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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

UM POUCO DE HISTÓRIA - Vivendo e aprendendo.




Os mandantes e líderes do crime: James Hankins Warne, um americano ex-Confederado e seu assecla, John Jackson Klink, antigo membro da Klan americana.

O Império brasileiro, nos anos da década de 1870, buscava desesperadamente alternativas para enfrentar a avassaladora crise econômica e a deterioração das contas públicas, ocasionadas pela longa guerra do Paraguai. Foi neste contexto, que o Imperador D. Pedro II julgou adequado abrir as portas do Brasil para ex-soldados Confederados (derrotados na Guerra de Secessão Americana pelos Estados do Norte), com a libertação da escravidão no sul.
Afinal, aqui, aqueles se sentiriam em casa: o trabalho agrícola no Brasil era todo ele tocado pela mão de obra escrava!
E para cá mais de 20 mil ex-soldados, incluindo membros da organização terrorista Klan (antecessora da Ku Klux Klan), posta fora da lei pelo governo, por exercer extrema violência e assassinatos contra a população afro-americana.
O Império brasileiro, na esperança de que “os gringos” trouxessem dólares e melhorassem a produtividade agrícola, deu-lhes todos os tipos de incentivos, inclusive a posse de enormes contingentes de terras para o plantio do café, principalmente no interior de São Paulo e no Paraná.
As propriedades localizadas em Mogi das Cruzes, Mogi Mirim e a atual Itapira, vizinha de Atibaia, com a chegada dos americanos, realmente passaram a produzir maior volume de riquezas, absolutamente concentradas nos proprietários das grandes fazendas de café, movidas por negros escravos.
Itapira, naquele então, chamava-se “Penha do Rio do Peixe”.
Em paralelo, o movimento abolicionista que nascera em fins da década de 1870, ganhava força em todo o Brasil e, com destaque, nos territórios paulistas. De um lado, as associações abolicionistas sensibilizavam a opinião pública por meio da imprensa, por outro, angariavam recursos usados para comprar alforrias, para a defesa judicial e mesmo, para a manutenção de negros fugidos.
A força policial, historicamente usada pelo sistema para reprimir, caçar e matar negros, começou, aqui e ali, a gerar policiais inconformados com o escravagismo.
E este foi o caso do doutor Joaquim Firmino de Araújo Cunha, bacharel em direito, que aos trinta anos de idade, assumira o cargo de Delegado de Polícia da Penha do Rio do Peixe, em 1885.
O doutor Firmino era casado e pai de quatro filhos. Oriundo de Mogi Mirim, cidade com forte movimento abolicionista. O jornal “A Gazeta” publicava os manifestos libertários do “Clube Cosmopolita”, do qual era um dos líderes o doutor Firmino.
Logo, logo, os ideais abolicionistas chegaram também às pequenas cidades da Penha do Rio do Peixe e Amparo.
O delegado Joaquim Firmino, desde sua posse, recusou-se a caçar e prender escravos fugidos. Em janeiro de 1888, ele declarou aos fazendeiros de Penha e de Mogi que a Polícia não era destinada à caça de escravos. Joaquim Firmino resistiu às pressões de todas as partes, afrontando aos poderosos fazendeiros e políticos, conservando-se firme na sua primeira declaração.
Ele próprio acobertava diversas fugas, recolhendo fugitivos para dentro de sua própria casa, quando necessário, enquanto que o padre Agostinho Gomes da Costa, vigário da Penha, encaminhava os fugitivos para o quilombo Jabaquara, na cidade de Santos.
O dia 11 de fevereiro de 1888, três meses antes de promulgação da Lei Áurea, passou para a história como um marco na selvageria racista e na impunidade dos poderosos em nosso Brasil!
Por ordem direta do Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, Presidente da Província de São Paulo (futuro Presidente da República), o cidadão Joaquim Firmino foi exonerado do cargo de Delegado de Polícia, na manhã do dia 11 de fevereiro de 1888, horas antes de sua morte. Com isto, os escravagistas estariam assassinando um cidadão comum e não um Agente do Estado.
Os fazendeiros haviam se organizado para o crime. Para tal, contrataram um bando de jagunços e, a na noite de 11 de fevereiro, eles se puseram à frente de uma coluna de 200 homens armados com espingardas, garruchas, cacetes e cabos de relho. Chegando à Penha do Rio do Peixe, foram até a residência do Delegado.
O grupo se dividiu, cercando a casa pela frente e pelos fundos. Imediatamente, diversos tiros foram dados, deixando as paredes, porta e janelas crivadas de balas, instalando o caos. O grupo que estava posicionado nos fundos da casa forçou o portão e a invadiu, enquanto pela frente, a porta e as janelas eram arrombadas.
Dentro da casa estavam Joaquim, sua esposa e quatro filhos, duas escravas domésticas e dois negros fugitivos, que foram dados como desaparecidos após o assassinato.
A esposa do delegado se escondeu dentro de um forno e não viu a morte do marido, apenas ouviu e reconheceu a voz de alguns agressores. Em depoimento, a filha de 9 anos disse que permaneceu no quarto, não vendo o momento da morte do pai, mas ouvindo as agressões. Disse, ainda, que se ajoelhou aos pés do assassino José Venâncio, pedindo para que não matasse seu pai.
Joaquim Firmino, cercado, tentou empreender fuga pela janela, pulando para a casa vizinha. Não conseguiu, caindo ao solo, sendo cercado e morto a cacetadas, pauladas e chutes.
Após o assassinato de Joaquim Firmino, a canalha, ao estilo da Klan americana, se dirigiu a outros dois locais próximos, onde moravam os abolicionistas Pedro Cândido de Almeida e Bento da Rocha Campos, com o mesmo objetivo, mas encontraram as casas vazias. As três propriedades foram destruídas e incendiadas. O vigário, Padre Agostinho Gomes da Costa, foi o único a não ser molestado.
No “auto do corpo de delito” os mesmos policiais, que tinham sido subordinados ao doutor Firmino, declararam sobre o cadáver do delegado que “na parte de traz do corpo não havia de sinais de luta”. Na da frente, “apenas sinais de equimoses e luxações, talvez provocadas por uma queda”.
Após o assassinato, os fazendeiros contratam o mais famoso advogado do Estado de São Paulo, Dr. Brasílio Machado, pela quantia de 100 contos de réis. Brasílio, que se vangloriava de predizer os resultados dos julgamentos dependendo do juiz do caso, conseguiu fazer com que nenhum dos acusados fosse condenado por falta de provas.
No Museu de Itapira encontramos cópias de dois volumes do vicioso processo, feito para inocentar assassinos!
Em Mogi Mirim, além do sepultamento com presença de grande público e comoção geral, as homenagens ao delegado covardemente assassinado, com a conivência do Presidente Rodrigues Alves, foram muitas.
No dia 18, na Câmara de Penha é lida a noticia da morte de Joaquim Firmino “com pesar” e solicitado ao prefeito que ative o serviço de iluminação pública até o final da madrugada, pois, a população está revoltada e apreensiva “quanto a novas desordens”.
A pessoa que irá substituir o delegado morto é o Major Guilherme Jose do Nascimento, proprietário de cento e oitenta escravos.
A morte de Joaquim Firmino não passou em branco. Toda a imprensa independente noticiou o crime. Noticiou, também, o julgamento. O Dr. Brasílio Machado viu seu nome ser acachapado, denegrido, ridicularizado por ser o defensor de um bando de assassinos e por ter pagado para que o caso terminasse nas mãos de um juiz corrupto.
Mandantes e líderes do crime: James Hankins Warne e seu assecla, John Jackson Klink.
Após a Guerra Civil americana, os dois ex-combatentes do exército Confederado seguiram a onda de emigrantes americanos que se estabeleceram no Império Brasileiro.
Warne, segundo a revista The Economist, era de família moderadamente abastada; após estudar na Filadélfia e cursar medicina em Nashville, se alistou como cirurgião no 39º Regimento da Carolina do Norte em 1962, sendo dispensado no ano seguinte.
Após trabalhar na região de Bragança, Warne mudou-se para a cidade paulista de Atibaia, onde se casou com a sobrinha de um rico fazendeiro. Transferindo-se para a cidade da Penha, o casal herdou a fazenda. James Warne tornou-se um líder dentre os senhores de escravos, após importar um arado de disco, desconhecido no Brasil naqueles aqueles tempos.
Devido a esse prestígio local, Warne convenceu os fazendeiros locais a se vingarem do delegado Joaquim Firmino e dos outros abolicionistas. Na noite do crime, testemunhas afirmaram que Warne e Klink incitavam seus capangas pedindo “rios de sangue” e que James Warne “parecia tomado de fúria louca”.
O assassinato de Joaquim Firmino, diz Ângela Alonso, livre-docente de Sociologia da Universidade de São Paulo, "foi decisivo para acelerar o abandono do escravismo por parte das elites sociais".
"Isso porque apontou a possibilidade da guerra civil, isto é, que a desobediência civil dos abolicionistas (o incentivo à fuga de escravos) poderia ser respondida por milícias privadas a soldo de proprietários de escravos resistentes à abolição. Estas duas mobilizações políticas correriam ao largo do Estado, tirando, assim, das elites políticas a possibilidade de dirigir o processo político em torno da escravidão", diz a autora de “Flores, Votos e Balas: O movimento abolicionista brasileiro (1868-88)”.

Joaquim Firmino, um Mártir da Abolição! Três meses após seu assassinato, é assinada a “Lei Áurea”, que liberta os escravos no Brasil. Liberta?

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

UMA HISTÓRIA INTERESSANTE.

Um professor de História, em uma escola no Rio de Janeiro, foi dar aula sobre nazismo. Ele mostrou para seus alunos a suástica e disse que aquele era o símbolo dos nazistas. Uma aluna levantou a mão e disse que já viu no sítio da sua família um tijolo com aquele mesmo símbolo. Isso despertou a curiosidade no professor, que procurou saber mais sobre o assunto. Aquele tijolo pertencia a uma construção demolida no sítio que era um casebre.
Sidney Aguilar (o professor) não sabia que em sua pesquisa iria descobrir uma história tão bizarra que iria se transformar no documentário chamado "Menino 23".
Esse sítio pertence a família Rocha Miranda, uma das famílias mais importantes da História do Rio de Janeiro de origem escravocrata. Em sua pesquisa, Sidney descobriu que a família Rocha Miranda tinha um integrante que era MEMBRO do partido nazista aqui no Brasil, que era o MAIOR partido nazista fora da Alemanha e que outras pessoas da família eram ligados ao Partido Integralista Brasileiro, que era um "fascismo tupiniquim".
Tá achando bizarro? Calma que vai ficar ainda mais. Em sua pesquisa, Sidney descobriu que a família Rocha Miranda adotou 50 crianças de um orfanato para escraviza-las e todas elas eram NEGRAS. No documentário, um homem conhecido como Seu Aloísio, que foi uma das vítimas, disse que as crianças não eram chamadas por nomes, mas sim por números e o seu era 23.
Os meninos só foram libertados do cárcere quando o governo Vargas rompeu de vez as relações com o Eixo. Daí, os nazistas, assim como o Partido Integralista, foram perseguidos e a família Rocha Miranda perdeu o status que tinha.
Hoje isso parece algo extremamente absurdo, mas para época não era. Segue uma frase de um Deputado Federal chamado Alfredo da Matta em discurso no ano de 1933: "A eugenia, senhor presidente, visa a aplicação de conhecimentos úteis e indispensáveis para reprodução e melhoria da raça."
No tempo que os garotos foram feitos de escravos, o Brasil vivia o ápice da política de superioridade racial e de "branqueamento", impulsionadas pelo darwinismo social. Isso não faz 200 ou 100 anos: isso faz apenas 89 anos. Como que em tão pouco tempo o nosso país deixou de racista? Aos que dizem que o Brasil não é um país racista: será mesmo?
Hoje, o nome da família Rocha Miranda carrega o nome de um importante bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro.
Segundo a pesquisadora Adriana Abreu Magalhães Dias, antropóloga da Unicamp, o Brasil tem mais de 300 células nazistas em funcionamento. Em suas pesquisas especializadas na ascensão da extrema direita, Adriana também identificou mais de 6.500 endereços eletrônicos de organizações nazistas somente em língua portuguesa e dezenas de milhares de neonazistas brasileiros em fóruns internacionais.
obs: esse documentário é INCRÍVEL e foi produzido pela produtora Giros Interativa LTDA com o grande apoio da ANCINE (que hoje corre sério risco de ser extinta no governo Bolsonaro) e está disponível no Youtube.
De Leandro Marin (História no Paint).
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Enviado por: "Carlos R. S. Moreira Beto

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

HISTÓRIA - Ho Chi Minh, foi garçom no Rio de Janeiro.

Ho Chi Minh, o herói anti-imperialista da Guerra do Vietnã, que foi garçom no Rio de Janeiro

por Luiz Müller
Por Hugo Albuquerque* na Revista Jacobin
Ho Chi Minh, revolucionário comunista e um dos principais responsáveis pela libertação do Vietnã do colonialismo francês e imperialismo dos EUA, faleceu neste dia em 1969. Resgatamos aqui sua passagem pela decadente cidade maravilhosa onde fez amizade com um militante sindical antirracista.
Nguyen Ai Quoc (Ho Chi Minh), 1921. Foto do History Today.
Ho Chi Minh, herói revolucionário vietnamita, faleceu em um 02 de setembro como este em 1969, quando a resistência vietnamita já tinha virado o jogo contra a invasão imperialista norte-americana, mas a guerra ainda não havia terminado. Pouco se sabe sobre um detalhe curioso na juventude do militante comunista que se tornaria presidente do Vietnã do Norte: suas andanças pelo mundo como cozinheiro de navio, o que levou inclusive a conhecer o Rio de Janeiro dos anos 1910, com toda sua realidade desigual e, ao mesmo tempo, cheia de esperança e luta – e como isso ajudou a moldar um dos principais revolucionários do século 20.
Quando Ho nasceu em 1890 sob o nome de batismo Nguyen Sinh Cung, o Vietnã simplesmente não existia no mapa-mundi. A região era conhecida como “Indochina”: o curioso e genérico termo ocidental para designar tudo que estava “entre a Índia e a China”, isto é, os atuais Laos, Camboja e Vietnã, à época diretamente colonizados pelos franceses desde 1887. Após séculos de imperialismo nos quais portos foram tomados e, lentamente, por meio de missões religiosas católicas, os colonizadores foram avançando para o interior até que a dominação total pôde ser estabelecida — em tempos nos quais os europeus partilhavam a África e a Ásia de forma obstinada, cruel e racista.

Rio eu gosto de você

Entre sua estadia na França em 1917, quando se une ao movimento socialista local, e sua emigração de sua terra natal em 1911, por motivos de perseguição política do aparato colonial, Ho viveu inúmeras aventuras pelo mundo, uma delas, digna de nota: foi no nosso país, como narra Ariel Seleme, recorrendo a fontes da Universidade de Hanói, que o jovem Nguyen encontrou uma realidade fervilhante, ao ser abandonado no porto do Rio de Janeiro para morrer em terra depois de contrair uma doença misteriosa no navio. 
Em 1912, a escravidão já havia terminado, mas o Brasil testemunha a exclusão quase total da população negra, a ausência de direitos trabalhistas, a decadência silenciosa da República Velha e uma vida intensa. Com seus portos movimentados, o Brasil recebe não apenas a cólera e outras epidemias, mas viajantes e expatriados do mundo inteiro, trazendo novas ideias, cores e sons do país que teima, apesar de sua oligarquia, em se desenvolver. 
Ho passa a trabalhar em um restaurante na Lapa enquanto mora em Santa Tereza e vai ao porto com frequência para tentar encontrar um navio no qual possa embarcar, encontrando o líder sindical pernambucano José Leandro da Silva, um cozinheiro negro que atua no porto e confronta autoridades racistas, que ainda aplicavam castigos da época da escravidão contra trabalhadores negros – havia dois anos que a Revolta da Chibata tinha estourado no mesmo porto do Rio de Janeiro, com marinheiros negros se rebelando contra oficiais brancos que os açoitavam.
A luta de José Leandro foi narrada mais tarde por Ho no artigo “Solidariedade Internacional” que ele escreve em 1921 – 9 anos após ter passado pelo Rio. No artigo, ele conta como José Leandro liderou uma greve no porto com 2 reivindicações: jornada de trabalho de 8 horas e salários iguais entre negros e brancos. Após jogar um policial no mar por não ter deixado ele entrar numa embarcação para agitar os trabalhadores, José Leandro foi cercado por 10 policiais e levou 11 tiros, segundo o artigo de Ho. Na ambulância, mesmo baleado, ele cantou a Internacional comunista. Mais tarde as autoridades policias tentaram incriminar José Leandro por um inocente morto no tiroteio, mas um movimento de solidariedade articulado por trabalhadores e advogados pressionou a corte para absolver o sindicalista. Por fim, José Leandro conquistou a liberdade.
Impressionado pelas belezas naturais do Rio, sua vida boêmia, Ho ficou assustado com cenário de degradação social e efervescência trabalhista, onde uma espécie de capitalismo periférico se cruzava com um passado escravagista bastante recente e o socialismo adentrava aos portos junto com as novidades, inspirando um pujante movimento sindical. Embora inspiradora, a passagem de Ho é curta, ele se recupera e consegue um navio que o conduz a Boston nos Estados Unidos em setembro ou outubro de 1912. A passagem pelo Rio, inclusive, inspirou o documentário ficcional o Rio de Ho Chi Minh. Só depois, Ho finalmente se estabelece em Paris, onde se uniu ao Partido Comunista Francês. Após a Primeira Guerra Mundial, ele segue para a União Soviética e de lá inicia sua trajetória para retornar ao Vietnã e travar a luta anti-imperialista pela independência do país.

Nasce Ho

Atransformação de  Nguyễn Sinh Cung em Ho Chi Minh – “aquele que ilumina” – não ocorreu de repente, nem foi um processo meramente pessoal: ela foi parte da própria transformação do jovem Ho e a luta revolucionária que também libertou o Vietnã moderno. Ho criou o Vietnã, mas o Vietnã criou Ho antes. E se havia algum lado bom de ter nascido em meio ao flagelo colonial, era ter acesso ao mundo pelas rotas de navegação. 
Figura icônica, Ho lutou e venceu os imperialismos de França, Japão e Estados Unidos, deixando as sementes que permitiriam seu povo garantir a autonomia face aos chineses no fim dos anos 1970, quando resistiu e derrotou o regime bárbaro do Camboja, o Khmer Vermelho.
Enquanto os direitos civis da população negra nos Estados Unidos tinham acabado de ser conquistados à base de muita luta, a classe trabalhadora norte-americana se levantava contra o fato de seus filhos serem mandados para matar e morrer do outro lado do mundo – em uma guerra neocolonial que, como toda guerra colonial, serve apenas e tão somente aos poderosos do país imperialista.
Ironicamente, durante a Segunda Grande Guerra Mundial, Ho enfrentou os japoneses que ocuparam a Indochina, tomando-a da França, sendo, em tese, aliado de ambos. Os guerrilheiros comunistas faziam parte dos Aliados, mas qual surpresa não foi descobrir que após a derrota do inimigo japonês, os vencedores da guerra pretendiam restaurar a ordem colonial em outros termos.
O legado de luta de Ho nos ensina que a revolução é, necessariamente, internacionalista, e que o internacionalismo não nega nem a necessidade de autonomia nacional nem pode ser insensível aos perigos do imperialismo. É preciso sempre se lembrar que o Vietnã libertado, após ter recebido mais bombas que as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, era a verdadeira imagem da “terra arrasada” e hoje o país é uma economia pujante e modelo global de combate à pandemia de Covid-19. Embora certamente falte muito trabalho para construir um socialismo efetivo, a experiência dos vietcongs, nas condições absolutamente adversas que tiveram de encarar, não pode jamais ser menosprezada e deve ser sempre lembrada que a vitória socialista não é uma questão utópica. Mas uma realidade concreta e possível.

Plano Jacobino

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SOBRE O AUTOR

Hugo Albuquerque é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, advogado e direitor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia -- IHUDD.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

HISTÓRIA - Norte-americanos: o tráfico negreiro e as colônias escravocratas no Brasil.



A partir das últimas décadas do século XVII, o tráfico de homens escravizados da África para o Brasil somente fez crescer, tornando-se uma atividade altamente lucrativa e de baixos riscos. Por dois séculos, seis nações gerenciavam o negócio: Inglaterra, Portugal, França, Espanha, Países Baixos e Dinamarca.
Entretanto, na década de 30 do século XIX, o tráfico negreiro deixou de interessar aos interesses ingleses e durante vinte anos, entre 1831 e 1850, os navios com a bandeira norte-americana lideraram aquela atividade criminosa. Eles foram responsáveis por aproximadamente 60% de todo o transporte de escravos para o Brasil. Mais de 430 mil africanos foram traficados pelos norte-americanos, ou seja, 10% do total de negros trazidos para o Brasil desde sua colonização!
Já em 1896, o estudioso americano Edward Burghardt chamou a atenção para as relações entre os EUA e o Brasil, no período do tráfico negreiro. "O tráfico americano de escravos finalmente passou a ser conduzido principalmente por capital dos Estados Unidos, em navios dos Estados Unidos, comandados por cidadãos dos Estados Unidos e sob a bandeira dos Estados Unidos", escreveu.
O interesse nos Estados Unidos se dava primeiramente pelo altíssimo lucro obtido no comércio de carne humana. Um segundo lugar, devido à capacidade de construção de embarcações. Desde o período colonial, a Nova Inglaterra implementara a indústria da construção naval, chegando mesmo a competir com os próprios britânicos. Tanto a guerra de Independência Americana (1775 a 1783), quanto o mercado de caça à baleia contribuíram fortemente para o desenvolvimento das embarcações.
Logo, a produção de embarcações ligeiras, além da redução no translado eram consideradas capazes de fugir de perseguidores e piratas, e, por isto, mostravam-se como ideais para o tráfico.
Não à toa, no período havia várias companhias dos EUA que vendiam navios para outros traficantes, normalmente portugueses do Rio de Janeiro. "No Jornal do Comércio, havia anúncios de navios como 'excelentes para transporte de escravatura'", diz o historiador Marques (UFRJ).
A senhora e fiscal dos mares, entretanto, era a Marinha da Inglaterra. Desde o ano de 1807, a Inglaterra começara a fechar o cerco contra o tráfico de escravos. Eram interesses econômicos que a guiavam, dentre eles a criação de um mercado consumidor para seus produtos manufaturados.
Os EUA, entretanto, se recusaram a autorizar vistorias em seus barcos, acusando os britânicos de ferirem a soberania da ex-colônia. Os navios negreiros americanos costumavam navegar em comboios, sob a escolta de um buque de guerra.
Para aqueles traficantes de carne humana, a situação era perfeita: navios rápidos e com uma bandeira imune à fiscalização inglesa! Não à toa, traficantes portugueses acabaram criando suas próprias redes, principalmente em Nova York, adquirindo, inclusive, a cidadania norte-americana. Afinal, um escravo comprado na África por aproximadamente 40 dólares da época, (quando caçado, ainda menos), valia em terras brasileiras entre US$ 400 a US$ 1.200, dependendo “da peça”.
Em virtude dos conflitos que se avolumavam com a Inglaterra, em 1844, Henry Wise foi nomeado ministro no Brasil e, em conjunto com o cônsul George Gordon, buscou frear a participação dos USA no tráfico. Chegaram mesmo a enviar alguns compatriotas para julgamento e tomaram certas ações para o desmantelamento de esquemas norte-americanos, que vendiam ou fretavam embarcações para traficantes brasileiros e portugueses.
Entretanto, tanto Wise quanto Gordon não se mantiveram em suas posições por muito tempo. Caíram quando se defrontaram com os interesses da grande empresa Maxwell Wright & Co, que combinava duas atividades interligadas: por um lado vendiam navios para traficantes de escravos; por outro, exportavam o café produzido por escravos para os Estados Unidos, onde o mercado consumidor crescia. Neste sentido, observa Marques, a participação dos EUA na escravidão brasileira transcende a questão econômica. "A identidade nacional que estava sendo construída no país, do americano tomador de café em vez de chá, está amarrada com a escravidão", diz.
O próprio Reino Unido, que a partir de 1830 atuava para inibir o negócio milionário da escravidão, continuou consumindo produtos brasileiros produzidos com mão de obra escrava e fornecendo itens industrializados para o comércio de carne humana na África.
Sob pressão e ameaça da esquadra da Inglaterra, a Lei Eusébio de Queiroz foi aprovada pelo Imperador Pedro II em 1850, proibindo o “tráfico negreiro”. Ora, os mercadores de Norte-América trataram a lei como sendo outra lei “para inglês ver” e seguiram no negócio até 1952.
Tinha por nome Camargo, o brigue norte- americano que, em 1852, desembarcou os últimos negros escravos no nosso país. Os cerca de 500 negros foram aportados na região de Angra dos Reis. Devido à carência de navios negreiros, os escravos já estavam previamente “encomendados” por proprietários de terras próximos à Serra do Bananal e os mesmos rapidamente os esconderam em suas senzalas.
As autoridades locais chegaram a tentar inutilmente “reaver” os escravizados, mas a tentativa foi malograda: somente cerca de 70 pessoas, quase mortas, foram encontradas. Todas elas faleceram no decorrer de uma semana.
O comandante do brigue, Nathaniel Gordon, logicamente, também conseguiu escapar. Após atear fogo no Camargo, fugiu para os EUA. Entretanto, uma década após, foi enforcado em Nova York por participação no tráfico de carne negra, aliás, ele foi o único norte-americano a sofrer pena capital pelo crime!
Após o brigue Camargo, outro navio negreiro americano, de nome Mary E Smith, foi aprisionado pelas autoridades do Império, o que sinalizou que o tráfico para Brasil não era mais um negócio um negócio rentável.
Os traficantes americanos voltaram, então, suas atenções para Cuba, e lá permaneceram com o tráfico de carne humana por mais uma década.
O fim do tráfico nas Américas, na realidade somente aconteceria, de fato, com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, último país do Ocidente a libertar formalmente o negro escravo!
O historiador Gerald Horne, autor de “O Sul mais distante: os Estados Unidos, o Brasil e o Tráfico de Escravos Africanos” (Companhia das Letras, 2010), enfatiza: "O governo brasileiro deveria buscar reparação, porque esses traficantes de escravos estavam violando as leis do Brasil e praticando uma atividade ilegal. Se o fato aconteceu 170 anos atrás, isto não diminui a queixa, dado que não existe um estatuto de limitação na legislação internacional por crimes contra a humanidade, e o contrabando era um crime contra a humanidade". Disse ainda Horne: "Mas há relutância em trazer justiça para, pelo menos, os brasileiros que são descendentes dos escravos trazidos por navios norte-americanos."
Logo após o fim a Guerra Civil Norte-Americana, em 1865, surge, nos antigos “Estados Confederados”, o primeiro Klan (da Ku Klux Klan), grupo clandestino e terrorista, que tinha por principal objetivo a derrubada dos governos estaduais durante a assim chamada “Era da Reconstrução. Após inúmeros atos de violência contra a população e líderes afro-americanos, o Klan foi suprimido em 1871, por lei federal.
Mais de 20 mil antigos combatentes do extinto “Exército Confederado”, dentre eles diversos líderes da Klan, imigraram do sul dos Estados Unidos para o Brasil, principalmente para o interior de São Paulo e norte do Paraná. Cidades como Americana e Santa Bárbara D'Oeste se tornaram praticamente colônias de imigrantes americanos naquele período.
Eles vinham para o Brasil atraídos por subsídios e incentivos fiscais oferecidos por Dom Pedro II, que via com bons olhos a vinda de tais proprietários, “uma possibilidade de que auxiliassem a ocupar áreas devolutas” e desenvolver a economia, além de lhes oferecer "uma saída para a perseguição movida pelas tropas vitoriosas”.
Na realidade, ao invés de aceitarem a derrota da Guerra Civil, eles se mudaram para o Império do Brasil, para aqui estabelecer colônias escravocratas!
E seus descendentes ainda hoje lhes prestam homenagens.