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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

IGREJA - A revolução promovida pelo Papa Francisco.


Revolução Francisco

“As grandes revoluções vêm com pés de pombos” afirmou certa feita o consagrado filósofo Friedrich Nietszche (1844-1900) acerca das sempre esperadas transformações mundiais, megamudanças comportamentais que influenciam a marcha do processo civilizatório e que têm o condão de evitar vastas catástrofes engolfando o planeta.

E um evento bastante significativo que se desdobra com rara desenvoltura é a revolução promovida pelo Papa Francisco em seus pouco mais de ano e meio de pontificado.
A marca não é outra: uma sucessão ininterrupta de toques suaves e precisos de espiritualidade, trazendo ânimo e vigor ao corpo bastante debilitado de uma Igreja que de tudo provou ao longo dos últimos dois milênios, culminando com a sucessão de escândalos de natureza moral enfermando seu próprio clero e de características financeiro-econômicas levando-a ao terreno pantanoso da corrupção secular. “Quem doa à Igreja e rouba o Estado é falso cristão”, disse Francisco em saudação a peregrinos que recentemente lotaram o Vaticano.
A Revolução Francisco tem início com a escolha do nome Francisco pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio para assinalar historicamente a existência de seu pontificado.  Nunca antes na história da Igreja um papa escolhera esse nome, nome que evoca uma das mais férteis e memoráveis travessias já feitas pela cristandade católica – a revolução espiritual, a reforma interna, o reencontro com suas mais profundas raízes históricas, o abraço fraternal inclusivo a envolver as massas de pobres que encampam formidáveis 2/3 da população mundial.
Estamos passando por um rito de passagem – o fim do eurocentrismo da Igreja. E para que tal estado acelerado de transformações tenha efeito o fato marcante não é outro que termos um Papa latino-americano. Desejemos ou não, na realidade, o olhar inclusivo tem relação direta com aquele sentimento sofrido tão próprio dos que se sentem historicamente excluídos. É isto que facilita a ampliação dos horizontes.
O próprio Francisco é singelo e assertivo ao evocar a simbologia contida na escolha do nome pontifício:“Pobres, paz, custódia da Criação”. E isso está em linha com recente declaração da Casa Universal de Justiça ao explicitar o conceito de guardiania coletiva: cada um de nós é guardado pelo todo e, por sua vez, temos a responsabilidade de cuidar dos direitos do conjunto das nações.
Em intervalo de tempo tão curto Francisco conseguiu deixar sua marca ao imprimir no mundo certo ‘Efeito Francisco’. E que Efeito seria este? São gestos muito simples, quase prosaicos; na verdade, um somatório de bons sinais em um ambiente religioso há muito fechado, encerrado em ritos e dogmas, pouca luz e muitos egos inflados a enfermar ainda mais a Cúria Romana.
Comecemos pela maneira como se apresentou ao mundo no dia 13 de março de 2013, quando do balcão da Praça de São Pedro o recém-eleito papa Francisco dispensou a tradicional saudação em latim e optou em cumprimentar os fiéis com um “Buona Sera!” (boa noite em italiano), logo após o anúncio de sua eleição. Na sequência, simplesmente baixou a cabeça e suplicou por orações. E qual a resposta imediata da multidão que assistia a tão importante evento? Todos se curvaram em submissão a Deus e começaram então a orar.
Nos dias seguintes o mundo maravilhou-se a ver a marca da austeridade tomar o lugar da pompa e circunstância, da opulência escandalosamente ostensiva quase sempre associada à figura do Chefe Máximo da Cristandade Católica Apostólica Romana. Esta austeridade logo de impôs quando decidiu continuar usando os mesmos surrados sapatos pretos usados pelo calejado cardeal Bergoglio, manteve a mesma cruz de prata no peito e não a cruz de ouro usada por tantos de seus renomados antecessores no trono de Pedro. Francisco briu mão do espaçoso apartamento papal para ficar numa suíte em uma casa de hóspedes, a Casa Santa Marta.
A sua primeira aparição pública em um veículo também foi premonitório: dispensou a luxuosa limusine papal, uma reluzente Mercedes Benz, há décadas usada pelos pontífices e optou por um singelo automóvel da marca Fiat 1.0, modelo classe média. Mesmo em sua primeira viagem papal, no caso ao Brasil, para a Jornada Mundial da Juventude, Francisco optou novamente pelo uso de um carro simples. Existem encíclicas, documentos, homílias e discursos que tocam corações e mentes, mas existem gestos que não apenas moldam comportamentos como também têm o poder de arrastar multidões.
As relações com a imprensa também foram impactadas pelo Efeito Francisco. O Papa tem decidido por encontros com a imprensa quase sempre marcados pelo improviso. Aqui mesmo no Brasil, tendo o porta-voz do Vaticano ao seu lado, Francisco respondeu a todas as perguntas, sem impor limites, por 1 hora e 22 minutos. Isto marcou um novo precedente, e depois consentiu em conceder cinco entrevistas adicionais. Longe do pesado clima solene a que os Papas sempre estiveram relacionados, Francisco marca suas interações com a mídia com três características – bom humor, franqueza e cortesia. E é com esse estilo afável e tendendo para o bonachão que conquistou a imprensa mundial.
Francisco tem especial carinho e apreço para os doentes. Antes mesmo de celebrar a primeira missa de seu Pontificado, ele parou o Papamóvel e beijou uma pessoa enferma. Este foi um momento emocionante, mas não único. Outros gestos dessa natureza se seguiram nos meses seguintes.  Os imigrantes e os refugiados, em número cada vez maior e contados aos milhões, pessoas deslocadas de seus países devido a guerras, fundamentalismo religioso, fome ou graves problemas econômicos, tem sido tema prioritário das atenções do Papa. Em julho de 2013, em sua primeira viagem do pontificado, Francisco foi à ilha italiana de Lampedusa, onde milhares de imigrantes morreram em busca de uma vida melhor. No discurso, o Papa usou palavras muito diretas para expressar sua opinião. E tem sido sempre assim, direto ao ponto. “Com a comida que se joga fora se poderia alimentar todas as pessoas que sofrem de fome no mundo”, disse o papa Francisco em uma dura mensagem contra o desperdício de alimentos.
Se a um tempo mantém  os olhos focados nos dramas e angústias dos indivíduos, das pessoas, como por exemplo, quando decidiu instalar chuveiros públicos no Vaticano para atender às necessidades de higiene de moradores de rua; por outro lado, tem demonstrado especial atenção ao tênue equilíbrio que mantêm o mundo em paz. Com as negociações sírias na Guerra Civil e a ameaça de um ataque americano, o Papa liderou uma vigília para pedir paz, em meio a milhares de pessoas. E, neste final de novembro de 2014 viajou a Istambul, na Turquia, onde foi lançar as bases para a reunificação de sua Igreja Romana com a Igreja Católica Turca, isso após dez séculos de divisão e isolamento; e ao mesmo tempo abriu janelas para o diálogo com o Islã, repudiando de maneira veemente toda forma de fundamentalismo religioso. Há poucos meses havia declarado: “Os judeus são nossos irmãos mais velhos.”
Temas considerados espinhosos pela Igreja ao longo dos séculos vêm sendo tratados por Francisco com simplicidade, objetividade e sobretudo, clareza. É o caso do homossexualismo. Acerca do tema, aliás como bem pontuou o jornalista Clóvis Rossi “(o Papa Francisco) ao saltar da qualificação para os homossexuais de “intrinsecamente desordenados” para eventuais portadores de “dons e qualidades a oferecer”, o Vaticano dá um gigantesco passo, mesmo sem mudar a doutrina (por enquanto) em uma única vírgula.” Em outra ocasião inferiu que para a Igreja não existiam prostitutas e sim mulheres, não existiam mães prostitutas e sim mães.
E, provavelmente, caso único na história da Igreja Romana, é um pontífice conectado com as modernas tecnologias. E não faz como a maioria dos mortais, que geralmente é para autopromoção ou para desperdiçar nosso bem vital mais escasso – o tempo. Há poucas semanas Francisco postou em sua conta no Twitter (@pontifex) o poderoso pedido: “Rezem por mim”, em inglês e “Orate pro me” em latim. O papa tuíta em mais nove línguas, incluindo além do inglês, latim, árabe e espanhol.
Tem mais de 12 milhões de seguidores. Segui-lo no twitter é uma experiência muito interessante: em tudo se posiciona, nada é dogma, nada parece ser tabu e o que importa mesmo para o Papa é manter esse que é o maior luxo humano – o luxo das relações humanas. Mas não bastaria saber usar a rede social, no caso de Francisco os bons resultados brotam de seu – digamos – estilo, a sua linguagem direta do Papa, as suas atitudes, e o seu estilo de vida bastante despojado para um Papa. O conjunto é que toca em profundidade e suscita um grande interesse, um grande entusiasmo por parte de milhões de pessoas em todo o mundo, católicos ou não, uma vez que a espiritualidade não tem proprietário e nem é marca registrada deste ou daquele credo.
Sem estrelismos pop, sem legalismos boçais e sem pendor pelo exercício puro e simples de qualquer forma de autoritarismo, Francisco parece ter sido permeado pela aura de sinceridade, pureza de intenções, e amor pela justiça, características estas tão associadas à vida de seu xará inspirador, o Santo de Assis.
Durante uma homilia na manhã do dia 9 de novembro de 2014, na casa de Santa Marta, no Vaticano, o papa Francisco afirmou que “a Igreja deve sempre ser reformada porque seus membros são todos pecadores e precisam se converter.”  O Papa insiste muitíssimo sobre um Deus que ama, um Deus de misericórdia, um Deus sempre pronto a perdoar a quem se dirige a Ele com humildade. Ele sabe o quanto, frequentemente, nós humanos, somos feridos: feridos por tantas experiências difíceis, por tantas frustrações, por tantas injustiças, por tanta pobreza e tão odiosa marginalização no mundo de hoje.  Nessa mesma toada declarou: ‘Todos expressamos extravios, incertezas,dúvidas, quem não experimentou? Todos. Eu também. Faz parte da fé.”
Nada, absolutamente nada, escapa ao imperativo da época em que vivemos: a percepção de que a unificação da espécie humana encontra-se ao nosso alcance. Somos, com efeito, cidadãos e cidadãs de um único e mesmo país – o planeta Terra.
E neste contexto, só pode ser motivo de enorme satisfação para milhões de homens e mulheres de boa vontade perceber que o Efeito Francisco torna ainda mais receptivos corações e mentes para ouvir a sempre aguardada promessa da Paz Mundial, aquela época dourada em que todos os horizontes da humanidade estariam iluminados pela luz da unidade.

quinta-feira, 14 de março de 2013

ENVOLVIMENTO DO PAPA COM A DITADURA.

Wikileaks: Para EUA, envolvimento de papa com ditadura enfraquecia crítica aos Kirchner


Acesse e divulgue o Blog da Dilma - Reproduzido Opera Mundi - Documento sobre o assunto foi elaborado pela embaixada norte-americana em Buenos Aires em outubro de 2007.
 
O envolvimento do então cardeal Jorge Mario de Bergoglio com os crimes cometidos pela ditadura argentina enfraquecia as suas críticas sobre as decisões políticas e econômicas do governo Kirchner, na opinião da embaixada norte-americana em Buenos Aires.

 A revelação sobre o novo papa, que escolheu o nome Francisco para usar em seu pontificado, foi feita pelo site Wikileaks em 2011, com base em telegrama original datado de 11 de outubro de 2007.

Poucos meses antes, em maio de 2007, o governo de Nestor Kirchner era muito criticado dentro da Argentina e o presidente não sabia se concorreria à reeleição ou se lançaria sua esposa, a então senadora Cristina Kirchner, como candidata. A ideia era esperar o máximo possível e só anunciar a candidatura em julho daquele ano.
 
Greves de professores na província de Santa Cruz que causaram a renúncia do governador local em 9 de maio, um escândalo de corrupção envolvendo vários ministros e tensões públicas com a Igreja Católica eram alguns dos desafios dos Kirchner.  Segundo telegrama da embaixada dos EUA vazado pelo Wikileaks, uma das vozes mais críticas ao governo era a do cardeal Bergoglio.
 
As relações entre o governo Kirchner e a Igreja pioraram quando o ex-bispo Joaquín Pina impediu que Carlos Rovira, governador kirchnerista da província de Misiones, conseguisse uma mudança na lei aprovando a reeleição sucessiva

A proposta foi derrotada por mais de 13 pontos percentuais. Kirchner, à época, chegou a declarar que “Deus não tem partido” e, portanto, a igreja não deveria se meter na política.
 
Bergoglio disse que a Igreja não deveria se envolver com a política de modo oficial, mas apoiou a campanha liderada por Pina.

 O então cardeal também expressou preocupação com o “enfraquecimento das instituições democráticas argentinas” e com a crescente concentração de poder na mão dos Kirchner. 

Durante a greve dos professores em Santa Cruz, um bispo agravou ainda mais a crise entre governo e Igreja ao dizer que os Kirchner tratavam como “inimigos” aqueles que pensavam diferente do governo.
 
Relação com ditadura
 
Nascido em 1936, Bergoglio tinha 40 anos quando os militares argentinos destituíram à força o governo de Isabel Perón e instauraram uma ditadura militar. 

O cardeal Bergoglio, assim como muitos religiosos com idade semelhante, é acusado de não ter trabalhado para evitar a morte de mais de 30 mil argentinos – muitos deles, militantes de esquerda – entre os anos de 1976 e 1983.
 
Bergoglio teria falhado especialmente em não proteger as vidas de dois colegas da Ordem dos Jesuítas que eram opositores da ditadura argentina. Orlando Yorio e Francisco Jalics foram levados para a Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA) em 23 de maio de 1976, onde foram presos e torturados pelos órgãos de repressão do governo Jorge Videla, segundo o livro O silêncio, do jornalista Horacio Verbitsky.
 
Segundo documentos encontrados por Verbitsky, ao entregar o pedido de renovação do passaporte dos dois colegas, Bergoglio teria comentado com um responsável militar que esses dois colegas jesuítas, ligados à Teologia da Libertação, teriam contato com guerrilheiros de esquerda. 

Essas informações teriam contribuído para o sequestro e detenção ilegal de Yorio e Jalics. Ambos ficaram cinco meses detidos, entre maio e outubro de 1976.
 
Outros casos
 
A colaboração de religiosos com o regime do general Videla não se restringe a Bergoglio. Christian Von Wernich era um capelão da polícia de Buenos Aires – então subordinada às Forças Armadas – e foi condenado à prisão perpétua em 9 de outubro de 2011 pela participação em 7 assassinatos, 31 casos de tortura e 42 sequestros. A Justiça argentina considera que Von Wernich tenha desempenhado papel fundamental no esquema de repressão criado pela ditadura militar vizinha.
 
Von Wernich é o terceiro ex-militar e a primeira autoridade eclesiástica a ser condenada pela participação em crimes cometidos pela ditadura argentina desde 2005. Isso aconteceu após a Suprema Corte argentina ter declarado que a imunidade trazida aos militares pela lei de anistia era inconstitucional. 

A sentença contra Von Wernich foi comemorada pelos ativistas de direitos humanos e pelos familiares das vítimas da repressão militar.
 
Logo após o veredito do caso Von Wernich, a Arquidiocese de Buenos Aires emitiu um comunicado no qual ela pede a Von Wernich que “se arrependesse dos crimes e pedisse perdão publicamente.
 A arquidiocese se dizia “perturbada pela participação de um dos seus membros em crimes tão graves".
 
De acordo com a embaixada norte-americana, a Arquidiocese se defendeu dizendo: “Muitos na esquerda alegam que a Igreja Católica é cúmplice dos crimes cometidos pelo Estado e que ela não se pronunciou ou prestou contas dessas ações contra os opositores do regime Videla, mas ela tem se afastado das operações não autorizadas de religiosos dissidentes e criminosos, colaboradores de um regime de exceção”.

NOVO PAPA - Cardeal Bergoglio e o golpe na Argentina.


O cardeal Bergoglio e os trinta anos do golpe na Argentina



http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=3649

 Eis de novo em evidência a Igreja católica da Argentina, uma das mais conservadoras, senão reacionária da América Latina e cuja cumplicidade durante os atrozes anos da ditadura militar, entre 1976 e 1983, escandalizaram o mundo.

Quem traz para a superfície a memória daquele período nefasto, cravejado de 30 mil desaparecidos, é Horácio Verbitski, jornalista e escritor argentino que foi nestes 22 anos de democracia um dos mais próximos companheiros das Mães da Praça de Maio.

Agora, com Kirchner, o vento mudou e são disse Verbitski "ao menos 200 os militares na prisão" e 1.400 as causas judiciárias pela violação dos direitos humanos. A notícia é do Il Manifesto, 10-5-06.

Segundo o Il Manifesto, Verbitski é autor de quinze livros, entre eles O Vôo que relata o testemunho do capitão da marinha Adolfo Scilingo sobre os vôos da morte, nos quais detentos vivos eram jogados dos aviões no Rio da Prata.

Agora, Verbitski - afirma o jornal italiano - lança na Itália o seu livro A Ilha do Silêncio no qual desenvolve uma implacável acusação contra o papel da Igreja na ditadura argentina.

Em A Ilha do Silêncio, que se lê como um romance de fato e atroz, diz o Il Manifesto, comparecem todos os nomes notáveis da Igreja na Argentina, os cardeais Caggiano, Aramburo e Pimatesta, os bispos e vigários castrenses Tortolo, Bonamin e Grasseli, e o habitual núncio Pio Laghi. Mas também o nome do atual cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que poderia ter se tornado o primeiro papa latino-americano no conclave após a morte de Wojtyla, vencido por Ratzinger.

De acordo com Il Manifesto, "uma vitória do jesuíta Bergoglio teria sido uma desgraça não menor daquela do pastor alemão". E Verbitski, segundo o jornal, explica e documenta o porque.

Esclarecedor e demolidor, em particular, é o acontecimento dos dois padres jesuítas, Orlando Yorio e Francisco Jalics, que fizeram o erro de trabalhar nas favelas de Buenos Aires e por isto foram traídos e entregues aos militares por Bergoglio (que obviamente nega), diz o jornal a partir de relatos do jornalista.

Verbitski contou estes fatos na Universidade de Roma, apresentando o livro, acompanhado pelo vice-reitor Maria Rosalba Stabili e pelo professor Cláudio Tognonato. Eles três e outros inumeráveis participantes falarão hoje e amanhã da "Argentina; trinta anos do golpe. O Exílio na Itália" destaca o Il Manifesto.

quarta-feira, 13 de março de 2013

NOVO PAPA FOI DENUNCIADO POR JESUÍTA.



La Jornada: Jesuíta denunciou Bergoglio por colaborar com regime




Comungando com o ditador Jorge Videla

Testemunhas vinculam novo papa à ditadura argentina

É acusado de retirar a proteção da ordem religiosa de dois jesuítas detidos clandestinamente pelo governo de fato

Reuters, publicado em 13/03/2013 13:44 no diário mexicano La Jornada, dica da Rosana Mamani

Buenos Aires — Jorge Mario Bergoglio chegou ao sacerdócio aos 32 anos, quase uma década depois de perder um pulmão por uma enfermidade respiratória e deixar seus estudos de química. Mas apesar de seu ingresso tardio, em menos de quatro anos chegou a liderar a congregação jesuíta local, um cargo que exerceu de 1973 a 1979. Sua ascensão coincidiu com um dos períodos mais obscuros da Argentina, o que causou a ele fortes críticas: a ditadura militar que governou o país entre 1976 e 1982.

O questionamento remete ao sequestro de dois jesuítas detidos clandestinamente pelo governo de fato por cumprir tarefas sociais em bairros de extrema pobreza. Segundo a acusação, Bergoglio retirou deles a proteção da ordem religiosa. Os dois padres sobreviveram a uma prisão de cinco meses.

A denúncia consta do livro “O silêncio”, do jornalista Horacio Verbitsky, também presidente de uma entidade privada de defesa dos direitos humanos, a CELS. Ela se apoia em declarações de Orlando Yorio, um dos jesuítas sequestrados, dadas antes dele morrer de causas naturais em 2000.

“A História o condena: mostra Bergoglio como alguém que se opõe a todas as experiências inovadoras da Igreja e sobretudo, na época da ditadura, o mostra muito próximo do poder militar”, escreveu tempos atrás o sociólogo Fortunato Mallimacci, ex-professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

Além disso, Jorge Bergoglio foi citado na Justiça da Argentina como testemunha em um caso que julgava os responsáveis pelo plano sistemático de apropriação de menores de filhos de desaparecidos durante a ditadura militar.

Os críticos destas acusações sustentam que elas não estão provadas e que, ao contrário, Bergoglio ajudou muitas pessoas a escapar das forças armadas durante os anos de chumbo.

No Vaticano, longe da mancha ignominiosa da ditadura, que ainda pende sobre muitos dos que desempenharam atividades públicas na Argentina neste período, se espera que este homem silencioso conduza a estrutura da igreja com mão de ferro e uma marcante preocupação social.

Os políticos argentinos foram muitas vezes alvos da retórica do sacerdote, que os acusou de não combater a pobreza e de se encastelar no poder.

Em 2010, Bergoglio também enfrentou o governo da presidente Cristina Kirchner, quando ela impôs uma lei para permitir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo.
“Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política; é uma pretensão destrutiva do plano de Deus”, escreveu Bergoglio em uma carta dias antes da aprovação do projeto pelo Congresso.

Cardeal desde 1988, muitos dos pares que elegeram Bergoglio o conheceram por sua inesperada e reconhecida atuação de relator durante o Sínodo de cardeais de 2001.
Filho de uma família de classe média com cinco filhos, de pai ferroviário e mãe dona de casa, pouco disposto a aceitar convites privados e possuidor de um “pensamento tático”, segundo os especialistas ele agora deverá apresentar suas credenciais diante de mais de um bilhão de católicos.
Leia também:
As ligações do papa com a ditadura militar argentina

sábado, 9 de março de 2013

IGREJA - Como entender o Papado.




05.03.13 - Mundo
Como entender o Papado (Alguns subsídios de ordem histórica)
 
Eduardo Hoornaert

Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo





Adital


Logo após a conclusão do concílio Vaticano II, houve intensas discussões acerca do papado. Muitas delas encontraram eco nas páginas da revista Concilium ao longo da década de 1960. Dessas discussões ficou a convicção de que é preciso conhecer melhor a história do papado e evitar os anacronismos (projetar no passado situações presentes) e as afirmações desprovidas de base histórica que permeiam o discurso acerca do governo central da igreja católica. Diante de um tema que toca pontos nevrálgicos do sistema católico e da sensibilidade católica, parece-me importante anotar aqui alguns pontos básicos que costumam chegar à tona quando se fala em papado.
1. Pedro em Roma.
O bispo Eusébio de Cesareia, teórico da política universalista do imperador Constantino, redigiu, no século IV, listas de sucessivos bispos para as principais cidades do império romano, na tentativa de adaptar o sistema cristão ao modelo sacerdotal romano. Ele trabalhou de forma bastante aleatória. Assim ele escreve, por exemplo, que Clemente foi ‘o terceiro bispo de Roma’, depois de Lino e Anacleto. Conhecemos Clemente romano por suas cartas, mas nada sabemos acerca de Lino e Anacleto. Ninguém sabe donde Eusébio tirou esses nomes, trezentos anos após os acontecimentos. Para dar consistência à sua tese de que Pedro é o primeiro papa, Eusébio escreve, no segundo livro (14, 6) de sua ‘História eclesiástica’, que o apóstolo Pedro viajou a Roma no início do reino de Cláudio, ou seja, por volta do ano 44. O que os escritos do novo testamento dizem a esse respeito? Nos Atos dos apóstolos (12, 17) se escreve que Pedro, em 43, saiu de Jerusalém e ‘foi para outro lugar’, sem especificar qual. Os mesmos Atos relatam que Pedro está em Jerusalém no ano 49, por ocasião da visita de Paulo. Nada se diz sobre a atuação do apóstolo entre 43 e 49. O mais provável é que ele tenha viajado à Samaria como exorcista, pois os Atos relatam sua disputa com outro exorcista, de nome Simão Mago, que atuava naquela região. Enfim, as datas propostas por Eusébio não combinam com o que os Atos dos apóstolos relatam. Os historiadores hoje concordam em dizer que Eusébio é um historiador suspeito, pois está envolvido num projeto que tem como finalidade articular a política imperial em relação ao cristianismo e ajustar o movimento cristão a um modelo dinástico de tipo romano. Ele projeta a imagem da igreja no século IV sobre o passado. Por exemplo, ele projeta a repartição territorial das áreas de influência (dioceses), que faz parte da administração romana, aos primeiros tempos do cristianismo, sem nenhuma base historiográfica. Nos capítulos 4 a 7 de sua História Eclesiástica, ele elabora listas de bispos monárquicos que remontam até os apóstolos. Em tudo isso aparece a intenção de acomodar as estruturas cristãs à organização imperial da época. Concluindo podemos dizer que não há base histórica para a afirmação de que Pedro tenha estado em Roma e com isso cai um dos principais fundamentos do discurso oficial acerca do papado.
2. ‘Tu és Pedro’
Hoje, as palavras ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei minha igreja’ figuram em enormes letras no interior da cúpula da basílica de São Pedro, em Roma. Vale a pena observar que se trata aqui de um verso isolado do evangelho de Mateus. Contudo, o sentido do verso só aparece quando é lido em contexto, ou seja, dentro da sequência de quatro versos entre Mt 16, 16-19. O historiador ortodoxo Meyendorff[1] mostra como esses versos foram entendidos nos séculos anteriores a Constantino e à aliança entre as lideranças cristãs e as autoridades do império romano. Trata-se, conforme o historiador, de um elogio de Jesus dirigido a Pedro. Quando este afirma que Jesus não é um profeta entre outros, mas o ungido de Deus, ele mostra que Jesus não segue a tradicional maneira de agir dos profetas do antigo testamento, que ameaçavam e intimidavam as pessoas falando da ira de Deus por causa dos pecados e da necessidade de penitência. Pedro entende que Jesus, que não ameaça nem condena, mas aponta para o reino de Deus, a graça, a misericórdia, o perdão, é diferente. Deve ser o ungido de Deus tão esperado, pensa ele. E Jesus elogia Pedro por expressar de forma tão feliz a novidade que ele mesmo vem trazer. É como se ele quisesse dizer: você capta minha intenção, você é a pedra sobre a qual pretendo construir minha igreja, se todos entendessem o que você diz aqui, minha igreja estaria bem forte.
Eusébio de Cesareia e os demais teólogos comprometidos com a ideologia imperial romana não lêem o verso 18 de seu contexto, o isolam dos demais (vv. 16 a 19) e desse modo dão um significado diferente às palavras de Mateus. Hoje, Eusébio tem de ser severamente criticado (assim como os que o seguem na exegese de Mt 16, 18), pois a exegese atual é taxativa em afirmar que não se pode isolar um texto de seu conjunto literário e transformá-lo em oráculo. Para quem lê os evangelhos em contexto fica claro que não dá para se imaginar que Jesus tenha planejado uma dinastia apostólica de caráter corporativo, baseada em sucessão de poderes.
3. A religião do povo (e dos papas).
Sempre mais me convenço que o caminho certo, para analisar o papado, consiste em prestar atenção à religião do povo. A palavra ‘papa’ (pope) pertence ao grego popular do século III e é um termo derivado da palavra grega ‘pater’ (pai). Ela expressa o carinho que os cristãos tinham por determinados bispos ou sacerdotes. O termo penetrou no vocabulário cristão, tanto da igreja ortodoxa como da católica. No interior da Rússia, até hoje, o pastor da comunidade é chamado ‘pope’. A história conta que o primeiro bispo a ser chamado ‘papa’ foi Cipriano, bispo de Cartago entre 248 e 258 e que o termo ‘papa’ só apareceu tardiamente em Roma: o primeiro bispo daquela cidade a receber oficialmente esse nome (segundo a documentação disponível) foi João I, no século VI.
Não se tem dado, entre nós, a devida atenção à religião popular na construção do cristianismo. É um dado implícito a toda a história da igreja, mas que passa largamente despercebido e sem comentário. Isso provém, em parte, do fato de que, até pouco tempo atrás, a historiografia cristã estava principalmente baseada no estudo de fontes escritas. Ora, essas fontes praticamente nunca abordam a religião do povo. Isso, aliás, é regra geral: intelectuais não costumam mostrar interesse pelo que se passa no meio do povo comum e anônimo. A ‘plebe’ não retém a atenção de filósofos como Platão, Aristóteles, Cícero ou Sêneca, ou de intelectuais proeminentes como Galeno, Plotino ou Marco Aurélio. Nem mesmo autores cristãos como Justino, Ireneu, Tertuliano, Cipriano, Clemente de Alexandria ou Orígenes descrevem o que se passa entre cristãos comuns. Afinal eles também pertencem à elite letrada. Hoje existem ciências que nos revelam a vida vivida daqueles tempos, para além dos escritos, como a arqueologia e a iconografia, ou seja. o estudo da arte cristã.
O estudo da arte cristã no decorrer do século IV mostra que praticamente tudo que se conta sobre Pedro provém da religião popular. Na época da construção das primeiras basílicas cristãs (segunda parte do século IV), se convidaram artistas que trabalhavam com mosaicos para cobrir as paredes de cenas relativas aos evangelhos e á vida da igreja. Assim apareceram as mais variadas imagens de Pedro: crucificado de cabeça para baixo, com as chaves na mão, pescador, segurando na mão direita a maquete de alguma nova igreja, revestido de vestes sacerdotais romanas (alba, estola, manípulo), com a tiara persa ou a mitra mesopotâmica (da liturgia do deus Mitra) na cabeça, com seu barco (que nunca afunda), sua rede (que pesca homens), seu selo, sua cátedra (a santa sé). Mas a imagem que aparece com mais frequência é a do túmulo de Pedro, ao lado do túmulo de Paulo. Efetivamente, o papa é antes de tudo visto como o guardião dos túmulos de Pedro e Paulo. Uma tradição romana muito antiga reza que Pedro foi martirizado no monte Vaticano e Paulo ‘fora dos muros’. Desde cedo se registram ‘romarias’ aos túmulos dos apóstolos-mártires Pedro e Paulo[2]. Sem documentação que provasse a veracidade da presença de Pedro e Paulo em Roma, as histórias sobre ambos proliferam em Roma. Já no século II, ir a Roma significa visitar os túmulos sagrados, como comprovam os escritos de Justino e Inácio de Antioquia. O papa Pio XII ainda procurou reavivar a tradição dessas romarias por meio do ‘ano santo’ de 1950, que foi um sucesso e mais tarde, em 1956, ele mandou executar escavações num cemitério antigo descoberto em 1956 sob uma garagem em construção no Vaticano. Nesse cemitério eram enterradas pessoas pobres, escravos e libertos até nos séculos IV e V. O papa esperou encontrar aí sinais do túmulo de Pedro, mas as obras foram suspensas por falta de evidências[3]. Tudo isso indica que a instituição cristã, da maneira como funciona concretamente, pode ser considerada uma criação da religião popular. Para os bispos, não é tão fácil aceitar isso, mas não há como fugir da evidência. Todos sabemos que o povo sustenta financeiramente a hierarquia (de uma ou outra forma) e que é ele que confere prestígio e honorabilidade a bispos e papas. Afinal, o que seria do papa se ninguém mais saísse de casa para ir vê-lo e aclamá-lo?
Interessante observar que os próprios papas têm sua ‘religiosidade’. Até agora, nenhum papa se atreveu a adotar o nome Pedro. Só tardiamente, no século VI, um papa adotou o nome João e só no século VIII veio o primeiro Paulo. Há muitos detalhes interessantes nesse sentido, que não menciono aqui por falta de espaço, mas que você pode pesquisar na google.
4. A luta pela hegemonia.
A partir do século III desencadeia-se, entre os bispos das quatro principais metrópoles do império romano (Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Roma), uma prolongada luta pelo poder. Essa luta é particularmente dramática na parte oriental do império, onde se fala a língua grega. Os bispos em litígio passam a ser chamados ‘patriarcas’. Esse termo acopla o ‘pater’ grego com o poder político (‘archè’, em grego, significa ‘poder’), o que significa que o patriarca é ao mesmo tempo pai e líder político. Nos inícios, Roma participa pouco dessa disputa, por ficar longe dos grandes centros do poder da época e usar uma língua menos universal (apenas usada na administração e no exército do sistema imperial romano), o latim. Por sua vez, Jerusalém, cidade ‘matriz’ do movimento cristão, fica fora do páreo por ser uma cidade de pouca importância política.
Constantinopla se autoproclama, em 330, a ‘segunda Roma’, um título aceito pelos bispos em 381, por ocasião do concílio de Constantinopla. Doravante, o poder divino (exercido por Pedro) atua na ‘nova Roma’, ou seja, em Constantinopla. Fortalecidos por esse consenso, os patriarcas de Constantinopla se metem sempre mais em assuntos internos das demais igrejas, um processo que culmina em Calcedônia (451), quando Constantinopla nomeia bispos para Antioquia e Alexandria. A ideia da transferência do ‘poder de Pedro’ ainda faz sucesso no século XVI, quando o patriarca Jeremias II Tranos, de Constantinopla, viaja à Rússia (1589), impressionado pelo vigor do cristianismo naquele país, faz de Moscou uma ‘terceira Roma’. Prontamente, a cidade se torna centro de peregrinação. Assim como os francos e germânicos peregrinam para Roma, os eslavos e russos peregrinam para Moscou. A identificação entre o império romano, sua memória, seus símbolos, seus ritos, suas vestes e cerimônias e os impérios bizantino, carolíngio, russo e católico é algo que salta à vista do historiador. Efetivamente, ‘o mundo gira, mas a cruz fica’[4].
5. Durante séculos, Roma busca o poder.
O patriarca de Roma, que no início não ocupa um papel de destaque na luta pela hegemonia sobre a cristiandade toda, não deixa, desde cedo, de fazer valer seu poder na parte ocidental do império. Já no século III, o já citado bispo Cipriano, de Cartago, reage com energia diante das pretensões hegemônicas do bispo de Roma e repete que entre os bispos há de reinar uma ‘completa igualdade de funções e poder’. Mas a história progride inexoravelmente. Com tenacidade, os sucessivos patriarcas de Roma conseguem ampliar sua ascendência sobre as demais igrejas do ocidente. É uma longa história da qual aponto aqui apenas alguns momentos marcantes[5]. Penso que é importante percorrer as sucessivas etapas, pois desse modo fica mais fácil compreender que o papado é uma construção histórica condicionada pelo tempo e pelo espaço, como tudo que o homem faz. Tudo que o homem constroi pode ser desconstruído, remodelado ou substituído por algo mais condizente com as exigências do momento.
- Até o final do século III, o papado não se mete nas decisões feitas pelas reuniões de bispos. Eles são livres e soberanos. Mas já se anunciam problemas no horizonte.
- A mesma atitude perdura na primeira parte do século IV.Os bispos locais mantêm sua independência diante de Roma, embora sempre manifestem respeito para com o patriarca de Roma. Assim nas reuniões episcopais de Arles (314), Nicéia (325) e Sárdico (342). Quando há um caso, o bispo de Roma é notificado, nada mais. Os patriarcas Silvestre e Libério não interferem em decisões tomadas nas reuniões de bispos (concílios).
- As coisas começam a mudar na segunda parte do século IV. Os patriarcas romanos Damásio (366-384) e Sirico (384-399) se mostram destemidos e atribuem a Pedro (e seus sucessores) títulos da nomenclatura religiosa romana, como ‘sumo pontífice’, ‘príncipe (dos apóstolos)’, ‘vigário (de Cristo)’. Bispos como Basílio e Ambrósio não aprovam as manobras romanas, mas mesmo assim os patriarcas romanos avançam em busca de controle sobre os bispos.
- Sob Inocêncio I, no início do século V, o processo da romanização da igreja cristã no Ocidente avança. Inocêncio intervém sistematicamente nos assuntos de igrejas locais na Gália, Espanha e Ilíria, ele exige relatórios se reserva a última decisão. Às reuniões episcopais de Cartago e Mileve (acerca do pelagianismo), ele manda dizer que um caso só se resolve após passar por Roma. Celestino I segue o mesmo caminho e resolve soberanamente o caso de Nestório (de Alexandria), e delega Cirilo de Alexandria ao concílio de Éfeso (431). Mais uma vez, bispos e teólogos reagem. Mesmo Agostinho não concorda, embora se diga que ele seja autor da frase ‘Roma falou, a discussão terminou’[6]. Ele mantém a ideia tradicional: a autoridade romana tem de respeitar a soberania dos concílios episcopais. O primado do bispo de Roma é apenas honorário.
- Mas o processo da centralização romana continua. Leão I intensifica a mística petrina e principalmente a mitologia em torno da imagem de Pedro. Ele tem a ousadia de afirmar que sua autoridade (a ‘plenitude do poder’[7]), provém diretamente de Cristo. O ‘vigário de Cristo’ é o ‘príncipe dos apóstolos’, não é o ‘primeiro entre pares[8]’ (como dizia Eusébio), nem uma autoridade ‘honorária’ (como dizia Agostinho). Nos concílios realizados da Espanha, da Itália do Norte e da África do Norte, Leão age em chefe absoluto e intervém em mínimos detalhes. Mesmo no oriente ele se atreve a interferir. Na controvérsia monofisita, ele despreza a intervenção do patriarca de Alexandria e manda seus próprios legados, transmite ordens aos padres reunidos em Calcedônia e declara nulas as decisões que não lhe agradam. Essa postura mandante impressiona muito os contemporâneos, que conservam cuidadosamente sua correspondência, que passa a constituir a base da teoria papal vigente até nossos dias.
- A vitória definitiva do papado vem com Gregório Magno, que cria em Lérins, na atual França, uma escola de ‘aristocratas episcopais’ a estabelecer a organização eclesiástica no sul da Gália. Intelectual de renome, Gregório inicia os tempos da glória romana. Sua figura pode ser arrolada ao lado de outros expoentes da ‘aristocracia episcopal’, como Ambrósio, protagonista da supremacia da igreja sobre o estado; Agostinho, ao mesmo tempo ‘pai da inquisição’ e genial teólogo; João Crisóstomo, orador de renome e Cirilo de Alexandria, fundador da tradição teológica grega.
- O caminho está pavimentado. Após a bem sucedida aliança com o emergente poder germânico no ocidente (Carlos Magno, 800), os papas romanos sempre mais elevam o tom da voz e, por conseguinte, as relações com os patriarcas orientais (principalmente com o patriarca de Constantinopla) se tornam sempre mais tensas. O cisma de 1054 vem concluir uma evolução de séculos. Rompe-se a unidade do corpo cristão e dois caminhos se abrem: o ortodoxo e o católico.
6. Roma no auge do poder.
Aí começa a história da igreja católica apostólica romana propriamente dita. É uma história de sucesso, durante séculos. Esse sucesso provém principalmente da diplomacia, ou seja, da ‘arte da corte’ que Roma aprendera com Constantinopla. Ao longo dos séculos, praticamente todos os governos da Europa ocidental aprendem em Roma ou por Roma essa arte. Pois a diplomacia é uma arte nada edificante mas muito eficiente. Ela inclui hipocrisia, aparência, habilidade em lidar com o povo, impunidade, sigilo, linguagem codificada (inacessível aos fiéis), palavras piedosas (e enganosas), crueldade encoberta de caridade, acumulação financeira (indulgências, ameaça do inferno, do medo etc.). A imponente ‘História criminal do cristianismo’, em 10 volumes, que o historiador K. Deschner acaba de concluir, descreve essa arte eminentemente papal em detalhes.
É principalmente por meio da arte diplomática que, ao longo da idade média, o papado tem sucessos fenomenais. Sem armas, Roma enfrenta os maiores poderes do ocidente e sai vitoriosa (Canossa 1077). Como resultado, a igreja é afetada, no dizer do historiador Toynbee, pela ‘embriaguez da vitória’. O papa perde contato com a realidade do mundo e passa a viver num universo irreal, repleto de palavras sobrenaturais (que ninguém entende).
7. Roma ao lado dos mais fortes
Com o advento da modernidade, o papado perde paulatinamente espaço público. No século XIX, principalmente durante o longo pontificado de Pio IX, a antiga estratégia de se opor aos ‘poderes deste mundo’ não funciona mais. Não traz mais vitórias, registra apenas derrotas. Então, o papa Leão XIII resolve mudar a estratégia e inicia uma política de apoio aos mais fortes, uma estratégia que funciona durante todo o século XX. Bento XV sai da primeira guerra mundial ao lado dos vitoriosos; Pio XI apoia Mussolini, Hitler e Franco, enquanto Pio XII pratica a política do silêncio diante dos crimes contra a humanidade perpetrados durante a segunda guerra mundial, à custa de incontáveis vidas humanas. Após uma breve interrupção com João XXIII, a política de apoio silencioso aos ganhadores (e de palavras genéricas de consolo aos perdedores) prossegue até os nossos dias.
8. O papado, um problema.
Por tudo isso, pode-se dizer hoje que o papado não é uma solução, é um problema. Pois o papa não é só um líder religioso, mas também um chefe de estado. Cada vez mais se percebe como o papado é um desvio do episcopado. Esse episcopado registra, ao longo dos séculos, páginas luminosas. Aqui na aqui na América Latina tivemos, nos últimos tempos, além de bispos mártires como Romero e Angelelli, uma geração de bispos excepcionais entre os anos 1960 e os anos 1990. É verdade que o concílio Vaticano II avançou a ideia da colegialidade episcopal, no intuito de fortalecer o poder dos bispos e limitar o poder do papa, mas sem avanços consideráveis, pelo menos até hoje. Mesmo assim, vale lembrar que o catolicismo é maior que o papa e que a importância dos valores veiculados pelo catolicismo é maior que o atual sistema de seu governo.
Tudo se resume na seguinte pergunta: ‘pode a igreja católica subsistir sem papa?’ É como se perguntar ‘ pode a França subsistir sem rei, a Inglaterra sem rainha, a Rússia sem czar, o Irã sem aiatolá?’. A própria história dá resposta. A França não se acabou com a destituição do rei Luis XVI e o Irã certamente não se acabará com o fim do reino dos aiatolás. O surgimento do protestantismo no século XVI comprovou que o cristianismo pode subsistir sem papa. Haverá certamente resiliências e saudosismos, tentativas de volta ao passado, mas instituições não costumam desaparecer com mudanças de governo. Em geral, o movimento da história em direção a uma maior participação popular é irreversível (ao que parece). Cedo ou tarde, a igreja católica terá de enfrentar a questão da superação do papado por um sistema de governo central mais condizente com os tempos que vivemos.
Notas:
[1] Meyendorff, The Primacy of Peter. Essays on Ecclesiology and the Early Church, Crestwood (NY), St. Vladimir‘s Seminary Press, 1992.
[2] As romarias ‘ad limina apostolorum’.
[3] Veja Revue d’ Histoire Écclésiastique, Louvain, 1976, 109-111, com comentário do livro de Väänänen sobre o assunto.
[4] Stat crux dum volvitur mundus.
[5] Veja Wojtowytsch, M., Papsstum und Konzile von den Anfängen bis zu Leo I (440-461). Studien zur Enstehung der Überordnung des Papstes über Konzile, Stuttgart, A Hiersemann Verlag, 1981.
[6] Roma locuta, causa finita
[7] Plenitudo potestatis.
[8] Primus inter pares. Essa é a tese clássica de Cipriano.
[Fonte: Servicios Koinonía].

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

SUCESSÃO DO PAPA - Nove cardeais são suspeitos.


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Nove dos 117 cardeais são suspeitos ou cúmplices de assédio sexual ou pedofilia
Um belga, um irlandês, dois estadunidenses, um australiano, um polonês, um esloveno, um argentino e um mexicano (foto) continuam no grupo que vai escolher o novo papa
Entre os 117 cardeais com direito a voto no conclave – eleição para eleger o novo papa em março – pelo menos 9 são acusados publicamente de terem praticado ou acobertado atos ilegais como assédio sexual e pedofilia. O número, que equivale a quase 8% dos religiosos com poder de decisão no Vaticano, escancara uma das crises institucionais por que passa a Santa Sé.
Para evitar maiores constrangimentos, nessa segunda-feira (25), o responsável pela Igreja Católica na Escócia, o cardeal Keith Michael Patrick O’Brien, renunciou ao seu direito de participar do conclave. Oficialmente, diz-se que teria partido dele o desejo de renunciar ao cargo de cardeal – por já estar com mais de 75 anos. Mas especula-se que o Vaticano o pressionou a tomar tal atitude por conta da acusação de ter praticado assédio sexual na década de 1980. “Pelo bem que eu tenha feito, agradeço a Deus. Por qualquer falha, peço desculpas a quem eu tenha ofendido”, escreveu em comunicado.
O cardeal foi denunciado por três padres e um ex-religioso da diocese de St. Andrews e Edinburgo por ter investido sexualmente contra eles. O’Brien disse que desistiu de participar da eleição que escolherá o sucessor de Bento XVI porque não quer que a atenção da mídia se concentre nele e sim no papa Bento XVI e no seu sucessor.
Outro caso de destaque é do cardeal e antigo arcebispo de Los Angeles, Roger Mahony, suspeito de ter acobertado 129 casos de pedofilia por várias décadas. Mahony sofre pressão para que deixe de participar do conclave. A presença de Mahony “vai agravar o escândalo e a vergonha da nossa Igreja”, disse a associação de católicos dos Estados Unidos, Catholics United. A petição do grupo, que pede que o cardeal “fique em casa”, teve alcance internacional.
Outro estadunidense, o cardeal Justin Francis Rigali, ex-chefe da diocese de Filadélfia, é acusado de não ter esclarecido casos de pedofilia supostamente cometidos por 37 sacerdotes. Acusação semelhante é feita ao cardeal belga Godfried Danneels, que há três anos teve o seu computador pessoal apreendido por conta de acobertamento de casos de abuso de menores. Já o nome do cardeal irlandês Seán Baptist Brady foi envolvido com uma centena de casos de abusos cometidos em orfanatos, escolas e paróquias.
Acusações de mesmo tipo são feitas contra o arcebispo de Sydney, o australiano George Pell; o arcebispo de Cracóvia, o polonês Stanislaw Dziwisz; o prefeito emérito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, o esloveno Franc Rodé; o prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, o argentino Leonardo Sandri; e o arcebispo da Cidade do México, Norberto Rivera Carrera, acusado de proteger o pedófilo e fundador da corrente direitista Legionários de Cristo, Marcial Maciel.
A suspeita ou comprovação da participação em atos como assédio sexual e pedofilia não é suficiente para impedir um cardeal de participar do conclave. A decisão de afastamento, entretanto, pode ser tomada individualmente pelo religioso (Com agências internacionais).

domingo, 24 de fevereiro de 2013

AÇÃO POLÍTICA DO VATICANO NA AMÉRICA LATINA.


| Por Jamil Chade, estadao.com.br

Papéis do WikiLeaks expõem ação política do Vaticano na América Latina

Cerca de 130 telegramas mostram que pontificado de Bento XVI agiu nos bastidores para influenciar região, incluindo articulação com EUA para que avião que traria papa ao País em 2007 fizesse escala forçada em Caracas para pressionar Chávez

GENEBRA - O regime cubano, a "ameaça" de Hugo Chávez, a crise em Honduras ou mesmo os acordos comerciais do Brasil. O Vaticano sob o pontificado de Bento XVI, longe de ter uma postura de mero espectador, adotou iniciativas políticas nos bastidores para influenciar a situação na América Latina nos últimos anos e defender seus interesses.

É o que revelam mais de 130 telegramas vazados pelo site WikiLeaks, e obtidos com exclusividade pelo Estado, apontando para as entranhas das relações políticas do Vaticano desde 2005 na região latino-americana, que representa mais de 40% de seus fiéis no mundo.

Tentando ter um papel político central no continente, a Santa Sé tratou de algumas das crises no hemisfério com o presidente dos EUA, Barack Obama. Documentos revelam que o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, fez propostas concretas para o governo americano sobre a situação em Honduras quando se reuniu, em 10 de julho de 2009, com o presidente Obama.

Num telegrama de 15 de julho de 2009, a embaixada americana na Santa Sé relata um encontro de diplomatas americanos com monsenhor Francisco Forjan em que o Vaticano rejeita chamar a retirada de Manuel Zelaya da presidência como um "golpe de Estado".

 A Igreja pedia ao governo americano que insistisse com seus parceiros para que explicassem ao público as "ações anticonstitucionais de Zelaya que precipitaram a crise". O líder da Igreja nesse assunto era o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa e hoje considerado como um dos potenciais candidatos a papa.

Um dos temas mais constantes nas reuniões entre diplomatas americanos e cardeais do Vaticano é a situação de Cuba. Um telegrama de 19 de agosto de 2009 revela que uma viagem de cardeais e bispos americanos a Cuba naquele ano não era apenas uma visita episcopal. A meta era também a de pressionar o governo de Havana em relação aos prisioneiros políticos, um pedido de Washington.

O telegrama escrito pela representação americana em Cuba conta que o cardeal de Boston, Sean O'Malley, um dos que estarão no conclave, reuniu-se com o presidente da Assembleia Nacional de Cuba, Ricardo Alarcón.

 O documento revela que os cardeais e bispos relataram ponto a ponto ao governo americano como havia sido a conversa com Alarcón. "Apreciamos o fato de a delegação (de religiosos) ter levantado os problemas de prisioneiros políticos", indicou o telegrama.

No dia 15 de janeiro de 2010, o Vaticano fez uma sugestão concreta ao governo americano para enfraquecer o regime cubano: baratear os custos de ligações entre Cuba e os EUA.

 A proposta foi apresentada por monsenhor Nicolas Thevenin, conselheiro político de Bertone. "Isso poderia ter um impacto positivo na promoção de uma mudança política", indicou.

A Venezuela de Hugo Chávez é apresentada pela Santa Sé como a grande preocupação na região. Para Accattino, um endurecimento da posição dos EUA diante de Cuba poderia acabar ajudando Chávez, "o novo sucesso de Fidel Castro na América Latina".

 "A diferença é que ele tem os recursos do petróleo", alertou. O Vaticano, em diversas conversas com diplomatas americanos, deixou claro que Caracas vinha pressionando a Igreja e transformado a Santa Sé em um de seus alvos de crítica.

Pressão contra Chávez. Três anos antes, no dia 1.º de fevereiro de 2007, o embaixador americano em Caracas, William Brownfield, e o cardeal Jorge Urosa Savino se reuniram na casa do núncio apostólico na capital venezuelana para discutir a possibilidade de que o papa Bento XVI usasse sua viagem que faria naquele ano ao Brasil para pressionar Chávez. Uma viagem oficial a Caracas estaria descartada pelo Vaticano. "Chávez não o convidaria", disse o cardeal.

Os dois passaram a debater a possibilidade de que o avião que traria o papa de Roma a São Paulo, em maio, fizesse uma parada de 45 minutos em Caracas, com a justificativa de reabastecer.

 Nesse período, o papa receberia bispos e faria uma declaração. "O cardeal concordou que qualquer parada teria uma importância simbólica", indicou o telegrama, apontando para a reação positiva de Savino. A escala acabou não ocorrendo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

MAURO SANTAYANA: A igreja e a reinvenção do Ocidente.





Ao surpreender o mundo – menos alguns íntimos de sua fadiga – com a renúncia ao papado, Bento XVI revela a grande crise por que passa a Igreja Católica. Quando Gregório XII renunciou, em 1415, seu gesto unificou a instituição, então dividida sob três pontífices desde 1378. Ângelo Correr percebeu, com acuidade, que ele serviria melhor à sua própria posteridade ao servir à unidade da Igreja, e abandonar o trono papal.

Por Mauro Santayana, em seu blog


Ele não era O Papa, mas a terceira parte de um poder que, dividido, enfraquecia-se cada vez mais diante do mundo e, o que é pior, diante da História. Os dois anos de vida que lhe sobraram – morreu em 1417 - lhe devem ter assegurado esse consolo. Ele tinha 90 anos ao renunciar – uma idade difícil de atingir naquela véspera do Renascimento – mas deu a seu gesto o claro caráter político, ao negociá-lo com o adversário mais forte, e influir na escolha – unânime, do sucessor, Martinho V – da poderosa família Colonna. Não alegou cansaço, mas, sim, responsabilidade política.

Mais longa do que o Grande Cisma dos séculos 14 e 15, que durou quase 40 anos, é a já duradoura crise do Ocidente, de que a Igreja foi fiadora e principal organização política, desde Constantino e Ambrósio. Depois da morte de ambos, a Igreja se proclamou herdeira do Império Romano, com base em um documento apócrifo, a Constitutum Constantini, segundo o qual Constantino legava ao papa Silvestre I – e, assim, à Igreja – todo o poder político e todos os bens do Império. O documento, forjado no século 8, foi desmascarado por Lourenço Valla, no século 15.

Um dos mais destacados latinistas e gramáticos da História, Valla provou que o latim usado para redigir o documento não existia no século 4. A inteligência lógica de Ambrósio arquitetou a construção política da Igreja, conduzida na sábia combinação entre a concentração da autoridade espiritual no Vaticano, exercida mediante os bispos, e a distribuição do poder temporal entre os reis e os senhores feudais, sem esquecer o domínio direto sobre os estados pontifícios, que garantiam a incolumidade dos papas.

Dessa forma foi possível, em esforço de séculos, domar a anarquia, conter e assimilar os bárbaros e dar estrutura política e social à Idade Média, com a consolidação da injustiça de sempre contra os pobres e os pensadores que os defendiam, quase sempre levados às inquisições e à fogueira, como ocorreu a Giordano Bruno, no auge do Renascimento, em 1600.

Ambrósio, nobre burocrata do Império, que pagão até ser eleito bispo de Milão, não agiu como teólogo, que não era, mas, sim, como um dos mais hábeis estrategistas políticos da História. Coube-lhe salvar os pontos basilares da idéia do Ocidente.

A Igreja sempre fez alianças com o poder temporal, algumas piores do que as outras, a fim de evitar a prevalência do verdadeiro Cristianismo sobre seus interesses políticos no mundo. É assim que o Vaticano de nossos dias – depois de tolerância criminosa com Hitler, sob Pio XII – mantém o acordo firmado entre Reagan e Wojtyla, há mais de trinta anos, com o objetivo, atingido, de destruir a União Soviética e combater o socialismo. É preciso lembrar que, para o êxito da conspiração, contribuíram o traidor Gorbatchov, hoje garoto propaganda dos artigos de luxo da Louis Vuitton, e as operações do Banco Ambrosiano (valha a coincidência), para financiar o Solidarinosc, o sindicato de direita da Polônia, liderado por Lech Walesa.

Mesmo que não a desejasse, Ratzinger seria compelido à renúncia, pelos mais eminentes membros da Cúria Romana, que se preocupam com a sanidade mental do Pontífice, cujo engajamento com os setores mais conservadores da Igreja tem comprometido o seu arbítrio. Acrescente-se o movimento, subterrâneo, mas vigoroso, da Igreja Latina – e mais perceptível no episcopado italiano – de encerrar o período de papas menos universais e empenhados em sua razão nacionalista, como o polonês e o alemão. Isso não significa que o clero italiano recupere a Santa Sé, mas anuncia uma campanha intensa durante o conclave em favor de um candidato com as chances de Ângelo Scola, atual arcebispo de Milão, e advogado de diálogo franco e aberto com o Islã.

Em seu pronunciamento de renúncia, o Papa associou seu gesto à crise do pensamento ocidental, no tempo de alucinantes mudanças:

“... no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para 

Como anotou Gregório de Tours, no enigmático século 6, o mundo de vez em quando envelhece, encasulado na dúvida, e reclama a metamorfose. A Igreja Cristã (não só a Católica) e o Ocidente, xifópagos há 16 séculos, necessitam reinventar-se. Talvez a astúcia hoje dependa de pensadores abertos, como o arcebispo de Milão, sucessor de Ambrósio no episcopado. Talvez seja o tempo de se convocar não um Concílio da Igreja Católica, mas de organizar-se Concílio Ecumênico Universal, para salvar a idéia de um Deus comum, reunindo todas as crenças em nome da vida e da paz entre os homens de boa vontade.