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segunda-feira, 15 de junho de 2020

MÚSICA - Grande Noel Rosa!


Enquanto no final de tarde de 11 de dezembro de 1910, Noel Rosa nascia em Vila Isabel, a Lapa com seus casarões antigos e cinzentos acordavam da sonolência diurna de pequenos comércios e de hotéis barato. Era chegado o momento de seus bares, restaurantes e cabarés iluminarem aquele bairro do Rio boêmio que fervilhava. E como fervilhava!!!
O largo da Lapa tornava-se praticamente intransitável, todo mundo bebendo, cantando e dançando, mesas nas calçadas, alegria, alegria, mas com todo respeito, uma beleza! Ponto de encontro obrigatório de boêmios, intelectuais e artistas, a Lapa possuía também suas Musas, e que fabulosas musas! As cocotes que viviam nas diversas “pensões imperiais”, como a da gorducha Madame Chouchou, saracoteavam em busca de admiradores e enfeitiçados.

Parto difícil, Noel Rosa nasceu à base de fórceps, e como resultado teve uma atrofia do maxilar inferior, deformidade que o atormentaria toda a vida.
Em 1928, ele termina o curso secundário no Colégio São Bento, tendo como colegas de turma de Lamartine Babo e Augusto Frederico Schmidt. Que belíssima companhia para um poeta e músico! Entende-se porque, ao invés de seguir com os estudos, Noel funda seu primeiro grupo musical, “O Bando dos Tangarás”.
Em 1930 foi matriculado quase que à força pela mãe na Faculdade de Medicina, mas por mais que a mamãe se esforçasse, Noel frequentaria a arte de Epidauro por apenas dois anos. Afinal, “prefiro ser um bom sambista a ser um mau médico”.
A mãe se desespera com o filho e esconde suas roupas de boemia. Graças e esse gesto materno, Noel compõe seu primeiro grande sucesso musical, “Com que roupa”. Afinal, tinha um compromisso para um samba de roda. Despois de compor, pulou a janela com a roupa de casa e a vila na mão.
Nos sete anos que ainda viveria compôs e musicou mais de duas centenas de músicas, muitas delas magistrais, foi o nascer do samba moderno pós- Sinhô, das modinhas carnavalescas e do samba-canção. Sempre, com pouco dinheiro executou seu próprio enredo: “O samba, a prontidão, e outras bossas/ São coisas nossas… são coisas nossas.”
Nosso mais genial compositor popular inspirou-se principalmente no cotidiano carioca das ruas da Lapa . Ademais, louvou em diversas composições o bairro em que nascera e viveu: Vila Isabel. Em 1935, nasce o “Feitiço da Vila”.
Desde a fuga da Faculdade, trocara o dia pela noite, amante da madrugada e de mulheres, muitas mulheres! Dentre suas maiores amigas estava Araci de Almeida; saiam juntos pelos botecos da Lapa para “tomar cerveja e comer batata frita, às vezes no bar do Alemão”.
Ademais da deformidade mandibular, outro problema, mais grave, o acompanha desde a puberdade: a tuberculose. Alimenta-se mal, sua mastigação é péssima. Quando as crises surgem, refugia-se em Nova Friburgo.
Foi num cabaré da Lapa, o Apolo, que em junho de 1934, ele conheceu uma de suas maiores paixões: a dançarina Ceci, a quem dedicou “Último desejo” e “Dama do cabaré”.
Figura presente em quase toda noite lapiana, Noel se encontrou muitas vezes com Agildo Barata, San Tiago Dantas, Jorge Amado, Cândido Portinari, Villa-Lobos, Sergio Buarque de Holanda, Mário de Andrade, enfim, o Brasil intelectual, artístico, moderno!
Num prédio ao lado do Beco das Carmelitas, morava Manuel Bandeira. “Beco das minhas tristezas/Não me envergonho de ti/ Foste rua das mulheres? Todas são filhas de Deus”.
No entanto, não somente intelectuais, artistas e boêmios circulavam pelo bairro. Os malandros também rufiavam pelas ruas da Lapa; a coragem e a perícia no manejo da “pastorinha” (navalha) eram atributos para a fama e o respeito pessoal. “Madame Satã”, um destemido e respeitado homossexual, foi o mais famoso deles. Cozinheiro, garçom, travesti e estrela do rebolado, segurança em casa noturna, passou por várias prisões desde que, em 1928, matou um policial que o desacatara. Malandro não se deixava desacatar e bandido era bandido, polícia, polícia.
Em suas Memórias, “Madame Satã” traçou um quadro do bairro: “Minha querida Lapa sempre me recebeu de braços aberto… Fiz amizade com Noel Rosa, Heitor dos Prazeres, Cartola, Nelson Cavaquinho, Chico Alves. Na noite e no mundo dos bordéis havia muitos viciados em tóxicos que definhavam, morrendo aos poucos nos braços da cocaína e outras drogas… E compravam mesmo era nas farmácias. Tinha ópio, cocaína… Enquanto a Pensão da Lapa cobrava 1,100 reis por uma cerveja, as farmácias cobravam 2,000 reis por 5 gramas de coca e uma ampola de heroína, 1,500.”
Em 1934, após a paixão por Ceci se apagar, Noel casou-se com a sergipana Lindaura Martins. Em 1935 compôs o imortal “Conversa de botequim”, ao lado da mulher, sua nova paixão.
Chega o ano de 1937. A aliança de Getúlio Vargas com a hierarquia militar e com as oligarquias regionais criou as condições para um golpe político com a implantação da ditadura. A polícia da ditadura do Estado Novo decide exterminar violentamente a baixa prostituição do Distrito Federal. Fecha, então, todos os bordeis da Lapa!
Para os donos do poder interessava a expansão dos negócios com a abertura dos Cassinos de luxo que em breve seriam inaugurados; o jogo passa a organizado com muito show, vedetes e muito, muito dinheiro. Logo, o polo noturno que a Lapa representava teria de entrar em vertiginosa decadência para que o mundo dos cassinos-hotéis surgisse. E foi isto o que aconteceu.
No mesmo ano em que a velha Lapa foi assassinada pela ditadura Vargas, em 1937, antes de completar 27 anos também falece em crise de hemoptise o poeta, compositor e sambista Noel Rosa, encerrando uma fase de nossa História artística. Como tantos outros, entretanto, um de seus últimos sambas, jamais será esquecido:
“Último desejo”:
“Nosso amor que eu não esqueço/
E que teve seu começo/
Numa festa de São João/
Morre hoje sem foguete/
Sem retrato e sem bilhete/
Sem luar, sem violão”.

E com a Lapa e Noel morriam também o espírito de uma época! O espírito da boemia carioca!

domingo, 3 de novembro de 2013

MÚSICA - “Sois rei”: como Roberto Carlos deixou vendidos os colegas do ‘Procure Saber’

Diário do Centro do Mundo


by Kiko Nogueira
Chico, Sérgio Ricardo, Gil, Roberto, Caetano
Chico, Sérgio Ricardo, Gil, Roberto, Caetano

Roberto Carlos deu um chapéu em sua turma do Procure Saber. No início de outubro, Caetano Veloso, o mais vocal do grupo de artistas, havia escrito em sua coluna no Globo que “a atitude de Roberto foi útil para nos trazer até aqui”. Deixava clara a ascendência de RC sobre os demais.
Todos se manifestaram. Faltava justamente ele. Até que Roberto apareceu no “Fantástico” falando que era a favor das biografias não-autorizadas -- desde que houvesse “ajustes” e “conversas”. O PS rachou.  No artigo de hoje, Caetano diz o seguinte: “E RC só apareceu agora, quando da mudança de tom. Apanhamos muito da mídia e das redes, ele vem de Rei. É o normal da nossa vida”.
Roberto ainda gravou um vídeo com Erasmo e Gilberto Gil, afirmando que tem o dever de buscar seus direito. Mas: “Sem censura prévia. Sem a necessidade de que se autorize por escrito quem quer falar de quem quer que seja.” Paula Lavigne foi afastada do papel de porta-voz e o advogado de Roberto, Kakay, assumiu o comando.
Roberto é autor o mito fundador do Procure Saber. Sua censura à biografia escrita por Paulo César de Araújo em 2007 é um clássico. É ele a grande referência, é ele quem dá o tom. O que todas as idas e vindas do Procure Saber revelaram, entre outras coisas, é que nunca se ouviu falar de entidade tão desencontrada. Além disso, ficou patente, indiscutível, o poder de Roberto sobre seus colegas de geração.
O que talvez pudesse ser visto como algo questionável -- seu controle doentio sobre sua imagem, a falta de transparência nas entrevistas e declarações, a paranóia -- era um modelo. Uma coisa é se espelhar numa carreira de sucesso e procurar aprender com isso. Outra é seguir alguém como se ele fosse um rei, inquestionável e infalível. E quando o rei muda de opinião?
Em homenagem ao Procure Saber, eis um papo entre RC, Chico e Geraldo André em 1966, publicado na revista Manchete. Está no livro Roberto Carlos Em Detalhes (que você pode baixar aqui).
Assim que chegou ao encontro, Roberto Carlos foi logo afirmando que o negócio dele não era falar e sim cantar, mas se dispôs a responder a todas as perguntas dos dois colegas. Chico Buarque abriu a conversa perguntando a Roberto Carlos se ele ia mesmo escolher umrepertório de música brasileira para gravar. "Bem, eu preciso pensar muito antes de fazer um repertório nacional", respondeu o cantor. "Por que pensar muito?", retrucou Vandré, fiel à sua ideia de que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. "Sabe o que é?", ponderou Roberto Carlos. "Acho que preciso ter muito cuidado, por já estar num género e de repente começar em outro. Não sei se teria de começar tudo de novo ou pegar a coisa pela metade. Seria assim um..." Antes de ele achar a palavra, Chico Buarque completou: "Um jogo?". "É. Um jogo", confirmou Roberto. "E você não gosta de jogar?", perguntou Chico. "Gosto", respondeu Roberto. 
Vandré, Roberto e Chico
Vandré, Roberto e Chico
"Então, por que não entra no nosso jogo?", provocou Vandré. "Estou na dúvida", confessou o cantor. "Você não acha que o grande prestígio que tem, sua grande popularidade, colocado a serviço da música popular brasileira, traria um grande benefício para ela?", insistiu Vandré. "Me alegra muito ouvir isso, principalmente partindo de você, Vandré. Mas fazer música, para mim, embora viva disso, não é um negócio. A música é a música. Ela não deve ser feita para servir a outros interesses. Ao menos a minha, eu só faço quando tenho vontade e do jeito que tenho vontade."
Aqui Roberto Carlos procurou marcar uma grande diferença de visão a respeito da música popular. Mas Vandré não aceitou a ideia de música pela música e questionou se Roberto não estaria ganhando dinheiro demais com a profissão. "Não posso me queixar. Mas não componho para faturar. Se faturo, é outro problema", respondeu o cantor. "De qualquer forma, deve ser bom faturar como você", provocou Chico Buarque. Roberto não se intimidou e partiu para o ataque lembrando o alto valor de cachê que Chico estava cobrando para se apresentar.
"Não é bom faturar, Chico Buarque?", devolveu Roberto. "Bom, lá isso é. Mas, não é essencial. Ou, ao menos, não é a única coisa importante para quem faz música", respondeu o autor de A banda. "E você, Vandré, o que diz quanto a faturar?", insistiu Roberto Carlos. "Com música, recebi pouco até agora", defendeu-se o autor de Disparada. "Mas seu nível de vida não é dos piores", questionou Roberto. "Tenho outra profissão. E minha vida não é fácil", defende-se Vandré. "Que profissão?", quis saber Roberto. "Fiscal da Sunab", respondeu Vandré.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

MÚSICA - Beatles.

A beatlemania, 40 anos depois, segundo o jornal L'Osservatore Romao


"Por que os Beatles são tão superiores? É fácil dizer que a maior parte dos seus concorrentes são lixo. Mais importante é afirmar que a sua superioridade é tangível: toda canção dos últimos três álbuns é memorável. Os melhores exemplares entre essas melodias memoráveis – e são um vasto percentual ("Here, There and Everywhere", "Good Day Sunshine", "Michelle" e "Norwegian Wood" já são clássicos) – suportam a comparação com às dos compositores da grande época da música: Monteverdi, Schumann, Poulenc".

A reportagem é de Gaetano Vallini, publicada no jornal L'Osservatore Romano, 14-11-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Que um famoso regente de orquestra como Riccardo Chailly afirme hoje amar os Beatles e que "Yesterday" lhe lembre a Terceira de Mahler não causa tanta admiração. Mas, em 1968, o compositor de música clássica Ned Rorem mostra certamente uma boa dose de coragem ao aproximar o nome dos Beatles aos dos clássicos da música "séria". Porém, o artigo do qual foi tirada a citação, publicada no dia 18 de janeiro na New York Review of Books, depois de anos de resenhas escritas com incontida suficiência pelos especialistas, abre finalmente um debate entre os adeptos dos trabalhos sobre o valor das composição da banda.

O artigo de Rorem pode agora ser lido no livro "Read The Beatles" (Roma, Ed. Arcana, 2010, 541 páginas), editado por June Skinner Sawyers, uma antologia de escritos da época sobre o impacto, a influência e a modernidade dos quatro rapazes de Liverpool que mudaram para sempre a face da música e da sociedade.

Por meio de mais de 50 artigos, ensaios, entrevistas e trechos de livros – alguns dos quais raros, outros conhecidos, como a entrevista de Jonh Lennon a Maureen Cleave para a Evening Standard de março de 1966, com a frase sobre os Beatles mais populares do que Jesus –, a organizadora percorre todo o arco da carreira dos Fab Four.

Principalmente os artigos dos primeiros anos são interessantes, entre exaltações tão imprudentes quanto proféticas, poucas na verdade, e críticas conformísticas e tranquilizadoras, bem mais numerosas. De fato, apesar do impressionante e inesperado sucesso, a opinião comum é de que os Beatles são só uma moda passageira que se exauriria rapidamente, como todas as manias dos jovens. Porém, não sem preocupação, já que o Daily Mail, abordando a beatlemania, se pergunta com uma certa ansiedade: "Para onde isso irá nos levar?".

A grande maioria se detém na exterioridade. No dia 18 de novembro de 1963, a Newsweek publica um artigo desprezível e anônimo – um dos primeiros nos EUA – que, depois de ter ironizado sobre o look dos Beatles, explica: "A sua música é um dos sons mais persistentes na Inglaterra, desde que as sirenes dos ataques aéreos não estão mais em funcionamento (...). É penetrante, tocada em um volume mais alto do que a razão humana e também é surpreendentemente repetitiva. Como o rock'n roll, ao qual se aproxima, causa mais efeito olhá-la do que escutá-la. Os rapazes se sacodem, saltitam e giram ao redor de si mesmos. Parece que uma vez até beijaram as guitarras".

Mas, no dia 1º de dezembro de 1963, na New York Times Magazine, Fredrick Lewis é mais moderado: "Na base, trata-se de rock'n roll, mas menos formal e levemente mais inventivo. O seu espetáculo, que inclui também discursos ao longo dos vários temas, é divertido e audaz", envolvendo "todas as classes sociais e todos os níveis de inteligência".

Há também quem veja na beatlemania uma "ameaça" para a sociedade, como Paul Johnson, que, na New Statesman do dia 28 de fevereiro de 1964, não se deixa impressionar pelo sucesso dos Beatles. Perturbado pelo "novo culto da juventude", o jornalista estigmatiza uma intervenção do ministro da Informação, William Deedes ("ex-aluno da prestigiosa Harrow School", precisa com sarcasmo), que, sobre os Beatles, não sem clarividência, havia dito: "Preanunciam um movimento cultural que está ganhando vida entre os jovens e que poderia começar a fazer parte da história do nosso tempo. Diante dos olhos de todos, está acontecendo algo importante e encorajador".

"Se os Beatles e os seus pares – lamenta Johnson – são aquilo que efetivamente a juventude britânica quer, não nos resta nada mais senão nos desesperar. Recuso-me a acreditar nisso (...). Há 16 anos, eu e os meus amigos havíamos escutado pela primeira vez a execução da Nona Sinfonia de Beethoven: lembro ainda hoje com entusiasmo. Não desperdiçamos nem 30 segundos do nosso preciosíssimo tempo com os Beatles e os seus semelhantes (...). O que o senhor Deeds não consegue entender é que a verdadeira nata do povo dos adolescentes, os rapazes e as moças que serão os verdadeiros criadores e líderes da sociedade de amanhã, não se aproximam nem de um concerto de música pop".

Ipse dixit. Mas já na época há quem se detenha no valor musical dos Beatles. Pioneiro é o artigo publicado no Times do dia 23 de dezembro de 1963. Seu autor é William Mann, que porém não o assina, talvez para não danificar a sua fama de crítica de música clássica. Mann define Lennon e McCartney como "dois jovens e talentosos musicistas" e faz isso falando de guitarras "frescas e harmoniosas", de um "uso alegre e frequentemente instrumental do dueto vocal", de "mudanças da superdominante de Dó maior para Lá bemol maior e depois a modais de extensão menor", que são a sua "marca de fábrica".

E depois de ter destacado que, "por décadas, as canções pop inglesas sempre foram reconhecidas com prestígio pelos EUA", o crítico indica que as músicas da dupla têm um "caráter indigno muito claro". Por isso, "a notícia de que agora os Beatles se tornaram os favoritos também do público norte-americano é carregada de uma certa e gratificante ironia".

Porém, a chegada triunfal dos Beatles aos EUA se contrapõe à atitude desprezível com a qual a imprensa mais tradicional os acolhe. "Dotados de um certo talento (...), os Beatles são 75% publicidade e 20% cortes de cabelo, mais 5% lamentos ritmados", escreve John Horn, crítico televisivo do New York Herald Tribune. "São, mais do que outra coisa, um número de magia, que deve menos à Inglaterra do que ao circo Barnum". O Washington Post os define como "assexuados e banais", enquanto o Washington Star descreve como "mínimo" o seu talento musical, acrescentando: "Nós jamais desenfornamos um Shakespeare, mas também jamais desenfornamos um Beatles".

Em 1964, entra em cartaz o filme "A Hard Days Night", precursor dos modernos videoclipes, e Busley Crowther, no New York Times, fala dele como de "uma comédia formidável". O sucesso é irrefreável, tanto que, na Cosmopolitan de dezembro, Gloria Steinem define os Beatles como "a única grande atração do mundo".

E isso nada mais é do que o começo. O melhor ainda está por vir. Depois de "Help" e de "For Sale", entre 1965 e 1966, chegam também "Rubber Soul" e "Revolver", os álbuns da definitiva passagem entre um velho (de apenas dois anos, mas que já mudou a música) e um novo que levará a uma verdadeira revolução.

Mas isso tem um preço. Em setembro de 19666, quando as vendas começam a cair durante aquela que se tornará depois a sua última turnê, a Time propõe a pergunta: "A Beatlemania acabou?". Pensa-se que, depois da novidade inicial, o fenômeno está se atenuando. Os Beatles, além disso, deixam as arenas pelos estúdios de gravação.

Mas depois chega "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band" (1967), e o efeito é devastador. Quase toda a imprensa mundial o saúda como a uma obra-prima. A Newsweek compara as músicas de Lennon e McCartney às obras de Alfred Lord Tennyson, Edith Sitwell e T. S. Eliot, enquanto o crítico teatral do Times, Kenneth Tynan, define o lançamento do álbum como a "um momento decisivo para a história da civilização ocidental". Não falta, porém, algumas vozes fora do coro. Richard Goldstein, no New York Times, define o disco como "fraudulento", sde "efeito geral sobrecarregado, que segue a moda e desordenado", levantando não poucas reações ressentidas.

O ano de 1968 traz novas turbulências conhecidas: nesse clima ardente, os Beatles gravam a primeira versão de "Revolution", depois inserida no "White Album", que não agrada à imprensa de esquerda por causa da sua ambivalência, mas que a Time considera "entusiasmante".

Mas os quatro já sentem que o fim está perto. Exatamente no tempo de realizar o belíssimo "Abbey Road" no verão de 1969, a separação é oficializada no dia 10 de abril do ano seguinte. Para quase todos no mundo, é um evento inesperado. "Porque – como escreve Mark Hertsgaard – os Beatles não representavam simplesmente a sociedade artística mais extraordinária do seu tempo, mas eram também o seu símbolo cultural mais importante".

Apesar disso, no momento do fim, os críticos se perguntam se a música dos Fab Four irá durar. "Logo, a próxima geração irá criar novos símbolos por meio dos quais irá se identificar, que terão pouco sentido para todos nós, para os quais os anos 1960 significaram tanto", escreve Dorothy Gallagher na Redbook em setembro de 1974, acrescentando melancolicamente: "Se a música dos Beatles, como grupo ou como solistas, irá sobreviver ainda é uma questão a ser descoberta. Mas, no que se refere a nós, podemos dizer que os Beatles marcaram as nossas vidas de modo indelével".