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terça-feira, 27 de abril de 2010

AMÉRICA LATINA - Serra e a flexibilização do Mercosul.

Serra disse que o Mercosul é uma farsa. Face as reações a essa declaração, fala agora em flexibilização. O que vem a ser isso?Professor da USP responde a essa indagação.

INTERESSES OCULTOS NA “SOLUÇÃO” DE SERRA DE "FLEXIBILIZAR O MERCOSUL"

SÃO EVIDENTES OS INTERESSES DOS EUA CONTIDOS NAS POSIÇÕES DEFENDIDAS POR SERRA

"O que significa “flexibilizar o Mercosul"?

As críticas de José Serra ao Mercosul aliam preconceito ideológico e desinformação.

Não há precedente de experiência integracionista mais exitosa da região, fruto do trabalho de sucessivos e diferentes governos democráticos nos últimos vinte anos.

A idéia de "flexibilizar o Mercosul" por meio da regressão a uma área de livre comércio representa, na prática, uma maneira de reabrir a discussão sobre tratados de livre comércio e fomentar o retorno da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

O artigo é de Renato Martins.

"Com o ingresso da Venezuela o Mercosul passará a contar com uma população de 270 milhões de habitantes, PIB de US$ 2,3 trilhões e território de 12,7 milhões de quilômetros quadrados, da Patagônia ao Caribe.

Não há precedente de experiência integracionista mais exitosa da região, fruto do trabalho de sucessivos e diferentes governos democráticos nos últimos vinte anos.

A idéia de "flexibilizar o Mercosul" por meio da regressão a uma área de livre comércio representa, na prática, uma maneira de reabrir a discussão sobre tratados de livre comércio e fomentar o retorno da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Essas iniciativas são incompatíveis com o Mercosul. O que está novamente em discussão são projetos diferentes para a América Latina.

As críticas ao bloco estão eivadas, como sempre, de ideologia e desinformação. Não corresponde à realidade, por exemplo, a acusação de que o Mercosul engessa as negociações comerciais. O acordo de comércio preferencial Mercosul-Índia, assinado em 2005, está vigente desde 1º. de junho de 2009. Trata-se do primeiro acordo comercial extraterritorial do Mercosul, com preferências tarifárias fixas para cerca de 900 produtos. As negociações iniciais de um acordo comercial entre o Mercosul e a África do Sul evoluíram para um acordo com a União Sul-Africana (SACU). São 1.076 códigos de concessão do Mercosul e 1.026 da SACU. Assinado em dezembro de 2008 pelo Mercosul e em abril de 2009 pela União Sul-Africana, o acordo está em avaliação nos congressos nacionais.

Na América Latina foram fechados acordos comerciais com Chile, México, Bolívia, Comunidade Andina de Nações e Cuba. Todos estão em vigor. O acordo entre Mercosul e Israel, já aprovado pelo Uruguai, tem previsão de aprovação pelos demais países ainda em 2010. Em dezembro de 2009, os presidentes dos Estados Partes aprovaram resolução para retomar as negociações entre o Mercosul e a União Européia. As negociações iniciais podem evoluir, em 2010, para a realização de uma inédita Cúpula Mercosul – União Européia.

Estes acordos beneficiam o país como o todo. As exportações brasileiras para o Mercosul possuem alto valor agregado, sendo 92% de produtos manufaturados, 3% de semifaturados e 5% de produtos básicos. Segundo a Secretaria de Comércio Externo/MDIC, de janeiro a março de 2010 o estado de São Paulo exportou para o Mercosul US$ 1,9 bilhão. O bloco representa o segundo destino das exportações paulistas, atrás apenas da União Européia. A Argentina é o primeiro parceiro comercial dos empresários paulistas (US$ 1,6) e supera os Estados Unidos (US$ 1,0) na segunda posição.

A questão é que enquanto outros países da América Latina optaram pelos tratados de livre comércio com os EUA, o Mercosul tem apostado na via da integração regional, e é isto o que o torna alvo de críticas dos adversários.

Em 2009, apesar das condições adversas geradas pela crise financeira mundial, as negociações comerciais do Mercosul não foram paralisadas. Prosseguiram os entendimentos para a eliminação da dupla cobrança da tarifa externa comum e para a adoção de um código aduaneiro comum. Essas negociações são complexas. A Europa levou meio século para chegar ao estágio de união monetária. No Mercosul, desde 2008, está em vigor o Sistema de Pagamentos em Moedas Locais (SML) entre Brasil e Argentina. Em dezembro de 2009, o Uruguai anunciou a sua adesão ao Sistema. Esta é a base de uma futura integração monetária. O sistema permite a realização de operações de comércio exterior em pesos ou reais, sem necessidade de conversão ao dólar, e reduz os custos das transações comerciais.

A via de regressão a uma área de livre comércio é a forma mais rápida para acabar com o Mercosul e fomentar a volta da Alca. É uma ilusão imaginar que, por essa via, se alcançará a expansão do comércio brasileiro.

Os primeiros anos do Mercosul foram marcados pela liberalização dos mercados dos países membros, o que resultou em um vigoroso impulso comercial intra-bloco. Para sustentar o aumento do comércio decorrente desse impulso inicial são necessárias ações positivas de integração produtiva, investimentos em infra-estrutura e combate às assimetrias. A expansão do comércio depende de mais e melhor integração, e não o contrário. É por isso que foi criado em 2004, e regulamentado em 2005, o Fundo de Convergência Estrutural e Fortalecimento Institucional do Mercosul (Focem).

Este Fundo dispõe de US$ 100 milhões anuais, por um período de dez anos, para investir em projetos de infra-estrutura. Atualmente existem 25 projetos aprovados, orçados em quase Us$ 200 milhões. O Brasil contribui com 70% desse montante, a Argentina 27%, o Uruguai 2% e o Paraguai 1%. Os recursos são destinados a projetos como transmissão de energia, construção e recuperação de estradas, qualificação de fornecedores da cadeia produtiva do petróleo e do gás, entre outros. Na área da inclusão social há projetos de construção de moradias populares, apoio às micro, pequena e média empresas, fomento à economia solidária, apoio às cooperativas de resíduos sólidos, entre outros. Paraguai e Uruguai são os principais beneficiários. O Brasil apresentou projeto de criação da biblioteca da Universidade da Integração Latino America (Unila) e do Instituto Mercosul de Estudos Avançados, também ligado à Universidade. O Focem desapareceria numa zona de livre comércio.

"Flexibilizar o Mercosul" significa também congelar a implementação de políticas sociais nas áreas da saúde, educação, cultura, emprego, combate ao trabalho infantil, igualdade de gênero, defesa e promoção dos direitos humanos, meio ambiente, agricultura familiar, segurança alimentar, fomento às cooperativas, juventude, segurança regional, livre circulação de pessoas, previdência social, comunicação, turismo, esporte, entre outras.

O Mercosul hoje possui ações positivas em todos essas áreas, com resultados tangíveis que beneficiam milhares de cidadãos brasileiros como a contagem do tempo de serviço em qualquer um dos Estados Partes para efeito de aposentadoria; o atendimento médico em cidades de fronteira; a harmonização das políticas de aquisição e distribuição de medicamentos; a promoção de políticas comuns de equidade de gênero; acesso ao fundo de garantias da pequena e média empresa; acesso ao fundo da agricultura familiar; a promoção da Agenda 21 do Mercosul; o apoio à expansão dos Pontos de Cultura para o Mercosul; a cooperação na área de segurança pública; a promoção da agenda do trabalho decente, entre outras.

"Flexibilizar o Mercosul" significa suspender o funcionamento do Instituto Social do Mercosul, adiar a instituição da Comissão de Coordenação de Ministros de Assuntos Sociais do Mercosul e interromper as discussões sobre o Plano Estratégico de Ação Social do Mercosul. Esses novos organismos foram criados tendo em vista a formulação de políticas de desenvolvimento social harmônico no bloco.

Elas seriam desnecessárias numa zona exclusiva de livre comércio. O Instituto Social é um exemplo disso. Ele foi criado em 2009 para colaborar tecnicamente na elaboração de políticas sociais regionais, sistematizar e atualizar indicadores sociais regionais, compilar e intercambiar boas práticas em matéria social, promover mecanismos de cooperação e contribuir para a superação das assimetrias entre os países membros. O Instituto ajudará a implementar o Plano de Ação Social do Mercosul, cujos eixos estratégicos visam promover a erradicação da fome, o combate à pobreza e a ajuda humanitária; os direitos humanos, a participação social, a saúde, a educação, a cultura, a integração produtiva, a agricultura familiar, a economia solidária e as cooperativas.

"Flexibilizar o Mercosul" significa ainda interromper o processo de integração política levado a cabo pelo Parlamento do Mercosul (Parlasul). A integração política deixou de ser uma utopia para se tornar um imperativo do crescimento econômico e do desenvolvimento social da região. O Parlasul começou a funcionar em julho de 2008, sendo que o Paraguai já elegeu seus representantes pelo voto direto. Além de aumentar a representatividade e a segurança jurídica do Mercosul, o Parlasul vai agilizar a aprovação dos acordos regionais pelos Congressos Nacionais.

Compete ao Parlasul velar pela observância e atualização das normas do Mercosul; relatar anualmente a situação dos direitos humanos nos Estados Partes; receber ao final de cada semestre relatório da presidência pro tempore; convocar audiências públicas e realizar seminários com representantes da sociedade civil; estabelecer intercâmbios com o Foro Consultivo Econômico e Social; propor projetos de normas para o Conselho do Mercado Comum, entre outras iniciativas políticas. O Parlamento já aprovou resolução de apoio às políticas integradas de tecnologia da informação no Mercosul, à execução de obras viárias para a construção de corredor bioceânico e às políticas comuns de utilização dos recursos do Aquífero Guarani.

"Flexibilizar o Mercosul" significa colocar em risco essas e outras conquistas. É preciso defendê-las, para que futuramente possam ser aperfeiçoadas e ampliadas."

FONTE: escrito por Renato Martins, Doutor em Ciência Política pela USP. Publicado no portal "Vermelho".

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

AMÉRICA LATINA - Líderes vacilaram.

Mair Pena Neto


Os presidentes dos 12 países que compõem a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) vacilaram ao não se manifestarem contra a utilização de bases militares colombianas pelos Estados Unidos, na reunião que mantiveram em Quito esta semana. Podiam até evitar o termo condenação, mas deveriam incluir na declaração final um sentimento de apreensão e sugerir uma mudança de postura na relação dos EUA com a América do Sul.

No momento em que o continente reforça seus laços e avança para a construção de um Conselho de Defesa, se descobre, às vésperas da reunião dos líderes, que os EUA poderão, por acordo com a Colômbia, utilizar não uma, mas sete bases no território de um dos países mais conflagrados da região. O general Jim Jones Jr, assessor de segurança para a América Latina, fala candidamente que os EUA esqueceram de conversar com todos os governos antes de o assunto sair na imprensa.

A primeira conseqüência do acordo da Colômbia com os EUA é implodir o Conselho Sul-Americano de Defesa. A criação do órgão tem como premissa fortalecer a confiança mútua com base na integração e cooperação em matéria de defesa. Como isso vai se dar com bases americanas instaladas em um dos países do grupo e a desconfiança de suas reais intenções?

A presença dos EUA na região cresce militarmente e não na cooperação como prometia o presidente Barack Obama. Antes de sua chegada à Casa Branca, houve a reativação da Quarta Frota, que voltou a operar em águas latino-americanas após 60 anos. O argumento para a sua reativação foi semelhante ao utilizado agora para o compartilhamento das bases militares colombianas: melhorar a capacidade operativa no combate ao terrorismo e ao narcotráfico.

Os EUA dizem que vão ficar apenas em território colombiano, mas quem pode garantir? Foi com base em informações da inteligência dos EUA que tropas colombianas invadiram o Equador para atacar guerrilheiros ano passado, gerando o maior conflito entre países da região nos últimos tempos. Para adequar as bases militares da Colômbia às suas necessidades, os EUA falam em investimentos de 86 milhões de dólares.

Segundo o jornal espanhol El Pais, um documento do Comando Sul, que fala do interesse dos EUA na base de Palanquero, a mais poderosa unidade de combate da aviação colombiana, afirma que dali, com um avião desses, “pode se cobrir quase a metade do continente sem reabastecer combustível”. Para que tanta autonomia se as operações ficarão circunscritas a território colombiano?

São muitas perguntas que precisam ser esclarecidas e os países sul-americanos precisam cobrar dos EUA qual é a sua política para região. Reforçar militarmente a Colômbia para combater a guerrilha das Farc é insistir no confronto e abandonar qualquer solução negociada. Será isso que o melhor para o continente?

O presidente Lula propôs que a Unasul convide Obama para discutir sua política para o continente. Foi um bom movimento, mas nada garante que o presidente americano aceitará. Uma reunião de chanceleres e ministros de Defesa da Unasul vai discutir a utilização das bases colombianas, mas o fórum não tem a mesma força de um encontro de presidentes. A reunião em Quito foi uma oportunidade perdida de manifestação conjunta de repúdio que poderia levar os EUA a repensarem a questão se de fato pensam em mudar o velho estilo big stick de relação com a América do Sul.
Fonte:Direto da Redação.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

HISTÓRIA - América Latina.

Raul Longo

Cultura e etnia, da qual hoje restam aproximadamente 30% no Chile e 20% na Argentina.

Entre 1817 - 1818 o General Bernardo O’Higgins lidera um movimento armado obtendo a independência de Espanha, mas transferindo o país para o domínio do Império Britânico através de uma elite de origens européias. Latifundiários ao sul e mineralogistas ao norte, apoiados pela Igreja Católica.

Em 1881 uma nova elite ascende ao poder com ideais mais nacionalistas. Promove significativas reformas sócio/econômicas, mas em 1891 é derrubada por uma guerra civil promovida pela Igreja e pelos conservadores que retomam o poder instituindo um sistema Parlamentarista.

Diversos movimentos grevistas de trabalhadores e sindicalistas foram cruelmente massacrados pela elite chilena associada ao imperialismo capitalista britânico, destacando-se o de Valparaíso em 1903, o de Santiago em 1905, e culminando com o de Santa Maria de Iquique em 1907.

O evento conhecido como “La Matanza de Iquique” tem suas origens em Cobija, porto boliviano criado por Simón Bolívar em 1825. A Nitrates and Railway Company of Antofagasta – companhia inglesa com sede em Valparaíso, nega-se a pagar o imposto determinado pelo governo boliviano para exportação dos minérios extraídos do Chile (10 centavos por “quintal”, medida de grande quantidade de material em embarcações marítimas). Com isso se deu início a “Guerra do Pacífico” que eclodiu em 1879 e finalizou em 1884 com a anexação, ao Chile, de parte do território boliviano e de seus aliados Peru e Argentina. O governo dos Estados Unidos foi o mediador.

Segundo os arquivos da própria Nitrates Company, apesar de importantes políticos e ministros chilenos serem seus acionistas, foi preciso garantir-lhes a posse das minas bolivianas de cobre e salitre em Antofagasta para convencê-los a guerrear em favor dos interesses da companhia que assim obteve o direito de extração e comercialização destes minerais.

A extração mineral se executava através da espoliação dos trabalhadores roubado na pesagem dos minérios. Um sistema policial próprio reprimia violentamente as reclamações. Os salários com atrasos de até 3 meses ou mais, eram pagos em fichas que só poderiam ser utilizadas nos armazéns da própria Nitrates. Mantendo a propriedade das moradias, os ingleses as alugavam por exorbitâncias apesar das péssimas condições de habitação.

A exaustão laboral levou diversos mineiros à morte, e o governo chileno não respondia aos apelos dos trabalhadores que se manifestaram em 1907.

Cerca de 12 mil trabalhadores se concentraram na cidade portuária de Iquique, que pertencera ao Peru. Em 20 de dezembro 3.600 trabalhadores entre homens, mulheres e crianças, foram assassinados pelo exército chileno. No dia seguinte, enterrados em vala comum.

Da mesma forma o exército chileno assassinou Salvador Allende em 11 de setembro de 1973.

Em 64 Allende perdera as eleições presidenciais em uma campanha onde a CIA – Central Intelligence Agency dos Estados Unidos admitiu participação ativa em favor de seu opositor: Eduardo Frei. Mas na campanha seguinte Allende é eleito como o primeiro socialista a alcançar o poder na América Latina por vias democráticas.

A oposição a Allende controlava 82 cadeias de radiodifusão e 64 jornais (contra 36 emissoras e 10 periódicos pró-governo) quando Richard Nixon autorizou pessoalmente uma doação do governo dos Estados Unidos de US$ 700.000 para o maior jornal oposicionista El Mercúrio (seguida de muitas outras).

Durante o governo de Allende a CIA criou diversos grupos de pressão, entre eles o Pátria y Liberdad, grupo terrorista treinado em praticas de guerrilha no Texas, e de franca orientação nazi-fascista.

Moderado e também pressionado pela esquerda radical chilena, Allende acaba sofrendo um dos mais violentos golpes políticos perpetrados na América Latina, expressamente deflagrado por Richard Nixon e Henry Kissinger que possuíam aliados entre os assessores de Allende, entre eles o brasileiro Fernando Henrique Cardoso.

O golpe de 11 de setembro foi precedido por embargos comerciais dos governos aliados aos norte-americanos (inclusive o brasileiro), boicotes e pressões de empresas multinacionais, além de movimentos e ações para minar a estabilidade sócio/econômica no país.

Perpetrado por um grupo de aviadores acrobatas dos Estados Unidos que viera ao Chile sob pretexto de encenar malabarismos aéreos no dia da independência do país (18 de Setembro), o golpe levou ao poder Augusto Pinochet Ugarte, 18 dias depois de empossado como chefe das Forças Armadas pelo próprio Allende.

Mais tarde o Senado dos Estados Unidos acusou Pinochet de acumular ao longo de seu governo uma fortuna de 28 milhões de dólares, além de cerca de 190 milhões na mesma moeda em barras de ouro (9.600 kg) depositados num banco de Hong Kong.

Através dos monetaristas Chicago Boys que tinham como mentor o economista norte-americano Milton Friedman, na década de 70 ocorre o que se chamou de “O Milagre Chileno”, mas 1982 a economia liberal promoveu acentuada depressão com queda de 30% do PIB chileno.

No entanto, o que de fato derrubou a ditadura de Pinochet foram denúncias internacionais ao seu governo criminoso que realizou mais de 3 mil assassinatos, além de bárbaras torturas, seqüestros e desaparecimentos.

Detido em Londres no ano de 1988 pelo cumprimento da Scotland Yard a um mandado de apreensão internacional da Suprema Corte espanhola por crimes contra a humanidade, Pinochet foi protegido pela Primeira Ministra Britânica, Margareth Thatcher.

O governo de Pinochet integrou a Operação Condor, uma aliança das ditaduras militares impostas pelos Estados Unidos no Chile, Argentina, Brasil, Uruguai, Bolívia e Paraguai. Sobre o pretexto de reprimir a subversão, em todos esses países a Operação Condor seqüestrou, torturou e assassinou cidadãos e crianças, utilizando técnicas instruídas por especialistas norte-americanos.

Por estupidez ou espúrio caráter entreguista e colonizado, sempre há quem compute os problemas dos países latino-americanos aos seus próprios povos, escondendo a raiz desses problemas nas elites corruptas de origem européia e nos capitalistas corruptores do hemisfério norte. Mas a história demonstra, passo a passo, que assim como o Brasil, o Chile também é Honduras no espaço e no tempo.
Fonte:Agência Assaz Atroz

sábado, 8 de agosto de 2009

AMÉRICA LATINA: a encruzilhada.

Ensaio de Washington Uranga

“Há nos novos movimentos sociais na América Latina com outra concepção de poder e da forma de fazer política. Existe um regresso à idéia da base e da comunidade como origem e legitimidade da política, que orienta necessariamente em direção a outras formas de estruturar a organização e a distribuição do poder. Há aqui uma contradição importante com as velhas estruturas políticas e com sua metodologia de acúmulo do poder”. A afirmação é de Washington Uranga (foto), jornalista, uruguaio, radicado na Argentina no Seminário “América Latina: Por uma integração desde ‘abajo’”.

O Seminário foi promovido pelo Centro de Formação Milton Santos – Lorenzo Milani e realizou-se nos dias 20 e 21 de junho de 2009 em Curitiba (PR) na Casa do Trabalhador, administrada pelo Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT).

Reproduzimos na íntegra o “ensaio” de Washington Uranga utilizado em sua assessoria.

Como compaginar a aniquiladora idéia
da morte com este incontável afã da vida?
Mario Benedetti, “Cotidianas”, 1979

Encontrar critérios interpretativos comuns que nos permitam entender América Latina costuma ser uma tarefa árdua. Porque se bem existem muitos fatores que nos unem e nos congregam, no histórico, no econômico, no político, social e cultural, não é menos certo que as diferenças são importantes de país para país e, ainda dentro destes, entre as regiões.

E como bem diz Gabriel García Márquez estamos ainda em tempo de crer em “uma nova e arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir por outros até a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor e possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas à cem anos de solidão tenham finalmente e para sempre uma segunda oportunidade sobre a terra.” Por isso vale a pena seguir pensando e pensando-nos em meio de uma realidade que sempre é intrincada, difícil mas da que florescem permanentemente motivos de esperança e novas motivações. Com García Márquez e tantos outros e outras que queremos aferrar-nos a uma “nova e arrasadora utopia da vida”.

Com este horizonte buscaremos alguns parâmetros que nos permitam gerar critérios interpretativos.

1. O sentido do latino-americano

Existe realmente um sentido latino-americano? Ou o que resulta ainda mais difícil pensar. América Latina e o Caribe podem pensar-se como unidade?

Tem pelo menos três fatores para levar em conta em função desta denominação.

 As raízes e a história comum.

Somos parte de um mesmo povo, irmanado pela história e por nossas raízes assentadas nos povos tradicionais destas terras. Desde os Astecas do norte até os Mapuches do extremo sul. Estes povos tradicionais que povoaram nossas terras desde tempos imemoráveis marcam com fogo nossa identidade.
A eles se somaram logo as diferentes correntes migratórias. Com distintos objetivos, sortes e destinos. Com histórias de dominação, de conflitos e de guerras. Também de rebeldias e rebeliões.

Sobre a raiz indígena tradicional, foram se cruzando mestiçagens para configurar novos rastros históricos. Não só desde a Europa chegaram os imigrantes. Também desde a África. Nosso povo tem histórias comuns. Configura-se sobre a base do entrecruzamento de etnias e de povos migrantes. Todos, desde diferentes lugares têm uma tradição de lutas. Nossa América Latina e Caribe foi fazendo-se um povo comum desde baixo.

 As lutas nos irmanam

Os interesses internos e externos foram gerando entre nós processos de balcanização, de separação entre países. A revisão histórica nos diz que vários do que hoje são venerados como nossos heróis pátrios nunca pensaram as divisões políticas que hoje delimitam nossas fronteiras.

Bolívar sempre imaginou uma pátria grande, que contivesse a todos os países sul-americanos. O mesmo pode se dizer de Artigas ou de San Martín. E assim de cada um dos que costumamos chamar de “libertadores”.

As lutas emancipadoras posteriores também tem sido lutas comuns. As reivindicações têm sido comuns e sobre essa base, das demandas e das necessidades re-surgiu na época recente o conceito a latinoamericaneidade. Hoje, paradigmaticamente os povos tradicionais que habitaram inicialmente estas terras são os que nos convocam e apelam pela unidade latino-americana e caribenha sobre bases étnico-culturais. Neles radica em grande parte a reclamação da grande nação latino-americana.

 A necessidade de construir um futuro comum

Por ultimo, o sentido do latino-americano está baseado também no destino comum. O processo de integração é ao mesmo tempo um horizonte e uma necessidade. Não existe um destino livre e justo que não seja a partir de um processo integrador. A liberação de nossos povos passa inevitavelmente pela unidade.


2. América Latina e a crise atual.

Nosso sub-continente segue sendo muito pobre. Segundo o Anuário 2008 da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina) se bem a pobreza diminuiu respeito aos anos precedentes (38,7 % em 1994 e 35,9 % no ano 2000), o índice continua sendo muito alto: 28,9% da população. O mesmo acontece com a indigência: 40,8% em 1994, 37,8% no ano 2000 e 28,1% em 2007.

Mas o índice alarmante e grave é aquele que se refere à distribuição do ingresso. Só para exemplificar, na Argentina o décimo mais alto da população recebia, segundo o último dado conhecido (2006), o 40,8% do ingresso, enquanto o décimo mais baixo recebia apenas o 1,2%. Na Bolívia no ano 2007 a distância foi de 43,5% a 0,4% e no Brasil no mesmo ano de 48,0% a 08%.

A pobreza é o nosso problema. Temos pobreza estrutural e um dos nossos maiores obstáculos é a desigualdade que tem na distribuição do ingresso sua manifestação mais evidente.

Hoje há abundantes considerações sobre “a crise”. Se a manifestação latente da crise é a indigência e a pobreza para grande parte de nossos irmãos e irmãs latino-americanos poderíamos dizer que nossos povos vivem permanentemente em crise. Mas não é desta crise da que falam os titulares dos jornais escritos e televisivos. Falam da “crise financeira” ou da “crise bancária”. Ousaria dizer que estamos frente a uma crise do sistema capitalista em geral. E a explicação em torno das hipotecas “sub-prime” com suas conseqüências nos bancos e nas instituições financeiras, não é mais que outra expressão da pobreza de um sistema que mostra sinais de esgotamento.

A chamada “crise global” é uma quebra que vai além do financeiro e do bancário, para projetar-se sobre a economia real, a partir de causas estruturais apoiadas numa exagerada “financeirização” da economia e as conseqüentes operações especulativas.

Esta crise não está desvinculada de fatores políticos. Em realidade é também o resultado de uma feroz disputa entre os possuidores do capital, mercados e oligopólios. Trata-se de uma luta brutal pela acumulação do capital entre quem mais têm e dominam o sistema. Existe uma lógica “darwiniana” do capitalismo global, em busca da sobrevivência só dos “mais aptos”, quer dizer, dos maiores e melhor organizados oligopólios.

Um bom dado para medir o nível da crise é o desemprego. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) o número de desempregados no mundo, que foi de 190 milhões em 2008, poderia incrementar-se em 51 milhões durante 2009. E se forem analisados dados da pobreza (considerando por pobre quem recebe menos de dois euros diários) os pobres alcançarão 1400 milhões de pessoas, quer dizer, o 45% da população economicamente ativa do planeta.

Como nos afeta a crise?

Em primeiro lugar: somos parte desse chamado “mundo global”. Por sermos parte da periferia do mundo globalizado costumamos receber mais prejuízos do que benefícios.

Mas de maneira muito sintética podemos mencionar algumas das conseqüências mais diretas:

a. Nossos países latino-americanos e caribenhos são fundamentalmente exportadores dos chamados “commodities”. Os preços destes produtos desceram bruscamente e isso está gerando recessão e desocupação.
b. Os emigrantes latino-americanos que residem nos países centrais diminuíram suas remessas às nações de origem, sendo que este é um rubro de enorme importância econômica em países tais como República Dominicana e Equador, para mencionar tão só dois exemplos.
c. O dito anteriormente tem sido seguido do regresso de muito imigrantes que pressionam sobre o mercado de trabalho de nossos países.

Mas qualquer consideração não deve perder de vista que para enxergar o mundo de hoje, temos de seguir reconhecendo a hegemonia que tem os Estados Unidos. A crise atravessa o mundo globalizado e a potência dominante da terra não duvida em transladar, para além de qualquer discurso, as conseqüências dessa crise para a periferia.

Também é certo que, devido às estratégias econômicas desenhadas pelos governos da região, particularmente na América do Sul, os efeitos desta crise não serão tão graves como em outros momentos. Não haverá grande depressão. Mas dada a estrangeirização de nossas economias é inevitável que as mesmas estejam afetadas como “coletazos” do que acontece nos países centrais. A recessão já começa a sentir-se e não sabemos o quanto será de profunda.

Teremos de ver, em termos econômicos, se são encontradas receitas para absorver os efeitos mediantes a implantação de medidas econômicas que reforcem a produção e o comercio intra-regional. Este deveria ser um resultado lógico dos processos de integração. Porém, é preciso que se diga que se bem se tem dado passos, a integração é ainda uma declamação mais que uma realidade efetiva. Especialmente a partir do surgimento dos governos que denominaremos de “progressistas” a integração instalou-se como um tema de agenda de primeiro nível. Mas existem limitações demais, pouco olhar estratégico e, com certeza, poucas apostas de médio e longo prazo para fazer da integração um processo integral.

Mas cabe também outro questionamento: qual será a conseqüência para o campo popular? Porque é bem sabido que este tipo de situação cria condições para que aqueles que detêm o capital e o poder utilizem a conjuntura para afirmar-se em suas posições e para concentrar ainda mais o poder e a riqueza.

Certamente o impacto mais importante será em termos econômicos, em quanto à perda de postos de trabalho e nova queda do nível de ingressos. Conseqüência: mais pobreza e mais indigência.
Mas gostaria deixar aqui uma questão pendente para tentar retomar-la mais adiante: como afeta esta crise o nível de organização dos setores populares? Partindo da base de que a organização é a maior riqueza que têm os setores populares e a carência desta organização a maior pobreza.

3. Nossa história recente

A história latino-americana pode ler-se a partir de uma lógica pendular que tem nos levado de um extremo ao outro do arco ideológico, passando por experiência do mais diverso tipo.

O último quarto do século passado nos instalou como protagonistas ou vitimas, nos mais diversos cenários.

Vivimos os setenta com ar desenvolvimentista, apoiado na lógica de substituição de importações e as condicionadas inversões que Estados Unidos fez para a região como lógica reação à revolução cubana (1959) e ao alinhamento marxista do governo de Fidel Castro (1961). À luz desta realidade econômica alumiaram governos democráticos sujeitos à hegemonia do grande amo da região, mas também cresceram os movimentos políticos antiimperialistas e antioligárquicos.

Para isso se somaram muitas experiências e tradições do sindicalismo anarquista, dos nacionalismos e dos populismos, com as novas correntes libertárias que se embeberam, por um lado, nos novos ares libertários da revolução cubana e, por outro, nas idéias de libertação inspiradas no cristianismo revolucionário e na teologia da libertação.

No meio deste processo também houve intervenções violentas, em particular dos exércitos, então convertidos em guardiões dos interessas das oligarquias nativas. Sem a pretensão de esgotar as referências é bom lembrar, pelo significativo, a experiência socialista no Chile, encabeçada por Salvador Allende, mas também o governo peronista de Héctor Cámpora na Argentina. Antes e depois destas e outras iniciativas no marco institucional surgiram as organizações político-militares inspiradas na revolução cubana e na teoria do foco. A luta armada brotou então como uma miragem metodológica para assegurar a mudança.

Todas estas iniciativas, umas e outras, tiveram como resposta o terrorismo de Estado, a forma mais cruel e sangrenta de esmagar qualquer iniciativa popular ou de resistência. Esta metodologia, da que foram parte os exércitos de nossos países, mas também todo o aparelho repressivo internacional movido pelos Estados Unidos implicou na mais sangrenta repressão que tenhamos memória. Podemos falar dos trinta mil desaparecidos na Argentina, da ditadura de Augusto Pinochet, do “Plano Condor” para os países do sul, da promoção dos paramilitares na Colômbia e dos “contras” nicaragüenses. Toda uma profusão de mecanismos de morte que deixaram pisadas muito graves na nossa vida política, em nossa cultura e no sentido da vida mesma. Mas esta época também deixou ensinamentos e gravou com fogo a cultura política da resistência que mais tarde ressurgiria das formas mais variadas.

Não haveria que olhar este período tão só desde essa perspectiva. Para entender sua verdadeira dimensão a ofensiva da “segurança nacional” tem que lembrar também que o fato respondeu fundamentalmente ao objetivo de mudar o modelo de produção de nossos países, eliminando todo vestígio de produção industrial de grande escala, para converter-nos em provedores de matérias primas básicas. Mais uma forma de aprofundar nossa dependência.

Dali ao retorno à democracia. Estamos falando de democracias débis, condicionadas economicamente, estruturalmente. Também social e politicamente. Mas nosso retorno à democracia fez-se por um custo altíssimo. Muitos companheiros e companheiras foram assassinados, desaparecidos, mortos fisicamente. Perdemos grande parte de nossos melhores dirigentes e até hoje nos fazem falta.

Os cidadãos da grande maioria de nossos países sul-americanos tivemos de re-aprender a democracia. “Com a democracia se come, se educa, se sara” disse alguma vez o presidente argentino Raúl Alfonsín (1983-1989) E a realidade demonstrou que não é assim. A democracia é um projeto vazio se carece de um projeto que lhe dê sustentação. E esse projeto não pode ser apenas a formalidade democrática.

Os anos sem representação política efetiva deixaram também aos povos sem institucionalidade política. As velhas estruturas partidárias, de corte conservador, populista, liberal ou social-democrata não respondiam às novas situações. Acentuou-se a crise da representatividade e os partidos políticos se converteram em esqueletos vãos, sem sustentação e sem sentido.

Quebrou-se o “contrato” político social e quem dirigia tradicionalmente ficou assim exposta à crítica e ao desprestigio. O retorno às democracias teve essa carência. A democracia foi ficando vazia, débil. De distintas maneiras (porque o processo da Concertação Chilena foi diferente ao do Brasil de Fernando Henrique Cardoso e ao argentino) todos os países se enfrentaram à linha seguida da etapa do ajuste neoliberal.

Todos afrontaram a mesma receita:

- Estado mínimo atuando como garante para o capital privado
- Privatização compulsiva dos serviços
- Redução do emprego
- Contração do salário
- Transnacionalização e toma de ganâncias por parte do capital especulativo financeiro internacional.
Este é o resultado do mandado surgido em 1990 do Consenso de Washington. Nossas economias ficaram novamente cativas dos desígnios internacionais e não tivemos uma política forte, capaz de dar resposta às novas circunstâncias.

Mas também é certo que nas penumbras do ajuste neoliberal gestaram-se movimentos de resistência, desenvolveram-se as organizações sociais e de base, muitas das quais foram encarregando-se das tarefas que o Estado abandonou.

Se gerou então um espaço que, ao mesmo tempo em que, resistiu o ajuste neoliberal constituiu a base mais importante de uma nova cultura política, gerando outra agenda e um olhar baseado em direitos e na busca de justiça.

Tem que se destacar o espaço da economia social, como uma tentativa muito importante de construir alternativas. Entenda-se bem que a economia social não é a economia dos pobres e da exclusão. É uma maneira de pensar a economia global e total desde a perspectiva dos pobres e gerando experiências desde uma perspectiva de solidariedade e não tão só de acumulação de ganâncias. É um tema que tem de ser aprofundado.

Todas estas organizações e iniciativas foram também a principal sustentação da nova alvorada de governos de corte “progressista” (para usar um apelativo comum ainda que não corresponda de maneira estrita a todos eles) que hoje conduzem politicamente a sub-região.

4. Os movimentos sociais: novos sujeitos sociais emergentes

4.1 Alguns antecedentes significativos

Não existe a pretensão de localizar todos os antecedentes a respeito do surgimento dos movimentos sociais na região. A enumeração que se faz a continuação corre o risco de deixar de fora alguns acontecimentos que podem ser significativos a partir de diferentes olhares. No entando, o que se busca é colocar questões fundamentais que podem servir de referência histórica à realidade que hoje apresentam os movimentos sociais nesta parte do mundo.

A referência oas movimentos sociais na América Latina precisa fixar seu olhar no processo histórico para encontrar ali antecedentes que nos ajudem a explicar também o momento presente. Isto dito apesar da novidade evidente que têm muitas das mobilizações e os movimentos recentes.

Desde o final do século XIX e começos do XX a formação clássica dos movimentos sociais na América Latina contou com uma forte influência do anarquismo, vindo com a imigração européia, especialmente da Itália e da Espanha. O proletariado industrial surgiu a partir da expansão manufatureira e se desenvolveu com os processos de industrialização dos anos trinta.

Na segunda década do século XX nasceram importantes iniciativas de sindicalização do movimento operário no Peru, Argentina, Brasil e México. A greve transformou-se na arma principal da luta reivindicativa, em particular a favor da jornada de oito horas e a melhora das condições de trabalho. Estes movimentos, embora conseguiram alguns dos objetivos propostos, também foram fortemente reprimidos, como o acontecido de 1919 no Peru.

A revisão desta experiência e a influência da Revolução Russa vai conduzir o alinhamento de grande parte do movimento operário latino-americano com a Internacional Comunista.

O movimento operário tem sido fundamental na consolidação das lutas reivindicatórias na região e neste sentido foi grande a contribuição do marxismo e leninismo através dos partidos comunistas. Uma mensão especial deve ser feita à influência que teve os altos índices de sindicalização dos trabalhadores mineiros em países como a Colômbia, Peru e Bolívia. No último destes países, o movimento mineiro boliviano teve um papel protagônico na década de quarenta, sendo o ator principal da revolução boliviana.

A nível campesino, é preciso situar como acontecimento fundamental a Revolução Mexicana de 1910. neste feito o campesinato, com grande base indígena, serviu de apoio e de base política à reforma, mesmo que suas principais demandas, vinculadas com a posse da terra, não entraram na agenda das principais reivindicações.

Na década de vinte os movimentos campesinos cresceram e se desenvolveram na América Central, alimentados pela condição de exploração dos trabalhadores rurais, submetidos pelas empresas norte-americanas que usufruíam de grandes plantações para a exportação. Se instalou o tema da reforma agrária e assim cresceram e se desenvolveram lideranças como a de César Sandino na Nicarágua e Farabundo Martí, em El Salvador.

Não seria completo o olhar a respeito dos antecedentes dos movimentos sociais na região sem uma referência ao movimento estudantil e às organizações de classe média.

A reforma universitária nos anos vinte gerou uma mobilização de grande importância e serviu para articular ações em torno da reforma dos planos de estudo, a participação dos estudantes no governo da universidade e a articulação do movimento estudantil com as organizações sociais e políticas. Como dados significativos vale mencionar a reforma universitária na Argentina (1918) e o movimento educacional mexicano dos anos trinta. A ela precisa-se somar as tentativas de articulação entre os movimentos intelectuais e social ( a fundação da revista Amauta por José Carlos Mariátegui em Lima entre 1926-1930) e a revolução modernista no Brasil em 1922.

Neste elenco de antecedentes não se pode deixar de lado os movimentos populares e populistas que articularam o movimento operário, os movimentos sociais e as novas formas de organização política. Nesta linha se localiza o varguismo no Brasil, o peronismo na Argentina, o cardenismo relacionado com a revolução mexicana, o movimento liderado por Jacobo Arbenz na Guatemala em 1952 e o movimento revolucionário boliviano que combina do campesinato com os mineiros.

Entre os marcos históricos é necessário apontar: a Revolução Cubana (1959), o Governo da Unidade Popular no Chile (1970-73), o regresso do peronismo com Hector Cámpora e Juan Diego Perón na Argentina (1973-76) e o governo de Velasco Alvarado no Peru a partir de 1968. Muito mais tarde, em 1979, a Revolução Sandinista na Nicarágua.

Todos estes acontecimentos foram contribuindo com a construção de uma agenda que depois seria retomada também pelos movimentos sociais.

Os principais temas dessa agenda nos anos posteriores seriam:

 A questão campesina
 Os direitos indígenas
 A propriedade da terra e a reforma agrária

4.2 A emergência dos novos movimentos sociais

Corre-se o risco de simplificação ao se falar dos novos movimentos sociais, pois não existe uma caracterização que contemple a todos eles.

Segundo Boaventura de Sousa Santos as características próprias destes movimentos na América Latina é a de introduzir “novos fatores (…) na relação regulação-emancipação e na relação subjetividade-cidadania”, entendendo que “a maior novidade dos novos movimentos sociais reside em que constituem tanto uma crítica de uma regulação social capitalista, como uma crítica da emancipação social socialista tal como foi definida pelo marxismo”.

E acrescenta que “a denuncia de novas formas de opressão implica, pois, a crítica ao marxismo e ao movimento operário tradicional, assim como a crítica ao chamado ‘socialismo real’. O que é visto por estes como fator de emancipação (o bem-estar material, o desenvolvimento tecnológico das forças produtivas) se transforma, nos novos movimentos sociais, em fator de regulação. Por outro lado, porque as novas formas de opressão se revelam discursivamente nos processos sociais onde se forja a identidade das vítimas, não há uma pré-constituição estrutural dos grupos e dos movimentos de emancipação, por isso o movimento operário e a classe operária não têm uma posição privilegiada nos processos sociais de emancipação”.

Em tanto e em quanto estes chamados novos movimentos sociais cresceram e se desenvolveram no marco do período do apogeu neoliberal, podem caracterizar-se como novas formas de resistência, entre outras razões porque os problemas econômicos colocaram estas organizações na defensiva. Entre outros faotres, precisa-se considerar a inflação, o desemprego, a deteriorização dos níveis salariais, a falta de investimentos e a perda da qualidade de vida.

Tudo o que foi acima citado resulta em ruptura dos laços sociais, com o aumento da violência, da criminalidade e do consumo de drogas. Todas estas são conseqüências do recente avanço do neoliberalismo.

Neste cenário de crise crescem e se desenvolvem os novos movimentos sociais. Enraizados nas tradições que antes mencionamos, porém tomados e exigidos pelas novas urgências e pela necessidade de dar respostas às demandas dos setores de base.

Não se pode deixar de lado que o ajuste e a rescisão neoliberal se fez também sobre a base da repressão institucional e, em alguns casos, com regimes autoritários.

Enquanto o movimento operário buscou reorganizar-se de maneira sumamente cuidadosa, com uma cautela que se misturou, mais de uma vez e conforme os casos, com negociações com o poder em busca da sobrevivência, o movimento estudantil praticamente desapareceu.

Apareceram, então, novas formas de organização, na forma de movimentos sociais, que no começo tomaram características próprias de reivindicações liberais muito rpóximas aos princípios da democracia tradicional (o voto, os direitos individuais, etc). Ainda que também pode-se advertir a continuidade das demandas mais clássicas, como a luta por melhores salários, a defesa da terra e a reforma agrária, entre outras.

Em um primeiro momento estes movimentos se localizaram fora dos partidos tradicionais, buscando sua própria autonomia, mas também para não contaminar-se com o desprestígio sempre crescente das forças políticas.

Os temas da agenda foram:

 A defesa dos direitos humanos
 O meio ambiente
 Os direitos da mulher
 A defesa das minorias
 A propriedade da terra

Estes novos temas se incorporaram aos anteriores e se misturaram, sem muita claridade na agenda dos movimentos, entre outras coisas porque se tornou difícil a articulação política e organizativa. Embora falou-se muito de “redes” e “articulações” nenhuma delas se conseguiu com facilidade, especialmente porque tornou-se difícil renunciar os interesses particulares e setoriais. Nisto haveria que contabilizar o déficit de atividade política que deixaram como seqüela as ditaduras e os governos autoritários.

Precisa-se levar em conta, no entanto, que em alguns casos, como no Brasil, gerou-se também um processo pelo qual os movimentos pretenderam dar um salto à política partidária. É o que aconteceu no Brasil através do PT como canalizador das iniciativas e das reivindicações dos movimentos diversos.

Outros, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) continuam afirmados na luta pelo território e pelos direitos do povo campesino. Sua vinculação com a política continua sendo reivindicativa, ainda que desenvolvam tarefas políticas em função de um projeto mais amplo, o olhar tende a fortalecer mais ao movimento em função dos objetivos próprios que a propor-se diretamente como objetivo a tomada do poder. Inclusive sua política de alianças tem mais a ver com o primeiro do que com a tomada de poder no Estado, ao que continua-se considerando em termos burgueses e distante da democracia popular.

Tão pouco há que desestimar o que tem significado como fenômeno novo a globalização da luta dos movimentos sociais. A realização dos Fóruns mundiais nos quais defendeu-se a idéia de “outro mundo possível” se converteu em um importante alimentos dessas iniciativas, mas também em uma possibilidade de intercâmbio, de crescimento, de enriquecimento dos diferentes atores.

A questão indígena requer uma referência particular, pois tem se tornado relevante em toda a região na última década. Certamente, um fato sumamente significativo foi o levantamento zapatista na selva Lacandoma no México em 1994. pela legitimidade das reclamações, mas também pela originalidade metodológica, o zapatismo, relacionando demandas indígenas e campesinas, tornou visível e alentou a emergência de outras manifestações culturais e políticas dos povos originários.

Hoje é preciso olhar com especial atenção ao governo Evo Morales na Bolívia, apoiado em um forte conteúdo étnico, porém também a emergência dos movimentos de raiz indígena no Equador, em bom diálogo com Correa, no Peru, onde foram brutalmente reprimidos, e no Brasil, onde não conseguiram transcender com suas reivindicações.

E nesta etapa a agenta voltou a enriquecer-se com novos temas. Assim começou-se a falar do indigenismo não somente como movimento reivindicativo étnico, mas também como crítica cultural, dos afroamericanos, das questões de gênero e meio ambiente e da qualidade de vida, entre outros.

4.3 A questão da intersubjetividade

Quando se fala destes novos movimentos sociais surge rapidamente o tema da intersubjetividade para explicar que a luta emancipatória destes grupos não se formula em termos de objetivos políticos encaminhados à tomada do poder, antes, pessoal, social e cultural. Disto também se desprende a agenda, onde aparecem temas diretamente vinculados a estas reivindicações: ambiente, qualidade de vida, direitos, justiça, paz, etc.

A categoria classe, próprias das litas inspiradas no marxismo, tem sido claramente deslocadas pelo conceito de setores e grupos sociais. Porém, ao mesmo tempo as reivindicações que se postulam vão desde a mudança do modelo global (uma aspiração muito além da luta pelo poder político imediato) até demandas locais (água, serviços, educação ou direito à comunicação)

Geralmente não existe um referente organizador que uma as diferentes demandas. Isto torna difícil a coincidência e a articulação, que vão além das articulações ocasionais ou conjunturais.

Existe, no entanto, um debate a respeito de se estas reivindicações são novas em si mesmas ou formam parte da agenda anterior e nunca concluída dos antigos movimentos sociais e políticos.

O que sim deve ficar claro é que diferentemente dos antigos movimentos que se moviam no espaço do Estado, estes novos movimentos reivindicativos se localizam claramente no cenário da sociedade civil. O acesso destes últimos ao estado acabou cooptando-os e absorvendo suas demandas como forma de controle por parte do poder político.

De fato, não é o caso de colocar uma falsa oposição ou uma opção entre uns e outros. São parte dos dinamismos presentes e complementários. É certo também que, até o momento na América Latina não se construiu opções políticas que permitam uma sinergia entre estes dois movimentos como parte da consolidação de uma alternativa política diferente. Pois seria equivocado pensar que da parte dos novos movimentos existe uma repulsa da política em seu sentido tradicional. Trata-se, ao contrário, de uma ampliação do sentido da política, que tem que ser complementaria de outras formas para gerar perspectivas de mudança.

Há nos novos movimentos outra concepção de poder e da forma de fazer política. Existe um regresso à idéia da base e da comunidade como origem e legitimidade da política, que orienta necessariamente em direção a outras formas de estruturar a organização e a distribuição do poder. Há aqui uma contradição importante com as velhas estruturas políticas e com sua metodologia de acúmulo do poder. Esta também é uma fonte de diferenças e uma tensão não resolvida.

Daí deriva também uma contradição real entre a tradicional democracia representativa e a democracia participativa que propunham os novos movimentos. O real é que uma não pode existir sem a outra. Aqui voltamos sobre o olhar anterior a respeito da busca da complementaridade e a sinergia.

Assim como assinala Martín Retamozo é preciso pensar “em duas lógicas de intervenção política” dentro das quais os movimentos sociais implicam “um processo de conformação de subjetividades coletivas, uma articulação de demandas e a consecução de processos de ação e identidade coletiva”. E acrescenta que “como forma de intervenção dos setores subalternos, os movimentos sociais podem ser concebidos operando no espaço da disputa da origem social, questionando certa estruturação que outorga nomes e determinados nós que seguram a ordem de dominação”.

5. Os governos “progressistas”

No final do ano passado se completaram dez anos da chegada de Hugo Chávez no poder (06 de dezembro de 1998). Foi este o acontecimento que inaugurou uma nova etapa nesta parte do mundo , o que denominaremos como governos “progressistas”.

Quais foram as características comuns que, indo além das diferenças, podem ser atribuídas a estes governos que chamamos “progressistas”?

1. O rechaço ao neoliberalismo e, de modo geral, a todas as políticas derivadas do Consenso de Washington
2. Políticas econômicas destinadas a consolidar a produção local e o mercado interno.
3. Complementariamente ao item anterior, um reforço dos processos de integração econômica regional e proteção de mercados.
4. Níveis mais elevados de integração política e atuação conjunta em defesa dos interesses deste grupo de países.
5. Reafirmação do sistema político democrático e tentativa de recriar a política mediante a integração dos movimentos sociais e organizações de base.

Nesta caracterização pode-se incluir os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Michelle Bachelet (Chile), Evo Morales (Bolívia) Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner (Argentina), Tabaré Vázquez (Uruguai), Rafael Correa (Equador) e finalmente Fernando Lugo (Paraguay). São, na verdade, estes sete presidentes os que sintetizam esta nova etapa latino americana.

Menção à parte mereceria a passagem de Martín Torrijos pela presidência de Panamá e o retorno de Daniel Ortega à presidência da Nicarágua.

Porém, seguindo o caso dos governos anteriormente mencionados, devem-se distinguir pelo menos dois processos bem diferenciados para fornecer conclusões semelhantes na política.

O primeiro caracterizou-se pela emergência dos movimentos sociais e populares, também aqueles gestados em tempos de resistência, derrotando dirigentes políticos e governos neoliberais.

Neste caso podem escrever-se Venezuela, Bolívia e Equador.

Diferentemente, tanto no Brasil, como no Uruguai a mudança produziu-se por um processo de acumulação eleitoral e de construção política de longo tempo realizada em um caso pelo PT e no outro pela Frente Ampla.

A Argentina é um caso particular, onde se somam diferentes fatores, porém com grande predominância do primeiro modelo. O Paraguai é uma combinação de ambos.

O pesquisador uruguaio Raúl Zibecchi caracteriza estes governos, apesar de suas diferenças, da seguinte maneira:

“1. (…) Têm algo fundamental em comum: a preocupação da centralidade do Estado, transformado em sujeito das mudanças.
“2. A marginalização dos movimentos que na década de 1990 e prencípios de 2000 eram os protagonistas da resistência neoliberal.
3. A contradição dominante passou a ser entre os governos e as direitas, uma mudança que arrastou os movimentos sociais para uma tormenta estatal da qual uma porção fundamental ainda não conseguiu sair.
“4. Existem algumas tendências, ainda dispersas, que apontam para a recuperação dos movimentos sobre novas bases e em base a novos temas e formas de intervenção.

Não somente aderimos a esta caracterização, mas também assumimos ao mesmo tempo em que se coloca uma questão entre os governos e estes movimentos, muitos dos quais, pelo menos numa primeira etapa, não puderam superar o risco da subordinação ao Estado.

No fundo desta análise o que continua vigente é a questão não resolvida da alternativa política em nossos países. De sete ou oito anos atrás, até esta data, a maioria de nossos países viveram períodos econômicos de crescimento nunca vistos antes, como resultado do crescimento dos preços internacionais de nossas matérias-primas. Melhorou nossa posição relativa no mercado internacional.

O anterior se refletiu em índices do PIB porém, tal como assinalamos no começo deste trabalho, não se traduziu em distribuições significativas da riqueza, apesar de que este propósito sempre esteve presente no discurso dos governantes de cada tempo.

Pode-se dizer, então, que os chamados governos progressistas, embora tenham dado passos importantes para sanar muitas seqüelas instaladas na ofensiva neoliberal, não puderam resolver questões econômicas de base, como é, em essência, a instalação de um modelo diferente que gere maior justiça e equidade. A economia melhorou em termos gerais, os índices são melhores para todos e como conseqüência disso também diminuiu a percentualmente a pobreza. Porém, as condições estruturais não variaram.

Como conseqüência, persiste o agudo processo de concentração da riqueza em poucas mãos, não se detiveram na saída de capitais e os limites à intervenção estrangeira na região são mais de cunho político e discursivo do que real.

Não obstante o anterior, está claro, tal como afirma Zibecchi, que o enfrentamento atual é entre os governos e as direitas, porque os grupos econômicos querem impedir, de todas as formas, a perda de privilégios e, inclusive, a derrota ideológica.

A nível político se nota maior autonomia em relação às potências externas à região, e maior construção coletiva de critérios comuns de política internacional. A integração avançou em termos econômicos (há maior complementação comercial e financeira) porém muito menos em outros níveis como o político, o social e o cultural.

Não existe também uma reforma do Estado que o posicione em outro lugar. Ainda que haja diferenças entre os países (Chile, por exemplo, tem um Estado mais eficiente em relação aos demais) não é possível devolver ao Estado tarefas que lhe foram tiradas, sem rediscutir o papel do Estado e fornecer-lhe as ferramentas e os recursos necessários. Este trabalho está pendente.

Porém, um dos grandes déficits destes governos tem sido, por diferentes razões, a reforma política. A Venezuela, com Chávez, pretende uma reforma político cultural para desterrar o modelo liberal republicano clássico. A Bolívia iniciou um caminho semelhante, porém está atravessada pela disputa étnica, territorial e econômica. O presidente Correa no Equador é quem parece avançar com maior firmeza, ainda que com maior prudência e lentidão, por esse caminho que supõe a difícil integração entre o novo e o velho, entre os novos movimentos e a antiga política. E isso deve-se fazer dando aos atores emergentes um papel protagônico que lhes permita conduzir o processo.

Tanto na Argentina quanto no Brasil uma das maiores dificuldades tem sido encontrar a maneira deintegrar os novos movimentos sociais na gestão política e na gestão do Estado. Em determinado momento pensou-se que estes movimentos poderiam oxigenar a política, reformá-la, dar-lhe outra tônica.

Hoje fica claro que as figuras chaves da política se repetem e, salvo exceções, as lideranças sociais não extravasam até as filas políticas e que as metodologias dos partidos não se modificaram de maneira substancial.

No Brasil, Argentina, Chile e Uruguai os processos eleitorais que se aproximam não garantem a consolidação do mesmo estilo de governo. Podem produzir-se, em todos estes casos, regressões importantes com a conseqüente restauração de práticas políticas e econômicas que exigiram grande esforço para serem transformadas.

A gestão de Fernando Lugo no Paraguai está rodeada de muita falta de recursos humanos e materiais. O processo político social ali é sumamente instável e não existem garantias que permitam olha o futuro com otimismo. Ninguém pode esquecer que a ditadura de Alfredo Stroessner ainda tem seus rastos marcados no cotidiano dos paraguaios e na sua cultura política. O desafiu é reconstruir o país. Tarefa extremamente difícil.

Em síntese, é preciso dizer que não há uma nova forma de fazer política que haja iluminado a sombra destes novos governos progressistas. Haverá que esperar, não obstante, a evolução da realidade na Venezuela, Bolívia e Equador onde parece gestar-se uma revolução político cultural de maior envergadura.

Sim haveria que trabalhar em cima dos aprendizados feitos, sobre as formas de participação popular, sobre as experiências de gestão, sobre as práticas de democracias participativa que vem sendo geradas. Há ali um caudal de experiências e uma massa crítica que não pode ser desaproveitada.

O Peru e a Colômbia mereceriam uma análise particular que não cabe neste trabalho. Basta dizer que no momento representam, especialmente Colômbia com a presidência de Uribe, o vozerio mais importante da visão neoliberal da história e os intérpretes mais claros dos interesses dos Estados Unidos na região.

6. Alguns temas para continuar aprofundando.

Sem nenhuma pretensão de concluir, queria deixar alguns temas abertos para o debate:

a. Foram feitos avanços no campo econômico, porém, a falta de reformas estruturais e a interdependência que instala o capitalismo global, não permitem afirmar a irreversibilidade dos avanços conquistados nos últimos anos em nossos países.

b. Em matéria política notam-se dois processos bem diferentes. Venezuela, Bolívia e Equador avançam em reformas políticas que têm componentes culturais muito fortes, apoiados nos indígenas, mestiços e afroamericanos. Nos demais países as reformas econômicas não foram acompanhadas por mudanças políticas de transcendência que melhorem a qualidade da participação e abram um novo tipo de liderança e de participação.

c. Os novos movimentos sociais aportam uma riqueza muito importante ao cenário, porque melhoram a agenda e regeneram a participação. No entanto, faltam modos de integração entre estes e a política para aumentar seu poder e capacidade de incidência em relação à gestão do Estado sem que por isso terminem sendo finalmente cooptados por este. Assim colocados, estes movimentos continuam ocupando a função da resistência e da crítica, porém distante da tomada de decisões.

d. O espaço da comunicação é um âmbito de luta simbólica pelo poder. Ali se constroem sentidos interpretativos e os diferentes atores buscam consolidar sua hegemonia a partir do discurso. Nos dias de hoje a comunicação é um âmbito controlado por grandes grupos econômicos concentrados e os setores e grupos populares estão totalmente à margem. Democratizar a comunicação e por em prática o direito efetivo à comunicação parece ainda uma meta muito distante, ainda que essencial à democracia.

e. Para além do discursivo, o processo de integração se fragiliza também pelo efeito da crise econômico financeira dos países centrais que geram o processo de retratação e políticas de proteção das economias nacionais que afetam o processo integrador. No econômico, para mencionar dois temas chaves, é preciso avançar mais rapidamente na idéia do banco comum e de uma moeda única para todos os países. São ferramentas indispensáveis que só se alcançarão diminuindo as diferenças relativas e com grande vontade política.

f. A integração de nossos países continua precisando de um olhar mais horizontal e não limitado à economia. Não há integração política horizontal e tampouco em outros aspectos sociais e culturais. A agenda da integração continua sendo econômica, quando não meramente tributária. Precisamos ferramentas políticas de integração construídas desde baixo e os movimentos sociais e as organizações populares têm que por o tema da integração na agenda de suas prioridades. Quem com maior consciência faz uma contribuição neste sentido, até agora, tem sido os povos indígenas, também porque superam o marco das reivindicações para fazer uma crítica cultural e radical a todo o sistema.

g. A crescente urbanização, o aumento da comercialização de droga e a indigência de muitos, fazem um coquetel sumamente perigoso que aumenta a criminalidade e a violência. Não aparecem alternativas à vista e antes que respostas integrais repetem-se receitas que propõe maior segurança somente com violência e repressão.

h. Existem grandes setores da juventude que, por todos os fatores mencionados vêem com pessimismo seu futuro e adotam uma atitude agressiva ao seu meio, que conduz a muitos episódios de violência de todo tipo. A sociedade e os dirigentes assistem com medo e desconcerto, quando não com xenofobia e demandas de repressão, estas situações para as quais não aparecem soluções sociais, políticas e econômicas à mão.

i. A questão ecológica, sobre a diversidade e a água como recurso indispensável está surgindo a cada dia com mais força. Outra vez são os povos originários os principais responsáveis por esta reivindicação. É preciso investigar, denunciar e debater uma agenda específica sobre estes pontos, convertendo-os em questão central do debate político.

Estes e, certamente outros são os problemas, mas também os desafios. Conjunturalmente vvive-se um momento de incertezas a respeito do futuro imediato. No entanto, existem reservas espirituais e políticas, para aprofundar e melhorar o caminho traçado nos últimos anos. Faz falta investir em criatividade e vontade para cimentar a solidariedade e a esperança. É necessário que os novos atores se unam, construam redes e alimentem os processos de integração ainda que por cima dos Estados e dos governos.

A tarefa será sempre a de preservar e construir. Sem pressa e sem pausa. Porque, como bem o escreveu Antônio Machado: “A história não caminha ao ritmo de nossa impaciência”. É preciso alimentar a esperança com a certeza de que o futuro é múltimplo e está por construir-se. O que hoje façamos configura o cenário de amanhã. E fazer a história é nossa principal responsabilidade. Porque, como diz Eduardo Galeano: “ao fim e ao cabo, somos o que fazemos para mudar o que somos”.

Curitiba (Brasil), 20 de junho de 2009.

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Bibliografia:

BORON, Atilio; “Globalización y problemas del desarrollo”, Conferencia dictada en el XI Encuentro Internacional de Economistas, La Habana, 2-6 marzo de 2009
DOS SANTOS, Theotonio; De la resistencia a la ofensiva: el programa alternativo de los movimientos sociales.OSAL 65, Año V no. 15, setiembre-diciembre 2004. http://168.96.200.17/ar/libros/osal/osal15/dossantos15.pdf.
Consultado 17.06.09
ZIBECCHI, Raúl; ¿Autonomía o nuevas formas de intervención? La compleja relación entre gobiernos y movimientos. 2009. http://www.ircaamericas.org/esp/5807 Consultado 28.05.09
Fonte:IHU