segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

"Gabinete do ódio" de Bolsonaro busca contratar programa espião para as eleições de 2022.

 

“Gabinete do ódio” de Bolsonaro busca contratar programa espião para as eleições 2022

Emissário do "gabinete do ódio" ligado a Carlos Bolsonaro integrou comitiva presidencial à Dubai e buscou empresa de programa espião

Foto: Reprodução

Jornal GGN – Um emissário do “gabinete do ódio” do governo de Jair Bolsonaro, ligado a Carlos Bolsonaro, foi a Dubai junto com o presidente, em agenda oficial, e buscou uma empresa israelense para comprar uma ferramenta espiã para ser usada pelo atual mandatário nas eleições 2022.

A informação foi publicada por Jamil Chade, no Uol. Segundo o colunista, toda essa negociação ocorreu na feira aeroespacial Dubai AirShow, que se tornou um evento de encontro de “movimentos de extrema-direita no mundo”, em novembro do ano passado.

Estiveram presentes na feira aeroespecial representantes do governo de Israel, Emirados Árabes Unidos e Polônia, que também teria fechado acordos de empresas ligadas aos interesses destes governos.

Foi assim que a visita de Jair Bolsonaro aos Emirados Árabes para a inauguração do “pavilhão Brasil” na feira foi usada por outro integrante do governo do chamado “gabinete do ódio”, ligado ao filho do mandatário, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Não revelado o nome do emissário, ele seria perito em inteligência e contrainteligência do governo e integrou a comitiva presidencial. A empresa procurada por ele foi a DarkMatter, de programadores e ex-hackers do Exército de Israel, que tem desenvolve sistemas espiões.

Ainda, segundo Jamil Chade, o “gabinete do ódio” mantinha contatos com outra empresa israelense, a Polus Tech, para o mesmo objetivo de contratar serviços de programas para espionar opositores do governo em ano eleitoral, incluindo jornalistas, críticos e políticos.

A desigualdade mata.

 


A desigualdade mata, por Eliara Santana

Relatório da Oxfam fala em “violência econômica” e mostra um cenário devastador e indecente de desigualdade no mundo

Agência Brasil

A desigualdade mata, por Eliara Santana

O relatório sobre desigualdade foi divulgado neste início de janeiro de 2022. Segundo o documento, a riqueza dos dez homens mais ricos do mundo dobrou desde o início da pandemia. A renda de 99% da humanidade está pior em virtude da Covid-19. As crescentes desigualdades econômicas, de gênero e raciais, assim como as desigualdades que existem entre os países, estão destruindo nosso mundo. Isso não acontece por acaso, mas sim por escolha: A “violência econômica” é cometida quando as escolhas de políticas estruturais são feitas para as pessoas mais ricas e poderosas”.

A desigualdade é responsável pela morte de uma pessoa a cada quatro segundos no mundo, e pela extrema piora da vida de meninas, mulheres, pessoas em situação de pobreza, grupos racializados. O relatório da Oxfam aponta para a necessidade de se pensar uma economia em que a desigualdade não mate mais e elenca medidas e ações necessárias para isso: “tributação progressiva; investimento em políticas públicas fortes e comprovadas contra a desigualdade; mudar corajosamente o poder na economia e na sociedade”.

Os dados muito bem compilados pelo relatório ressalta algo que já se tornou visível e que foi enfatizado pela professora Jayati Ghosh, da Universidade de Massachussets: “A dura verdade que a pandemia nos trouxe é que o acesso desigual à renda e a oportunidades faz mais do que criar sociedades injustas, insalubres e infelizes, na verdade, ele mata as pessoas. Nos últimos dois anos, pessoas morreram após contraírem uma doença infecciosa porque não receberam vacinas a tempo, muito embora essas vacinas pudessem ter sido mais amplamente produzidas e distribuídas se a tecnologia tivesse sido compartilhada”.

Ou seja, a pandemia acirrou o cenário da desigualdade no mundo todo e condenou milhões à morte, quando muitas e muitas vidas poderiam ter sido salvas. Segundo o relatório, “ao não vacinar o mundo todo, os governos permitiram as condições para que o vírus da Covid-19 sofresse mutações perigosas. Ao mesmo tempo, eles também criaram as condições para uma variante inteiramente nova de fortunas bilionárias. Essa variante, a variante bilionária, é extremamente perigosa para o nosso mundo”.

E os dados mostrados revelam de fato que o cenário é indecente: a renda dos 10 homens mais ricos do planeta DOBROU desde o início da pandemia, enquanto a renda de 99% da humanidade está muito pior. Isso é inaceitável e insustentável.

Vamos a alguns dados:

  1. De março de 2020 a novembro de 2021, em plena pandemia, a riqueza dos 10 homens mais ricos do mundo dobrou;
  2. A desigualdade mata pelo menos uma pessoa a cada quatro segundos no mundo;
  3. A fortuna de 252 homens é maior do que a riqueza combinada de todas as mulheres e meninas da África, América Latina e Caribe, o que equivale a 1 bilhão de pessoas;
  4. Desde 1995, o 1% mais rico acumulou quase 20 vezes mais riqueza global do que os 50% mais pobres da humanidade;
  5. Um novo bilionário surge a cada 26 horas desde o início da pandemia;
  6. Mais de 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza;
  7. A desigualdade de renda é um indicador mais assertivo para saber se você morrerá de Covid-19 do que a idade;
  8. Todos os dias, a desigualdade contribui para a morte de pelo menos 21.300 pessoas
  9. Só o aumento da fortuna de Jeff Bezos (o homem mais rico do mundo, que foi ao espaço com amigos) durante a pandemia poderia pagar para que todos na Terra fossem vacinados com segurança;
  10. Apartheid vacinal: ao invés de as vacinas serem um bem público universal, foram capturadas por gigantes farmacêuticas, criando-se os “bilionários das vacinas”.

    Cinco fatos sobre os 10 homens mais ricos do mundo:
  11. A riqueza dos dez homens mais ricos dobrou, enquanto a renda de 99% da humanidade decaiu, em razão da Covid-19;
  12. O patrimônio dos 10 homens mais ricos do mundo é maior do que o dos 3,1 bilhões de pessoas mais pobres;
  13. Se os 10 homens mais ricos gastassem um milhão de dólares cada um por dia, seriam necessários 414 anos para gastar suas fortunas combinadas;
  14. Se os 10 bilionários mais ricos se sentassem no topo de suas fortunas combinadas empilhadas em notas de dólares norte- americanos, eles chegariam quase na metade do caminho para a Lua;
  15. Um imposto único de 99% sobre o aumento repentino nos lucros decorrentes da Covid-19 obtidos pelos 10 homens mais ricos do mundo poderia pagar vacinas suficientes para todo o mundo e preencher as lacunas de financiamento em medidas climáticas, de saúde universal e proteção social e nos esforços para combater a violência de gênero em mais de 80 países, enquanto ainda deixaria esses homens com US$ 8 bilhões a mais do que tinham antes da pandemia.
  16. Violência econômica

O relatório da Oxfam aponta a existência de uma “violência econômica” e enfatiza que isso nunca foi algo aleatório, mas sim por escolha, ou seja, assim como a desinformação, a desigualdade é um projeto político. Ela não é aleatória, mas estrutural, e “é parte integrante da maneira como nossas economias e sociedades funcionam nos dias de hoje. Isso ficou particularmente evidente durante o recente período de 40 anos de neoliberalismo, durante o qual as escolhas de política econômica foram compradas por elites ricas, poderosas e corruptas, alimentando a insegurança econômica que poderia ser evitada para a maioria”.

De acordo com o documento, “a desigualdade extrema é uma forma de violência econômica pela qual políticas estruturais e sistêmicas e escolhas políticas que são enviesadas em favor dos mais ricos e poderosos resultam em danos diretos à grande maioria das pessoas comuns no mundo todo”.

Segundo o relatório, os dados expostos mostram muito bem como as políticas econômicas e a cultura política “estão perpetuando a riqueza e o poder de alguns poucos privilegiados, prejudicando diretamente a maioria da humanidade e o planeta, com pessoas vivendo na pobreza, mulheres e meninas e grupos raciais e oprimidos sendo os mais atingidos”.

Alguns dados:

1 Estima-se que 5,6 milhões de pessoas morrem todos os anos por falta de acesso a atendimento de saúde em países pobres;

  1. No mínimo, 67.000 mulheres morrem a cada ano devido à mutilação genital feminina ou assassinato cometido por um ex-companheiro ou parceiro atual— a violência de gênero está enraizada no patriarcado e nos sistemas econômicos sexistas. Além disso, estima-se que 143 milhões de mulheres estão desaparecidas em todo o mundo devido a uma combinação de mortalidade feminina excedente e abortos seletivos em razão de sexo (preferência por filho): em 2020, havia uma estimativa de 1,7 milhão de mortes excedentes de mulheres e de 1,5 milhão de abortos seletivos em razão de sexo;
  2. Em um mundo de recursos abundantes, a fome mata, no mínimo, mais de 2,1 milhões de pessoas por ano;
  3. Em uma estimativa conservadora, 231.000 pessoas poderiam morrer a cada ano devido à crise climática em países pobres até 2030

A riqueza atual das pessoas extremamente ricas e a taxa de acumulação de riqueza não encontram precedentes na história humana, isso é devastador, inaceitável – as fortunas de gigantes da tecnologia e de mundo digital, como Google e Facebook, cresceram exponencialmente, assim como a fortuna de gigantes farmacêuticas. Desde 1995, o 1% mais rico capturou quase 20 vezes mais riqueza global do que os 50% mais pobres da humanidade, que capturaram somente 2% do crescimento da riqueza global. Isso é um assombro – como a humanidade vai funcionar assim?

Violência de gênero: a pandemia ignorada

Segundo o professor Darrick Hamilton, “Racismo, sexismo e outros ‘ismos’ não são apenas preconceitos irracionais, mas mecanismos estratégicos de exploração e extração de longa data que beneficiaram alguns em detrimento de outros”. Um exemplo é o impacto da pandemia sobre as mulheres, que foram as que sofreram de modo mais severo esse impacto: no mundo, elas perderam, coletivamente, 800 bilhões de dólares em ganhos em 2020; e enquanto a questão do emprego lentamente se recupera para o homens, no caso das mulheres, estima-se que 13 milhões a menos de mulheres estejam empregadas em 2021; na América Latina, a redução de vagas de empregos para mulheres foi de 9,4%; e no mundo, mais de 20 milhões de meninas podem nunca mais voltar à escola. Somando-se a isso, houve um aumento significativo do trabalho não remunerado de cuidados as mulheres e meninas – ou seja, a carga de trabalho do público feminino piorou enormemente, num cenário que já não era favorável.

De acordo com o relatório, para cada três meses de lockdown/quarentena, haveria mais 15 milhões de casos de violência por parceiro íntimo. O documento também aponta que há pouquíssimos dados globais sobre a violência de gênero, uma vez que mulheres, meninas, transgêneros e pessoas não binárias são pouquíssimo valorizadas na sociedade.

Como ações necessárias e soluções possíveis, o relatório fala na tributação dos ricos e enfatiza que somente soluções sistêmicas serão capazes de combater a violência econômica.
Alguns aspectos em destaque:

  1. os governos devem centrar suas estratégias econômicas em uma maior igualdade. Isso significa igualdade econômica muito maior, juntamente com metas para buscar a igualdade de gênero e racial, devendo ser respaldada por marcos explícitos, com prazo determinado e mensuráveis

  2. Os governos podem e devem implementar mecanismos de redistribuição, usando gastos e impostos progressivos para redistribuir o poder e a riqueza dos ricos e investi-los na grande maioria
  3. Os governos devem agir agora para recuperar o aumento exponencial da riqueza bilionária durante a pandemia de Covid-19, implementando impostos únicos de solidariedade para liberar bilhões para combater a desigualdade
  4. Os governos devem dar continuidade – e tornar permanentes – aos impostos progressivos sobre o capital e a riqueza, além de acabar com os paraísos fiscais e a evasão fiscal das empresas.
  5. Saúde universal de qualidade, financiada pelo governo e fornecida publicamente
  6. Proteção social universal que ofereça segurança de renda para todos.
  7. financiamento urgente para a adaptação, perdas e danos e um mundo livre de combustíveis fósseis
  8. Fim da violência de gênero: investimento para ajudar a fortalecer os direitos das mulheres
  9. Combater as desigualdades entre os ricos e a maioria: fazer valer os direitos humanos dos trabalhadores e das pessoas
  10. Combater as desigualdades entre países ricos e pobres: uma renúncia às normas de propriedade intelectual
  11. Redistribuir o poder na política e no setor privado para que funcione para a maioria: fazer dos trabalhadores o centro na tomada de decisões corporativas e aumentar a representação política de mulheres, grupos raciais e pessoas da classe trabalhadora

De fato, o relatório aponta um cenário devastador e mortífero; aponta também soluções ousadas a serem implementadas, em especial pelos governos. No entanto, é preciso pensar e muito claramente que os gigantes econômicos, o sistema financeiro, os conglomerados capturam e capturam os governos, com o apoio essencial de um outro sistema que também tem um super poderio econômico, o midiático. Portanto, é um problema gravíssimo e que precisa ser debatido e enfrentado. A questão é como.

Eliara Santana é uma jornalista brasileira e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa.

Estadão reedita o "boimate".

 

O Estadão reedita o “boimate” para atacar o Prerrogativas

Aí o repórter pega o seu “suponhamos” e vai consultar a assessoria de Lula, que diz que ele sequer confirmou sua candidatura, muito menos iniciou a construção do governo.

A história se tornou um clássico do jornalismo. Veja acredita em um primeiro de abril de uma revista científica europeia, que anuncia o cruzamento de boi com tomate que gerou um hambúrguer suculento. Pede ao jovem repórter para repercutir com um especialista. O especialista diz que é impossível. enrolado, o repórter insiste: “mas se fosse possível?”. O especialista ironiza: “Então seria a maior revolução na história da biologia”. Na edição publicada, atribui-se a frase ao especialista, sem explicar que era ironia.

O “boimate” ressusgiu hoje, nas páginas do Estadão.

O grupo Prerrogativas é um conjunto de advogados, a maioria criminalistas, criado em reação à Lava Jato.

O Estadão é um jornal que critica a Lava Jato nos editoriais, mas é o principal instrumentalizador da operação, publicando com destaque – e acriticamente – seus releases.

Recentemente, o Prerrogativas bateu pesado em Sérgio Moro, por sua proposta de reforma do judiciário. O aquário do Estadão planejou, então, uma reportagem para atacar as propostas do Prerrogativas de reforma do Judiciário e do MInistério Público. Havia só um problema: o grupo jamais elaborou uma proposta nesse sentido. 

A maneira como o jornal resolveu o dilema será conhecido, no futuro, como um clássico desses tempos bicudos.

A ordem foi: 

  • Vamos cair matando em cima do projeto de reforma do Prerrogativa. 
  • Mas se ele não tiver? 
  • Basta supor que tenha.

E foi assim que a segunda matéria mais relevante da home do Estadão tem por título “Advogados anti-Lava Jato propõem a Lula reforma dos conselhos da Justiça e do MP”. E a adoção do juiz de garantias.

São temas caros aos advogados, sim. Mas que nunca foram transformados em propostas.

Mas, supondo que existisse a proposta, o jornal foi ouvir o ex-ministro Carlos Velloso – fonte em permanente disponibilidade, quando se necessita de alguém para defender a Lava Jato. 

Velloso disse desconhecer a proposta que não existia. Mesmo assim, 

“Não conheço os termos da proposta. Assim, não tenho o que opinar relativamente ao seu mérito. Todavia, sempre receio proposta de reforma de órgão de controle do Ministério Público, do Judiciário, dos advogados e da imprensa. Sempre há um desejo oculto por trás. E é surpreendente que uma tal proposta venha de associação de advogados”, afirmou.

Mais surpreendente foi a sequência da reportagem: 

“Após formulada, a proposta de mudanças no sistema de Justiça será sugerida e poderá integrar o plano petista para 2022”.

Como assim? Se ainda não foi formulada, significa que não existe. Mesmo assim, o repórter afirma que participarão das discussões “criminalistas sem filiação partidária ou ligação com o PT, como Alberto Toron, que defende o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), e Antônio Claudio Mariz de Oliveira, advogado do ex-presidente Michel Temer (MDB)”. E com base nesse “suponhamos”, foi pedir a confirmação de Mariz que respondeu que 

ainda não foi chamado, mas que o Prerrogativas tem “muito a colaborar para qualquer governo que entrar, quer seja do Lula, quer seja de outro candidato”.

Para engrossar o caldo, o repórter “supôs” que a base do projeto que não existe será a proposta de PEC do deputado Paulo Teixeira (PT-SP). E joga a armadilha do “suponhamos” para o pobre presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, Ubiratan Cazetta.

Sem conhecer o projeto que não existia, Cazetta diz  o debate sempre é bom, mas as premissas do projeto que não existe, mas o jornal supõe” que existe, são erradas. 

Outro entrevistado, o impetuoso procurador Bruno Calabrich – que acreditava tanto na mídia quanto a mídia na Lava Jato – aproveita o “suponhamos” levantado e bate de prima em uma narrativa com tanta credibilidade quanto uma delação premiada:

“Merece nosso repúdio, tanto como procurador como cidadão. Essa proposta não atende o interesse público, mas pode atender o interesse de réus investigados que temem um MP independente”

Pensam que parou por aí?

Segundo advogados do Prerrogativas, de acordo com a suposição do Estadão, outro ponto a ser levado adiante é a incorporação do juiz de garantias ao Código de Processo Penal.

Aí o repórter pega o seu “suponhamos” e vai consultar a assessoria de Lula, que diz que ele sequer confirmou sua candidatura, muito menos iniciou a construção do governo.

Finalmente, foi ouvir Sérgio Moro:

Sérgio Moro disse desconhecer detalhes de “qualquer proposta do PT para a reforma do Judiciário ou do Ministério Público”, mas chamou a iniciativa de “ameaça à democracia”

Anos de Chumbo: Manoel Fiel Filho, PRESENTE!

 João Batista Damasceno: 17 de janeiro, Manoel Fiel Filho, PRESENTE!

POLÍTICA

João Batista Damasceno: 17 de janeiro, Manoel Fiel Filho, PRESENTE!


17/01/2022 - 17h01

17 de janeiro, Manoel Fiel Filho PRESENTE!

Por João Batista Damasceno*, no Resistência Lírica 

Hoje, 17 de janeiro de 2022, faz 46 anos da morte do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho sob tortura na sede do DOI-Codi/II Exército, em São Paulo.

Preso na véspera, na fábrica onde trabalhava, fora submetido a tortura para informar o paradeiro das lideranças do Partido Comunista Brasileiro (PCB) a serem eliminadas em decorrência da deflagração da Operação Condor.

No dia de sua morte as autoridades emitiram nota dizendo que o operário havia se enforcado usando as próprias meias.

Ao receberem o corpo para sepultamento os familiares verificaram marcas de tortura na testa, pulso e pescoço. Além disto, os colegas da fábrica afirmaram que ao ser preso, em seu local de trabalho, o operário não calçava meias, pois trabalhava de sandálias.

O laudo pericial emitido pelos legistas José Antônio de Mello e José Henrique da Fonseca confirmou a farsa e oficializou a versão oficial do suicídio. As perícias oficiais foram e continuam a ser um problema nas instituições brasileiras componentes do Sistema de Justiça.

Os militares, durante a ditadura empresarial-militar, transformaram os quarteis em centros de tortura.

Sequestros, torturas, roubos, estupros, assassinatos e desaparecimentos eram prática comum nos Anos de Chumbo.

Mas, o general-presidente Ernesto Geisel tentava racionalizar o processo e elaborou lista dos que podiam ser mortos a fim de preparar o campo político, deixando-o propício para a atuação dos conservadores após a abertura política.

Somente oposicionistas confiáveis ou lideranças de trabalhadores que não ameassem o capital tinham relativa liberdade para atuação.

Neste contexto é que se ampliou um tipo de sindicalismo que não afronta o capital, não busca a superação do sistema, nem aborda o conflito inconciliável entre capital e trabalho, mas que busca a inclusão por meio do trinômio emprego-renda-consumo.

O general-presidente Ernesto Geisel submeteu as eliminações dos nacionalistas e comunistas, a serem feitas pelo Centro de Inteligência do Exército, à prévia consulta do general João Batista de Oliveira Figueiredo, chefe do Serviço Nacional de Informação/SNI. A morte de Manoel Fiel Filho não foi precedida de autorização do SNI, numa evidente quebra de hierarquia.

Em 25 de outubro de 1975 a morte do jornalista Vladmir Herzog já havia causado mal estar entre os militares da Linha Dura e o general-presidente da República. A Morte de Manoel Fiel Filho era uma afronta à determinação de prévia consulta à Presidência da República e uma reiteração da desobediência.

Desde sua posse em 1974 o general-presidente Ernesto Geisel fazia um discurso de abertura política, na época chamado de “distensão”.

O governo enfrentava dois infortúnios: a derrota nas eleições parlamentares daquele ano e a crise do petróleo que estagnou a economia.

Nesse cenário, a Linha Dura se sentia ameaçada e temerosa de possível responsabilização por seus crimes, se o país fosse redemocratizado.

O general Ednardo D´Ávila Mello, comandante do II Exército, fazia afirmações de que os comunistas estavam infiltrados no governo de São Paulo.

Mesmo com o discurso de distensão desde o ano anterior, a repressão continuava forte e o Centro de Informações do Exército/CIE fora encarregado da Operação Condor, visando a eliminação dos nacionalistas e das lideranças do Partido Comunista Brasileiro/PCB.

Mas toda morte deveria ser precedida de prévia autorização da Presidência da República, o que não fora atendido pelo general Ednardo D´Ávila Mello.

Assim, em 19 de janeiro de 1976 foi exonerado do comando do II Exército pelo general-presidente Ernesto Geisel, dando inicio a uma queda de braço dentro dos quarteis.

Esta queda de braço incluiu a exoneração do ministro do Exército Silvio Frota em 12 de outubro de 1977, e que somente se arrefeceria quando a Linha Dura foi apanhada com uma bomba no colo em 1981.

O período no qual Manoel Fiel Filho foi morto sob tortura foi conturbado.

Os três mais proeminentes opositores do regime empresarial-militar haviam morrido num intervalo de nove meses, em situações que até hoje propiciam suspeição: Juscelino Kubitschek em 22/08/1976, Jango em 06/12/1976 e Carlos Lacerda em 21/05/1977.

Neste período o governo do Uruguai ameaçou revogar o asilo concedido a Leonel Brizola.

Mas, o cenário internacional tinha mudado. Jimmy Carter se tornara presidente dos Estados Unidos.

Em 20/09/1977 Brizola, acompanhado por agentes dos EUA, viajou para Buenos Aires e em 22/09/1977 partiu num vôo sem escala para os Estados Unidos.

O resgate de Brizola pelos EUA, antes que fosse morto pela ditadura empresarial-militar, foi um dos mais bem sucedidos esforços do governo Jimmy Carter em favor dos direitos humanos e demonstrou que os EUA não mais apoiavam a ditadura que ajudaram a implantar no Brasil.

Mas, a Linha Dura não parou. Passou a praticar atos de terrorismo contra instituições e pessoas comprometidas com a redemocratização.

Na noite de dia 30 de abril de 1981 uma bomba explodiu no colo do Sargento Rosário e atingiu o Capitão Machado que também estava no veículo. O evento conhecido como Atentado do Riocentro demonstrou o que era o Terrorismo de Estado no Brasil.

Tanto a Operação Condor como a origem da expressão “Esquadrão da Morte”, igualmente utilizada na ditadura de Augusto Pinochet no Chile, demandam um estudo aprofundado.

A falta de responsabilização dos algozes das liberdades é parte do processo que permite a permanência das atrocidades que vigem no presente momento.

A impunidade dos algozes das liberdades os deixou seguros de que podem ameaçar a democracia e as instituições.

A revisão da Lei da Anistia e enquadramento dos que se voltaram contra a democracia é meio para evitar que o passado continue a nos assombrar.

A vida e morte de Manoel Fiel filho são a base do documentário Perdão mister Fiel – o operário que derrubou a ditadura no Brasil, documentário que mostra a atuação dos Estados Unidos na caça aos comunistas e nas ditaduras militares na América do Sul.

46 ANOS DA MORTE DE MANOEL FIEL FILHO! MANOEL FIEL FILHO, PRESENTE!