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domingo, 17 de maio de 2020

PETRÓLEO - Energia e petróleo brasileiro em 10 lições.

Energia e petróleo brasileiro em 10 lições

13 MaioEscrito por  Felipe CoutinhoLido 1061 vezes
Felipe100aO desenvolvimento do Brasil depende da utilização dos nossos recursos naturais em benefício da nossa Pátria,
da maioria dos brasileiros. Temos que superar a sina colonial, deixar de seguir as elites que servem aos interesses estrangeiros. Os antigos senhores de engenho e seus feitores são hoje os 0,01% da população, os rentistas, os executivos vassalos das corporações multinacionais e, no topo desta cadeia parasitária, os banqueiros.
Apresento dez fatos que todos precisam conhecer, condição necessária para se apropriarem das nossas riquezas em benefício de todos.
1 - Qualidade de vida e consumo de energia estão correlacionados
O consumo de energia primária per capita dos Estados Unidos da América (EUA), em 2014, foi 80,9 mil KWh por pessoa. Da Coréia do Sul foi 61,5. Enquanto no Brasil foi apenas 17,3 mil KWh por pessoa, próximo ao da Turquia com 18,4.
Para alcançar alto desenvolvimento humano, o Brasil precisa aumentar muito seu consumo de energia. Estimo necessário o aumento de cinco vezes do consumo de energia primária nacional para que nossa população atinja padrões de vida noruegueses. Neste cálculo não considero o aumento da população. Seriam necessários quase 10 milhões de barris de petróleo por dia.
2 - Para que haja crescimento econômico é necessário aumentar o consumo de energia
Nenhum país no mundo se desenvolveu exportando petróleo bruto por multinacionais estrangeiras. Existe forte correlação entre o crescimento econômico e o consumo de energia.
A privatização do nosso petróleo para a sua exportação por multinacionais não desenvolverá o Brasil. Trata-se de mais um ciclo primário exportador do tipo colonial. Pau-brasil, açúcar, minérios, borracha, cacau, carne, soja e agora petróleo cru. Sempre em benefício de uma pequena elite e em prejuízo da Nação, de todos nossos cidadãos.
Precisamos garantir a propriedade e o controle nacional do petróleo, produzi-lo na velocidade requerida para atender às nossas necessidades, agregar valor com o refino, com a petroquímica, a química fina, os fármacos, os fertilizantes. Desenvolver tecnologias e infraestrutura produtiva das energias renováveis, de forma planejada, para distribuir a renda petroleira por amplos segmentos sociais e nos preparar para o futuro.
3 - Não há substituto para o petróleo barato de se produzir, mas ele acabou e a humanidade vive as consequências econômicas e sociais deste fato
Há décadas, em março de 1998, Colin Campbell e Jean Laherrère publicaram artigo agora clássico "The End of Cheap Oil" (O Fim do Petróleo Barato), na revista Scientific American. Podemos ver agora que suas previsões foram corretas.
Neste artigo, Colin e Jean também discutiram o petróleo não convencional e escreveram:
"Por último, os economistas gostam de salientar que o mundo contém enormes reservas de petróleo não convencional que podem substituir o petróleo convencional assim que o preço subir suficientemente para torná-los lucrativos. Não há dúvida de que os recursos são amplos.... Teoricamente, essas reservas de petróleo não convencionais poderiam saciar a sede do mundo de combustíveis líquidos, já que o petróleo convencional passa seu pico de produção. Mas a indústria terá dificuldade em relação ao tempo e ao dinheiro necessário para acelerar rapidamente a produção de petróleo não convencional”.
 
A produção do petróleo não convencional (tight oil e shale gas) dos EUA está atrasando o momento em que a produção global de combustíveis líquidos começa a diminuir. Em 1998, Colin e Jean estimaram o pico de todos os combustíveis líquidos em 2010, mas, ao mesmo tempo, observaram que algumas respostas poderiam atrasar essa data. A lição mais importante que podemos agora tirar do artigo de 1998 é que o mundo foi avisado que os dias do petróleo barato estavam contados e que muitas nações que importam grandes quantidades de petróleo deveriam ter ouvido o conselho e respondido de forma mais adequada (ver também: Aleklett, How correct were Colin Campbell and Jean Laherrère when they published “The End of Cheap Oil” in 1998?).
 
A aplicação da tecnologia de fraturamento horizontal e a produção do petróleo e gás natural das reservas de folhelho (shale) nos EUA atrasaram a produção máxima de petróleo em cinco anos depois do pico previsto de 2011, ou seja, para 2016 (em Aleklett, Fracking (Tight Oil) delays Peak Oil by some years).
R. Kaufman (The End of Cheap Oil: Economic, Social, and Political Change in the US and Former Soviet Union Energies, 2014) usou a qualidade e a quantidade de fluxos de energia para interpretar mudanças econômicas, sociais e políticas nos EUA e na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Os sucessos econômicos da ex-URSS e dos EUA refletem um abundante suprimento de energia de alta qualidade. Esta abundância terminou na década de 1970 nos EUA e na década de 1980 na URSS.
 
Nos EUA, o fim do petróleo barato causou a estagnação da produtividade do trabalho, o que interrompeu o crescimento contínuo dos salários e dos rendimentos familiares. Para preservar o sonho americano, que afirma que cada geração será melhor do que a que o precedeu, as mulheres entraram na força de trabalho, a renda foi transferida da economia para o consumo, a economia dos EUA mudou de um credor líquido para um devedor líquido e as dívidas das famílias e do Governo Federal aumentou.
Apesar dos esforços para ocultar os efeitos da renda, o fim do petróleo barato também é responsável pelo aumento da desigualdade. Na antiga URSS, o fim de abundantes fontes de energia significou que a alocação do superávit de energia entre a economia doméstica, as exportações subsidiadas para a Europa Oriental e as vendas, em troca de moeda forte, para o Ocidente tornaram-se um jogo de soma zero. Isso contribuiu para o colapso da aliança do Conselho de Assistência Econômica Mútua (CMEA) e da antiga URSS. Se os EUA puderem se livrar da dívida pessoal e governamental, resolver as preocupações sociais e políticas sobre a desigualdade é o próximo grande desafio colocado pelo final do petróleo barato. (Kaufmann, 2014)
4 - Tudo depende da energia, do que comemos à internet
Você sabia que a energia usada numa única busca no Google é equivalente a ligar uma lâmpada de 60W por 17 segundos? Agora, considere que as pessoas realizam mais de 1 bilhão de pesquisas por dia, e você tem uma enorme pegada de energia de cerca de 12,5 milhões de Watts - e essa é apenas uma fração do total de 260 milhões de Watts consumidos pelos servidores da gigante da pesquisa na internet. O consumo equivale a um quarto do total produzido pelas centrais nucleares. (J. E. Supplies, Infographic: How Much Energy Does Google Use?).
 
De acordo com Pollan, por caloria de alimentos produzidas nos EUA, dez calorias de energia de combustível fóssil são colocadas no sistema para cultivar esse alimento. E, mesmo depois deste alimento ser produzido (com custo de energia de 10: 1), a maioria não chega às mesas em sua forma inteira e natural. Pois a maioria deste alimento é enviada para uma indústria para processamento no que Pollan gosta de chamar de "substâncias semelhantes a alimentos" (com um custo de energia adicional). (ver M.C. Lott, 10 Calories in, 1 Calorie Out - The Energy We Spend on Food, no blog do Scientific American).
5 - Os combustíveis fósseis respondem por 85% da matriz energética mundial, os potencialmente renováveis apenas 11%
A matriz energética mundial depende dos fósseis que representam 85% do total (Petróleo 34%, Carvão 27% e Gás Natural 24%). A energia nuclear representa 4,4% e as potencialmente renováveis 11% (Hidroelétrica 7%, Eólica e Solar 3%, outras 1%).
Os combustíveis de origem fóssil - petróleo, carvão e gás natural - são fundamentais para o suprimento mundial. A propriedade e o uso dos fósseis garantem vantagem econômica, militar e estratégica aos países, corporações ou sociedades que disputam os recursos cada vez mais escassos do planeta.
O acesso à energia primaria mais barata confere vantagem relativa na medida em que se alavanca a produtividade do trabalho humano. A energia move o motor da competição entre as corporações e países, na disputa por mercados, matérias primas e assalariados a empregar.
6 - As multinacionais privadas de petróleo estão decadentes
O Brasil, que tem a Petrobrás, o pré-sal e enorme potencial na produção dos renováveis, é dos países mais espionados pelos EUA.
As maiores multinacionais de capital privado do setor do petróleo não repõem suas reservas na taxa que são esgotadas, têm produção declinante, apresentam resultados financeiros fracos, e perderam boa parte de sua capacidade tecnológica, ao terceirizar suas atividades às empresas prestadoras de serviço. Em uma palavra, definham.
Entre as principais causas, a adoção de modelo de negócios baseado em premissas falsas, com objetivo de maximizar o valor para o acionista no curto prazo, com precária visão estratégica ao não compreender o ambiente de negócios, seguindo bovina e consensualmente planos similares baseados em informações de “consultorias independentes”, ao negar restrições socioeconômicas, além de ignorar limites naturais.
A província do pré-sal foi a maior descoberta das últimas décadas e já representa mais de 50% da produção nacional. O baixo risco exploratório, a alta produtividade dos poços e o domínio tecnológico da exploração e produção em águas profundas da Petrobrás garantiram a aceleração recorde da produção, em comparação com reservas similares no Golfo do México, no Mar do Norte e na Bacia de Campos.
Enquanto a Shell liderava o consórcio e operava o campo de Libra, este foi devolvido à ANP com a justificativa de que não era comercialmente produtivo. A Petrobrás descobriu o pré-sal em Tupi, atual campo de Lula, e depois assumiu a operação em Libra, onde também comprovou a existência de imensa reserva no pré-sal.
O Brasil tem extensa área agricultável com relativamente baixa produtividade agrícola, além da disponibilidade de água e intensa incidência solar, é uma potência tropical para a produção de alimentos e energias potencialmente renováveis. A renda petroleira do pré-sal deveria ser usada para levantar a infraestrutura de produção dos renováveis para preparar nosso país para o futuro. No entanto, a venda de terra a estrangeiros pode virar moeda de troca para interesses rentistas.
 
Julian Assange, o criador do WikiLeaks afirmou que o Brasil é "o país latino-americano mais espionado pelos EUA". As alegações de Assange dão sequência ao que havia sido mostrado por Edward Snowden, ex-analista da CIA/NSA, que também divulgou documentos confidenciais do governo norte-americano sobre a vigilância em massa global.
 
7 - O Senador José Serra prometeu à Chevron mudar as regras da exploração do pré-sal, e com a aprovação de seu projeto o governo Temer pretendeu acelerar os leilões de privatização do petróleo brasileiro
O Wikileaks vazou documento oficial do consulado estadunidense no Rio de Janeiro, enviado para o Secretário de Estado e outros destinatários em 2009, com o título CAN THE OIL INDUSTRY BEAT BACK THE PRE-SALT LAW? (A indústria do petróleo pode alterar de volta a lei do pré-sal?). No documento se relata que:
De acordo com Patrícia Pradal, executiva da Chevron e representante do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), o candidato José Serra opôs-se as regras do pré-sal, mas parecia não ter uma sensação de urgência sobre o assunto. Ele teria afirmado a representantes da indústria "Deixe esses caras [Partido dos Trabalhadores] fazerem o que eles quiserem. Não haverá rodadas de leilão, e então vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionou .... E vamos mudar isso de volta". Quanto ao que aconteceria com as empresas petrolíferas estrangeiras enquanto isso, Serra supostamente comentou: "Você vai vir e voltar". Fontes do congresso também disseram aos oficiais da embaixada que Serra sinalizou, em relação ao PSDB e outros partidos, que eles devem alterar - mas não se opor à legislação final do pré-sal, e alertou aos legisladores para evitar a oposição vocal à lei.
Ainda segundo o documento, se a designação como principal operadora da Petrobrás fosse mantida, Pradal (Chevron e IBP) disse que seria impossível competir em rodadas de lances contra as estatais, como a Sinopec da China e a Gazprom da Rússia. De acordo com Pradal, ganhará quem der ao governo brasileiro o maior lucro e "os chineses podem superar todos", afirmou. Ela explicou. "Eles podem equilibrar e ainda será atraente para eles. Eles só querem o petróleo". Ainda segundo Pradal, a Chevron não iria nem participar do leilão em tais circunstâncias.
 
O documento se encerra afirmando que a medida que as multinacionais privadas aumentavam seus esforços dentro deste debate altamente nacionalista, elas teriam que seguir com cautela. Numerosos contatos do Congresso brasileiro compartilharam suas avaliações de que, ao defender publicamente seus interesses, as multinacionais se arriscam a galvanizar o sentimento nacionalista em torno da questão e danificariam, em vez de ajudar, sua causa (conforme Wikileaks, em 2009).
 
Com a aprovação do projeto do senador José Serra, a retirada do direito da Petrobrás de ser a operadora única e participar com pelo menos 30% dos consórcios para o pré-sal, o governo Temer pretendia acelerar os leilões de privatização do petróleo brasileiro.
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou a realização de 10 Rodadas de Licitações de áreas para petróleo e gás natural no período de 2017 a 2019: Foi aprovado o calendário plurianual, até então inédito no Brasil, de rodadas de licitações de blocos exploratórios, concessão e partilha, e de campos terrestres maduros.
São medidas de caráter neocolonial que colocam o Brasil em novo ciclo primário exportador por meio das multinacionais do petróleo (privadas e estatais).
8 - Guerras são movidas pelo petróleo e na busca por mais petróleo, e na disputa por matérias primas
Segundo o Escritório do Subsecretário de Defesa da Energia, Instalações e Meio Ambiente dos EUA, a Energia Operacional é definida como a "energia necessária para treinar, mover e sustentar forças militares e plataformas de armas para operações militares", e inclui energia usada por navios, aeronaves, veículos de combate e geradores de energia tática. A energia operacional inclui energia usada por sistemas de energia tática e geradores, bem como pelas próprias plataformas de armas. O Departamento considera a Energia Operacional como a energia utilizada nas operações militares, no apoio direto às operações militares e no treinamento que apoia a prontidão unitária para operações militares, para incluir a energia utilizada em locais não duradouros.
 
Diz ainda que no ano fiscal de 2014, o Departamento usou mais de 87 milhões de barris de combustível, com um custo de quase US$ 14 bilhões. Em geral, a Energia Operacional representou 70% do volume de energia do Departamento de Energia.
 
O Escritório afirma que a Energia Operacional em Guerra há muito tempo é um elemento fundamental das operações militares. Do feno para os cavalos de Napoleão até as estações de coalizão para a Grande Frota Branca para abastecer o fenômeno do General Patton da Normandia ao advento do reabastecimento aéreo e o reabastecimento em curso para apoiar bases de contingência distribuídas no Afeganistão, a energia - principalmente petróleo - é um pré-requisito para o poder militar.
 
Hoje, a Energia Operacional permite movimento, velocidade, resistência, tempo na estação e alcance por forças conjuntas no ar, na terra e no mar. (Office of the Assistant Secretary of Defense for Energy, acessado em 20/8/17).
 
Enquanto isso, Pedro Parente, ex-presidente da Petrobrás afirmava que o petróleo é uma simples commodity, ou seja, é uma mercadoria qualquer, como outros produtos de origem primária, negociados na bolsa de valores, de qualidade e características uniformes, que não são diferenciados de acordo com quem os produziu ou de sua origem, sendo seu preço uniformemente determinado pela oferta e procura internacional. Sem nenhum caráter estratégico e, portanto, substituível.
Segundo Parente:
 
“Como acontece com uma padaria quando o trigo aumenta e ela tem que refletir isso no preço do pão, acontece na soja, no café e no minério de ferro. Então, aqui não é uma questão que a Petrobrás esteja criando qualquer situação. Ela está reagindo a movimentos dos preços das commodities nos mercados internacionais. Nós não geramos isso. Nós refletimos isso nos preços da companhia”. (Brasil, 2017)
 
Desde que os europeus chegaram ao Brasil existe uma retórica nativa, expressada pelas elites, que justifica ideologicamente a exploração dos nossos recursos naturais, em favor das potencias estrangeiras.
9 - Desde 1973 se troca petróleo por dólares, os dólares são criados, sem lastro, pelo banco central estadunidense em troca de títulos da dívida. Vender petróleo em troca de papel pintado não desenvolverá o Brasil
O dólar (US$) é utilizado na cotação do petróleo e do gás natural no comércio internacional. Em 1971, os EUA negociaram com a Arábia Saudita um acordo segundo o qual, em troca de armas e proteção diplomática e militar, este país passaria a realizar todas as transações de petróleo em dólares dos EUA (USD). Outros países da OPEP aderiram a acordos semelhantes, garantindo procura global e continuada dos USD.
Entretanto, precisamos entender o que ocorreu desde a 2ª Grande Guerra. Com o fim do conflito, os EUA emergem como a maior potência do pós-guerra. Manteve seu território íntegro e se desenvolveu como primeira potência nuclear. O país era credor do esforço de guerra e detinha as maiores reservas de ouro. Assim pôde ditar as regras do comércio e do sistema financeiro internacional, a criação e o controle do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Foi estabelecido o dólar lastreado em ouro como novo padrão de comércio e de reserva internacional (US$35 / onça).
Entre 1944 e 1971 as nações se desenvolveram desigualmente e em 1971 o governo Nixon declara unilateralmente o fim do dólar lastreado em ouro. Ou seja, não garantiriam mais a troca do papel moeda por ouro.
Em 1973, com o acordo entre os EUA e a monarquia da Arábia Saudita nasce o sistema do petrodólar. O acordo garante as referidas proteções pela exclusividade do dólar no comércio de petróleo. Passa a moeda de lastreada em ouro do maior país credor do pós-guerra para uma moeda lastreada em petróleo alheio dos EUA que já era, então, o maior devedor internacional.
Desde então o dólar vem sendo criado livremente pelo banco central dos EUA (FED), em troca de títulos da dívida do governo. O governo estadunidense exporta a inflação enquanto houver procura por dólares e títulos da dívida. O sistema pode funcionar enquanto houver elevação do excedente de petróleo exportado e se os países importadores precisarem de dólares para comprá-lo.
O sistema dos petrodólares parece enfrentar dificuldades. Em função dos limites ao aumento da exportação de petróleo, ao acúmulo de títulos do governo pelo FED, que tem dificuldade de colocá-los no mercado, e a elevação em progressão geométrica da dívida dos EUA. Além das negociações para comércio de petróleo em outras moedas, lideradas pela China, Rússia e Irã. Existe risco de que a próxima crise da longa depressão, iniciada em 2007, seja relacionada às dívidas corporativas e do governo dos EUA.
Exportar petróleo em troca de dólares sem lastro não irá desenvolver o Brasil.
10 - A Petrobrás é fundamental para garantir o desenvolvimento soberano do Brasil, e nossa segurança energética, militar e alimentar
Em três artigos revelamos a realidade da Petrobrás. No primeiro demonstramos “O mito da Petrobras quebrada” (Oliveira & Coutinho, 2017), no segundo justificamos porque a “Principal meta da Petrobrás, na gestão Parente, é temerária” (Oliveira & Coutinho, A principal meta da Petrobrás, na gestão Parente, é temerária, 2017). O mito foi o pilar ideológico do Plano de Negócios e Gestão (PNG 2017/21) que tem como principal objetivo privatizar, com o álibi da redução do endividamento.
O mito da Petrobrás quebrada é alimentado pela lenda do endividamento ameaçador. O “terrível monstro” do endividamento teria sido associado à corrupção e maus investimentos. Agora ele estaria a ponto de quebrar a Petrobrás e a única alternativa seria privatizar os ativos da estatal a toque de caixa. Em terceiro artigo daquela série estimamos o impacto da corrupção e dos investimentos em ativos ditos improdutivos no endividamento da Petrobrás. Revelamos a lenda da origem perversa do endividamento que alimenta o mito da Petrobrás quebrada e suporta a ideologia neoliberal do objetivo da privatização fatiada da estatal que é disfarçada pela meta da redução da alavancagem (Oliveira & Coutinho, Avaliação dos “maus investimentos” e da corrupção na formação da dívida da Petrobras, 2017).
O petróleo é uma mercadoria especial, na medida em que não tem substitutos em equivalente qualidade e quantidade. Sua elevada densidade energética e a riqueza de sua composição, em orgânicos dificilmente encontrados na natureza, conferem vantagem econômica e militar àqueles que o possuem.
 
A sociedade que conhecemos, sua complexidade, sua organização espacial concentrada, sua produtividade industrial e agrícola, o tamanho da superestrutura financeira em relação as esferas industrial e comercial, foi erguida e depende do petróleo.
 
O fim do petróleo barato de se produzir e a redução do excedente energético e econômico da indústria petroleira está transformando, aceleradamente, a sociedade.
 
É necessário garantir a propriedade do petróleo e ficar com seu valor de uso. Atender as necessidades dos brasileiros e erguer a infraestrutura dos renováveis para uma nova organização social.
Tomar consciência das questões relativas à energia e ao desenvolvimento soberano brasileiro é necessário, mas insuficiente. Precisamos nos unir e organizar nossa Pátria para superar a sina colonial e desenvolver nosso país em favor dos brasileiros.
Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)
Publicado originalmente em : DefesaNet

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

PETRÓLEO - Geopolítica e Fé.

Fiori analisa o risco de uma "guerra santa" pelo petróleo venezuelano


Em artigo publicado no GGN, o economista e professor da UFRJ, José Luis Fiori, aborda a Cruzada messiânica dos Estados Unidos contra a Venezuela e os apoios que Nicolás Maduro vem costurando com China e Rússia, tendo, por trás destas articulações, o fator petróleo. Fiori alerta: "é bom lembrar aos cruzados uma velha lição da história, a respeito dessas “guerras santas”, entre pequenos “peões militares” terceirizados pelas grandes potências: depois que começam, elas não costumam ter fim"

 José Luis Fiori é professor da UFRJ, especialista em geopolítica José Luis Fiori é professor da UFRJ, especialista em geopolítica
Veja, abaixo, a íntegra do artigo:


Geopolítica e Fé 
por José Luís Fiori*
While the US government is moving toward a policy of regime change in Venezuela, its action may simply lead to a prolonged standoff. 
Stratfor Worldview, Daily Brief, Oct, 4, 2018


Três anos depois do início das sanções econômicas americanas contra a Venezuela, o presidente Donald Trump anunciou, numa entrevista coletiva no estado de New Jersey – concedida no dia 14 de agosto de 2017 – que os EUA poderiam fazer uma ação militar na Venezuela. E um ano depois, no dia 8 de agosto de 2018, o jornal NYT noticiou que, de fato, vários funcionários americanos já haviam se reunido com militares venezuelanos, para promover a derrubada do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Por outro lado, e dentro deste mesmo tabuleiro, no mesmo mês de agosto de 2018, o presidente venezuelano visitou Pequim e recebeu o apoio político e financeiro do presidente Xi Jinping, assinando 28 acordos de cooperação com a China, nas áreas de energia e mineração. 

Tais acordos alargam e aprofundam uma relação econômica de mais de uma década, que já superou a casa dos 50 bilhões de dólares emprestados ou investidos em 780 projetos econômicos financiados pelos chineses ou montados em parceria com os venezuelanos. Paralelamente, o presidente Maduro visitou e foi recebido na cidade de Moscou como um “aliado estratégico” da Rússia, com quem assinou acordos de investimento, no valor de R$ 6 bilhões de dólares, destinados aos setores de petróleo e mineração de ouro. 

Não há dúvida, no entanto, de que esse “conflito anunciado” mudou de qualidade, no dia 10 de dezembro do ano passado, quando aterrissaram no aeroporto internacional de Caracas dois bombardeiros estratégicos Tu-160, um avião de transporte militar An124 e uma aeronave Il-62, da Força Aeroespacial da Rússia, para participar de exercícios militares conjuntos com as forças venezuelanas. Nesse momento, com toda certeza, a Venezuela mudou de posição no cenário internacional e passou a ocupar outro lugar, muito mais importante, na competição entre as três grandes potências que lutam pelo poder global neste início do século XXI.

Uma disputa aberta e sem fim previsível que se acelerou na segunda década do século, depois da posse de Vladimir Putin e Xi Jinping, em 2012 e 2013, respectivamente, e ainda mais, depois da posse de Donald Trump, em janeiro de 2017. Como todos os analistas já entenderam, Donald Trump abandonou a velha política norte-americana de apoio e promoção ativa de regras e instituições de governança multilateral e adotou, como bússola de sua política externa, o modelo westfaliano de solução dos conflitos mundiais, através da competição e do uso agressivo do poder econômico como arma de guerra, e o uso permanente da ameaça militar para o caso em que as sanções econômicas não funcionem. Trata-se de uma luta sem quartel e sem religião, orientada pelo mesmo nacionalismo econômico da Rússia e da China, e de todos os demais países que têm ainda algum peso no sistema mundial. 

O petróleo não é a causa de todos os conflitos do sistema internacional. Não há dúvida, entretanto, de que a grande centralização de poder que está em curso no sistema interestatal também está transformando a permanente luta pela “segurança energética” dos Estados nacionais numa guerra entre as grandes potências pelo controle das novas reservas energéticas que estão sendo descobertas nos últimos anos. Uma guerra que se desenvolve palmo a palmo, e em qualquer canto do mundo, seja no território tropical da África Negra ou nas terras geladas do Círculo Polar Ártico; seja na turbulentas águas da Foz do Amazonas ou na inóspita Península de Kamchatka. 

Não há dúvida de que as descobertas mais importantes e promissoras deste início de século foram as areias betuminosas do Canadá, o pré-sal brasileiro e o cinturão do rio Orinoco, na Venezuela. Este transformou a Venezuela na maior reserva de petróleo do mundo, calculada hoje em 300 bilhões de barris, enquanto as areias monazíticas transformaram o Canadá na terceira maior reserva, estimada em 170 bilhões de barris, logo depois da Arábia Saudita, mas muito à frente do Brasil. Este assim mesmo saltou para o décimo-quinto lugar do ranking mundial, com reservas estimadas de 13 milhões de barris¹, 2 sem levar em conta, evidentemente, as estimativas de alguns centros de pesquisa que falam que haveria até 176 bilhões de barris de reserva em todo o “polígono do présal” brasileiro. 

Se somarmos a isto o salto da produção americana de petróleo e de gás, nos últimos três ou quatro anos, produzido pelo “fracking boom”, entenderemos por que o continente americano está se transformando no novo grande foco da geopolítica energética mundial. E entenderemos também duas outras coisas: a decisão norteamericana de voltar a ser o maior produtor de petróleo do mundo, e pivot ou controlador – em última instância – dos níveis de produção e preço do mercado mundial de petróleo. 

O problema é que agora, do outro lado desta disputa, já não está apenas a OPEP, liderada pela Arábia Saudita, que segue sendo um “Estado-cliente” dos Estados Unidos. Está a Rússia, que é o segundo maior produtor mundial de petróleo, e que está cada vez mais próxima e articulada com a OPEP, e com a própria Arábia Saudita. E está ainda a China, cada vez mais interessada em diversificar e garantir seu fornecimento de energia, impedindo ao mesmo tempo que os Estados Unidos imponham sua supremacia e seu controle sobre o mercado do petróleo, somando-o ao controle que já exercem sobre a moeda de referência internacional. 

Tudo indica que essa disputa deverá se acirrar ainda mais no ano de 2019, quando os EUA estarão tentando aumentar a produção mundial de óleo, enquanto a Rússia e a OPEP estarão forçando na direção contrária. Mesmo ano de 2019 no qual, aliás, a OPEP será presidida pela Venezuela, e a Rússia talvez entre na organização com o apoio da Arábia Saudita. Dessa perspectiva, talvez se possa compreender melhor a “ordem unida” que os norte-americanos decidiram impor em seu hemisfério, e o enfrentamento geopolítico e geoeconômico que se anuncia na Venezuela. 

Dentro desse quadro de enorme complexidade econômica e geopolítica, soa absolutamente delirante, quase infantil, imaginar que está sendo travada na Venezuela uma batalha em defesa da fé cristã, e dos valores e arquétipos da civilização ocidental. Esse tipo de visão milenarista costuma reaparecer de tempos em tempos, em certas idades, e em alguns momentos da história, mas não costumam chamar atenção nem causar maiores danos coletivos enquanto se mantenham como uma fantasia individual. 

No entanto, tudo muda de feição quando esses arroubos milenaristas se transformam numa Cruzada que pode dar lugar a uma guerra insana – neste caso, envolvendo pelo menos três países da América do Sul que não têm a menor experiência, nem a menor competência técnica, logística e psicológica para fazer uma guerra com suas próprias pernas. Em momentos como este, de grande exuberância teológica e entusiasmo salvacionista, é bom lembrar aos cruzados uma velha lição da história, a respeito dessas “guerras santas”, entre pequenos “peões militares” terceirizados pelas grandes potências: depois que começam, elas não costumam ter fim.

*José Luís Fiori - Professor titular de Economia Política Internacional, Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro; coordenador do GP do CNPq "Poder Global e Geopolítica do capitalismo" e do Laboratório "Ética e poder global", do Nubea/UFRJ. Pesquisador do Instituto e Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). Publicou recentemente o livro “Sobre a Guerra” pela Editora Vozes

¹ Dados publicados em 1º de janeiro de 2017, no The World Factbook, da Central Intelligence Aghency/ CIA, www.cia.gov/library

domingo, 4 de novembro de 2018

PETRÓLEO - Simples assim!

José Carlos Machado

Onde tem petróleo, os EUA, como maior consumidor mundial, vão atrás, nem que tenham que destruir países como o Iraque e a Líbia.



Já está desenhado, faça um pequeno esforço mental e conscientize-se porque o EUA estão fazendo este jogo com estes três países. Com o Coiso, nós só não vamos nos transformar em uma Venezuela, mas também numa Síria.



Boa guerra para todos nós.







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sexta-feira, 29 de junho de 2018

PETRÓLEO - Carta do Lula ao JB.

Lula, ao JB: “O governo golpista tem pressa em entregar o petróleo”

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lulacarta
Em carta ao Jornal do Brasil, o ex-presidente Lula, em lugar de lamuriar-se pelas injustiças que vem sofrendo, faz aquilo que falta aos políticos brasileiros: assume a defesa das riquezas do país, do emprego, da indústria e da renda nacionais, denunciando as apressadas manobras para entregar as jazidas do pré-sal, desmontar a indústria nacional e reduzir a Petrobras a uma casa de especulação com os preços do pretóleo e dos combustíveis.
Agir assim é uma “boa razão” para que esteja preso, para que se planeje afastá-lo das eleições e, ainda, para a insistência com que tentam barganhar sua soltura pela desistência de participar do processo eleitoral.

‘O Brasil voltará a ser dos brasileiros’

Luiz Inácio Lula da Silva, no JB
Enquanto o país prestava atenção à Copa do Mundo, a Câmara dos Deputados aprovou, em regime de urgência, uma das leis mais vergonhosas de sua história. Por maioria simples de 217 votos, decidiram vender aos estrangeiros 70% dos imensos campos do pré-sal que a Petrobras recebeu diretamente do governo em 2010. Foi mais um passo do governo golpista e de seus aliados para entregar nossas riquezas e destruir a maior empresa do povo brasileiro.
O projeto de lei aprovado semana passada é um crime contra a pátria, que exige reação firme da sociedade para ser detido no Senado, antes que seja tarde demais. É uma decisão que entrega de mão beijada campos do pré-sal com potencial de conter cerca de 20 bilhões de barris de petróleo e gás, burlando a lei que garante o pré-sal para os brasileiros.
Para entender a gravidade desse crime, é preciso voltar ao ano de 2009, quando a Petrobras precisava investir para explorar o recém-descoberto pré-sal. Apresentamos então um projeto de lei em que a União (a quem pertencem as reservas de petróleo, não se esqueçam) vendeu à estatal, em troca de títulos, o direito de explorar até 5 bilhões de barris de petróleo em campos do pré-sal. Foi a chamada Cessão Onerosa.
Assim, a empresa se valorizou, fez a maior operação de capitalização da história e tornou-se capaz de investir. O resultado é que, em tempo recorde, o pré-sal já produz 1,7 milhão de barris/dia, mais da metade da produção nacional. Como era uma operação especial, para defender interesses estratégicos do país, definimos na Lei 12.276/10, que a Cessão Onerosa “é intransferível”. 
Fora dessa área, o pré-sal só pode ser explorado pelo regime de partilha, por meio de uma legislação que garante a soberania do país e direciona essa riqueza para investimentos em educação, saúde, ciência e tecnologia, o nosso passaporte para o futuro.
Já circulam estudos indicando que o petróleo dos campos de Cessão Onerosa será vendido a preços entre US$ 6 e US$ 8 o barril, que é o custo de exploração, quando o preço internacional do barril oscila entre U$ 70 e US$ 80. As chances de achar petróleo nesses campos são praticamente totais, porque nós, brasileiros, já mapeamos as áreas. Para as petroleiras, é como comprar um bilhete premiado da loteria. Para o Brasil, é como vender a galinha da fábula, que botava ovos de ouro.
De posse desses campos, os estrangeiros vão comprar sondas e plataformas lá fora, sem gerar um só emprego na indústria brasileira. Vão contratar engenheiros e técnicos lá fora; vão controlar diretamente toda a inteligência de pesquisa e exploração em nosso pré-sal, o que também é um ataque à nossa soberania.
Esse ataque vem acontecendo desde o início do governo golpista, quando aprovaram a chamada Lei Serra, que excluiu a participação obrigatória da Petrobras em todos os campos do pré-sal. Foi mais um golpe na indústria naval brasileira, que se somou à decisão de reduzir para 50% a obrigação de a Petrobras de comprar máquinas e equipamentos no Brasil, o chamado conteúdo local.
Na presidência da Petrobras, Pedro Parente, representante do PSDB, iniciou a privatização de atividades estratégicas, como a produção de biocombustíveis, distribuição de gás de cozinha, produção de fertilizantes e participações na petroquímica. Pôs à venda a Liquigás, a BR Distribuidora, a fábrica de nitrogenados de Três Lagoas e o gasoduto do Sudeste (NTS). 
Em outra manobra criminosa, reduziu em até 30% a produção de combustíveis nas refinarias brasileiras. Deixamos de produzir aqui, em reais, para importar em dólares. Fez reajustes quase diários dos combustíveis, acima dos preços internacionais, o que aumentou os lucros dos estrangeiros. A importação de óleo diesel dos Estados Unidos mais que dobrou.
Não podemos esquecer que os primeiros a sofrer com a nova política de preços da Petrobras foram os mais pobres, que passaram a usar lenha e o perigosíssimo álcool para cozinhar, por causa do brutal aumento do botijão de gás.
Essa desastrosa política provocou, em maio, a paralisação dos transportes terrestres que tantos prejuízos provocou ao país. O Ipea acaba de informar que a produção industrial caiu 13,4% naquele mês. Não houve queda igual nem mesmo no primeiro mês da crise financeira global de 2008, quando o recuo foi de 11,2% (e cabe lembrar que superamos rapidamente aquela crise). 
Em dois anos foram mais de 200 mil demissões de trabalhadores da Petrobras e de empresas contratadas por ela, além de mais de 60 mil demissões na indústria naval. A indústria de máquinas e equipamentos calcula uma perda de 1 milhão de empregos na cadeia de petróleo e gás, em decorrência dessa operação suicida.
A desvalorização do patrimônio da Petrobras, com a venda de empresas controladas, a perda de mercado no Brasil, a opção por se tornar mera exportadora de óleo cru, entre outras ações danosas de Parente, é dezenas de vezes maior que os alegados R$ 6 bilhões que teriam sido desviados nos casos investigados pela Lava Jato.
A votação da semana passada na Câmara, em regime de urgência, sem nenhum debate com a sociedade, mostrou que o governo golpista tem uma pressa desesperada para entregar o patrimônio nacional e destruir nossa maior empresa.
A verdade é que o tempo deles está acabando. Correm para entregar o que prometeram aos patrocinadores do golpe do impeachment em 2016: nosso petróleo, nossas riquezas, as empresas do povo, a Petrobras, a Eletrobras e os bancos públicos. Foi para isso, e para revogar direitos dos trabalhadores, que eles derrubaram a honesta presidenta Dilma Rousseff. 
Ao longo de dois anos, os golpistas e os entreguistas do PSDB submeteram o Brasil aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos e não apenas na Petrobras. A política externa dos chanceleres tucanos voltou a ser ditada pelo Departamento de Estado dos EUA, num retorno vergonhoso ao complexo de vira-latas que tínhamos superado em nosso governo.
Mas o tempo deles acaba em outubro, quando o Brasil vai eleger um governo democrático, com legitimidade para reverter a agenda do entreguismo, do ultraliberalismo, que só interessa ao mercado e não ao país ou ao nosso povo. Quando o Brasil eleger um governo que vai acabar com a farra das privatizações e da entrega do patrimônio nacional.
Podem ter certeza: voltando ao governo com a força do povo e a legitimidade do voto democrático, vamos reverter tudo que estão fazendo contra nossa gente, contra os trabalhadores e contra o país. E o Brasil vai voltar a ser dos brasileiros.

sábado, 9 de junho de 2018

PETRÓLEO - Serra prometeu e cumpriu mudar a lei do petróleo, para beneficiar Chevron e Cia.

Do blog do Roberto Moraes

EUA de Trump tem no petróleo um de seus principais projetos: que relação isto tem com o avanço da Esso e Chevron no último leilão da ANP?

O blog tratou deste assunto numa breve postagem aqui, [1] no último dia 30 de maio de 2018, quando chamou a atenção para o fato dos EUA, sob o controle de Trump, estarem ampliando as suas ações no setor de petróleo. Fato pode começar a ser identificado pela projeção da AIE de que até o final deste ano (início de 2019), os EUA deverão ultrapassar a Rússia, na condição de maior produtor mundial.

Na ocasião, também chamei a atenção para a relação deste fato, com as razões para os EUA, após o golpe no Brasil em maio de 2016, ter voltado a ter forte presença na exploração do setor petróleo no Brasil e chegado finalmente à cobiçada área do pré-sal.

Os resultados de mais um rodada de leilões da ANP ontem, dão mais mostras sobre este avanço da participação americana na exploração do Brasil e agora nas reservas do pré-sal, a maior fronteira petrolífera descoberta na última década no mundo, através da Esso e da Chevron.

A Esso já tinha avançado enormemente nesta participação no leilão anterior da ANP, em setembro do ano passado, em dobradinha com a Petrobras sob a liderança e boa vontade de Parente.

A presidente da Exxon Mobil Brasil, Carla Peixoto disse após o leilão da ANP: “estamos muito felizes com o resultado, com a Parceria com a Petrobrás. Em poucos meses a Exxon Mobil passou de dois blocos para 25 blocos. Também fortalecidos com esta parceria de longo prazo com a Petrobrás.” [2]

Sobre a rodada de ontem, vale ler aqui, o artigo dos economistas dos Dieese, Cloviomar Cararine e Iderley Colombin, publicado no site da Carta Capital com o título "O pré-sal a preço de banana". [3]

Em especial, o blog chama a atenção para o trecho em que os autores do artigo, falam da forma da participação das players petrolíferas dos EUA e da lógica de dominação norte-americana no setor petróleo: "essa atitude demonstra a intenção das empresas, principalmente norte-americanas, em controlar os campos do petróleo do pré-sal, mesmo que à custa de 75% dos lucros".

Porém, o blog quer dar destaque para o fato de como os EUA foram ampliando a sua atuação no setor petróleo, pós-Trump, como forma estratégica de buscar manter hegemonia geopolítica (na disputa com a China), onde o controle (ou o acesso à concessão) de reservas pelo mundo é elemento fundamental. 

Há que se realçar e registrar novamente a disputa geopolítica e direta dos EUA com a China, [4] que hoje é o maior importador mundial de petróleo. Repetindo, até o ano que vem, os EUA será o maior produtor mundial de petróleo, sendo também o maior consumidor desta mercadoria especial.
Além disso, os EUA é também maior refinador de petróleo do mundo e, ano passado, exportou mais de 90% dos cerca de 1 milhão de barris por dia de combustíveis que o Brasil importou, mesmo com as refinarias da Petrobras com 30% de ociosidade. 

Some-se aos fatos acima, o registro de que os EUA é também sede das maiores e mais fortes empresas de tecnologia e serviços que que atuam no setor petróleo, chamadas de para-petroleiras. 

As tecnologias exigidas atualmente para a exploração são cada vez mais caras por exigirem sofisticações maiores para dar conta da exploração de reservas em áreas mais complexas em vários lugares do mundo. Hoje, estas empresas de serviços e tecnologia de petróleo, faturam mais que muitas petroleiras em atuação do mundo, ficando atrás apenas das players gigantes. 

E por fim, os EUA, pelo volume de produção, pela capacidade de estocagem e de logística para exportação e de importação de óleo cru, para processamento em seu parque de refino, seu imenso consumo e exportação de derivados, tendem a ampliar também o peso sobre norte-americano como regulador de preços do petróleo, no mercado internacional, em disputa com a Opep e demais produtores.

Chamo a atenção ainda para a participação de fundos financeiros e investidores americanos (sistema financeiro americano) em diversos projetos de infraestrutura portuária, logística dutoviária e outros, vinculados à imensa cadeia produtiva do petróleo no país, o que só aumenta a capacidade dos EUA em intervenção e controle sobre o setor no Brasil.

Para fechar reproduzo abaixo o slide com que abri uma exposição feita no Congresso do Petroleiros na última quarta-feira, 06/06/2018, a convite do Sindipetro-NF que resume a questão que descrevi acima.
Slide 2/25 da palestra do autor no Congresso do Sindipetro-NF em 6 jun. 2018.




























Referências:
[1] Artigo no blog em 30 de maio de 2018. Aumento da produção de petróleo nos EUA entre 2010 e 2018 e a relação com o preço de combustíveis no Brasil. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2018/05/aumento-da-producao-de-petroleo-nos-eua.html

[2] Reportagem do site PetroNotícias em 7 jun. 2018. Resultado do leilão faz a ExxonMobil pular para 25 blocos de operação no pré-sal. Disponível em: https://petronoticias.com.br/archives/113054?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+Petronotcias+%28PetroNot%C3%ADcias%29

[3] CARARINE, Cloviomar e COLOMBINI, Iderley. O pré-sal a preço de banana. Carta Capital. 7 jun. 2018. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/o-pre-sal-a-preco-de-banana
[4] Artigo no blog em 4 jun. 2018: A disputa pela hegemonia EUA x China e relações para o Brasil. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2018/06/a-disputa-pela-hegemonia-eua-x-china-e.html

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

PETRÓLEO - Carmen Lucia e os "testas de ferro" da Shell.

Shell se refestela no banquete com Cármen Lúcia

Conceição: Pedro Malan entrega a Petrobrax no jantar!
publicado 12/02/2018
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Como os participantes do jantar com Cármen Lúcia não estão identificados nas fotos divulgadas do evento do Poder360, virou uma caçada estilo Wally descobrir quem são os três da Shell. Para facilitar, os circundamos na cor laranja. Em primeiro plano, à esquerda, Flávio Ofugi Rodrigues, chefe de Relações Governamentais. Ao seu lado, todo sorridente, ainda que meio escondido, o presidente André Araújo. À direita, logo na frente, Tiago de Moraes Vicente, Relações Governamentais e Assuntos Regulatórios. (Créditos: Sérgio Lima/Poder 360)
Por Conceição Lemes, no Viomundo:

Shell deita e rola nos eventos de Brasília, depois de lobby denunciado por diário britânico


Desde 20 de junho de 2017, quando lançou o Poder360-Ideias, dois dos sete eventos que oPoder360 realizou tiveram a presença de petroleiras.

Tais eventos são jantares promovidos para executivos, empresários, investidores e jornalistas.

Segundo o portal, “são uma extensão do jornalismo praticado pelo Poder360, com os mesmos valores, qualidade, precisão e credibilidade”

O primeiro, em 17 de julho de 2017, teve como convidado o presidente da Petrobras, Pedro Parente.

Na ocasião, Parente disse aos jornalistas presentes que a privatização da estatal não fazia parte da agenda da empresa: “Não acho que a sociedade queira a privatização. Não está na agenda agora”.

DESFAÇATEZ, DEBOCHE? CINISMO?

Desde setembro de 2016, quando anunciou o seu plano de “desinvestimento” — na verdade, a venda de ativos importantes da Petrobrás –, Parente já entregou às petroleiras internacionais por mixarias, sem licitação, várias joias da coroa brasileira, dentre as quais:

*Campos de petróleo de pós-sal em águas profundas de Tartaruga Verde (50%) e Baúna (100%)
*100% do Complexo Petroquímico de Suape e Citepe
*Campos de petróleo terrestres de Sergipe (Siririzinho e Riachuelo), Ceará (Fazenda Belém), Rio Grande do Norte (Riacho da Forquilha e Macau), Bahia (Buracica e Miranga) e Espírito Santо (Fazenda São Jorge, Cancã, Fazenda Cedro e Lagoa Parada)
*Campos de petróleo em águas rasas de Sergipe (Caioba, Camorim, Dourado, Guaricema e Tatuí) e Rio Grande do Norte (Curimã, Espada, Atum e Xaréu)
*Nova Transportadora do Sudeste (NTS)
* Oferta pública de ações da Petrobras Distribuidora (BR)
*Liquigás
*Termobahia – Usinas térmicas Celso Furtado e Rômulo de Almeida
*Campo de Maromba, na Bacia de Campos
*Cinco conjuntos de campos terrestres (totalizando 19 concessões), localizados nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Sergipe.
*Três conjuntos de campos terrestres (totalizando 50 concessões),localizados nos estados do Rio Grande do Norte e Bahia
*Sete conjuntos de campos em águas rasas (totalizando 30 concessões), localizados nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe, Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo campos importantes como Enchova, Pampo, Badejo, Linguado e Merluza
*Campo de gás de Azulão
*Campo de gás de Juruá
*Transportadora Associada de Gás (TAG)

Isso sem falar nos leilões de campos de pré-sal, da Agência Nacional de Petróleo (ANP), que estão sendo feitos com base no modelo de partilha deixado pela presidenta Dilma Rousseff.

Os preços são superiores às vendas de Parente. Mas, politicamente falando, é o futuro do Brasil que está indo embora.

Desde 2017, já foram vendidos os seguintes campos de pré-sal:

*Carcará (em águas profundas)
*Sul de Gato do Mato
*Entorno de Sapoinhoá
*Norte Carcará
*Peroba
*Alto de Cabo Frio Oeste
*Alto de Cabo Frio Central

Efetivamente, diante disso tudo, não dá para chamar Pedro Parente de mentiroso quando ele diz que não vai privatizar a Petrobrás.

Na verdade, Parente está doando. Depois que ele e Michel Temer entregarem às multinacionais todos os ativos importantes da Petrobrás, só vai ficar uma casca vazia da petroleira brasileira, que não vai valer nem preço de banana.

O jantar com a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Cármen Lúcia, em 29 de janeiro de 2018, foi o segundo evento do Poder360 com a presença de petroleira.

Agora, atente à lista dos executivos e respectivas empresas que desfrutaram do jantar com a ministra Cármen Lúcia e a sua assessora Mariangela Hamu:

* André Araújo, presidente da Shell no Brasil
*Flávio Ofugi Rodrigues, chefe de Relações Governamentais da Shell 
*Tiago de Moraes Vicente, Relações Governamentais e Assuntos Regulatórios da Shell
*André Clark, presidente da Siemens no Brasil
* Wagner Lotito, vice-presidente de Comunicação e Relações Institucionais da Siemens na América Latina
* Victor Bicca, diretor de Relações Governamentais da Coca-Cola Brasil
*Camila Amaral, diretora jurídica da Coca-Cola Femsa
*Júlia Ivantes e Delcio Sandi, Relações Institucionais da Souza Cruz
*Camila Tápias, vice-presidente de Assuntos Corporativos da Telefônica Vivo
* Marcello D’Angelo, representante da Estre Ambiental

Resultado:

Shell, 3
Siemens, 2
Coca-Cola, 2
Souza Cruz, 2
Vivo, 1
Estre Ambiental, 1

Além do provável encanto do Poder360 pelo setor petrolífero, o placar acima evidencia também seu interesse especial pela Shell.

Coincidentemente, foi nesse jantar que Cármen Lúcia investiu contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dizendo que o STF não reanalisaria a prisão a partir da segunda instância, que o beneficiaria.

Pautar o assunto em função de um caso específico seria “apequenar o Supremo”, ela disse.

Uma afirmação sinfônica para os ouvidos dos três executivos da Shell, uma vez que Lula, caso eleito em 2018, já se comprometeu a anular a MP 795/2017, conhecida como a MP da Shell, profundamente lesiva ao Brasil. Ela vai beneficiar não só a Shell mas todas as petroleiras estrangeiras. 

Mas, uma coisa é certa: a Shell foi flagrantemente privilegiada pelos organizadores do evento.

1) Tinha maior número de executivos no jantar.

2) O seu presidente foi estrategicamente posicionado à mesa. Ao lado esquerdo, era o mais próximo da presidente do STF, Cármen Lúcia.

Sua imagem está circundada por laranja. Do mesmo lado, também marcado de laranja, quatro cadeiras atrás, Flávio Ofugi Rodrigues, chefe de Relações Governamentais da Shell.

À direita, na mesma posição que André Araújo, da Shell , estava André Clark, circundado de azul que assumiu a presidência da Siemens do Brasil, em novembro de 2017.

Diga-se de passagem, Clark bisou no jantar-evento do Poder360. Ele participou também do rega-bofe que teve como convidado Pedro Parente.

Na ocasião, era presidente da unidade da espanhola Acciona para Brasil, Bolívia, Uruguai e Paraguai.



O fato é que os executivos da Shell, especialmente o seu presidente no Brasil, estavam feitos pinto no lixo, de tão felizes.

Para vocês mesmos avaliarem, pesquisamos as imagens dos três executivos da Shell na internet. Depois, comparamos com as imagens do jantar.

Como os participantes não estão identificados nas fotos publicadas do jantar do Poder360, virou uma caçada estilo Wally descobrir quem são os três executivos da Shell.

Para facilitar, fizemos um círculo em volta na cor laranja. As fotos, de Sérgio Lima, fazem parte de um conjunto de 20 imagens de divulgação do evento. Acompanhe-nos.


Onde Cármen Lúcia estava, o presidente da Shell, André Araújo, estava por perto, sempre risonho


André Araújo, presidente da Shell, estrategicamente posicionado à mesa. Ao lado esquerdo, era o mais próximo da presidente do STF, Cármen Lúcia. Quatro cadeiras depois, Flávio Ofugi Rodrigues, chefe de Relações Governamentais 


Os três Wally da Shell sentaram-se do lado esquerdo da mesa. De trás para frente, Tiago de Moraes Vicente (Relações Governamentais e Assuntos Regulatórios), Flávio Ofugi Rodrigues (chefe de Relações Governamentais) e André Araújo (presidente)


Em primeiro plano, Tiago de Moraes Vicente, seguido de Flávio Ofugi Rodrigues 


O presidente da Shell, André Araújo, era o próprio pinto no lixo de tal feliz com a fala da ministra Cármen Lúcia

A ação dos três no jantar seria lobby descarado, como o feito, em março de 2017, pelo ministro do Comércio Exterior do Reino Unido, Greg Hands, junto ao governo brasileiro, que beneficiou a própria Shell e as demais petroleiras estrangeiras?

Relembrando: de acordo com telegrama obtido pelo Greenpeace, cujo conteúdo foi publicado pelo diário britânico Guardian, Hands esteve no Rio, Belo Horizonte e São Paulo. Ele se encontrou com Paulo Pedrosa, do Ministério das Minas e Energia, fazendo lobby para reduzir os impostos e as licenças ambientais das petroleiras britânicas Shell e BP.

Menos de seis meses depois, o governo Temer deu R$ 1 trilhão em isenções fiscais às empresas de petróleo durante os próximos 23 anos. A Folha gritou fake news e tentou desqualificar o cálculo, mas Carlos Rittl, do Observatório do Clima, observou no próprio diário conservador paulistano que é um absurdo fazer tal concessão ao mesmo tempo em que se prioriza cortar a aposentadoria dos brasileiros.

Dois meses depois, Shell e BP, empresas em nome das quais o ministro britânico fez lobby, dominaram os leilões para exploração do pré-sal.

Com esse histórico, faria sentido a presidente do Supremo Tribunal Federal escolher justamente um jantar com a presença de executivos da Shell para dar uma estocada em Lula, que promete acabar com o bem-bom da petroleira no principal ativo dos brasileiros, o pré-sal?

Na maioria dos países da Europa Ocidental, onde a magistratura é toda de carreira, certamente seria algo absolutamente escandaloso Cármen Lúcia participar desse tipo de evento e mandar recado a um ex-presidente da República.

Na Inglaterra seria inimaginável um Law Lord, ou seja, um dos integrantes da mais alta corte do Reino Unido (desde 2005, Supreme Court of the United Kingdom) fazer o que a presidente do Supremo brasileiro fez.
Aqui, pode não ser ilegal, mas não há a menor dúvida de que é contra as regras da moralidade e da ética.

Encontros como esse colocam Cármen Lúcia sob suspeição para julgar ações envolvendo não apenas a Petrobrás e as petroleiras estrangeiras, mas todas as empresas com interesses bilionários no STF. Ou não?

Com a palavra os leitores do Viomundo.

PS do Viomundo: Após a matéria ser publicada, conversei com Paulo César Ribeiro Lima, que foi quem estimou as perdas de arrecadação decorrentes da MP 795/2017 (nota técnica, naíntegra abaixo) em R$ 1 trilhão.

Paulo César observa:”A potencial renúncia fiscal de R$ 1 trilhão é para uma produção de 40 bilhões de barris. Estimo que serão produzidos em cerca de 25 a 30 anos”.