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sábado, 20 de abril de 2013

HAITI - O papel do Brasil.

CUT: Brasil está jogando no Haiti o papel de terceirizado dos EUA



Senador Jean Charles Moisei: As tropas brasileiras no Haiti têm sido usadas para reprimir manifestações sociais de todo o tipo
por Isaías Dalle, no site da CUT
O senador haitiano Jean Charles Moise voltou a denunciar, na noite da última quinta-feira, que as tropas brasileiras em ação no Haiti têm sido usadas para reprimir manifestações sindicais e protestos de todo o tipo promovidos pelos cidadãos daquele país. Mais grave ainda: relatou casos de estupros e enforcamentos que os soldados da força de ocupação da ONU – chefiada pelo Brasil – têm cometido no Haiti desde que lá chegaram, em 2004, após golpe que derrubou o presidente eleito Bertrand Aristide.
Moise participou de audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), convocada para reafirmar a necessidade de retirada imediata das tropas brasileiras e dos demais países que participam da missão da ONU.
A audiência é parte da campanha “Defender o Haiti é Defender a Nós Mesmos”. Ela foi convocada e apoiada pela CUT,  pelo MST, Movimento Negro Unificado, SOS Racismo e por parlamentares do PT e do PSB. A audiência foi presidida pelo deputado estadual Adriano Diogo (PT).
A atividade de ontem insere-se na preparação da Conferência Continental Pela Retirada de Tropas do Haiti que vai ocorrer na capital, Porto Príncipe, em 1º de junho, quando a ocupação completará nove anos – a ONU alegava inicialmente que a ocupação duraria apenas seis meses. A Conferência deve reunir movimentos sociais e lideranças político-partidárias de diversos países.
O diretor-executivo da CUT, Júlio Turra, ao falar durante o ato na Alesp, destacou a contradição na política externa brasileira, usando como parâmetro as posições adotadas pelo Governo Dilma em relação às eleições venezuelanas e a ocupação no Haiti.
“A presidenta Dilma acertou ao reconhecer a vitória de Nicolás Maduro e ao comparecer à posse do novo presidente da Venezuela, contrariando a posição dos Estados Unidos”, disse.  “Mas no Haiti o Brasil está jogando o papel de terceirizado dos Estados Unidos”.
Turra também lembrou que há efetivos de países como Bolívia, Equador e Peru, atuando na missão da ONU. “O que os governos progressistas da América Latina estão fazendo lá? Devemos lembrar que quando Bolívar [Simón Bolívar, herói das lutas independentistas do continente] enfrentou revezes militares em 1815, foi procurar e recebeu ajuda de quem? Do Haiti…”.
O senador Moise relatou que com a repressão aos movimentos sociais e a proteção a instalações de empresas privadas, as tropas da ONU têm garantido margem de ação ao atual presidente Michel Martelly em seus ataques sistemáticos às garantias democráticas e suas operações suspeitas com os Estados Unidos.
As eleições para o Senado e para as prefeituras, que deveriam ter acontecido há dois anos, ainda não foram organizadas pelo atual governo; por causa disso, os mandatos atuais estão esvaziados ou mesmo vencidos por decurso de prazo.
Recentemente, parlamentares da oposição, segundo Moise, tiveram acesso a documentos restritos que comprovam a existência de minas de ouro em solo haitiano que valeriam bilhões de dólares. “E o nosso presidente, de extrema-direita, fez o quê? Em lugar de dar espaço a empresas locais capazes de fazer a mineração, abriu sua própria companhia, em sociedade com empresários estadunidenses”, contou.
Bárbara Corrales, do comitê “Defender o Haiti é Defender a Nós Mesmos”, reivindicou que a presidenta Dilma “dê o exemplo” e decida pela retirada imediata das tropas brasileiras:
“Imaginem um exército de 12 mil soldados num país que não está em guerra. Só agem na repressão. Se as tropas estivessem ajudando como dizem estar, por que os haitianos estariam fugindo do país, a exemplo desses 5 mil que entraram no Brasil através do Acre?”
O governo brasileiro, por sua vez, anunciou em setembro do ano passado que pretendia iniciar retirada “gradual” das tropas. O mês previsto para o início do processo era março.
O conceito de que defender o Haiti é defender “a nós mesmos” pode ser compreendido por meio de alguns exemplos citados pelos presentes à plenária. Joelson Souza, do movimento Juventude Revolução, informou que ouviu de um comandante brasileiro que a ação no Haiti é um “laboratório” para futuras ações em morros e periferias. Julio Turra acrescentou que ceder à pressão dos EUA na questão haitiana pode enfraquecer as posições dos governos progressistas em disputas em nosso continente.
Por três vezes o senador Moise acenou com o risco de conflitos no Haiti. “O presidente Martelly assinou acordo com o FMI que proíbe nosso país de produzir arroz, produto importante de nossa economia. Está desalojando camponeses de suas terras com a ajuda das tropas da ONU. Está reprimindo os movimentos sociais. Vocês acham que nós vamos ficar quietos para sempre? Eu acho que não. Nós já fomos guerreiros, hoje somos apenas soldados. Mas não deixaremos jamais que tirem nossa dignidade”, afirmou. O Haiti foi o primeiro país negro a conquistar a independência, em 1804, em revolução popular que expulsou o exército napoleônico.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

HAITI - Manifestações pedem saída das tropas da Minustah.

Protestos no Haiti pedem saída de missão liderada pelo Brasil


Manifestações pedem saída das tropas da Minustah, chefiada pelo Exército brasileiro. Conselho de Segurança decide até próximo dia 15 futuro da missão de estabilização no Haiti. Protestos marcados para esta quinta-feira.

A reportagem é de Nádia Pontes e publicado pelo sítio Deutsche Welle, 28-09-2011.

À medida que o dia 15 de outubro se aproxima, aumenta a tensão no Haiti. Nesta data, o Conselho de Segurança das Nações Unidas vai decidir sobre a permanência da missão de estabilização no país caribenho, liderada pelo Exército brasileiro.

Nas ruas, protestos pedem a saída imediata da Minustah, abreviatura do nome oficial da missão. Para esta quinta-feira (29/09), movimentos sociais anunciaram uma nova manifestação conta os chamados capacetes azuis. "Somos radicalmente contra a Minustah. Não queremos os soldados aqui. Queremos que se rompa essa cadeia de dependência que já dura oito anos", disse à Deutsche Welle Joseph Jacques Hebreux, um dos organizadores dos protestos.

Hebreux é um dos fundadores do Bri Kouri Nouvèl Gaye, grupo criado por haitianos após o forte terremoto em janeiro do ano passado, que reúne movimentos de base, como o estudantil e o camponês. Com ajuda de doadores, a iniciativa publica mensalmente um jornal popular crítico ao governo. Foi exatamente em 15 de outubro de 2010 que o movimento convocou a primeira manifestação contra a Minustah. De lá para cá, a oposição ganhou corpo e ficou mais organizada.

Comando brasileiro

O comando da missão ressalta que os movimentos são organizados por estudantes da faculdade de Etimologia, em Porto Príncipe, embora o ano letivo no Haiti comece apenas em 3 de outubro. "Percebemos que a população em geral é a favor da Minustah aqui, não só por causa da questão da segurança, como também por causa do bom relacionamento que as tropas mantêm com a população", afirmou o coronel Maurício Cruz, porta-voz da divisão militar da missão.

A operação liderada pelo Brasil teve início em 1º de junho de 2004. A missão foi autorizada pelo Conselho de Segurança em fevereiro daquele ano, depois que o então presidente, Bertrand Aristide, deixou o Haiti durante um conflito armado organizado por insurgentes.

Os brasileiros compõem a maior parte do contingente: dos 8.700 militares e 3.300 policiais, aproximadamente 2.400 são do Exército do Brasil. "Até o momento, não tivemos nenhum incidente diretamente contra as nossas tropas que fazem rondas normalmente nas ruas", comentou Cruz. "O presidente declarou que ele deseja, lógico, que a Minustah faça uma redução gradual, planejada, mas não no momento, porque ele não acha que a polícia nacional haitiana seja capaz de manter a situação estável em termos de segurança."

Em discurso na Assembleia Geral da ONU no último dia 23, Michel Martelly, presidente do Haiti desde maio, defendeu a permanência das tropas no país. "A missão não pode ser reduzida a uma simples força de intervenção ou a uma que tenha um papel de observadora mais ou menos neutra", disse.

"Certamente, estou consciente da existência de erros inaceitáveis que mancharam o prestígio da missão, mas a árvores não podem esconder a floresta. E eu penso que a estabilização política passa por vários estágios", discursou Martelly.
Quanto aos "erros inaceitáveis", o presidente cita o vídeo que vazou na internet em que dois soldados uruguaios são vistos violentando um jovem haitiano. As imagens, divulgadas no início do mês, foram um estopim para o aumento dos protestos em Porto Príncipe.

"Nem todas as pessoas tinham em mente que o trabalho que os soldados estão fazendo não era uma coisa boa, que país está perdendo toda a soberania que antes tinha. Mas depois do caso com os soldados uruguaios, a consciência aumentou. A cada semana, temos na capital uma manifestação popular pacífica contra a ONU", contou Joseph Jacques Hebreux.

Segurança para o Haiti

"Entre a população em geral, há uma sensação de que a Minustah não acrescentou tanto assim para o país, se comparado ao montante de recursos que está usando. Recentemente, foram solicitados 150 milhões de dólares para a extensão do mandato, enquanto as forças de segurança nacional do Haiti e a polícia não foram beneficiadas com esse dinheiro", aponta Meena Jagannath, do Instituto para Justiça e Democracia no Haiti.

Segundo a advogada, os policiais haitianos estão praticamente sem receber, e afinal seriam eles os responsáveis pela segurança da população. "A Minustah não tem um mandato que permita que os soldados investiguem um crime e prendam o criminoso, por exemplo, a menos que o crime aconteça diante dos olhos deles", acrescenta Jagannath.

O líder do Bri Kouri Nouvèl Gaye prevê que a tensão se agrave no Haiti. "Os movimentos sociais são contra a presença das tropas estrangeiras, e o presidente está contra nós", justificou Hebreux. "Gostaríamos de participar da discussão, mas quando o governo vai debater a permanência da missão, nunca há participação popular. As conversas acontecem com representantes do governo do Haiti e de outros países", reclama.
Protestos no Haiti pedem saída de missão liderada pelo Brasil


Manifestações pedem saída das tropas da Minustah, chefiada pelo Exército brasileiro. Conselho de Segurança decide até próximo dia 15 futuro da missão de estabilização no Haiti. Protestos marcados para esta quinta-feira.

A reportagem é de Nádia Pontes e publicado pelo sítio Deutsche Welle, 28-09-2011.

À medida que o dia 15 de outubro se aproxima, aumenta a tensão no Haiti. Nesta data, o Conselho de Segurança das Nações Unidas vai decidir sobre a permanência da missão de estabilização no país caribenho, liderada pelo Exército brasileiro.

Nas ruas, protestos pedem a saída imediata da Minustah, abreviatura do nome oficial da missão. Para esta quinta-feira (29/09), movimentos sociais anunciaram uma nova manifestação conta os chamados capacetes azuis. "Somos radicalmente contra a Minustah. Não queremos os soldados aqui. Queremos que se rompa essa cadeia de dependência que já dura oito anos", disse à Deutsche Welle Joseph Jacques Hebreux, um dos organizadores dos protestos.

Hebreux é um dos fundadores do Bri Kouri Nouvèl Gaye, grupo criado por haitianos após o forte terremoto em janeiro do ano passado, que reúne movimentos de base, como o estudantil e o camponês. Com ajuda de doadores, a iniciativa publica mensalmente um jornal popular crítico ao governo. Foi exatamente em 15 de outubro de 2010 que o movimento convocou a primeira manifestação contra a Minustah. De lá para cá, a oposição ganhou corpo e ficou mais organizada.

Comando brasileiro

O comando da missão ressalta que os movimentos são organizados por estudantes da faculdade de Etimologia, em Porto Príncipe, embora o ano letivo no Haiti comece apenas em 3 de outubro. "Percebemos que a população em geral é a favor da Minustah aqui, não só por causa da questão da segurança, como também por causa do bom relacionamento que as tropas mantêm com a população", afirmou o coronel Maurício Cruz, porta-voz da divisão militar da missão.

A operação liderada pelo Brasil teve início em 1º de junho de 2004. A missão foi autorizada pelo Conselho de Segurança em fevereiro daquele ano, depois que o então presidente, Bertrand Aristide, deixou o Haiti durante um conflito armado organizado por insurgentes.

Os brasileiros compõem a maior parte do contingente: dos 8.700 militares e 3.300 policiais, aproximadamente 2.400 são do Exército do Brasil. "Até o momento, não tivemos nenhum incidente diretamente contra as nossas tropas que fazem rondas normalmente nas ruas", comentou Cruz. "O presidente declarou que ele deseja, lógico, que a Minustah faça uma redução gradual, planejada, mas não no momento, porque ele não acha que a polícia nacional haitiana seja capaz de manter a situação estável em termos de segurança."

Em discurso na Assembleia Geral da ONU no último dia 23, Michel Martelly, presidente do Haiti desde maio, defendeu a permanência das tropas no país. "A missão não pode ser reduzida a uma simples força de intervenção ou a uma que tenha um papel de observadora mais ou menos neutra", disse.

"Certamente, estou consciente da existência de erros inaceitáveis que mancharam o prestígio da missão, mas a árvores não podem esconder a floresta. E eu penso que a estabilização política passa por vários estágios", discursou Martelly.
Quanto aos "erros inaceitáveis", o presidente cita o vídeo que vazou na internet em que dois soldados uruguaios são vistos violentando um jovem haitiano. As imagens, divulgadas no início do mês, foram um estopim para o aumento dos protestos em Porto Príncipe.

"Nem todas as pessoas tinham em mente que o trabalho que os soldados estão fazendo não era uma coisa boa, que país está perdendo toda a soberania que antes tinha. Mas depois do caso com os soldados uruguaios, a consciência aumentou. A cada semana, temos na capital uma manifestação popular pacífica contra a ONU", contou Joseph Jacques Hebreux.

Segurança para o Haiti

"Entre a população em geral, há uma sensação de que a Minustah não acrescentou tanto assim para o país, se comparado ao montante de recursos que está usando. Recentemente, foram solicitados 150 milhões de dólares para a extensão do mandato, enquanto as forças de segurança nacional do Haiti e a polícia não foram beneficiadas com esse dinheiro", aponta Meena Jagannath, do Instituto para Justiça e Democracia no Haiti.

Segundo a advogada, os policiais haitianos estão praticamente sem receber, e afinal seriam eles os responsáveis pela segurança da população. "A Minustah não tem um mandato que permita que os soldados investiguem um crime e prendam o criminoso, por exemplo, a menos que o crime aconteça diante dos olhos deles", acrescenta Jagannath.

O líder do Bri Kouri Nouvèl Gaye prevê que a tensão se agrave no Haiti. "Os movimentos sociais são contra a presença das tropas estrangeiras, e o presidente está contra nós", justificou Hebreux. "Gostaríamos de participar da discussão, mas quando o governo vai debater a permanência da missão, nunca há participação popular. As conversas acontecem com representantes do governo do Haiti e de outros países", reclama.
Fonte:IHU

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

HAITÍ - A volta de Baby Doc, o sanguinário ditador do Haiti.

Por Altamiro Borges

Um dos principais culpados pelas atuais mazelas do Haiti, o ex-ditador Jean-Claude Duvalier, conhecido como Baby Doc, retornou ao país neste domingo (16). Durante quinze anos, de 1971 a 1986, ele comandou uma das ditaduras mais ferozes e corruptas do planeta. Como “presidente hereditário”, ele deu sequência ao regime sanguinário de seu pai, François Papa Doc, que comandou o Haiti de 1957 a 1971 sob a proteção do imperialismo estadunidense.

Para impor a sua ditadura, a dinastia Duvalier criou uma milícia particular, o Tonton Macoute, que dizimou a oposição, criou um clima de terror no país e agravou a miséria haitiana. Pesquisas apontam que mais de 150 mil ativistas foram assassinados durante a presidência de Baby Doc. Através da violência, seu governo foi capacho dos interesses geopolíticos dos EUA na região e saqueou o Haiti. Metido a playboy, ele foi acusado de desviar mais de 100 milhões de dólares para bancos suíços.

Uma nação saqueada e devastada

Agora, aos 59 anos de idade e após 25 anos da sua deposição por uma revolta popular, Baby Doc retorna do seu luxuoso exílio na França. Seu indesejado regresso ocorre no momento em que o Haiti enfrenta inúmeras dificuldades. O país ainda não superou o trauma do terremoto devastador do ano passado, que matou mais de 250 mil pessoas; sofre com uma grave epidemia de cólera; e enfrenta uma dilacerante crise política. As eleições presidenciais estão suspensas, o que gera incertezas sobre o futuro do país.

No primeiro turno, ocorrido em 28 de novembro, a conservadora Mirlande Maniga, ex-primeira dama, obteve 31,37% dos votos, o governista Jude Celestin teve 22,48% e o cantor Michel Martelly, 21,48%. O processo eleitoral foi acusado de inúmeras fraudes e o segundo turno, previsto para 16 de janeiro, foi suspenso. O retorno de Baby Doc somente cria maior tensão política no país. Entidades de direitos humanos exigem que ele seja levado imediatamente à Justiça para pagar por seus crimes.
Fonte: Blog do Miro.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

HAITÍ - Brasileiro dispensado pela OEA.

Brasileiro dispensado pela OEA no Haiti diz ter sido 'porta-voz daqueles que não têm voz'

Em entrevista à Rede Brasil Atual, Ricardo Seitenfus reafirma que motivo da dispensa foi oposição à conduta da ONU e argumenta que Haiti não pode ser coadjuvante da própria história

Por: João Peres, Rede Brasil Atual



Direita e esquerda do país apoiaram declarações do brasileiro.

São Paulo – Ricardo Seitenfus vai mesmo deixar o comando das ações da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Haiti. Em conversa telefônica com a Rede Brasil Atual, ele reafirma a versão de que o motivo de sua dispensa foi uma entrevista ao jornal suíço Le Temps na qual criticou a presença das forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no país centro-americano.

“Provavelmente isso não tenha agradado a todo mundo, são 34 países-membros da OEA e é difícil agradar a tantos senhores, mas preferi agradar aos haitianos e à minha consciência”, resume. A dispensa foi recebida diretamente do secretário-geral da OEA, o chileno Miguel Insulza, em chamada telefônica no último dia 20. Insulza ordenou que o brasileiro tire férias do cargo de representante do secretário-geral no Haiti e, em janeiro, volte a Porto Príncipe apenas para se despedir dos colegas, encurtando o mandato que se encerraria em 31 de março.

Prestes, portanto, a voltar a exercer a carreira acadêmica na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Seitenfus ressalta que não fez críticas diretas às forças da paz da ONU (Minustah), mas à maneira como a comunidade internacional lida com o Haiti. De certa forma, o ex-representante da OEA reafirma aquilo que já havia feito em pelo menos duas entrevistas anteriores, em agosto de 2009 e em fevereiro deste ano, quando cobrou que a atuação militar desse espaço ao trabalho social de reconstrução do país.

A diferença, admite, está na forma com que abordou os assuntos desta vez, “utilizando a observação e a razão, mas fazendo com que o coração falasse.” Na entrevista ao Le Temps, Seitenfus afirmou que o Haiti não era um caso para forças militares, já que não representava qualquer ameaça à comunidade internacional, e ponderou que queriam fazer um “país capitalista, uma plataforma de exportação para o mercado dos Estados Unidos, um absurdo.”

Com tantos componentes polêmicos, a conversou ganhou enorme circulação no Haiti e nas redes sociais. A repercussão é tamanha que o ex-presidente de Cuba, Fidel Castro, dedicou suas reflexões desta semana a elogios ao trabalho do brasileiro. “Pode-se ou não estar de acordo com cada uma das palavras do brasileiro Ricardo Seitenfus, mas é inquestionável que disse verdades preciosas”, escreveu o líder. Castro acrescenta que a ONU enviou a Minustah a pedido dos Estados Unidos, “criador da pobreza e do caos na república haitiana.”

Confira os principais trechos da entrevista:

Rede Brasil Atual - O senhor esperava ser dispensado?

Ricardo Seitenfus - Foi uma entrevista que dei em meados de novembro a um jornalista de Genebra. Estudei em Genebra e achava que era uma forma de retribuir tudo o que o país fez na minha formação. Foi uma entrevista sem grandes pretensões a não ser fazer um balanço dos dois anos de observação da comunidade internacional na situação haitiana.

Provavelmente isso não tenha agradado a todo mundo, são 34 países-membros da OEA e é difícil agradar a tantos senhores, mas preferi agradar aos haitianos e à minha consciênciaNão falei da OEA. Falei da falta de um sistema internacional capaz de enfrentar situações como a do Haiti. O Haiti é bem mais complicado, bem mais difícil do que simplesmente enviar soldados. Então, foi mais uma espécie de prestação de contas e de auxílio à comunidade internacional, de fazer com que vissem isso. Foi feito de boa fé.

Rede Brasil Atual - Como o senhor viu a reação à entrevista?

Ricardo Seitenfus - Não imaginava a repercussão, sobretudo no Haiti. O Haiti é sempre surpreendente e me surpreendeu mais uma vez. Houve uma unanimidade, a esquerda, a direita, o governo, a sociedade civil, todos de acordo com o que eu disse. Me tornei uma pessoa pública muito querida. Também nas redes sociais houve repercussão porque há uma diáspora de quatro milhões de haitianos espalhados pelo mundo. Simplesmente fui o porta-voz daqueles que não têm voz.

De certa forma, também tem a ver com a forma que eu disse. Utilizando a observação e a razão, mas fazendo com que o coração falasse. Não posso ser outro do que aquele que sempre fui. Prestei um serviço à comunidade internacional, àqueles que querem realmente encontrar caminhos para solucionar os problemas do Haiti. E espero que sirva para incentivar o debate no Brasil sobre isso.

Rede Brasil Atual - Houve um erro da OEA em antecipar o fim da sua missão?

Ricardo Seitenfus - Não posso fazer essa avaliação. Sairia em 31 de março, isso já estava acertado, porque é muito pesado para mim, para minha família. A missão será encurtada em dois meses. É problema da OEA, não é problema meu.

O pecado original do Haiti foi cometido em 1804, no momento em que os escravos conseguem uma dupla libertação: um país e o rompimento dos grilhões da escravidãoRede Brasil Atual - Fidel Castro emitiu um texto elogioso a seu trabalho e com críticas às atuações da OEA e da ONU. Como o senhor vê esses elogios?

Ricardo Seitenfus - É uma grande surpresa dialogar com Fidel Castro, um personagem da história mundial. Cuba está muito envolvida na luta contra o cólera no Haiti, temos quase 1.300 médicos, algo que se fala pouco. A imprensa mundial praticamente desconhece o trabalho extraordinário que os médicos cubanos fazem no Haiti junto à população. Creio que tanto Fidel Castro como eu temos um só objetivo, que é o bem-estar do povo haitiano.

Rede Brasil Atual - Os dois concordam com a avaliação de que o povo haitiano vem sofrendo ao longo do tempo pela ousadia de romper com o colonialismo entre os séculos XVIII e XIX.

Ricardo Seitenfus - O pecado original do Haiti foi cometido em 1804, no momento em que os escravos conseguem uma dupla libertação: um país e o rompimento dos grilhões da escravidão. A libertação haitiana veio muito antes do que veríamos depois, que é a luta contra o colonialismo, contra o racismo e contra a escravidão. O Haiti cometeu esse crime que não se pode apagar, que foi fazer com que os condenados da terra pudessem se revoltar.

Aí começa uma grande caminhada solitária do Haiti nas relações internacionais. Nunca sabem como tratar o Haiti. Quando não se sabe tratar, a gente ou se utiliza da violência ou da indiferença. Felizmente, a partir de 2004 a América Latina se interessou pelo Haiti. Espero que esse interesse demonstrado essencialmente em torno dos militares possa se transformar em interesse cultural, social, e que possamos melhor conhecer aquele povo tão extraordinário.

Não deve ser o país que é hoje e não merece ser considerado como é hoje, deve ser o ator principal da reconstrução internacional, e não um coadjuvante, como entende hoje a comunidade internacionalRede Brasil Atual - O senhor diz que o Haiti o surpreende frequentemente. Poderia apontar um exemplo?


Ricardo Seitenfus - O que mais me surpreendeu foi a atitude da população durante o terremoto. A dignidade, a ordem, a espiritualidade. Foi um sofrimento indescritível, uma dor sem fim, e um povo se comportar da maneira digna como se comportou o povo haitiano é algo que interroga a qualquer um. Um povo de muita fibra. Não deve ser o país que é hoje e não merece ser considerado como é hoje, deve ser o ator principal da reconstrução internacional, e não um coadjuvante, como entende hoje a comunidade internacional.

Rede Brasil Atual - Agora que sua missão se encerra, mudaria alguma declaração em relação à Minustah?

Ricardo Seitenfus - Sobre a Minustah, não. Dentro do mandato dela, fez milagres. Inclusive as tropas brasileiras fizeram um trabalho social extraordinário. Houve uma aceitação à nossa presença. No entanto, há limitações impostas pelo mandato que vem do Conselho de Segurança da ONU, um mandato que impede que faça ações que não sejam as militares. O problema não é a Minustah, é o sistema internacional. Para mim, o fato de a OEA não ser a responsável pela construção é uma espécie de demissão da organização regional frente a um desafio que é dos haitianos e também das Américas.

Fonte: Rede Brasil Atual.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

EUA - Os motivos ocultos da visita de Michelle Obama ao Haiti.


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Escrito por Beatriz Quintana Valle
miércoles, 14 de abril de 2010

14 de abril de 2010, 07:40Imagen activaPorto Príncipe, 14 mar (Prensa Latina) A primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, continua hoje sua visita ao México, após passar "sorpresivamente" a véspera por esta capital para dizer o que todo o mundo sabe, que Haiti necessita ajuda.

A imprensa internacional tomou a visita da esposa do presidente de Estados Unidos, Barack Obama, como surpreendente, mesmo que o diário digital Haiti Press Network assegurou desde o domingo anterior que a terça-feira estaria em Porto Príncipe para uma estadia com menos de um dia.

No entanto, desde a Casa Branca se empenharam em advertir que Obama iniciaria pelo México seu primeiro percurso internacional sozinho, talvez para distrair a atenção sobre sua presença neste país, devastado por um terremoto no dia 12 de janeiro passado.

Michelle Obama, quem esteve acompanhada por Jill Biden, esposa do vice-presidente Joe Biden, advertiu que "a atenção do mundo -sobre Haiti- começa a reduzir-se", mas não especificou se ocorre o mesmo com os interesses de seu país na nação caribenha.

A primeira-dama sobrevoou em helicóptero a capital haitiana e depois desceu nos jardins do [semidestruido] Palácio Nacional, principal símbolo da destruição do país pelo terremoto de janeiro, que deixou mais de 220 mil mortos.

Mas a visitante não presenciou as cenas que continuamente se observam frente da sede do Executivo, porque os danificados que pululam pelos arredores da mesma foram obrigados a ir embora muitas horas antes.

Em cima disso, centenas de soldados norte-americanos cercaram diferentes zonas da cidade e proibiram o trânsito de veículos nos arredores do Palácio de Governo, apoiados por Missão das Nações Unidas para a Estabilização de Haiti (Minustah).

Para muitos haitianos, a fugazes presença Michelle Obama poderia ser um sinal esperançadora, mesmo que pensam o mesmo cada vez que uma personalidade internacional põe pés na sua terra.

Outros acham que é uma forma de ratificar a influência norte-americana e até imaginam que as tropas acantonadas aqui pretendem manter-se por muito tempo, a julgar pelas obras que constroem onde hoje estão assentados.

Segundo estes, Haiti se transformou em um lugar estratégico para os Estados Unidos, só que não têm a certeza absoluta do motivo.

Alguns como o professor de secundário Didier Lebrere acha possíveis certas versões segundo as quais Haiti conta com uma grande reserva de petróleo e por isso há tantos soldados aqui.

Para Lebrere, não é preciso ser muito inteligente para dar-se conta que algo buscam e se é certo que há petróleo ou gás, eles -os Estados Unidos- quererão ter sua parte.

Outros pensam que algum mineral de importância deve esconder o subsolo haitiano quando há tantos norte-americanos na sua terra, e asseguram que não só os Estados Unidos procura se potenciar, porque o Canadá também anda no mesmo.

No final, Michelle Obama se reuniu com Elizabeth Debrosse, sua homóloga haitiana e visitou alguns lugares antes de tomar um avião e partir para o México, mas sua visita deixou a impressão que buscava algo mais que brindar o habitual apoio das personalidades ao povo haitiano.

Talvez ainda seja muito em breve, mas em poucos meses ou mais um pouco, se conhecerão os verdadeiros interesses de Estados Unidos em Haiti e até o motivo da "surpreendente" visita da esposa de Barack Obama.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

HAITI - Artigo de Eduardo Galeano.


Haiti. As outras réplicas. Artigo de Eduardo Galeano

A tragédia do Haiti desatou um formidável movimento internacional de solidariedade. Mas, segundo o escritor uruguaio Eduardo Galeano, o terremoto também provocou outras réplicas. São, explica em artigo publicado no El País, 07-02-2010, tremores de hipocrisia, racismo e amnésia que nenhum sismógrafo é capaz de detectar. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Pat Robertson, teleevangelista de ampla audiência, explicou claramente o assunto do terremoto. O pastor de almas cantou a bola: as placas tectônicas não têm nada a ver. O terremoto é uma consequência do pacto que os negros haitianos haviam feito com o diabo há dois séculos. Satã os libertou da França, mas o Haiti se converteu em um país maldito.

O bom Pat não está sozinho. São muitos os que acreditam, ou ao menos suspeitam, que a liberdade foi o pecado que condenou o país à desgraça perpétua. O Haiti não seria um país maldito se tivesse aceitado seu destino colonial.

Mas, maldito por quem? Os negros haitianos haviam humilhado o Exército de Napoleão Bonaparte, que nessa guerra perdeu 18 oficiais, e a França cobrou caro a expiação. Durante mais de um século, o Haiti pagou à França uma indenização equivalente hoje a quase 22 bilhões de dólares, por ter cometido semelhante sacrilégio.

O novo país nasceu endividado e arruinado, arrasado pela guerra da independência, que a tantos matou ou mutilou, e também arrasado pela exploração desapiedada de seus solos e de suas pessoas extenuadas no trabalho escravo. A prosperidade da França havia sido a ruína do Haiti. Todo o país se havia reduzido a uma imensa plantação de açúcar, que aniquilou as florestas e secou a terra. Os negros livres herdaram um reino sem sombra e sem água.

Nestes dias, a imprensa divulgou resenhas históricas. Supõe-se que ajudam a entender o que acontece. Em quase todos os casos, nos contam que o Haiti foi o segundo país livre das Américas, porque havia seguido o exemplo da independência dos Estados Unidos. A verdade é que não foi o segundo. Foi o primeiro, o primeiro país realmente livre, livre da opressão colonial, sim, mas também livre da escravidão. E foi o primeiro, exatamente porque não seguiu o exemplo dos Estados Unidos: o Haiti foi um país sem escravos 60 anos antes dos Estados Unidos, cuja primeira Constituição estabeleceu que um negro equivalia a três quintas partes de uma pessoa.

E o Haiti nasceu, por isso, condenado à solidão. O Haiti difundia, apenas com seu exemplo, uma peste contagiosa. Nenhum outro país reconheceu sua existência. Todos lhe deram as costas. Nem sequer Simon Bolívar, quando governou a Grande Colômbia, pôde recordar que devia sua glória aos haitianos, porque eles lhe haviam dado navios, armas e soldados, quando estava vencido, com a única condição de que libertara os escravos.

Outra réplica do terremoto: são muitos os que creem, e não poucos a afirmarem, que toda a ajuda será inútil, porque os haitianos são incapazes de se auto-governarem. Levam na testa a marca africana. Estão predestinados ao caos. É a maldição negra.

Pelo mesmo motivo, os Estados Unidos não tiveram outro remédio que invadir o Haiti em 1915. Robert Lansing, secretário de Estado, explicou então que “a raça negra é incapaz de se governar a si mesma e tem uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização”.

O presidente Woodrow Wilson, prêmio Nobel da Paz, fervoroso admirador da Ku-Klux-Klan, assinou a ordem de invasão, para restabelecer a ordem, evitar o caos e, de passagem, já que estavam aí, cobrar o que o Haiti devia aos bancos norte-americanos. As tropas foram para ficar apenas um curto período de tempo, mas acabaram ficando 19 anos. Não puderam restabelecer a escravidão, como haviam feito no Texas e na Nicarágua, mas ao menos impuseram um regime de trabalho forçado que era bastante parecido, e enquanto durou a ocupação militar proibiram que os negros entrassem nos hotéis, restaurantes e clubes reservados aos estrangeiros. Também proibiram que o presidente do Haiti cobrasse seu salário, até que emendou a sua conduta e presenteou o Banco da Nação ao City Bank.

Quando as tropas se retiraram, deixaram um país bastante pior do que aquele que haviam encontrado.

Oxalá, não se repita a história, agora que as tropas norte-americanas retornaram, trazidas pelo terremoto, e sobre as ruínas exercem o poder absoluto.

Terra desolada, gente desesperada: o Haiti viveu mal a sua vida, quase sempre submetido a ditaduras militares. Ditadura após ditadura: para que calem os muitos e mandem os poucos.

Um dos ditadores, Baby Doc Duvalier, escapou da fúria popular em janeiro de 1986. Fugiu, acompanhado por milhões de dólares, no avião militar que o presidente Ronald Reagan lhe enviou, em agradecimento pelos serviços prestados.

Tempos depois, por ocasião do terremoto, Baby Doc anunciou, do exílio, que doaria ao Haiti uma parte do dinheiro que havia roubado. Foi comovedor. Quase tanto como o gesto do Fundo Monetário Internacional, que decidiu emprestar ao Haiti 100 milhões de dólares.

A experiência demonstrou, na América Latina e em todo o mundo, que os especialistas internacionais são tão úteis quanto os ditadores militares, talvez mais, e são muito mais apresentáveis, porque matam para ajudar as suas vítimas.

No Haiti, como em muitos outros países, foram o Fundo Monetário e o Banco Mundial que pulverizaram o poder público e eliminaram os subsídios e as tarifas alfandegárias que de alguma maneira protegiam a produção nacional de arroz. Os camponeses que viviam de sua produção foram convertidos em mendigos ou balseiros, jogados nas ruas ou aos tubarões, e o Haiti passou a importar o arroz, esse sim subsidiado, esse sim protegido, dos Estados Unidos.

Graças aos bons serviços destes filantropos internacionais, o terremoto aniquilou um país aniquilado: sem Estado, sem instituições, sem hospitais, sem escolas.

Sem nada? Sem nada de nada?

Em 1996, o deputado alemão Winfried Wolf, que passava alguns dias no Haiti, consultou as estatísticas internacionais. Havia escutado milhares de vezes que o Haiti é um país superpovoado. Surpreendeu-se ao saber que a Alemanha está quase tão superpovoada quanto o Haiti. Mas admitiu: “Sim, o Haiti está superpovoado... de artistas”.

Winfried percorria os mercados sem se cansar nunca de tanto admirar as criações da arte popular deste país. As haitianas e os haitianos têm mãos magas, que revolvem o lixo e do lixo tiram ferro velho, cristais quebrados, madeiras gastas, coisas que parecem mortas, e essas escultoras e escultores lhes dão vida e alegria.

O Haiti é um país jogado no lixo, terra desprezada, terra castigada, que agora parece, depois do terremoto, mais morta que nunca. Restaram mãos magas capazes de ressuscitá-lo?

Um dos sobreviventes, que perdeu mulher, filhos, casa, tudo, respondeu à pergunta de um jornalista: “E agora? Agora choro. Todas as noites choro. Aqui, na praça onde durmo, choro. E depois me levanto e caminho. Sem destino. Caminho. Sigo. Busco a vida. Não me perguntes por quê”.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

HAITI - Teste para a humanidade.




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Leonardo Boff *

Adital
O desastre que se abateu sobre o Haiti, arrasando Porto Príncipe e matando milhares de pessoas e privando o povo das estruturas mínimas para a sobrevivência, representa um teste para a humanidade. Segundo os prognósticos dos que acompanham sistematicamente o estado da Terra, não demorará muito e seremos confrontados com vários Haitis, com milhões e milhões de refugiados climáticos, provocados por eventos extremos que poderão ocasionar uma verdadeira devastação ecológica e dizimar incontáveis vidas humanas. O Haiti pode ser um sinal do anjo exterminador que passa, sinistro, ceifando vidas.

É neste contexto que duas virtudes, ligadas à essência do humano deverão ganhar especial relevância: a hospitalidade e a solidariedade.

A hospitalidade, já o viu o filósofo Kant, é um direito e um dever de todos, pois todos somos habitantes, melhor, filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade. Estarão as nações dispostas a atender a este direito básico àquelas multidões que já não poderão viver em suas regiões superaquecidas, sem água e sem colheitas? O instinto de sobrevivência não respeita os limites dos Estados-Nações. Os bárbaros de outrora derrubaram impérios e os novos "bárbaros" de hoje não farão outra coisa, caso não sejam exterminados pelos ecofacistas que usurparam a Terra para si. Paro por aqui porque os cenários prováveis e não impossíveis são dantescos.

A segunda virtude é a solidariedade. Ela é inerente à essência social do ser humano. Já os clássicos do estudo da solidariedade como Renouvier, Durkheim, Bourgeois e Sorel enfatizaram o fato de que uma sociedade não existe sem a solidariedade de uns para com os outros. Ela supõe uma consciência coletiva e o sentimento de pertença entre todos. Todos aceitam naturalmente viver juntos para juntos realizarem a política que é a busca comum do bem comum.

Devemos submeter à crítica o conceito da modernidade que parte da absoluta autonomia do sujeito na solidão de sua liberdade. Diz-se: cada um deve fazer o seu sem precisar dos outros. Para os seres humanos assim solitários poderem viver juntos precisam, de fato, de um contrato social, excogitado por Rousseau, Locke e Kant. Mas esse individualismo é ilusório e falso. Há que se reconhecer o fato real e irrenunciável de que o ser humano é sempre um ser de relação, um-ser-com-os-outros, sempre enredado numa trama de conexões de toda ordem. Nunca está só. O contrato social não funda a sociedade, mas apenas a ordena juridicamente.

Ademais, a solidariedade possui um transfundo cosmológico. Todos os seres, desde os topquarks e especialmente os organismos vivos são seres de relação e ninguém vive fora da rede de interretro-conexões. Por isso, todos os seres são reciprocamente solidários. Um ajuda o outro a sobreviver - é o sentido da biodiversidade - e não necessariamente são vítimas da seleção natural. Ao nível humano, ao invés da seleção natural, por causa da solidariedade, interpomos o cuidado, especialmente para com mais vulneráveis. Assim não sucumbem aos interesses excludentes de grupos ou de um tipo de cultura feroz que coloca a ambição acima da vida e da dignidade.

Chegamos a um ponto da história no qual todos nos descobrimos entrelaçados na única geosociedade. Sem a solidariedade de todos com todos e também com a Mãe Terra não haverá futuro para ninguém. As desgraças de um povo são nossas desgraças, suas lágrimas são nossas lágrimas, seus avanços são nossos avanços. Seus sonhos são nossos sonhos.

Bem dizia Che Gevara: "A solidariedade é a ternura dos povos". Essa ternura, temos que exercê-la para com nossos irmãos e irmãs do Haiti que estão agonizando.

[Autor de Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes (2005)].


* Teólogo, filósofo e escritor