Obama: o ''Default Day'' e a maldição do terceiro ano
No coração deste possível Dia D ao contrário, o 2 de agosto do possível "Default Day" [dia do calote] norte-americano, está o drama de um homem que ainda busca a si mesmo depois de três anos de se tornar presidente: Barack Obama. Não conseguindo vencer o ataque, nem a contra-atacar nem a se definir com clareza, Obama é obrigado a se encerrar na arma final, no veto, como fez ontem, assustando os mercados já agitados.
A reportagem é de Vittorio Zucconi, publicada no jornal La Repubblica, 27-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Sobre ele, agravada por essa crise global da economia e das finanças, pesa a maldição do terceiro ano que atinge quase todos os presidentes norte-americanos. Dela, foram vítimas Reagan, Bush pai, Clinton e tragicamente John F. Kennedy, assassinado justamente no seu terceiro ano de presidência. É o momento em que as luas de mel já estão azedas há algum tempo, em que o Parlamento mudou frequentemente de sinal político nas eleições do meio turno, em que as promessas murcharam na realidade cotidiana, e a novidade do personagem – portanto, o seu carisma – se consumiu, enquanto já incumbe a campanha eleitoral para a reeleição.
Mas se as discórdias e as rixas são mais a normalidade do que a exceção na capital do agora "Império Frágil" – mesmo que não cheguem aos excessos ideológicos de grupos como o Tea Party –, nenhum dos antecessores de Obama jamais teve que se deparar com a possibilidade de ver em risco a credibilidade financeira da primeira potência econômica mundial.
Por isso, o apelo de surpresa lançado na segunda-feira à noite à nação em "horário nobre", no início da noite, e o novo anúncio de "veto" à solução proposta pelos republicanos haviam sido pensados para ser sinais de uma liderança forte. Mas, ao contrário, deixam a sensação de um crescente desespero. O Default da dívida seria o Default de Obama.
Um "truque", uma "saída" para frear o dólar e os Estados Unidos à beira do precipício serão encontrados, como prometem até mesmo os adversários de Obama, que sabem como jogar roleta-russa com a vida dos cidadãos sob os olhos do mundo e como parecem pensar os cerca de 65% de operadores financeiros que não acreditam no Apocalipse anunciado muitas vezes pelo próprio presidente. Mas o drama político que foi criado artificial e deliberadamente pela oposição, em torno de um evento de rotina como o aumento do teto da dívida, que o Congresso sempre havia votado (18 vezes apenas com Reagan, sete com Bush pai na Casa Branca), sem um gemido, sobreviverá à sua solução temporária. Deixará todas as dúvidas, as desilusões e as perguntas sobre a qualidade e a natureza da presidência Obama.
Também na ocasião desse duelo com a maioria republicana e o núcleo radioativo do Tea Party, tem sido difícil entrever quem é, o que quer, como pretende se mover hoje e no futuro o presidente. Grande inovador um dia ("Change!", mudança, exclamava o seu slogan) e cauto continuador das políticas do antecessor Bush no dia seguinte, reformista de manhã com magníficos programas para a saúde nacional e conservador à noite na instintiva busca do compromisso desorganizado por baixo, Obama conseguiu parecer sempre muito ideologicamente rígido aos olhos de quem o detestava e sempre muito acomodante aos olhos de que os adorava.
Parecia um Kennedy negro na retórica, depois um Clinton na astúcia manipuladora, depois um Carter bondoso no discurso do Cairo, depois um Bush belicista na guerra até a execução de Bin Laden. E, na segunda-feira à noite, tentou uma nova reencarnação, lançando um apelo por cima da cabeça do Parlamento rebelde diretamente ao povo norte-americano para que se mobilize, que era a fórmula cara a Ronald Reagan, sempre obrigado a se virar com um Congresso hostil.
Nos dias da discussão sobre o compromisso para a dívida, os impostos, os cortes, ele passou da paciência de Jó sempre exigida a todo chefe de um governo democrático por acessos de raiva, saídas de cena batendo a porta, bruscas convocações no seu escritório de líderes parlamentares e também bruscas demissões, que fizeram com que um comentarista especialista e moderado como George Will, no Washington Post, falar de tantrum, de caprichos de criança. O seu doloroso espanto diante da obstinação da poderosa minoria do Tea Party, os deputados de direita eleitos com o solene juramento de não aumentar nenhum imposto e de cortar os gastos públicos, hoje o rabo que abana o cachorro da oposição, deixou muitos intrigados.
Como se um presidente, um político de profissão, um advogado com títulos brilhantes, não houvesse entendido que "os extremistas fazem os extremistas, é o seu trabalho, como na parábola da rã e do escorpião", disse David Gergen, antigo navegador de muitos governos.
Obama, depois de três anos, é um prisioneiro da sua imagem. Ele vive no limbo entre a entusiasmante novidade revolucionária da sua própria pessoa e a banalidade deprimente da sua própria administração. É uma ilusão pensar que a pessoa corresponda com a ação, mas é a ilusão sobre a qual se vencem as eleições, na qual, a seu próprio risco e perigo, muitas vezes caem também aqueles que a criam.
Porém, ele deveria saber, justamente ele, que na sua própria vida sempre foi o homem dos compromissos e da mediação, que, para mediar e produzir um compromisso, é preciso estar em dois. Ele foi, portanto, "ingênuo", uma acusação pesada, escreve a mídia, pior "arrogante", ataca o Wall Street Journal de Murdoch. Ele colocou em evidência o defeito que já havia sido intuído na campanha eleitoral: a convicção de que a retidão das suas próprias teses deve, por força, prevalecer no debate e que os adversários sejam, antes ou depois, obrigados a reconhecer a validade dos seus argumentos.
"Como podemos pedir sacrifícios a quem tem menos para sanar as nossas contas, enquanto não pedimos nada a quem tem mais?", perguntou-se no seu discurso à nação, citando, justamente, Reagan, a sua última metamorfose. Parece óbvio, parece lógico, parece justo, e o é, dizer que, no momento em que se pede aos idosos, aos mais pobres, aos seus próprios eleitores que renunciem a qualquer fragmento da sua própria existência para salvar a pátria, aqueles que ganham mais de 250 mil dólares, os financiadores milionários dos hedge funds especulativos que pagam alíquotas fiscais mais baixas do que as suas secretárias ou o Big Oil que está acumulando lucros monstruosos devem jogar um chip no prato. Mas o óbvio, a lógica e a justiça jamais obtêm votos suficientes em um Parlamento onde triunfa a lei da sobrevivência eleitoral e da pureza ideológica.
O próximo dia 4 de agosto será o dia do seu 50º aniversário, que ele certamente gostaria de celebrar de uma forma muito diferente da que o espera. O "truque" técnico para evitar à América a humilhação do D-Day, do Default Day – ou também do primeiro rebaixamento do voto de confiança, o rating, por parte das agências de análise como a Standard & Poor's – provavelmente será encontrado. Mas a solução temporária será construída, senão contra ele, sem ele, garantindo que no próximo ano, na estrada das eleições, o mesmo problema, as mesmas armadilhas lhe serão reapresentadas. À espera que Obama, e ninguém mais, consiga responder à pergunta-chave do terceiro ano: quem é, verdadeiramente, Barack Obama?
Fonte:IHU
Carlos Augusto de Araujo Dória, 82 anos, economista, nacionalista, socialista, lulista, budista, gaitista, blogueiro, espírita, membro da Igreja Messiânica, tricolor, anistiado político, ex-empregado da Petrobras. Um defensor da justiça social, da preservação do meio ambiente, da Petrobras e das causas nacionalistas.
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sexta-feira, 29 de julho de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL - A impunidade persiste.
'Perguntar para desmascarar a elite', o método do diretor de Inside Job
Charles Ferguson, o ganhador do Oscar com Inside Job, o grande documentário sobre a crise sauda a irrupção do movimento 15-M e prepara um filme sobre a vida de Julian Assange.
Charles Ferguson nos ajudou a compreender melhor a crise financeira, apontou com o dedo quem foram os responsáveis. Mas enganam-se aqueles que pensam que Ferguson é de esquerda. É um milionário. Centrista. Liberal. Por mais que saude mobilizações como a de 15-M, o diretor de Inside Job não é nenhum revolucionário anticapitalista ou anti-sistema. É sim um homem que detesta aqueles que se enriquecem de forma ilícita.
Inside Job continua fazendo barulho. O boca a boca continua arrastando semana a semana expectadores aos cinemas. O documentário, didático, esclarecedor, incisivo, transforma a imagem que se tem de Wall Street. Ferguson retrata o grupo de homens que arruinaram conscientemente uma série de empresas para poder engrossarem suas contas correntes privadas. “Jogando” Banco Imobiliário arrastaram com a sua ganância milhares de pessoas humildes para a pobreza e que sofrem até hoje. Os ladrões de colarinho branco não pagam por seus delitos na prisão, lembrou Ferguson ao receber o Oscar de melhor documentário no dia 27 de fevereiro de 2011 no teatro Kodak de Los Angeles: “Desculpem, devo começar dizendo que três anos depois da terrível crise financeira causada por uma grande fraude, não há sequer um executivo financeiro que tenha ido para a cadeia, e isso é ruim”.
Fergurson concedeu entrevista ao El País, 29-05-2011. A tradução é do Cepat.
Você se considera um outsider?
- Obviamente sou um outsider para o mundo financeiro. Mas que tipo de outsider se pode ser quando se ganha um Oscar! (ri)
Sua trajetória da vida não é usual. Do Vale do Silício para Hollywood, dois mundos que se tocam, mas estão distantes. Charles H. Ferguson é um matemático que recebeu seu doutorado em ciência política, tornou-se um empresário de tecnologia e acabou descobrindo sua veia inciva de documentarista. Estudou matemática na Universidade de Berkeley (Califórnia). Recebeu seu Ph.D. em ciência política no prestigiado Massachusetts Institute of Technology – MIT. E se lançou numa carreira como consultor de várias companhias de tecnologia, entre outras, Apple, Motorola e Texas Instruments. “Foi uma fase extremamente interessante”, conta . “Passei muito bem a maior parte do tempo. Dediquei grande parte de minha vida para isso, me pagaravam bem para pensar e sugerir . Gosto do setor da tecnologia, encontrei-me com gente muito inteligente, extremadamente individualista, muitas vezes algo excêntrico... acabei decidindo que não queria isso para toda a minha vida, mas não lamento ter feito isso, desfrutei. Encontrei muitos outsiders ambiciosos. É interessante ver como a ambição em muitos casos se orienta para o negócio privado, mas há outros empreendedores que fazem coisas pelo bem comum”.
Esse é um dos motivos que lhe levaram a se interessar pela vida de Julian Assange. “Wiki Leaks é uma star urp, Assange é um empreendedor tecnológico, e seu projeto não visa o lucro. É um mundo que me resulta familiar e que aprecio explorar”.
Depois de ganhar o Oscar de melhor documentário com Inside Job, Ferguson prepara agora para a cadeia de televisão norte-americana HBO o longa metragem (ficção, não se trata de um documentário) sobre a figura de Assange: “Mas não posso falar sobre isso, estou apenas começando”.
O cineasta norteamericano disse que o líder do WikiLeaks lhe lembra de outros empreendedores no mundo da tecnologia: “Gente como Steve Jobs e Bill Gates tem em comum com Assange que todos abandonaram os estudos. É algo muito comum entre hackers e empreendedores tecnológicos. Começam seus estudos, sentem que estudar lhes parece algo chato e deixam”.
Em 1994, depois de trabalhar como consultor de empresas de ponta, assim como para o Departamento de Defesa norteamericano e a Casa Branca, Ferguson decidiu fundar sua propria empresa, Vermeer Technologies. A aventura não podia ser mais exitosa: colocou em funcionamento a Front Page, uma ferramenta para desenvolver sítios web e dois anos depois em 1996 a vendeu para a Microsoft por mais de 133 milhões de euros. Bingo!
A partir desse momento, se dedicou à pesquisa acadêmica e a escrever livros. Andava Ferguson desnorteado lá pelo ano de 2004, quando numa noite, segundou relatou The New Yorker Times, jantou com um repórter da revista New Yorker que lhe contou o que realmente estava acontecendo no Afeganistão. Descreveu um panorama do que acontecia muito diferente do que o governo Bush vendia para a opinião pública. Em vez de narrar a história através dos soldados, apostou em entrevistar o altos cargos próximos daqueles que organizaram a invasão. Uma fórmula que de, certo modo, repetiria em Inside Job: perguntar para a elite para desmascará-la. O secretario de Defesa Donald Rumsfeld e o seu adjunto Paul D. Wolfowitz sairam “queimados” do No end no sight, documentário que pagou do seu bolso (dois milhões de dólares) e que levou o prêmio especial do jurado do Festival de Sundance.
Ato contínuo passou a focar o setor financeiro. E olhar de novo “para cima”, tentar chegar até a elite. Ferguson submete os entrevistados a autênticos interrogatórios, põe o vilão contra as cordas; apenas que no seu caso, o vilão não é ficção, mas sim de carne e osso, vai levando-os às cordas e mais de um caí em contradições diante das câmaras.
Deve ter feito grandes amigos no setor financeiro...
- Bom, curiosa e supreendentemente há duas partes no mundo financeiro e uma delas gostou do filme. Por exemplo, Jamie Dimon do JP Morgan e William C. Dudley que foi o economista chefe da Federal Reserve.
Você ouviu falar das mobilizações que tem acontecido na Espanha. A plataforma que as convocou, Democracia Real Já o fez a partir do seguinte lema: “Não somos mercadorias em mãos de políticos e banqueiros”.
- Ouvi sim falar deles. É complicado responder, não conheço bem a situação na Espanha. O que está claro é que a Europa Ocidental e em particular os países do sul estão tendo grandes problemas políticos e econômicos. De certo modo, tem sido explorados pelo sistema financeiro e por suas lideranças políticas.
Acredita que este movimento crescerá?
- Sem dúvida, oxalá venham mais movimentos como o da Espanha. No Estados Unidos se vê pouca reação. O desemprego está em torno de 10%, o número oficial é de cerca de 15%, é muito alto, além disso se tem o problema das hipotecas. E quantos protestos acontecem nos EUA? Muito pouco. E quando houve de mudança política? Muito pouca. Estou surpreso e decepcionado. Eu não sei o que acontecerá com os protestos na Espanha e em outros países europeus, mas espero que saia algo de bom.
Do seu filme se deduz que o governo dos Estados Unidos está controlado por Wal Street e que continuamos nas mãos dos que provocaram a crise. Nessas condições, o que esperar?
- Infelizmente, são muitos os que estão inquietos, incluindo muita gente do setor financeiro, mas que não se manifesta publicamente. Algumas pessoas muito bem situadas e muito ricas do setor financeiro me dizem que em 10 anos poderá voltar acontecer o mesmo. Provavelmente não acontecerá “amanhã”, mas voltará a acontecer.
E o que deveríamos fazer?
- Deveríamos confrontarmo-nos com os nossos dirigentes e pedir mudanças, sair às ruas. Gostaria de ver isso nos Estados Unidos.
Ferguson disse que seu filme não conseguiu tudo o que ele gostaria, mas teve algumas conseqüências diretas. O Governo anunciou que vai investigar os responsáveis pela crise, disse ele. As faculdades da economia americana, que o documentário acusa de conluio com o setor financeiro, estão tentando resolver os seus conflitos de interesse.
Sobre o caso do ex-presidente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, um dos homens abordado pelo documentário, disse não acredita que tudo seja uma armadilha política. Sobre Bin Laden prefere não opinar.
O homem que sacudiu mentes com o seu filme, acha que o seu país entrou em uma perigosa deriva nos últimos 30 anos em direção a uma desigualdade crescente com o florescimento de fortunas desproporcionais conseguidas por meios desprovidos de qualquer ética. Dito isto, considera-se, basicamente, um centrista. "Eu acho que os mercados e as empresas podem desempenhar um papel produtivo e construtivo no mundo, vi isto no mundo da tecnologia”.
O empreendedor que “viajou” do Vale do Silício para Hollywood termina a conversa com um argumento semelhante ao que partilhou com aqueles que o viram receber o Oscar. "Acredito que aqueles que fazem enormes quantidades de dinheiro com atividades fraudulentas que levam a uma enorme crise financeira e a recessão deveriam ser punido por isso”.
Fonte: IHU
Charles Ferguson, o ganhador do Oscar com Inside Job, o grande documentário sobre a crise sauda a irrupção do movimento 15-M e prepara um filme sobre a vida de Julian Assange.
Charles Ferguson nos ajudou a compreender melhor a crise financeira, apontou com o dedo quem foram os responsáveis. Mas enganam-se aqueles que pensam que Ferguson é de esquerda. É um milionário. Centrista. Liberal. Por mais que saude mobilizações como a de 15-M, o diretor de Inside Job não é nenhum revolucionário anticapitalista ou anti-sistema. É sim um homem que detesta aqueles que se enriquecem de forma ilícita.
Inside Job continua fazendo barulho. O boca a boca continua arrastando semana a semana expectadores aos cinemas. O documentário, didático, esclarecedor, incisivo, transforma a imagem que se tem de Wall Street. Ferguson retrata o grupo de homens que arruinaram conscientemente uma série de empresas para poder engrossarem suas contas correntes privadas. “Jogando” Banco Imobiliário arrastaram com a sua ganância milhares de pessoas humildes para a pobreza e que sofrem até hoje. Os ladrões de colarinho branco não pagam por seus delitos na prisão, lembrou Ferguson ao receber o Oscar de melhor documentário no dia 27 de fevereiro de 2011 no teatro Kodak de Los Angeles: “Desculpem, devo começar dizendo que três anos depois da terrível crise financeira causada por uma grande fraude, não há sequer um executivo financeiro que tenha ido para a cadeia, e isso é ruim”.
Fergurson concedeu entrevista ao El País, 29-05-2011. A tradução é do Cepat.
Você se considera um outsider?
- Obviamente sou um outsider para o mundo financeiro. Mas que tipo de outsider se pode ser quando se ganha um Oscar! (ri)
Sua trajetória da vida não é usual. Do Vale do Silício para Hollywood, dois mundos que se tocam, mas estão distantes. Charles H. Ferguson é um matemático que recebeu seu doutorado em ciência política, tornou-se um empresário de tecnologia e acabou descobrindo sua veia inciva de documentarista. Estudou matemática na Universidade de Berkeley (Califórnia). Recebeu seu Ph.D. em ciência política no prestigiado Massachusetts Institute of Technology – MIT. E se lançou numa carreira como consultor de várias companhias de tecnologia, entre outras, Apple, Motorola e Texas Instruments. “Foi uma fase extremamente interessante”, conta . “Passei muito bem a maior parte do tempo. Dediquei grande parte de minha vida para isso, me pagaravam bem para pensar e sugerir . Gosto do setor da tecnologia, encontrei-me com gente muito inteligente, extremadamente individualista, muitas vezes algo excêntrico... acabei decidindo que não queria isso para toda a minha vida, mas não lamento ter feito isso, desfrutei. Encontrei muitos outsiders ambiciosos. É interessante ver como a ambição em muitos casos se orienta para o negócio privado, mas há outros empreendedores que fazem coisas pelo bem comum”.
Esse é um dos motivos que lhe levaram a se interessar pela vida de Julian Assange. “Wiki Leaks é uma star urp, Assange é um empreendedor tecnológico, e seu projeto não visa o lucro. É um mundo que me resulta familiar e que aprecio explorar”.
Depois de ganhar o Oscar de melhor documentário com Inside Job, Ferguson prepara agora para a cadeia de televisão norte-americana HBO o longa metragem (ficção, não se trata de um documentário) sobre a figura de Assange: “Mas não posso falar sobre isso, estou apenas começando”.
O cineasta norteamericano disse que o líder do WikiLeaks lhe lembra de outros empreendedores no mundo da tecnologia: “Gente como Steve Jobs e Bill Gates tem em comum com Assange que todos abandonaram os estudos. É algo muito comum entre hackers e empreendedores tecnológicos. Começam seus estudos, sentem que estudar lhes parece algo chato e deixam”.
Em 1994, depois de trabalhar como consultor de empresas de ponta, assim como para o Departamento de Defesa norteamericano e a Casa Branca, Ferguson decidiu fundar sua propria empresa, Vermeer Technologies. A aventura não podia ser mais exitosa: colocou em funcionamento a Front Page, uma ferramenta para desenvolver sítios web e dois anos depois em 1996 a vendeu para a Microsoft por mais de 133 milhões de euros. Bingo!
A partir desse momento, se dedicou à pesquisa acadêmica e a escrever livros. Andava Ferguson desnorteado lá pelo ano de 2004, quando numa noite, segundou relatou The New Yorker Times, jantou com um repórter da revista New Yorker que lhe contou o que realmente estava acontecendo no Afeganistão. Descreveu um panorama do que acontecia muito diferente do que o governo Bush vendia para a opinião pública. Em vez de narrar a história através dos soldados, apostou em entrevistar o altos cargos próximos daqueles que organizaram a invasão. Uma fórmula que de, certo modo, repetiria em Inside Job: perguntar para a elite para desmascará-la. O secretario de Defesa Donald Rumsfeld e o seu adjunto Paul D. Wolfowitz sairam “queimados” do No end no sight, documentário que pagou do seu bolso (dois milhões de dólares) e que levou o prêmio especial do jurado do Festival de Sundance.
Ato contínuo passou a focar o setor financeiro. E olhar de novo “para cima”, tentar chegar até a elite. Ferguson submete os entrevistados a autênticos interrogatórios, põe o vilão contra as cordas; apenas que no seu caso, o vilão não é ficção, mas sim de carne e osso, vai levando-os às cordas e mais de um caí em contradições diante das câmaras.
Deve ter feito grandes amigos no setor financeiro...
- Bom, curiosa e supreendentemente há duas partes no mundo financeiro e uma delas gostou do filme. Por exemplo, Jamie Dimon do JP Morgan e William C. Dudley que foi o economista chefe da Federal Reserve.
Você ouviu falar das mobilizações que tem acontecido na Espanha. A plataforma que as convocou, Democracia Real Já o fez a partir do seguinte lema: “Não somos mercadorias em mãos de políticos e banqueiros”.
- Ouvi sim falar deles. É complicado responder, não conheço bem a situação na Espanha. O que está claro é que a Europa Ocidental e em particular os países do sul estão tendo grandes problemas políticos e econômicos. De certo modo, tem sido explorados pelo sistema financeiro e por suas lideranças políticas.
Acredita que este movimento crescerá?
- Sem dúvida, oxalá venham mais movimentos como o da Espanha. No Estados Unidos se vê pouca reação. O desemprego está em torno de 10%, o número oficial é de cerca de 15%, é muito alto, além disso se tem o problema das hipotecas. E quantos protestos acontecem nos EUA? Muito pouco. E quando houve de mudança política? Muito pouca. Estou surpreso e decepcionado. Eu não sei o que acontecerá com os protestos na Espanha e em outros países europeus, mas espero que saia algo de bom.
Do seu filme se deduz que o governo dos Estados Unidos está controlado por Wal Street e que continuamos nas mãos dos que provocaram a crise. Nessas condições, o que esperar?
- Infelizmente, são muitos os que estão inquietos, incluindo muita gente do setor financeiro, mas que não se manifesta publicamente. Algumas pessoas muito bem situadas e muito ricas do setor financeiro me dizem que em 10 anos poderá voltar acontecer o mesmo. Provavelmente não acontecerá “amanhã”, mas voltará a acontecer.
E o que deveríamos fazer?
- Deveríamos confrontarmo-nos com os nossos dirigentes e pedir mudanças, sair às ruas. Gostaria de ver isso nos Estados Unidos.
Ferguson disse que seu filme não conseguiu tudo o que ele gostaria, mas teve algumas conseqüências diretas. O Governo anunciou que vai investigar os responsáveis pela crise, disse ele. As faculdades da economia americana, que o documentário acusa de conluio com o setor financeiro, estão tentando resolver os seus conflitos de interesse.
Sobre o caso do ex-presidente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, um dos homens abordado pelo documentário, disse não acredita que tudo seja uma armadilha política. Sobre Bin Laden prefere não opinar.
O homem que sacudiu mentes com o seu filme, acha que o seu país entrou em uma perigosa deriva nos últimos 30 anos em direção a uma desigualdade crescente com o florescimento de fortunas desproporcionais conseguidas por meios desprovidos de qualquer ética. Dito isto, considera-se, basicamente, um centrista. "Eu acho que os mercados e as empresas podem desempenhar um papel produtivo e construtivo no mundo, vi isto no mundo da tecnologia”.
O empreendedor que “viajou” do Vale do Silício para Hollywood termina a conversa com um argumento semelhante ao que partilhou com aqueles que o viram receber o Oscar. "Acredito que aqueles que fazem enormes quantidades de dinheiro com atividades fraudulentas que levam a uma enorme crise financeira e a recessão deveriam ser punido por isso”.
Fonte: IHU
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