Walden Bello.
Ultimamente, o capitalismo ensaiou três escapatórias coxas para sair dos meandros obscuros da sobreprodução: reestruturação neo-liberal, globalização e financiarização. A globalização, que propiciou que as economias crescessem em conjunto, significou também que se afundassem juntas, a uma velocidade sem paralelo e sem um fim à vista, escreve Walden Bello.
Publicado originalmente no Philippine Daily Inquirer
Semana após semana, vemos a economia global contrair-se a um ritmo pior que o predito pelos analistas mais pessimistas. Claramente, o que atravessamos hoje não é uma vulgar recessão, mas prefigura-se como uma depressão global que poderá subsistir por muitos anos.
A crise fundamental: sobreprodução
A economia ortodoxa há muito que deixou de ter qualquer utilidade para a explicação da crise. Por outro lado, as visões económicas não-ortodoxas dão-nos uma poderosa abordagem das causas e dinâmicas da presente crise. Do ponto de vista progressista, o que estamos a assistir é a intensificação de uma das crises centrais ou "contradições" do capitalismo global: uma crise de sobreprodução, também referida como sobreacumulação ou sobrecapacidade. Corresponde à tendência do capitalismo para construir, no contexto duma exacerbada competição inter-capitalista, uma tremenda capacidade produtiva, que ultrapassa a capacidade de consumo da população, devido às desigualdades de rendimentos que limitam o poder de compra desta. O resultado é a degradação da rentabilidade, conduzindo a uma espiral económica descendente.
Para entender o colapso actual, temos de recuar no tempo até à chamada Idade de Ouro do Capitalismo Contemporâneo, o período entre 1945 e 1975. Foi uma época de rápido crescimento, tanto dos centros económicos como das economias subdesenvolvidas - parcialmente propiciado pela reconstrução massiva após a devastação da Segunda Guerra Mundial, e parcialmente pelas novas disposições e instrumentos, baseados num compromisso de classes histórico entre Capital e Trabalho, que se institucionalizaram no novo estado keynesiano.
Mas este período de elevado crescimento chegou ao fim a meio dos anos 70, quando as economias centrais foram afectadas pela estagflação, ou seja, pela coexistência de um baixo crescimento e de uma inflação elevada, situação que não deveria poder ocorrer, segundo as teorias económicas neoclássicas.
A estagflação, contudo, era apenas um sintoma de uma causa mais profunda: a reconstrução da Alemanha e do Japão, e o rápido crescimento da industrialização de economias como o Brasil, Taiwan e a Coreia do Sul, acrescentou uma enorme nova capacidade produtiva e incrementou a competição global, enquanto as desigualdades de rendimentos dentro de cada país e entre países limitavam o crescimento do poder de compra e a procura, degradando em consequência a rentabilidade. Isto foi agravado pela marcada subida dos preços do petróleo dos anos 70.
A mais dolorosa expressão da crise de sobreprodução foi a recessão global do início dos anos 80, a que mais marcadamente afectou a economia internacional desde a Grande Depressão, ou seja, antes da actual crise.
O capitalismo tentou três escapatórias para sair da armadilha da sobreprodução: reestruturação neoliberal, globalização e financiarização.
Escapatória # 1: Reestruturação neoliberal
A reestruturação neoliberal assumiu a forma de Reaganismo e Thatcherismo no Norte e de Ajustamento Estrutural no Sul. O objectivo era incentivar a acumulação de capital e isso seria conseguido através de: 1) remoção dos constrangimentos estatais ao aumento, utilização e fluxo dos capitais e riqueza, e 2) redistribuição dos rendimentos dos pobres e classes médias para os ricos, com base na teoria de que os ricos seriam então motivados a investir e relançar o crescimento económico.
O problema desta formulação é que, ao redistribuir os rendimentos pelos ricos, se depaupera os pobres e as classes médias, restringindo em consequência a procura, mas não necessariamente induzindo os ricos a investir mais na produção. De facto, poderia ser mais lucrativo investir na especulação.
Na verdade, a reestruturação neoliberal, que ocorreu de forma generalizada no Norte e no Sul durante os anos 80 e 90, teve um fraco resultado em termos de crescimento: o crescimento global foi em média de 1.1% no anos 90 e de 1.4% nos anos 80, comparado com 3.5% nos anos 60 e 2.4% nos anos 70, quando as políticas intervencionistas de estado eram dominantes. A reestruturação neoliberal não conseguiu evitar a estagnação.
Escapatória # 2: Globalização
A segunda escapatória global que o capital tentou para evitar a estagnação foi a "acumulação extensiva" ou globalização, ou seja, a rápida integração de áreas semi-capitalistas, não-capitalistas ou pré-capitalistas na economia de mercado global. Rosa Luxemburgo, a famosa economista radical alemã, apontou-a há muito, no seu clássico "A Acumulação do Capital", como necessária para a manutenção das taxas de lucro nas economias metropolitanas.
Como? Acedendo a trabalho barato, acedendo a novos, embora limitados, mercados, acedendo a novas fontes de produtos agrícolas baratos e matérias primas, e criando novas áreas para o investimento em infra-estruturas. A integração foi conseguida por via da liberalização do comércio, removendo as barreiras à mobilidade do capital global, e abolindo as limitações ao investimento estrangeiro.
O caso mais destacado de uma área não-capitalista a integrar-se na economia capitalista global nos últimos 25 anos é, é claro, a China.
A meio da primeira década do século XXI, cerca de 40 a 50% dos lucros das corporações dos EUA vinham das suas operações e vendas no estrangeiro, especialmente na China.
O problema desta escapatória da estagnação é que exacerba os problemas de sobreprodução, porque acrescenta capacidade produtiva. Um enorme aumento de capacidade produtiva ocorreu na China nos últimos 25 anos, com o consequente efeito negativo nos preços e nos lucros. Não é surpreendente que, por volta de 1997, os lucros das corporações americanas tenham parado de crescer. De acordo com alguns cálculos, a taxa de lucro do Fortune 500 passou de 7,15 em 1960-69 para 5,30 em 1980-90, e para 2,29 em 1990-99 e 1,32 em 2000-2002. Pelo final dos anos 90, com um excesso de capacidade instalada em quase todas as indústrias, o diferencial entre capacidade produtiva e vendas era o maior desde a Grande Depressão.
Escapatória # 3: Financiarização
Dados os limitados resultados quanto a contrabalançar o impacto depressivo da sobreprodução por via da reestruturação neoliberal e da globalização, a terceira escapatória - a financiarização - tornou-se crítica para a manutenção e aumento da rentabilidade.
Com os baixos lucros, devido à capacidade excessiva instalada, dos investimentos na agricultura e na indústria, grandes excedentes de fundos circulavam, ou eram investidos e reinvestidos no sector financeiro - ou seja o sector financeiro alimentava-se a si próprio.
O resultado foi uma cada vez mais marcada separação entre uma economia financeira hiperactiva e uma economia real estagnada. Como um financeiro fazia notar nas páginas do Financial Times, "tem havido uma desconexão cada vez maior entre as economias real e financeira nos últimos anos. A economia real cresceu ... embora nada que se comparasse à economia financeira - até implodir." O que este observador não nos diz é que essa desconexão entre a economia real e a financeira não é acidental - a economia financeira explodiu precisamente para compensar a estagnação devida à sobreprodução da economia real.
Um indicador da super-rentabilidade do sector financeiro é que enquanto os lucros no sector produtivo dos EUA eram de um por cento do produto nacional bruto (GDP), os lucros do sector financeiro eram dois por cento. Outro, é o facto de que 40% dos lucros das corporações financeiras e não-financeiras dos EUA é conseguido pelo sector financeiro, embora ele seja responsável por apenas 5% do produto nacional bruto dos EUA (e mesmo isso pode ser uma sobrestimativa).
O problema em investir em operações no sector financeiro equivale a extrair valor de valor já criado. Pode conseguir-se lucro, sim, mas não se cria um novo valor - só a agricultura, indústria, comércio e serviços criam um novo valor. Dado que o lucro não se baseia em valor que é criado, os investimentos tornam-se muito voláteis e os preços de acções, títulos e outras formas de investimento divergem muito radicalmente do seu valor real - por exemplo, as acções das empresas na Internet puderam subir de forma nunca vista devido fundamentalmente a uma espiral ascendente de avaliações financeiras.
Deste modo, o lucro assenta na capacidade de tirar proveito do desvio dos preços em relação ao valor real das coisas, e em vender antes que a realidade imponha uma "correcção", ou seja, uma derrocada para os valores reais. A acentuada subida do valor de um título muito para lá do seu valor real é o que se chama a formação de uma bolha.
Sendo a rentabilidade dependente de jogadas especulativas, não é surpreendente que o sector financeiro salte de uma bolha para outra, ou de uma mania especulativa para outra.
Porque é comandado por manias especulativas, o capitalismo comandado pela finança enfrentou cerca de 100 crises financeiras desde que os mercados de capitais foram desregulamentados e liberalizados nos anos 80, a mais séria das quais, antes da actual crise, foi a Crise Financeira Asiática de 1997.
Dinâmica da implosão subprime
O actual colapso de Wall Street tem as suas raízes na bolha tecnológica dos finais dos anos 90, quando o preço das acções das empresas na Internet subiram às alturas, antes da derrocada, da qual resultaram perdas de 7 biliões de dólares em títulos e a recessão de 2001-2002.
As políticas monetárias permissivas da Reserva Federal, sob a direcção de Alan Greenspan, encorajaram a bolha tecnológica, e quando esta colapsou numa recessão, Greenspan, tentando impedir que esta se prolongasse, baixou para 1% a taxa de juros de referência a 45 anos em Junho de 2003 e manteve-a assim por mais de um ano. Isto teve por efeito encorajar outra bolha - a bolha do imobiliário.
Desde 2002 que economistas progressistas alertavam para a formação de uma bolha imobiliária. Contudo, mesmo em 2005, o então presidente do Council of Economic Advisers e actual presidente do Federal Reserve Board, Ben Bernanke, atribuía a subida dos preços das habitações nos EUA a "sólidas razões económicas" e não à actividade especulativa. Não espanta pois que tenha sido apanhado completamente de surpresa quando a crise dos subprime estalou no verão de 2007!
A crise das hipotecas subprime não é um caso de oferta excedendo a procura real. A "procura" era largamente fabricada por manias especulativas dos empresários e financeiros que pretendiam obter grandes lucros do seu acesso à moeda estrangeira - muita da qual asiática ou chinesa - que inundou os EUA na última década. Uma grande quantidade de hipotecas foram vendidas agressivamente a milhões de pessoas que não poderiam, em condições normais, suportá-las, com a ajuda de "atraentes" baixas taxas de juro, que seriam mais tarde reajustadas para sacar o pagamento dos novos proprietários.
Como é que hipotecas problemáticas se tornaram um problema de tal dimensão? A razão está em que esses contratos foram transformados ("securitized") em títulos mobiliários - ou seja, convertidos em entidades virtuais chamadas "obrigações de dívida colateral" (CDOs) que permitiam especular com a possibilidade de a dívida não ser paga. Estes papéis foram então vendidos pelos detentores das hipotecas, actuando através de diversos intermediários, que subvalorizavam o risco, por forma a circulá-los tão depressa quanto possível para outros bancos e instituições de investimento. Estas instituições, por sua vez, venderam a outros bancos e instituições financeiras no estrangeiro.
A ideia era conseguir vendas rápidas, reaver o dinheiro de imediato, conseguir um lucro seguro, e transferir o risco para os papalvos espalhados no circuito - as centenas de milhar de instituições e investidores individuais que compraram os títulos ligados às hipotecas. A isto chamou-se "disseminar o risco", o que se considerava ser uma boa coisa, porque aligeirava os balanços das instituições financeiras, permitindo-lhes envolver-se noutras actividades de concessão de créditos.
Quando foram aumentadas as taxas de juro aos empréstimos subprime, hipotecas ajustáveis e outros empréstimos imobiliários, o jogo acabou. Existem cerca de 4 milhões de hipotecas subprime que provavelmente não serão honradas nos próximos 2 anos, e mais 5 milhões de incumprimentos vindos de hipotecas a taxas ajustáveis e outros "empréstimos flexíveis", concebidos para aliciar os compradores potenciais mais relutantes, irão ocorrer nos anos que se seguirão. Mas títulos, valendo tanto quanto 2 biliões de dólares, tinham já sido injectados, como um vírus, no sistema financeiro global. O gigantesco sistema de circulação do capitalismo global estava fatalmente infectado. E, como a peste, não saberemos quem e quantos foram fatalmente infectados até que tombem, porque o sistema financeiro, no seu conjunto, devido à ausência de regulação, se tornou completamente opaco.
Para o Lehman Brothers, o Merrill Lynch, o Fannie Mae, o Freddie Mac, o Bear Stearns, o Bank of America e o Citigroup, as perdas representadas por estes activos tóxicos excederam de modo esmagador as suas reservas. Os bancos da Islândia e muitas instituições financeiras europeias vieram juntar-se à lista das vítimas. Alguns, como o Lehman Brothers, foram deixados morrer, mas muitos foram mantidos vivos, à custa de injecções massivas de dinheiro dos contribuintes, pelos governos que desejavam que esses bancos continuassem a conceder crédito para manter a economia real a funcionar.
O colapso da economia real
Mas, em lugar de assegurar a sua função fundamental de emprestar para permitir à actividade produtiva funcionar, os bancos estão a guardar o seu dinheiro ou a adquirir rivais para fortalecer a sua base financeira. Não é pois surpreendente, com o sistema circulatório do capitalismo global afectado, que seja só uma questão de tempo até que a economia real se contraia, como tem acontecido a velocidade assustadora nas últimas semanas. Woolworth, um símbolo do comércio a retalho, desapareceu na Grã-Bretanha, a indústria automóvel dos EUA está nos cuidados intensivos, e até a poderosa Toyota registou um declínio sem precedentes dos seus lucros. Com a procura do consumo americano a cair a pique, a China e o Leste asiático vêm os seus produtos apodrecer nas docas, provocando uma marcada contracção das suas economias e layoffs massivos.
A mesma globalização que assegurou que as economias crescessem juntas, nos bons tempos, assegurou que se afundassem juntas, com uma velocidade sem paralelo, na borrasca, cujo fim não está à vista.
Versão alongada de um ensaio do autor emitido pela British Broadcasting Corporation (BBC) em 6 de Fevereiro de 2009.
Walden Bello é membro do Transnational Institute, professor na Universidade das Filipinas, Diliman, analista sénior na Focus on the Global South, e presidente da Freedom from Debt Coalition.
Fonte: Esquerda.net
Carlos Augusto de Araujo Dória, 86 anos, economista, nacionalista, socialista, lulista, budista, gaitista, blogueiro, espírita, membro da Igreja Messiânica, tricolor, anistiado político, ex-empregado da Petrobras. Um defensor da justiça social, da preservação do meio ambiente, da Petrobras e das causas nacionalistas.
terça-feira, 3 de março de 2009
EUA - Os novos donos da direita republicana.
Argemiro Ferreira.
Pode parecer exagerado, em outros países, dar importância ao temido Rush Limbaugh (foto acima), “rei do talk show” de rádio nos EUA. No passado também fiz referência muitas vezes ao papel desse extremista de direita na política americana. Depois da eleição de 1994, por exemplo, ele chegou a ser homenageado pelos republicanos como responsável maior pela tomada das duas casas do Congresso.
Se não houvesse outro motivo para prestar atenção ao barulho provocado agora por Limbaugh (conheça o web site dele AQUI) em certo segmento do espectro político, bastaria citar a própria preocupação manifestada pelo presidente Barack Obama no final de janeiro. Foi durante reunião com parlamentares republicanos, no esforço inútil para atrair apoio capaz de dar alguma aparência bipartidária ao pacote de estímulo à economia.
“Vocês não podem simplesmente ficar ouvindo Rush Limbaugh e pensar que assim conseguirão avançar”, advertiu Obama (saiba mais AQUI). No dia seguinte, em seu programa de rádio, o próprio Limbaugh gabou-se de que o presidente tinha mais medo dele do que dos líderes da oposição republicana boehner_mcconnellno Senado e na Câmara, Mitch McConnell e John Boehner (foto ao lado) - “o que não depõe a favor de nosso partido”.
Obama estava incomodado, obviamente, com a estranha submissão de deputados e senadores do Partido Republicano não a seus líderes, entre os quais McConnell e Boehner, mas a Limbaugh e o canhão que aponta, pronto a disparar, contra qualquer parlamentar que aceite dialogar com o governo. O canhão, claro, são as centenas de emissoras de radio que transmitem o talk show dele.
O ataque múltiplo do extremismo
As bancadas republicanas no Congresso parecem às vezes tomadas pelo pânico - ou terror - ante críticas de Limbaugh. Em janeiro o deputado Phil Gingrey, um republicano da Georgia, foi ouvido no talk show do monarca obeso. Em postura reverente, humilhante mesmo, chegou ao extremo de pedir desculpas a Limbaugh por declarações que fizera a um influente web site de Washington, Politico.com.
O pecado de Gingrey fora este desabafo: “É fácil, se você for um Sean Hannity, um Rush Limbaugh, ou até mesmo um Newt Gingrich (foto ao lado, com o líder ascendente Eric Cantor).cantor_gingrich Fica na retaguarda e joga pedras nos outros”. A referência era a republicanos que reinam, sem mandato, no radio e na TV. Hannity tem talk shows (radio e TV) na Fox News. Gingrich, ex-presidente da Câmara, encerrou a carreira parlamentar (por escorregões éticos) e hoje é comentarista da Fox.
Limbaugh pode ter ido longe demais, no ultimo domingo, ao falar como atração central da CPAC - Conferência de Ação Política Conservadora (saiba mais AQUI). Confessou que quer o fracasso do governo. “O que há de tão estranho em ser honesto e dizer que desejo o fracasso de Obama na missão de reestruturar e reformar este país para que o capitalismo e a liberdade individual deixem de ser sua base?” - perguntou.
O núcleo da direita extremista republicana é vasto e chega às raias do terrorismo. Inclui ainda gente como a loura desbocada Ann Coulter, que não tem mais espaço regular e dias certos em programas de radio e TV, mas é entrevistada com frequência - e continua a disparar seus torpedos contra alvos múltiplos, de veículos diversos, inclusive numa coluna semanal (sindicalizada) em muitos jornais.
Diálogo com os neoconservadorescoulter_time_ap25-2005
Coulter (veja-a à direita, numa capa do Time em 2005) também tem web site (conheça-o AQUI) e é incansável na produção de livros que chegam aos primeiros lugares nas listas de mais vendidos - até na mais cobiçada delas, a do New York Times, alvo predileto da loura. O poder de fogo da turma é respeitável. Soma pesos pesados como Limbaugh, Hannity, Gingrich, Coulter e até Bill O’Reilly, líder de audiência no horário nobre da Fox News.
Na votação do pacote de estímulo econômico na Câmara, entre 15 a 20 deputados republicanos pretendiam, até uma semana antes, votar favoravelmente. Mas à última hora renderam-se à pressão da linha dura, com medo da máquina de destruição de reputações. No Senado, Arlen Specter (Pensilvânia) e as duas senadoras do Maine (Susan Collins e Olympia Snowe, foto abaixo) ousaram - mas agora amargam, os três, o rótulo de “traidor”.snowe_collins
Quando ficou claro que não haveria um só voto republicano na Câmara pelo pacote, a grande mídia corporativa investiu pesado contra o que chamou de “fracasso de Obama”. Poderia ter, no entanto, destacado o esforço extraordinário do presidente para atrair a oposição, inclusive acolhendo sugestões recebidas de republicanos. Esse empenho tinha começado cedo.
Antes da posse Obama reuniu-se com notórios jornalistas da direita republicana - entre eles, os neoconservadores Bill Kristol e Fred Barnes, diretores do semanário ideológico Weekly Standard - a revista mais lida na Casa Branca de Bush, criada e financiada pelo magnata Rupert Murdoch. George Will e Charles Krauthammer, colunistas sindicalizados, foram igualmente ouvidos.
O mesmo alvo, tarefas distintas
Kristol e Barnes tinham sido, na capa da Standard, os primeiros a pedir em editorial a invasão do Iraque. Kristol foi fundador e presidente do infame Projeto no Novo Século Americano (PNAC). Krauthammer escrevera - já em 1991, na austera Foreign Affairs - que o mundo pos-guerra fria tinha de ser “unipolar”; e que os EUA não podiam tolerar outra superpoência, nem aliada (tese incorporada depois ao PNAC).
Esses intelectuais neocons pouco têm a ver com os Limbaugh, Hannity e Coulter, embora na campanha Obama tenha concordado com uma entrevista a O’Reilly obama_oreilly_sep04-2008(veja os dois na foto ao lado). Mas os neocons costumam açular o destempero da linha dura do rádio e da TV. Kristol, Barnes e Krauthammer estão diariamente na Fox News, investindo pesado contra o governo. Deixam os insultos para cães de ataque sem projeto politico definido e sempre dedicados à lama sórdida.
Difícil é adivinhar até onde isso vai levar. O temor republicano é de que Obama, como Ronald Reagan em 1981, imponha uma virada, com transformações reais - mudanças substantivas, favorecidas pela crise econômica, guerras, escândalos e fracassos da era Bush. Entrevistado domingo na rede ABC, o chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel, cumprimentou Limbaugh “pela honestidade” ao desejar o fracasso. “Ele é a cara do Partido Republicano”, disse (saiba mais AQUI).
Na mesma ABC o deputado republicano Eric Cantor - o da foto do alto (com Gingrich), número dois, abaixo de Boehner e já encarado como futuro líder da bancada - discordou do rei do talk show sem confrontá-lo. “Não acho que algum de nós deseja algum fracasso neste momento. Temos tantos desafios. O que devemos fazer é formular soluções para os problemas que as famílias reais estão enfrentando hoje”, afirmou.
Fonte:Blog do Argemiro.
Pode parecer exagerado, em outros países, dar importância ao temido Rush Limbaugh (foto acima), “rei do talk show” de rádio nos EUA. No passado também fiz referência muitas vezes ao papel desse extremista de direita na política americana. Depois da eleição de 1994, por exemplo, ele chegou a ser homenageado pelos republicanos como responsável maior pela tomada das duas casas do Congresso.
Se não houvesse outro motivo para prestar atenção ao barulho provocado agora por Limbaugh (conheça o web site dele AQUI) em certo segmento do espectro político, bastaria citar a própria preocupação manifestada pelo presidente Barack Obama no final de janeiro. Foi durante reunião com parlamentares republicanos, no esforço inútil para atrair apoio capaz de dar alguma aparência bipartidária ao pacote de estímulo à economia.
“Vocês não podem simplesmente ficar ouvindo Rush Limbaugh e pensar que assim conseguirão avançar”, advertiu Obama (saiba mais AQUI). No dia seguinte, em seu programa de rádio, o próprio Limbaugh gabou-se de que o presidente tinha mais medo dele do que dos líderes da oposição republicana boehner_mcconnellno Senado e na Câmara, Mitch McConnell e John Boehner (foto ao lado) - “o que não depõe a favor de nosso partido”.
Obama estava incomodado, obviamente, com a estranha submissão de deputados e senadores do Partido Republicano não a seus líderes, entre os quais McConnell e Boehner, mas a Limbaugh e o canhão que aponta, pronto a disparar, contra qualquer parlamentar que aceite dialogar com o governo. O canhão, claro, são as centenas de emissoras de radio que transmitem o talk show dele.
O ataque múltiplo do extremismo
As bancadas republicanas no Congresso parecem às vezes tomadas pelo pânico - ou terror - ante críticas de Limbaugh. Em janeiro o deputado Phil Gingrey, um republicano da Georgia, foi ouvido no talk show do monarca obeso. Em postura reverente, humilhante mesmo, chegou ao extremo de pedir desculpas a Limbaugh por declarações que fizera a um influente web site de Washington, Politico.com.
O pecado de Gingrey fora este desabafo: “É fácil, se você for um Sean Hannity, um Rush Limbaugh, ou até mesmo um Newt Gingrich (foto ao lado, com o líder ascendente Eric Cantor).cantor_gingrich Fica na retaguarda e joga pedras nos outros”. A referência era a republicanos que reinam, sem mandato, no radio e na TV. Hannity tem talk shows (radio e TV) na Fox News. Gingrich, ex-presidente da Câmara, encerrou a carreira parlamentar (por escorregões éticos) e hoje é comentarista da Fox.
Limbaugh pode ter ido longe demais, no ultimo domingo, ao falar como atração central da CPAC - Conferência de Ação Política Conservadora (saiba mais AQUI). Confessou que quer o fracasso do governo. “O que há de tão estranho em ser honesto e dizer que desejo o fracasso de Obama na missão de reestruturar e reformar este país para que o capitalismo e a liberdade individual deixem de ser sua base?” - perguntou.
O núcleo da direita extremista republicana é vasto e chega às raias do terrorismo. Inclui ainda gente como a loura desbocada Ann Coulter, que não tem mais espaço regular e dias certos em programas de radio e TV, mas é entrevistada com frequência - e continua a disparar seus torpedos contra alvos múltiplos, de veículos diversos, inclusive numa coluna semanal (sindicalizada) em muitos jornais.
Diálogo com os neoconservadorescoulter_time_ap25-2005
Coulter (veja-a à direita, numa capa do Time em 2005) também tem web site (conheça-o AQUI) e é incansável na produção de livros que chegam aos primeiros lugares nas listas de mais vendidos - até na mais cobiçada delas, a do New York Times, alvo predileto da loura. O poder de fogo da turma é respeitável. Soma pesos pesados como Limbaugh, Hannity, Gingrich, Coulter e até Bill O’Reilly, líder de audiência no horário nobre da Fox News.
Na votação do pacote de estímulo econômico na Câmara, entre 15 a 20 deputados republicanos pretendiam, até uma semana antes, votar favoravelmente. Mas à última hora renderam-se à pressão da linha dura, com medo da máquina de destruição de reputações. No Senado, Arlen Specter (Pensilvânia) e as duas senadoras do Maine (Susan Collins e Olympia Snowe, foto abaixo) ousaram - mas agora amargam, os três, o rótulo de “traidor”.snowe_collins
Quando ficou claro que não haveria um só voto republicano na Câmara pelo pacote, a grande mídia corporativa investiu pesado contra o que chamou de “fracasso de Obama”. Poderia ter, no entanto, destacado o esforço extraordinário do presidente para atrair a oposição, inclusive acolhendo sugestões recebidas de republicanos. Esse empenho tinha começado cedo.
Antes da posse Obama reuniu-se com notórios jornalistas da direita republicana - entre eles, os neoconservadores Bill Kristol e Fred Barnes, diretores do semanário ideológico Weekly Standard - a revista mais lida na Casa Branca de Bush, criada e financiada pelo magnata Rupert Murdoch. George Will e Charles Krauthammer, colunistas sindicalizados, foram igualmente ouvidos.
O mesmo alvo, tarefas distintas
Kristol e Barnes tinham sido, na capa da Standard, os primeiros a pedir em editorial a invasão do Iraque. Kristol foi fundador e presidente do infame Projeto no Novo Século Americano (PNAC). Krauthammer escrevera - já em 1991, na austera Foreign Affairs - que o mundo pos-guerra fria tinha de ser “unipolar”; e que os EUA não podiam tolerar outra superpoência, nem aliada (tese incorporada depois ao PNAC).
Esses intelectuais neocons pouco têm a ver com os Limbaugh, Hannity e Coulter, embora na campanha Obama tenha concordado com uma entrevista a O’Reilly obama_oreilly_sep04-2008(veja os dois na foto ao lado). Mas os neocons costumam açular o destempero da linha dura do rádio e da TV. Kristol, Barnes e Krauthammer estão diariamente na Fox News, investindo pesado contra o governo. Deixam os insultos para cães de ataque sem projeto politico definido e sempre dedicados à lama sórdida.
Difícil é adivinhar até onde isso vai levar. O temor republicano é de que Obama, como Ronald Reagan em 1981, imponha uma virada, com transformações reais - mudanças substantivas, favorecidas pela crise econômica, guerras, escândalos e fracassos da era Bush. Entrevistado domingo na rede ABC, o chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel, cumprimentou Limbaugh “pela honestidade” ao desejar o fracasso. “Ele é a cara do Partido Republicano”, disse (saiba mais AQUI).
Na mesma ABC o deputado republicano Eric Cantor - o da foto do alto (com Gingrich), número dois, abaixo de Boehner e já encarado como futuro líder da bancada - discordou do rei do talk show sem confrontá-lo. “Não acho que algum de nós deseja algum fracasso neste momento. Temos tantos desafios. O que devemos fazer é formular soluções para os problemas que as famílias reais estão enfrentando hoje”, afirmou.
Fonte:Blog do Argemiro.
MEIO AMBIENTE - SOS para o Itatiaia
Marina Silva
É preciso continuar processo de regularização iniciado em 2007 no Parque Nacional do Itatiaia, diz Marina
Em 1937 foi criado o primeiro Parque Nacional brasileiro, o de Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, em terras dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Setenta e um ano depois, o parque é duplamente simbólico. Por ser um marco dos esforços de conservação de nossa biodiversidade, sobretudo na tão devastada Mata Atlântica, e por ser um retrato das fragilidades do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que conta com recursos financeiros muito aquém das necessidades de implantação efetiva das áreas naturais protegidas e de garantia de seu funcionamento, dentro das características estabelecidas em lei.
Hoje o Itatiaia é objeto de uma polêmica que remete a essa carência. As terras que o compõem pertenciam originalmente ao Visconde de Mauá. Em 1908 foram adquiridas pelo governo federal com o intuito de transformá-las em dois núcleos coloniais que não prosperaram. Em 1929 ali foi criada uma Estação Biológica subordinada ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Em 1937 a área passou a ser Parque Nacional, com 12 mil hectares. Em 1982 foi ampliada para 30 mil hectares.
Quem o conhece sabe que é um ambiente especialmente belo, com elevado grau de conservação, o que sempre o fez reconhecido e valorizado por grandes naturalistas e outros cientistas, desde o século XIX. Para a população em geral, tem o atrativo de ser bastante acessível, visto estar a uma distância relativamente curta da cidade do Rio de Janeiro. É um dos poucos parques nacionais com uma estrutura consolidada para turismo ecológico e educação ambiental em várias modalidades.
Em 2008, surgiu uma proposta de desmembramento de cerca de 1300 hectares em sua porção sul, na parte baixa onde originalmente existiu o Núcleo Colonial. Os autores dessa proposta fazem parte da Associação Amigos do Itatiaia, que reúne, na maioria, ocupantes de casas de veraneio e alguns hotéis que ainda estão no território do Parque mas deverão ser indenizados e retirados de lá.
A expansão dessa ocupação se deu após 1937, por meio de parcelamentos irregulares e um ativo mercado imobiliário ilegal dentro do Parque. Essa forma de uso do solo, pela política do fato consumado - para depois procurar sua legalização - é largamente difundida no Brasil e atinge de maneira particularmente perversa as áreas que deveriam ser dedicadas à conservação ambiental. Muitos as invadem, certos de que, um dia, tudo passará a ser legal.
O fato é que não dá mais para contemporizar com essa prática. O Parque de Itatiaia é emblemático e até por isso é preciso fazer um grande esforço para zerar, na forma da lei, as pendências com moradores que lá estão irregularmente, garantindo finalmente a integralidade da área protegida. Sem subterfúgios nem argumentos que procuram demonstrar ser a permanência dos ocupantes altamente vantajosa para os propósitos ambientais, quase um favor para o parque.
Não é assim, e todos sabemos o quanto será valorizada uma propriedade ou um empreendimento comercial praticamente dentro de um Parque Nacional, ainda que numa área desmembrada, com outro nome simplesmente para chancelar situação que não deve ser tolerada. Mesmo que os moradores irregulares se comprometam a observar regras de proteção ambiental, nada justifica o privilégio indevido de se apropriarem de parte de uma Unidade de Conservação que pertence à sociedade brasileira e deve estar inteiramente dedicada ao cumprimento dos propósitos da política nacional de meio ambiente.
E aí voltamos ao início deste artigo. As carências das áreas protegidas não devem servir de pretexto para que elas sejam loteadas ou comidas pelas bordas, em benefício de minorias. O poder público deve ao País a dotação de recursos suficientes para fazer a regularização fundiária de todas as Unidades de Conservação, de modo que possam cumprir sua missão de constituir um sistema capaz de promover a inserção adequada dos recursos naturais dentro dos objetivos de desenvolvimento sustentável do País.
No caso do Parque do Itatiaia, é preciso continuar seu processo de regularização iniciado em 2007, com pagamentos de indenizações. Este é o caminho coerente com o interesse social. Outras soluções, que aceitem a redução da área do parque, serão uma espécie de rendição ao pragmatismo e uma abertura de precedente que poderá funcionar como senha que atingirá outros parques Brasil afora.
No final de março, o Ministério do Meio Ambiente deverá apresentar seu parecer à proposta de desmembramento. Aguardemos.
Fonte:Terra Magazine.
É preciso continuar processo de regularização iniciado em 2007 no Parque Nacional do Itatiaia, diz Marina
Em 1937 foi criado o primeiro Parque Nacional brasileiro, o de Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, em terras dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Setenta e um ano depois, o parque é duplamente simbólico. Por ser um marco dos esforços de conservação de nossa biodiversidade, sobretudo na tão devastada Mata Atlântica, e por ser um retrato das fragilidades do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que conta com recursos financeiros muito aquém das necessidades de implantação efetiva das áreas naturais protegidas e de garantia de seu funcionamento, dentro das características estabelecidas em lei.
Hoje o Itatiaia é objeto de uma polêmica que remete a essa carência. As terras que o compõem pertenciam originalmente ao Visconde de Mauá. Em 1908 foram adquiridas pelo governo federal com o intuito de transformá-las em dois núcleos coloniais que não prosperaram. Em 1929 ali foi criada uma Estação Biológica subordinada ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Em 1937 a área passou a ser Parque Nacional, com 12 mil hectares. Em 1982 foi ampliada para 30 mil hectares.
Quem o conhece sabe que é um ambiente especialmente belo, com elevado grau de conservação, o que sempre o fez reconhecido e valorizado por grandes naturalistas e outros cientistas, desde o século XIX. Para a população em geral, tem o atrativo de ser bastante acessível, visto estar a uma distância relativamente curta da cidade do Rio de Janeiro. É um dos poucos parques nacionais com uma estrutura consolidada para turismo ecológico e educação ambiental em várias modalidades.
Em 2008, surgiu uma proposta de desmembramento de cerca de 1300 hectares em sua porção sul, na parte baixa onde originalmente existiu o Núcleo Colonial. Os autores dessa proposta fazem parte da Associação Amigos do Itatiaia, que reúne, na maioria, ocupantes de casas de veraneio e alguns hotéis que ainda estão no território do Parque mas deverão ser indenizados e retirados de lá.
A expansão dessa ocupação se deu após 1937, por meio de parcelamentos irregulares e um ativo mercado imobiliário ilegal dentro do Parque. Essa forma de uso do solo, pela política do fato consumado - para depois procurar sua legalização - é largamente difundida no Brasil e atinge de maneira particularmente perversa as áreas que deveriam ser dedicadas à conservação ambiental. Muitos as invadem, certos de que, um dia, tudo passará a ser legal.
O fato é que não dá mais para contemporizar com essa prática. O Parque de Itatiaia é emblemático e até por isso é preciso fazer um grande esforço para zerar, na forma da lei, as pendências com moradores que lá estão irregularmente, garantindo finalmente a integralidade da área protegida. Sem subterfúgios nem argumentos que procuram demonstrar ser a permanência dos ocupantes altamente vantajosa para os propósitos ambientais, quase um favor para o parque.
Não é assim, e todos sabemos o quanto será valorizada uma propriedade ou um empreendimento comercial praticamente dentro de um Parque Nacional, ainda que numa área desmembrada, com outro nome simplesmente para chancelar situação que não deve ser tolerada. Mesmo que os moradores irregulares se comprometam a observar regras de proteção ambiental, nada justifica o privilégio indevido de se apropriarem de parte de uma Unidade de Conservação que pertence à sociedade brasileira e deve estar inteiramente dedicada ao cumprimento dos propósitos da política nacional de meio ambiente.
E aí voltamos ao início deste artigo. As carências das áreas protegidas não devem servir de pretexto para que elas sejam loteadas ou comidas pelas bordas, em benefício de minorias. O poder público deve ao País a dotação de recursos suficientes para fazer a regularização fundiária de todas as Unidades de Conservação, de modo que possam cumprir sua missão de constituir um sistema capaz de promover a inserção adequada dos recursos naturais dentro dos objetivos de desenvolvimento sustentável do País.
No caso do Parque do Itatiaia, é preciso continuar seu processo de regularização iniciado em 2007, com pagamentos de indenizações. Este é o caminho coerente com o interesse social. Outras soluções, que aceitem a redução da área do parque, serão uma espécie de rendição ao pragmatismo e uma abertura de precedente que poderá funcionar como senha que atingirá outros parques Brasil afora.
No final de março, o Ministério do Meio Ambiente deverá apresentar seu parecer à proposta de desmembramento. Aguardemos.
Fonte:Terra Magazine.
ENTREVISTA COM NOAM CHOMSKI
por Maíra Magro
Cético Autor de mais de 70 livros, Chomski diz que Obama não será muito diferente de Bush e que o Brasil está no caminho certo
Ele foi considerado o intelectual mais importante do mundo pelo jornal The New York Times. Em 2005, ficou no topo da lista dos principais acadêmicos do planeta, segundo pesquisa feita pelas influentes revistas Foreign Policy, dos Estados Unidos, e Prospect, da Inglaterra. Aos 80 anos, Noam Chomsky, americano descendente de judeus russos, é reconhecido também como o papa da linguística moderna, por ter revolucionado a área com suas pesquisas sobre aquisição de linguagem. Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) há mais de meio século, Chomsky é também filósofo e comentarista político. A decisão de nadar contra o pensamento político dominante veio com a guerra do Vietnã, nos anos 60. Publicou mais de 70 livros e mil artigos. Em geral, obras de repercussão mundial sobre atentados terroristas, neoliberalismo e política internacional. Um dos maiores críticos da política internacional americana, Chomsky está lançando no Brasil Estados fracassados: o abuso do poder e o ataque à democracia (Bertrand, 349 págs., R$ 45), no qual argumenta que os Estados Unidos assumiram as características de um Estado fracassado e padecem de um déficit democrático. Nesta entrevista concedida à ISTOÉ, o intelectual diz que não vê perspectivas de mudanças com o presidente Barack Obama, mas deposita um mar de esperanças na América do Sul: `Neste momento, é a região mais interessante do mundo.`
ISTOÉ - Barack Obama pode mudar o que o sr. chama de `Estado fracassado`?
Noam Chomsky - Possibilidades sempre existem, mas não há nada que aponte para isso. As nomeações têm sido basicamente do lado dos falcões (defensores da guerra), e as ações também. Obama intensificou a guerra no Afeganistão, aumentou os ataques ao Paquistão e rejeitou os apelos dos presidentes desses países para eliminar os bombardeios que atingem alvos civis.
Quanto à questão de Israel e da Palestina, ele já deixou bem claro que não tem a intenção de buscar um acordo. Em sua primeira declaração sobre política internacional, afirmou que a responsabilidade primária dos Estados Unidos é proteger a segurança de Israel, e não a dos palestinos, que são os que precisam de proteção.
ISTOÉ - O sr. está dizendo que Obama é igual a George W. Bush?
Chomsky - Para começar, há uma distinção entre o primeiro e o segundo mandato de Bush. O primeiro foi muito arrogante e agressivo, desconsiderou as leis internacionais e foi tão abusivo que se distanciou de países aliados. O segundo mandato amaciou a retórica e as ações, que estavam causando danos demais aos interesses dos Estados Unidos. É possível que Obama dê continuidade às políticas do segundo mandato. Em alguns aspectos, Obama ainda é mais agressivo, como no Paquistão e no Afeganistão, que, pelo que vejo, são suas principais preocupações internacionais.
ISTOÉ - Os Estados Unidos são uma democracia fracassada?
Chomsky - Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais... A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.
ISTOÉ - Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas.
Chomsky - Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.
`Você pode discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos`
ISTOÉ - Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável?
Chomsky - Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras, por pessoas que levaram o país à ruína e estão levando boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos.
ISTOÉ - O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia?
Chomsky - Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra?
O presidente (Franklin) Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu, pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso é uma hipocrisia total. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.
ISTOÉ - O sr. avalia o governo Chávez positivamente?
Chomsky - A pergunta que importa é: o que os venezuelanos pensam do governo? Em pesquisas feitas pelo Latinobarômetro, uma organização chilena muito respeitada, desde a eleição de Chávez, a Venezuela fica no topo ou perto do topo de uma lista de países quanto ao apoio popular ao governo e à democracia.
ISTOÉ - O sr. acha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou alguma mudança para o Brasil?
Chomsky - De forma geral, suas políticas têm sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a disciplina das instituições financeiras internacionais foi questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia. Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mas, em geral, o País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital, entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas (Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente.
ISTOÉ - E qual o papel do Brasil?
Chomsky - O Brasil tem um papel central na integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela, estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações, como a da soja.
ISTOÉ - Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia?
Chomsky - Antes de falar sobre isso, temos que eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso.
ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.
ISTOÉ - Os anticapitalistas têm algum modelo para oferecer?
Chomsky - Existem diversas pessoas propondo coisas interessantes, basta ver o encontro em Belém (Fórum Social Mundial). Elas não são totalmente novas, vêm dos movimentos dos trabalhadores no século XIX. São propostas de se democratizar a sociedade inteira. Isso significa o controle democrático da manufatura, das finanças, dos sistemas de informação, e por aí em diante.
ISTOÉ - Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente?
Chomsky - Sim. Mas não se deve esperar que os países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com Israel - foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel, apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições, que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.
`Lula tem tomado uma posição boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, como Bolívia e Venezuela, estejam integrados ao sistema`
ISTOÉ - O sr. concorda que os intelectuais de hoje são menos engajados que nos anos 60 e 70, por exemplo?
Chomsky - Não concordo com isso. É uma ilusão pensar que intelectuais eram diferentes no passado. De modo geral, os intelectuais são altamente fisubordinados ao poder. Isso também era verdade nos anos 60. Veja, por exemplo, a guerra do Vietnã, que era uma questão importantíssima na época. Se você olhar o The New York Times ou outro jornal importante nos quais intelectuais se expressavam, a crítica mais forte que poderá encontrar da guerra é - bem, estou citando a crítica mais extrema - de que a guerra começou com esforços de fazer o bem, mas se transformou em um desastre com custos muito altos para nós mesmos.
ISTOÉ - O sr. dedicou a vida a pensar as questões mais importantes do mundo. Como se sente hoje?
Chomsky - Há passos em direção a um mundo mais livre, justo e democrático. Isso não cai do céu como um presente, vem da luta popular engajada. E, sim, ela tem sido muito bemsucedida. Então, na medida em que sou parte dela, eu me sinto feliz. Os movimentos populares que se desenvolveram a partir dos anos 60 tiveram um impacto muito significativo no mundo, de diversas formas. Veja um exemplo óbvio, das últimas eleições nos Estados Unidos: o Partido Democrata tinha dois candidatos, uma mulher e um afro-americano. Isso seria inconcebível 20 anos atrás.
Fonte:ISTO É / AEPET.
Cético Autor de mais de 70 livros, Chomski diz que Obama não será muito diferente de Bush e que o Brasil está no caminho certo
Ele foi considerado o intelectual mais importante do mundo pelo jornal The New York Times. Em 2005, ficou no topo da lista dos principais acadêmicos do planeta, segundo pesquisa feita pelas influentes revistas Foreign Policy, dos Estados Unidos, e Prospect, da Inglaterra. Aos 80 anos, Noam Chomsky, americano descendente de judeus russos, é reconhecido também como o papa da linguística moderna, por ter revolucionado a área com suas pesquisas sobre aquisição de linguagem. Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) há mais de meio século, Chomsky é também filósofo e comentarista político. A decisão de nadar contra o pensamento político dominante veio com a guerra do Vietnã, nos anos 60. Publicou mais de 70 livros e mil artigos. Em geral, obras de repercussão mundial sobre atentados terroristas, neoliberalismo e política internacional. Um dos maiores críticos da política internacional americana, Chomsky está lançando no Brasil Estados fracassados: o abuso do poder e o ataque à democracia (Bertrand, 349 págs., R$ 45), no qual argumenta que os Estados Unidos assumiram as características de um Estado fracassado e padecem de um déficit democrático. Nesta entrevista concedida à ISTOÉ, o intelectual diz que não vê perspectivas de mudanças com o presidente Barack Obama, mas deposita um mar de esperanças na América do Sul: `Neste momento, é a região mais interessante do mundo.`
ISTOÉ - Barack Obama pode mudar o que o sr. chama de `Estado fracassado`?
Noam Chomsky - Possibilidades sempre existem, mas não há nada que aponte para isso. As nomeações têm sido basicamente do lado dos falcões (defensores da guerra), e as ações também. Obama intensificou a guerra no Afeganistão, aumentou os ataques ao Paquistão e rejeitou os apelos dos presidentes desses países para eliminar os bombardeios que atingem alvos civis.
Quanto à questão de Israel e da Palestina, ele já deixou bem claro que não tem a intenção de buscar um acordo. Em sua primeira declaração sobre política internacional, afirmou que a responsabilidade primária dos Estados Unidos é proteger a segurança de Israel, e não a dos palestinos, que são os que precisam de proteção.
ISTOÉ - O sr. está dizendo que Obama é igual a George W. Bush?
Chomsky - Para começar, há uma distinção entre o primeiro e o segundo mandato de Bush. O primeiro foi muito arrogante e agressivo, desconsiderou as leis internacionais e foi tão abusivo que se distanciou de países aliados. O segundo mandato amaciou a retórica e as ações, que estavam causando danos demais aos interesses dos Estados Unidos. É possível que Obama dê continuidade às políticas do segundo mandato. Em alguns aspectos, Obama ainda é mais agressivo, como no Paquistão e no Afeganistão, que, pelo que vejo, são suas principais preocupações internacionais.
ISTOÉ - Os Estados Unidos são uma democracia fracassada?
Chomsky - Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais... A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.
ISTOÉ - Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas.
Chomsky - Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.
`Você pode discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos`
ISTOÉ - Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável?
Chomsky - Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras, por pessoas que levaram o país à ruína e estão levando boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos.
ISTOÉ - O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia?
Chomsky - Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra?
O presidente (Franklin) Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu, pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso é uma hipocrisia total. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.
ISTOÉ - O sr. avalia o governo Chávez positivamente?
Chomsky - A pergunta que importa é: o que os venezuelanos pensam do governo? Em pesquisas feitas pelo Latinobarômetro, uma organização chilena muito respeitada, desde a eleição de Chávez, a Venezuela fica no topo ou perto do topo de uma lista de países quanto ao apoio popular ao governo e à democracia.
ISTOÉ - O sr. acha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou alguma mudança para o Brasil?
Chomsky - De forma geral, suas políticas têm sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a disciplina das instituições financeiras internacionais foi questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia. Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mas, em geral, o País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital, entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas (Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente.
ISTOÉ - E qual o papel do Brasil?
Chomsky - O Brasil tem um papel central na integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela, estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações, como a da soja.
ISTOÉ - Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia?
Chomsky - Antes de falar sobre isso, temos que eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso.
ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise?
Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.
ISTOÉ - Os anticapitalistas têm algum modelo para oferecer?
Chomsky - Existem diversas pessoas propondo coisas interessantes, basta ver o encontro em Belém (Fórum Social Mundial). Elas não são totalmente novas, vêm dos movimentos dos trabalhadores no século XIX. São propostas de se democratizar a sociedade inteira. Isso significa o controle democrático da manufatura, das finanças, dos sistemas de informação, e por aí em diante.
ISTOÉ - Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente?
Chomsky - Sim. Mas não se deve esperar que os países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com Israel - foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel, apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições, que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.
`Lula tem tomado uma posição boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, como Bolívia e Venezuela, estejam integrados ao sistema`
ISTOÉ - O sr. concorda que os intelectuais de hoje são menos engajados que nos anos 60 e 70, por exemplo?
Chomsky - Não concordo com isso. É uma ilusão pensar que intelectuais eram diferentes no passado. De modo geral, os intelectuais são altamente fisubordinados ao poder. Isso também era verdade nos anos 60. Veja, por exemplo, a guerra do Vietnã, que era uma questão importantíssima na época. Se você olhar o The New York Times ou outro jornal importante nos quais intelectuais se expressavam, a crítica mais forte que poderá encontrar da guerra é - bem, estou citando a crítica mais extrema - de que a guerra começou com esforços de fazer o bem, mas se transformou em um desastre com custos muito altos para nós mesmos.
ISTOÉ - O sr. dedicou a vida a pensar as questões mais importantes do mundo. Como se sente hoje?
Chomsky - Há passos em direção a um mundo mais livre, justo e democrático. Isso não cai do céu como um presente, vem da luta popular engajada. E, sim, ela tem sido muito bemsucedida. Então, na medida em que sou parte dela, eu me sinto feliz. Os movimentos populares que se desenvolveram a partir dos anos 60 tiveram um impacto muito significativo no mundo, de diversas formas. Veja um exemplo óbvio, das últimas eleições nos Estados Unidos: o Partido Democrata tinha dois candidatos, uma mulher e um afro-americano. Isso seria inconcebível 20 anos atrás.
Fonte:ISTO É / AEPET.
MST OCUPA FAZENDA DE DANTAS, JÁ FLAGRADA COM ESCRAVOS.
Leonardo Sakamoto.
Trabalhadores rurais ligados ao MST ocuparam ontem a fazenda Espírito Santo, localizada no Sul do Pará, controlada pela Agropecuária Santa Bárbara, do Grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. Integrada por terras públicas, elas estavam cedidas pelo Estado para Benedito Mutran Filho para colonização e extrativismo e não poderiam ter sido vendidas a Dantas sem autorização do governo.
A fazenda tem uma história manchada de sangue. Em setembro de 1989, aos 17 anos, o trabalhador rural José Pereira Ferreira foi atingido por uma bala no rosto por funcionários da fazenda Espírito Santo quando tentava escapar do trabalho escravo. O caso, que não recebeu uma resposta das autoridades brasileiras, foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Para não ser condenado por omissão, o governo brasileiro teve que fazer um acordo em que se comprometia a adotar uma série de medidas para combater o trabalho escravo e a indenizar José Pereira pela omissão do Estado. Em novembro de 2003, o Congresso Nacional aprovou um pagamento de R$ 52 mil.
A petição número 11.289 da OEA, relativa à solução amistosa do “Caso Zé Pereira”, afirma que “o Estado brasileiro assume o compromisso de continuar com os esforços para o cumprimento dos mandados judiciais de prisão contra os acusados pelos crimes cometidos contra José Pereira”. O caso ainda está aberto, aguardando julgamento de acusados, sendo que o gerente da fazenda, Artur Benedito Cortes Machado, teve extinta a punibilidade retroativa em 06 de outubro de 1998 devido à prescrição do crime. Tanto no processo da OEA quanto no que correu na Justiça brasileira, Benedito Mutran Filho não aparece entre os réus. O proprietário da fazenda foi arrolado como testemunha pela acusação e afirmou que raramente ia à fazenda Espírito Santo e que demitiu os funcionários envolvidos assim que soube do acontecido. Nada foi movido contra Mutran.
Ou seja, além do pepino de comprar terras irregulares, Daniel Dantas também adquiriu, em setembro de 1995, um triste marco na história da exploração do trabalhador brasileiro. Dar uma nova função a essas terras através da reforma agrária não seria uma má idéia.
Fonte:Blog do Sakamoto.
Trabalhadores rurais ligados ao MST ocuparam ontem a fazenda Espírito Santo, localizada no Sul do Pará, controlada pela Agropecuária Santa Bárbara, do Grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. Integrada por terras públicas, elas estavam cedidas pelo Estado para Benedito Mutran Filho para colonização e extrativismo e não poderiam ter sido vendidas a Dantas sem autorização do governo.
A fazenda tem uma história manchada de sangue. Em setembro de 1989, aos 17 anos, o trabalhador rural José Pereira Ferreira foi atingido por uma bala no rosto por funcionários da fazenda Espírito Santo quando tentava escapar do trabalho escravo. O caso, que não recebeu uma resposta das autoridades brasileiras, foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Para não ser condenado por omissão, o governo brasileiro teve que fazer um acordo em que se comprometia a adotar uma série de medidas para combater o trabalho escravo e a indenizar José Pereira pela omissão do Estado. Em novembro de 2003, o Congresso Nacional aprovou um pagamento de R$ 52 mil.
A petição número 11.289 da OEA, relativa à solução amistosa do “Caso Zé Pereira”, afirma que “o Estado brasileiro assume o compromisso de continuar com os esforços para o cumprimento dos mandados judiciais de prisão contra os acusados pelos crimes cometidos contra José Pereira”. O caso ainda está aberto, aguardando julgamento de acusados, sendo que o gerente da fazenda, Artur Benedito Cortes Machado, teve extinta a punibilidade retroativa em 06 de outubro de 1998 devido à prescrição do crime. Tanto no processo da OEA quanto no que correu na Justiça brasileira, Benedito Mutran Filho não aparece entre os réus. O proprietário da fazenda foi arrolado como testemunha pela acusação e afirmou que raramente ia à fazenda Espírito Santo e que demitiu os funcionários envolvidos assim que soube do acontecido. Nada foi movido contra Mutran.
Ou seja, além do pepino de comprar terras irregulares, Daniel Dantas também adquiriu, em setembro de 1995, um triste marco na história da exploração do trabalhador brasileiro. Dar uma nova função a essas terras através da reforma agrária não seria uma má idéia.
Fonte:Blog do Sakamoto.
segunda-feira, 2 de março de 2009
NA LÓGICA DA PROPRIEDADE E DO CAPITAL.
Mário Augusto Jacobskind
E começou o ano civil de 2009. Muitas águas vão rolar e finalmente se verá até que ponto a crise econômica vai provocar ainda maiores estragos do que já provocou até agora. Os eternos defensores do neoliberalismo, os tais colunistas de sempre, que até há pouco defendiam ardorosamente o Estado mínimo, agora são os primeiros a saudar a presença do Estado para salvar quem está afundando. Esta é a tal lógica da propriedade e do capital, que se manifesta das mais diversas formas.
Um dos maiores exemplo desta lógica é nada mais nada menos do que o Ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, cargo que jamais poderia estar ocupando, pois a sua prática parcial em favor da propriedade e do capital não se coaduna com o posto.
A mais recente defesa dessa lógica protagonizada pelo Ministro do Supremo nomeado na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso foi a sua declaração condenando de antemão o MST em um grave incidente em Pernambuco que resultou em quatro mortes. Diante das câmaras da Globo, em plena quarta-feira de cinzas, Mendes vestiu a fantasia fundiária da Vênus Platinada, como também é conhecida a emissora televisiva de maior audiência no país, para também condenar o pagamento de subsídios legais pelo Poder Público à referida entidade que há mais de 25 anos luta pela reforma agrária e tem vários núcleos produzindo. O Estado brasileiro, independente de quem seja o ocupante do Palácio do Planalto, cumpre a função constitucional de colaborar com entidades que produzem na área da agricultura. Mas Mendes não está nem aí, prefere se manifestar seguindo o mesmo ideário da TV Globo e opina sobre um fato com o objetivo de colocar o governo atual no banco dos réus.
Antes de qualquer coisa, o presidente do STF já se posiciona contra o MST, satanizando-o e o julgando através de um incidente ainda não totalmente esclarecido, em poucos segundos jogando o movimento na vala do crime comum. E aí os papagaios de pirata da mídia hegemônica saem repetindo a receita. Segundo dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra), de 1985 a 2007, foram cerca de 1500 assassinatos de trabalhadores rurais, muitos deles mortos enquanto defendiam seu direito à terra, o que Mendes não leva em conta pois o Ministro defende a propriedade e o capital e ignora que a violência sempre prejudicou o MST.
Não é à toa que outras decisões polêmicas protagonizadas por Gilmar Mendes são até hoje questionadas e colocadas em dúvida jurídica, como a que em poucas horas concedeu habeas-corpus ao banqueiro Daniel Dantas, considerado um “bandido” pelo delegado Protógenes Queiroz. Por estas e muitas outras, Gilmar Mendes desabona a instância máxima da Justiça brasileira. É o caso de se perguntar se quando Mendes vota em algum processo ou julga a concessão de habeas-corpus ele se posiciona de acordo com trâmites legais ou decide movido por outros motivos? São perguntas necessárias, sobretudo no momento em que o presidente do STF se apresenta em público com uma sentença definitiva e que é utilizado nos mais variados espaços para aprofundar o esquema de criminalização do MST e demais movimentos sociais brasileiros.
Que a TV Globo, que representa interesses econômicos que não aceitam qualquer tipo de organização popular faça isso, não chega a surpreender, agora que o Ministro que preside o STF repita o esquema, significa realmente um retrocesso. A figura de Mendes remete a decisões que mancharam definitivamente o STF, como em 1936 ao aprovar a extradição de Olga Benário, judia e comunista, grávida, para a Alemanha, onde acabou morrendo na câmara de gás de um campo de concentração.
Em suma, desta vez, enquanto o samba atravessava a avenida, a justiça, via STF, desafinava, ao seu presidente se alinhar ao bloco da conveniência do mais forte, que tem como porta-estandarte a TV Globo.
A mesma lógica de Gilmar Mendes foi utilizada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul ao ordenar o fechamento de oito escolas para crianças do MST que funcionavam regularmente há 13 anos, inclusive seguindo o currículo da Secretaria de Educação gaúcha, que informou que não poderá arcar com o deslocamento das crianças para outras escolas na área rural. Quer dizer, as crianças ficarão sem estudar por culpa do Ministério Público e da governadora Yeda Crusius, do PSDB.
Os argumentos apresentados pelo Ministério Público, através do Procurador da Justiça Gilberto Thums, não só não resistem a menor análise como remetem a um dos períodos mais obscuros da história brasileira, a da ditadura instalada a partir de abril de 1964 e que estendeu a março de 1985.
Thums, que joga na mesma lógica de Mendes e de Yeda Crusius da propriedade e do capital, usa uma terminologia dos tempos da Guerra Fria, que se esperava superado pelos novos tempos em que vive o Brasil. Para a saúde da democracia no país, é urgente que se encontre uma forma de se fazer uma revisão profunda do Poder Judiciário e evitar aberrações do tipo Gilmar Mendes.
Fonte:Direto da Redação.
E começou o ano civil de 2009. Muitas águas vão rolar e finalmente se verá até que ponto a crise econômica vai provocar ainda maiores estragos do que já provocou até agora. Os eternos defensores do neoliberalismo, os tais colunistas de sempre, que até há pouco defendiam ardorosamente o Estado mínimo, agora são os primeiros a saudar a presença do Estado para salvar quem está afundando. Esta é a tal lógica da propriedade e do capital, que se manifesta das mais diversas formas.
Um dos maiores exemplo desta lógica é nada mais nada menos do que o Ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, cargo que jamais poderia estar ocupando, pois a sua prática parcial em favor da propriedade e do capital não se coaduna com o posto.
A mais recente defesa dessa lógica protagonizada pelo Ministro do Supremo nomeado na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso foi a sua declaração condenando de antemão o MST em um grave incidente em Pernambuco que resultou em quatro mortes. Diante das câmaras da Globo, em plena quarta-feira de cinzas, Mendes vestiu a fantasia fundiária da Vênus Platinada, como também é conhecida a emissora televisiva de maior audiência no país, para também condenar o pagamento de subsídios legais pelo Poder Público à referida entidade que há mais de 25 anos luta pela reforma agrária e tem vários núcleos produzindo. O Estado brasileiro, independente de quem seja o ocupante do Palácio do Planalto, cumpre a função constitucional de colaborar com entidades que produzem na área da agricultura. Mas Mendes não está nem aí, prefere se manifestar seguindo o mesmo ideário da TV Globo e opina sobre um fato com o objetivo de colocar o governo atual no banco dos réus.
Antes de qualquer coisa, o presidente do STF já se posiciona contra o MST, satanizando-o e o julgando através de um incidente ainda não totalmente esclarecido, em poucos segundos jogando o movimento na vala do crime comum. E aí os papagaios de pirata da mídia hegemônica saem repetindo a receita. Segundo dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra), de 1985 a 2007, foram cerca de 1500 assassinatos de trabalhadores rurais, muitos deles mortos enquanto defendiam seu direito à terra, o que Mendes não leva em conta pois o Ministro defende a propriedade e o capital e ignora que a violência sempre prejudicou o MST.
Não é à toa que outras decisões polêmicas protagonizadas por Gilmar Mendes são até hoje questionadas e colocadas em dúvida jurídica, como a que em poucas horas concedeu habeas-corpus ao banqueiro Daniel Dantas, considerado um “bandido” pelo delegado Protógenes Queiroz. Por estas e muitas outras, Gilmar Mendes desabona a instância máxima da Justiça brasileira. É o caso de se perguntar se quando Mendes vota em algum processo ou julga a concessão de habeas-corpus ele se posiciona de acordo com trâmites legais ou decide movido por outros motivos? São perguntas necessárias, sobretudo no momento em que o presidente do STF se apresenta em público com uma sentença definitiva e que é utilizado nos mais variados espaços para aprofundar o esquema de criminalização do MST e demais movimentos sociais brasileiros.
Que a TV Globo, que representa interesses econômicos que não aceitam qualquer tipo de organização popular faça isso, não chega a surpreender, agora que o Ministro que preside o STF repita o esquema, significa realmente um retrocesso. A figura de Mendes remete a decisões que mancharam definitivamente o STF, como em 1936 ao aprovar a extradição de Olga Benário, judia e comunista, grávida, para a Alemanha, onde acabou morrendo na câmara de gás de um campo de concentração.
Em suma, desta vez, enquanto o samba atravessava a avenida, a justiça, via STF, desafinava, ao seu presidente se alinhar ao bloco da conveniência do mais forte, que tem como porta-estandarte a TV Globo.
A mesma lógica de Gilmar Mendes foi utilizada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul ao ordenar o fechamento de oito escolas para crianças do MST que funcionavam regularmente há 13 anos, inclusive seguindo o currículo da Secretaria de Educação gaúcha, que informou que não poderá arcar com o deslocamento das crianças para outras escolas na área rural. Quer dizer, as crianças ficarão sem estudar por culpa do Ministério Público e da governadora Yeda Crusius, do PSDB.
Os argumentos apresentados pelo Ministério Público, através do Procurador da Justiça Gilberto Thums, não só não resistem a menor análise como remetem a um dos períodos mais obscuros da história brasileira, a da ditadura instalada a partir de abril de 1964 e que estendeu a março de 1985.
Thums, que joga na mesma lógica de Mendes e de Yeda Crusius da propriedade e do capital, usa uma terminologia dos tempos da Guerra Fria, que se esperava superado pelos novos tempos em que vive o Brasil. Para a saúde da democracia no país, é urgente que se encontre uma forma de se fazer uma revisão profunda do Poder Judiciário e evitar aberrações do tipo Gilmar Mendes.
Fonte:Direto da Redação.
BRASIL - Segurança Pública e Fraternidade.
Frei Betto.
Adital
Inicia-se, nesta Quaresma, a 47ª edição da Campanha da Fraternidade (CF), promovida pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). O tema deste ano é "Fraternidade e segurança pública", e o lema "A paz é fruto da justiça" (Isaías 32, 17).
Segundo o documento da CF, entre os objetivos se destacam "suscitar o debate sobre segurança pública e contribuir para a promoção da cultura de paz; denunciar os crimes contra a ética, a economia e as gestões públicas, assim como a injustiça presente nos institutos de prisão especial, do foro privilegiado e da imunidade parlamentar para crimes comuns; favorecer a articulação de redes populares e de políticas públicas com vistas à superação da violência; apoiar as políticas governamentais valorizadoras dos direitos humanos".
A CNBB aponta três tipos de violência predominantes no Brasil: a estrutural, que nega cidadania a uma parcela da população e discrimina os "diferentes"; a física, como a tortura, a agressão à mulher, a exploração laboral e sexual de crianças; e a simbólica, através de ameaças e constrangimentos, negação de informação e disseminação da cultura do medo.
Talvez a mais freqüente e dissimulada seja a que ocorre dentro dos lares, desde maus tratos a empregadas às brigas entre casais; a agressão à mulher e aos filhos; as dependências químicas; o descaso pelos idosos; a pedofilia indenunciada e recorrente.
Uma das formas de violência mais visíveis hoje é a ambiental, que promove o desmatamento e a poluição das águas e do ar, favorece a emissão de CO2 na atmosfera e o aquecimento global; reduz a biodiversidade e as fontes de alimentos saudáveis. Há também a sutil, como alimentos transgênicos não-identificados, embalagens perniciosas à saúde, produtos com substâncias químicas nocivas.
Os dados da CNBB mostram que indígenas e pequenos agricultores têm perdido suas terras e sido assassinados em decorrência de conflitos fundiários. "Como não há limites, os que têm dinheiro se tornam proprietários da maior parte das terras; no outro extremo, quem não tem como comprar, fica sem nada, sem lugar para trabalhar e para viver. Como surgem os Sem-Terra e os Sem-Teto organizados, exigindo seus direitos, nada mais fácil que cresça a acusação e a imagem de que são baderneiros e, no limite, terroristas, e que ela seja combinada com o sentimento geral de que a violência direta ou a repressão policial é o prêmio destinado a quem se rebela contra a própria sorte" (p. 185).
A violência não reside apenas em agressões evidentes. Ela se imiscui até mesmo no nosso modo de pensar e falar, no discurso que considera a paz resultado do equilíbrio de forças ("mais cadeias, mais repressão") e não fruto da justiça. Há ainda a violência da mídia que invade os lares com programas pornográficos, exaltando a imbecilidade, a ociosidade vadia, o sucesso e a fama dos que transgridem as leis.
A CNBB propõe que o tema da segurança pública seja debatido em escolas, igrejas, fóruns, mídias. Sugere que se promova o diálogo com o poder público para a elaboração de programas, leis e políticas de segurança; que sejam organizados atos públicos em favor do tema; criem-se comissões de justiça e paz e de direitos humanos que possam acompanhar casos de violação desses mesmos direitos; denuncie e combata-se toda forma de trabalho escravo, de tráfico de pessoas, de exploração sexual, de violência doméstica.
Na prática de Jesus, três atitudes antiviolência se destacam: a humildade (fazer-se criança, Mateus 18, 4); o amor aos pobres e excluídos (Mateus 18,10 e 25, 31-40); o perdão (Mateus 18, 22). E o programa de justiça, capaz de engendrar a paz, contido no Sermão da Montanha (as bem-aventuranças Mateus 5, 1-12).
Adital
Inicia-se, nesta Quaresma, a 47ª edição da Campanha da Fraternidade (CF), promovida pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). O tema deste ano é "Fraternidade e segurança pública", e o lema "A paz é fruto da justiça" (Isaías 32, 17).
Segundo o documento da CF, entre os objetivos se destacam "suscitar o debate sobre segurança pública e contribuir para a promoção da cultura de paz; denunciar os crimes contra a ética, a economia e as gestões públicas, assim como a injustiça presente nos institutos de prisão especial, do foro privilegiado e da imunidade parlamentar para crimes comuns; favorecer a articulação de redes populares e de políticas públicas com vistas à superação da violência; apoiar as políticas governamentais valorizadoras dos direitos humanos".
A CNBB aponta três tipos de violência predominantes no Brasil: a estrutural, que nega cidadania a uma parcela da população e discrimina os "diferentes"; a física, como a tortura, a agressão à mulher, a exploração laboral e sexual de crianças; e a simbólica, através de ameaças e constrangimentos, negação de informação e disseminação da cultura do medo.
Talvez a mais freqüente e dissimulada seja a que ocorre dentro dos lares, desde maus tratos a empregadas às brigas entre casais; a agressão à mulher e aos filhos; as dependências químicas; o descaso pelos idosos; a pedofilia indenunciada e recorrente.
Uma das formas de violência mais visíveis hoje é a ambiental, que promove o desmatamento e a poluição das águas e do ar, favorece a emissão de CO2 na atmosfera e o aquecimento global; reduz a biodiversidade e as fontes de alimentos saudáveis. Há também a sutil, como alimentos transgênicos não-identificados, embalagens perniciosas à saúde, produtos com substâncias químicas nocivas.
Os dados da CNBB mostram que indígenas e pequenos agricultores têm perdido suas terras e sido assassinados em decorrência de conflitos fundiários. "Como não há limites, os que têm dinheiro se tornam proprietários da maior parte das terras; no outro extremo, quem não tem como comprar, fica sem nada, sem lugar para trabalhar e para viver. Como surgem os Sem-Terra e os Sem-Teto organizados, exigindo seus direitos, nada mais fácil que cresça a acusação e a imagem de que são baderneiros e, no limite, terroristas, e que ela seja combinada com o sentimento geral de que a violência direta ou a repressão policial é o prêmio destinado a quem se rebela contra a própria sorte" (p. 185).
A violência não reside apenas em agressões evidentes. Ela se imiscui até mesmo no nosso modo de pensar e falar, no discurso que considera a paz resultado do equilíbrio de forças ("mais cadeias, mais repressão") e não fruto da justiça. Há ainda a violência da mídia que invade os lares com programas pornográficos, exaltando a imbecilidade, a ociosidade vadia, o sucesso e a fama dos que transgridem as leis.
A CNBB propõe que o tema da segurança pública seja debatido em escolas, igrejas, fóruns, mídias. Sugere que se promova o diálogo com o poder público para a elaboração de programas, leis e políticas de segurança; que sejam organizados atos públicos em favor do tema; criem-se comissões de justiça e paz e de direitos humanos que possam acompanhar casos de violação desses mesmos direitos; denuncie e combata-se toda forma de trabalho escravo, de tráfico de pessoas, de exploração sexual, de violência doméstica.
Na prática de Jesus, três atitudes antiviolência se destacam: a humildade (fazer-se criança, Mateus 18, 4); o amor aos pobres e excluídos (Mateus 18,10 e 25, 31-40); o perdão (Mateus 18, 22). E o programa de justiça, capaz de engendrar a paz, contido no Sermão da Montanha (as bem-aventuranças Mateus 5, 1-12).
INTERNET - Lula montará canal de comunicação direta com eleitor.
Presidência quer adotar modelo bem-sucedido de Obama e já conta com consultoria do Google para montar portal.
Inspirado na estratégia vitoriosa de marketing de Barack Obama, a partir de abril o presidente Luiz Inácio Lula da Lula deverá ter um canal de comunicação direta com os cerca de cinqüenta milhões de usuários da internet no país. Por enquanto, o alvo principal do site www.presidencia.gov.br é a imprensa. Mas o novo portal, que será abastecido com conteúdo exclusivo de Lula em áudio e vídeo, pretende falar diretamente com o eleitor. Ainda de olho na experiência americana, a secretaria de comunicação do Planalto tem recorrido a uma consultoria informal da filial brasileira do Google, que tem dado conselhos gratuitos sobre a formatação multimídia ideal para o usuário da internet discada, que é maioria no país.
Fonte:FNDC
Inspirado na estratégia vitoriosa de marketing de Barack Obama, a partir de abril o presidente Luiz Inácio Lula da Lula deverá ter um canal de comunicação direta com os cerca de cinqüenta milhões de usuários da internet no país. Por enquanto, o alvo principal do site www.presidencia.gov.br é a imprensa. Mas o novo portal, que será abastecido com conteúdo exclusivo de Lula em áudio e vídeo, pretende falar diretamente com o eleitor. Ainda de olho na experiência americana, a secretaria de comunicação do Planalto tem recorrido a uma consultoria informal da filial brasileira do Google, que tem dado conselhos gratuitos sobre a formatação multimídia ideal para o usuário da internet discada, que é maioria no país.
Fonte:FNDC
JEITO TUCANO DE GOVERNAR
O caso Amplus e a terceirização da saúde
A Folha de hoje traz reportagem sobre um aparelho médico, o único equipamento de ressonância magnética da rede municipal, encostado há três anos porque não foi feita a obra necessária para abrigá-la. Na mesma página, nota informando que o Tribunal de Contas do Município julgou o contrato irregular em junho do ano passado.
É um bom tema para se analisar os limites da terceirização de serviços públicos – que, em princípio apoio, mas que dá margem a muita operação nebulosa.
Vamos a um histórico de documentos levantados na web e no Diário Oficial (clique aqui para ir ao Google Notebooks conferir):
Documento 1 – a matéria da Folha sobre o aparelho médico que está encostado há três anos.
Documento 2 – Secretaria nega falta de assistência e culpa “ complexidade” por problema.
No Diário Oficial do Município, é possível juntar algumas informações sobre as causas desse problema: para abrigar um aparelho de R$ 10 milhões (há três anos parados) bastaria uma ampliação da sala que custaria R$ 180 mil.
Documento 3 – Matéria de 28 de maio de 2007 do Diário de São Paulo, informando que o problema era antigo. Segundo a matéria, havia uma fila de 3 mil pessoas aguardando a instalação do tal aparelho de ressonância magnética.
E surgem as primeiras informações sobre o valor do contrato:
“Os R$ 108 milhões do compromisso com a empresa seriam suficientes para bancar a implantação de mais de 200 unidades de Atendimento Médico Ambulatorial, as AMAs, uma das bandeiras da gestão do prefeito Gilberto Kassab (DEM)”.
“Nas 80 páginas do documento da corregedoria, nomeada pela própria administração municipal, são relatadas irregularidades no compromisso para diagnóstico por imagem e no de exames laboratoriais. Há falhas na elaboração do modelo escolhido para a contratação e uma lista de obrigações não cumpridas”.
Documento 4 – matéria de O Globo, repercutindo o Diário de São Paulo, na qual a Secretaria da Saúde do município defende a Amplus. Diz que falta apenas algumas obras no hospital. Pela matéria se fica sabendo que a empresa tinha sido fundada em 1999 (portanto, tinha apenas 6 anos de vida quando o contrato foi assinado) e sua experiência anterior, com prestação de serviços a municípios, se restringia aos municípios de Guarujá e São Vicente.
Documento 5 - volta-se a uma nota na edição de hoje da Folha, informando que, no ano passado, o contrato foi considerado irregular pelo Tribunal de Contas de São Paulo. Apesar do valor considerável – R$ 108 milhões por três anos – não houve licitação. A assinatura se deu ainda na gestão José Serra na prefeitura.
Documento 6 – discussões na Câmara, publicadas pelo Diário Oficial, sobre uma proposta de CPI da Amplus.
Documento 7 – notícia de 12 de novembro de 2008, do jornal A Tribuna, de Guarujá, informando que a Associação Santamarense de Beneficência quer rescindir o contrato de terceirização da tomografia com a Amplus devido “às péssimas condições de serviço prestadas”.
Finalmente, aqui, nota no Diário Oficial de 11 de agosto de 2008 informando do cancelamento frequente de exames pela Amplus, por falta de médicos.
Por Luis Armidoro
Nassif:
Implantamos aparelhos de ressonancia magnetica (seguindo as recomendações do fabricante - SIEMENS - para adequação do espaço fisico) em dois hospitais da rede pública por R$ 80.000,00 cada adequação. É de uma simplicidade assustadora a adequação:
1 - realmente, não pode haver elementos metálicos no interior da sala onde está instalado o aparelho. Basta blindar toda a instalação.
2 - Eu não me recordo de qual foi a isolação exigida para as paredes (posso levantar isto), mas acho que foi barita (um composto que é adicionado à argamassa de revestimento, que possui densidade elevada.
3 - O piso não pode possuir saliencias ou declividades exageradas, pois o equipamento desliza sobre um trilho (pode provocar interferencias). Além disto, o piso deve possuir aterramento especial.
Qual a “complexidade” disto? Uma sala de tomógrafo possui 30 m² para o aparelho e uma cabine de comando com mais uns 6 m². Você leva três anos para fazer uma reforma ordinária destas num espaço assim ordinário?
E Nassif, a terceirização de Saúde não funciona (apesar de vc concordar com ela, mas você deu esta opinião de mal-humor porque seu time apanhou ontem). Veja (êta palavrinha feia) os exemplos:
1 - O troço que o Maluf fez na Prefeitura (esqueci o nome daquilo)
2 - As “OS” que os tucanos inventaram. Há um monte de hospital que é tocado por faculdade de medicina, recebem uma grana pública, não prestam contam, e não têm pronto-socorro (porta de entrada no sistema). Sem PS, é fácil administrar, porque você acaba com a fila na sua porta.
Fonte:Luis Nassif on line
A Folha de hoje traz reportagem sobre um aparelho médico, o único equipamento de ressonância magnética da rede municipal, encostado há três anos porque não foi feita a obra necessária para abrigá-la. Na mesma página, nota informando que o Tribunal de Contas do Município julgou o contrato irregular em junho do ano passado.
É um bom tema para se analisar os limites da terceirização de serviços públicos – que, em princípio apoio, mas que dá margem a muita operação nebulosa.
Vamos a um histórico de documentos levantados na web e no Diário Oficial (clique aqui para ir ao Google Notebooks conferir):
Documento 1 – a matéria da Folha sobre o aparelho médico que está encostado há três anos.
Documento 2 – Secretaria nega falta de assistência e culpa “ complexidade” por problema.
No Diário Oficial do Município, é possível juntar algumas informações sobre as causas desse problema: para abrigar um aparelho de R$ 10 milhões (há três anos parados) bastaria uma ampliação da sala que custaria R$ 180 mil.
Documento 3 – Matéria de 28 de maio de 2007 do Diário de São Paulo, informando que o problema era antigo. Segundo a matéria, havia uma fila de 3 mil pessoas aguardando a instalação do tal aparelho de ressonância magnética.
E surgem as primeiras informações sobre o valor do contrato:
“Os R$ 108 milhões do compromisso com a empresa seriam suficientes para bancar a implantação de mais de 200 unidades de Atendimento Médico Ambulatorial, as AMAs, uma das bandeiras da gestão do prefeito Gilberto Kassab (DEM)”.
“Nas 80 páginas do documento da corregedoria, nomeada pela própria administração municipal, são relatadas irregularidades no compromisso para diagnóstico por imagem e no de exames laboratoriais. Há falhas na elaboração do modelo escolhido para a contratação e uma lista de obrigações não cumpridas”.
Documento 4 – matéria de O Globo, repercutindo o Diário de São Paulo, na qual a Secretaria da Saúde do município defende a Amplus. Diz que falta apenas algumas obras no hospital. Pela matéria se fica sabendo que a empresa tinha sido fundada em 1999 (portanto, tinha apenas 6 anos de vida quando o contrato foi assinado) e sua experiência anterior, com prestação de serviços a municípios, se restringia aos municípios de Guarujá e São Vicente.
Documento 5 - volta-se a uma nota na edição de hoje da Folha, informando que, no ano passado, o contrato foi considerado irregular pelo Tribunal de Contas de São Paulo. Apesar do valor considerável – R$ 108 milhões por três anos – não houve licitação. A assinatura se deu ainda na gestão José Serra na prefeitura.
Documento 6 – discussões na Câmara, publicadas pelo Diário Oficial, sobre uma proposta de CPI da Amplus.
Documento 7 – notícia de 12 de novembro de 2008, do jornal A Tribuna, de Guarujá, informando que a Associação Santamarense de Beneficência quer rescindir o contrato de terceirização da tomografia com a Amplus devido “às péssimas condições de serviço prestadas”.
Finalmente, aqui, nota no Diário Oficial de 11 de agosto de 2008 informando do cancelamento frequente de exames pela Amplus, por falta de médicos.
Por Luis Armidoro
Nassif:
Implantamos aparelhos de ressonancia magnetica (seguindo as recomendações do fabricante - SIEMENS - para adequação do espaço fisico) em dois hospitais da rede pública por R$ 80.000,00 cada adequação. É de uma simplicidade assustadora a adequação:
1 - realmente, não pode haver elementos metálicos no interior da sala onde está instalado o aparelho. Basta blindar toda a instalação.
2 - Eu não me recordo de qual foi a isolação exigida para as paredes (posso levantar isto), mas acho que foi barita (um composto que é adicionado à argamassa de revestimento, que possui densidade elevada.
3 - O piso não pode possuir saliencias ou declividades exageradas, pois o equipamento desliza sobre um trilho (pode provocar interferencias). Além disto, o piso deve possuir aterramento especial.
Qual a “complexidade” disto? Uma sala de tomógrafo possui 30 m² para o aparelho e uma cabine de comando com mais uns 6 m². Você leva três anos para fazer uma reforma ordinária destas num espaço assim ordinário?
E Nassif, a terceirização de Saúde não funciona (apesar de vc concordar com ela, mas você deu esta opinião de mal-humor porque seu time apanhou ontem). Veja (êta palavrinha feia) os exemplos:
1 - O troço que o Maluf fez na Prefeitura (esqueci o nome daquilo)
2 - As “OS” que os tucanos inventaram. Há um monte de hospital que é tocado por faculdade de medicina, recebem uma grana pública, não prestam contam, e não têm pronto-socorro (porta de entrada no sistema). Sem PS, é fácil administrar, porque você acaba com a fila na sua porta.
Fonte:Luis Nassif on line
VENEZUELA - Cháves confirma projeção socialista de seu governo.
O presidente venezuelano, Hugo Chávez, reiterou hoje a projeção socialista de seu governo, que considera imprescindível para terminar com os males da pobreza e o desemprego, entre outros, no país sul-americano.
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Em sua coluna dominical As linhas de Chávez, o presidente afirma que a sublevação popular denominada Caracaço, em 27 de fevereiro de 1989, propiciou o movimento cívico militar que comandou três anos depois, em 4 de Fevereiro de 1992.
.
“Ao Exército Bolivariano, aos soldados rebeldes, faltou seu povo na rua. Hoje, vinte anos depois, aqui estamos juntos povo e soldados, construindo o caminho que começou então, fazendo possível a Venezuela Socialista”, expressou.
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Também assegurou que com o referendo do passado 15 de janeiro, que eliminou a quantidade limite de mandatos em cargos de eleição popular, “selamos o nascimento do terceiro ciclo histórico da Revolução Socialista Bolivariana, que abrangerá o período 2009-2019”.
.
A emenda constitucional aprovada com votação de 55 por cento da população permitirá a Chávez aspirar a outro mandato em 2012, opção que seus seguidores consideram necessária para dar continuidade ao processo de mudanças que lidera desde 1999.
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“Como disse Jorge Eliécer Gaitán, digo eu hoje, compatriota venezuelana, venezuelano que: Sempre adiante, nunca atrás; e o que tem de ser, que seja!!”, expressou Chávez em sua coluna publicada em vários diários de circulação nacional e regional.
.
Em relação com o Caracaço, Chávez recordou que foi resultado da política econômica do Fundo Monterio Internacional aplicada pelo então presidente Carlos Andrés Pérez em um contexto internacional adverso para os revolucionários.
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Recordou que a Perestroika marcava o fim da União Soviética e isso constituía um verdadeiro golpe mortal a quase todas as lutas revolucionárias no planeta, enquanto na Nicarágua se desequilibrava o governo Sandinista assediado pelos Estados Unidos.
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E em nossa América Latina, com a exceção honrosa da Cuba revolucionária e socialista, -disse- todos os governos caíam ajoelhados diante do chamado “consenso de Washington” e suas políticas colonialistas neoliberais.
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Neste contexto, Chávez considerou O Caracaço “um processo que estaria destinado a se converter em vanguarda de uma verdadeira mudança de época que hoje, vinte anos depois, percorre com intensidade crescente toda a terra Latinoamericana”.
Fonte:O Velho Comunista.
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Em sua coluna dominical As linhas de Chávez, o presidente afirma que a sublevação popular denominada Caracaço, em 27 de fevereiro de 1989, propiciou o movimento cívico militar que comandou três anos depois, em 4 de Fevereiro de 1992.
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“Ao Exército Bolivariano, aos soldados rebeldes, faltou seu povo na rua. Hoje, vinte anos depois, aqui estamos juntos povo e soldados, construindo o caminho que começou então, fazendo possível a Venezuela Socialista”, expressou.
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Também assegurou que com o referendo do passado 15 de janeiro, que eliminou a quantidade limite de mandatos em cargos de eleição popular, “selamos o nascimento do terceiro ciclo histórico da Revolução Socialista Bolivariana, que abrangerá o período 2009-2019”.
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A emenda constitucional aprovada com votação de 55 por cento da população permitirá a Chávez aspirar a outro mandato em 2012, opção que seus seguidores consideram necessária para dar continuidade ao processo de mudanças que lidera desde 1999.
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“Como disse Jorge Eliécer Gaitán, digo eu hoje, compatriota venezuelana, venezuelano que: Sempre adiante, nunca atrás; e o que tem de ser, que seja!!”, expressou Chávez em sua coluna publicada em vários diários de circulação nacional e regional.
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Em relação com o Caracaço, Chávez recordou que foi resultado da política econômica do Fundo Monterio Internacional aplicada pelo então presidente Carlos Andrés Pérez em um contexto internacional adverso para os revolucionários.
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Recordou que a Perestroika marcava o fim da União Soviética e isso constituía um verdadeiro golpe mortal a quase todas as lutas revolucionárias no planeta, enquanto na Nicarágua se desequilibrava o governo Sandinista assediado pelos Estados Unidos.
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E em nossa América Latina, com a exceção honrosa da Cuba revolucionária e socialista, -disse- todos os governos caíam ajoelhados diante do chamado “consenso de Washington” e suas políticas colonialistas neoliberais.
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Neste contexto, Chávez considerou O Caracaço “um processo que estaria destinado a se converter em vanguarda de uma verdadeira mudança de época que hoje, vinte anos depois, percorre com intensidade crescente toda a terra Latinoamericana”.
Fonte:O Velho Comunista.
CHILE - Ex-neoliberais querem que Chile estatize empresas.
O partido Democracia Cristã (DC), que faz parte da aliança governamental Concertación, apresentará nesta segunda-feira (2) ao Executivo do Chile um "plano contra a crise econômica mundial", que permite a intervenção do Estado em empresas que estão em situação de falência.
Os membros do DC, entre eles o pré-candidato à presidência Eduardo Frei, defendem que para enfrentar a crise financeira é preciso evitar o aumento do desemprego no país.
O projeto baseia-se na criação de um fundo de recursos fiscais que visa injetar capital nas empresas, em troca de uma intervenção governamental, segundo publicou o jornal local El Mercurio.
O plano cria um mecanismo que permite a recompra destes capitais por parte dos donos originais, de modo que a participação do Estado ocorra somente por um período de tempo limitado.
Caso os donos originais dos capitais não queiram comprar novamente suas participações, o governo as colocaria a venda.
Segundo o senador Jorge Pizarro, "é necessário agir com diligência e visão ampla para defender os chilenos da crise financeira internacional".
O parlamentar explicou também que este plano incluirá uma proposta para diminuir em um ponto por ano o Imposto sobre o Valor Agregado (IVA).
O partido da Democracia Cristã foi uma ferrenho defensor do neoliberalismo nos anos 1980/1990, durante a ditadura Pinochet. Seus principais dirigentes são proprietários de cadeias latinoamericanas de lojas, empresas de exploração e comercialização de cobre e financeiras.
Fonte:Site O Vermelho.
Os membros do DC, entre eles o pré-candidato à presidência Eduardo Frei, defendem que para enfrentar a crise financeira é preciso evitar o aumento do desemprego no país.
O projeto baseia-se na criação de um fundo de recursos fiscais que visa injetar capital nas empresas, em troca de uma intervenção governamental, segundo publicou o jornal local El Mercurio.
O plano cria um mecanismo que permite a recompra destes capitais por parte dos donos originais, de modo que a participação do Estado ocorra somente por um período de tempo limitado.
Caso os donos originais dos capitais não queiram comprar novamente suas participações, o governo as colocaria a venda.
Segundo o senador Jorge Pizarro, "é necessário agir com diligência e visão ampla para defender os chilenos da crise financeira internacional".
O parlamentar explicou também que este plano incluirá uma proposta para diminuir em um ponto por ano o Imposto sobre o Valor Agregado (IVA).
O partido da Democracia Cristã foi uma ferrenho defensor do neoliberalismo nos anos 1980/1990, durante a ditadura Pinochet. Seus principais dirigentes são proprietários de cadeias latinoamericanas de lojas, empresas de exploração e comercialização de cobre e financeiras.
Fonte:Site O Vermelho.
JAPÃO - Crise leva crianças brasileiras a deixar escola.
Ewerthon Tobace
De Tóquio para a BBC Brasil
Educação das crianças brasileiras está sendo afetada pela situação financeira dos pais
A crise econômica no Japão, além de deixar vários imigrantes brasileiros sem emprego, tem tirado as crianças das salas de aula.
Segundo levantamento da Associação das Escolas Brasileiras no Japão (AEBJ), pelo menos 1.300 estudantes dos 10 mil que estavam matriculados nas cerca de 90 instituições de ensino brasileiras não estão indo à escola.
"Muitos voltaram para o Brasil e uma pequena parcela foi para as escolas japonesas, mas ainda há um grande número de crianças que está em casa, com os pais, esperando para ver qual será a decisão da família", conta Julieta Yoshimura, presidente da AEBJ.
O governo japonês se mostrou preocupado com a situação da educação dos estrangeiros e prometeu ajuda por meio de um comitê. Criado no começo do ano, o grupo tem a missão de buscar soluções para os problemas dos imigrantes, entre eles brasileiros, gerados a partir da crise.
Uma das medidas do Ministério da Educação, divulgada pela imprensa japonesa nesta segunda-feira, é pedir aos governos das províncias urgência no reconhecimento das escolas brasileiras.
Hoje, das cerca de 90 existentes, apenas cinco são reconhecidas pelos governos locais como instituições de ensino. As demais são tratadas como um comércio, não tendo assim benefícios escolares, como isenção ou abatimento de impostos, direito a passe escolar e a doação de empresas.
"No começo do ano nos reunimos com representantes do governo e pedimos justamente o auxílio às escolas brasileiras e a flexibilização no ingresso dos alunos brasileiros no sistema japonês de ensino", contou Patrícia Côrtes, diplomata responsável pelo setor de Comunidade da Embaixada do Brasil em Tóquio.
Segundo a Kyodo News, fontes do Ministério da Educação disseram que o ministro Ryu Shionoya vai pedir que as províncias eliminem alguns critérios de reconhecimento destas escolas. Nesta segunda-feira, ele se encontrou com a comunidade brasileira da cidade de Hamamatsu e ouviu os pedidos dos dekasseguis.
Entre as sugestões de Shionoya estão a eliminação de algumas cláusulas, como a necessidade de ter um prédio próprio e também uma reserva financeira.
Medida sem efeito
Julieta Yoshimura, presidente da AEBJ
Presidented da AEBJ diz que situação das famílias é crítica
No entanto, para a presidente da AEBJ, a medida do governo não vai resolver o problema. "Na verdade, não vai fazer nem diferença nesse momento de crise, pois a ajuda que as escolas teriam caso fossem reconhecidas é pouca", diz Julieta.
"O problema é que os pais, sem emprego, não têm dinheiro para pagar a mensalidade e, mesmo que as escolas ofereçam bolsas de estudo, as crianças não têm condições de frequentar a sala de aula, pois há o custo do transporte e da alimentação", detalha a educadora.
"A atual situação é tão crítica que a família prefere ficar dentro de casa para não ter gasto nenhum", completou.
Evasão escolar
Edilson Kinjo, da Associação Amigos do Brasil, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com a questão da educação, fez um levantamento nas escolas brasileiras da província de Gifu entre novembro de 2008 e janeiro deste ano.
"Dos que estão fora do sistema educacional, 35% estão na faixa dos 12 aos 17 anos", afirma. "Com o agravamento da crise, mais crianças devem abandonar os estudos", prevê.
Hoje, segundo o relatório da AEBJ, as escolas brasileiras amargam uma queda média de 50% no número de alunos.
Mauricio Yamashita, diretor do Colégio Dom Bosco, de Komaki, província de Aichi, diz que neste ano letivo cerca de 85 alunos não renovaram a matrícula.
"Para continuar com a escola tivemos de reduzir os gastos, cortamos professores e atividades extra-curriculares", conta o diretor, que agora também exerce a função de motorista e faz o transporte escolar.
Josélia Longatto, diretora da Escola Comunitária Paulo Freire, implantou a mensalidade de acordo com a renda familiar para evitar a evasão escolar.
"Se a renda é zero, a mensalidade é gratuita", exemplifica a diretora, que também dá aulas e ajuda na limpeza da escola, localizada em Toyota, onde moram 3 mil brasileiros.
"Os professores ainda aceitaram um corte no salário, mas tudo isso pensando nessas crianças", diz.
De Tóquio para a BBC Brasil
Educação das crianças brasileiras está sendo afetada pela situação financeira dos pais
A crise econômica no Japão, além de deixar vários imigrantes brasileiros sem emprego, tem tirado as crianças das salas de aula.
Segundo levantamento da Associação das Escolas Brasileiras no Japão (AEBJ), pelo menos 1.300 estudantes dos 10 mil que estavam matriculados nas cerca de 90 instituições de ensino brasileiras não estão indo à escola.
"Muitos voltaram para o Brasil e uma pequena parcela foi para as escolas japonesas, mas ainda há um grande número de crianças que está em casa, com os pais, esperando para ver qual será a decisão da família", conta Julieta Yoshimura, presidente da AEBJ.
O governo japonês se mostrou preocupado com a situação da educação dos estrangeiros e prometeu ajuda por meio de um comitê. Criado no começo do ano, o grupo tem a missão de buscar soluções para os problemas dos imigrantes, entre eles brasileiros, gerados a partir da crise.
Uma das medidas do Ministério da Educação, divulgada pela imprensa japonesa nesta segunda-feira, é pedir aos governos das províncias urgência no reconhecimento das escolas brasileiras.
Hoje, das cerca de 90 existentes, apenas cinco são reconhecidas pelos governos locais como instituições de ensino. As demais são tratadas como um comércio, não tendo assim benefícios escolares, como isenção ou abatimento de impostos, direito a passe escolar e a doação de empresas.
"No começo do ano nos reunimos com representantes do governo e pedimos justamente o auxílio às escolas brasileiras e a flexibilização no ingresso dos alunos brasileiros no sistema japonês de ensino", contou Patrícia Côrtes, diplomata responsável pelo setor de Comunidade da Embaixada do Brasil em Tóquio.
Segundo a Kyodo News, fontes do Ministério da Educação disseram que o ministro Ryu Shionoya vai pedir que as províncias eliminem alguns critérios de reconhecimento destas escolas. Nesta segunda-feira, ele se encontrou com a comunidade brasileira da cidade de Hamamatsu e ouviu os pedidos dos dekasseguis.
Entre as sugestões de Shionoya estão a eliminação de algumas cláusulas, como a necessidade de ter um prédio próprio e também uma reserva financeira.
Medida sem efeito
Julieta Yoshimura, presidente da AEBJ
Presidented da AEBJ diz que situação das famílias é crítica
No entanto, para a presidente da AEBJ, a medida do governo não vai resolver o problema. "Na verdade, não vai fazer nem diferença nesse momento de crise, pois a ajuda que as escolas teriam caso fossem reconhecidas é pouca", diz Julieta.
"O problema é que os pais, sem emprego, não têm dinheiro para pagar a mensalidade e, mesmo que as escolas ofereçam bolsas de estudo, as crianças não têm condições de frequentar a sala de aula, pois há o custo do transporte e da alimentação", detalha a educadora.
"A atual situação é tão crítica que a família prefere ficar dentro de casa para não ter gasto nenhum", completou.
Evasão escolar
Edilson Kinjo, da Associação Amigos do Brasil, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com a questão da educação, fez um levantamento nas escolas brasileiras da província de Gifu entre novembro de 2008 e janeiro deste ano.
"Dos que estão fora do sistema educacional, 35% estão na faixa dos 12 aos 17 anos", afirma. "Com o agravamento da crise, mais crianças devem abandonar os estudos", prevê.
Hoje, segundo o relatório da AEBJ, as escolas brasileiras amargam uma queda média de 50% no número de alunos.
Mauricio Yamashita, diretor do Colégio Dom Bosco, de Komaki, província de Aichi, diz que neste ano letivo cerca de 85 alunos não renovaram a matrícula.
"Para continuar com a escola tivemos de reduzir os gastos, cortamos professores e atividades extra-curriculares", conta o diretor, que agora também exerce a função de motorista e faz o transporte escolar.
Josélia Longatto, diretora da Escola Comunitária Paulo Freire, implantou a mensalidade de acordo com a renda familiar para evitar a evasão escolar.
"Se a renda é zero, a mensalidade é gratuita", exemplifica a diretora, que também dá aulas e ajuda na limpeza da escola, localizada em Toyota, onde moram 3 mil brasileiros.
"Os professores ainda aceitaram um corte no salário, mas tudo isso pensando nessas crianças", diz.
domingo, 1 de março de 2009
O NOCAUTE DOS "DEPORTADOS"
Entrevistado em Miami, Lara declarou que ele e Guillermo, após terem sido abandonados por uma empresa alemã, decidiram voltar para Cuba."Nós decidimos retornar, não foi pelo governo brasileiro nem por ninguém, já que as coisas deram errado, nós decidimos voltar".
Gilson Caroni Filho
Quando os boxeadores Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux decidiram por vontade própria voltar para casa, após terem abandonado a delegação cubana nos jogos Pan-americanos, em 2007, setores da imprensa e da oposição não titubearam em falar em deportação, ruptura com “nossas melhores tradições diplomáticas" e uso da máquina burocrática do governo federal para atropelar direitos humanos.
Lideranças demo-tucanas compararam o episódio à deportação de Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, para a Alemanha Nazista, onde morreu em campo de concentração. Comparação descabida? E o que importa quando há um teorema a ser demonstrado?
O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) chegou a dizer que"Lula, que durante muitos anos pregou direitos humanos pelas ruas, nos desaponta ao permitir que a máquina policial do seu governo entregue de maneira precipitada esses dois jovens atletas que fugiram e demonstraram que para seu país não queriam voltar".
De nada adiantou o delegado-chefe da PF de Niterói (RJ), Felipe Laterça, afirmar que aos cubanos foi ofertado exílio, mas ele preferiram retornar a Havana. Ou o Ministério da Justiça assegurar que os atletas não apresentaram pedido de refúgio ao Itamaraty. A versão que deveria prevalecer era a que dava conta de que a Secretaria Nacional de Segurança Pública estava sendo utilizada como “um prolongamento da polícia política de Fidel Castro". Era a que melhor se amoldava ao cenário de um “Estado Policial" tão ao gosto de editorialistas e de alguns membros do Supremo Tribunal Federal.
Ao contrário das regras do boxe, a lógica da oposição compreende golpes abaixo da cintura, na nuca ou com o adversário no chão, mesmo correndo o risco de nocaute quando evidências concretas se apresentam com a força de um “jab ou um “direto” (golpe frontal forte com o punho) desferido pela suposta vítima que ”defendiam com fervor". Foi o que aconteceu nesse domingo.
Entrevistado pelo programa Esporte Espetacular em Miami, Lara declarou que ele e Guillermo, após terem sido abandonados por uma empresa alemã que se dedica a agenciar lutadores, decidiram voltar para Cuba. "Nós decidimos retornar, não foi pelo governo brasileiro nem por ninguém, já que as coisas deram errado, nós decidimos voltar".
Enquanto estava no Brasil, o cubano manteve contato com o presidente Lula: “Ele me tratou bem, me ofereceu tudo que podia fazer. Ele me perguntou se eu queria ficar no Brasil, eu disse que não, que queria voltar para Cuba". Ou seja, Lula ofereceu refúgio ao atleta.
E agora, como é que ficam as vidas paralelas dos “Varões de Plutarco" da República brasileira? O que devem combinar com articulistas, editorialistas e cientistas políticos de plantão? Mantêm a “cara de paisagem" tal como fazem na crise econômica que desacreditou totalmente suas análises ou esboçam uma retratação pública? Um pedido formal de desculpas.
Na dúvida, deixo aos leitores uma pequena mostra do circo de horrores. Alguns dos protagonistas ainda estão zonzos, mas não demora muito e voltam a atuar. Convém guardar a estrutura dos relatos.
"Esse caso( Cesari Battisti) merece um comentário paralelo. Por mais controverso que possa ter sido seu julgamento, por mais dúvidas que possam existir sobre sua participação em todas as mortes de que é acusado, a decisão do ministro brasileiro peca pela origem: como pode o mesmo ministro que entregou para uma das mais cruéis ditaduras do mundo os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que fugiram da concentração durante os jogos do Pan no Rio, alegar que Battisti corre o risco de ser perseguido na democrática Itália?" (Merval Pereira, 27 de janeiro de 2009)
"Condeno a forma intempestiva como foi feita essa repatriação, sem que houvesse por parte da sociedade brasileira a possibilidade de saber se essa era a vontade daqueles indivíduos.” (Aécio Neves, 9 de agosto de 2007)
"Estrangeiros que pedem asilo a uma embaixada brasileira são da alçada do Itamaraty, e os que pedem refúgio dentro do Brasil são do Ministério da Justiça. Mas, convenhamos, não se trata um simples caso de asilo ou refúgio. E os dois acabaram sendo um caso de polícia. Uma polícia que aceitou com muita facilidade a versão do "arrependimento". Rigondeaux e Lara foram despachados ""a pedido", como nas demissões em Brasília, e sem investigação, sem processo, sem julgamento. Nenhuma entidade de direitos humanos foi ouvida. Em sendo muy amigo de Fidel, fica parecendo que o governo do PT cedeu à pressão e entregou os cubanos à própria sorte -ou azar. Se viessem de outra ditadura, "à direita", talvez tivessem sido acolhidos como refugiados. Aos amigos, tudo; aos inimigos.” (Eliane Catanhêde, Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2007)
"A decisão do governo de Cuba de proibir os pugilistas Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara de prosseguir em suas carreiras de atletas e de sair pelo resto de suas vidas do país é a prova mais evidente de que os dois não retornaram à ilha de Fidel Castro por vontade própria". (Dora Kramer, Estado de São Paulo, 25/08/2007)
"Imagino que muita gente ainda se lembre de Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara. Os dois pugilistas cubanos tentaram desertar durante os Jogos Panamericanos do Rio de janeiro em julho de 2007. Pretendiam seguir para a Alemanha, já com promessa de contrato. Entretanto, foram presos pela Polícia Federal e imediatamente deportados. Um avião posto à disposição do governo cubano pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, levou os pugilistas de volta para Cuba." (Lúcia Hippolito, em seu blog, 25/02/2009)
"A Polícia localizou os cubanos, e os prendeu, sem motivos para isso. Manteve os rapazes incomunicáveis, atropelando a Constituição, e chegando inclusive a expulsar o advogado enviado pelos empresários, que teve que ir embora sem sequer poder ver os presos. Depois, em tempo record, providenciou um avião que levasse os pobres coitados para Havana, com escala em Caracas." (Cláudio Humberto, Tribuna da Imprensa, 11/08/2007)
"Com a fuga de Cuba do boxeador Guillermo Rigondeaux, escreveu-se o penúltimo capítulo da uma história iniciada em 2007, quando ele e seu colega Erislandy Lara foram deportados pela polícia do comissário Tarso Genro.O último será escrito quando se souber com quem Fidel Castro falou no dia em que ele soube do desaparecimento da dupla. Que falou com alguém, falou, pois isso foi contado pelo seu chanceler, Felipe Pérez Roque. Nas suas palavras, o Comandante pediu ao seu interlocutor ajuda para "propiciar e organizar" o repatriamento dos fujões. Pode demorar, mas um dia a identidade do amigo de Fidel será conhecida". (Elio Gaspari, Folha de S. Paulo, 01/03/2209)
O boxe, quando bem ensinado, ensina o lutador a ter respeito pelo próximo. Certos sentimentos são extremamente prejudiciais aos praticantes, como medo, raiva e vaidade. Na política e no jornalismo brasileiros tais disposições soam virtuosas. Sem direito a refúgio.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.
Fonte:Agência Carta Maior.
Gilson Caroni Filho
Quando os boxeadores Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux decidiram por vontade própria voltar para casa, após terem abandonado a delegação cubana nos jogos Pan-americanos, em 2007, setores da imprensa e da oposição não titubearam em falar em deportação, ruptura com “nossas melhores tradições diplomáticas" e uso da máquina burocrática do governo federal para atropelar direitos humanos.
Lideranças demo-tucanas compararam o episódio à deportação de Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, para a Alemanha Nazista, onde morreu em campo de concentração. Comparação descabida? E o que importa quando há um teorema a ser demonstrado?
O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) chegou a dizer que"Lula, que durante muitos anos pregou direitos humanos pelas ruas, nos desaponta ao permitir que a máquina policial do seu governo entregue de maneira precipitada esses dois jovens atletas que fugiram e demonstraram que para seu país não queriam voltar".
De nada adiantou o delegado-chefe da PF de Niterói (RJ), Felipe Laterça, afirmar que aos cubanos foi ofertado exílio, mas ele preferiram retornar a Havana. Ou o Ministério da Justiça assegurar que os atletas não apresentaram pedido de refúgio ao Itamaraty. A versão que deveria prevalecer era a que dava conta de que a Secretaria Nacional de Segurança Pública estava sendo utilizada como “um prolongamento da polícia política de Fidel Castro". Era a que melhor se amoldava ao cenário de um “Estado Policial" tão ao gosto de editorialistas e de alguns membros do Supremo Tribunal Federal.
Ao contrário das regras do boxe, a lógica da oposição compreende golpes abaixo da cintura, na nuca ou com o adversário no chão, mesmo correndo o risco de nocaute quando evidências concretas se apresentam com a força de um “jab ou um “direto” (golpe frontal forte com o punho) desferido pela suposta vítima que ”defendiam com fervor". Foi o que aconteceu nesse domingo.
Entrevistado pelo programa Esporte Espetacular em Miami, Lara declarou que ele e Guillermo, após terem sido abandonados por uma empresa alemã que se dedica a agenciar lutadores, decidiram voltar para Cuba. "Nós decidimos retornar, não foi pelo governo brasileiro nem por ninguém, já que as coisas deram errado, nós decidimos voltar".
Enquanto estava no Brasil, o cubano manteve contato com o presidente Lula: “Ele me tratou bem, me ofereceu tudo que podia fazer. Ele me perguntou se eu queria ficar no Brasil, eu disse que não, que queria voltar para Cuba". Ou seja, Lula ofereceu refúgio ao atleta.
E agora, como é que ficam as vidas paralelas dos “Varões de Plutarco" da República brasileira? O que devem combinar com articulistas, editorialistas e cientistas políticos de plantão? Mantêm a “cara de paisagem" tal como fazem na crise econômica que desacreditou totalmente suas análises ou esboçam uma retratação pública? Um pedido formal de desculpas.
Na dúvida, deixo aos leitores uma pequena mostra do circo de horrores. Alguns dos protagonistas ainda estão zonzos, mas não demora muito e voltam a atuar. Convém guardar a estrutura dos relatos.
"Esse caso( Cesari Battisti) merece um comentário paralelo. Por mais controverso que possa ter sido seu julgamento, por mais dúvidas que possam existir sobre sua participação em todas as mortes de que é acusado, a decisão do ministro brasileiro peca pela origem: como pode o mesmo ministro que entregou para uma das mais cruéis ditaduras do mundo os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que fugiram da concentração durante os jogos do Pan no Rio, alegar que Battisti corre o risco de ser perseguido na democrática Itália?" (Merval Pereira, 27 de janeiro de 2009)
"Condeno a forma intempestiva como foi feita essa repatriação, sem que houvesse por parte da sociedade brasileira a possibilidade de saber se essa era a vontade daqueles indivíduos.” (Aécio Neves, 9 de agosto de 2007)
"Estrangeiros que pedem asilo a uma embaixada brasileira são da alçada do Itamaraty, e os que pedem refúgio dentro do Brasil são do Ministério da Justiça. Mas, convenhamos, não se trata um simples caso de asilo ou refúgio. E os dois acabaram sendo um caso de polícia. Uma polícia que aceitou com muita facilidade a versão do "arrependimento". Rigondeaux e Lara foram despachados ""a pedido", como nas demissões em Brasília, e sem investigação, sem processo, sem julgamento. Nenhuma entidade de direitos humanos foi ouvida. Em sendo muy amigo de Fidel, fica parecendo que o governo do PT cedeu à pressão e entregou os cubanos à própria sorte -ou azar. Se viessem de outra ditadura, "à direita", talvez tivessem sido acolhidos como refugiados. Aos amigos, tudo; aos inimigos.” (Eliane Catanhêde, Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2007)
"A decisão do governo de Cuba de proibir os pugilistas Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara de prosseguir em suas carreiras de atletas e de sair pelo resto de suas vidas do país é a prova mais evidente de que os dois não retornaram à ilha de Fidel Castro por vontade própria". (Dora Kramer, Estado de São Paulo, 25/08/2007)
"Imagino que muita gente ainda se lembre de Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara. Os dois pugilistas cubanos tentaram desertar durante os Jogos Panamericanos do Rio de janeiro em julho de 2007. Pretendiam seguir para a Alemanha, já com promessa de contrato. Entretanto, foram presos pela Polícia Federal e imediatamente deportados. Um avião posto à disposição do governo cubano pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, levou os pugilistas de volta para Cuba." (Lúcia Hippolito, em seu blog, 25/02/2009)
"A Polícia localizou os cubanos, e os prendeu, sem motivos para isso. Manteve os rapazes incomunicáveis, atropelando a Constituição, e chegando inclusive a expulsar o advogado enviado pelos empresários, que teve que ir embora sem sequer poder ver os presos. Depois, em tempo record, providenciou um avião que levasse os pobres coitados para Havana, com escala em Caracas." (Cláudio Humberto, Tribuna da Imprensa, 11/08/2007)
"Com a fuga de Cuba do boxeador Guillermo Rigondeaux, escreveu-se o penúltimo capítulo da uma história iniciada em 2007, quando ele e seu colega Erislandy Lara foram deportados pela polícia do comissário Tarso Genro.O último será escrito quando se souber com quem Fidel Castro falou no dia em que ele soube do desaparecimento da dupla. Que falou com alguém, falou, pois isso foi contado pelo seu chanceler, Felipe Pérez Roque. Nas suas palavras, o Comandante pediu ao seu interlocutor ajuda para "propiciar e organizar" o repatriamento dos fujões. Pode demorar, mas um dia a identidade do amigo de Fidel será conhecida". (Elio Gaspari, Folha de S. Paulo, 01/03/2209)
O boxe, quando bem ensinado, ensina o lutador a ter respeito pelo próximo. Certos sentimentos são extremamente prejudiciais aos praticantes, como medo, raiva e vaidade. Na política e no jornalismo brasileiros tais disposições soam virtuosas. Sem direito a refúgio.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.
Fonte:Agência Carta Maior.
ELEIÇÕES 2010 - A imagem dos candidatos segundo os marqueteiros.
Dois dos marqueteiros ouvidos foram responsáveis pelas campanhas, um do Maluf e outro do Alckmin.
Daniela Lima
Com dois nomes de peso na política nacional, o PSDB parecia ser um oponente imbatível na corrida presidencial em 2010. Mas o que deveria contar pontos a favor do partido, engessou as potenciais candidaturas dos governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais. Enquanto os tucanos patinam nas divergências internas, o presidente Lula emplaca a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Cada vez mais exposta na mídia, Dilma largou na frente. Aproveitou a inércia tucana e iniciou a construção de um personagem que se apresenta ao eleitor à imagem e semelhança do presidente. Três dos marqueteiros mais conhecidos do país são unânimes ao admitir que, hoje, a candidata do PT à presidência da República em 2010 já é uma possibilidade para o eleitor. “O PSDB tem uma enorme chance de ganhar, mas está fazendo força para perder. Hoje, para o eleitor, ela (Dilma) já tem cara de possibilidade, e isso é muita coisa”, avalia Carlos Brickmann, homem responsável pela campanha vitoriosa de Paulo Maluf à prefeitura de São Paulo em 1992.
Há cerca de um ano, quando Dilma foi lançada como a opção de Lula à sucessão, poucos acreditaram que ela poderia alçar vôo. Ela era considerada uma mulher séria, eficiente e confiável, mas com pouquíssimas chances de substituir a figura idolatrada do presidente que bateu todos os recordes de popularidade da história do país. Mas a indefinição tucana abriu espaço para a petista. “O PSDB não é obrigado a ter um candidato agora, mas tem que ter uma estratégia”, completa Brickmann. Blindada pelo presidente Lula, Dilma se dedica a tornar-se uma figura conhecida. “Em política os espaços não ficam vazios por muito tempo, e ela está ocupando esses espaços. Acho que o Lula tem força para fazer um candidato passar pelo primeiro turno, mas ganhar é outra coisa”, pondera o publicitário Edson Barbosa, que fez a pré-campanha do presidente em 2006.
E se é preciso mais para ganhar, Dilma tem feito o dever de casa. Aparições públicas, reforços no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), um presente do presidente Lula para a ministra candidata, tudo isso sem deixar de lado a imagem de eficiência que a fez conquistar o respeito no cenário político. “A Dilma é um personagem muito interessante. É uma mulher, o eleitorado é simpático à mulher como gerente, e ela é eficiente. Na hora que o eleitor perceber quem é essa personagem, ela vai virar uma heroína, e vai dar muito trabalho aos adversários”, acredita Lucas Pacheco, marqueteiro responsável por parte da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) à prefeitura de São Paulo.
De dentro para fora - E, enquanto a ministra tenta aparecer para fora, já que conta com a total confiança do homem mais forte de seu partido, Serra e Aécio tentam equilibrar as forças dentro do PSDB. O governador mineiro quer prévias no partido para a escolha do candidato ao Planalto. Serra diz aceitar a consulta interna, mas ainda trabalha para evitar o confronto com Aécio. Serra costura acordos políticos desde que se elegeu governador. Aécio tenta provar que apostar no novo seria bom para os tucanos e que o partido deve discutir projetos políticos e não nomes. Uma tentativa de amenizar a força que José Serra já tem na legenda.
Outro empecilho para os dois candidatos, segundo os marqueteiros, é a gestão da máquina pública. “Eles têm um problema enorme: ainda não podem fazer campanha. Ficam mal com o eleitor. O povo elege um governador e ganha um candidato”, opina Carlos Brickmann.
Mas se ainda é cedo para dar o pontapé oficial na campanha tucana, nos bastidores, as negociações estão muito adiantadas. Serra atua fortemente em seu estado. Fechou um acordo com o PMDB paulista, contando com o apoio de Orestes Quércia. Além disso, tem ao seu lado o prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab (DEM). “Ele, com essa postura, sinaliza para o partido que é um homem capaz de agregar. O PMDB paulista (Quércia) ajuda o Serra aqui, assim como a proximidade do governador Sérgio Cabral com o governo federal ajuda a Dilma no Rio”, compara Lucas Pacheco. Outra estratégia dos pré-candidatos tucanos é apostar na propaganda de uma gestão de sucesso em seus respectivos estados. Hoje o governo de São Paulo veicula nacionalmente a campanha da Companhia de Saneamento Básico (Sabesp), mostrando ao país como a gerência tucana está investindo da despoluição do rio Tietê. A mensagem é simples: a preocupação ambiental é uma marca que rende votos. “Hoje, todos os atos dos pré-candidatos são extremamente ensaiados. Nada é ao acaso. O Serra está se mexendo muito em São Paulo. A idéia dele é passar o rolo compressor no estado”, indica Pacheco.
Aécio parece apostar no discurso da jovialidade, renovação. Em duas palavras: gestão moderna. Para isso, conta com sua capacidade de convencimento e carisma. Quer ter oportunidade de debater seu projeto político. “Os dois são completamente diferentes: o Aécio é um admirador dos prazeres da vida, já o Serra adora sanduíche de pão integral, com uma fatia de queijo ligth e alface”, compara, com humor, Carlos Brickmann.Mesmo com vários personagens em cena, o fato é que o palco das próximas eleições presidenciais ainda não está totalmente montado. “O astral da eleição ainda está longe de se desenhar. É um mosaico bastante complicado. Temos de um lado o presidente dos programas sociais fortíssimo e, do outro, ninguém. Vejo que o que os partidos estão tentando é cravar as suas referências maiores, e acredito que isso se estenda por todo o ano”, aposta Edson Barbosa.
A imagem dos candidatos, segundo os marqueteiros
Dilma Rousseff
- Conta com o apoio incondicional do presidente Lula
- Será apresentada como personagem heróico para o eleitor, por conta de seu histórico de resistência à ditadura
- Será a candidata da continuidade do governo do “maior presidente que o país já teve”
José Serra
- Já possui uma imagem consolidada para o eleitor, o que pode ser um obstáculo: eficiente, porém frio, sem apelo popular
- Conta com o apoio do PMDB de São Paulo e vai usar sua gestão no estado para alavancar a campanha
- Conta com mais apoio dentro do partido do que Aécio Neves
Aécio Neves
- Aposta na jovialidade e no discurso de uma gestão moderna
- Tenta amenizar o peso do nome de José Serra no partido, chamando atenção tucana para o que seria um projeto político novo
- Mantém boas relações com o governo federal, inclusive com o presidente Lula e a ministra Dilma.
- Pode trabalhar junto ao PMDB para desestabilizar a campanha de Serra. Já foi, inclusive, convidado a mudar de partido.
Fonte: Congresso em Foco.
Daniela Lima
Com dois nomes de peso na política nacional, o PSDB parecia ser um oponente imbatível na corrida presidencial em 2010. Mas o que deveria contar pontos a favor do partido, engessou as potenciais candidaturas dos governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais. Enquanto os tucanos patinam nas divergências internas, o presidente Lula emplaca a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Cada vez mais exposta na mídia, Dilma largou na frente. Aproveitou a inércia tucana e iniciou a construção de um personagem que se apresenta ao eleitor à imagem e semelhança do presidente. Três dos marqueteiros mais conhecidos do país são unânimes ao admitir que, hoje, a candidata do PT à presidência da República em 2010 já é uma possibilidade para o eleitor. “O PSDB tem uma enorme chance de ganhar, mas está fazendo força para perder. Hoje, para o eleitor, ela (Dilma) já tem cara de possibilidade, e isso é muita coisa”, avalia Carlos Brickmann, homem responsável pela campanha vitoriosa de Paulo Maluf à prefeitura de São Paulo em 1992.
Há cerca de um ano, quando Dilma foi lançada como a opção de Lula à sucessão, poucos acreditaram que ela poderia alçar vôo. Ela era considerada uma mulher séria, eficiente e confiável, mas com pouquíssimas chances de substituir a figura idolatrada do presidente que bateu todos os recordes de popularidade da história do país. Mas a indefinição tucana abriu espaço para a petista. “O PSDB não é obrigado a ter um candidato agora, mas tem que ter uma estratégia”, completa Brickmann. Blindada pelo presidente Lula, Dilma se dedica a tornar-se uma figura conhecida. “Em política os espaços não ficam vazios por muito tempo, e ela está ocupando esses espaços. Acho que o Lula tem força para fazer um candidato passar pelo primeiro turno, mas ganhar é outra coisa”, pondera o publicitário Edson Barbosa, que fez a pré-campanha do presidente em 2006.
E se é preciso mais para ganhar, Dilma tem feito o dever de casa. Aparições públicas, reforços no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), um presente do presidente Lula para a ministra candidata, tudo isso sem deixar de lado a imagem de eficiência que a fez conquistar o respeito no cenário político. “A Dilma é um personagem muito interessante. É uma mulher, o eleitorado é simpático à mulher como gerente, e ela é eficiente. Na hora que o eleitor perceber quem é essa personagem, ela vai virar uma heroína, e vai dar muito trabalho aos adversários”, acredita Lucas Pacheco, marqueteiro responsável por parte da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) à prefeitura de São Paulo.
De dentro para fora - E, enquanto a ministra tenta aparecer para fora, já que conta com a total confiança do homem mais forte de seu partido, Serra e Aécio tentam equilibrar as forças dentro do PSDB. O governador mineiro quer prévias no partido para a escolha do candidato ao Planalto. Serra diz aceitar a consulta interna, mas ainda trabalha para evitar o confronto com Aécio. Serra costura acordos políticos desde que se elegeu governador. Aécio tenta provar que apostar no novo seria bom para os tucanos e que o partido deve discutir projetos políticos e não nomes. Uma tentativa de amenizar a força que José Serra já tem na legenda.
Outro empecilho para os dois candidatos, segundo os marqueteiros, é a gestão da máquina pública. “Eles têm um problema enorme: ainda não podem fazer campanha. Ficam mal com o eleitor. O povo elege um governador e ganha um candidato”, opina Carlos Brickmann.
Mas se ainda é cedo para dar o pontapé oficial na campanha tucana, nos bastidores, as negociações estão muito adiantadas. Serra atua fortemente em seu estado. Fechou um acordo com o PMDB paulista, contando com o apoio de Orestes Quércia. Além disso, tem ao seu lado o prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab (DEM). “Ele, com essa postura, sinaliza para o partido que é um homem capaz de agregar. O PMDB paulista (Quércia) ajuda o Serra aqui, assim como a proximidade do governador Sérgio Cabral com o governo federal ajuda a Dilma no Rio”, compara Lucas Pacheco. Outra estratégia dos pré-candidatos tucanos é apostar na propaganda de uma gestão de sucesso em seus respectivos estados. Hoje o governo de São Paulo veicula nacionalmente a campanha da Companhia de Saneamento Básico (Sabesp), mostrando ao país como a gerência tucana está investindo da despoluição do rio Tietê. A mensagem é simples: a preocupação ambiental é uma marca que rende votos. “Hoje, todos os atos dos pré-candidatos são extremamente ensaiados. Nada é ao acaso. O Serra está se mexendo muito em São Paulo. A idéia dele é passar o rolo compressor no estado”, indica Pacheco.
Aécio parece apostar no discurso da jovialidade, renovação. Em duas palavras: gestão moderna. Para isso, conta com sua capacidade de convencimento e carisma. Quer ter oportunidade de debater seu projeto político. “Os dois são completamente diferentes: o Aécio é um admirador dos prazeres da vida, já o Serra adora sanduíche de pão integral, com uma fatia de queijo ligth e alface”, compara, com humor, Carlos Brickmann.Mesmo com vários personagens em cena, o fato é que o palco das próximas eleições presidenciais ainda não está totalmente montado. “O astral da eleição ainda está longe de se desenhar. É um mosaico bastante complicado. Temos de um lado o presidente dos programas sociais fortíssimo e, do outro, ninguém. Vejo que o que os partidos estão tentando é cravar as suas referências maiores, e acredito que isso se estenda por todo o ano”, aposta Edson Barbosa.
A imagem dos candidatos, segundo os marqueteiros
Dilma Rousseff
- Conta com o apoio incondicional do presidente Lula
- Será apresentada como personagem heróico para o eleitor, por conta de seu histórico de resistência à ditadura
- Será a candidata da continuidade do governo do “maior presidente que o país já teve”
José Serra
- Já possui uma imagem consolidada para o eleitor, o que pode ser um obstáculo: eficiente, porém frio, sem apelo popular
- Conta com o apoio do PMDB de São Paulo e vai usar sua gestão no estado para alavancar a campanha
- Conta com mais apoio dentro do partido do que Aécio Neves
Aécio Neves
- Aposta na jovialidade e no discurso de uma gestão moderna
- Tenta amenizar o peso do nome de José Serra no partido, chamando atenção tucana para o que seria um projeto político novo
- Mantém boas relações com o governo federal, inclusive com o presidente Lula e a ministra Dilma.
- Pode trabalhar junto ao PMDB para desestabilizar a campanha de Serra. Já foi, inclusive, convidado a mudar de partido.
Fonte: Congresso em Foco.
CIA - Argentina rechaçou declarações da CIA sobre economia do país.
Adital.
A Argentina rechaçou declarações da Agência Central de Inteligência (CIA) sobre a economia do país e convidou para hoje o embaixador estadunidense nesta capital para pedir-lhe esclarecimentos. Por instruções da presidenta Cristina Fernández, foi convocado pela chancelaria para esta sexta-feira o embaixador Earl Wayne para exigir-lhe explicações ante essas lamentáveis declarações do senhor (Leon) Panetta, declarou à imprensa o ministro do Exterior argentino, Jorge Taiana.
Qualificou de inadmissível ingerência em assuntos internos do país a afirmação da CIA e "pior ainda por vir de uma agência que tem uma triste história de ingerência", ressaltou.
O chefe da diplomacia argentina considerou as avaliações do diretor da Agência de "irresponsáveis, infundadas e que não mostram nem o respeito nem a maturidade entre os países".
Segundo versões de um jornal local, Panetta afirmou em Washington que Argentina, Venezuela e Equador enfrentam uma dura situação econômica e "poderiam sofrer instabilidade devido à crise internacional".
Taiana anunciou que perguntará nesta sexta-feira a Wayne por que o diretor da CIA fez essas declarações e quais são suas fontes.
A nota é da Prensa Latina.
A Argentina rechaçou declarações da Agência Central de Inteligência (CIA) sobre a economia do país e convidou para hoje o embaixador estadunidense nesta capital para pedir-lhe esclarecimentos. Por instruções da presidenta Cristina Fernández, foi convocado pela chancelaria para esta sexta-feira o embaixador Earl Wayne para exigir-lhe explicações ante essas lamentáveis declarações do senhor (Leon) Panetta, declarou à imprensa o ministro do Exterior argentino, Jorge Taiana.
Qualificou de inadmissível ingerência em assuntos internos do país a afirmação da CIA e "pior ainda por vir de uma agência que tem uma triste história de ingerência", ressaltou.
O chefe da diplomacia argentina considerou as avaliações do diretor da Agência de "irresponsáveis, infundadas e que não mostram nem o respeito nem a maturidade entre os países".
Segundo versões de um jornal local, Panetta afirmou em Washington que Argentina, Venezuela e Equador enfrentam uma dura situação econômica e "poderiam sofrer instabilidade devido à crise internacional".
Taiana anunciou que perguntará nesta sexta-feira a Wayne por que o diretor da CIA fez essas declarações e quais são suas fontes.
A nota é da Prensa Latina.
UMA CIDADE DEGENERADA.
O leitor Guilherme Costa me mandou este texto que serve para nossa reflexão.
Uma cidade degenerada
por Ana Paula Sousa
O arquiteto Paulo Mendes da Rocha ergue e destrói a paisagem urbana
"Os ricos abandonaram a cidade, com medo da liberdade"Fuga
Da janela do escritório de Paulo Mendes da Rocha vê-se o Edifício Copan, desenhado por Oscar Niemeyer. “É linda essa ponta do prédio, não?” É assim, meio ao acaso, que os mais destacados arquitetos brasileiros se encontram em São Paulo. Mendes da Rocha mantém, no centro da cidade, o estúdio amplo, com lâmpadas industriais, onde foram traçados o Museu de Arte Contemporânea da USP, o ginásio do Clube Paulistano (SP), o Estádio Serra Dourada (GO), a cobertura da Praça do Patriarca (SP) e mais incontáveis obras.
Ganhador do Prêmio Pritzker 2006, espécie de Nobel da arquitetura, Paulo Mendes da Rocha, de 79 anos, vive tempos de celebridade. Para tocar os projetos em andamento (um prédio de habitação “social” em Madri, o campus da Universidade de Vigo, também na Espanha, e a recomposição da antiga Santa Casa, no Rio, entre eles), tem sido obrigado a dizer não para convites vários, de entrevistas a júris internacionais. Mas, na segunda-feira 13, passará a noite a autografar os livros Projetos de 1999-2006 e Maquetes de Papel, editados pela CosacNaify. “Acho tão gentil terem feito os livros”, diz, como se pensasse em voz alta, enquanto gira um compasso no papel.
O arquiteto tem o hábito, entre um cigarro e outro, de desenhar círculos enquanto conversa. É também de grandes voltas que se constitui sua fala. Pensador das cidades, inventor dos espaços, ele anda serenamente aflito. Vê um desastre urbano. Mas não desacreditou das saídas.
CartaCapital: O senhor cansou de dar entrevistas?
Paulo Mendes da Rocha: Você fica num dilema. De um lado, acha que tem de falar porque é um prestígio para a arquitetura e uma forma de levá-la ao conhecimento do poder público. Por outro lado, há o pudor de ser abordado. Mas acho, no fundo, que eu devia me obrigar a dizer certas coisas, porque o que nos persegue, dia após dia, é a aflição com a cidade. Essa é uma questão técnica ligada à arquitetura e ao urbanismo. A rigor, devíamos ser mais ouvidos no plano político, nas questões de desenvolvimento das cidades. É uma pena que haja uma tendência de a arquitetura se tornar banal. Isso é decorrência da vertigem mercantilista do nosso tempo. Precisamos cuidar das cidades. Falamos em água, ar, mas o que pode acabar antes somos nós mesmos.
CC: O Pritzker teve algum efeito político ou o senhor se sente pregando no deserto?
PMR: Politicamente, o prêmio significa que o mundo se preocupa com as coisas das quais eu trato. A questão fundamental das cidades é política. São políticas públicas que direcionam as cidades para um destino ou outro. Quando olhamos da janela uma cidade como São Paulo, vemos uma coisa imensa construída. Acharmos que vemos um desastre é uma desmoralização da imagem que temos de nós mesmos. Trânsito, poluição, ostentação de riqueza e falta de esgoto, má distribuição da população pelas construções nos fazem ver que a arquitetura, sem querer, produziu a desmoralização da técnica. Somos um país onde todos são engenheiros, juristas, economistas e médicos. E o resultado é o desastre. A reflexão, portanto, deveria se dar no campo político. Também é perigoso adotar uma visão esnobe, evitando falar de trânsito por ser um lugar-comum. É importante repetir as reflexões sobre o desconforto nas cidades com outra visão, não superficial.
CC: Quais são os lugares-comuns sobre o trânsito, por exemplo?
PMR: É como se tivéssemos inventado uma máquina de produzir veneno e, todo dia, nos empenhássemos em aprimorá-la. A questão dos transportes é fundamental. Não se trata, puramente, de introduzir conforto. Trata-se de ver que, queimar petróleo para transportar uma pessoa de 60 quilos numa lataria de 700 quilos, que não anda, é um erro grave. É repugnante ver a cidade congestionada de carros que não andam. A questão não é fazê-los andar, é ver que isso não tem saída, o transporte individual é uma bobagem.
CC: Então é uma bobagem construir túneis e viadutos?
PMR: Vai se aprimorando a máquina do veneno. E já não importa que o carro não ande, porque você vê todo mundo lá dentro falando no celular, usando o laptop...
CC: Quando vê, já que os vidros estão pretos.
PMR: Sim, quando vê, porque as pessoas estão escondidas. É um pouco a rota do absurdo. Acho até que isso não é assunto pra mim, mas para Borges, Cortázar ou Rabelais. Quando ouço, no rádio, que são 157,8 quilômetros de congestionamento, penso na linguagem de descalabros do Rabelais. O absurdo pode ir a dimensões do desastre. As pessoas fingem que não são antropófagas, mas são. Está todo mundo caçando feras. Desenvolveu-se uma mentalidade extremamente agressiva nas pessoas, que, entretanto, acham que se comportam bem. Ricos ou pobres, parece que está um querendo matar o outro.
CC: O senhor sempre diz que não existe espaço privado, que todo espaço é público. Esse espírito agressivo está ligado à inversão dessa lógica, à tentativa de transformar a cidade em guetos privados?
PMR: Você já viu isso? Será que me repito muito? Por isso fico preocupado em dar entrevistas. Mas, sim, não há espaço privado. A arquitetura constrói espaços para amparar a imprevisibilidade da vida, não para determinar comportamentos. A cidade é o lugar da liberdade. Você não pode constranger as pessoas no espaço público com dificuldades. Caso contrário, elas desenvolvem a consciência de espaço no espaço imaginado dentro de si, num individualismo atroz.
CC: O que são os prédios que oferecem tudo, de piscina de 25 metros a churrasqueira, que vendem uma idéia de exclusividade?
PMR: É o desvio do conceito de urbanismo. Mas, como você vê, a própria piscina será pública, não de um morador só. Vou falar uma coisa indevida. Imagine uma mãe: quando o filho dela vai para a escola, ele é público. A saúde é uma dimensão pública. O conhecimento é uma dimensão essencial da nossa privacidade enquanto público. Mas estou falando de coisas para filósofo. Deixe exemplificar isso na arquitetura. A casa, enquanto coisa, é da cidade, não é de fulano ou beltrano. Ela se transforma conforme quem compra, vende, aluga. Imagine a crônica do Copan. Quanta gente morou numa casa projetada pelo Niemeyer? O resultado do nosso trabalho é eminentemente público. A água que sai da torneira é pública e está sob responsabilidade de gente que não conhecemos. O pilar do prédio é público: se o morador tira a viga, ele cai. Apesar disso, estamos alienando a consciência sobre nosso estado no universo. Por isso, insisto, as decisões sobre as construções, e nesse sentido a arquitetura, são ações políticas.
CC: Os arquitetos também perderam a dimensão do público?
PMR: Tenho a obrigação de dizer que não. Temos de ter confiança no futuro.
CC: Seu colega Jorge Wilheim perguntou, num texto, quantos arquitetos diriam não para um projeto de edifício neoclássico, tão em voga em São Paulo. Quantos diriam?
PMR: Todos diriam não. Mas, conformistas, vão e fazem. Pense no nazismo e no fascismo. Não aderiram todos? O mercado é um horizonte falso e, se ficar no comando do processo, só produzirá asneiras como a dos neoclássicos. Isso é um engodo de quem precisa continuar com o negócio.
CC: A classe média passou a gostar disso de fato ou, simplesmente, não tem mais gosto?
PMR: A classe média alta é a classe mais baixa da população. Ela está tão desesperada que corre atrás de qualquer coisa que se diga. Como ela é totalmente conformista desfrutante, a propaganda diz o que ela deve dizer e ela diz. O método de produzir a decadência para depois corrigir, a idéia do “quanto pior melhor”, é elaborado pela classe dominante. Aí você chega a um limite em que só a guilhotina resolve. Ninguém agüenta meia de seda, renda de florzinha, cabeleira postiça... Eles mesmos se matam. Mas vamos corrigir as palavras. A classe dominante, no Brasil, é a mais pobre. A exigência maior de uma cidade como São Paulo é habitação, transporte e saúde.
CC: Qual a sua opinião sobre o prédio da Daslu?
PMR: Não acho nada, não tenho coragem de achar. É como se você me mandasse provar uma beberragem horrível e me perguntasse o que acho. É como se eu fosse um expert em uísque e você me desse uma garrafa com uma bebida azul e me dissesse que é o novo uísque feito nas Ilhas Fuji. Se me perguntasse se eu queria provar, eu diria: “Deus me livre!”
CC: Esse prédio simboliza o quê?
PMR: Não sei o que dizer, mas tenho a impressão de que é uma espécie de masoquismo. É fazer o mais horrível possível, como a dizer: “Já que estão dizendo que sou horrível, vocês vão ver aonde vou chegar”. É uma espécie de modo de escarnecer e provar que tem razão. Se você quiser falar do ponto de vista da ternura humana, você tem de se preocupar com essa gente. Eles estão se ferrando. Moram longe, precisam de seis vagas de garagem. Os panfletos entregues na rua e os anúncios de imóveis nos jornais de domingo são um descalabro de floresta de eucalipto abatida para fazer papel para imprimir asneira.
CC: E o negócio agora é terraço gourmet, com churrasqueira.
PMR: Se você faz um edifício de 25 andares com uma churrasqueira em cada terraço, a imagem que me ocorre é a do bife que se vende em São Paulo, num cilindro, fumegante e muito cheiroso. O prédio inteiro vira isso, como é o nome? Churrasco grego? É de um ridículo supremo.
CC: A arquitetura se encolheu diante das empreiteiras?
PMR: A questão é que não se inibe. Enquanto há gente construindo churrasqueira na varanda, discutindo esquerda e direita de modo idiota, há também prédios interessantíssimos. O conhecimento humano não precisa ser visto como algo condenado ao desastre, ele pode ser virtuoso. A arquitetura não será eterna, mas também não precisa ser tão efêmera. A transformação da cidade, há pouco tempo horizontal, numa cidade de edifícios, não precisaria ser trágica. A verticalização, a despeito da imagem da floresta de cimento, é uma virtude da técnica, uma racionalização do desejo humano de morar na cidade. Seria uma cidade absurdamente extensiva se 20 milhões morassem em casinhas. A cidade anterior era assim porque não havia 20 milhões.
CC: Como acomodar os que virão?
PMR: O hábitat humano contemporâneo é a cidade, temos a obrigação de enfrentar isso com energia. A fundamental questão contemporânea é o deslocamento. E não é algo particular do Brasil. O mundo colonizador está pagando as dívidas do desastre que produziu nos países colonizados. As capitais têm problemas com os habitantes de antigas colônias. As populações querem se dirigir aos centros de maior florescimento dos recursos que, na maioria dos casos, foram eles mesmos que produziram. Os prédios que vemos desta janela foram construídos pelos baianos, por operários descalços, no tempo em que se carregava concreto com carrinho de mão.
CC: E quem pagou para erguer estes prédios no centro fugiu daqui...
PMR: É a contradição de que te falei. A classe chamada alta produz o próprio desastre. Ela abandonou a cidade e a população pobre ocupou-a. Você abandona uma cidade e funda outra, como Alphaville, porque teme a liberdade. A avenida São Luís, feita de habitações de alto padrão, não durou 15 anos. Mas talvez se alimente a desvalorização para, um dia, criar-se um plano de revitalização, favorecendo, de novo, a especulação. Essa não é uma boa política. Há grandes vazios na cidade. Como revitalizar o centro histórico? Transformando botequim em centro cultural? O botequim era um centro cultural.
CC: O senhor refez o prédio da Pinacoteca e, ao mesmo tempo, tem uma visão pessimista em relação à revitalização do centro a partir da cultura. Por quê?
PMR: Eu não quero dizer que o que se tem feito seja ruim. Mas recuso a idéia do panegírico da cultura sem reconhecer que a cidade, na totalidade, é a suprema manifestação da cultura. A cidade é o lugar da reprodução do conhecimento na fala diária dos homens que precisam conviver. Se você faz o panegírico do edifício especificamente cultural, primeiro você nega que, antes, ali havia cultura. A antiga sede do Banco do Brasil, em São Paulo, é um edifício notável, feito para abrigar um banco. Mas fica lá dentro um auditório péssimo. Eu fico malvisto, porque vão dizer: ‘Como? O centro cultural é uma maravilha’. Mas o centro histórico tem uma beleza que vive sendo negada.
CC: Permanecer neste prédio é uma reação?
PMR: Não, estou aqui espontaneamente. Quando entrei na faculdade, tinha como um dos meus ideais andar por aqui, ver as pessoas que se cumprimentavam tirando o chapéu no Viaduto do Chá. Meu ideal nunca foi comprar uma casinha velha não sei onde e montar meu estúdio como se eu fosse um artista do século XIX.
CC: Como o senhor vem para o escritório?
PMR: A pé ou de táxi. O tráfego tornou-se tão problemático que é melhor um profissional dirigindo o carro do que eu. O automóvel desenvolve 150 quilômetros por hora e anda a 5. Mas as pessoas querem andar de carro. A classe média não quer freqüentar a liberdade.
CC: Sem se dar conta disso.
PMR: Sabe que, sem fundamento lógico, acho que eles têm absoluta consciência e estão desesperados? É o imobilismo do aflito, como o naufrágio do Titanic: a orquestra não parou de tocar. Faz de conta que esta nossa conversa se degenerou, a ponto de podermos dizer o que estamos dizendo. Se você imaginar, por hipótese, uma pessoa que tenha um razoável conhecimento da literatura universal, teria ou não consciência do que estamos falando? Teria. Isso quer dizer que essa classe não lê, ou seja, ela já está degenerada.
CC: Um certo pânico generalizado faz parte dessa degeneração?
PMR: Acho que é essa consciência do próprio desastre que forma estados patológicos como o pânico. São pessoas que já não respeitam o outro, estão num estado de delírio. Você está me deixando muito psicólogo. Depois vê se organiza isso.
CC: Organizo. Como o senhor conversa com os clientes dessa classe que o senhor define como degenerada?
PMR: Existe uma dimensão grande de negação no que fazemos. Enquanto linguagem, a arquitetura é um discurso. Diante do que falamos aqui, temos de admitir que esta mesma pessoa que apontou os erros tem de negá-los. A arquitetura parte muito do que não fazer. Como produzir algo belo sem ser contraditório em relação ao que vejo? E até ao que digo? A cidade é, por excelência, o lugar do discurso do homem, o lugar onde as coisas continuam, como experiência e como vida.
Uma cidade degenerada
por Ana Paula Sousa
O arquiteto Paulo Mendes da Rocha ergue e destrói a paisagem urbana
"Os ricos abandonaram a cidade, com medo da liberdade"Fuga
Da janela do escritório de Paulo Mendes da Rocha vê-se o Edifício Copan, desenhado por Oscar Niemeyer. “É linda essa ponta do prédio, não?” É assim, meio ao acaso, que os mais destacados arquitetos brasileiros se encontram em São Paulo. Mendes da Rocha mantém, no centro da cidade, o estúdio amplo, com lâmpadas industriais, onde foram traçados o Museu de Arte Contemporânea da USP, o ginásio do Clube Paulistano (SP), o Estádio Serra Dourada (GO), a cobertura da Praça do Patriarca (SP) e mais incontáveis obras.
Ganhador do Prêmio Pritzker 2006, espécie de Nobel da arquitetura, Paulo Mendes da Rocha, de 79 anos, vive tempos de celebridade. Para tocar os projetos em andamento (um prédio de habitação “social” em Madri, o campus da Universidade de Vigo, também na Espanha, e a recomposição da antiga Santa Casa, no Rio, entre eles), tem sido obrigado a dizer não para convites vários, de entrevistas a júris internacionais. Mas, na segunda-feira 13, passará a noite a autografar os livros Projetos de 1999-2006 e Maquetes de Papel, editados pela CosacNaify. “Acho tão gentil terem feito os livros”, diz, como se pensasse em voz alta, enquanto gira um compasso no papel.
O arquiteto tem o hábito, entre um cigarro e outro, de desenhar círculos enquanto conversa. É também de grandes voltas que se constitui sua fala. Pensador das cidades, inventor dos espaços, ele anda serenamente aflito. Vê um desastre urbano. Mas não desacreditou das saídas.
CartaCapital: O senhor cansou de dar entrevistas?
Paulo Mendes da Rocha: Você fica num dilema. De um lado, acha que tem de falar porque é um prestígio para a arquitetura e uma forma de levá-la ao conhecimento do poder público. Por outro lado, há o pudor de ser abordado. Mas acho, no fundo, que eu devia me obrigar a dizer certas coisas, porque o que nos persegue, dia após dia, é a aflição com a cidade. Essa é uma questão técnica ligada à arquitetura e ao urbanismo. A rigor, devíamos ser mais ouvidos no plano político, nas questões de desenvolvimento das cidades. É uma pena que haja uma tendência de a arquitetura se tornar banal. Isso é decorrência da vertigem mercantilista do nosso tempo. Precisamos cuidar das cidades. Falamos em água, ar, mas o que pode acabar antes somos nós mesmos.
CC: O Pritzker teve algum efeito político ou o senhor se sente pregando no deserto?
PMR: Politicamente, o prêmio significa que o mundo se preocupa com as coisas das quais eu trato. A questão fundamental das cidades é política. São políticas públicas que direcionam as cidades para um destino ou outro. Quando olhamos da janela uma cidade como São Paulo, vemos uma coisa imensa construída. Acharmos que vemos um desastre é uma desmoralização da imagem que temos de nós mesmos. Trânsito, poluição, ostentação de riqueza e falta de esgoto, má distribuição da população pelas construções nos fazem ver que a arquitetura, sem querer, produziu a desmoralização da técnica. Somos um país onde todos são engenheiros, juristas, economistas e médicos. E o resultado é o desastre. A reflexão, portanto, deveria se dar no campo político. Também é perigoso adotar uma visão esnobe, evitando falar de trânsito por ser um lugar-comum. É importante repetir as reflexões sobre o desconforto nas cidades com outra visão, não superficial.
CC: Quais são os lugares-comuns sobre o trânsito, por exemplo?
PMR: É como se tivéssemos inventado uma máquina de produzir veneno e, todo dia, nos empenhássemos em aprimorá-la. A questão dos transportes é fundamental. Não se trata, puramente, de introduzir conforto. Trata-se de ver que, queimar petróleo para transportar uma pessoa de 60 quilos numa lataria de 700 quilos, que não anda, é um erro grave. É repugnante ver a cidade congestionada de carros que não andam. A questão não é fazê-los andar, é ver que isso não tem saída, o transporte individual é uma bobagem.
CC: Então é uma bobagem construir túneis e viadutos?
PMR: Vai se aprimorando a máquina do veneno. E já não importa que o carro não ande, porque você vê todo mundo lá dentro falando no celular, usando o laptop...
CC: Quando vê, já que os vidros estão pretos.
PMR: Sim, quando vê, porque as pessoas estão escondidas. É um pouco a rota do absurdo. Acho até que isso não é assunto pra mim, mas para Borges, Cortázar ou Rabelais. Quando ouço, no rádio, que são 157,8 quilômetros de congestionamento, penso na linguagem de descalabros do Rabelais. O absurdo pode ir a dimensões do desastre. As pessoas fingem que não são antropófagas, mas são. Está todo mundo caçando feras. Desenvolveu-se uma mentalidade extremamente agressiva nas pessoas, que, entretanto, acham que se comportam bem. Ricos ou pobres, parece que está um querendo matar o outro.
CC: O senhor sempre diz que não existe espaço privado, que todo espaço é público. Esse espírito agressivo está ligado à inversão dessa lógica, à tentativa de transformar a cidade em guetos privados?
PMR: Você já viu isso? Será que me repito muito? Por isso fico preocupado em dar entrevistas. Mas, sim, não há espaço privado. A arquitetura constrói espaços para amparar a imprevisibilidade da vida, não para determinar comportamentos. A cidade é o lugar da liberdade. Você não pode constranger as pessoas no espaço público com dificuldades. Caso contrário, elas desenvolvem a consciência de espaço no espaço imaginado dentro de si, num individualismo atroz.
CC: O que são os prédios que oferecem tudo, de piscina de 25 metros a churrasqueira, que vendem uma idéia de exclusividade?
PMR: É o desvio do conceito de urbanismo. Mas, como você vê, a própria piscina será pública, não de um morador só. Vou falar uma coisa indevida. Imagine uma mãe: quando o filho dela vai para a escola, ele é público. A saúde é uma dimensão pública. O conhecimento é uma dimensão essencial da nossa privacidade enquanto público. Mas estou falando de coisas para filósofo. Deixe exemplificar isso na arquitetura. A casa, enquanto coisa, é da cidade, não é de fulano ou beltrano. Ela se transforma conforme quem compra, vende, aluga. Imagine a crônica do Copan. Quanta gente morou numa casa projetada pelo Niemeyer? O resultado do nosso trabalho é eminentemente público. A água que sai da torneira é pública e está sob responsabilidade de gente que não conhecemos. O pilar do prédio é público: se o morador tira a viga, ele cai. Apesar disso, estamos alienando a consciência sobre nosso estado no universo. Por isso, insisto, as decisões sobre as construções, e nesse sentido a arquitetura, são ações políticas.
CC: Os arquitetos também perderam a dimensão do público?
PMR: Tenho a obrigação de dizer que não. Temos de ter confiança no futuro.
CC: Seu colega Jorge Wilheim perguntou, num texto, quantos arquitetos diriam não para um projeto de edifício neoclássico, tão em voga em São Paulo. Quantos diriam?
PMR: Todos diriam não. Mas, conformistas, vão e fazem. Pense no nazismo e no fascismo. Não aderiram todos? O mercado é um horizonte falso e, se ficar no comando do processo, só produzirá asneiras como a dos neoclássicos. Isso é um engodo de quem precisa continuar com o negócio.
CC: A classe média passou a gostar disso de fato ou, simplesmente, não tem mais gosto?
PMR: A classe média alta é a classe mais baixa da população. Ela está tão desesperada que corre atrás de qualquer coisa que se diga. Como ela é totalmente conformista desfrutante, a propaganda diz o que ela deve dizer e ela diz. O método de produzir a decadência para depois corrigir, a idéia do “quanto pior melhor”, é elaborado pela classe dominante. Aí você chega a um limite em que só a guilhotina resolve. Ninguém agüenta meia de seda, renda de florzinha, cabeleira postiça... Eles mesmos se matam. Mas vamos corrigir as palavras. A classe dominante, no Brasil, é a mais pobre. A exigência maior de uma cidade como São Paulo é habitação, transporte e saúde.
CC: Qual a sua opinião sobre o prédio da Daslu?
PMR: Não acho nada, não tenho coragem de achar. É como se você me mandasse provar uma beberragem horrível e me perguntasse o que acho. É como se eu fosse um expert em uísque e você me desse uma garrafa com uma bebida azul e me dissesse que é o novo uísque feito nas Ilhas Fuji. Se me perguntasse se eu queria provar, eu diria: “Deus me livre!”
CC: Esse prédio simboliza o quê?
PMR: Não sei o que dizer, mas tenho a impressão de que é uma espécie de masoquismo. É fazer o mais horrível possível, como a dizer: “Já que estão dizendo que sou horrível, vocês vão ver aonde vou chegar”. É uma espécie de modo de escarnecer e provar que tem razão. Se você quiser falar do ponto de vista da ternura humana, você tem de se preocupar com essa gente. Eles estão se ferrando. Moram longe, precisam de seis vagas de garagem. Os panfletos entregues na rua e os anúncios de imóveis nos jornais de domingo são um descalabro de floresta de eucalipto abatida para fazer papel para imprimir asneira.
CC: E o negócio agora é terraço gourmet, com churrasqueira.
PMR: Se você faz um edifício de 25 andares com uma churrasqueira em cada terraço, a imagem que me ocorre é a do bife que se vende em São Paulo, num cilindro, fumegante e muito cheiroso. O prédio inteiro vira isso, como é o nome? Churrasco grego? É de um ridículo supremo.
CC: A arquitetura se encolheu diante das empreiteiras?
PMR: A questão é que não se inibe. Enquanto há gente construindo churrasqueira na varanda, discutindo esquerda e direita de modo idiota, há também prédios interessantíssimos. O conhecimento humano não precisa ser visto como algo condenado ao desastre, ele pode ser virtuoso. A arquitetura não será eterna, mas também não precisa ser tão efêmera. A transformação da cidade, há pouco tempo horizontal, numa cidade de edifícios, não precisaria ser trágica. A verticalização, a despeito da imagem da floresta de cimento, é uma virtude da técnica, uma racionalização do desejo humano de morar na cidade. Seria uma cidade absurdamente extensiva se 20 milhões morassem em casinhas. A cidade anterior era assim porque não havia 20 milhões.
CC: Como acomodar os que virão?
PMR: O hábitat humano contemporâneo é a cidade, temos a obrigação de enfrentar isso com energia. A fundamental questão contemporânea é o deslocamento. E não é algo particular do Brasil. O mundo colonizador está pagando as dívidas do desastre que produziu nos países colonizados. As capitais têm problemas com os habitantes de antigas colônias. As populações querem se dirigir aos centros de maior florescimento dos recursos que, na maioria dos casos, foram eles mesmos que produziram. Os prédios que vemos desta janela foram construídos pelos baianos, por operários descalços, no tempo em que se carregava concreto com carrinho de mão.
CC: E quem pagou para erguer estes prédios no centro fugiu daqui...
PMR: É a contradição de que te falei. A classe chamada alta produz o próprio desastre. Ela abandonou a cidade e a população pobre ocupou-a. Você abandona uma cidade e funda outra, como Alphaville, porque teme a liberdade. A avenida São Luís, feita de habitações de alto padrão, não durou 15 anos. Mas talvez se alimente a desvalorização para, um dia, criar-se um plano de revitalização, favorecendo, de novo, a especulação. Essa não é uma boa política. Há grandes vazios na cidade. Como revitalizar o centro histórico? Transformando botequim em centro cultural? O botequim era um centro cultural.
CC: O senhor refez o prédio da Pinacoteca e, ao mesmo tempo, tem uma visão pessimista em relação à revitalização do centro a partir da cultura. Por quê?
PMR: Eu não quero dizer que o que se tem feito seja ruim. Mas recuso a idéia do panegírico da cultura sem reconhecer que a cidade, na totalidade, é a suprema manifestação da cultura. A cidade é o lugar da reprodução do conhecimento na fala diária dos homens que precisam conviver. Se você faz o panegírico do edifício especificamente cultural, primeiro você nega que, antes, ali havia cultura. A antiga sede do Banco do Brasil, em São Paulo, é um edifício notável, feito para abrigar um banco. Mas fica lá dentro um auditório péssimo. Eu fico malvisto, porque vão dizer: ‘Como? O centro cultural é uma maravilha’. Mas o centro histórico tem uma beleza que vive sendo negada.
CC: Permanecer neste prédio é uma reação?
PMR: Não, estou aqui espontaneamente. Quando entrei na faculdade, tinha como um dos meus ideais andar por aqui, ver as pessoas que se cumprimentavam tirando o chapéu no Viaduto do Chá. Meu ideal nunca foi comprar uma casinha velha não sei onde e montar meu estúdio como se eu fosse um artista do século XIX.
CC: Como o senhor vem para o escritório?
PMR: A pé ou de táxi. O tráfego tornou-se tão problemático que é melhor um profissional dirigindo o carro do que eu. O automóvel desenvolve 150 quilômetros por hora e anda a 5. Mas as pessoas querem andar de carro. A classe média não quer freqüentar a liberdade.
CC: Sem se dar conta disso.
PMR: Sabe que, sem fundamento lógico, acho que eles têm absoluta consciência e estão desesperados? É o imobilismo do aflito, como o naufrágio do Titanic: a orquestra não parou de tocar. Faz de conta que esta nossa conversa se degenerou, a ponto de podermos dizer o que estamos dizendo. Se você imaginar, por hipótese, uma pessoa que tenha um razoável conhecimento da literatura universal, teria ou não consciência do que estamos falando? Teria. Isso quer dizer que essa classe não lê, ou seja, ela já está degenerada.
CC: Um certo pânico generalizado faz parte dessa degeneração?
PMR: Acho que é essa consciência do próprio desastre que forma estados patológicos como o pânico. São pessoas que já não respeitam o outro, estão num estado de delírio. Você está me deixando muito psicólogo. Depois vê se organiza isso.
CC: Organizo. Como o senhor conversa com os clientes dessa classe que o senhor define como degenerada?
PMR: Existe uma dimensão grande de negação no que fazemos. Enquanto linguagem, a arquitetura é um discurso. Diante do que falamos aqui, temos de admitir que esta mesma pessoa que apontou os erros tem de negá-los. A arquitetura parte muito do que não fazer. Como produzir algo belo sem ser contraditório em relação ao que vejo? E até ao que digo? A cidade é, por excelência, o lugar do discurso do homem, o lugar onde as coisas continuam, como experiência e como vida.
MST - O MST e as invasões no Pontal do Paranapanema em SP.
No Brasil pobre é bandido e rico é vítima.
Alguns lutam para que continue sendo assim.
O ministro Gilmar Mendes é um desses.
As organizações Globo e Bandeirantes são outros que travam esta luta. O MST invadiu fazendas no Pontal do Paranapanema. Mais uma vez falaram em respeito a propriedade privada. Só faltaram explicar para a população que os donos das terras do pontal do Paranapanema somos nós, o povo brasileiro. (A minoria das terras na região estão legalizadas).A maior parte dos fazendeiros NÃO são proprietários. São usurpadores. Como são usupardores ricos a imprensa os apresenta como coitadinhos.Abaixo transcrevo partes de um estudo sobre a região do Pontal do Paranapanema:"Para compreender melhor esta questão, é preciso uma breve retrospectiva histórica da ocupação da região. Grande parte das terras do Pontal do Parana-panema começou a ser grilada desde a segunda metade do século XIX (2), com a formação do grilo fazenda Pirapó-Santo Anastácio, com área de 238 mil alqueires. Até a década de 90, com exceção das lutas de resistência de posseiros e de movimentos sociais isolados, os grileiros não encontraram maiores problemas no processo político de assenhoreamento das terras devolutas do Pontal (3). Não faltaram ações do Estado para tentar impedir esse processo de grilagem. Em 1889, o governo da província de São Paulo julgara imprestável o requerimento de legitimação das terras da Pirapó-Santo Anastácio. Na década de 40, foram criadas três reservas florestais (4). Todavia, tais iniciativas não foram suficientes para evitar a voracidade dos grileiros, que praticamente destruíram a Grande Reserva do Pontal. Essa realidade começou a mudar, de fato, com as ocupações de terras realizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em julho de 1990 o Movimento realizou sua primeira ocupação no Pontal, no município de Teodoro Sampaio, iniciando o processo de territorialização de luta pela terra na região, causando um significativo impacto sócio-territorial.Conforme dados apresentados no quadro 1 (veja na página do estudo), no período 1990-2000, por meio do trabalho de base, milhares de famílias organizadas no MST realizaram centenas de ocupações de terras no Pontal. Essas ocupações pressionaram o Estado para que retomasse as terras devolutas do Pontal".
Veja o texto completo aqui
A grilagem de terra é um dos maiores e mais comuns crimes praticados pela classe mais rica, que lutam para manter a impunidade no nosso país. São milhões de hectares usurpados (o total de terras griladas no Brasil é maior que Santa Catarina, Paraná e Rio grande do Sul JUNTOS). É gente rica e bem relacionada. São tão bem relacionadas que são tratados como proprietários.
Cuidado! Este é um jogo de palavras para impregnar na mente dos brasileiros que eles são vítimas.
Fonte:Blog do Chicão.
Alguns lutam para que continue sendo assim.
O ministro Gilmar Mendes é um desses.
As organizações Globo e Bandeirantes são outros que travam esta luta. O MST invadiu fazendas no Pontal do Paranapanema. Mais uma vez falaram em respeito a propriedade privada. Só faltaram explicar para a população que os donos das terras do pontal do Paranapanema somos nós, o povo brasileiro. (A minoria das terras na região estão legalizadas).A maior parte dos fazendeiros NÃO são proprietários. São usurpadores. Como são usupardores ricos a imprensa os apresenta como coitadinhos.Abaixo transcrevo partes de um estudo sobre a região do Pontal do Paranapanema:"Para compreender melhor esta questão, é preciso uma breve retrospectiva histórica da ocupação da região. Grande parte das terras do Pontal do Parana-panema começou a ser grilada desde a segunda metade do século XIX (2), com a formação do grilo fazenda Pirapó-Santo Anastácio, com área de 238 mil alqueires. Até a década de 90, com exceção das lutas de resistência de posseiros e de movimentos sociais isolados, os grileiros não encontraram maiores problemas no processo político de assenhoreamento das terras devolutas do Pontal (3). Não faltaram ações do Estado para tentar impedir esse processo de grilagem. Em 1889, o governo da província de São Paulo julgara imprestável o requerimento de legitimação das terras da Pirapó-Santo Anastácio. Na década de 40, foram criadas três reservas florestais (4). Todavia, tais iniciativas não foram suficientes para evitar a voracidade dos grileiros, que praticamente destruíram a Grande Reserva do Pontal. Essa realidade começou a mudar, de fato, com as ocupações de terras realizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em julho de 1990 o Movimento realizou sua primeira ocupação no Pontal, no município de Teodoro Sampaio, iniciando o processo de territorialização de luta pela terra na região, causando um significativo impacto sócio-territorial.Conforme dados apresentados no quadro 1 (veja na página do estudo), no período 1990-2000, por meio do trabalho de base, milhares de famílias organizadas no MST realizaram centenas de ocupações de terras no Pontal. Essas ocupações pressionaram o Estado para que retomasse as terras devolutas do Pontal".
Veja o texto completo aqui
A grilagem de terra é um dos maiores e mais comuns crimes praticados pela classe mais rica, que lutam para manter a impunidade no nosso país. São milhões de hectares usurpados (o total de terras griladas no Brasil é maior que Santa Catarina, Paraná e Rio grande do Sul JUNTOS). É gente rica e bem relacionada. São tão bem relacionadas que são tratados como proprietários.
Cuidado! Este é um jogo de palavras para impregnar na mente dos brasileiros que eles são vítimas.
Fonte:Blog do Chicão.
O QUE A MÍDIA NÃO MOSTRA A SOCIEDADE NÃO VÊ
Maria Rosa de Miranda Coutinho
Adital
Temos acompanhado nos últimos dias, através da imprensa, uma antiga discussão sobre as ocupações dos sem-terra em fazendas de gado ou improdutivas muito bem maquiadas.
Como já estamos acostumados a ver, as maiores críticas caem sobre este movimento considerado desde os seus primeiros passos como invasores fora da lei e desordeiros.
É impressionante como a elite brasileira define um movimento legítimo que há mais ou menos quatro décadas reivindica uma ação responsável e comprometida das autoridades governamentais quanto à questão da reforma agrária. Mais impressionante são as narrações pouco verdadeiras e muitas vezes maldosas que partem da mídia em nosso país.
As notícias a respeito de ocupações por parte dos sem terra, cujas instituições sérias dos direitos humanos estão aí para confirmar, tentam convencer a sociedade, tão vítima das injustiças quanto os ocupantes sem terra que se trata, simplesmente, de bandidos arruaceiros.
A mídia convence a Igreja velha descomprometida, as famílias burguesas e até quem deveria ter discernimento e senso de justiça social suficiente como, por exemplo, o presidente do Supremo Tribunal Federal, para não acentuar a punição a essas pessoas que já foram economicamente punidas.
Com exceção de algumas lideranças interesseiras e ilegítimas, do ponto de vista da necessidade da terra, o movimento dos sem terra consegue imprimir sua marca de inconformidade e coragem para pressionar um setor do governo que prometeu reforma agrária e transformação no campo, mas está paralisado.
Na verdade, a Justiça enquanto instituição deveria estar menos preocupada em conceder liberdade à elite corrupta, aos assassinos de Irmã Doroth, defensora dos direitos do pequeno agricultor e de áreas preservadas, e entender, finalmente, que o grande entrave do desenvolvimento social e econômico do país e, consequentemente, da reforma agrária, são os grandes proprietários de terra que circulam inclusive pelo congresso para exercer a função de lobistas e defender seus pastos. Aliás, feliz de quem não tem boi para criar e assim contribuir com o aquecimento global.
Infelizmente, os sem terra e o restante da camada pobre da sociedade estão nas mãos de uma burguesia que não quer perder, não quer fazer parte do processo de mudança social e muito menos consegue entender a transformação política, social e econômica que a maioria deseja.
Portanto, é preciso pensarmos na dignidade do campo e da cidade como projeto político e também pessoal. Para isso é necessário, sobretudo, rediscutirmos o que é direito constitucional, bem como nossos papeis nessa sociedade.
Fonte:ADITAL.
Adital
Temos acompanhado nos últimos dias, através da imprensa, uma antiga discussão sobre as ocupações dos sem-terra em fazendas de gado ou improdutivas muito bem maquiadas.
Como já estamos acostumados a ver, as maiores críticas caem sobre este movimento considerado desde os seus primeiros passos como invasores fora da lei e desordeiros.
É impressionante como a elite brasileira define um movimento legítimo que há mais ou menos quatro décadas reivindica uma ação responsável e comprometida das autoridades governamentais quanto à questão da reforma agrária. Mais impressionante são as narrações pouco verdadeiras e muitas vezes maldosas que partem da mídia em nosso país.
As notícias a respeito de ocupações por parte dos sem terra, cujas instituições sérias dos direitos humanos estão aí para confirmar, tentam convencer a sociedade, tão vítima das injustiças quanto os ocupantes sem terra que se trata, simplesmente, de bandidos arruaceiros.
A mídia convence a Igreja velha descomprometida, as famílias burguesas e até quem deveria ter discernimento e senso de justiça social suficiente como, por exemplo, o presidente do Supremo Tribunal Federal, para não acentuar a punição a essas pessoas que já foram economicamente punidas.
Com exceção de algumas lideranças interesseiras e ilegítimas, do ponto de vista da necessidade da terra, o movimento dos sem terra consegue imprimir sua marca de inconformidade e coragem para pressionar um setor do governo que prometeu reforma agrária e transformação no campo, mas está paralisado.
Na verdade, a Justiça enquanto instituição deveria estar menos preocupada em conceder liberdade à elite corrupta, aos assassinos de Irmã Doroth, defensora dos direitos do pequeno agricultor e de áreas preservadas, e entender, finalmente, que o grande entrave do desenvolvimento social e econômico do país e, consequentemente, da reforma agrária, são os grandes proprietários de terra que circulam inclusive pelo congresso para exercer a função de lobistas e defender seus pastos. Aliás, feliz de quem não tem boi para criar e assim contribuir com o aquecimento global.
Infelizmente, os sem terra e o restante da camada pobre da sociedade estão nas mãos de uma burguesia que não quer perder, não quer fazer parte do processo de mudança social e muito menos consegue entender a transformação política, social e econômica que a maioria deseja.
Portanto, é preciso pensarmos na dignidade do campo e da cidade como projeto político e também pessoal. Para isso é necessário, sobretudo, rediscutirmos o que é direito constitucional, bem como nossos papeis nessa sociedade.
Fonte:ADITAL.
A BARCA DOS INSENSATOS
Mauro Santayana
Volta o presidente do Supremo Tribunal Federal a sair de seus limites constitucionais para atacar o Poder Executivo, no caso do MST. O apoio recebido pelo juiz demonstra a alienação de grande parcela da sociedade brasileira, que parece viver em outra galáxia. O mundo se mobiliza para restaurar o contrato entre a espécie e a natureza, o que significa reexaminar as estruturas sociais e o convívio político. Nos Estados Unidos, o presidente Obama propõe cobrar mais dos ricos para favorecer os pobres. No Brasil, o sistema continua baseado na injustiça.
Os interesses pessoais perturbam a inteligência, quando não a expulsam da mente. Quem examinar a História brasileira das últimas décadas verá que, ao contrário do que dizem, o MST serviu para amortecer a grande crise social contemporânea, ao transformar a revolta latente em esperança. Os que brandem as foices e enxadas estariam com outros instrumentos nas mãos se parcela da Igreja, com o senso histórico da conciliação, não os houvesse encaminhado para a ocupação de terras ociosas ou de titularidade duvidosa.
A propriedade da terra, por mais reduzida que seja, é mais do que promessa de subsistência. Ela é a necessária identidade com o mundo, com o cosmos. Quando o homem deixou de ser nômade, apartou-se dos azares da vida em bandos para situar-se junto a uma fonte e sob uma estrela, a fim de cultivar o solo e sobre ele construir sua posteridade. Ao edificar as cidades, os homens nelas mantiveram o sentimento telúrico de ligação com o universo. Quando a miséria torna intolerável a vida urbana, a memória ancestral lhes acena com o retorno ao campo. Eles não podem ser privados desse forte sentimento de continuidade da vida, que os distingue dos outros seres. O sonho de segurança e de felicidade de cada pai de família, de acordo com o católico radical Chesterton, pode ser resumido na propriedade de three acres and a cow. Ao traduzir a frase para o leitor brasileiro, Gustavo Corção teve o cuidado de aumentar a área, transformando os três acres de Chesterton (1,21 hectare) em três alqueires. O alqueire, em certas regiões brasileiras, corresponde a 4,84 hectares. Para as nossas dimensões, 14,52 hectares é ainda insuficiente minifúndio.
A chegada do capitalismo ao campo agravou a natureza dos conflitos rurais e transformou o pequeno lavrador em operário que maneja máquinas e não sente, nas mãos, a morna suavidade das sementes. No passado, pistoleiros, a soldo dos latifundiários, queimavam ranchos, espancavam os posseiros e chacinavam famílias humildes. Hoje atrevem-se a assassinar sacerdotes e líderes dos trabalhadores, não se contendo nem mesmo diante de religiosas estrangeiras, como Dorothy Stang. Com mais competência agem os grandes empresários do agronegócio. Muitos deles conhecem suas terras pelos mapas e as escrituras e rápidos sobrevoos. Não sujam as mãos com a terra, não conhecem seu gado, como não conhecem os pistoleiros que contratam de empresas terceirizadas para "desinfestar" de posseiros as áreas "adquiridas" mediante fraudes.
Os defensores do latifúndio argumentam com a violência dos "invasores" de terras ociosas, mas não se preocupam com os mortos do outro lado. A diferença é brutal. São milhares de trabalhadores de um lado, e meia dúzia de jagunços do outro. O ministro Gilmar Mendes talvez estivesse lendo Carl Schmitt no dia em que a Polícia Militar do Pará cometeu o massacre de Eldorado dos Carajás.
Os porta-vozes do MST estão corretos em sua advertência, embora lhes fosse melhor evitar o tom ameaçador. Se o Estado não intervier com decisão nas atividades econômicas, o crescente desemprego irá jogar nas ruas e nas estradas exércitos cada vez mais numerosos e desesperados de trabalhadores. Em lugar de empregar a justiça de classe (a dos ricos) e a violência policial contra os excluídos de seus empregos, de suas casas, de sua dignidade de chefes de família, o Estado terá, isso sim, que desapropriar mais terras ociosas e gastar o que puder para que eles possam ali acomodar suas esperanças. Do contrário, não só podemos esperar por uma jacquerie no campo – muito mais extensa do que a ocorrida na França do século 16, quando centenas de nobres foram empalados na frente de seus castelos – mas, também, pela explosão dos excluídos nas grandes cidades.
A classe média, tão afastada da realidade pela ficção do noticiário, deve pensar nisso.
Fonte:JB
Volta o presidente do Supremo Tribunal Federal a sair de seus limites constitucionais para atacar o Poder Executivo, no caso do MST. O apoio recebido pelo juiz demonstra a alienação de grande parcela da sociedade brasileira, que parece viver em outra galáxia. O mundo se mobiliza para restaurar o contrato entre a espécie e a natureza, o que significa reexaminar as estruturas sociais e o convívio político. Nos Estados Unidos, o presidente Obama propõe cobrar mais dos ricos para favorecer os pobres. No Brasil, o sistema continua baseado na injustiça.
Os interesses pessoais perturbam a inteligência, quando não a expulsam da mente. Quem examinar a História brasileira das últimas décadas verá que, ao contrário do que dizem, o MST serviu para amortecer a grande crise social contemporânea, ao transformar a revolta latente em esperança. Os que brandem as foices e enxadas estariam com outros instrumentos nas mãos se parcela da Igreja, com o senso histórico da conciliação, não os houvesse encaminhado para a ocupação de terras ociosas ou de titularidade duvidosa.
A propriedade da terra, por mais reduzida que seja, é mais do que promessa de subsistência. Ela é a necessária identidade com o mundo, com o cosmos. Quando o homem deixou de ser nômade, apartou-se dos azares da vida em bandos para situar-se junto a uma fonte e sob uma estrela, a fim de cultivar o solo e sobre ele construir sua posteridade. Ao edificar as cidades, os homens nelas mantiveram o sentimento telúrico de ligação com o universo. Quando a miséria torna intolerável a vida urbana, a memória ancestral lhes acena com o retorno ao campo. Eles não podem ser privados desse forte sentimento de continuidade da vida, que os distingue dos outros seres. O sonho de segurança e de felicidade de cada pai de família, de acordo com o católico radical Chesterton, pode ser resumido na propriedade de three acres and a cow. Ao traduzir a frase para o leitor brasileiro, Gustavo Corção teve o cuidado de aumentar a área, transformando os três acres de Chesterton (1,21 hectare) em três alqueires. O alqueire, em certas regiões brasileiras, corresponde a 4,84 hectares. Para as nossas dimensões, 14,52 hectares é ainda insuficiente minifúndio.
A chegada do capitalismo ao campo agravou a natureza dos conflitos rurais e transformou o pequeno lavrador em operário que maneja máquinas e não sente, nas mãos, a morna suavidade das sementes. No passado, pistoleiros, a soldo dos latifundiários, queimavam ranchos, espancavam os posseiros e chacinavam famílias humildes. Hoje atrevem-se a assassinar sacerdotes e líderes dos trabalhadores, não se contendo nem mesmo diante de religiosas estrangeiras, como Dorothy Stang. Com mais competência agem os grandes empresários do agronegócio. Muitos deles conhecem suas terras pelos mapas e as escrituras e rápidos sobrevoos. Não sujam as mãos com a terra, não conhecem seu gado, como não conhecem os pistoleiros que contratam de empresas terceirizadas para "desinfestar" de posseiros as áreas "adquiridas" mediante fraudes.
Os defensores do latifúndio argumentam com a violência dos "invasores" de terras ociosas, mas não se preocupam com os mortos do outro lado. A diferença é brutal. São milhares de trabalhadores de um lado, e meia dúzia de jagunços do outro. O ministro Gilmar Mendes talvez estivesse lendo Carl Schmitt no dia em que a Polícia Militar do Pará cometeu o massacre de Eldorado dos Carajás.
Os porta-vozes do MST estão corretos em sua advertência, embora lhes fosse melhor evitar o tom ameaçador. Se o Estado não intervier com decisão nas atividades econômicas, o crescente desemprego irá jogar nas ruas e nas estradas exércitos cada vez mais numerosos e desesperados de trabalhadores. Em lugar de empregar a justiça de classe (a dos ricos) e a violência policial contra os excluídos de seus empregos, de suas casas, de sua dignidade de chefes de família, o Estado terá, isso sim, que desapropriar mais terras ociosas e gastar o que puder para que eles possam ali acomodar suas esperanças. Do contrário, não só podemos esperar por uma jacquerie no campo – muito mais extensa do que a ocorrida na França do século 16, quando centenas de nobres foram empalados na frente de seus castelos – mas, também, pela explosão dos excluídos nas grandes cidades.
A classe média, tão afastada da realidade pela ficção do noticiário, deve pensar nisso.
Fonte:JB
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