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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

ESTADO ISLÂMICO - As decapitações em série na Arábia Saudita.


Decapitações: O silêncio hipócrita do Ocidente

"A execução de Nimr vai apresentar ao Ocidente seu mais embaraçoso problema no Oriente Médio: a necessidade de continuar a encolher e rastejar diante dos monarcas ricos e autocráticos do Golfo enquanto expressa suavemente sua inquietação pela carnificina grotesca", alerta Robert Fisk, jornalista, em artigo publicado por Independent e reproduzido por jornal GGN, 06-01-2016.
Eis o artigo.
As decapitações em série na Arábia Saudita — 47 ao todo, incluindo a do clérigo xiita xeque Nimr al-Nimr Bakr, seguida de uma justificativa corânica para as execuções – foram dignas do Estado Islâmico. Esse foi, talvez, o ponto. Esse banho de sangue extraordinário na terra da monarquia sunita al-Saud – claramente destinada a enfurecer os iranianos e todo o mundo xiita – voltou trazer o sectarismo a um conflito religioso que o EI fez muito para promover.
Tudo o que estava faltando era o vídeo das decapitações – apesar das 158 decapitações do reino no ano passado estarem em perfeita sintonia com os ensinamentos Wahabi do “Estado islâmico”. “O sangue terá sangue” de “Macbeth” certamente se aplica aos sauditas, cuja “guerra ao terror”, ao que parece, agora justifica qualquer quantidade de sangue, tanto de sunitas quanto de xiitas.
O xeque Nimr não era apenas uma velha divindade. Ele passou anos como um estudioso em Teerã e na Síria, era um líder xiita reverenciado nas orações de sexta-feira na província de Arábia Oriental, um homem que se distanciou dos partidos políticos, mas exigiu eleições livres, e foi regularmente detido e torturado – segundo ele mesmo – por se opor ao governo sunita Wahabi da Arábia Saudita.
O xeque Nimr disse que palavras eram mais poderosas do que a violência. A alegação lunática das autoridades de que não havia nada sectário sobre este banho de sangue, alegando que haviam decapitado sunitas bem como xiitas, é retórica clássica do EI.
Afinal, o EI corta as cabeças dos ‘apóstatas’ sunitas e soldados iraquianos tão facilmente como faz matanças xiitas. Nimr teria conseguido o mesmo tratamento dos bandidos do Estado Islâmico que obteve dos sauditas – embora sem a paródia de um julgamento pseudo-jurídico que lhe foi conferida.
Mas os assassinatos representam mais do que apenas o ódio saudita por um clérigo que se alegrou com a morte do ex-ministro do Interior saudita – o pai de Mohamed bin Nayef, o príncipe Nayef Abdul-Aziz al-Saud -, com a esperança de que ele fosse “comido por vermes e sofresse os tormentos do inferno em seu túmulo “. A execução de Nimr irá revigorar a rebelião Houthi no Iêmen, que os sauditas invadiram e bombardearam este ano em uma tentativa de destruir o poder xiita lá.

Ela vai apresentar ao Ocidente seu mais embaraçoso problema no Oriente Médio: a necessidade de continuar a encolher e rastejar diante dos monarcas ricos e autocráticos do Golfo enquanto expressa suavemente sua inquietação pela carnificina grotesca.
Se o EI tivesse decepado a cabeça dos sunitas e xiitas em Raqqa – especialmente a de um sacerdote problemático como o xeque Nimr – nós poderíamos ter certeza de que Dave Cameron iria tuitar seu desgosto por tão repugnante ato.
As execuções sauditas foram certamente uma forma sem precedentes de dar boas-vindas ao ano novo – não tão publicamente espetacular como a queima de fogos em Dubai, que destruiu um dos melhores hotéis do emirado. Fora das implicações políticas, no entanto, existe ainda uma pergunta óbvia a ser feita – no próprio mundo árabe – sobre a Casa de Saud: os governantes da Arábia Saudita piraram?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ESTADO ISLÂMICO - O que leva os jovens a se converter em islâmicos radicais?

O que leva os jovens a se converter em islâmicos radicais sem alma?


Desde os atentados contra a revista satírica Charlie Hebdo e o supermercado judaico Hypercacher, e mesmo antes, desde que cidadãos de toda a Europa começaram a ir para a Síria combater sob a bandeira negra do terror do Estados Islâmico (ISIS), a França tentou responder a uma pergunta: como é possível?, o que leva jovens franceses a cometer crimes atrozes, não só na França, mas também também no Oriente Médio? O massacre de 13 de novembro em Paris (130 pessoas mortas e três centenas de feridos) tornou ainda mais urgente encontrar uma resposta que é duvidoso que exista.
A reportagem é de Guillermo Altares, publicada por El País, 29-11-2015.
Os debates em rádio e televisão, a imprensa, e também as prateleiras de lançamentos das livrarias encheram-se de todo tipo de análise sobre o processo de radicalização. A especialistas que estudam o islamismo radical há décadas, como Olivier Roy, Gilles Kepel e Farhad Khosrokhavar, vêm somar-se novas vozes como as que foram a um congresso em Paris em maio, cujas conclusões apareceram justamente por esses dias na França em um livro, L'Ideal et la Cruauté (O Ideal e a Crueldade), coordenado por Fethi Benslama.
O psiquiatra e antropólogo Richard Rechtman (Paris, 1958) oferece nesse volume uma das visões mais interessantes e originais. Diferentemente da maioria dos especialistas, que partem do estudo do b e da Al Qaeda, Rechtman conseguiu articular um olhar diferente porque passou mais de 30 anos estudando os mecanismos que levaram à barbárie do Khmer Vermelho no Camboja. Não afirma que o ISIS esteja levando a cabo um genocídio como o do Camboja nos anos 1970, mas sim que os processos que transformam jovens aparentemente inexpressivos em carrascos são parecidos.
“Pode-se traçar um único paralelismo com os pequenos carrascos do Camboja e também com o que chamo de genocidas em geral”, explica durante uma entrevista em seu consultório de psiquiatria em Paris, situado perto dos Jardins do Luxemburgo. “Estabeleço uma diferença entre o genocídio e os genocidas. O genocídio tem uma definição jurídica, muito precisa, o extermínio de um povo. Não é a isso que me refiro, mas sim ao fato de que, dentro do genocídio, estão os genocidas, os que realizam o crime, que encontramos nos processos bélicos ou mesmo no terrorismo”, prossegue Rechtman, autor de livros como The Empire of Trauma. An Inquiry into the Condition of Victimhood (O Império do trauma: uma investigação sobre a condição de vítima) (Princeton University Press, 2009) ou Les vivantes (Os viventes) (Editions Léo Scheer), romance ambientado durante o genocídio do Camboja.
Este pesquisador, diretor de Pesquisa na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais) de Paris e diretor adjunto do Institut de Recherche Interdisciplinaire sur les Enjeux Sociaux (Instituto de Pesquisa Interdisciplinar sobre Questões Sociais) (IRIS), acrescenta: “Até agora os terroristas atacavam sobretudo alvos simbólicos, sua ideia era matar seres humanos para atacar um símbolo, mas me parece que o ISIS é um caso diferente. Nos atentados contra o Charlie Hebdo mataram caricaturistas para atentar contra a liberdade de expressão como alvo e mataram judeus para atacar o sionismo, mas os atentados do 13 de novembro não têm nada a ver, matam a gente pelo que são, e não pelo que representam. Um policial é assassinado porque é policial, um judeu porque é judeu, um desenhista porque é desenhista e isso é algo que também encontramos em outros processos genocidas, onde as pessoas são assassinadas pelo que se supõe que devam ser, mas no caso do Khmer Vermelho, em sua busca do povo novo, não importava o que pensassem as vítimas, o simples fato de ser é suficiente para ser assassinado”.
As teorias de Rechtman recordam relatos sobre os carrascos, obras cuja leitura é difícil de esquecer como Não Faziam Mal a Uma Mosca, de Slavenka Drakulic, sobre os Bálcãs – conta o caso de um vizinho exemplar, que acabou com uma bolha no dedo que utilizava para disparar após passar horas assassinando muçulmanos em Srebrenica – ouOrdinary Men [Homens Comuns], de Christopher Browning, sobre um grupo de policiais alemães aposentados que assassinaram dezenas de milhares de judeus durante a II Guerra Mundial. Também há ecos do impressionante livro do mexicano Sergio González Rodríguez sobre os assassinos do narcotráfico mexicano, El Hombre sin Cabeza, ou do documentário de Joshua Oppeinheimer sobre os massacres anticomunistas no Indonésia nos anos 1960, The Act of Killing.
“É mais cômodo identificar os carrascos como gente malvada, sádica, mas não é assim”, explica. “Os genocidas fazem o que lhes pedem sem fazer perguntas. Aqui há, além do mais, uma dimensão de teatralidade, que os terroristas manipulam muito bem. Os membros do ISIS são ocidentais, conhecem a Europa e ao mesmo tempo o Oriente Médio, assim têm um conhecimento excepcional do que nos aterroriza e ao mesmo tempo os glorifica”. Perguntado se, como psiquiatra, pode encontrar uma patologia comum nos terroristas do ISIS, responde com um categórico não: “Não existe uma explicação psicológica. Há um momento em que tomam uma decisão: fazê-lo. A questão que nos apresenta o ISIS é que, até agora, para explicar os carrascos se dizia muitas vezes que essa gente não tinha escolha. No Camboja se dizia que se você não matasse, morria. Com o ISIS é muito mais complicado porque se suicidam, mas acredito que isso demonstra que não é o medo da morte que os faz agir, é um discurso que se lança posteriormente quando se dão conta do que fizeram”.
E o Islã não tem nada a ver com o processo de radicalização do ISIS? “Não podemos dizer que o Islã não tenha nada que ver com isso, podemos afirmar que os muçulmanos europeus não têm nada a ver. É como se disséssemos que o comunismo não tem nada a ver com o Khmer Vermelho, não se pode dizer, há uma relação, embora não encontremos nada no comunismo que possa explicar por si só o que ocorreu no Camboja. O que há é uma utilização do Islã, há um tipo de encontro entre uma forma particular de violência coletiva, que provoca assassinatos, e uma ideologia. E existem no Islã elementos que são favoráveis a este encontro”.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

ATENTADO DE PARIS - Algumas perguntas e refelexões.


Atentado de Paris: 13 perguntas e 24 reflexões

Nenhum dos 13 objetivos da guerra contra a Síria tem a ver com eliminar o terrorismo: o jihadismo e o imperialismo se alimentam mutuamente.


Nazanín Armanian*
UNRWA 30/01/2014
“A verdade é a primeira vítima de toda guerra”

1. Quais são as mentiras dos atentados do dia 13 de novembro, em Paris para que o presidente Hollande utilize a palavra “guerra” no combate contra o terrorismo? Pois uma “guerra” – investida militar – se declara entre Estados, e não de um país contra um grupo terrorista com sede e presença em mais de vinte países, inclusive na França.

2. Que garantia há de que as notícias que nos transmitem reflitam a verdade? Robert Menard, fundador da organização Repórteres Sem Fronteiras e prefeito de Bèziers, por exemplo, é um ultradireitista que encabeça a campanha de expulsão dos refugiados sírios.

3. Por que as imagens (falsas ou verdadeiras) dos bombardeios russos na Síria mostram vítimas civis, enquanto nas correspondentes aos ataques da coalizão ocidental só se possam ver pontinhos negros no deserto, quando a cidade de Al Raqa, agredida e cercada militarmente, milhares de pessoas que não puderam fugir da guerra vivem sem eletricidade? Estão aplicando o ilegal castigo colectivo?

4. Bashar al-Assad teria direito de bombardear França, Arábia Saudita, Qatar, Turquia, entre outros, caso dissesse que há células terroristas que viajam ao seu país para criar distúrbios?

5. Não foi o próprio Estado Islâmico (EI) o alvo de cerca de 200 bombardeios franceses, entre setembro e novembro de 2014? O que mais pretendem fazer?

6. Como é possível que os Estados Unidos e seus sócios, em poucos dias, destruissem o exército líbio, mas não puderam com alguns poucos terroristas carentes de armamento pesado?

7. A Turquia tem o direito de organizar milhares de homens armados para desmontar outro Estado-membro da ONU, sem a autorização da OTAN (Pentágono)? Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes, que abrigassem bases militares estadunidenses, podem fazer o mesmo? É como se a Espanha treinasse 30 mil terroristas nas fronteiras com o Marrocos ou a França para derrubar o seu governo, fornecendo bombas, mísseis e apoio logístico, sem prévia permissão de Bruxelas e Washington?

8. Segundo alguns analistas ocidentais, a expansão do jihadismo é uma das consequências das guerras contra o Iraque e o Afeganistão. Acaso pretenderão alimentar uma maior expansão deste fenômeno, que tem sido um ninho para os militaristas do Ocidente e do Oriente?

9. O que querem nos dizer é que a “inteligência” ocidental, com tantos artefatos ultrassofisticados, é menos inteligente que um grupo de garotos aventureiros?

10. Sobre a piada dos “documentos de identidade” que não se queimam e que teriam sido deixados pelos terroristas antes de explodirem seus próprios corpos, cabe a pergunta: como dois dos suicidas se mataram nas ruas vazias do lado de fora do Estádio de Saint-Denis e não no meio da aglomeração dos torcedores que saiam do campo?

11. Como é possível que as grandes potências tenham alcançado cessar fogo na Síria com os terroristas do Estado Islâmico? Alguém tem contato direto com eles? Por que não o fizeram durante os quatro anos anteriores? Utilizar esse argumento justifica a ação de desmantelar o Estado sírio?

12. Que grupo assassino é considerado “terrorista” para o Ocidente? Os Talibãs, coautores dos atentados do dia 11 de setembro de 2001, o são?

13. Qual o interesse da OTAN ao destruir os Estados não religiosos como Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, respaldando os islamistas, para logo viver com eles numa espécie de “coexistência pacífica”? O terrorismo islâmico é uma cortina de fumaça?

Objetivos e consequências do atentado

1. Empurrar a Europa a uma mega intervenção na Síria, capaz de derrubar Assad, e desatar a “crise de refugiados” na Europa.

2. Desmontar o “Plano Putin-Obama” de manter Assad no poder durante a transição política, ao qual Arábia Saudita, Qatar e Turquia se opõem. O diário republicano New York Post chegou a pedir que Obama renunciasse ou atuasse contra Assad. Mais atentados no Ocidente abrirão o caminho para os novos “Bushs” na Casa Branca.

3. Mudar o balanço militar nesta fase quase final do conflito a benefício da OTAN, justamente quando Rússia e Irã foram transformados em protagonistas absolutos do cenário. O atentado contra o avião russo também se encaixaria nesse contexto. Se trata nada menos que da conquista da Eurásia por parte das potências mundiais.

4. Tomar uma região desocupada pelos Estados Unidos, agora que Obama leva as suas tropas a cercar a China. Um traje grande demais para a França, que carece de recursos para fazer esse papel.

5. Segundo o “Instituto para a Paz e a Prosperidade” e a Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, a aviação da coalizão Anti-EI, liderada pelo Pentágono, bombardeia as posições dos curdos da Síria, e não as dos jihadistas, e afirma que  “o apoio aos rebeldes sírios significa financiar grupos terroristas com o dinheiro dos contribuintes”. Esta é uma das 23 verdades incômodas sobre o Estado Islâmico.

6. Abrir caminho para a conquista militar da Síria, que de outra forma seria impossível. Hillary Clinton confessou ao diário The Atlantic, no dia 1 de agosto de 2014, que a intervenção dos Estados Unidos na Síria foi desenhada para “mudar a equação” em favor dos rebeldes: de alguma forma, os jihadistas vem atuando como tropas terrestres da Coalizão para fazer da Síria um Estado falido.

7. Justificar os bombardeios ilegais do Ocidente contra a Síria, já aprovados pelo próprio Conselho de Segurança, o mesmo que rejeitou a petição de atacar o país em julho de 2012.

8. Reconstruir a coesão político-militar da OTAN no Pentágono, impedindo que os europeus pragmáticos retomassem suas relações de cooperação com a Rússia.

9. Reforçar as bases militares da OTAN na Turquia (e na Espanha). Nas últimas eleições, os atentados atribuídos aos jihadistas deram a maioria absoluta aos islamistas de Tayyab Erdogan – outro dos patrocinadores do terrorismo religioso: a OTAN para atuar na Síria, necessita uma Turquia estável, onde pode dirigir as operações de conquista de Damasco.

10. Mostrar a eficacia da tática de Obama, de transformar a Síria num pântano onde pode desgastar os inimigos e rivais dos Estados Unidos e de Israel.

11. A ameaça terrorista contribuirá para que mais cortes sociais e mais pobreza não sejam contestados: as novas leis “Patriot” e o aumento das mordaças aos críticos se propagarão: todos os cidadãos, exceto os governantes, serão suspeitos de terrorismo.

12. Multiplicar os lucros das empresas armamentistas: as estadunidenses Honeywell e General Dynamics, a francesa Thales e as britânicas Bae Systems e Rolls Royce estão faturando alto.

13. A França deixa de ser uma bárbara potência colonial, e passa a ser uma vítima de bárbaros procedentes da região que um dia ela avassalou. Agora, além disso, pode pedir sua parte da Síria como prêmio, o que está sendo dividido entre os sócios do G20.

14. Atacar a solidariedade dos europeus com os refugiados e vinculá-los com o terrorismo, dentro da miserável tática do “dividir para vencer”. Para a maioria dos muçulmanos do mundo –principais vítimas do jihadismo –, o Islã é uma espiritualidade privada e não uma doutrina política.

15. Legitimar as boas relações das potências mundiais com os regimes autoritários e obscurantistas de Oriente Próximo e Norte de África (OPNA), apresentando a eles como “moderados” em comparação com os impiedosos jihadistas. A notícia é que Ali al Nimr, cidadão da monarquia “moderada” da Arábia Saudita e ativista de 21 anos, depois de três anos vivendo sob torturas, foi condenado à morte por decapitação e crucificação em público. Logo depois, a ONU apontou Riad como referência mundial da defesa dos direitos humanos.

16. Presentar a Coalizão Árabe da Síria – a nova cria da OTAN – como alternativa ao governo de Assad.

17. Impedir novas marchas contra os cortes de gastos sociais e contra o TTIP (sigla em inglês do Tratado Transatlântico de Investimentos), que partiram de várias cidades (Berlim, Madri, Londres, entre outras) rumo a Bruxelas. Conectar os atentados de Paris com a Bélgica e declarar Estado de emergência na sede da Comissão Europeia, o que motivará a suspensão de novas marchas contra a hegemonia das multinacionais e atentando contra os direitos dos trabalhadores.

18. Enviar mais efetivos militares ao Mali, aproveitando o atentado num hotel naquele estratégico país. França já conta com 3 mil soldados no Sahel, disputando suas grandes reservas de urânio (que abastecem meia centena das suas centrais nucleares), ouro e outros minerais com a China.

E a nível interno:

19. Resgatar François Hollande, que chegou a ser considerado “o pior presidente da história da França”. Agora, pode sonhar com uma possível reeleição em 2017.

20. Forçar o crescimento das forças fascistas. Assim, a esquerda poderia até mesmo votar em Nicolas Sarkozy, o NeoCon europeu, nas próximas eleições  presidenciais. É a mesma jogada desenhada em maio de 2002.

21. Fazer com que os cidadãos franceses renunciem voluntariamente aos seus direitos políticos. Já foram tirados os direitos econômicos e sociais, e agora vão fazer o mesmo com os direitos políticos. Mas que diferença real existe entre o ataque de um estrangeiro (ou o cometido por um compatriota) e as conquistas de um povo?

22. Impulsionar a “unidade nacional” burguesa, baseada no medo, contra os mais pobres, representados pelos refugiados da guerra na Síria, os imigrantes e a classe trabalhadora própria. É como a estranha relação entre um preso e seu carcereiro. Na verdade, se trata de ódio aos pobres, disfarçado de ódio ao islã. Basta ver a magnífica relação entre os líderes do imperialismo com os sheiks do Golfo Pérsico.

23. A França é um dos países que há 30 anos vem enviando homens e mulheres de religião “cristã”, sem visto e armados até os dentes, aos países do OPNA. Soldados “civilizados”, que mataram cerca de um milhão e meio de pessoas, ferindo umas 20 milhões, obrigando a fugir dos seus lares a outras 30 milhões, ocupando suas terras e levando suas fortunas pessoais e nacionais. E ainda assim, eles não são “cristianófobos”.

24. Fechar as fronteiras da Europa. Imaginem a felicidade sentida agora pelo presidente búlgaro Boyko Borisov! Afinal, seu colega Hollande, defensor da “fraternité”, apoiado pelos cidadãos do seu país, respalda as políticas anti imigratórias da ultradireita.

Nenhum dos 13 objetivos da guerra contra a Síria tem a ver com eliminar o terrorismo. Ainda que o Estado Islâmico despareça (o que não acontecerá), a guerra na Síria continuará: o jihadismo e o imperialismo se alimentam mutuamente, e têm catastróficos planos para esta região.

* Nazanín Armanian é iraniana, residente em Barcelona desde 1983, quando se exilou no país. Licenciada em Ciências Políticas, dá aulas em cursos online da Universidade de Barcelona. Também é colunista de Público.es.

Tradução: Victor Farinelli

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

COMO SURGIU O ESTADO ISLÂMICO, COMO SE FINANCIA, ETC.

Como surgiu o Estado Islâmico, como se financia e quem faz “vista grossa”

Olga Rodríguez

 

O Estado Islâmico (EI) nasceu no fragor da ocupação e da fragmentação do Iraque. O desmantelamento das forças armadas iraquianas por parte dos EUA contribuiu para o seu fortalecimento. E a guerra síria foi chave para o seu crescimento. Turquia e Arábia Saudita, aliados do Ocidente, são epicentros do financiamento do EI.


O início do que viria a ser o EI
Os antecedentes que deram lugar ao EI surgem no contexto da ocupação do Iraque. Depois da tomada do país pelas tropas britânicas e norte-americanas (e espanholas até 2004), formaram-se diversos grupos armados para lutar contra os invasores.
Entre eles aparece a autodenominada organização de base jihadista na Mesopotâmia (procedente da Jamaa al Tawhid wal-Jihad, nascida em 1999), conhecida na imprensa como Al Qaeda do Iraque. Posteriormente unir-se-ia a outros grupos, primeiro sob o nome de Conselho de Mujahidines e depois, em 2006, Estado Islâmico do Iraque.
O contexto no Iraque
Milhares de iraquianos foram detidos em cárceres secretos norte-americanos, onde sofreram torturas diárias. Alguns presos desapareciam para sempre. Outros reapareciam anos depois devastados pelas torturas, e com uma fé religiosa renascida, inquebrantável e extremista.
Depois da ocupação, os EUA desmantelaram imediatamente as Forças Armadas iraquianas, criminalizaram o partido Baas e integraram milícias sectárias nas novas forças de segurança iraquianas para lutar contra a resistência. Fomentaram as divisões e treinaram membros de milícias policiais que semearam o terror.

Foi o que se chamou esquadrões da morte, comandos que prenderam milhares de jovens sunitas, muitos dos quais apareciam semanas depois mortos nas ruas de cidades como Bagdade, com orifícios de bala na cabeça, pés ou pulmões, com ossos partidos, crânios esmagados, pele queimada ou arrancada, sinais de descargas eléctricas ou olhos fora das órbitas.
Centenas de milhares de famílias fugiram do país. Em apenas alguns meses mais de cinco milhões de iraquianos converteram-se em refugiados. Dos quais, dois milhões e meio instalaram-se na Síria.
Em pouco tempo o Iraque, que tinha sido um país onde muitos xiitas e sunitas conviviam juntos, onde uma elevada percentagem dos casais eram mistos, onde não havia grandes tensões sectárias, converteu-se num inferno. Muitos antigos integrantes das Forças Armadas desmanteladas partilharam cela com membros de grupos religiosos que se iam radicalizando à medida que aumentava a violência e a repressão.
O grupo do cárcere de Camp Bucca
Al Bagdadi, formatado depois da sua passagem pelo cárcere de Camp Bucca e pela guerra, anunciou em 2013 a criação do ‘Estado Islâmico’ do Iraque e do Levante (Síria).
Abu Baker Al Bagdadi, que se converteria em 2010 no líder do Estado Islâmico do Iraque, foi preso pelos norte-americanos em 2004 na cidade de Fallujah, duramente golpeada pelas forças de ocupação, que bombardearam casas, mercados, escolas, hospitais e utilizaram fósforo branco, um armamento letal que queima a pele das suas vítimas. A dor provocada naquela cidade é recordada até ao dia de hoje pelos seus habitantes.
Al Bagdadi foi enviado para o cárcere de Camp Bucca, onde as torturas estavam na ordem do dia. Alguns beberam ali as doutrinas mais extremistas e desvirtuadas do Islão, como o wahabismo. Daquela prisão sairiam muitos homens prontos a integrar as fileiras do Estado Islâmico (EI ou Daesh).

As revoltas no Iraque
Em 2010, num Iraque totalmente fracturado, irrompeu um movimento pacífico de protesto contra o governo central, que tomou força após a eclosão das revoltas na Tunísia e Egipto em 2011.
Entrevistei então um dos organizadores daquelas manifestações iraquianas, Udai Al Zaidi, irmão do famoso jornalista que lançou um sapato a George Bush e foi encarcerado por isso. Al Zaidi, xiita, manifestava-se no Iraque juntamente com milhares de sunitas e xiitas, contra um governo que tachavam de corrupto e sectário.
O governo de Al Maliki, agarrado ao poder, reprimiu aqueles protestos massivos usando balas contra os manifestantes, apoiado pelo Exército norte-americano. Morreram centenas de pessoas e milhares foram encarceradas.
O ‘Estado Islâmico’ na Síria
A repressão governamental iraquiana contra qualquer tipo de queixa ou protesto aumentou e levou ao extremismo alguns sectores da oposição.
O mesmo ocorreu na Síria, onde as revoltas tinham irrompido em Março de 2011. O ‘Estado Islâmico’ do Iraque enviou uma delegação à Síria em Agosto de 2011, quando a guerra civil síria já estava em marcha, depois do esmagamento das revoltas por Bashar al Assad.

O líder do ‘Estado Islâmico’ do Iraque, o clérigo Al Bagdadi, formatado pela sua passagem pelo cárcere de Camp Bucca e pela guerra, anunciou em 2013 a criação do ‘Estado Islâmico’ do Iraque e do Levante (Síria).
O auge do EI
Em 2014, o ‘Estado Islâmico’ tornou-se forte na Síria e no Iraque. Milhares de homens do EI, armados e protegidos com humvees e tanques, tomaram várias cidades iraquianas quase sem resistência.
Contactei então com alguns antigos efectivos das forças armadas iraquianas, desmanteladas pelos EUA, e com vários grupos da resistência iraquiana. Num momento em que eles próprios tinham ganhado posições em território iraquiano, faziam a seguinte pergunta:
Interrompemos a nossa luta contra o nosso inimigo, o governo de Al Maliki [apoiado pelos EUA], para lutar contra o Estado Islâmico, superior em número e força a nós, ou unimo-nos ao Daesh, apesar das nossas diferenças, para evitar ser derrotados?

A resposta escolhida por muitos foi a segunda. Preferiram ser cúmplices que inimigos.
Quem diria a alguns oficiais das forças do laico Baas iraquiano em 2003 que, anos depois, combateriam lado a lado com jihadistas extremistas que proclamavam um Califado e ditavam as normas mais violentas e medievais em nome de um distorcido e instrumentalizado Islão.
A conquista de mais território
Grupos sunitas de procedência diversa, só unidos por um inimigo comum, acabaram por integrar as fileiras do Daesh. Tomaram várias cidades iraquianas e chegaram muito perto de Bagdade. Apenas encontraram alguma resistência por parte do exército iraquiano, marcado pela corrupção:
“Os militares fugiram a correr, não havia aviões, não havia nada que os parasse. Para ser sincero, os únicos que fizeram algo para deter [o Daesh] foram os militares iranianos e as milícias xiitas”, confessava recentemente o ex-ministro da Defesa iraquiano Ali Allawi num documentário da Al Jazeera.

Desvincular o Iraque como contexto e desenvolvimento do Daesh seria fazer uma análise distorcida da sua evolução. Em 2014, após a tomada de um amplo território no Iraque, o Daesh proclamou o Califado do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, controlando um espaço semelhante ao da Jordânia. Às suas fileiras juntaram-se chechenos, muçulmanos procedentes dos Balcãs, do norte de África e da Ásia.
Em agosto de 2014 chegou a resposta internacional. Obama prometeu acabar com o Daesh, e uma aliança militar integrada por EUA, Arábia Saudita, Emiratos ou Jordânia começou a bombardear focos supostamente controlados pelo grupo terrorista.
A “vista grossa” e o financiamento
O Daesh foi visto por alguns actores regionais - Israel, Turquia, Arábia Saudita, etc. - como uma arma potencial contra o Irão. Manteve débil o regime xiita do Iraque e manteve ocupados grupos inimigos de Israel, como o Hezbollah, que luta na Síria contra diversos grupos da oposição, entre os quais o Daesh.
A Turquia fez “vista grossa” perante o Daesh. O primeiro-ministro Erdogan tem querido ver nos movimentos islamitas radicais uma forma de deter tanto a influência xiita na zona como os curdos. Permitiu a passagem de jihadistas pela sua fronteira, bombardeou as YPG curdas - unidades de protecção popular - quando se supunha que esses ataques deveriam dirigir-se contra o Daesh, e permitiu o fluxo de camiões que cruzam a fronteira carregados de petróleo procedente dos campos sírios controlados pelo EI.
Desse modo acredita poder evitar a possibilidade de uma soberania dos curdos - que estão a lutar contra o Daesh - junto ao seu território.
A compra de petróleo no mercado negro turco tem sido um dos modos mais eficazes de financiamento para o Daesh, juntamente com a cobrança de grandes somas de dinheiro pelo resgate de alguns sequestrados.

Também recebe apoio económico de indivíduos sauditas face aos quais o regime de Riad faz “vista grossa”. Essas pessoas entregam dinheiro ao Daesh e fazem lóbi por ele, pressionando para que outros o apoiem.
A guerra contra o terror
Os aliados dos EUA na Síria na coligação que bombardeia o país têm sido entre outros a monarquia absolutista da Arábia Saudita, que continua a consentir o apoio ao Daesh a partir do seu país.
Washington e os sauditas também operam juntos, com os Emiratos, na coligação que bombardeia o Iémen, onde estão a criar mais caldo de cultura para o terrorismo com ataques como o que em Setembro passado matou 131 pessoas e feriu centenas mais.
As matanças como a de Paris são habituais no Médio Oriente, quer seja por exércitos ou por grupos terroristas. A chamada guerra contra o terror, a estratégia das bombas e das intervenções, mostrou-se ineficaz: longe de diminuir, o terrorismo e a violência crescem.
As matanças como a de Paris são habituais no Médio Oriente, quer seja por exércitos ou por grupos terroristas. A chamada guerra contra o terror, a estratégia das bombas e das intervenções, mostrou-se ineficaz: longe de diminuir, o terrorismo e a violência crescem.
François Hollande dizia no sábado que o massacre de Paris é um acto de guerra. Na realidade o Ocidente participa numa contenda desde que se envolveu no Afeganistão armando os mujahidines que se tornaram nos talibãs. Depois chegariam o Iraque, a Líbia, a Síria, o Iémen… Mas como são guerras que se travam longe das nossas fronteiras, só nos lembramos delas quando algum macabro eco chega aos nossos territórios.
Tradução de Carlos Santos para esquerda.net
O original está em http://www.eldiario.es/zonacritica/ISIS-financia-hacen-vista-gorda_6_452914729.html

ESTADO ISLÂMICO - Não deixe que o tratem como um tolo...

 



O Ocidente é tão islamofóbico que criou até o tal do estado islâmico só para incentivar mais ódio contra a religião muçulmana.

Você já reparou que esse tal de estado islâmico jamais protestou contra a ocupação da Palestina?

Você sabia  que esse tal de estado islâmico defende a ocupação por israel das Colinas de Golan sírias?

Você sabia que esse tal de estado islâmico considera seu inimigo principal o Hizbullah - movimento de resistência libanês?

Você sabia que esse tal de estado islâmico é composto por mais de 90 por cento de mercenários euro-americanos?

Você sabia que cada mercenário recebe 10 mil dólares por mês?

Você sabia que os judeus sionistas que fazem parte desse tal de estado islâmico recebem 40 mil dólares por mês, desde que falem o árabe?

E adivinhe onde eles arrumam armas e dinheiro?

Você já se perguntou por que esse tal do estado islâmico cometeu o atentado na França e não nos Estados Unidos ou Inglaterra? 

Pense um pouco, raciocine um pouco. Não deixe que o tratem como um tolo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O ESTADO ISLÂMICO SERÁ O MAIOR PERIGO?



          
Autor: José Augusto Ribeiro 
          

Eram franceses, não naturalizados, mas nascidos na França, cinco, pelo menos, dos sete ou oito executores dos atentados da Sexta-Feira 13 em Paris. E um apenas entrou na França contrabandeado entre refugiados da guerra civil na Síria que desembarcaram na Grécia e atravessaram vários países da Europa até chegar a Paris. Apesar disso, o noticiário insiste em que o perigo maior vem da Síria, das bases de comando do Estado Islâmico.
Como observou um jornalista que não consegui identificar, numa transmissão da CNN, o Estado Islâmico nem precisava mandar ninguém à França, porque a França já tem muitos jovens franceses filiados ao Estado Islâmico e treinados por este. Eram uns 1.800,  segundo uma primeira estimativa do Primeiro-Ministro Manuel Vals, depois ampliada para 15 mil. A Bélgica, ali ao lado e de fronteira aberta para qualquer portador de passaporte europeu, é um viveiro ainda maior, embora já esteja mais despovoado: até o ano passado eram cerca de 15 por mês os jovens que partiam dos aeroportos belgas para a Síria, recrutados pelo Estado Islâmico. Neste ano diz-se que esse número caiu de 15 para 5 por mês. 
Em toda a Europa o Estado Islâmico já teria 15 mil militantes europeus, avaliação anterior à de 15 mil só na França, número impressionante comparado com os 30 mil combatentes arregimentados por ele na vasta região que domina, em territórios da Síria e do Iraque. O Estado Islâmico conta igualmente com muito dinheiro, proveniente sobretudo dos 40 milhões de dólares que fatura por mês,  vendendo o petróleo extraído dos campos existentes nesses territórios (mais ou menos do tamanho da Bélgica).
Os planejadores e executores da Sexta-Feira 13 não precisariam de muito dinheiro, nem da tecnologia de que o Estado Islâmico dispõe. O atentado de 2001 contra as torres gêmeas do World Center em Nova York, promovido pela Al Quaeda, rival do E.I., foi muito mais complicado e muito mais caro. 
Os atentados de Paris foram muito mais simples, exigiram apenas sete executores, sete cinturões bomba – três para os homens-bomba que se explodiram nas proximidades do Estado Nacional, quatro para os atiradores do Bataclan, quatro fuzis-metralhadoras Kalashnikov para esses atiradores e três ou quatro mais  para os atacantes do restaurante Le Petit Cambodge e outros restaurantes mencionados no noticiário.
Como a França mantém controles rigorosos sobre a venda de armas de fogo, deve ter sido necessário mandar vir de fora as Kalashnikov. Talvez dos Estados Unidos, onde as bancadas da bala (com o apoio até de alguns candidatos republicanos à Presidência) impedem qualquer controle e onde o Estado Islâmico dispõe de pelo menos 40  jovens militantes dispostos a  tudo.  O Brasil também tem controles e a toda hora vemos na TV garotos de favela patrulhando com esses fuzis os acessos às bocas de fumo.
Em resposta aos atentados, a França intensificou os bombardeios que já empreendia às bases do Estado Islâmico na Síria, juntamente com os Estados Unidos, a Rússia e o governo sírio de Bashar Al-Assad. Supondo que esses bombardeios venham a acabar de vez com o Estado Islâmico – hipótese na qual muitos especialistas em estratégia não acreditam – o fim dessa organização significará o fim da ameaça e do perigo que ela representa?
Não necessariamente. Como lembrou alguém nas 48 horas de noticiário contínuo de canais como a CNN e o brasileiro Globo News, o Estado Islâmico já opera com a prática tão ocidental e capitalista das franquias. O grupo de Paris, uma dessas franquias, poderia, pelo menos por algum tempo, operar sem o apoio das bases na Síria. Idem os executores de um atentado em Beirute, no Líbano, que matou mas de 40 pessoas na véspera dos atentados de Paris. Idem a franquia Península do Sinai, que conseguiu, pelas mãos de algum funcionário do setor de bagagem do aeroporto egípcio de Sharm El-Sheik, colocar uma bomba no jato da Metrojet russa que explodiu pouco depois de levantar vôo, matando mais de duzentas pessoas.
Diante de tudo isso, uma pergunta não tem sido feita nem respondida com a necessária firmeza: o que leva tantos jovens de países europeus, apenas por descenderem de famílias árabes, a aderir ao exército de fanáticos do Estado Islâmico? (Em tempo, outra pergunta que não quer calar: quem compra, todo mês,  40 milhões de dólares de petróleo do Estado Islâmico?)

domingo, 15 de novembro de 2015

Como a "Guerra ao Terror" criou o grupo terrorista mais poderoso do mundo.


         

Políticas contraditórias de Washington na Síria e no Iraque garantiram que o Estado Islâmico do Iraque e do Levante pudesse fortalecer-se. Até agora, os EUA evitaram ser culpabilizados pelo crescimento do EI e conseguiram pôr toda a culpa no governo iraquiano. Mas a verdade é que criaram uma situação na qual essa organização pode sobreviver e prosperar.

 Por Patrick Cockburn, TomDispatch
O grande aumento da força e do alcance das organizações jihadistas na Síria e no Iraque tinha, em geral, passado despercebido aos políticos e aos meios de comunicação no Ocidente.
O grande aumento da força e do alcance das organizações jihadistas na Síria e no Iraque tinha, em geral, passado despercebido aos políticos e aos meios de comunicação no Ocidente.
Este artigo, que originalmente foi publicado no TomDispatch, foi extraído do primeiro capítulo do novo livro de Patrick Cockburn, "The Jihadis Return: ISIS and the New Sunni Uprising" (O Retorno dos Jihadistas: o Estado Islâmico e o novo Levante Sunita, em tradução livre), com agradecimento especial à editora, OR Books. A primeira secção é uma nova introdução escrita para o TomDispatch.
Há elementos extraordinários na política atual dos Estados Unidos em relação ao Iraque e à Síria que estão a atrair uma atenção surpreendentemente baixa. No Iraque, os EUA estão a desferir ataques aéreos e a enviar conselheiros e instrutores para ajudar a conter o avanço do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (mais conhecido como Estado Islâmico) na capital curda, Arbil. Os EUA presumidamente fariam o mesmo se o EI cercasse ou atacasse Bagdade. Mas, na Síria, a política de Washington é exatamente oposta: há muitos opositores do EI no governo sírio e curdos sírios nos seus enclaves do norte. Ambos estão a ser atacados pelo EI, que já tomou cerca de um terço do país, incluindo a maior parte de suas instalações de petróleo e gás.
Mas a política dos EUA, da Europa Ocidental e do Golfo Pérsico é derrubar o presidente Bashar al-Assad, o que coincide com a política do EI e de outros jihadistas na Síria. E se Assad cair, o EI será o beneficiário, basta-lhe vencer ou absorver o resto da oposição armada síria. Há uma falsa ideia em Washington e outros lugares de que existe uma oposição “moderada” síria a ser ajudada pelos EUA, pelo Qatar, pela Turquia e pelos sauditas. Porque mesmo com essa ajuda, é fraca e está a enfraquecer dia a dia. Logo o califado poderá estender-se da fronteira iraniana ao Mediterrâneo, e a única força que pode possivelmente impedir que isso aconteça é o exército sírio.
A realidade da política dos EUA é apoiar o governo do Iraque, mas não a Síria, contra o EI. Mas um dos motivos que levou o grupo a conseguir fortalecer-se no Iraque foi poder extrair os seus recursos e combatentes da Síria. Nem tudo o que correu mal no Iraque foi culpa do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, como afirma agora o consenso político e mediático no Ocidente. Os políticos iraquianos têm-me dito nos últimos dois anos que o apoio estrangeiro à revolta sunita na Síria inevitavelmente desestabilizaria o seu país também. Foi o que aconteceu agora.
Ao aplicar essas políticas contraditórias nos dois países, os EUA garantiram que o EI pudesse fortalecer os seus combatentes no Iraque por meio da Síria e vice-versa. Até agora, Washington evitou ser culpabilizada pelo crescimento do EI e conseguiu pôr toda a culpa no governo iraquiano. Na verdade, criou uma situação na qual o EI pode sobreviver e pode inclusive prosperar.
Usando a etiqueta da Al-Qaeda
O grande aumento da força e do alcance das organizações jihadistas na Síria e no Iraque tinha, em geral, passado despercebido aos políticos e aos meios de comunicação no Ocidente. Uma grande razão para isso é o que é dito pelos governos ocidentais e as suas forças de segurança: que a ameaça jihadista é formada por forças diretamente controladas pela Al-Qaeda central. Isso permite-lhes apresentar um quadro muito mais favorável do seu sucesso na chamada "Guerra ao Terror" do que é realmente.
Na verdade, a ideia de que só é preciso preocupar-se com os jihadistas que têm a bênção oficial da Al-Qaeda é ingénua e contraproducente. Ignora o facto de, por exemplo, o EI ter sido criticado pelo líder da Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri pela sua violência e sectarismo excessivos.
Quando conversei com uma série de rebeldes sírios jihadistas não afiliados diretamente à Al-Qaeda no sul da Turquia no começo do ano, uma fonte contou-me que “sem exceção, eles todos expressaram entusiasmo pelos ataques de 11 de setembro e torceram para que a mesma coisa que aconteceu nos EUA acontecesse na Europa”.
Grupos jihadistas ideologicamente próximos à Al-Qaeda têm sido reclassificados como moderados, dependendo das suas ações serem consideradas de apoio aos objetivos das políticas dos EUA. Na Síria, os norte-americanos apoiaram um plano da Arábia Saudita de construir uma “Frente do Sul”, baseada na Jordânia, que seria hostil ao governo de Assad em Damasco e simultaneamente hostil aos rebeldes do tipo da Al-Qaeda no norte e no leste.
A poderosa, mas supostamente moderada Brigada Yarmouk, noticiada como o recipiente estratégico de mísseis antiaéreos da Arábia Saudita, deveria ser o elemento de liderança nessa nova formação. Mas diversos vídeos mostram que a Brigada Yarmouk frequentemente lutou em colaboração com a Frente al-Nusra, afiliada oficial da Al-Qaeda. Já que era provável que, no meio da batalha, esses dois grupos dividissem as suas munições, Washington estava efetivamente permitindo que armamento avançado fosse entregue de mão beijada ao seu inimigo mais mortal. Os oficiais iraquianos confirmam ter capturado armas sofisticadas de combatentes do EI no Iraque que eram originalmente fornecidas por potências estrangeiras a forças consideradas de oposição à Al-Qaeda na Síria.
O nome Al-Qaeda foi sempre aplicado com flexibilidade na identificação de um inimigo. Em 2003 e 2004, no Iraque, enquanto uma oposição armada iraquiana se formava, representantes oficiais dos EUA atribuíram a maior parte dos ataques à Al-Qaeda, apesar de muitos terem sido perpetrados por grupos do partido Baas e nacionalistas. Propagandas como essa ajudaram a persuadir quase 60% dos eleitores dos EUA, antes da invasão do Iraque, de que existia uma conexão entre Saddam Hussein e os responsáveis pelo 11 de setembro, apesar de não existir qualquer prova disso. No próprio Iraque, e, na verdade, no mundo muçulmano inteiro, essas acusações beneficiaram a Al-Qaeda ao exagerar o seu papel na resistência à ocupação norte-americana e britânica.
Uma técnica de relações públicas exatamente oposta foi usada pelos governantes ocidentais em 2011, na Líbia, quando qualquer semelhança entre a Al-Qaeda e os rebeldes patrocinados pela NATO lutando para derrubar o líder líbio Muammar Kadafi foi minimizada. Só foram considerados perigosos aqueles jihadistas que tinham uma ligação operacional direta com o “coração” da Al-Qaeda, Osama bin Laden. A falsidade do argumento de que os jihadistas opositores a Kadafi na Líbia eram menos ameaçadores do que aqueles em contacto direto com a Al-Qaeda foi forçosamente e tragicamente exposta quando o embaixador dos EUA Chris Stevens foi assassinado por combatentes jihadistas em Bengazi em setembro de 2012. Esses eram os mesmos combatentes louvados pelos governos e pelos media ocidentais pelo seu papel no levante contra Kadafi.
Imaginando a Al-Qaeda como a Máfia
A Al-Qaeda é uma ideia mais que uma organização, e é assim há muitos anos. Por um período de cinco anos depois de 1996, recrutou pessoas, recursos e campos no Afeganistão, mas estes foram eliminados depois da queda dos Talibans em 2001. Depois disso, o nome Al-Qaeda tornou-se maioritariamente um apelo, uma série de crenças islâmicas centradas na criação de um Estado islâmico, na imposição da sharia (conjunto de leis religiosas), no retorno aos costumes islâmicos, na subjugação da mulher e no desencadear de uma guerra santa contra outros muçulmanos, nomeadamente os xiitas, que são considerados hereges que merecem morrer.
No centro dessa doutrina de guerra está a ênfase no sacrifício e no martírio como símbolo de fé e compromisso com a religião. Isso resultou no uso de crentes não treinados, mas fanáticos, como homens-bomba, com um efeito devastador.
Sempre foi do interesse dos EUA e de outros governos que a Al-Qaeda fosse vista como tendo uma estrutura de comando e controle como um mini Pentágono, como a máfia na América. Essa é uma imagem confortante para o público porque grupos organizados, por mais demoníacos que sejam, podem ser encontrados e eliminados por meio da prisão e da morte. É mais alarmante a realidade de um movimento cujos adeptos se autorrecrutam e podem surgir em qualquer lugar.
A reunião de militantes de Osama bin Laden, que ele não chamava de Al-Qaeda até depois de 11 de setembro, era só um dos muitos grupos jihadistas de 12 anos atrás. Mas, hoje, as suas ideias e métodos são predominantes entre os jihadistas por causa do prestígio e da publicidade que ganharam depois da destruição das Torres Gémeas, da guerra no Iraque e da demonização de Washington como fonte de todo o mal aos Estados Unidos. Atualmente, há uma diminuição das diferenças nas crenças dos jihadistas, sejam ou não formalmente ligados à Al-Qaeda central.
Não é surpresa que os governos prefiram a imagem fantasiosa da Al-Qaeda porque lhes permite cantar vitória quando conseguem matar os seus membros e aliados mais conhecidos. Habitualmente, são atribuídos aos eliminados postos quase militares, como “chefe de operações”, para aumentar o significado da sua morte. A culminação desse aspeto fortemente propagandeado, mas, em grande parte, irrelevante da “Guerra ao Terror”, foi a morte de Bin Laden em Abbottabad, no Paquistão, em 2011. O facto permitiu que o presidente Obama aparecesse ao público dos EUA como o homem que presidiu à captura do líder da Al-Qaeda. Em termos práticos, no entanto, a sua morte teve pouco impacto nos tipos de grupos jihadistas da Al-Qaeda, cujas maiores expansões aconteceram subsequentemente.
Ignorando os Papéis da Arábia Saudita e do Paquistão
As decisões-chave que permitiram a sobrevivência da Al-Qaeda e a sua expansão posterior foram feitas nas horas imediatamente posteriores ao 11 de setembro. Quase todos os elementos significativos no projeto de lançar aviões nas Torres Gémeas e noutros prédios simbólicos dos EUA remontavam à Arábia Saudita.
Bin Laden era membro da elite saudita, e o seu pai fora próximo à monarquia saudita. Citando um relatório da CIA de 2002, o relatório oficial de 11 de setembro diz que a Al-Qaeda, para o seu financiamento, dependeu de “uma variedade de doações e arrecadações, maioritariamente nos países do golfo Pérsico e da Arábia Saudita”.
Os investigadores do relatório encontraram o seu acesso limitado ou negado ao buscar informações sobre a Arábia Saudita. E o presidente George W. Bush aparentemente nunca achou necessário responsabilizar os sauditas pelo que aconteceu.
A saída de sauditas idosos dos EUA, incluindo parentes de Bin Laden, foi facilitada pelo governo dias depois de 11 de setembro. Foi ainda mais significativo que 28 páginas do Commission Report – o relatório oficial sobre o 11/9 – sobre a relação entre os agressores e a Arábia Saudita, tenham sido cortadas e nunca publicadas, apesar da promessa do presidente Obama de fazê-lo, por motivos de segurança nacional.
Em 2009, oito anos depois do 11 de setembro, um telegrama diplomático da secretária de Estado Hillary Clinton, revelado pela Wikileaks, dizia que as doações da Arábia Saudita constituíam a fonte mais significativa de financiamento dos grupos terroristas sunitas mundialmente. Mas, apesar desse reconhecimento privado, os EUA e os europeus ocidentais continuaram indiferentes aos pregadores sauditas cujas mensagens se espalharam para milhões por meio da TV por satélite, do YouTube e do Twitter, clamando pela morte de xiitas como hereges. Esses apelos chegavam ao mesmo tempo que as bombas da Al-Qaeda massacravam pessoas nos bairros xiitas do Iraque. Uma linha fina noutro telegrama diplomático do Departamento de Estado, no mesmo ano, diz: “Arábia Saudita: Antixiismo como Política Externa?”. Agora, cinco anos depois, grupos apoiados pelos sauditas têm um histórico de sectarismo extremo contra muçulmanos não sunitas.
O Paquistão, ou melhor, a espionagem militar paquistanesa representada pela ISI (Inter-Serviços de Informações), era outro parente da Al-Qaeda, dos Talibans, e de movimentos jihadistas em geral. Quando os Talibans estava a desintegrar-se sob o peso do bombardeio norte-americano de 2001, as suas forças no norte do Afeganistão foram encurraladas por forças contrárias aos Talibans. Antes que se rendessem, centenas de membros da ISI, instrutores militares e conselheiros foram apressadamente evacuados pelo ar. Apesar da evidência clara do patrocínio do ISI aos Talibans e jihadis em geral, Washington recusou-se a confrontar o Paquistão e, assim, abriu o caminho para o ressurgimento dos Talibans depois de 2003, que nem os EUA nem a NATO conseguiram reverter.
A “Guerra ao Terror” falhou porque não mirou no movimento jihadista como um todo e, acima de tudo, não mirou na Arábia Saudita e no Paquistão, os dois países que fomentaram o jihadismo como uma crença e um movimento. Os EUA não o fizeram porque esses países eram aliados importantes que não queriam ofender. A Arábia Saudita é um mercado enorme para as armas dos EUA, e os sauditas cultivaram, e, em algumas ocasiões, compraram membros influentes da classe política dos EUA. O Paquistão é uma potência nuclear com uma população de 180 milhões e um exército com ligações próximas ao Pentágono.
O ressurgimento espetacular da Al-Qaeda e os seus desdobramentos aconteceu apesar da enorme expansão dos serviços de espionagem norte-americano e britânico e dos seus orçamentos depois do 11 de Setembro. Desde então, os EUA, seguidos de perto pelo Reino Unido, travaram guerras no Afeganistão e no Iraque e adotaram procedimentos normalmente associados a Estados policiais, tais como prisão sem julgamento, rendição, tortura e espionagem doméstica. Os governos travam a “Guerra ao Terror” dizendo que os direitos dos cidadãos individuais devem ser sacrificados para garantir a segurança de todos.
Face a essas medidas controversas de segurança, os movimentos contra quem elas foram orquestradas não foram derrotados, mas ficaram mais fortes. Na época do 11 de Setembro, a Al-Qaeda era uma organização pequena, geralmente ineficaz; em 2014 grupos do estilo da Al-Qaeda são numerosos e poderosos.
Por outras palavras, a “Guerra ao Terror”, que delineou o cenário político de boa parte do mundo desde 2001, evidentemente falhou. Antes da queda de Mosul, ninguém prestava muita atenção.

O EI criou um novo tipo de guerra.


Ataque em Paris: o EI criou um novo tipo de guerra

Pela primeira vez no terrorismo urbano, técnicas e guerrilha e de luta convencional foram combinadas numa mistura letal. Artigo de Patrick Cockburn, publicado no The Independent.
O Estado Islâmico (EI) sempre massacrou muitos civis para mostrar a sua força e inspirar medo nos oponentes. No Ocidente, as pessoas apercebem-se dessas atrocidades apenas quando ocorrem nas suas próprias ruas, apesar de bombistas suicidas do EI terem morto 43 pessoas em Beirute a 12 de Novembro e mais 26 pessoas em Bagdad a 13 de Novembro. Estes ataques são praticamente impossíveis de travar porque são dirigidos contra civis, que não podem todos ser protegidos, e os bombistas estão disponíveis a morrer para destruírem os seus alvos.
O recrutamento, armamentos, coordenação e a clandestinidade de todos os assassinos no atentado de Paris até ao último instante implica uma boa organização.
O EI reclamou a autoria dos ataques em Paris, dizendo que a França foi atingida por causa dos seus ataques aéreos na Síria. A utilização de oito bombistas suicidas e atiradores na capital do país, garantindo o máximo de cobertura mediática, tem todas as características de uma operação do EI. Uma diferença preocupante em relação aos assassinatos no início do ano na revista Charlie Hebdo e num supermercado judeu, foi que estes ataques, presumivelmente devido ao envolvimento do EI, se estão a tornar mais sofisticados e são melhor planeados. O recrutamento, armamentos, coordenação e a clandestinidade de todos os assassinos no atentado de Paris até ao último instante implica uma boa organização. O mesmo foi verdade para a introdução às escondidas de uma bomba num avião russo mesmo antes de ele levantar voo em Sharm al-Sheikh a 30 de outubro.
Qual é a explicação por detrás da intensificação recente dos bombardeamentos suicidas do EI fora da Síria e do Iraque? O assassinado de civis como cúmplices dos atos dos seus Governos sempre foi uma parte da ideologia da Al Qaeda, uma abordagem que foi infamemente demonstrada a 11 de setembro em Nova Iorque. Até os alvos mais suaves são destruídos quando bombistas ou atiradores estão decididos a se matarem a si mesmos juntamente com os seus inimigos é uma demonstração da fé religiosa.
Pela primeira vez em dois anos, o EI está a ser obrigado a retirar, devido à pressão militar em várias frentes.
Mas há outra razão pela qual o EI pode estar tão decidido a mostrar que consegue atingir qualquer lugar no mundo: pela primeira vez em dois anos, o período durante o qual o EI criou o seu próprio estado na parte Oeste do Iraque e na parte Este da Síria, está a ser obrigado a retirar devido à pressão militar em várias frentes.
No passado, o EI teria lidado com os seu inimigos, numerosos mas desunidos, um depois do outro, mas agora está a sofrer ataques em várias frentes ao mesmo tempo. O exército sírio apoiado por ataques aéreos da Rússia na semana passada terminou com o cerco do EI à base aérea de Kweiris, a Oeste de Aleppo. Foi a maior vitória do governo sírio em dois anos. Os curdos sírios, em cooperação com a força aérea dos Estados Unidos, está a avançar a Sul, cerca de Hasaka, enquanto que os curdos iraquianos, também com apoio aéreo norte americano, capturaram a cidade de Sinjar, a Oeste de Mosul. Os elementos do EI vão ter dificuldades em viajar entre Raqqa e Mosul e podem perder o controle dos poços de petróleo a Nordeste da Síria, dos quais obtêm lucro.
É importante perceber que o EI é uma máquina de guerra eficiente devido às suas técnicas militares, evoluídas ao longo de anos de lutas, e que são uma mistura potente entre terrorismo urbano, tácticas de guerrilha e guerra convencional.
Forças curdas fazem o sinal de vitória ao entrarem na cidade iraquiana de Sinjar
Os desenvolvimentos das batalhas no Iraque e na Síria podem parecer distantes da carnificina no coração de Paris. Mas também é importante perceber que o EI é uma máquina de guerra eficiente devido às suas técnicas militares, evoluídas ao longo de anos de lutas, e que são uma mistura potente entre terrorismo urbano, tácticas de guerrilha e guerra convencional. Os avanços do EI com ataques relâmpago no Iraque no Verão de 2014 foram precedidos por uma leva de bombardeamentos suicidas, usando veículos carregados com explosivos nos distritos shiitas de Bagdad e no centro do Iraque. O objectivo era manter os inimigos assustados e desequilibrados e demonstrar a potenciais recrutas que o EI tinha poder.
Ninguém no Ocidente se preocupou muito com os milhares de shiitas iraquianos que foram mortos na altura e que continuaram a morrer devido a bombardeamentos suicidas no Iraque. O número de civis mortos no Iraque aumentou de 4.623 em 2012 para 9.473 em 2013 e para 17.045 em 2014, de acordo com o site independente Iraqui Body Count [Contagem de Corpos de Iraquianos], uma grande proporção dos assassinados eram vítimas shiitas de bombistas e assassinos do EI. Esta selvajaria está agora a ser repetida nas ruas de Paris e de Ancara, onde 102 manifestantes pela paz foram assassinados por dois bombistas suicidas a 10 de outubro.
Isto faz parte do guia tático do EI para retaliar contra qualquer oponente por qualquer meio, com o objetivo de provocar, de alguma forma espetacular que lhes garanta dominar as notícias internacionais. Por isso reagiu contra os ataques aéreos dos Estados Unidos, que não poderia ter evitado militarmente, com vídeos de jornalistas e trabalhadores de ONGs norte americanos a serem decapitados com uma horrível ponderação. Quando cortar cabeças deixou de ter o mesmo efeito de choque, o EI queimou vivo um piloto jordano numa jaula.
O EI reivindica que a morte de civis não é um assassinato, mas vingança
O EI reivindica que a morte de civis não é um assassinato, mas vingança: o grupo relacionado com o EI que reclama ter estado por detrás da destruição do avião russo e dos seus 224 passageiros mostrou imagens na internet dos destroços do avião alternados com imagens de edifícios na Síria que foram destruídos por bombas russas. O EI está a deixar claro que, se algum país o bombardeia pelo ar, irá responder no terreno na mesma moeda, utilizando métodos de terrorismo urbano apoiado por um estado bem organizado. É difícil pensar num exemplo anterior que tenha feito o mesmo.
Estes atos de terror exigem alguns recursos, mas não é preciso muito treino, uma vez que os alvos escolhidos estão indefesos, por exemplo os turistas ingleses deitados na praia na Tunísia ou as pessoas em Paris que foram assassinadas enquanto assistiam a um concerto de rock. Não é necessário um grande número de fanáticos islamitas para executar estas monstruosidades, o impacto das quais ecoa ao longo do mundo. O EI tem um grande número de combatentes estrangeiros que passam nas suas fileiras e pode ocasionalmente encontrar apoiantes comprometidos dentro dos países que tenciona atacar.
Os voluntários que possam ter anteriormente viajado pela Turquia para chegar ao EI vão agora ficar em casa e providenciar uma fonte de mão de obra para operações suicidas.
Pessoas em luto em Ancara seguram imagens das vítimas, no local da dupla explosão que matou 102 pessoas
Há mais uma razão pela qual o EI pode achar mais fácil encontra e usar potenciais bombistas suicidas fora do califado. Um dos contratempos que sofreu este ano foi a perda da sua fronteira principal, entre a Síria e a Turquia em Tal Abyad, que foi capturado pelas Unidades de Proteção das Pessoas (YPG), dos curdos sírios em Junho. Metade da fronteira de 885 quilómetros entre o Tigre e o Eufrates está agora nas mãos do YPG, de forma que o acesso do EI com o mundo exterior é muito mais limitada do que anteriormente. Os Estados Unidos pressionaram intensamente a Turquia para que não permita ao EI, nem a outros grupos de jihad Salafitas, passarem a fronteira para a Síria a Oeste do Eufrates. Os voluntários que possam ter anteriormente viajado pela Turquia para chegar ao EI na Síria vão agora ficar em casa e providenciar uma fonte de mão de obra comprometida para serem usados em operações suicidas.
O EI está sob pressão militar sem precedentes no Iraque e na Síria, mas isso não significa que irá implodir. Pode lutar defensivamente, assim como ofensivamente. Parece que não vai lutar até ao final em batalhas nas quais as tropas dos seus inimigos estejam apoiadas pelas forças aéreas dos Estados Unidos e da Rússia. Os comandantes do EI acreditam, pelo que sabemos, que cometeram um erro ao lutar ao longo de tanto tempo em Kobani, onde perderam mais de 2.000 soldados em ataques aéreos dos Estados Unidos. Em vez disso, irão utilizar mais táticas de guerrilha na Síria e no Iraque e expandir a zona de conflito através de ataques terroristas no estrangeiro tal como os que acabámos de ver em Paris.

Artigo publicado em http://www.independent.co.uk/news/world/europe/paris-attack-isis-has-cre...