Mercado dá 60% a Flávio Bolsonaro; redes perguntam se é previsão ou narrativa
Áudio da Necton em 10 de setembro antecipou a virada de call; histórico de erros em projeções econômicas e o trade eleitoral de estatais voltam ao debate

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Brasília (DF)
24 de setembro de 2026
Analistas contratados por bancos e gestoras passaram a tratar Flávio Bolsonaro (PL) como favorito na eleição presidencial de 2026, com 60% de chance de vitória contra 40% para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A leitura, tornada pública nesta quinta-feira (24/set), reacendeu nas redes a dúvida sobre se o mercado antecipa o voto ou tenta precificar uma narrativa.
A apresentadora Daniela Lima afirmou no Pulso Político, do UOL, que a mudança de call se tornou “praticamente unânime” entre pesquiseiros e analistas pagos pelo setor. Segundo ela, relatórios, trackings privados e áudios apontam Flávio à frente.
O marco interno citado por Lima ocorreu em 10 de setembro. Richard Back, da Necton Investimentos, enviou a clientes um áudio em que dizia: “A gente está fazendo uma mudança muito importante de call aqui. Flávio Bolsonaro presidente e não mais Lula.” A partir daí, outras casas teriam acompanhado a revisão.
No mesmo 24 de setembro, Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset, considerou “razoáveis” os 60/40 para o senador, com base em agregadores de pesquisas e em plataformas de mercados preditivos, como o Polymarket, proibidas no Brasil. Em painel da Monte Bravo Experience, o gestor disse ao Valor Econômico que uma vitória de Flávio provocaria uma “porrada insana” na bolsa. Excluídas commodities como Petrobras e Vale, estimou potencial de alta de cerca de 30% nesse cenário e de queda de 10% a 12% em caso de reeleição de Lula.
O QUE O MERCADO ESTÁ PRECIFICANDO
A revisão não surgiu isolada. Desde o início de setembro, reportagens do Valor descreveram uma “virada de humor” na Faria Lima: o clima de amplo favoritismo de Lula deu lugar a leituras de disputa 50/50 e, depois, a um viés a favor da oposição. Casas como Ace Capital e Quantitas já trabalhavam com chance relevante para o candidato do PL, associando pesquisas mais apertadas e a crise institucional no STF ao chamado trade eleitoral.
O Inter publicou nesta quinta-feira (24/set) estudo segundo o qual uma vitória vista como de perfil mais “fiscalista” — no consenso de mercado, Flávio contra Lula — poderia levar o dólar abaixo de R$ 5, reduzir a expectativa de IPCA de 2027 em 0,15 ponto e fazer o mercado precificar Selic 0,35 ponto mais baixa nos dois anos seguintes. O banco alerta, porém, que o “benefício da dúvida” só se sustenta se o ajuste fiscal se confirmar.
Estatais concentram parte dessa aposta. Em 2026, Banco do Brasil e Petrobras voltaram a ser citados por corretoras como veículos do trade eleitoral. Em 2022, após o primeiro turno mais apertado do que as pesquisas projetavam, as ações das duas empresas dispararam na sessão seguinte, movimento documentado à época pelo Valor e pelo InfoMoney. O padrão histórico é de volatilidade elevada em papéis sob influência do governo, não de acerto automático sobre o vencedor.
A REAÇÃO NAS REDES
Horas depois da fala de Lima, perfis no X trataram o 60/40 menos como dado estatístico e mais como peça de campanha informal. Um usuário perguntou se o mercado “está prevendo ou tentando criar narrativa”, e afirmou que as previsões do setor teriam errado “cerca de 95% das vezes”. Outros compararam pesquisa de mercado a enquete no Twitter e disseram que, no primeiro turno, o setor “sempre aposta na vitória do candidato neoliberal”.
Há base parcial para o número de 95%, mas ela não mede eleição. Compilação divulgada pelo ICL Notícias, a partir de levantamento do UOL sobre projeções para Selic, dólar, Ibovespa, PIB e IPCA entre 2021 e 2024, apontou taxa de acerto da ordem de 5% nesses indicadores econômicos. O único acerto destacado naquela retrospectiva foi o desempenho da bolsa em 2022. Isso não autoriza transferir o percentual, sem mediação, para apostas presidenciais.
A análise da financeirização da campanha foi feita também na imprensa tradicional. Em coluna na CNN Brasil, Renato Dolci observou que o mercado brasileiro da eleição no Polymarket já acumulava mais de US$ 153 milhões e oscilava perto de 60% para Flávio e 40% para Lula. O preço, escreveu, não é amostra do eleitorado: é cotação de um mercado de previsão acessado, no Brasil, por VPN.
ANTECEDENTES
O humor da Faria Lima sobre 2026 não foi linear. Em junho, colunas registraram executivos tratando Lula como favorito, após desgastes da pré-campanha de Flávio. Em julho, o Valor descreveu obsessão com o registro de candidaturas em 15 de agosto e um cenário-base ainda governista. A virada de setembro coincidiu com pesquisas mais estreitas, com o caso Master no STF e com o rali de ativos domésticos.
Historicamente, o mercado brasileiro reage a eleições com prêmio de risco, e não com oráculo. Estudos de casas como Bradesco e XP sobre ciclos desde 1998 mostram bolsa em média mais fraca entre maio e outubro do ano eleitoral, com recuperação frequente depois do resultado — padrão misturado a choques externos, fiscal e a erros de pesquisas, como em 2014 e no primeiro turno de 2022.
CONSEQUÊNCIAS E DESDOBRAMENTOS
A leitura de 60/40 já circula em relatórios e em mesas de operação. Isso afeta juros futuros, câmbio e a demanda por estatais antes de qualquer urna. Também alimenta o debate político: para parte da oposição, o mercado “reconheceu” uma virada; para parte do governo e de apoiadores, trata-se de terrorismo eleitoral reciclado.
O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Enquanto isso, o Ministério da Fazenda pediu e obteve o bloqueio do perfil brasileiro da Polymarket no Instagram, após acionamento da AGU a pedido do TSE, segundo o UOL. A plataforma segue sendo citada por gestores no exterior.
A análise aponta que três camadas estão sendo misturadas no debate público: probabilidade implícita de mesas privadas, preço de mercados preditivos e intenção de voto medida por instituto. São instrumentos diferentes. Tratar os três como o mesmo fato confunde cotação com eleitor.
FAQ Rápido
O que o mercado passou a projetar?
Segundo Daniela Lima, analistas contratados por bancos e gestoras passaram a trabalhar com 60% de chance para Flávio Bolsonaro e 40% para a reeleição de Lula. Luis Stuhlberger considerou esse recorte razoável.
Por que o fato é relevante?
A mudança de call altera o preço de juros, câmbio e ações de estatais ainda antes do primeiro turno e entra na disputa política como argumento de favoritismo.
O que pode acontecer agora?
Ativos devem seguir oscilando com pesquisas e ruídos institucionais até 4 de outubro. Se o ajuste fiscal esperado pelo mercado não se confirmar depois do pleito, economistas do próprio setor alertam para devolução de ganhos.


