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sexta-feira, 19 de março de 2010

HONDURAS - De um golpe, Honduras.




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Elaine Tavares *

Adital

O jornalista hondurenho Rony Martínez esteve ontem na Faculdade de Jornalismo da Universidade Estácio de Sá, onde o coordenador do curso, Paulo Scarduelli, juntou todos os estudantes para uma aula magna. Com o auditório lotado, Rony falou sobre a experiência da Rádio Globo de Honduras na resistência ao golpe militar levado a cabo no dia 28 de junho de 2009. Contou em detalhes desde o primeiro dia do golpe, quando todas as rádios e televisões locais seguiam transmitindo como se a vida estivesse normal, e apenas a Rádio Globo informava ao povo sobre o que, de fato, se passava no país. "Ficamos no ar apenas dez minutos, e nos cortaram o sinal. Mas nós decidimos continuar transmitindo e junto com os companheiros da técnica improvisamos uma antena. Esta ‘ gambiarra’ permitiu que pelo menos a região central de Tegucigalpa seguisse nos escutando. Além disso, transmitíamos pela internet, informando ao mundo sobre o que se passava em Honduras". Para os estudantes que se mantiveram atentos até o final da conversa, a história do jovem jornalista soou como uma inspiração. A maioria deles só ouviu falar de golpe militar através dos pais e nunca vivenciaram uma situação como a que hoje passa Honduras. "Agora a gente entende o que dizem os nossos pais sobre o que aconteceu aqui no Brasil em 64". Rony Martínez trouxe os detalhes sobre como a pequena equipe de jornalistas da Rádio Globo decidiu enfrentar toda a repressão e apostar naquilo que é a verdade do jornalismo: informar com responsabilidade sobre o que interessa a maioria da população. "Nas outras emissoras vinham falar os bispos, as autoridades, os pastores evangélicos, a dizerem que tudo estava bem, que era só uma substituição constitucional. Mas nós não dourávamos a pílula. O que havia era um golpe militar e nós decidimos dizer a verdade". Rony descreveu ainda sobre o trabalho de uma jornalista que insistia em ir às coletivas de imprensa do governo golpista e perguntar, a queima-roupa: "como pode o senhor ser chamado de presidente constitucional? Quem foi que o elegeu". E ela incomodava tanto com suas perguntas certeiras que o então presidente golpista mandou que os guardas a tirassem de dentro do palácio.

Também contou sobre quando eles seguiam transmitindo e informando sobre as manifestações da resistência popular e o exército decidiu invadir e fechar a rádio. "Nós já tínhamos preparado um rota de fuga pela janela. Quem mais sofreu foi o nosso diretor David Romero, porque é um pouco gordinho. Mas a gente conseguiu descer os três andares e nos abrigamos em uma casa. E dali seguimos transmitindo clandestinamente".

Junto com Rony Martínez o também jornalista hondurenho Ronnie Huete mostrou o trabalho que realizou em Honduras como fotógrafo, trazendo as imagens de uma gente em luta, que nunca se rendeu ao golpe militar.

Nesta quinta, dia 18, os dois jornalistas falam sobre o golpe em Honduras e sobre a experiência da Rádio Globo na Univali, em outro curso de Jornalismo. Na sexta-feira, dia 19, participam do II Encontro de Soberania Comunicacional, no Sindicato dos Bancários, promovido pelo portal Desacato e pela Revista Pobres e Nojentas, junto com o Sindicato dos Jornalistas, que foi a entidade que tornou possível a vinda do jornalista da Rádio Globo. Durante o encontro acontece a pré-estréia do filme "De um golpe, Honduras", roteirizado pelo jornalista Raul Fitipaldi e dirigido por Aline Razzera Maciel. Como bem lembrou Rony Martínez na coversa com os estudantes é bem assim que eles se sentem no seu pequeno país. "De repente, por conta do golpe, assomou Honduras, um país que não será mais o mesmo. O povo despertou, e sua caminhada rumo a liberdade não se deterá".


* Jornalista

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

HONDURAS - "Vamos por asas na resistência para contrapor o plano de normalização"

Giorgio Trucchi.


O dia 27 de janeiro de 2010, dia em que se instala o governo de Porfírio Lobo Sosa, será recordado de forma diferente segundo os matizes que se queira dar a esta data. Para os golpistas e seus aliados internacionais será a data da reconciliação e do regresso do país à normalidade. Enquanto que para a Resistência marcará a continuidade de um regime golpista e ditatorial, controlado por militares e grupos fáticos que tentam auto absolver-se dos delitos cometidos e aprofundar o modelo neoliberal.

Por um lado, a pantomima da posse em um Estádio Nacional guardado por milhares de militares e policiais, onde o novo presidente tentará vender ao mundo a imagem de um país normalizado e que os recursos econômicos da cooperação já poderão fluir. Por outro lado, uma gigantesca marcha da Resistência, que retomará suas mobilizações caminhando em direção ao aeroporto Toncontín, para mostrar a outra cara dessa Honduras ferida e que não se deixa abater, e despedir-se do presidente Manuel Zelaya Rosales, que, finalmente, poderá por fim ao seu encerro na embaixada do Brasil.

Para analisar o contexto hondurenho a poucas horas dessa data e como a Resistência está preparando-se para os desafios futuros, Sirel conversou com Carlos H. Reyes, membro da condução da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) e presidente do Sindicato de Trabalhadores da Indústria da Bebida e Similares (STIBYS).

Confira a entrevista:

- O que muda no país com a instalação de um novo governo?

- Não muda nada. Estamos diante de um plano bem orquestrado para dizer ao mundo que em Honduras tudo está solucionado e que com o novo presidente acabaram-se os problemas, pois já nos reconciliamos.
Os que têm esse tipo de discurso são os mesmos que planejaram e executaram o golpe e os meios que os apoiaram, e estão tentando convencer a comunidade internacional disso.
Em dias anteriores, nos reunimos com uma delegação do Parlamento Alemão e o que nos diziam era que em Honduras já havia reconciliação e que o fato de que dirigentes do Partido da Unificação Democrática (UD) estivessem conformando o governo recém eleito era um sinal de que a Resistência estava participando nesse esforço, o que é uma grande mentira.
Aqui, desde o golpe de Estado, estiveram contando mentiras; e continuam mentindo.

- Acreditas que a comunidade internacional tem interesses particulares e por isso querem acreditar que a situação está normalizada?

- Depende do que entendamos por "comunidade internacional". Se falamos dos Estados Unidos, não temos dúvidas de que dirigiu todo esse plano e que agora tenta encobrir uma das últimas etapas do golpe para que se acredite que tudo se normalizará.
Não foi um golpe contra os hondurenhos, nem contra o presidente Zelaya; foi um golpe contra um país e um continente que querem mudar, transformar-se e rumar pelos caminhos da mudança e da integração.
Portanto, os Estados Unidos são os mais interessados em criar esta imagem e, com certeza, a CNN será a primeira em apoiar esta estratégia, envolvendo os demais meios internacionais. A consigna é esquecer-se de Honduras e aproveitar o drama do Haiti para facilitar a situação.

- Um plano bem pensado e executado...

- Até tinham um cronograma que executaram fielmente; e não tenho a menor dúvida de que também a assinatura do compromisso de Porfirio Lobo com o presidente da República Dominicana permitindo que o presidente Zelaya saia do país é parte disso, tentando dar ao mundo esta imagem de reconciliação.
E o que o presidente Zelaya poderia fazer? Ou vai ao exílio ou é preso. Eu respeito sua decisão.
No entanto, a mensagem não escrita desse acordo é "apagar e começar do zero", e a Resistência não pode apoiar isso de nenhuma maneira.

- Já está tudo pronto para uma anistia geral e o Alto Comando do Exército foi ‘absolvido’ definitivamente pela Corte Suprema de Justiça...

- São os mesmos golpistas que falam de anistia e se autoabsolvem, e são eles que se estão reconciliando, porque não levaram a Resistência em consideração. Em Honduras somente poderá haver uma verdadeira reconciliação através de uma Assembleia Nacional Constituinte, que refunde este país.

- A Resistência reconhecerá o novo governo?

- Dissemos desde o início que queríamos a restauração da ordem constitucional através da restituição do presidente Zelaya e que se isso não acontecesse o que deveria acontecer era a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte.
Os golpistas realizaram eleições e não as reconhecemos, bem como também não reconhecemos seus resultados. Por isso, tampouco podemos reconhecer a um governo denominado "novo", pois para nós é a continuação do governo anterior.
Porém, o que acontece na prática? O STIBYS, por exemplo, acaba de perder cinco julgamentos trabalhistas, entre eles duas mediações por graves violações ao Convênio Coletivo por parte da Pepsi-Cola-CAB Corp e Coca-Cola-SABMiller. O novo ministro de fato anulou estas mediações.
Nos outros casos, o novo diretor do Seguro Social ratificou um acordo para um Sistema Médico de Empresa na Cervejaria Hondurenha, que era ilegal e que o antigo diretor não iria renovar.
Diante dessas situações, não vamos legitimar o novo governo; porém, tampouco vamos deixar de defender-nos e recorreremois nas instâncias pertinentes.
A Resistência se defenderá; porém, também agirá contra a pretensão de consolidação do modelo neoliberal.

- De que maneira atuarão?

- Não se trata de que nos converteremos em partido político porque seria um grave erro. O que temos que fazer é fortalecer a Resistência; devemos colocar cabeça, corpo, pés e asas; asas para voar no plano eleitoral quando tivermos forças.
Nos reunimos em Siguatepeque para dilucidar coisas e a essência é definir estratégias e táticas para ir-nos aproximando a questões bem concretas.
Nunca no passado tivemos uma conjuntura como a atual e nossa discussão foi muito rica; com análise profunda sobre o que acontece em âmbito nacional e internacional.
Este governo tão débil pode cair logo e vamos lutar contra tudo o que pretenda consolidar em relação ao neoliberalismo, levando adiante o projeto da Constituinte. Se isso acontecer, apesar da continuidade da repressão e dos assassinatos, estaremos prontos para o processo eleitoral de 2013.

* Rel-UITA (Unión Internacional de Trabajadores de la Alimentación, Agrícolas, Hoteles, Restaurantes, Tabaco y Afines)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

HONDURAS - A vitória do golpe da direita em Honduras.

Copiado do blog "Democracia&Política

"Posse de presidente em Honduras derrota Zelaya e dá vitória a golpista Micheletti

Pela primeira vez desde 28 de junho do ano passado, quando o presidente Manuel Zelaya foi removido [pela força] do país ainda em seus pijamas, Honduras voltará a viver nesta quarta-feira (27) um ensaio de democracia. Porfírio Lobo, de um partido rival ao do agora ex-mandatário, receberá o cargo do presidente golpista Roberto Micheletti – que, para analistas ouvidos pelo UOL Notícias sai da crise como vencedor.

Desde o início da crise, Micheletti – presidente do Parlamento hondurenho – ocupa a Presidência da República. Manteve-se no poder sem fazer concessões apesar de pressionado – mais por uns que por outros – a deixar o cargo e restituir Zelaya, removido por militares sob a acusação ['deduzida' com argumentos subjetivos] de buscar uma votação popular para se reeleger. Os especialistas ouvidos pela reportagem são unânimes ao dizerem que a solução passou mais pelo golpista vitorioso do que pelo presidente deposto.(...)

Lobo assume a Presidência em um país dividido, tentando conciliar os grupos de Zelaya e Micheletti, e em busca de reconhecimento internacional, depois de meses de tensões entre o governo golpista e líderes como o presidente americano, Barack Obama, o brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o venezuelano, Hugo Chávez. Símbolo disso é sua cerimônia de posse: até a véspera, apenas os mandatários de Panamá, República Dominicana e Taiwan tinham confirmado presença."

FONTE: reportagem de Maurício Savarese do UOL Notícias, publicada hoje (27/01) no portal UOL [título e entre colchetes colocados por este blog].

domingo, 24 de janeiro de 2010

HONDURAS - Suprema Corte aceita processo contra seis militares.

Suprema Corte de Honduras aceita processo contra envolvidos em afastar Zelaya
O chefe das Forças Armadas de Honduras, Romeo Vásquez. Foto AFP

O Chefe das Forças Armadas deverá prestar depoimento

A Suprema Corte de Honduras aceitou, nesta segunda-feira, o pedido de abertura de um processo de “abuso de poder” proposto pelo Ministério Público contra seis militares envolvidos na deposição do presidente Manuel Zelaya, em junho do ano passado.

“O presidente da Suprema Corte, Jorge Alberto Rivera, aceitou a petição do Procurador Geral para ouvir o caso. O assunto será discutido, e um juiz decidirá sobre as eventuais medidas a serem tomadas”, disse o diretor do Departamento de Justiça do Exército, Juan Carlos Sánchez, à rádio hondurenha HRN.

Entre os militares que deverão prestar depoimento no tribunal estão o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas de Honduras, Romeo Vásquez Velásquez, o chefe da Aeronáutica, Venancio Cervantes, e da Marinha, Luis Javier Prince.

Clique Leia na BBC Brasil: Ministério Público de Honduras pede prisão de militares que expulsaram Zelaya

O processo será o primeiro contra os militares do país desde a derrubada de Zelaya e sua expulsão do país para a Costa Rica.

Apesar disso, a medida não deve ter grandes efeitos práticos, já que o presidente eleito, Porfírio Lobo, já manifestou a intenção de anistiar tanto Zelaya quanto os envolvidos na deposição de Zelaya no ano passado. Lobo assume o poder no próximo dia 27.

Zelaya

Em outra ocasião, a Suprema Corte já havia indiciado Zelaya por “traição à pátria e abuso de poder” por desobedecer as ordens da própria corte de abandonar os planos de uma consulta popular para reformar a Constituição.

O presidente deposto está desde 21 de setembro abrigado na Embaixada brasileira em Tegucigalpa, depois de retornar ao país clandestinamente.

Na última quarta-feira, Zelaya criticou o pedido do Ministério Público à Suprema Corte e disse que ele servirá para “colocar um manto sobre a verdade dos fatos que ocorreram no dia 28 de junho”.

Zelaya acusou o procurador-geral de “usar um novo estratagema para conseguir a impunidade dos militares ao acusá-los por delitos menores e não pelos delitos graves que cometeram, como traição à pátria, assassinatos, violações dos direitos humanos e torturas do povo hondurenho”.

Brasil

Ainda nesta segunda-feira, o Itamaraty enviou uma missão diplomática a El Salvador, Guatemala e República Dominicana para discutir a crise em Honduras

Segundo o governo, o objetivo é “analisar a conjuntura política hondurenha a duas semanas da posse do presidente eleito, Porfírio ‘Pepe’ Lobo”.

Observadores brasileiros avaliaram que a situação política no país tende a se normalizar, mas consideram fundamental evitar que permaneça em Honduras o clima instaurado com a deposição de Manuel Zelaya.

Acredita-se que a missão diplomática busque o estabelecimento de uma posição comum de alguns países latino-americanos a ser encaminhada para uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre o assunto.

Paralelamente, o Congresso Nacional de Honduras discute e deve votar em breve a proposta de anistia aos envolvidos na deposição de Zelaya.

Os termos da proposta têm o objetivo de atender aos pedidos de ambos os lados. Para Zelaya, seria concedida a anistia pelas acusações de tentar mudar a Constituição para dar continuidade a seu mandato.

Os que promoveram a deposição e demais seriam perdoados dos crimes de traição à pátria, terrorismo, rebeliões, manifestações, reuniões violentas e abuso de autoridade.

Nos últimos dias, as articulações em favor da aprovação da proposta se intensificaram por correligionários de Lobo, com o apoio do governo dos Estados Unidos.

Crise

A crise política em Honduras teve início em 28 de junho, quando Manuel Zelaya foi destituído do cargo pelas Forças Armadas, acusado de violar a Constituição do país.

Antes de ser afastado, Zelaya defendeu que as eleições de 29 de novembro tivessem mais uma consulta, sobre a possibilidade de se mudar a Carta Magna hondurenha.

Segundo sua proposta, os eleitores decidiriam nessa consulta se desejavam que se convocasse uma Constituinte – o que, segundo o principal assessor do líder deposto, Carlos Reyna, é "uma necessidade histórica de Honduras".

Os críticos de Zelaya afirmam que sua intenção era mudar o marco jurídico do país para poder se reeleger, o que é vetado pela atual Constituição.

A deposição do presidente eleito foi condenada internacionalmente. No lugar de Zelaya, que foi levado para fora do país, assumiu um governo interino, liderado pelo antigo presidente do Congresso, Roberto Micheletti.

No dia 29 de novembro, apesar da resistência de aliados do líder deposto, o governo interino realizou a eleição presidencial, na qual Porfírio Lobo foi eleito.
Fonte:BBC BRASIL

domingo, 10 de janeiro de 2010

HONDURAS - Resistência contra o golpe.

Prensa latina

Tegucigalpa, 7 jan (Prensa Latina) A Frente Nacional contra o golpe de Estado de Honduras confirmou para hoje sua primeira marcha deste ano em demanda da restituição da ordem constitucional rompida pelos militares em junho passado.

Dirigentes da Frente indicaram que durante a manifestação recusarão as tentativas do governo de facto de retirar a nação da Aliança Bolivariana para os povos de Nossa América (ALBA).

O líder camponês Rafael Alegria apontou que outros dos objetivos da demonstração é exigir o fim das violações dos direitos humanos e a convocação de uma assembleia nacional constituinte.

Alegria recordou que a ALBA, a qual se aderiu o país durante o mandato de Zelaya, propiciou a aplicação em Honduras de planos de benefício social e econômico aos setores mais desprotegidos da sociedade.

Acrescentou que promoveu planos de luta contra o analfabetismo, melhorias nos sistemas de saúde, entrega de fundos para o desenvolvimento e acesso a combustíveis em condições favoráveis de pagamento, entre outras vantagens.

O governo de facto que assumiu com o golpe militar de 28 de junho decidiu no passado 15 de dezembro renunciar ao tratado com a ALBA, assinado no dia 25 de agosto de 2008, e o tema será debatido pelo Parlamento na próxima semana.

Depois do derrocamento de Zelaya, Honduras foi suspensa da ALBA e igualmente de outros organismos regionais como a Organização dos Estados Americanos (OEA).

A marcha desta quinta-feira, de caráter nacional, ocorrerá a 20 dias da tomada de posse do presidente eleito nas questionadas eleições de 29 de novembro passado, o conservador Porfirio Lobo.

A Frente, surgida no mesmo dia do golpe, desconhece os resultados das eleições e chamou a resistência a manter a luta pacífica até conseguir a refundação de Honduras mediante uma constituinte.

Essa vasta aliança de forças populares acusa Lobo e seu Partido Nacional de estar entre os principais promovedores da ação militar golpista.

A marcha coincide com a decisão do ministério Público de solicitar um requerimento diante da Corte Suprema de Justiça contra a cúpula militar por abuso de poder e pela expatriação de Zelaya.

O estadista advertiu em declarações à imprensa, da embaixada do Brasil, onde se encontra desde setembro passado, que o recurso dos promotores é uma tentativa de lançar um manto sobre o ocorrido no dia 28 de junho.

Zelaya assegurou que tanto o ministério Público como a Corte Suprema e o Congresso Nacional conspiraram com os militares para dar juntos o golpe de estado.

lgo/rl/es

Fonte: Márcia e suas leituras.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

HONDURAS - MP de Honduras pede prisão para militares golpistas.


Romeo Vásquez, cuja prisão foi pedida pelo Ministério Público

Romeo Vásquez, cuja prisão foi pedida pelo Ministério Público

Vocês lembram como nossos comentaristas políticos – de direita, se isso não for pleonasmo – diziam que a desposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya era legal, porque este insistia em fazer uma consulta popular sobre a convocação de uma Assembléia Constituinte, o que a Justiça não queria, mesmo que sem caráter deliberativo?

Bem, vamos ver se eles falam alguma coisa agora que o Ministério Público hondurenho pediu a prisão de toda a cúpula militar do país, incluindo o chefe do Estado Maior – equivalente a ministro-chefe das Forças Armadas, Romeo Vásquez.

Eles foram acusados de violar a lei por terem expulsado do país o Presidente, quando a ordem que tinham era de conduzi-lo à Suprema Corte. A expatriação de nacionais é terminantemente proibida pela Constituição de Honduras. O promotor contra a corrupção, Henry Salgado, confirmou a jornalistas que apresentou ao Supremo um “requerimento” contra a Junta de Comandantes das Forças Armadas, por abuso de autoridade e crime de expatriação.

Será que a lei vale para os golpistas?

Fonte: Blog " Tijolaço ", do Brizola Neto.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

HONDURAS - Quanta hipocrisia dos EUA.


EUA se dizem 'decepcionados' com decisão do Congresso de Honduras

Deputados hondurenhos durante a votação

Zelaya disse que decisão do Congresso é uma 'vergonha'

O secretário-assistente dos Estados Unidos para a América Latina, Arturo Valenzuela, disse nesta quinta-feira que o governo americano está “decepcionado” com a decisão do Congresso hondurenho de não permitir a restituição do líder deposto de Honduras, Manuel Zelaya, à Presidência.

“Esperávamos que o Congresso aprovasse a restituição”, disse Valenzuela.

Apesar da “decepção” sobre a decisão, Valenzuela garantiu que a votação da quarta-feira – na qual 111 deputados se opuseram ao regresso de Zelaya e somente 14 votaram a favor – “foi conduzida de maneira transparente”.

A responsabilidade do Congresso pela decisão sobre a restituição de Zelaya era um dos pontos previstos no acordo Tegucigalpa San-José, assinado pelas duas partes – representantes do líder deposto e do governo interino, liderado por Roberto Micheletti – e mediado pelos EUA.

O secretário-assistente pediu aos políticos hondurenhos novos passos que permitam a criação de um governo de união nacional e de uma comissão para investigar a deposição de Zelaya, em 28 de junho.

“Resta muito trabalho a ser feito para restabelecer a ordem democrática e constitucional em Honduras e promover a reconciliação nacional”, disse. “A situação segue sendo inaceitável”.

A Casa Branca afirmou que apoiaria a restituição de Zelaya ao poder através da votação dos deputados, mas o próprio presidente deposto negou aceitar qualquer regresso à Presidência que servisse para “encobrir o golpe de Estado” que o destituiu.

Washington também reconheceu as eleições presidenciais do último domingo em Honduras, que elegeram o candidato da oposição, Porfírio “Pepe” Lobo. Valenzuela disse, no entanto, que o pleito “não é suficiente” para solucionar a crise política no país.

Direitos humanos

Ainda nesta quinta-feira, a organização de direitos humanos Anistia Internacional (AI) apresentou o relatório de uma missão de observação que esteve em Honduras nos últimos dez dias.

No documento, o grupo questionou o contexto de direitos humanos em que se foram conduzidas as eleições de domingo no país.

A AI declarou a presença da organização em Honduras não era uma missão de observação eleitoral, mas o chefe da missão, Javier Zúñiga, disse à BBC Mundo que apesar de “não ter motivos para duvidar” da qualidade técnica do processo, há “algumas dúvidas” sobre o contexto em que as eleições foram realizadas.

“Eu simplesmente lembro você que não houve observação internacional qualificada, como da Organização dos Estados Americanos (OEA), ou das Nações Unidas (ONU)”, disse Zúñiga.

O líder da missão da AI afirmou ainda que “a crise em Honduras não termina com os resultados eleitorais” e que o próximo governo deve tomar medidas para eliminar os controles às liberdades pessoais e de expressão que foram estabelecidos pelo governo interino.

A Anistia exige que se estabeleçam responsabilidades em todos os casos de abusos dos direitos humanos que foram documentados no país após a deposição de Zelaya.

Crise

A crise política em Honduras teve início em 28 de junho, quando Manuel Zelaya foi destituído do cargo pelas Forças Armadas, acusado de violar a Constituição do país.

Antes de ser afastado, Zelaya defendeu que as eleições de 29 de novembro tivessem mais uma consulta, sobre a possibilidade de se mudar a Carta Magna hondurenha.

Segundo sua proposta, os eleitores decidiriam nessa consulta se desejavam que se convocasse uma Constituinte – o que, segundo o principal assessor do líder deposto, Carlos Reyna, é “uma necessidade histórica de Honduras”.

Os críticos de Zelaya afirmam que sua intenção era mudar o marco jurídico do país para poder se reeleger, o que é vetado pela atual Constituição.

A deposição do presidente eleito foi condenada internacionalmente. No lugar de Zelaya, que foi levado para fora do país, assumiu um governo interino, liderado pelo antigo presidente do Congresso, Roberto Micheletti.

Zelaya voltou clandestinamente a Honduras e se abrigou na embaixada do Brasil, onde está desde o mês de setembro.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

HONDURAS - "Não dá para fazer mais nada".

Para o embaixador brasileiro na OEA, já não há mais o que ser feito em Honduras
Para o embaixador brasileiro na OEA, já não há mais o que ser feito em Honduras

Marcela Rocha

O embaixador brasileiro na Organização dos Estados Americanos (OEA), Ruy Casaes, nega que exista uma queda de braço entre os Estados Unidos e o Brasil sobre Honduras. Mas admite que "os EUA se isolaram na OEA e que buscam soluções para tentar abranda isto". Por isso, se aproximaram e pediram ideias ao Brasil, explica. Pessimista, Casaes joga a toalha: "não dá pra fazer nada".

- Em última análise, esse sujeito é um palhaço. É algo tão primário, tão primitivo, que Roberto Micheletti (presidente de facto) só pode estar de gozação.

Veja também:
» Micheletti crê em apoio americano a eleição de Honduras
» OEA não chega a consenso sobre eleições em Honduras
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O governo brasileiro propôs que as eleições, previstas para o dia 29 de novembro, fossem adiadas para 17 de dezembro. Os EUA negaram a ideia sob a justificativa de ser tarde demais para uma medida como esta, além de considerarem as eleições legitimas, tendo em vista que já estavam marcadas antes mesmo do presidente Manuel Zelaya ser deposto em 28 de junho deste ano. Colômbia e Peru concordam com o governo de Barack Obama.

No raciocínio do embaixador, a Colômbia é um país altamente dependente dos EUA. O Peru é um país que tem um governo de centro-direita que tem dificuldades com alguns vizinhos, históricas com o Chile e ideológicas com a Venezuela. Isto, portanto, indica que reconhecerão o resultado das eleições mesmo sem o retorno de Zelaya, condição imposta pelos demais países.

- Assim, eles estarão agindo de maneira incoerente e terão que fazer uma grande ginástica para justificar o fato de eles não estarem tomando a posição que eles assinaram tanto na Unasul, quando no Grupo do Rio, quanto na Cúpula da América Latina e do Caribe sobre Integração e Desenvolvimento (Calc). Isto será um problema deles.

Caso o Congresso hondurenho se manifeste contra a restituição de Zelaya, Micheletti pretende permanecer presidente até 27 de janeiro, data da posse do candidato que for eleito neste domingo.

Zelaya voltou clandestinamente do exílio e está há dois meses refugiado na embaixada brasileira. De lá, pede que a população boicote a eleição convocada por Micheletti.

Terra Magazine - Como o senhor avalia este novo cenário que se desenha em Honduras? O Brasil travou uma queda de braço com os EUA?
Ruy Casaes -
Não, não, isso é pura ficção. Nos contatos que foram mantidos com os EUA, ficou claro que os americanos se deram conta de que estão num processo de isolamento dentro da OEA. Na Cúpula da América Latina e do Caribe sobre Integração e Desenvolvimento (Calc), que exclui EUA e Canadá, os países membros assinaram uma declaração dizendo que não reconheceriam as eleições caso o presidente Manuel Zelaya não seja reinvestido nas suas funções antes, naturalmente, das eleições. Eles perceberam que estão isolados e buscam soluções para tentar abrandar isto. O que fizeram foi, tendo presente essa sensação de isolamento que levaria a uma fratura dentro dos países americanos em relação a crise de Honduras, os EUA se aproximaram e pediram ideias a nós.

Foi quando o Brasil propôs o adiamento do processo eleitoral...
Exatamente. Era uma questão de tempo, administrá-lo. Nós já sabemos que o Congresso hondurenho só vai se manifestar no dia 2 de dezembro, portanto depois das eleições. Isso criou um fato que pode levar a um impasse, porque, se a maioria dos países condicionou aceitar as eleições ao retorno de Zelaya, a ser solucionado com um adiamento de tal maneira que o Congresso se manifestasse previamente às eleições. Esse é o espírito do processo negociador, a expectativa, desde o início, era de que o deposto voltasse com a reação positiva do Congresso hondurenho.

Um dos argumentos de membros do governo norte-americano é que dias a mais ou a menos não farão diferença.
Muitos candidatos retiraram as suas candidaturas por não estarem de acordo com esse processo eleitoral. A população hondurenha não reagirá, como não vem, reagindo, de maneira monolítica. Um dia a mais, um dia a menos... não é bem assim. Um dia a mais, ou a menos, pode exatamente significar o elemento fundamental, que é o retorno de Zelaya. O adiamento não foi uma iniciativa nossa, brasileira. Os EUA nos pediram ideias, justamente por terem consciência de que a posição que vinham assumindo em Honduras estava lhes isolando. Mas isto reflete o embate interno nos EUA sobre essa questão, embora a população americana esteja se lixando para Honduras. Alguns grupos, com poder de pressão, levam o governo dos EUA a ter presente a importância desses grupos na formação da política externa norte-americana. Eles ficam apertados contra as cordas, tendo que buscar posições internamente aceitáveis.

Como deve ser o diálogo a partir de agora com Colômbia e Peru?
Tecnicamente, o adiamento das eleições é possível, o que não é possível é adiar o dia de posse do vencedor, da transmissão. Hoje, seria irrealístico fazer esse adiamento, seria um fato novo perturbador internamente no país. Mas quando essa sugestão foi feita, embora em cima do laço...

Por que demorou tanto a ser feita?
Não é que tenha demorado. Foi uma reação, apenas, a um pedido que eles nos fizeram. Depois, nós partíamos do pressuposto de que, tendo assinado o acordo de San José, ele teria sido implementado. Acreditávamos que as partes envolvidas estavam agindo de boa fé. Logo em seguida, descobrimos que o regime de facto não estava agindo de boa fé, ou melhor, nunca agiu. O acordo previa um governo de unidade e reconciliação nacional, ou seja, as pessoas sentam à mesa e negociam a formação desse governo. O Micheletti mandou uma carta ao Zelaya dizendo que presidiria o governo de unidade e pediu que o deposto enviasse dez nomes de membros e que o golpista escolheria cinco. Ora, isso é uma afronta. Ou seja, esse acordo nasceu morto. A comissão de verificação que foi a Tegucigalpa viu que Micheletti agiu contrariamente ao acordo.

Voltando à questão sobre o diálogo com Colômbia e Peru...
As posições não são absolutamente coincidentes. Havia um elemento de convergência, mas havia diferenças de matizes. A Colômbia é um país altamente dependente dos EUA, o Peru é um país que tem um governo de centro-direita que tem dificuldades com alguns vizinhos, históricas com o Chile e ideológicas com a Venezuela. O Peru age de uma maneira que para eles é aquilo que significa a sua individualidade. Eu não sei se eles vão reconhecer ou não. Os indícios apontam que o Peru reconhecerá, assim como a Colômbia, independentemente de qualquer outra coisa. Eles estarão agindo de maneira incoerente e terão que fazer uma grande ginástica para justificar o fato de eles não estarem tomando a posição que eles assinaram tanto na Unasul, quando no Grupo do Rio, quanto na Calc. Isto será um problema deles.

Eles defendem também que o afastamento de Micheletti seria o suficiente para re-estabelecer a ordem no país para realizarem as eleições?
Isto é uma brincadeira de mau gosto. Ele não se afastou, ele se afastaria. Em última análise, esse sujeito é um palhaço. É algo tão primário, tão primitivo, que Micheletti só pode estar de gozação. Será mesmo que ele acredita que os países vão se sensibilizar com o fato de no dia das eleições ele não estar sentado na cadeira da presidência que ele usurpou? Será que ele acha que é tudo um faz de conta? Nós não consideramos essa licença.

O senhor avalia que o Brasil se afastou um pouco das discussões e deixou os EUA protagonizarem isso?
Não, não, acho que não. Quando fomos a Tegucigalpa da última vez, o representante dos EUA teve uma participação muito secundária, não foi ativo. O que acontece é: A única maneira desse governo de facto ser desbancado é pressão internacional ou uma guerra civil, descartada. Todos os países fizeram pressão, o Brasil esgotou seu cardápio de pressões e olha que as relações brasileiras com Honduras são menores do que as mantidas pelos EUA, que tem uma base militar no país, que depende economicamente dos EUA. Então, só os EUA poderiam elevar a pressão a um ponto insuportável, mas não o fizeram.

O que ainda dá pra fazer?
Olha, acho que não dá pra fazer nada. Em termos de solução, nós vamos entrar num quadro extremamente complexo. Além de tudo é preciso levar em conta o efeito demonstração dessa crise. Há mais países com instabilidades internas que podem se agravar a partir do momento em que a crise não foi resolvida com a reinstalação da ordem democrática. Isso pode estimular. Se em Honduras, nada foi feito, porque não posso fazer em outro país também? Embora alguns argumentem que as eleições já haviam sido convocadas e os candidatos já eram certos, como se as eleições fossem reparadoras do que ocorreu. Isso não é bem assim.

O que o senhor espera para o próximo encontro da Unasul?
Provavelmente Honduras será um tema candente. Veremos como Colômbia e Peru vão se comportar.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

HONDURAS - Processo eleitoral hondurenho: inviável e ilegítimo.

por Erica Soares

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O prefeito de San Pedro Sula, Rodolfo Padilla, somou-se à lista de candidatos hondurenhos opostos hoje a participar nas eleições pela falta de legitimidade do processo sob o golpe de Estado.

Padilla, que buscava a reeleição na segunda cidade mais importante do país, afirmou que sem o restabelecimento da institucionalidade é impossível celebrar umas eleições transparentes como demandam o povo e a comunidade internacional.

"Ao não dar, na atualidade, ditas condições, é contrário a meus princípios, convicções e valores legitimar processos eleitoreiros que pretendem consolidar os abusos, crimes e atropelos perpetrados pelos responsáveis pelo golpe", afirmou.

Cerca de 110 candidatos a prefeitos e 55 a deputados de diferentes partidos renunciaram a participar na disputa do próximo dia 29 de novembro em protesto pela militarização.

O primeiro em apresentar sua retirada foi o aspirante presidencial independente, Carlos H. Reyes, depois de denunciar que está em marcha uma farsa para legitimar o regime de fato.

"Definitivamente não se voltou à ordem constitucional, não se restituiu o presidente Manuel Zelaya e nós não podemos participar em eleições em condições desse tipo. Isso seria legitimar os golpistas", explicou Reyes.

Em 30 de outubro passado representantes do governo constitucional e do regime de fato assinaram, a instâncias de Washington, um acordo que propunha submeter a votação no Congresso a restituição de Zelaya e conformar um governo de unidade.

No entanto, o pacto, batizado como Tegucigalpa/San José, fracassou porque o Parlamento manobrou para atrasar a votação e o chefe do regime pretendeu conformar ele mesmo esse gabinete.

Um senador democrata estadunidense considerou que o acordo fracassou pela abrupta mudança de postura do Departamento de Estado frente a Honduras, ao anunciar que aprovaria as eleições, independentemente de Zelaya ser restituído ou não.

"Reconhecer as eleições ainda quando o regime de fato não cumpra com seus compromissos causou o fracasso do acordo que o próprio Departamento de Estado ajudou a negociar", disse John Kerry, chefe da comissão de Relações Exteriores do Senado.

Mais de 240 acadêmicos de universidades estadunidenses enviaram uma carta ao presidente Barack Obama, na qual lhe pedem que não aceite as eleições, se antes não se repõe Manuel Zelaya.

Denuncia a mensagem que Honduras se encontra à beira de um precipício porque o regime de Roberto Micheletti pretende seguir adiante com a campanha para legitimar seu governo ilegal e inconstitucional.

"Com sua disposição de reconhecer estas eleições, os Estados Unidos vai contra e na direção oposta à do resto do continente", advertem os especialistas.

Vários governos latino-americanos e organismos como a ONU, o Grupo do Rio e a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA) anunciaram que não aprovarão o processo, se não for restituída a ordem institucional.

O presidente Zelaya, que desde o passado dia 21 de setembro permanece na embaixada do Brasil aqui, agradeceu o apoio da comunidade internacional e chamou novamente a desconhecer os resultados desta farsa.

De acordo com Zelaya, sem as condições mínimas para assegurar aos cidadãos o exercício do direito universal ao voto de forma direta, secreta e livre de coerção ou ameaça, o processo eleitoral resulta inviável e ilegítimo.

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Original em Prensa Latina

sábado, 14 de novembro de 2009

HONDURAS - O império contra-ataca.

A crise hondurenha finalmente se resolveu “pelo lado mau”: a consolidação do regime golpista e a institucionalização das eleições ilegítimas que terão lugar no próximo dia 29 de novembro.

Por Atilio Boron, em seu blog.


Já a Casa Branca declarou que os resultados do pleito serão admitidos como válidos, comemorando-se assim a normalização da vida democrática e colocando fim ao “interinato” de Micheletti, eufemismo com o qual desde o início Washington caracterizou o golpe de Estado da oligarquia hondurenha.

Deste modo, as grosseiras violações aos direitos humanos e os atropelos às liberdades democráticas serão condenadas aos esquecimento. Este penoso desenlace havia sido antecipado por diversos representantes da direita republicana, que impôs como uma de suas condições para ratificar a designação de Arturo Valenzuela como secretário de estado adjunto para assuntos interamericanos o pleno reconhecimento de eleições que por suas insanáveis anomalias deveriam ser declaradas nulas e de nulidade absoluta.

Tal como o reportara o Página/12 em sua edição de 7 de novembro, o senador republicano pela Carolina do Sul, Jim DeMint, retirou seu veto à candidatura de Valenzuela porque, segundo se encarregou de comunicar à imprensa, “a secretária de estado Hillary Clinton e o subsecretário, Thomas Shannon, me garantiram que os Estados Unidos reconhecerão o resultado das eleições hondurenhas, tenha sido restituído ou não Manuel Zelaya”.

Esta resolução da crise tem um significado que excede a política hondurenha: marca o início de uma nova etapa, por certo involutiva, na qual Estados Unidos retomam sua tradicional política de apoio aos golpes militares e aos regimes autoritários afins com os interesses imperiais e ratifica o caráter hipócrita e vazio da retórica democrática permanentemente enunciada por Washington.

Convém aprender a lição: de agora em diante, democrático volta a ser todo o regime que se submete incondicionalmente aos desígnios norte-americanos; autoritário, populista ou despótico, não importa se o primeiro viola flagrantemente os direitos humanos, mantém estreitas relações com os narcotraficantes e paramilitares e sabota sem cessar os possíveis acordos de paz e a troca humanitária de que necessita a Colômbia para conquistar sua pacificação; ou que o segundo despeça, do dia pra noite, 46 mil trabalhadores da companhia de luz e força do centro e promova uma demente militarização da vida política americana.

Chávez, Correa e Morales, ao contrário, são populistas e autoritários, perigosos para seus vizinhos porque promovem diversas reformas sociais e plantam as sementes da discórdia em seus respectivos países. Aqui aparece uma vez mais a velha e falsa teoria conservadora que concebe a luta de classes não como produto das contradições sociais inerentes ao capitalismo, senão como a obra de um agente perverso que, dotado de imensos poderes, introduz o vírus do ódio e o conflito nas sociedades que antes de sua nefasta aparição sobressaíam pela harmonia de suas relações sociais.

Ante esta penosa regressão da política exterior norte-americana, são muitos os analistas e estudiosos da realidade internacional que plantam a tese de que a vitória dos golpistas hondurenhos expressa a declinação da hegemonia norte-americana. A partir desta constatação, termina-se por inocentar Barack Obama porque, supostamente, seus esforços não puderam encaminhar a crise em Honduras a uma resolução compatível com a institucionalidade democrática. Até que ponto é sustentável esta interpretação?

Há duas questões que devem ser examinadas: por um lado, a progressiva perda de capacidade hegemônica dos Estados Unidos na região. Por outro lado, as iniciativas concretas tomadas pela Casa Branca no marco da crise hondurenha. Em relação à primeira, é preciso reconhecer que a superpotência enfrenta uma diminuição de sua capacidade de dominação e controle sobre o sistema internacional, assim como sua influência econômica global, o que não significa que esta tendência não foi transportada linearmente para a América Latina e o Caribe.

Não seria temerária, senão muito mais próximo da verdade, a hipótese que havia dito de que, ante uma declinação relativa do império na arena mundial, aquele se apega com mais força ao que suas estratégias militares e diplomáticas consideram seu quintal e seu questionável entorno de seguridade territorial. Inclusive esta região do mundo foi a destinatária da primeira concepção de que a jovem república norte-americana elaborou em matéria de política exterior: a doutrina Monroe.

Portanto, o declínio global não necessariamente significa uma deterioração equivalente em sua capacidade de controlar sua tradicional “zona de influência”. É indubitável que o predomínio que os Estados Unidos tinham antes sobre seus vizinhos ao sul do rio Bravo ficou debilitado, mas ainda assim está longe de haver desaparecido. E isso nos conduz à análise do segundo aspecto assinalado mais acima.

Pode-se dizer que Obama atuou com todas suas forças para resolver a crise hondurenha em uma direção coerente com os imperativos da democracia e os direitos humanos? Definitivamente não. Suas iniciativas foram vacilantes, expressão das duas linhas que disputam a formulação de sua política exterior. Uma, reacionária até a medula e profundamente influenciada pelas necessidades e estratégias do complexo militar-industrial encontra em Hillary Clinton sua melhor porta-voz. Outra linha, muito mais difusa e dispersa, desejaria estabelecer relações mais respeitosas com os países da área ainda que isso implicasse abandonar a presunção hegemônica do passado, senão tão somente um certo adiamento da mesma, encontra seu principal representante no próprio Obama. Nesta luta o presidente se viu claramente superado por seus rivais que, desde o início, foram capazes de impor sua estratégia em relação à crise desatada em Honduras.

Caberia perguntar se esta interpretação não empresta validade à tese declinacionista. De nenhuma maneira. O que fica claro é que Obama tem um controle apenas marginal do aparato estatal norte-americano. Seria, portanto, mais correto dizer que foi o ocupante da Casa Branca que não pôde eleger outro rumo. Em outras palavras, se impõe mais uma vez distinguir entre o “governo permanente” deste país e seu “governo aparente”, simbolizado na figura do presidente.

O problema é que o esvaziamento da democracia estadunidense, um processo que vem se desenvolvendo ao longo do último meio século, faz com que a imagem presidencial tenha pouca autonomia para governar — em um hipotético caso do governo desejar levar a cabo uma política contrária aos interesses do “governo permanente”, essa nefasta rede de grandes oligopólios e seus lobbies, as forças armadas, políticos profissionais e grandes meios de comunicação que, como dissera Gore Vidal, mantém sequestrada a sociedade norte-americana.

Para resumir: a hipótese do declínio hegemônico fica desmentida quando se observa que, apesar da dita debilidade, Washington as engenha para firmar um tratado de cooperação militar com a Colômbia que,como recordara o comandante Fidel Castro Ruz dias passados em uma de suas “Reflexões”, equivale praticamente a uma anexação desse país sul-americano aos Estados Unidos. Esta iniciativa demonstra sua formidável capacidade de pressão, dominação e controle que, dada sua debilidade, ainda conserva o império.

É essa mesma capacidade que o levou a tirar rapidamente da cena negociadora o secretário geral da OEA em Tegucigalpa, cujos planos eram totalmente inaceitáveis aos golpistas, para substituí-lo por um velho peão da política estadunidense, Oscar Arias. É essa mesma capacidade a que o leva a sustentar contra o vento o criminal bloqueio a Cuba, mesmo na Assembleia Geral da ONU 187 dos 192 países tendo condenado essa política, tendo somente três defensores: Estados Unidos, seu cliente Israel e a ilha Palau (20 mil habitantes), um polígono de tiro das forças armadas norte-americanas na Micronésia.

O que o permite não ouvir à reclamação universal de indultar os cinco lutadores antiterroristas cubanos submetidos a desumanas condições de detenção nos Estados Unidos graças a uma escandalosa subversão do devido processo legal; ou manter uma infame prisão, violadora de todos os direitos humanos, na Base Naval de Guantánamo.

Se Obama houvesse demonstrado mesmo determinação para exigir a imediata restituição de Zelaya na presidência, a história teria sido outra. E tinha instrumentos em para fazê-lo: poderia ter decretado o bloqueio transitório das remessas dos imigrantes hondurenhos residentes nos Estados Unidos ou instruído as empresas norte-americanas radicadas em Honduras que preparassem planos para sua eventual evacuação, ou congelado os fundos dos políticos do regime e da oligarquia depositados nos bancos norte-americanos, ou embargar suas faustosas propriedades na Flórida.

São gestos nada inéditos, quase todos eles foram utilizados por George W. Bush para frustrar a vitória segura de Schafik Handal, candidato da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, nas eleições de 2004 em El Salvador. Por que não se tentou algo similar nesta ocasião? Resposta: porque a política do “governo permanente” dos Estados Unidos dispõe coutra coisa e o inquilino da Casa Branca se inclinou frente essa decisão.

Conclusão: não é que os Estados Unidos não podem modificar o resultado da crise hondurenha, mas que, além das preferências de Obama, a classe dominante norte-americana e seus representantes políticos no aparato estatal quiseram que fosse outro o desenlace deste conflito, ainda sabendo as implicações funestas que esta decisão terá para a paz e a estabilidade política para este país da América Central.

Em linha com a desorbitada militarização da política hemisférica promovida desde os anos de George W. Bush — e da qual as sete bases concedidas por Uribe são apenas a ponta do iceberg — o “governo permanente” dos Estados Unidos apostou por sustentar os golpistas ao invés de apostar na reconstrução da democracia.

Não se tratou de uma questão de incapacidade, e sim de uma eleição estratégica concebida para reordenar a mãos militares o tumultuoso traseiro do império na América Central e para lançar um sinal de advertência aos governos de esquerda e progressistas da região.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

HONDURAS - Candidato renuncia e declara apoio à volta de Zelaya.

Imagine passar a tesoura em quase 15 milhões de cédulas eleitorais para excluir um candidato. É possível que isso seja feito em Honduras para as eleições de 29 de novembro, caso elas sejam mesmo realizadas sob o regime golpista, sem a volta do presidente deposto Manuel Zelaya ao posto para o qual foi democraticamente eleito.
David Matamoros, um dos três magistrados do Tribunal Superior Eleitoral, confirmou que essa estratégia pode ser utilizada após Carlos H. Reyes, da CI (Candidatura Independente, vinculada à Frente de Resistência), ter renunciado definitivamente à disputa, em protesto contra a não restituição de Zelaya.

As eleições em Honduras são feitas com cédulas de papel. Em 29 de novembro, cada eleitor terá de depositar três delas: uma para escolher o presidente, outra para eleger nominalmente cada deputado e uma terceira para escolher o prefeito.

Em cada papel, verticalmente, aparecem nome e foto de cada candidato, além do símbolo do partido. O eleitor precisa marcar com uma caneta as preferências.

Caso o espaço destinado a Reyes não seja recortado, todos os votos recebidos pela Candidatura Independente serão anulados, explicou Matamoros, que confirmou que todas as cédulas já foram impressas.

Reyes declarou ontem (9) que não participará da eleição pois esta “legitima e legaliza o golpe de Estado e a continuidade dos golpistas no poder”.

O político acrescentou que não quer “servir de ornamento a uma mentira orquestrada pelos partidos Liberal, Nacional e o TSE”. Tanto a Candidatura Independente (CI) como a Frente de Resistência estão convencidos que as próximas eleições serão fraudulentas.

Matamoros lamentou a retirada da candidatura e reiterou que “há fatores mais do que suficientes para que as eleições possam ser consideradas transparentes”.

Afirmação esta questionada por muitos analistas políticos, que lembram que nunca houve processos eleitorais limpos no país e que ainda se usa o termo “eleições ao estilo de Honduras”, em referência à repartição histórica do poder entre liberais e nacionais.

Sem garantias

Álvaro Cálix, sociólogo da Universidade Nacional Autônoma de Honduras, explicou ao Opera Mundi que, mais do que um debate sobre a legitimidade da disputa, feita sob a influência de uma ditadura, está a desconfiança.

“É impossível ter confiança num processo quando ele vem seguido de um golpe de Estado, pelo fato de dois dos três juízes do TSE antes ocuparem cargos públicos nomeados pelo Partido Liberal e Nacional, respectivamente, e as urnas estarem sob custódia do mesmo exército que ilegalmente derrubou o presidente eleito do país.”

Segundo Cálix, “não existem os mecanismos suficientes de garantia”, pois não há recursos econômicos suficientes para pagar observadores independentes em cada uma das urnas e as etapas de filtragem dos resultados.

Enquanto isso, na embaixada do Brasil, Manuel Zelaya felicitou a CI pela decisão pois, segundo ele, “estão denunciando a fraude”. Acrescentou que, no atual contexto, não faz sentido haver eleições impulsionadas pelas elites econômicas para benefício próprio.

Fonte: Opera Mundi/Site O Vermelho.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

HONDURAS -O golpe do golpista.

Do blog "Tijolaço" do Brizola Neto.

Inacreditável e certamente fadada a provocar nova crise internacional a decisão do chefe do governo golpista de Honduras de dar um “golpe” no acordo firmado há pouco mais de dez dias com o emissário americano Thomas Shannon. O acordo, divulgado para o mundo, previa a volta do presidente eleito Manoel Zelaya ao governo, continuidade dos processos judiciais que se movem contra ele e realização de eleições para presidente - tudo sob observação internacional. Segundo o cronograma do acordo Tegucigalpa-San José, firmado na sexta-feira passada sob mediação do Departamento de Estado norte-americano - um governo de unidade nacional deveria ser estabelecido até meia-noite de quinta-feira (horário local, 4h de sexta-feira em Brasília) sob vigilância de uma Comissão de Verificação, composta por dois representantes internacionais e dois locais.

Michelleti agora diz que não sai do Governo, que a decisão sobre a volta de Zelaya ao governo fica para não se sabe quando e que vai formar um governo de “unidade nacional”.

A Frente de Resistência Contra o Golpe em Honduras anunciou que caso o presidente deposto, Manuel Zelaya, não fosse restituído até a meia-noite desta quinta-feira (horário local, 4h de sexta-feira em Brasília), chamarão a população a não participar nas eleições do próximo dia 29 de novembro.

A Frente acusa a Organização de Estados Americanos (OEA) e o governo dos Estados Unidos de “cúmplices do golpe de Estado militar” e convocam a comunidade internacional a manter a posição de “não legitimar” do processo eleitoral . Brasil e a maioria dos países da América Latina afirmam que não reconhecerão o resultado das eleiçõe se Zelaya não for restituído.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

OS EUA E A INCERTEZA EM HONDURAS.

Argemiro Ferreira

É difícil prever o que vai acontecer em Honduras depois do acordo. Na aparência, ele sequer impõe a volta do presidente constitucional Manuel Zelaya (na foto acima com o sub-secretário americano Thomas Shannon, na embaixada do Brasil), cujo mandato foi capado em mais de quatro meses. O retorno era ponto de honra não só para os partidários de Zelaya, mas para a ONU, a OEA e a comunidade internacional, até porque nenhum país reconheceu o regime do golpista Roberto Micheletti.

HN_Llorens_Hugo-02.JPGO objetivo maior da comunidade internacional era deixar claro na América Latina com seu passado marcado por golpes militares (em geral teleguiados dos EUA e quase sempre acompanhados pelo respaldo americano, com desembarque de tropas ou a ameaça de fazê-lo) que tais práticas não serão mais toleradas no continente – e que o golpismo será sistematicamente repudiado.

Para os atuais detentores do poder de fato aceitarem a fórmula, autoridades dos EUA – Thomas Shannon, sub-secretário de Estado para assuntos do hemisfério, e o embaixador Hugo Llorens – tiveram de convencer os golpistas (que antes do golpe tinham tido o cuidado de obter deles o nihil obstat de Washington) de que Zelaya só voltaria se o Congresso de Honduras aprovasse seu retorno ao poder.
A estranha epifania dos golpistas

Estranho a contradição. Os partidários de Zelaya concordaram em deixar a decisão final para a mesma maioria parlamentar que se mostrara favorável ao golpe quando os militares sequestraram o presidente legítimo no palácio (de pijama) e o enfiaram num avião para tirá-lo do país?Shannon_Thomas Será que diante da pressão internacional a tal maioria, tão golpista como Micheletti, teve uma epifania?

Shannon (foto ao lado) e Llorens podem ser a chave para entender a suposta epifania. Herdados do governo Bush (e sua desastrada política externa) pela secretária de Estado Hillary Clinton, os dois e mais algumas figuras sinistras (entre elas um dos chefes da máfia dos cubanos de Miami, o lobista Otto Reich) tinham servido na Casa Branca e no Departamento de Estado na trama golpista de 2002 contra Hugo Chávez na Venezuela.

Dias depois do golpe hondurenho escrevi neste espaço que Shannon e Llorens tinham vivido situação igual sete anos antes: “um tratava então de questões andinas (Venezuela entre elas) no Departamento de Estado, como adjunto do secretário assistente Reich, lobista anti-Cuba e padrinho do golpe (da Venezuela); o outro cuidava do mesmo assunto no Conselho de Segurança da Casa Branca, junto com Elliot Abrams (condenado no escândalo Irã-Contras).” (Saiba mais sobre o caso AQUI, AQUI, AQUI e AQUI).
Fazendo o que a CIA fazia antes

Naquele e em outros textos sobre mais complicadores, lembrei ainda a ação golpista em Washington do NED (National Endowment for Democracy), grupo criado no governo Reagan para apoiar golpes e ditaduras, usado depois tanto por republicanos (através do IRI) como por democratas (através do NDI), cada um com suas ONGs apoiadas por empresários e sindicatos que agem no continente.

CIA_seal_menor

Citei ainda a frase dita em 1991 por Allen Weinstein, um dos criadores do NED: “Boa parte das coisas que estamos fazendo hoje (usando o NED) eram feitas clandestinmente, 25 anos atrás, pela CIA, Agência Central de Espionagem”. Aquela referência era aos golpes da CIA, na América Latina e nos quatro cantos do mundo, como os do Irã (em 1953) e da Guatemala (1954).

Com o NED, seja em governos republicanos ou democratas, os mecanismos mudaram (em geral não chegam a dispensar a CIA, mas a notoriedade dela passou a exigir cobertura mais eficaz). No caso de Honduras escancarou-se também uma ação mais ostensiva dos lobbies na capital dos EUA (mais sobre essa praga AQUI), tanto os ligados a um partido como os ligados ao outro, conforme foi destacado numa análise.

Tudo isso acaba por justificar certo desencanto com a possibilidade de reformas e mudanças mais substantivas no governo Obama. De qualqur forma, será preciso no mínimo esperar o final do processo em Honduras. Sem familiaridade com a América Latina, que ela sempre subestimou, Hillary revela-se pouco inclinada a renovar a política para a região, talvez por temer complicadores previsíveis.
Uma eleição e muitos problemas

No governo do marido dela, a oposição republicana impediu o presidente Clinton de nomear vários embaixadores – ente eles, William Weld, republicano que para chefiar a missão dos EUA no México chegara a renunciar ao governo do estado de Massachusetts. E até hoje não foi votada a indicação de Thomas Shannon para o Brasil e a do substituto dele no Departamento de Estado, Arturo Valenzuela.

RicardoLagos_HildaSolisMas na crise de Honduras, apesar do papel conspícuo de Shanon e Llorens nas últimas semanas, os EUA optaram por dar mais espaço à OEA. E cabe neste momento à uma Comissão de Verificação, criada no acordo assinado pelas partes, acompanhar através da americana Hilda Solis e do chileno Ricardo Lagos (foto à esquerda) o cumprimento de cada uma das cláusulas.

Depois de consumado o retorno de Zelaya, ainda haveria, claro, a questão eleitoral. O jogo dos golpistas foi (na verdade, ainda está sendo) retardar ao máximo todo o processo – o que tende a questionar depois a legitimidade da eleição, já que na campanha candidatos golpistas foram naturalmente beneficiados pelo controle oficial. Essa e outras questões dificilmente deixarão de reaparecer no desdobramento.
Fonte:Blog do Argemiro.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

HONDURAS - Golpistas de Honduras denunciam Brasil em Haia.

Micheletti acusa governo Lula de ingerência em assuntos internos e diálogo interno, aparentemente esgotado, tenta última saída com chegada de negociadores dos Estados Unidos

Por: João Peres

O Ministério das Relações Exteriores de Honduras informou nesta quarta-feira (28) ter entrado com uma denúncia contra o Brasil na Corte Internacional de Justiça de Haia. O governo brasileiro é acusado de ingerência em assuntos internos por ter recebido em sua embaixada em Tegucigalpa o presidente legítimo do país, Manuel Zelaya, deposto em um golpe que completou quatro meses.

Procurado, o Itamaraty informou por sua assessoria de imprensa que não foi comunicado sobre a decisão e que não há qualquer posicionamento a respeito. De qualquer maneira, o Brasil e a comunidade internacional não reconhecem o regime golpista, e não devem aceitar as eleições presidenciais marcadas para novembro.

Por outro lado, a aposta dos golpistas, liderados por Roberto Micheletti, é ganhar tempo e conseguir que as eleições deem fim à crise que os próprios criaram. "A restituição do ex-presidente Manuel Zelaya está claro que não será contemplada em um possível acordo entre as duas comissões por ser inconstitucional", insistiu Micheletti em comunicado nesta quarta-feira.

Zelaya, no entanto, afirmou que é ele a única solução para legitimar as eleições. O deposto manifestou mais de uma vez que aceita voltar ao cargo com poderes reduzidos e que se submete às decisões da Justiça, desde que seja garantido um julgamento isento.
Última saída

A chegada nesta quarta de negociadores dos Estados Unidos é vista como uma última possibilidade de conseguir um acordo. A delegação é comandada pelo secretário-adjunto para assuntos do Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, que depende de aprovação do Senado para ser o embaixador do país no Brasil.

Na terça-feira, o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly, manifestou que a situação em Honduras é bastante urgente. "Queremos ver uma eleição, que acontecerá exatamente em um mês, que tenha o tipo de legitimidade internacional que a população de Honduras merece para seu governo", afirmou.

Dentro do governo de Barack Obama há uma discussão sobre o reconhecimento das eleições do próximo mês. Sob pressão do Congresso, o governo pode acabar aceitando o pleito de novembro.
Fonte:Revista do Brasil.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

HONDURAS - Embaixador brasileiro na OEA exige fim da tortura na embaixada em Honduras.

O embaixador do Brasil na OEA, Ruy de Lima Casaes e Silva, exigiu hoje o fim da "tortura" a que estão submetidos os funcionários e o pessoal que se encontra na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, onde se aloja o deposto presidente Manuel Zelaya desde o mês de setembro.
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Traduzido por Rosalvo Maciel

Se trata de um ataque "desumano", disse o representante do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), que relatou ante o Conselho da organização hemisférica como se "intensificaram progressivamente as técnicas de tortura" contra os que se encontram na embaixada.

O embaixador assinalou as "pesadas restrições" aos diretos humanos impostas às pessoas que se encontram sitiadas na legação.

A embaixada, aonde a comida chega contada e registrada, está cercada por forças policiais e militares desde que Zelaya ingressou nela, em 21 de setembro.

As casas vizinhas à sede diplomática foram evacuadas para "facilitar as medidas de restrição", entre elas cortes de água e luz.

Além disso, do lançamento de gás lacrimogêneo, ondas sonoras e outro gases de efeito não identificado dos primeiros dias, se somaram, segundo contou, "torturas psíquicas" através de potentes lâmpadas de luz que apontam para as janelas durante a noite e os intensos ruídos que impedem dormir e descansar aos funcionários que estão dentro.

Explicou que um dos focos aponta diretamente para a janela do aposento onde se encontra Zelaya, que ainda que esteja coberta com revistas, papel alumínio e plástico escuro "a intensidade da luz é insuportável".

Outro foco aponta para a garagem onde se encontra o pessoal da embaixada, ao que se unem as buzinas que tocam toda á noite e outros ruídos provocados pelos policiais imitando sons de animais para evitar que possam dormir.

Alem disso, assinalou que 24 horas por dia há guardas armados, postados em duas plataformas instaladas na frente da embaixada, vendo claramente o interior do edifício e que controlam todos os movimentos com binóculos.

Quanto à comida, relatou que o acesso é "limitado", vem preparada do exterior, é revisada e farejada por cães, mesmo que nem sempre se entregue imediatamente, inclusive, ás vezes, é deixada ao sol durante horas o que em uma ocasião provocou uma crise de diarréia generalizada.
Lima Casaes "deplorou" as ações do Governo de fato e exigiu "o fim da situação de tortura à qual estão submetidos os cidadãos brasileiros e hondurenhos" no interior da embaixada.

Ainda recordou que o artigo 2 da Convenção Interamericana contra Prevenção e Castigo da Tortura diz que anular a personalidade da vítima ou diminuir sua capacidade física ou mental ainda que não cause uma dor física ou angustia psíquica "também é tortura".

Os embaixadores e representantes dos 33 países que atualmente são membros da OEA mostraram seu apoio ao Brasil e em suas intervenções individuais pediram que acabe o sitio à embaixada.
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Original em Vos El Soberano/ O Velho Comunista.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

HONDURAS - Barões da mídia de Honduras acusados no Tribunal Penal Internacional

Copiado do Blog "Vi o Mundo", do Azenha.

O dono dos jornais El Heraldo e La Prensa, Jorge Canahuati Larach, e o proprietário das Emisoras Unidas e Televicentro, José Rafael Ferrari, tiveram seus nomes incluídos na denúncia apresentada ao Tribunal Penal Internacional de Haia, na Holanda, por participação no golpe que derrubou o presidente constitucional do país, Manuel Zelaya.

A acusação foi apresentada pelo presidente da Assembléia pelos Direitos Humanos da Espanha, Manuel Olle Sesé, e pelo secretário-geral de direitos humanos da Federação Internacional de Direitos Humanos, Luis Guillermo Pérez Casas.

Também figuram na acusação os líderes militares de Honduras e o presidente do Congresso, Roberto Micheletti Baín, além de todas as autoridades hondurenhas que teriam sido coniventes com o golpe.

Segundo a acusação, os golpistas incorreram nos seguintes crimes:

1. Delito contra a forma de governo;

2. Delito de traição à pátria;

3. Delito de abuso de autoridade;

4. Delito de usurpação de funções em prejuízo da administração pública e do Estado de Honduras.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

HONDURAS - Candidato à presidência não concorrerá se continuar o golpe de Estado.

Copiado do blog "Bodega Cultural"

O candidato presidencial Carlos H. Reis reiterou hoje sua decisão de não participar das eleições de novembro próximo se Honduras continuar sob golpe militar.

Reis, candidato independente das organizações populares, falou a uma emissora de TV centro-americana que uma decisão nesse sentido adaptar-se à vontade das bases do partido de se fazer firme contra o golpe .[...]

Disse ainda que as eleições, convocadas para dia 29 do mês próximo, só podem se realizar se for restituída à ordem constitucional ao presidente eleito pelo povo, Manuel Zelaya, derrocado pelos militares em 28 de junho passado.

O pré-candidato apontou que a aprovação desses passos para restaurar a democracia são vitais para o sucesso ou falha das negociações entre representantes de Zelaya e o governo golpista, que retomarão manhã.

A Frente Nacional contra o golpe de Estado advertiu desde fins de agosto que só reconhecerá os resultados das eleições se Zelaya for restituído ao seu cargo, para que elas possam ser confiáveis e transparentes.

Reis é um dos dirigentes dessa aliança de forças populares, mas ainda se recupera das lesões sofridas no final de julho durante a repressão da polícia contra uma marcha da resistência.
Com informações da ABN [Traduzido por Carlinhos Medeiros]

COMO HONDURAS REPETE A GUATEMALA, 55 ANOS DEPOIS.

Se me fosse dada a opção de escolher o currículo de formação de novos jornalistas, eu optaria por colocá-los para estudar História. Não dá para ver o golpe em Honduras fora de seu contexto econômico e histórico internacional.

Por Luiz Carlos Azenha, no blog Vi o Mundo

Do ponto-de-vista da economia, a crise nos Estados Unidos teve um tremendo impacto em toda a América Central. Nos Estados Unidos os centro-americanos cumprem o papel de derrubar os salários locais. E ajudam a sustentar as economias de seus países de origem com as remessas de dólares.

Com a crise, as elites locais da América Central, atreladas a interesses estrangeiros, não querem fazer qualquer concessão. O principal produto desses países é a mão-de-obra barata: os homens imigram, as mulheres trabalham nas maquilas, empresas que montam produtos exportáveis para os Estados Unidos.

Fazer concessões aos movimentos sociais implica em ameaçar a vantagem competitiva que esses países podem oferecer aos investidores estrangeiros: o trabalho semi-escravo.

De repente, surge na equação um sujeito chamado Hugo Chávez. Com o dinheiro do petróleo, pode equilibrar esse jogo. Todos esses países são dependentes de importação de energia. Além de acesso a petróleo mais barato, através de Chávez os governos podem obter financiamento externo para projetos de infraestrutura e programas sociais.

Ou seja, é uma perspectiva de autonomia numa região que sempre foi quintal político e econômico dos Estados Unidos, o que vale também para o grande vizinho ao Norte, o México.

Portanto, Manuel Zelaya era um exemplo a ser combatido. Embora eleito por um partido de centro-direita, ameaçava romper o pacto das elites hondurenhas, assentado sobre a exploração da mão-de-obra local.

Zelaya, como vocês sabem, deu aumento de 65% no salário mínimo.

Quanto à conjuntura internacional, Honduras desempenha um papel importante como uma espécie de porta-aviões em terra para projetar o poder militar dos Estados Unidos na América Central.

Embora Zelaya não tenha falado em acabar com isso, as ideias dele representavam ameaça de médio prazo, especialmente num quadro em que a Venezuela se contrapõe abertamente aos Estados Unidos na América Central e no Caribe.

Engana-se quem acha que a transição do governo Bush para o governo Obama foi completa. Os neocons não deixaram o poder completamente nos Estados Unidos. Alguns deles são assessores de Hillary Clinton no Departamento de Estado. Outros lutam de dentro da burocracia estatal. E há a câmara de eco neocon nos institutos de estudos internacionais, revistas e jornais, que trava uma luta diária para influenciar a política externa. Eles são fortíssimos no Pentágono e na CIA.

Além de pregar a completa hegemonia política, econômica e militar dos Estados Unidos, os neocons agem em defesa de grandes interesses econômicos, os mesmos que sustentam seus institutos e publicações.

A História da América Central é a história da subordinação local a esses interesses.

Foi para combater a "ameaça comunista" que os Estados Unidos derrubaram o governo de Jacob Arbenz na Guatemala, em 1954, num período em que a United Fruit tinha o monopólio da produção de banana e era dona da maioria das terras; a subsidiária dela, International Railways of Central America (IRCA), controlava o transporte; e a Electric Bond and Share (EBS) controlava a produção e distribuição de energia.

"Vista no contexto da Guerra Fria, a intervenção dos Estados Unidos na Guatemala foi a primeira expressão na América Latina de uma política desenvolvida inicialmente na Grécia. No período depois da Segunda Guerra Mundial, o capital dos Estados Unidos estava se expandindo mundialmente em uma escala sem precedentes. Movimentos de trabalhadores nos Estados Unidos e no estrangeiro (especialmente os abertos às ideias comunistas) eram vistos como ameaça a essa expansão e portanto tinham que ser colocados sob controle. No estrangeiro, a intervenção de 1947 na Grécia foi o precedente. Os Estados Unidos jogaram centenas de milhões de dólares na Grécia para esmagar uma revolta revolucionária militarmente. A Doutrina Truman deu a justificativa, ao dizer que os Estados Unidos precisam 'apoiar povos livres que estão resistindo à subjugação por minorias armadas'. A Guatemala foi a primeira aplicação dessa lógica na América Latina (vista também na derrubada do governo nacionalista de Mossadegh no Irã). Nesse contexto, os Estados Unidos fizeram um teste na Guatemala de um modelo para reverter revoluções sociais na América Latina clandestinamente, sem mandar os fuzileiros navais. Muitos aspectos desse modelo foram aplicados na invasão da baía dos Porcos (Cuba) e em operações clandestinas subsequentes, inclusive na guerra dos contra nos anos 80 contra a Nicarágua". (Do livro The Battle for Guatemala, de Susanne Jones).

Hoje, os grandes interesses econômicos que colocam Barack Obama na parede representam o capital multinacional que prega a "flexibilização" do trabalho, o desmanche do estado, a criminalização dos movimentos sociais reinvindicatórios, o estado da segurança nacional, a guerra permanente e o acesso desimpedido às matérias primas.

A grande ameaça a esses interesses é o voto popular. A grande arma deles é a mídia. O golpe em Honduras resultou de uma conjuntura política interna, mas dentro de um contexto econômico e político internacional. É o neogolpe. A repetição da História, agora como farsa, na qual o antichavismo faz o papel do anticomunismo, para despistar os verdadeiros objetivos: garantir a completa subordinação da mão-de-obra. É a parte que nos cabe nesse latifúndio.

HONDURAS - Delegação de deputados republicanos em Honduras e a "Lei Logan".

Copiado do Blog Assaz Atroz

Os Republicanos dos EUA cometem crime em Honduras?

Brendan Cooney - Counterpunch(*)

Como se a direita ainda precisasse de mais itens em seu pedigree antidemocrático, os líderes do Partido Republicano dos EUA voaram em bando para Tegucigalpa, em auxílio à junta golpista.

Nove congressistas Republicanos – sete, só na semana em que a crise esquentou – já se reuniram até agora com Roberto Micheletti, que tomou o poder por golpe militar em Honduras dia 28/6.

É golpe já denunciado por todos, da Organização dos Estados Americanos (OEA) às Nações Unidas (ONU), que aprovaram Resolução que conclama “categoricamente todos os Estados a não reconhecer qualquer governo em Honduras além do governo eleito do presidente Manuel Zelaya. Nenhum Estado no mundo reconheceu Micheletti como presidente. Pois o Partido Republicano dos EUA ‘reconheceu’.

“Micheletti é o presidente de Honduras” – decretou a deputada Republicana Ileana Ros-Lehtinen, membro do Comitê de Relações Exteriores da Câmara de Deputados, na 2ª-feira. “Há quem fale de “governo de fato, mas conforme a Constituição da República, aqui estou, ao lado do presidente de Honduras, o que é grande honra para mim.”

Empurrando os EUA cada vez mais para dentro da goela do lobo, lá está também o Senador da Carolina do Sul, Jim DeMint, membro do mesmo Comitê, que visitou Micheletti e seus asseclas, dia 2/10: “Encontramos um governo que está trabalhando duro para fazer cumprir a lei, defender a Constituição e proteger a democracia para o povo de Honduras.”

Consistente com a posição assumida por todos os demais países do mundo, da Venezuela, à esquerda; à Colômbia, à direita, o presidente Obama dos EUA adotou a política de não reconhecer nem encontrar-se com Micheletti.

Dado que qualquer contato com Micheletti está em conflito direto com a lei e os interesses declarados dos EUA, esses nove Republicanos e o senador líder da minoria Mitch McConnell, que ajudou os demais, parecem estar violando a lei norte-americana.

A Lei Logan declaradamente proíbe que cidadãos não especialmente autorizados negociem com governos estrangeiros: “[cometem crime todos que] “direta ou indiretamente iniciem ou dêem prosseguimento a qualquer correspondência ou relacionamento com governo estrangeiro ou com funcionários e agentes de governos estrangeiros, com intenção de influenciar medidas tomadas ou que estejam sob discussão, ou em qualquer tipo de disputa ou controvérsia que tenham com os EUA. Penas: multa ou prisão por período máximo de três anos, ou ambas as penas.”

Tomas Ayuso, pesquisador do Conselho de Assuntos Hemisféricos, que trabalhou nos relatórios sobre a crise em Tegucigalpa, concorda. Os deputados e senadores Republicanos que se reuniram com Micheletti “claramente violaram a Lei Logan”, disse ele.

Houve três viagens de Republicanos a Honduras, para reuniões com Micheletti: em julho, viajaram os Deputados Connie Mack (R-Florida) e Brian Bilbray (R-California); semana passada, foram os senadores Jim DeMint (R- South Carolina), Aaron Schock (R-Illinois), Peter Roskam (R-Illinois) e Doug Lamborn (R-Colorado); e 2ª-feira foi a vez dos deputados Ileana Ros-Lehtinen (R-Florida), Lincoln Diaz-Balart (R-Florida) e Mario Diaz-Balart (R-Florida).

Por mais que ninguém possa alegar ignorância da lei, poder-se-ia supor que esses deputados e senadores Republicanos não soubessem que o governo Obama decidira não promover qualquer contato oficial com Micheletti? Mas, não. Todos eles sabiam da decisão do governo Obama.

O relatório de viagem do deputado Mack, por exemplo, diz claramente: “Depois do almoço, o embaixador tornou a enfatizar que a política do governo Obama não admite qualquer tipo de contato com o presidente Micheletti. Mas o deputada Mack repetiu que todos os lados deveriam ser ouvidos e, assim, insistiu para que a reunião acontecesse.”

Evidentemente houve violação da Lei Logan. E houve crime.

Além de insistir para que a reunião se realizasse, Mack disse que o apoio da OEA a Zelaya seria “perigoso”, esquecendo que Zelaya é presidente eleito e Micheletti é líder de um golpe que o arrancou do cargo (e de casa). Pela lógica do deputado Republicano, todos os países do mundo estariam tendo comportamento “perigoso”.

Que os Republicanos combatam furiosamente qualquer encaminhamento democrático nem chega a ser surpresa. Mas que os mesmos Republicanos ponham-se a sabotar os interesses e as políticas do governo dos EUA é outro assunto; e muito mais grave.

O senador John Kerry, que preside a Comissão de Relações Exteriores tentou impedir a viagem de DeMint a Honduras. Mas DeMint recorreu a McConnell, e chegou a Honduras a bordo de um avião do Pentágono. Como é possível que Obama não tenha sido informado de que seu próprio Departamento da Defesa desobedecia a orientação tão clara (além de contribuir para infringir norma legal)? Por que não há qualquer investigação em curso, sobre a autorização para a viagem e o uso daquele avião?

Obama tem-se mostrado estranhamente blasé em relação ao golpe, talvez porque Zelaya tenha criticado os EUA, na linha de Chavez. A secretária de Estado, Hillary Clinton, chegou a chamar de “imprudente” [ing. Reckless] o retorno de Zelaya a Honduras. Mas Obama já começou a negar vistos a apoiadores de Micheletti e já cortou 30 milhões na ajuda dos EUA a Honduras.

São respostas que só apareceram mais de dois meses depois do golpe. E a hesitação de Obama fortaleceu a posição de Micheletti. “[Funcionários dos EUA] estão fazendo esses pequenos movimentos, para ver como Micheletti reage” – comentou Vicki Gass, do Escritório Washington para a América Latina, um grupo de militantes dos Direitos Humanos. “E cada vez que os golpistas mantêm suas posições, eles sobem um pouco o tom das ameaças. Mas é processo demorado demais.”

Adversários do presidente democraticamente eleito Manuel Zelaya acusam-no de desejar reescrever a Constituição por referendum; de desejar ignorar a limitação constitucional de seu mandato – acusações que o presidente eleito rejeita. Os golpistas invadiram a residência do presidente eleito nas primeiras horas da madrugada, arrancaram-no da cama e, ainda em pijamas, meteram-no num avião para a Costa Rica. Zelaya retornou ao país dia 21/9 e está vivendo na embaixada do Brasil, cercado pelos soldados de Micheletti.

Nada disso impediu os Republicanos de defender que os EUA apoiassem golpe e golpistas, apesar de até um dos líderes golpistas já ter admitido a ilegalidade do golpe.

Em entrevista para o Miami Herald, o principal advogado dos militares hondurenhos, coronel Herberth Bayardo Inestroza, reconheceu que ocorrera crime no golpe liderado por militares: “Houve crime, sim, no momento em que o retiramos do país e no modo como o fizemos.”

Inestroza justificou o movimento, dizendo que se Zelaya tivesse sido mantido preso no país, teria sido impossível evitar a guerra civil e um banho de sangue, porque seus apoiadores organizariam manifestações para exigir a libertação do presidente. “Sabemos que houve crime”, disse ele. “[Mas] O que foi melhor: afastar o Sr. Zelaya do país, ou levá-lo a julgamento, o que provocaria tumulto e nos obrigaria a atirar contra hondurenhos? Se não o tivéssemos mandado para fora do país, estaríamos hoje enterrando montanhas de cadáveres.”

Quanto aos deputados Republicanos dos EUA que apóiam o golpe (e sequer usam a palavra “golpe”) o caso é outro. O que eles temem tem outro nome: socialismo.

“Tudo isso tem a ver com boicotar os esforços do governo Obama na America Latina; é reflexo da obsessão dos Republicanos contra Hugo Chavez e contra a ampliação de sua influência na América Latina, o que entendem que seja uma grave ameaça” – disse à Associated Press Dan Erikson, membro de um think tank suprapartidário, Inter-American Dialogue, em Washington.

Ainda que não se conclua que não houve qualquer ilegalidade nas viagens dos deputados Republicanos, não há dúvida de que contribuem para fortalecer Micheletti e seu grupo. Essa sopa envenenada, pelo que se vê, será deixada fermentando até depois das eleições previstas para 29/11, cujos resultados os EUA e outros países já declararam que não reconhecerão por causa do golpe e do desrespeito às liberdades civis dos hondurenhos.

Enquanto isso os Republicanos não se cansam de falar em democracia e liberdade. “A saída possível para essas dificuldades é oferecer e respeitar as eleições livres e justas que o povo de Honduras terá em novembro” – disse Ros-Lehtinen, cujos serviços prestados à extrema direita incluem ter elogiado a invasão do Iraque e ter agradecido a Israel por bombardear a Síria: “Somos um mundo melhor depois desse feito.”

“Direi aos meus colegas do Congresso dos EUA que venha a Honduras; que não leiam jornais nem deem ouvidos à CNN ou qualquer outra rede. Que venham a Honduras e que se encontrem com o governo legítimo do presidente Micheletti, para ouvir o quanto desejam viver em paz e democracia” – disse Ros-Lehtinen.

As aspirações democráticas do governo golpista incluem fechar jornais da oposição, proibir reuniões e manifestações políticas e meter na prisão mais de mil manifestantes pró Zelaya. O golpe já matou onze pessoas, segundo o Comitê das Famílias dos Presos e Desaparecidos em Honduras, COFADEH. Dia 30/9, Micheletti cercou os 55 fazendeiros que haviam ocupado o Instituto Nacional Agrário, em protesto contra o golpe; e 38 foram condenados por crime de sedição.

Ao lado de Ros-Lehtinen na visita do dia 5/10, estavam o Republicano Lincoln Diaz-Balart e seu irmão mais moço, o também Republicano Mario Diaz-Balart. Esses três são exilados cubanos, que há anos lutam na oposição a Fidel Castro. Os irmãos Diaz-Balarts são filhos de Rafael Diaz-Balart, ministro do Interior no governo de Fulgêncio Batista, governo que os EUA apoiavam e que foi apeado do poder por Fidel Castro, em 1959.

Os instintos antidemocráticos da direita não se limitam a essas dinastias ex-cubanas, que se naturalizaram nos EUA ao longo dos últimos 50 anos.

O Wall Street Journal tem garantido palanque e plataforma a Micheletti, que escreve com frequência na página de “Opinião” e que, dentre outras fórmulas para racionalizar e ‘democratizar’ o golpe de Estado, escreveu: “Quanto à decisão de expulsar de Honduras o Sr. Mr. Zelaya na noite de 28/6, ainda há quem creia que a situação poderia ter sido encaminhada de outro modo.” E os próprios editores do Journal, normalmente equilibrados, não se pejam de apresentar Micheletti como “ex-presidente do Congresso hondurenho, que assumiu a presidência depois da partida de Manuel Zelaya; do Partido Liberal, mesmo partido no qual milita o ex-presidente Zelaya.”

“Partida de Zelaya”? A única partida que houve foi a partida dos golpistas hondurenhos, que embarcaram num golpe e partiram para longe do mundo da razão e da democracia. Só bem longe do mundo da razão e da democracia pode-se defender como legítimo ou como “melhor solução”, o aprisionamento seguido de sequestro de um presidente eleito. Só bem longe do mundo da razão é possível defender um certo tipo de golpe, sob o pretexto de que, se os golpistas preferissem outro tipo de golpe, haveria mais resistência. Em Honduras, para os Republicanos dos EUA e para alguns jornais e redes de televisão, o mundo está às avessas.

Nota de traducão

[1] A “Lei Logan” [ing. “Logan Act”] é lei federal dos EUA, aprovada em 1799; recebeu as emendas mais recentes em 1994 (http://en.wikipedia.org/wiki/Logan_Act).

Brendan Cooney é antropólogo. Vive e trabalha em New York.
Recebe e-mails em itmighthavehappened@yahoo.com

Traduzido pelo coletivo Política para Todos

O artigo original, em inglês, pode ser lido em:

http://www.counterpunch.org/cooney10072009.html

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

HONDURAS - Presença de paramilitares colombianos.

Especialistas em direitos humanos da ONU manifestaram preocupação nesta sexta-feira com relatos de que ex-paramilitares da Colômbia teriam sido recrutados para proteger pessoas ricas e suas propriedades em Honduras, depois do golpe militar de junho no país.
O grupo de trabalho da ONU sobre o uso de mercenários disse que "informações disponíveis até agora" ndicam que latifundiários contrataram 40 ex-membros do grupo Autodefesas Unidas da Colômbia para se protegerem da violência entre seguidores do governo de facto e os apoiadores do presidente deposto Manuel Zelaya.

Eles também citaram relatos de que 120 paramilitares de vários países vizinhos teriam sido levados a Honduras para apoiar o golpe do final de junho, que gerou a pior crise dos últimos anos na América Central.

"Exortamos as autoridades hondurenhas a tomar todas as medidas práticas para evitar o uso de mercenários dentro do seu território e investigar as acusações relativas à sua presença e suas atividades," disseram os cinco especialistas independentes em uma declaração conjunta divulgada em Genebra.

O grupo lembrou que Honduras é signatária de uma convenção internacional que proíbe o recrutamento, uso, financiamento e treinamento de mercenário. Os especialistas também manifestaram preocupação sobre "acusações de uso de dispositivos acústicos de longo alcance" por parte de policiais e de mercenários para incomodar Zelaya e seus seguidores, que refugiados na Embaixada brasileira em Tegucigalpa.

Fonte: Reuters