domingo, 16 de junho de 2019

GLOBO, A ADVOGADA DO JUIZ #meteoro.doc

POLÍTICA - Estratégia do Dr. Moro e do MP de "usar D. Marisa".


Estratégia de “usar D. Marisa” não foi de Lula. Foi de Moro e do MP

Lembra que você leu, nas trocas de mensagens de Deltan Dallagnol e do “decano” da Força-Tarefa, Carlos Fernando dos Santos Lima, sobre reforçarem o suposto fato de Lula ter “usado” a falecida mulher, D. Marisa Letícia, em seu depoimento a Sérgio Moro como forma de desqualificar o “showzinho da defesa” que acusam o ex-presidente de ter promovido? Reproduzo, acima, do Intercept.
Eu também não me lembrava, até que fui advertido por uma colega de que, naquele longínquo – para a memória – maio de 2017, foi exatamente o então juiz que conduziu insistentemente o depoimento para os atos de Marisa, chegando ao ponto de provocar uma reclamação de Lula por isso.
“Senhor Moro, é muito difícil para mim toda a hora que o senhor cita minha mulher sem ela estar aqui para se defender”.
Mas é possível recuperar isso pelo detalhado levantamento feito pela jornalista Milly Lacombe, publicado pelo GGN.
Basta correr os olhos para ver (o texto está abaixo) que Sérgio Moro se fixou em citar, citar e citar mais ainda a falecida mulher de Lula.
A esta altura, não é demais imaginar que foi outra armadilha apara, como fez Santos Lima no Estadão, dizer que era  “triste” que o ex-presidente, Lula,  tivesse “atribuído à sua mulher, dona Marisa Letícia, a intenção de adquirir o triplex em Guarujá, em seu depoimento”.
Algo quer rendeu uma capa sórdida da Veja e uma propaganda abjeta de uma loja de departamentos, dizendo que “a culpa não é da Marisa”.
Veja o relato de Milly, onde por 23 vezes Moro provoca o assunto “D. Marisa”:
10’54”: Moro cita dona Marisa a respeito da compra de apartamento no Guarujá. O advogado de Lula corrige o juiz e diz que o documento não fala em compra de um apartamento, mas em compra de uma cota. Lula então responde citando a mulher, já que a pergunta era sobre ela. Moro quer saber como dona Marisa comprou a cota, e Lula responde.
13’09” Moro cita dona Marisa outra vez e mostra documento com assinatura dela. O juiz explica que o documento foi rasurado, mas não sabe por quem.
14’25” Moro cita dona Marisa outra vez: “A sua esposa nunca mencionou [a intenção de adquirir um Triplex e não uma unidade simples]?”
17’30” Moro volta a citar dona Marisa.
18’25” Moro cita outra vez dona Marisa perguntando por que Lula e ela não celebraram a compra do apartamento como os demais cooperados da Bancop, e por que tampouco solicitaram de volta o dinheiro já dado. Lula responde citando a mulher.
19’08” Moro cita dona Marisa dizendo que o termo de adesão está assinado por ela.
19’54” Moro cita outra vez dona Marisa.
20’35” Moro volta a citar dona Marisa, outra vez sem que Lula tivesse falado nela.
21’43” Pela primeira vez no depoimento Lula cita a mulher sem ser perguntado. Diz que soube durante os depoimentos dos depoentes que em 2012 dona Marisa tinha autorizado que a OAS vendesse o apartamento.
23’12” Moro pergunta se Lula tinha visto o apartamento do Guarujá. Lula diz que foi uma vez em 2014. Moro pergunta com quem, Lula diz que com dona Marisa e com Leo Pinheiro.
24’08” Moro cita dona Marisa: “O senhor ou sua esposa solicitou uma reforma?” Lula diz que não.
24’25” Moro cita dona Marisa querendo saber se ela, ou Lula ou algum familiar tinha ido outras vezes visitar o imóvel. Lula diz que achava que dona Marisa tinha ido mais uma vez. Diz que sabe disso porque Fabio, o filho, contou.
25’02” Moro quer saber o motivo da visita.
25’33” Moro cita dona Marisa, dizendo que essa visita teria sido em Agosto de 2014.
25’50” Moro pergunta se Lula ou dona Marisa orientou reformas no apartamento. Lula diz que não, mas que quando ele esteve no apartamento apontou muitos defeitos.
26’50 Lula diz que dona Marisa não gostava de praia, respondendo a pergunta de Moro a respeito da decisão deles sobre ficar ou não com o apartamento. Lula explica que dona Marisa talvez tivesse interesse no apartamento como investimento.
27’15” Lula diz que não comunicou a OAS que não tinha interesse no imóvel porque dona Marisa estava em dúvida se o queria ou não.
27’33” Moro quer saber se depois da segunda visita dona Marisa resolveu ficar com o apartamento. Lula explica que só soube depois que dona Marisa tinha feito uma segunda visita ao imóvel.
28’10” Moro cita depoimento de Lula no primeiro inquérito (do da condução coercitiva) e fica claro que Lula dava as mesmas explicações a respeito do apartamento, inclusive com as citações a dona Marisa, estando ela viva na época.
30’47” Moro diz que Lula disse que decidiu não ficar com o apartamento depois da visita de dona Marisa. Lula explica que ele está falando as mesmas coisas em ambos os depoimentos (portanto, citando dona Marisa da mesma forma, quando ela era viva e agora)
31’30” Moro cita dona Marisa, querendo falar outra vez da segunda visita que ela fez ao apartamento. O advogado de Lula interrompe dizendo que Lula acabou de explicar exatamente isso. Lula volta a explicar e dessa vez diz: “Lamentavelmente, ela [dona Marisa] não está mais viva para eu perguntar”
32’17” Moro cita dona Marisa falando do primeiro depoimento de Lula, o da condução coercitiva, ocasião em que o delegado quis saber se dona Marisa esteve no apartamento para ver se cozinha e elevador tinha sido instalados. Moro então pergunta se dona Marisa contou a Lula sobre o estado do apartamento. Lula diz que não.
34’25” Lula, impaciente, cita dona Marisa, dizendo que vai repetir o que vem dizendo: “O apartamento estava no nome da minha mulher , ela queria fazer negócio”.
34’36” Moro quer saber se Lula sabe se dona Marisa comunicou formalmente a OAS que não queria mais o apartamento. Lula diz não saber.
37’40” Lula reclama da Lava Jato, dos métodos da operação, e Moro pede que Lula tenha paciência. Lula diz: “É que perguntar coisas para mim de uma pessoa que já morreu é muito difícil”. Moro, solidário, diz: “Eu imagino”.
38’00” Moro cita dona Marisa falando das visitas ao apartamento e ligando as reformas do Guarujá e de Atibaia. Lula explica que o sítio é um outro processo, o advogado de Lula pede que Moro se atenha ao processo do triplex.
47’40” Moro cita dona Marisa, supostamente mencionada como “a dama” em conversa entre executivos da OAS. Na conversa, “a dama” teria aprovado o projetos das reformas da cozinha do Guarujá e de Atibaia. Lula diz que não pode responder por mensagens trocadas entre terceiros.
52’00” Moro cita dona Marisa dizendo que os projetos das reformas das cozinhas do sítio e do Guarujá teriam sido submetidas a ela. Lula diz que não tomou conhecimento disso.
1h06” 30” Moro cita dona Marisa.
1h10’01” Moro cita dona Marisa
1h11’10” Moro mostra documento com assinatura de dona Marisa feita em 2009 e pede explicação para as circunstâncias dessa assinatura. Lula analisa documento e diz ter a impressão que dona Marisa autorizou a venda do apartamento somente em 2012.
1h14’04” Lula diz: “Senhor Moro, é muito difícil para mim toda a hora que o senhor cita minha mulher sem ela estar aqui para se defender”. Moro diz que não está acusando dona Marisa, Lula diz que sabe, “mas o senhor me pergunta se eu vi, se não vi… sabe? Uma das causas que ela morreu foi as pressões que sofreu então não quero mais discutir isso”
1h15’02” Moro cita dona Marisa sobre pedido de restituição dos valores pagos até ali
1h17’50” Moro cita nota do Instituto Lula que fala do ressarcimento do montante pago. Nota é de 2014, quando dona Marisa estava viva.
1h 29’ 09” Moro cita dona Marisa. Lula repete o que está dizendo desde o primeiro depoimento em relação a dona Marisa.
3h01’ Lula cita Marisa dizendo que na época em que ela comprou a cota do apartamento o presidente da Bancop era João Vaccari Neto, em resposta à pergunta feita pelo representante do MP a respeito da relação entre Lula e Vaccari.
3h01’50” Representante do MP cita dona Marisa a respeito de nota divulgada pelo Instituto Lula sobre o apartamento no Guarujá, assunto que já havia sido tratado por Moro minutos antes. Lula responde usando o nome de dona Marisa, já que foi essa a pergunta.
3h03’05” Em nova resposta ao representante do MP Lula diz que quem cuidava das coisas do apartamento era dona Marisa, e que por isso não tinha conhecimento de como a cota foi paga, e explica o que tem explicado há algum tempo: que foi dona Marisa que comprou a cota.
3h08’55” Lula explica ao representante do MP, respondendo pergunta sobre visita ao apartamento do Guarujá, que dona Marisa autorizou a cota do apartamento a ser vendida.
3h12’04” O representante do MP cita a visita que dona Marisa fez ao apartamento com o filho Fabio e quer saber de quem foi a iniciativa para essa visita. Lula diz que deve ter sido de dona Marisa, mas que ela não comentou com ele. Lula explica outra vez que a cota era de dona Marisa.
3h22’27” Lula volta a dizer que quem comprou a cota foi dona Marisa, repetindo o que disse no primeiro depoimento, quando ela estava viva.
A partir daí, dona Marisa não é mais citada.
Não é possível adivinhar se foi expressamente combinado, mas é possível ter certeza de que foi sórdido.
A conclusão de Milly Lacombe, há dois anos atrás, sem saber – como todos nós – que as citações a D. Marisa seriam usadas para fazer Lula parecer um covarde.
Fica claro, portanto, que quem trouxe dona Marisa ao depoimento foram o juiz e o MP, que Lula usou o nome da ex-mulher em respostas, e que ele não disse nada diferente do que já havia dito no primeiro depoimento, quando dona Marisa ainda estava viva.
A narrativa de que Lula culpou a ex-mulher diante de Moro é cínica e covarde, e usar uma mentira para criar capa de revista e campanha publicitária é moralmente indecente.
Mas, mais do que isso, é apenas uma desesperada tentativa de alienar a opinião pública, sedenta por sentenças, e, com isso, tentar fazer com que ela não enxergue a completa falta de provas para condenar Lula pelo triplex do Guarujá.
O jogo é muito, mas muito sujo.

Veja pede punição de Moro

Glenn Greenwald revela a farsa da Lava Jato

Bom dia 247 (16.6.19): Globo já detona Moro

POLÍTICA - As contradições na defesa do Moro e do MPF.

Publicado originalmente no Brasil de Fato
Os vazamentos de conversas do então juiz Sérgio Moro com integrantes da força-tarefa da Lava Jato no Paraná em 2017, revelados pelo The Intercept Brasil desde o último dia 9, têm provocado reações contraditórias entre aqueles que são acusados de conluio e perseguição ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Moro, atual ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro (PSL), adotou primeiramente a estratégia de minimizar a relevância das reportagens, sem colocar em xeque a veracidade do material. No dia seguinte aos primeiros vazamentos, o ex-juiz disse que suas falas foram “retiradas de contexto” e que “não se vislumbra qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado”.
Em entrevista ao Estadão, na noite de quinta-feira (13), ele apresentou duas argumentações paralelas. A primeira dá a entender que as mensagens divulgadas pelo The Intercept poderiam ser falsas. “Não posso reconhecer a autenticidade dessas mensagens”, disse. “Não sei, por exemplo, como é que atribuíram aquelas mensagens a Moro, de onde que veio isso, esse Moro, da onde que veio o Deltan [Dallagnol, coordenador da força-tarefa da operação Lava Jato no Paraná]”.
No entanto, na mesma entrevista, o ex-juiz volta a sustentar a hipótese de que as conversas carecem de contexto e relativiza a importância das mensagens trocadas com integrantes da Lava Jato. “Se os fatos são tão graves como eles dizem que são, até agora não vislumbrei essa gravidade”, completa.
O próprio The Intercept Brasil, em sua reportagem mais recente, ressalta essa contradição: uma vez que as mensagens são falsas, como poderiam ter sido “retiradas de contexto”?
No dia seguinte, após cerimônia na Polícia Rodoviária Federal, em Brasília (DF), Moro admite ter indicado ao procurador Deltan Dallagnol, do Ministério Público Federal (MPF), uma pessoa “aparentemente disposta” a falar sobre imóveis relacionados ao ex-presidente Lula. “Eu recebi aquela informação, e aí sim, vamos dizer, foi até um descuido meu, apenas passei pelo aplicativo”, confessou.
A hipótese do hacker

Na segunda-feira (10) pós-vazamento, a força-tarefa da Lava Jato emitiu nota na qual diz ter sido alvo de um ataque hacker. Em nenhum momento, o portal The Intercept Brasil disse ter obtido o material por meio de hacker ou profissional com especialidade semelhante. O premiado jornalista Glenn Greenwald lançou mão de um expediente comum no jornalismo, que é garantir que seu informante seja mantido em anonimato.
“[As reportagens foram] Produzidas a partir de arquivos enormes e inéditos — incluindo mensagens privadas, gravações em áudio, vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens — enviados por uma fonte anônima”, explicaram os editores do portal ao lançar a série.
Apesar da preocupação com a segurança dos procuradores, expressa na nota da força-tarefa, Dallagnol se negou a entregar seu celular para ser periciado pela PF, dificultando o diagnóstico da suposta invasão do aparelho.
O também procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, interlocutor de Moro no vazamento mais recente, optou pela linha argumentativa de questionar a autenticidade do material divulgado pelo The Intercept: “Desconheço completamente as mensagens citadas”, disse em nota oficial publicada na noite da última sexta-feira (14).
A versão de Lima entra em choque com a nota da força-tarefa que ele integra: se as reportagens foram baseadas na atuação de um hacker, então o conteúdo seria original – o problema estaria nos meios de obtenção das conversas.
Questionado por internautas sobre a fragilidade da argumentação, Lima voltou a apresentar argumentos conflitantes em uma nova postagem nas redes sociais, às 14h de sábado (15): “Não reconheço qualquer diálogo. Não devemos acreditar no greenwaldismo, nesse esforço de desinformação e difamação. Esse pseudo jornalista deve entregar o meio pelo qual recebeu, se é que recebeu, o material para ser periciado”, finalizou.
Na manhã deste domingo (16), o The Intercept Brasil publicou um editorial respondendo às polêmicas e ironizando a hipótese levantada pela Lava Jato e pela Rede Globo. “A grande preocupação dos envolvidos agora, com ajuda da Rede Globo – já que não podem negar seus malfeitos – é com o ‘hacker’. E também nunca vimos tantos jornalistas interessados mais em descobrir a fonte de uma informação do que com a informação em si. Nós jamais falamos em hacker. Nós não falamos sobre nossa fonte. Nunca”, ressaltam os editores do portal.

POLÍTICA - "O batom na cueca".

A

Intercept: Faltava o batom na cueca, não falta mais; a Lava Jato usou o Judiciário para fins políticos


16/06/2019 - 13h57

A LAVA JATO USOU O JUDICIÁRIO PARA FINS POLÍTICOS
SUSPEITAVA-SE que a Lava Jato era um grupo político articulado entre membros do Ministério Público e o judiciário. Os indícios apontavam um conluio entre procuradores e um juiz que atuava para influenciar o jogo político-partidário e manipular a opinião pública. Faltava o batom na cueca. Não falta mais.
Os diálogos revelados pelo Intercept mostram que a Lava Jato desfilava como uma deusa grega da ética na sociedade, mas atuava à margem da lei na alcova.
Em nome do combate à corrupção, o conluio atropelou princípios jurídicos básicos e arrombou o estado de direito. As provas são tão explícitas que não há mais espaço para divergências.
A Lava Jato usou indevidamente o aparato jurídico para atender interesses políticos. O Código de Ética do Ministério Público, o estatuto da magistratura e a Constituição foram todos burlados. É um caso claro de corrupção.
Durante o processo que levou um ex-presidente para a cadeia, o juiz orientou, recomendou alterações de estratégias, antecipou uma decisão e até indicou uma testemunha para acusação.
A defesa, que reiteradamente pediu a suspeição do juiz, fazia papel de trouxa enquanto ele e o procurador combinavam estratégias de acusação pelos seus celulares.
No grupo do Telegram batizado de “Incendiários ROJ”, integrado por procuradores da Lava Jato, Dallagnol demonstrava preocupação com a principal prova da acusação.
A convicção demonstrada em público contrastava com a insegurança no escurinho do Telegram.
As conversas mostram a obsessão de Dallagnol em manter o caso de Lula nas mãos de Moro a qualquer custo. Os “incendiários” tinham plena consciência de que estavam ultrapassando os limites da irresponsabilidade.
Moro e Dallagnol enganavam a opinião pública quando em diversas oportunidades garantiram a lisura do processo.
O réu não teve direito a um julgamento justo e imparcial. Os diálogos revelam uma articulação de estratégias para condená-lo mesmo antes da apresentação da denúncia.
O processo foi corrompido, comprometendo o julgamento das instâncias superiores. Qualquer interpretação diferente dessa está fadada ao ridículo e cairá na lata do lixo da história.
O juiz e os procuradores se viam como heróis com uma missão: “limpar o congresso”.
Mas essa limpeza era seletiva. A Lava Jato criaria aliados na política. O então deputado Onyx Lorenzoni dos Democratas se tornou um deles. Ele foi o principal apoiador das “Dez medidas contra a corrupção” — o projeto de lei criado pelos procuradores lavajatistas disfarçado de iniciativa popular.
Quando perguntado pelo Estadão sobre a intenção de “limpar o congresso”, Sergio Moro se mostrou inseguro. Primeiro não reconheceu a autenticidade da frase. Depois a justificou. E, por fim, afirmou não lembrar se é o autor.
Estadão: Em um diálogo que lhe é atribuído, o sr. fala em limpar o Congresso. O sr. reconhece essa fala como sua?
Moro: Não, não reconheço a autenticidade desse tipo de afirmação. Vamos dizer assim, em uma conversa coloquial, pode ser até algo que se diga “olha, tem um problema”. Vamos dizer que estamos falando de um Congresso que na época tinha o Eduardo Cunha como presidente (da Câmara), uma pessoa que comprovadamente cometeu crimes, tinha contas milionárias na Suíça, então era uma situação bastante diferente. Mas eu não tenho como recordar se há dois, três anos atrás eu tenha efetuado uma afirmação dessa espécie.
O uso do poder do Estado para interferir nas eleições também está explícito nas conversas entre procuradores. Faltando 12 dias para a eleição, os lavajatistas traçaram estratégias para impedir a entrevista de Lula e dificultar a vitória de Haddad.
Moro chega a chamar réus de “inimigos” em uma conversa com Dallagnol. Está tudo ali, textualmente.
Meses depois, a Lava Jato emplacou um ministro da Justiça no governo Bolsonaro. Onyx acabou virando colega de trabalho de Sergio Moro, que o perdoou publicamente pelos casos de caixa 2 (inclusive o da JBS, uma das empresas investigadas pela Lava Jato).
Haverá alguém capaz de continuar negando as intenções políticas da operação?
Acreditava-se que Moro trabalhava como linha auxiliar da acusação, mas ficou claro que ele era o chefe da Lava Jato.
Ele dava broncas, cobrava ações e recomendou a Dallagnol que enquadrasse uma procuradora que apresentou mau desempenho nas audiências.
Dallagnol prestava reverências a Moro, muitas vezes usando um tom messiânico: “A sociedade quer mudanças, quer um novo caminho, e espera líderes sérios e reconhecidos que apontem o caminho. Você é o cara”.
Em um dos trechos do vazamento, Dallagnol revela que teve uma conversa — “reservada, é claro” — com o ministro do STF Luiz Fux.
Nessa época, Moro tinha sido duramente criticado pelo ministro Teori Zavascki, morto num acidente aéreo em 2017, que questionou sua imparcialidade após a divulgação ilegal do áudio da conversa entre Dilma e Lula.
Dallagnol conta para os procuradores que “Fux disse quase espontaneamente que Teori fez queda de braço com Moro e viu que se queimou”.
Ou seja, segundo Fux, na queda de braço entre um juiz de primeira instância que cometeu ilegalidade e um juiz da suprema corte, venceu o primeiro. Esse é o tamanho do poder que Sergio Moro tem sobre o judiciário brasileiro.
Dallagnol revelou ainda que, segundo Fux, os procuradores da Lava Jato podiam contar com ele o que fosse preciso. A força-tarefa contava com um homem de confiança no STF.
As palavras de Dallagnol deixam claro que Fux não se debruçaria sobre o mérito no caso, mas atuaria de acordo com o que foi combinado com o conluio lavajatista. Ao saber da conversa, Moro comemorou “In Fux we trust” (No Fux, a gente confia).
As primeira reações de Moro e Dallagnol com a Vaza Jato foram reveladoras.
Nenhum deles negou as conversas, o que sugere uma confissão indireta da autenticidade. Preferiram minimizar o conteúdo dos diálogos e investir na imagem de vítimas de violação de privacidade.
Sergio Moro, chamado de “russo” pelos procuradores, não viu “nada demais” na reportagem, mas considerou “bastante grave” a “invasão e a divulgação”.
Em entrevista a Pedro Bial em abril, o ministro da Justiça deu uma opinião diametralmente oposta sobre o vazamento ilegal da conversa entre Lula e Dilma: “o problema ali não era a captação ilegal do diálogo e sua divulgação. O problema era o conteúdo do diálogo.”
O desespero tomou conta da força-tarefa. Três notas foram emitidas após a publicação da reportagem, enfatizando a “ação criminosa de um hacker” — o que era apenas uma suposição.
Sem ter como negar os fatos, a Lava Jato iniciou uma guerra de narrativas. Manchetes sobre hackers invadindo celulares de procuradores passaram a pipocar no noticiário, numa tentativa de jogar areia nos olhos da opinião pública.
Relacionar essas invasões com o que foi publicado pelo Intercept não serve a outro objetivo senão embaçar a realidade.
Moro e Lava Jato mudaram a versão inicial. Passaram a dizer que os hackers poderiam ter adulterado os conteúdos, mesmo após não terem negado nem uma vírgula. Essa não vai colar.
A força-tarefa teria totais condições de comprovar a adulteração. Bastaria resgatar os arquivos das conversas no Telegram e comparar com o que foi publicado.
Curiosamente, a maioria dos procuradores que foram alvos de ataque cibernético, incluído Dallagnol, tem relutado em entregar seus celulares para a perícia da Polícia Federal.
A Globo, como tem sido costume da imprensa nos últimos anos, abraçou integralmente a versão lavajatista e atuou como gestora de redução de danos. Uma suposta invasão de hackers ganhou mais relevância no noticiário global que o hackeamento da ordem jurídica comandado pela Lava Jato. Minimizaram um fato e maximizaram uma suposição.
No dia seguinte à publicação da Vaza Jato, O Globo deu o mesmo peso de importância para as “conversas de Moro com procuradores” e para a “ação de hackers”.
Diferentemente do que aconteceu em 2016, quando o jornal publicou a conversa entre Lula e Dilma na capa do jornal sem sequer citar a ilegalidade do vazamento. Sergio Moro e Globo estão sintonizados na mesma incoerência.

Carlos Sardenberg, um dos principais colunistas do jornal, não viu nada demais nos diálogos.
Em sua última coluna, chamou o conluio entre juiz e acusador de “coordenação formal de trabalho” e os métodos da Lava Jato de “inovação na investigação”.
Parece que Sardenberg combinou só com o “russo”. Faltou combinar com a Constituição. Ele termina a coluna dizendo que o “pessoal do Intercept Brasil não faz jornalismo. É pura militância”.
Isso me leva a crer que o jornalista não publicaria os diálogos se os tivesse recebido. Se dependesse desse tipo de jornalismo, a população não saberia que funcionários públicos atuaram à margem da lei.
Criou-se agora um falso debate sobre a publicação dos vazamentos. Mas não existe dilema ético quando se publica fatos de interesse público que os poderosos queriam esconder. Essa é a função principal e mais nobre do jornalismo.
É importante esclarecer que as revelações da Vaza Jato não provam a inocência de todos os acusados pela operação. Prova apenas que a Lava Jato não é inocente e que os processos comandados por ela estão contaminados por interesses políticos. Essa não é uma história de mocinhos contra bandidos.
A Lava Jato ganhou poderes imensos. Com apoio da imprensa e da população, conseguiu colocar um ex-presidente na cadeia com provas frágeis, peitou o STF e emplacou um ministro da Justiça.
A força-tarefa chegou até a pleitear a administração de um fundo bilionário privado, que seria financiado pelas multas pagas pela Petrobrás.
Em nome de um bem maior, boa parte do jornalismo brasileiro abdicou de fiscalizar esse que hoje é o núcleo político mais poderoso do país. Preferiu atuar como porta-voz da República de Curitiba.
A história se encarregará de separar os jornalistas que cumpriram o seu papel fiscalizador do poder dos que preferiram ignorar os fatos e surfar a onda fácil do lavajatismo.
O apoio popular estava ancorado na crença de que esses heróis trabalhavam com máxima transparência e rigor ético. O povo foi enganado. Não foi à toa que Sergio Moro perdeu 10 pontos de popularidade logo após a Vaza Jato.
Mas o ministro da Justiça de Bolsonaro ainda é a figura política mais popular do país. Mesmo com os fatos escancarados, ainda vai demorar para o mito se desfazer. Divindades não são desconstruídas do dia pra noite.
Sergio Moro sonhou entrar para a história como Giovanni Falcone, o juiz da Operação Mãos limpas que enfrentou a máfia italiana. Mas pode acabar como o justiceiro “russo”, um miliciano jurídico que hackeou a ordem constitucional para combater seus “inimigos”.

GLENN MARTELA MORO (15.6.19)