vaticano põem em causa) é a simples existência da homossexualidade e o direito à não discriminação e à não violência. "Combater a homossexualidade" é afirmar perante o mundo que os homossexuais não devem existir - e isso é espalhar o ódio.

O ódio à diferença sempre fez parte da nossa história e a justificação para a sua existência, na grande maioria dos casos, esteve ligada à religião. Em Abril de 1933, Adolf Hitler afirmava: "Durante 1500 anos, a igreja católica considerou os judeus pestilentos, colocou-os em guetos, etc. porque reconhecia os judeus como eles realmente são… Eu vejo os representantes de tal raça como pestilentos para o Estado e para a igreja e, talvez, eu esteja por isso a praticar um grande serviço ao cristianismo ao tirá-los das escolas e dos serviços públicos" - Haverá muita diferença entre aquilo em que Hitler acreditava e aquilo que o papa hoje defende?

Defender a floresta tropical é defender a diversidade ecológica. Defender a heterossexualidade, enquanto expressão única de sexualidade é destruir a diversidade humana. O mundo nunca esteve tão super-povoado como hoje, o crescimento da população mundial foi exponencial desde a revolução industrial e já passamos a barreira dos 6 biliões, com uma maioria destes seres humanos a viverem em condições de pobreza extrema - face a esta realidade não é possível acreditar que a humanidade está em perigo por causa dos homossexuais ou por causa das mulheres emancipadas - é ser demagógico até ao tutano

Para acabar, gostaria de ajudar o papa a clarificar o seu discurso! Quando diz que "As florestas tropicais merecem a nossa protecção. Mas o homem, enquanto criatura, também a merece", na verdade o que quer dizer é "As florestas tropicais merecem a nossa protecção. Mas o homem do género masculino heterossexual branco católico, enquanto criatura dominante, deve continuar a merecê-la". O papa tem o direito de defender uma "ecologia para o homem" nos termos que a defende. Mas então terá que ser consequente com as suas palavras e defender a destruição de todas as culturas tribais não-patriarcais e de todas as aves, pavões e cavalos-marinho deste mundo, quais "invertidos pestilentos" que subvertem o papel da fêmea submissa, tal como deus a criou!

Já não há pachorra para tanta imbecilidade e tanto ódio à mistura.
Fonte: Site Informação Alternativa.

PARA NÃO SERMOS CÚMPLICES DO NOVO HOLOCAUSTO.

Emir Sader.

Nada mais parecido com a tentativa de extermínio pelo nazismo de judeus, comunistas, esquerdistas em geral, ciganos, do que o que Israel tenta fazer com os palestinos; um holocausto que reproduz, da forma mais parecida possível o produzido pelos nazistas na Alemanha. Tornado Estado racista, de apartheid, odioso e odiado por todos os outros povos do mundo (entre as centenas manifestações de protestos pelos massacres contra Gaza, nenhuma de apoio a Israel), que sobrevive somente graças ao maior apoio militar dos EUA no mundo, como seu braço imperial no Oriente Médio, e ao silêncio cúmplice de europeus, Israel tem que ser repudiado em todas as instâncias possíveis.

O Parlamento brasileiro tem que rejeitar imediatamente a proposta de um inconcebível Tratado de Livre Comércio do Mercosul com Israel. Para que se assinaria um Tratado desse tipo? Para que sigam angariando recursos, que vão fomentar a militarização permanente de um Estado que pratica o holocausto contra os palestinos? Não fazê-lo de imediato é ser cúmplice dos massacres israelenses contra o direito, reconhecido pelas Nações Unidas, de que a Palestina tenha um Estado soberano, da mesma forma que Israel o tem.

O governo brasileiro deve chamar imediatamente seu embaixador em Israel, para demonstrar que esse expediente é parte da política externa brasileira não apenas quando se acredita que os interesses econômicos do país podem estar em jogo, mas também na denúncia dos crimes contra a humanidade, como os praticados por Israel. O embaixador não deve retornar antes que Israel cesse completamente as agressões e os assassinatos em massa contra Gaza e qualquer outro território palestino.

Lula deve confirmar sua viagem ao Oriente Médio, mas deve suspender sua visita a Israel, como protesto pelo genocídio que Israel faz contra os palestinos, não ouvindo os apelos da comunidade internacional para que cessem os bombardeios, sentindo-se imune de qualquer justiça internacional, pelo apoio que tem de seu estreito aliado – os EUA. Lula deve viajar à Palestina, a todas as regiões dos territórios ocupados pelas forças coloniais israelenses, incluída Gaza, conversar com todas as forças que representam os palestinos, incluídos os representantes eleitos democraticamente pelo voto popular para dirigir a Palestina, ainda que não reconhecidos pelas potências ocidentais.

Todas as instituições brasileiras – universidades entre elas, ministérios, governos – que tenham algum tipo de acordo ou convênio com Israel, devem denunciá-los imediatamente. Israel e seus representantes tem que ser repudiados em todos os lugares – embaixadas, consulados, recepções, etc.

Para não sermos cúmplices do novo holocausto, da tentativa de extermínio do povo palestino, da ofensiva nazista de Israel contra Gaza.
Fonte: Agência Carta Maior.

EUA E RELACIONAMENTO ESPECIAL COM ISRAEL.

José Saramago.

''Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino''.

Por José Saramago, em seu blog

Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta.

Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.

Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso.

Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…).

E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.
Fonte:Site O Vermelho.

BERNARD MADOFF - Um vigarista da Wall Street.

Vigarista da Wall Street desfere golpe a favor da justiça social
por James Petras

"Nunca pensámos que ele nos faria uma destas, era um dos nossos",
membro do Clube de Campo de Palm Beach.

Bernard Madoff. O corrector de Wall Street, Bernard ('Bernie') Madoff, ex-presidente da NASDAQ, investidor apreciado e respeitado, confessou ter montado a maior burla da história, uma fraude de 50 mil milhões de dólares. Bernie era conhecido pela sua generosa filantropia, em especial para com as causas sionistas, judaicas e israelenses. Em tempos salva-vidas em Long Island, Bernie iniciou a sua carreira financeira nos anos 60, angariando dinheiro junto de colegas, amigos e seus familiares entre os judeus mais abastados dos subúrbios de Long Island, em Palm Beach, na Florida e em Manhattan, prometendo um retorno modesto, regular e garantido de 10 a 12 %, cobrindo quaisquer levantamentos, à moda típica de Ponzi, à custa de fundos de novos investidores que literalmente imploravam a Bernie para os depenar. Madoff administrava pessoalmente pelo menos 17 mil milhões de dólares. Durante quase quarenta anos arranjou uma clientela, que chegou a incluir alguns dos maiores bancos e casas de investimento na Escócia, Inglaterra e França; assim como hedge funds (grandes fundos de investimentos a prazo) nos Estados Unidos. Madoff recolhia quase todos os fundos entre abastados clientes particulares que eram recrutados por corretores que trabalhavam à comissão. Os clientes de Bernie incluíam muitos multi-milionários e bilionários da Suíça. Israel e outros sítios, assim como os maiores hedge funds nos EUA (Divisão RMF do Man Group e Tremont). Muitos dos super-ricos clientes burlados obrigaram Madoff a aceitar o seu dinheiro, e este impunha condições rigorosas aos seus clientes potenciais: Exigia que fossem recomendados por investidores já existentes, que depositassem uma quantia substancial e que garantissem a sua própria solvência. A maioria considerava-se feliz por os seus fundos serem recebidos pelo altamente respeitado… vigarista de Wall Street. A mensagem habitual de Madoff era que os fundos de investimentos estavam fechados… mas como pertenciam ao mesmo mundo (membros de conselhos de instituições de caridade judaicas, organizações de angariação de fundos pró-Israel ou clubes de campo 'seleccionados') ou eram familiares de um amigo, de um colega ou de clientes já existentes, ele receberia esse dinheiro.

Madoff instituiu conselhos consultivos com membros ilustres, contribuía fortemente para museus, hospitais e organizações culturais elegantes. Era um membro importante de Clubes de Campo seleccionados em Palm Beach e Long Island. A sua reputação foi reforçada pelo facto recorde de nunca ter havido um ano com prejuízos nos seus fundos de investimento – um ponto importante a favor da venda para atrair investidores milionários. Madoff partilhava com os seus clientes super-ricos (judeus e gentios) um estilo de vida comum à classe alta, e uma mistura de filantropia cultural com especulação financeira moderada. Madoff 'enganava' os seus colegas com uma aparência de 'especialista' de falas mansas, mas de autoridade, coberta por um verniz de colegialidade de classe alta, profunda dedicação ao sionismo e aos amigos de longa data.

Os mega-fundos de Bernie exibiam muitos sinais semelhantes aos de recentes escândalos de alto nível: Os altos retornos permanentes, sem igual em todos os outros corretores; a falta de fiscalização por terceiros; uma firma de contabilidade por detrás, incapaz fisicamente de auditar a operação de multi-milhares de milhões de dólares; uma actividade de corretor-intermediário directamente sob o seu controlo e a obscuridade total sobre em que é que estava realmente a investir. A evidente semelhança de sinais com outros burlões era menosprezada pelos ricos e famosos, pelos investidores sofisticados e pelos consultores bem pagos, os MBA's de Harvard e todo o exército de reguladores da Securities Exchange Comission (SEC) visto que estavam todos totalmente imbuídos na cultura corrupta de 'agarrar no dinheiro e pôr-se em fuga' e de 'se estás a ganhá-lo, não faças perguntas'. A reputação da superior sabedoria de um judeu de Wall Street aparentemente bem sucedido alimentou a auto-ilusão dos ricos e dos estereótipos dos gentios milionários.

A GRANDE FRAUDE

O fundo de investimentos de Madoff só lidava com uma clientela limitada de multi-milionários e bilionários que mantinham os seus fundos durante um longo período de tempo; os levantamentos ocasionais eram limitados em valor e eram facilmente cobertos pela entrada de novos fundos de novos investidores que se esforçavam por ter acesso à gestão de dinheiro de Madoff. Os grandes investidores a longo prazo tinham a intenção de passar os seus investimentos aos familiares ou destinavam-nos a possíveis reformas. Os ricos advogados, dentistas, cirurgiões, distintos professores da Ivy League [1] e outras pessoas que podiam vir a precisar de fazer algum levantamento para um casamento elegante ocasional ou um barmitzvah recheado de celebridades, podiam fazer levantamentos de fundos porque Madoff não tinha problemas em cobrir esses levantamentos atraindo novos fundos provenientes de ricos proprietários de fábricas de vestuário altamente exploradoras, de instalações de perigosos empacotamentos de carnes e de proprietários de bairros de lata. Madoff não era nenhum Robin dos Bosques, as suas contribuições filantrópicas e caritativas facilitavam-lhe o acesso aos ricos e abastados que tinham assento nos conselhos das instituições beneficiadas e provavam-lhes que era 'um deles', uma espécie de 'íntimo' super-rico da mesma classe de elite. O choque, o pavor e os ataques cardíacos que se seguiram após Madoff confessar que estava a 'gerir um esquema Ponzi' gerou tanta fúria pelo dinheiro perdido e pela queda da classe endinheirada quanto a vergonha de saber que os maiores exploradores do mundo e os vigaristas mais espertos de Wall Street tinham sido totalmente 'apanhados' por um do seu próprio meio. Não só sofreram grandes perdas como a sua própria imagem de ricos, por serem tão espertos e de 'condição superior', ficou totalmente estilhaçada: Viram-se a si mesmos a sofrer a mesma sorte de todos os otários a quem tinham anteriormente vigarizado, explorado e expropriado na sua subida até ao topo. Não há nada pior para o ego de um respeitável vigarista do que ser ultrapassado por outro vigarista maior. Por causa disso, uma série dos que mais perderam tem-se recusado até agora a revelar os seus nomes ou a quantia que perderam, preferindo agir através de advogados, lutando contra outros perdedores.

O LADO POSITIVO DA MEGA-FRAUDE DE MADOFF (A INVOLUNTÁRIA MÃO DA JUSTIÇA)

Embora seja compreensível que os super-ricos e os abastados, que perderam uma grande parte dos seus fundos de reforma e de investimento, sejam unânimes na sua condenação e protestos pela traição de confiança, e os editoriais de todos os prestigiados jornais e semanários se juntem ao coro da crítica moral, há que elogiar os feitos de Madoff, mesmo que tal elogio não tenha estado no coração da sua actividade fraudulenta.

Vale a pena fazer a lista dos involuntários resultados positivos da mega-fraude de Madoff. Primeiro que tudo, a fraude de mais de 50 mil milhões de dólares pode significar uma grande dentada no financiamento sionista americano de ilegais povoamentos coloniais israelenses nos Territórios Ocupados, uma quebra nos fundos com que a AIPAC compra influências no Congresso e no financiamento de campanhas de propaganda a favor de um ataque militar americano preventivo contra o Irão. A maior parte dos investidores vai ter que reduzir ou eliminar a sua compra de títulos de Israel, que subsidiam o orçamento militar do estado judaico.

Em segundo lugar, a burla ainda desacreditou mais os hedge funds altamente especulativos que já se encontram vacilantes por causa de levantamentos maciços devidos a profundos prejuízos. Os fundos de investimento de Madoff eram uma das últimas actividades 'respeitadas' que ainda atraíam novos investidores, mas cuja morte, depois das últimas revelações, pode ter sido acelerada. Os promotores despedidos podem finalmente ter que realizar um trabalho honesto e produtivo.

Em terceiro lugar, a fraude de grande escala e de longa duração de Madoff não foi detectada pela Comissão de Títulos e Câmbios (SEC), apesar de esta declarar pelo menos duas investigações. Em consequência, há uma total perda de credibilidade. De forma mais genérica, o fracasso da SEC demonstra a incapacidade dos organismos reguladores do governo capitalista em detectar mega-fraudes. Este fracasso levanta a questão de saber quais as alternativas aos investimentos em Wall Street são as mais adequadas para proteger poupanças e fundos de pensões.

Em quarto lugar, a associação de longa data de Madoff com a NASDAQ, incluindo a sua posição de presidente, enquanto ia defraudando os seus clientes em milhares de milhões, indica fortemente que os membros e os dirigentes desta bolsa de valores são incapazes de reconhecer um escroque, e tendem a fazer vista grossa a 'um dentre eles'. Por outras palavras, o público investidor deixa de poder olhar para os detentores dos altos cargos na NASDAQ como um sinal de honestidade. Após Madoff, é talvez altura de procurar um colchão tamanho grande para guardar em segurança o que resta da riqueza familiar.

O quinto ponto é que os conselheiros de investimento dos bancos de topo na Europa, na Ásia e nos EUA, que gerem milhares de milhões de fundos, não dedicaram a mais elementar atenção à actividade de Madoff. Para além de pesadas perdas bancárias, dezenas de milhares de super-ricos influentes e tributários perderam toda a sua riqueza acumulada. O resultado é a total perda de confiança nos principais bancos e instrumentos financeiros assim como o descrédito geral do 'saber dos especialistas'. O resultado é o enfraquecimento do golpe de gravata sobre a actividade do investidor e o fim de um importante sector da classe parasitária de 'senhorios' que ganha sem produzir nenhum bem útil nem prestar quaisquer serviços necessários.

O sexto ponto é que, como a maior parte do dinheiro roubado por Madoff era proveniente das classes superiores em todo o mundo, a sua acção reduziu as desigualdades – ele é o 'maior nivelador' desde a introdução do imposto progressivo sobre rendimentos. Ao arruinar bilionários e ao levar milionários à falência, Madoff reduziu a capacidade deles para usar a sua riqueza a fim de influenciar os políticos a seu favor – aumentando assim a possível influência política dos sectores menos abastados da sociedade de classes… e reforçando involuntariamente a democracia contra os oligarcas financeiros.

Pode encontrar-se um sétimo ponto no facto de que, ao defraudar amigos de longa data, investidores igualmente etno-religiosos, membros de clubes selectos definidos etnicamente com vistas estreitas e membros chegados da família, Madoff demonstra que o capital financeiro não respeita nenhuma das crenças da vida quotidiana: Grandes e pequenos, sagrado e profano, tudo está subordinado à regra do capital.

Em oitavo, entre os muitos investidores arruinados de Nova Iorque e Nova Inglaterra, há uma série de mega-proprietários de bairros de lata (barões imobiliários), donos de fábricas exploradoras (fabricantes de elegante vestuário de marca e de brinquedos) e outros que quase não pagavam o salário mínimo aos seus trabalhadores, mulheres e imigrantes, expulsavam inquilinos pobres e espoliavam de reformas os seus empregados antes de transferirem a sua actividade para a China. Por outras palavras, a fraude de Madoff foi uma espécie de retribuição 'divina' secular por crimes passados e presentes contra os trabalhadores e os pobres. Não é preciso dizer, este 'Robin dos Bosques inconsciente' não redistribuía aos trabalhadores o dinheiro depenado aos seus empregadores, mas reinvestia uma parte dele em obras de caridade que reforçavam a sua imagem filantrópica e dedicava uma parte a pagar aos seus investidores iniciais para manter toda a burla Ponzi.

O ponto número nove é que Madoff desferiu um sério golpe contra os anti-semitas que afirmam que há uma 'conspiração judaica de trama cerrada para vigarizar os gentios', fazendo com que esta ficção jaza em paz duma vez por todas. Entre as principais vítimas de Bernard Madoff estavam os seus amigos e colegas judeus mais íntimos, pessoas que partilhavam as refeições Seder da Páscoa e frequentavam os mesmos templos elegantes de Long Island e de Palm Beach.

Bernie era discriminativo na aceitação de clientes, mas fazia-o com base na sua riqueza e não na sua origem nacional, raça, religião ou preferência sexual. Era muito ecuménico e um forte defensor da globalização. Magdoff não tinha nada de etnocêntrico: Defraudou o banco anglo-chinês HSBC em mil milhões de dólares e o ramo holandês do banco belga Fortes em vários milhares de milhões. O Royal Bank da Escócia, o banco francês BNP Paribas, o banco espanhol, Banco Santander, o japonês Nomura, em 1,4 mil milhões de dólares; para não falar dos hedge funds em Londres e nos EUA, que reconheceram ter acções no Bernard Madoff Investment Securities. Na verdade, Bernie era emblemático do moderno, politicamente correcto, multicultural, internacional… vigarista. A facilidade com que os super ricos da Europa lhe entregaram as suas fortunas levou a que um consultor de negócios de Madrid observasse que "roubar os mais ricos de Espanha foi como abater focas à paulada…" ( Financial Times, 18 de Dezembro de 2008, p. 16).

O décimo ponto é que a burla de Madoff provavelmente vai provocar uma maior auto-crítica e uma atitude mais desconfiada para com outras pessoas possivelmente de confiança que se apresentam como fiáveis sabidolas financeiros. Quanto aos judeus auto-críticos, estão menos dispostos a confiar em corretores só porque eles são zelosos apoiantes de Israel e generosos contribuintes para o financiamento de sionistas. Isso deixou de ser uma garantia apropriada de comportamento ético e um certificado de boa conduta. Na verdade até pode levantar suspeitas quanto a corretores que sejam apoiantes excessivamente ardentes de Israel e prometam consistentes retornos altos às filiais sionistas locais – perguntando a si próprios se este negócio que 'o que é bom para a…' será na verdade uma capa para outra burla.

O 11º e último ponto é que o fim da iniciativa de Madoff e das suas abastadas vítimas judias liberais afectarão desfavoravelmente as contribuições para as 52 principais organizações americanas judaicas, as numerosas fundações em Boston, Los Angeles, Nova Iorque e outros locais, assim como a ala militarista Clinton/Schumer do Partido Democrata (Madoff financiou-os a ambos assim como a outros apoiantes incondicionais de Israel no Congresso). Isto pode fazer com que o Congresso abra um grande debate sobre a política do Médio Oriente sem os habituais ataques de alto gabarito.

CONCLUSÃO

A burla de Madoff e a sua actividade fraudulenta não são consequência de um fracasso moral pessoal. São produto de um imperativo sistémico e da cultura económica, que enforma os círculos mais altos da nossa estrutura de classes. A economia do papel, os hedge funds e os 'sofisticados instrumentos financeiros' são todos eles 'esquemas Ponzi' – não estão baseados na produção e venda de bens e serviços. São apostas financeiras no crescimento futuro do papel financeiro, baseadas em garantir futuros compradores para satisfazer compromissos contraídos.

O 'fracasso' da SEC é totalmente previsível e sistémico: Os reguladores são escolhidos entre os regulamentados, estão comprometidos com eles e adiam os seus julgamentos, exigências e auditorias. Estão estruturados para 'não ver os sinais' e para evitar 'regulamentar em demasia' os seus superiores financeiros. Madoff actuava num milieu de uma Wall Street em que tudo passa, em que a norma é a impunidade para as megas-operações de salvamento dos mega-vigaristas. Enquanto vigarista individual, vigarizou alguns dos seus maiores concorrentes institucionais na Street. Todo o sistema de recompensas e prestígio vai para os mais aptos a falsificar os livros, a tapar os rastos no papel e para quem tem vítimas ansiosas a implorar para serem depenadas. Que bom tipo, este Madoff!

Em poucos dias, um só indivíduo, Bernard Madoff, desferiu contra o capital financeiro global, a Wall Street e a agenda prioritária do lobby sionista americano/Israel, um golpe maior do que toda a esquerda americana e europeia em conjunto durante os últimos cinquenta anos! Foi mais bem sucedido em reduzir as grandes disparidades de riqueza em Nova Iorque do que todos governadores e mayors democratas e republicanos, conservadores e reformistas, cristãos e judeus, brancos e pretos, conseguiram nos dois séculos passados.

Alguns teóricos da conspiração da direita andam a afirmar que Bernie é um agente secreto islâmico-palestiniano (do Hamas) que se dedicou a sabotar deliberadamente a base financeira do estado judaico de Israel e dos seus apoiantes e financiadores americanos mais poderosos, tributários e generosos. Outros afirmam que ele é um marxista secreto cujas burlas foram concebidas cuidadosamente para desacreditar Wall Street e para canalizar milhares de milhões para organizações radicais clandestinas – afinal de contas… alguém sabe onde foram parar os milhares de milhões desaparecidos? Mas contrariamente aos entendidos, bloggers e manifestantes de esquerda, cujas actividades ardentes e públicas não tiveram qualquer efeito sobre os ricos e poderosos, Madoff apontou os seus golpes para onde era mais doloroso: As suas mega-contas bancárias, a sua confiança no sistema capitalista, a sua auto-estima e até mesmo o seu bom estado cardíaco.

Será que isto significa que nós, os da esquerda, devíamos formar uma Comissão de Defesa de Bernie Madoff e pedir uma operação de salvamento equiparada à operação de salvamento de Paulson para os seus amigalhaços do Citibank? Deveríamos gritar "Operações de salvamento iguais para vigaristas iguais!"? Deveríamos defender a sua fuga (ou o direito a regressar) para Israel para fugir ao julgamento? Não seria possível fugir com as suas muitas vítimas judaicas para fazer um processo para uma reforma israelense para Bernie.

Não há razão para levantar barricadas em prol de Bernard Madoff. Basta reconhecer que ele prestou involuntariamente um serviço histórico à justiça popular minando algumas das escoras financeiras de um sistema de injustiça dominado por uma classe.

POSTSCRIPTUM

Foi em consequência da total admiração ou por causa de quaisquer ligações encobertas com Madoff que o nosso actual promotor geral, Michael Mukasey, se afastou da investigação? Há certamente outras pessoas de igual importância e influência que estão ligadas à Questão Madoff, sem serem apenas as suas 'vítimas'. Estamos perante um caso grave de assuntos de Estado… Ninguém acredita que uma única pessoa tenha podido montar sozinha uma fraude desta dimensão e duração. Nem nenhum investigador sério pode acreditar que 50 mil milhões de dólares tenham pura e simplesmente 'desaparecido' ou tenham ido parar a contas pessoais.
19/Dezembro/2008
[NT] Ivy League: grupo de faculdades e universidades americanas de alto nível académico (Harvard, Brown, Cornell, Yale, Princeton, Universidade da Pensilvânia, Dartmouth, Columbia).

O original encontra-se em: http://petras.lahaine.org/articulo.php?p=1769&more=1&c=1
Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

ORIENTE MÉDIO - Uma breve resposta à desinformação sionista.

por Khalid Amayreh

Crianças mortas na morgue de Gaza. Os operacionais do hasbara [1] sionista têm estado a afirmar que a actual carnificina genocida em Gaza é uma "guerra contra o Hamas" e que esta foi necessária só pelos disparos de rockets palestinos sobre Israel.

Isto é uma grande mentira, como se verá a seguir:

"O Hamas disse reiteradamente que estava desejoso e pronto para cessar "todo" o disparo de projécteis a partir de Gaza desde que Israel levantasse o seu bloqueio mortífero. E Israel reiteradamente disse "Não".

Israel tem estado a dizer ad nauseam que terminou a sua ocupação de Gaza. Bem, por que então Israel retém o seu controle dos céus de Gaza, das costas de Gaza, do mar de Gaza, dos lugares de cruzamento da fronteira de Gaza (mesmo com o Egipto)? Por que Israel retém o controle da vida de Gaza?

Portanto, a questão dos disparos de "rockets" sobre Israel (trata-se de projécteis feitos artesanalmente que fazem mais ruído do que dano) deveria ser encarada em grande medida como algo para desviar a atenção.

Efectivamente, Israel deu aos palestinos em Gaza uma de duas escolhas: morrerem de fome devido ao bloqueio o serem exterminados pela máquina de guerra israelense

Na verdade, os chamados "rockets" não são senão um protesto desesperado por justiça, pelo levantamento do bloqueio mortífero. Gaza foi simplesmente reduzida a uma Auschwitz dos dias de hoje. A única diferença é que judeus estão agora a desempenhar o papel das SS.

O Hamas cumpriu meticulosamente um cessar fogo de seis meses, apesar da persistência do bloqueio estilo nazi que se assemelha muito ao cerco do Gueto de Varsóvia em 1942-43. Contudo, em 13 de Novembro Israel executou uma incursão dentro de Gaza, matando seis pessoas.

Indo directamente ao principal, Israel matou 49 palestinos durante o cessar fogo. Nem um único israelense foi morto nesse período.

Além disso, centenas de palestinos pereceram porque Israel não lhes permitia que tivessem acesso a cuidados médicos ou remédios. Vi muitos palestinos morrerem na agonia porque a "luz das nações" não lhes permitia chegarem ao hospital uns poucos blocos mais adiante. Em suma, estamos a falar acerca de um estado judeu-nazi. Estou a dizer isto porque quando judeus pensam, comportam-se e actuam como nazis, eles tornam-se nazis. Devemos chamar a pá de pá, especialmente quando acontece ela estar nas mãos dos nossos coveiros.

Portanto, é uma grande mentira chamar a esta guerra uma guerra contra o Hamas. Isto é uma guerra de extermínio estilo nazi contra o povo da Palestina.

Se a guerra fosse contra o Hamas, como os criminosos de guerra de Tel Aviv continuam a afirmar, Israel não teria alvejado praças de mercado, farmácias, edifícios de faculdades, lares privados, mesquitas, instituições culturais, estradas, negócios, etc.

Só um estado com uma mentalidade hitleriana alvejaria uma sociedade inteira e a seguir afirma que está a combater o Hamas! É simplesmente uma enorme mentira.

Assim, Israel está simplesmente a executar um genocídio real ... e aliás um genocídio indiscriminado.

Hoje, mesmo um eminente rabi judeu utilizou o termo "genocídio" para descrever o que Israel está a fazer em Gaza.

Ver também artigo de Amira Hass no jornal Haaretz: "Israel's war is not against Hamas, it's against all the Palestinians."
29/Dezembro/2008
[1] Hasbara: palavra hebraica que significa literalmente "explicação". O termo é utilizado pelo Estado de Israel e por grupos independentes para descrever os esforços destinados a explicar as políticas do governo de Israel e promovê-lo no mundo todo.

O original encontra-se em Palestinian Information Center

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .