Entrevista
Cuba pode tornar-se numa “Gaza silenciosa”?
No arranque da Assembleia Geral da ONU, Amy Goodman e Juan González entrevistaram o vice-minustro dos Negócios Estrangeiros cubano Carlos Fernández de Cossío, que acusa os EUA de tentarem “asfixiar o povo cubano até à submissão”.

Com o início da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, conversamos com o experiente diplomata cubano Carlos Fernández de Cossío, que afirma que a administração de Trump procura “asfixiar o povo de Cuba até à submissão”. Na sexta-feira, milhões de pessoas em Cuba ficaram sem energia elétrica, no que foi, pelo menos, o sexto grande apagão desde que o presidente Trump suspendeu os fornecimentos de combustível à ilha, em janeiro. O bloqueio de combustível vem somar-se ao embargo económico dos EUA, que já dura seis décadas, e às inúmeras tentativas de derrubar o governo comunista.
AMY GOODMAN: Muito obrigada por estar connosco. Ainda bem que estamos dentro da zona de 25 milhas em que você pode circular em Nova Iorque. Certo? A 25 milhas do Columbus Circle?
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: Do Columbus Circle, sim.
AMY GOODMAN: Em primeiro lugar, se puder falar sobre o que é — agora que o ministro dos Negócios Estrangeiros vai discursar na ONU — qual é a mensagem do governo cubano à administração Trump, numa altura em que esta está a endurecer as sanções económicas e o embargo?
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: Vamos dirigir-nos à comunidade internacional na ONU, não necessariamente ao governo dos EUA, mas os EUA fazem parte da comunidade internacional. Vivemos num mundo que se tornou muito perigoso, onde o expansionismo, a ambição de dominação e as tentativas de se apoderar dos recursos naturais dos países em desenvolvimento voltaram a ganhar destaque.
A ONU foi criada precisamente para que isso não acontecesse e desenvolveu-se precisamente para que isso não acontecesse; no entanto, essa é a realidade atual, em resultado de uma política externa concebida como paz através da força, o que implica impor a vontade dos EUA através da intimidação, da agressão, da coação e assim por diante. Portanto, esse é um ponto que precisamos de abordar.
Temos de falar sobre a situação difícil do povo de Cuba, porque a agressão dos Estados Unidos contra Cuba tem hoje uma dimensão humana muito grave. Falou sobre o apagão total que ocorreu precisamente na semana passada. Esse é um incidente em Cuba. Mais grave do que isso é a vida quotidiana dos cubanos, que já há muitos meses têm apenas duas a três horas de eletricidade por dia — uma situação que se acumula — e passam semanas sem água corrente. É extremamente incómodo e prejudicial para a vida quotidiana da nossa comunidade. E depois podemos falar sobre o seu impacto na saúde, na educação e, se tivéssemos tempo, eu poderia aprofundar tudo isso. Por isso, é algo que queremos levantar.A ONU tem uma posição de longa data sobre um tema intitulado a necessidade de pôr fim ao bloqueio económico dos Estados Unidos contra Cuba. No entanto, este continua em vigor e tem-se reforçado. Cuba está disposta a dialogar com os Estados Unidos — já o provámos; tradicionalmente, temos-lo feito — mas para resolver questões bilaterais, não para discutir uma tomada de poder em Cuba ou o controlo de Cuba, como se afirma frequentemente em Washington.
JUAN GONZÁLEZ: Senhor Vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros, gostaria de lhe perguntar sobre esta reportagemdo Times relativa a mais uma task-force da CIA. O governo cubano identificou ciberataques nos últimos meses ou anos, provavelmente provenientes dos Estados Unidos?
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: Sim, identificámos. E há décadas que a CIA recorre a task-forces, exércitos de mercenários, organizações terroristas e todo o tipo de esquemas para tentar derrubar o governo de Cuba. Por isso, não nos surpreenderia a criação da nova task-force de que se fala. Mas, sim, temos sido alvo de ciberataques.
JUAN GONZÁLEZ: Além disso, o Departamento de Estado acusou o governo cubano de, e cito, “conduzir uma campanha sustentada de subversão” contra os Estados Unidos, e alega que Cuba está a apoiar grupos como o National Lawyers Guild, a CodePink e os Pastors for Peace. Qual é a sua resposta a essas alegações?
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: O relatório do Departamento de Estado, se o lerem — não sei quantas pessoas o leram —, parece uma fábula. E atribui a Cuba o mérito de coisas que é impossível para uma nação como Cuba levar a cabo, ao mesmo tempo que desacredita os movimentos genuínos pela justiça, os movimentos genuínos pelos direitos civis e os movimentos genuínos até mesmo pela liberdade que existem nos Estados Unidos há décadas. Portanto, é um exagero tentar colocar Cuba na posição absurda de ser uma ameaça para a nação mais poderosa do mundo, e é também uma forma de obscurecer uma verdade muito clara e indiscutível: que, entre Cuba e os Estados Unidos, há um país que é o agressor e um país — que é Cuba — que está a ser agredido. E esse é o objetivo destes relatórios e alegações caluniosas do governo dos EUA.
AMY GOODMAN: Assim, de acordo com o Times, a CIA está a contratar mais agentes de campo que recrutam e gerem espiões, bem como agentes que conduzem operações cibernéticas e se especializam em operações secretas de influência. O Guardian noticiou recentemente que aliados de Trump e Rubio já começaram a disputar o controlo dos ativos de Cuba, caso o governo cubano ceda à pressão dos EUA. Parece-se um pouco com o que aconteceu com a Venezuela, e gostaria de saber se pode comentar sobre isso. Não estamos assim tão longe do local onde o presidente venezuelano e a sua esposa, a primeira-dama, se encontram presos.
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: Esquemas como estes têm-se verificado várias vezes nos últimos 60 e tal anos. Acabam sempre numa angariação de fundos e, por vezes, acabam por ser uma farsa. As pessoas querem ganhar dinheiro prometendo que vão distribuir terras, que vão disponibilizar este ou aquele banco e que vão repartir Cuba. Isso não vai acontecer. Isso implicaria tomar o controlo de Cuba. E faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para impedir que qualquer nação, os EUA ou qualquer outra, assuma o controlo de Cuba.
JUAN GONZÁLEZ: E houve mais alguma negociação entre os governos de Cuba e a administração Trump sobre as sanções ou sobre o bloqueio petrolífero?
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: Não podemos dizer que tenhamos tido negociações com os EUA. Tivemos contactos e realizámos algumas reuniões. Mas estas não avançam. Não se pode dizer que haja qualquer progresso ou avanço nestas reuniões se os EUA, semanal ou quinzenalmente, continuarem a impor sanções e medidas coercivas contra o povo de Cuba, punindo o povo de Cuba, e enquanto os EUA não forem capazes de chegar a um ponto em que respeitem Cuba pelo que ela é, uma nação plenamente soberana, e pudermos trabalhar em conjunto em questões bilaterais que sejam do interesse dos nossos povos, das nossas nações, e que possam ser significativas e — apesar das enormes diferenças — possam ser benéficas para ambos os países. Mas esse respeito — isso requer uma conversa séria e uma discussão, de forma responsável, sobre questões de natureza bilateral.
AMY GOODMAN: E quanto aos bombardeamentos que os EUA têm orgulhosamente divulgado contra navios nas Caraíbas e no Pacífico, contra barcos e embarcações, alegando que se trata de narcoterroristas e anunciando que mataram bem mais de 200 pessoas? Qual é a posição de Cuba sobre isto? E já falou com os Estados Unidos?
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: Temos uma posição pública clara: trata-se de terrorismo patrocinado pelo Estado, assassinato patrocinado pelo Estado. E embora nenhuma destas embarcações seja cubana, nem nenhum dos indivíduos envolvidos seja cubano, os EUA afirmam que se trata de traficantes de droga, sem qualquer prova, sem qualquer audiência, sem qualquer acusação. Simplesmente matam estas pessoas. Não é assim que as forças da ordem devem operar em nenhum lugar do mundo. É por isso que a chamamos de terrorismo patrocinado pelo Estado.
Mas a alegação mais importante no caso de Cuba é que utilizam as mesmas táticas para hostilizar alguns carregamentos que se dirigem a Cuba com combustível, por exemplo. Não os atacam, mas hostilizam-nos, e isso provoca medo. Provoca intimidação a atividades comerciais totalmente legítimas relacionadas com Cuba. E é uma extensão do bloqueio económico e energético que os EUA impuseram a Cuba.
JUAN GONZÁLEZ: Também me pergunto — aqui, a Assembleia Geral da ONU começa esta semana, e gostaria de saber quais são as suas preocupações, as preocupações do governo cubano, sobre o que está a acontecer na América Latina, à medida que um governo de direita após outro chega ao poder e acolhe os Estados Unidos na chamada guerra contra o terrorismo, que de repente também se deslocou para a América Latina. Quais são as suas preocupações quanto ao impacto na região?
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: Rejeitamos veementemente a Doutrina Monroe. Há uma história de patriotas cubanos que se opuseram à Doutrina Monroe. E não temos — não temos qualquer problema com governos de direita ou de esquerda que assumam o poder ou sejam eleitos na América Latina, desde que sejam o resultado da vontade deste povo. Mas a interferência dos EUA em diferentes países e governos da América Latina, e a tentativa de escolher ou influenciar quem é o líder desses países, é algo que encaramos com grande preocupação. E vemos, igualmente com grande preocupação, a ambição declarada por políticos estadunidenses de que os recursos naturais que pertencem aos povos da América Latina e das Caraíbas estejam sob o domínio dos Estados Unidos.
AMY GOODMAN: Gostaria de lhe perguntar, para terminar, sobre os peritos da ONU que comparam Cuba, chamando-a de “Gaza silenciosa” . Em agosto, peritos em direitos humanos da ONU condenaram o bloqueio a Cuba, instando a comunidade internacional a evitar, diria eu, que se venha a formar uma “Gaza silenciosa”. A mortalidade infantil em Cuba mais do que duplicou. Os seus comentários finais e, ainda, por falar em Israel, o ataque dos EUA e de Israel ao Irão?
CARLOS FERNÁNDEZ DE COSSÍO: Bem, em primeiro lugar, devo dizer que temos uma enorme simpatia e solidariedade para com o povo da Palestina. E o genocídio que está a ser cometido contra o povo da Palestina, basicamente em Gaza, apresenta números aterradores. É por isso que tentamos, por nossa parte, não fazer comparações.
Mas a abordagem no caso de Cuba, em diferentes dimensões, é semelhante: tentar asfixiar o povo cubano até à submissão, para satisfazer os interesses de um grupo muito restrito e influente nos Estados Unidos, não os interesses dos cidadãos estadunidenses no seu conjunto, nem os da segurança nacional dos Estados Unidos ou do bem-estar dos estadunidenses, mas sim os de um grupo restrito e influente, concentrado principalmente no sul da Flórida, embora não apenas lá. E está a tentar — mais uma vez — impor a vontade dos EUA através da asfixia e da fome.
Ora, a taxa de mortalidade infantil, o facto de ter quase mais do que duplicado, passando de 4 para 9,4 ou 9,5, implica que há recém-nascidos que morreram nos últimos dois a três anos e que não deveriam ter morrido. Num sistema de saúde pública robusto como o que Cuba possui, essas crianças teriam sido salvas. E isto não é — isto não é um dano colateral da política externa dos EUA. Trata-se de um dano deliberado e de um prejuízo intencional causados propositadamente pelo governo dos EUA. O secretário de Estado afirmou que fechará qualquer válvula de que a economia cubana disponha para tentar superar a situação atual, o que implica fechar qualquer válvula de oxigénio, para asfixiar o povo de Cuba.
Rejeitamos veementemente a agressão por parte de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão. Rejeitamos a agressão em geral em todo o mundo. Somos um país de paz e acreditamos que a paz e a compreensão entre as nações são o único futuro que a ONU pode almejar se quiser sobreviver e ter um mundo sustentável.
Entrevista publicada a 22 de steembro no Democracy Now!









