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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

MÍDIA - A blindagem do PIG ao Aécio Never.


ATÉ JORNAL TUCANO ENVERGONHA-SE POR BLINDAR DEMAIS O AÉCIO





PARA OMBUDSMAN, "FOLHA" PROTEGE AÉCIO NA LAVA JATO

"A jornalista Vera Guimarães Martins, ombudsman da 'Folha de S. Paulo', criticou no domingo, 7, a falta de destaque do jornal à declaração do lobista Fernando Moura, de que o senador Aécio Neves, Presidente do PSDB, recebia um terço do esquema de propinas montado em Furnas. "
A citação ao tucano apareceu com maior ou menor destaque na capa dos grandes diários, mas não deu as caras na "Primeira Página" da Folha", criticou. 


Vera lembra que o senador tucano é o maior líder da oposição, "e nessa condição tem sido crítico contundente do governo petista a cada revelação trazida pelas investigações" e recomenda ao jornal dirigido por Otávio Frias Filho que "leve em conta as mudanças no país".

Do "Brasil 247"

A jornalista Vera Guimarães Martins, ombudsman da "Folha de S. Paulo", criticou no domingo, 7, a falta de destaque do jornal à declaração do lobista Fernando Moura, que disse ao juiz federal Sérgio Moro que "Furnas Centrais Elétricas" mantinha um esquema de propina semelhante ao da Petrobras, com divisão de um terço do arrecadado para o senador Aécio Neves, presidente do PSDB.

"A citação ao tucano apareceu com maior ou menor destaque na capa dos grandes diários, mas não deu as caras na "Primeira Página" da "Folha". A reportagem tinha bom tamanho, mas ficou espremida em uma só coluna ao lado de um anúncio. Foi pouco", criticou.

"A menção a Aécio Neves merecia visibilidade por um trio de razões. O senador tucano é o maior líder da oposição, e nessa condição tem sido crítico contundente do governo petista a cada revelação trazida pelas investigações –muitas delas obtidas nas mesmas condições em que seu nome foi mencionado, com réus confessos e disse me disse", elencou Vera Martins. Ela lembra que Furnas tem um histórico recheado de denúncias de desvio de recursos.

A jornalista reconhece que Fernando Moura não "delator confiável", pelo fato de ele ter mudado as versões da sua primeira delação premiada. "Mas, se confiabilidade fosse condição "sine qua non" para publicar notícias da Lava Jato, os jornais teriam engavetado dezenas de reportagens e manchetes nos últimos dois anos. Basta lembrar de Alberto Youssef, que fez acordo de delação em 2004, no caso Banestado, e cujas traficâncias ressurgiram maiores no escândalo da Petrobras", afirmou.

Vera Martins finaliza recomendando ao jornal dirigido por Otávio Frias Filho que leve em conta as mudanças no país. "Toda vez que um delator levanta história com alguma raiz conhecida, a reação dos contrariados é dizer que se trata de notícia requentada com interesses políticos, para prejudicar esse ou aquele. Pode até ser, mas os tempos agora são outros."

Leia na íntegra [ou a seguir] a crítica da ombdsman da "Folha":

Triângulo mineiro: Merecia mais destaque a menção de delator a suposto esquema dos tucanos em Furnas

"O lobista Fernando Moura declarou em depoimento à Justiça Federal na quarta-feira (3) que Furnas Centrais Elétricas mantinha um esquema de propina semelhante ao da Petrobras. Na área comandada pelo diretor Dimas Toledo, o usufruto era do PSDB. A divisão era "um terço [PSDB] São Paulo, um terço [PSDB] nacional e um terço Aécio". O delator disse ter sido informado disso em 2002, pelo próprio Dimas, cujo nome era indicação do senador Aécio Neves.

A citação ao tucano apareceu com maior ou menor destaque na capa dos grandes diários, mas não deu as caras na "Primeira Página" da 'Folha'. A reportagem tinha bom tamanho, mas ficou espremida em uma só coluna ao lado de um anúncio. Foi pouco. Apontei na crítica interna que a notícia merecia "abre de página" e chamada na capa.

A Direção de Redação concorda com a avaliação nos dois casos, mas Fábio Zanini, editor de "Poder", tem opinião diferente. O espaço interno levou em conta a baixa credibilidade do delator, diz. "Ele mudou de versão em declarações sobre José Dirceu: primeiro acusou, depois recuou em vários pontos e, por fim, ameaçado de ter seus benefícios cassados, voltou à narrativa original."

Moura não é realmente um delator confiável (supondo que essa figura exista), mas, se confiabilidade fosse condição "sine qua non" para publicar notícias da Lava Jato, os jornais teriam engavetado dezenas de reportagens e manchetes nos últimos dois anos. Basta lembrar de Alberto Youssef, que fez acordo de delação em 2004, no caso "Banestado", e cujas traficâncias ressurgiram maiores no escândalo da Petrobras.

A menção a Aécio Neves merecia visibilidade por um trio de razões. O senador tucano é o maior líder da oposição e, nessa condição, tem sido crítico contundente do governo petista a cada revelação trazida pelas investigações –muitas delas obtidas nas mesmas condições em que seu nome foi mencionado, com réus confessos e disse me disse.

Aqui cabe uma ressalva para evitar mal-entendidos. É comum receber contestação de leitores que, em nome de um suposto equilíbrio no noticiário, cobram tratamento igual para notícias de pesos desiguais: se o jornal publicou algo sobre Lula, defendem o mesmo destaque a qualquer nota sobre FHC ou tucanos em geral. Não é assim que funciona. Cada notícia tem peso próprio, dependendo de variáveis como impacto da revelação, importância do personagem, cardápio de notícias do dia, grau de interesse do leitorado.

Nesta semana, um leitor criticou o destaque concedido a suspeitas que envolvem o ex-presidente Lula e citou como exemplo de parcialidade o jornal não ter publicado na manchete a condenação do ex-governador Eduardo Azeredo no chamado mensalão mineiro.

Ponderei que não via razão para isso. Azeredo é figura secundária na política nacional, sua carreira não ultrapassou os limites regionais [Será? Mesmo tendo sido Presidente Nacional do PSDB!?!]. [Assim como José Dirceu,] nem no jogo político ele estava mais em dezembro de 2015, quando foi condenado (em primeira instância). Após renunciar ao mandato, virou consultor da Federação das Indústrias de Minas Gerais. Por que mereceria o título principal de um jornal com leitorado nacional? [Mereceria por motivos semelhantes ao de José Dirceu, que muito antes de Azeredo já estava fora da política. Mas sabemos todos que a mídia e a Justiça são parciais, partidárias. Não valem os mesmos critérios]. 

Não é o caso de Aécio, que ganhou projeção nacional com a candidatura à Presidência da República em 2014. Há ainda outros fatores de peso para o depoimento de Fernando Moura merecer atenção. Furnas tem um histórico recheado de denúncias de desvio de recursos. Dimas Toledo (que nega qualquer acusação) era diretor da empresa desde o governo FHC e perdeu o cargo em 2005, no escândalo do mensalão, depois que o deputado Roberto Jefferson declarou à "Folha" que soube por ele do esquema de [propina] "caixa dois" que vigorava na empresa.

Por fim, é preciso levar em conta as mudanças no país. Toda vez que um delator levanta história com alguma raiz conhecida, a reação dos contrariados é dizer que "se trata de notícia requentada com interesses políticos, para prejudicar esse ou aquele". Pode até ser, mas os tempos agora são outros."

sexta-feira, 27 de junho de 2014

AFEGANISTÃO - A influência americana sobre a juventude afegã.

     

De volta do Afeganistão, o documentarista brasileiro Wolgrand Ribeiro fala sobre a situação da juventude afegã e a influência dos EUA sobre ela.


Maurício Thuswohl
Wolgrand Ribeiro

Rio de Janeiro – Prestes a completar 43 anos e há duas décadas radicado em Genebra, na Suíça, o jornalista e documentarista brasileiro Wolgrand Ribeiro tem larga experiência em regiões de conflito, forjada em coberturas e filmagens realizadas em locais como Bósnia, Palestina e Timor Leste, entre outros. De volta do Afeganistão, onde filmou o documentário Kaboul Song, uma tocante história sobre o retorno do cantor popular Ustad Arman a seu país de origem após 25 anos de exílio na Suíça, o brasileiro se diz impressionado com o abandono em que se encontram os afegãos e denuncia que, órfã de iniciativas culturais populares e influenciada pela rápida expansão das redes privadas de televisão no país, a juventude afegã já sucumbe ao soft power emanado da publicidade e dos americanizados programas de tevê.

Ribeiro acompanhou o dia-a-dia de Ustad Arman, de 78 anos, em sua volta ao Afeganistão, onde o cantor foi convidado para ser jurado do programa de tevê Afhgan Star – uma cópia de American Idol, programa de revelação de novos talentos exibido nos Estados Unidos – transmitido pelo canal privado Tolo TV. Em sua terra natal após longo exílio, Ustad, ainda reconhecido e assediado nas ruas pelos afegãos, dividiu seu tempo entre as gravações e as andanças em procura por velhos amigos e lugares que marcaram sua trajetória na hoje arruinada Cabul. Ao também acompanhar alguns jovens aspirantes a astro que participam do programa de tevê, o documentarista brasileiro propõe uma importante reflexão sobre a degradação cultural do Afeganistão, a falta de perspectiva da juventude afegã e a força da presença norte-americana em um país arrasado e carente.

O filme, idealizado e co-realizado pela jornalista suíça Lisbeth Koutchoumoff, foi exibido pela primeira vez durante a edição 2014 do prestigiado festival de documentários Visions du Réel (Visões do Real), que acontece anualmente em Nyon, na Suíça. Após cumprir o calendário de festivais na Europa, será exibido pela tevê suíça. Wolgrand Ribeiro ainda estuda como será o lançamento no Brasil, onde também pretende inscrever o filme em festivais. Nessa entrevista exclusiva, o jornalista e documentarista fala sobre seus próximos projetos e sobre as semelhanças entre o Brasil e o Afeganistão que percebeu durante a viagem.
 

Por que filmar no Afeganistão?

O Afeganistão é um país que todo jornalista tem vontade de ir. Em mim, essa vontade sempre existiu, sempre me interessou essa coisa da resistência, do Afeganistão ter resistido contra os ingleses, contra os russos. O Afeganistão sempre foi um país que representou essa resistência. Quando Lisbeth Koutchoumoff me falou sobre a ideia do filme, que é tratar da música do Afeganistão, que eu não conhecia, achei muito interessante a possibilidade de poder mostrar por outro ângulo um país que a gente vê toda semana no noticiário.

O que você viu e te surpreendeu?

Existem várias semelhanças com o Brasil, inclusive o fato de gostarem tanto de música. Foi bem legal me dar conta disso e poder mostrar esse outro lado. Outra coisa que me remeteu ao Brasil, sobretudo à política de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) desenvolvida no Rio de Janeiro, foi essa coisa de ocupar um território – no caso, um país - com a força militar, mas não realizar um verdadeiro trabalho social de promoção da cultura, da educação. A presença dos Estados Unidos no Afeganistão é uma intervenção baseada somente na repressão, sem quase nenhum vestígio da presença do Estado afegão, o que lembra o Rio de Janeiro e as UPPs.

A falta de expectativa é total. Alguns habitantes de Cabul chegaram a me dizer que era melhor antes, com os talibãs no poder, assim como tem gente na Favela da Maré que acha que a situação era menos opressiva quando estavam os traficantes. Também existe no povo do Afeganistão esse sentimento de que o passado com os talibãs era melhor do que com os americanos hoje em dia. Eu me pergunto por que não tentam fazer com que as pessoas do país tomem parte nas decisões políticas.

E o que mais?

Foi também interessante observar o cotidiano das pessoas. Constatar mais uma vez que em qualquer lugar, mesmo em guerra, as pessoas tentam ir à escola, se ver, se divertir. Só quando o conflito está muito deflagrado é que não dá. Tenho certeza de que, se formos hoje à Síria, veremos que a vida continua todo dia por lá, diferentemente da impressão, passada pelo noticiário, de caos e de que nada pode ser feito. Isso sempre me impactou em todas as regiões em conflito que já estive. No Afeganistão, pude ver por um outro ângulo aquilo que habitualmente a gente vê na televisão.

A repressão norte-americana é visível?

Você vê soldados o tempo todo, mas a grande questão é que a dominação se dá também no imaginário das pessoas, na construção cultural. Os afegãos resistiram tanto, passaram por tantas guerras, e hoje em dia estão sendo dominados pela televisão, pelo chamado soft power. Essa percepção me fez muito pensar no início da televisão privada no Brasil e no oligopólio que temos hoje. A população afegã não tem água, não há eletricidade em boa parte da cidade, mas existe um montão de canais de televisão a cabo. Antes de dar televisão para as pessoas, os americanos poderiam pensar em dar alguma coisa mais básica.

Ninguém parece estar no Afeganistão para ajudar o povo, mas sim para fechar mais negócios e aumentar seu leque de dominação econômica e cultural. A televisão privada não está no Afeganistão para fazer o povo afegão evoluir, está lá para ganhar dinheiro. Uma coisa que lembra o que ocorreu há algumas décadas no Brasil é que os donos dos canais de tevê privados afegãos tiveram muita ajuda americana para se estabelecer e até hoje se aproveitam dos trabalhadores afegãos, todos muito mal remunerados e super explorados, para instalar e manter esses canais. O dono da Tolo TV, que produz o programa Afhgan Star, por exemplo, viveu a vida toda na Austrália, assim como muita gente da elite afegã, que cresceu no estrangeiro.

Nenhuma alternativa de comunicação à vista por lá?

No Afeganistão existe uma televisão pública, sucateada após anos de guerra. Por que não investiram nela? Em 2001, quando aconteceu a invasão norte-americana, muita gente voltou ao país, pois havia a ideia de que se iniciava um momento legal. Voltaram muitos profissionais que poderiam estabelecer um bom sistema de comunicação, mais diverso e democrático, só que, com o tempo, houve muita desilusão porque a presença dos EUA, do ponto de vista social, é bem superficial.

Se você ver o público da Tolo TV, todos são muito jovens, com vinte e poucos anos. Imagina daqui a 15 ou 20 anos? Todos vão estar ganhos pela propaganda do modo de vida capitalista bombardeada pelo canal e por seus similares. Após anos de resistência a guerras e bombardeios reais, ao verdadeiro hard power, os afegãos estão agora sucumbindo ao bombardeio da tevê, ao soft power. À essa “ocupação” americana é muito mais complicado resistir.

Fale sobre o lançamento do filme Kaboul Song...

Ter lançado o filme no festival Visions du Réel foi legal porque é um dos maiores festivais do mundo, são duas semanas de projeção. Foi bom também o lançamento mundial ter sido na Suíça, onde produzimos o filme. Tivemos uma vitrine muito grande porque o lançamento aconteceu na noite especialmente dedicada à televisão. A exibição teve sala lotada, com 462 pessoas, e depois um concerto do protagonista. Foi o maior barato poder projetar o filme e em seguida ter um show do Ustad. O público aplaudiu de pé, foi super emocionante para todos nós. Acho que o Ustad não esperava, após tantos anos de exílio na Suíça, ter uma sala lotada o aplaudindo de pé.

Como prosseguirá o lançamento do filme? Quando passará na tevê suíça?

Ainda não definimos a data de exibição na tevê. A ideia agora é fazer uma turnê pela Suíça, estamos esperando setembro e a retomada do ano letivo após as férias escolares de verão no país. Em seguida, enviaremos o filme para vários festivais do mundo. A ideia é exibir o filme na tevê após ele ter recebido o reconhecimento dos festivais.

Quando Kaboul Song será lançado no Brasil?

Ainda não tem nada definido, ainda estou em busca de fechar alguns contatos e parcerias para exibir o filme no Brasil. Vou tentar inscrevê-lo para o próximo festival É Tudo Verdade. Também estamos estudando a possibilidade de lançamento no Festival do Rio, o que seria muito legal pra mim, pois eu sou carioca.

Algum projeto em vista sobre o Brasil para passar na tevê suíça?

Alguns temas tem espaço na tevê suíça, mas assuntos como as UPPs ou prostituição infantil já estão batidos. Eu gostaria de fazer um filme sobre a geração dos anos 80 que protagonizou a retomada do movimento estudantil no país, ainda antes do fim da ditadura, e da qual faço parte. Outro tema sobre o qual pretendo produzir é o racismo no Brasil. Os temas ligados a comunidades como as favelas do Rio também me interessam. Tenho um próximo documentário em vista, sobre um personagem conhecido da crônica policial no Brasil, mas não posso dizer mais nada sobre esse projeto por enquanto.

Como define seu próprio estilo?

Eu procuro uma linguagem moderna, gosto de documentários com cara de ficção, movimento de câmera, imagem bonita. Não gosto de filmes com ritmo muito lento, com planos que demoram 20 segundos. O meu lado jornalista está completamente em meus filmes. Eu faço filmes para trazer informações e reflexões às pessoas, e não para satisfazer a mim mesmo. Minha preocupação é que as pessoas gostem e não fiquem entediadas ao ver o meu filme. Outra preocupação é fazer belas imagens, talvez por ter começado como fotógrafo.

Sentiu medo no Afeganistão? Tua experiência anterior em regiões de conflito ajudou?

Teve realizador que recusou o trabalho antes de mim pela falta de qualquer garantia quanto à própria segurança durante a viagem ao Afeganistão. A Lisbeth Koutchoumoff queria um realizador que fosse também jornalista. Quando ela me propôs ir filmar no Afeganistão, me interessei na hora. Quanto à experiência, ela sempre ajuda, e eu gosto de sentir alguma adrenalina. Isso está no sangue, na alma, querer ver como são as coisas, essa curiosidade que todo jornalista tem. Nessas horas não pensamos tanto em segurança, temos experiência para garantir uma segurança mínima.

domingo, 21 de abril de 2013

AFEGANISTÃO - Mais uma matança de inocentes.



Abdul Haleem (Xinhuanet, Pequim)
A matança de civis inocentes, entre os quais mulheres e crianças, em ataques recentes pela Força Internacional de Assistência à Segurança [orig. International Security Assistance Force (ISAF)] comandada pelos EUA-OTAN, contra insurgentes Talibãs, só faz aumentar os sentimentos antiamericanos entre os afegãos e põe sob risco qualquer possibilidade de assinar-se qualquer acordo bilateral de segurança entre Cabul e Washington.
Nos recentes ataques do dia 6/4, na província de Kunar, forças dos EUA-OTAN assassinaram 11 crianças afegãs e feriram seis mulheres. O presidente Hamid Karzai denunciou a matança de civis pela coalizão EUA-OTAN e alertou que os repetidos ataques contra civis afegãos pode ter impacto negativo nas relações entre EUA e Afeganistão.
Declaração emitida pelo gabinete da presidência do Afeganistão diz que Karzai fez saber ao presidente dos EUA Barak Obama de suas graves preocupações com a continuada matança de civis afegãos, e citou especificamente a recente operação militar das forças de EUA-OTAN na província de Kunar.
Karzai disse a Obama que a repetição desse tipo de ação cria impedimentos adicionais à assinatura de qualquer acordo bilateral de segurança, pelo qual os EUA esperam conseguir manter presença militar, embora limitada, no Afeganistão, mesmo depois da retirada de todas as tropas estrangeiras, em 2014.
“Não há dúvidas de que a matança de civis por tropas da coalizão EUA-OTAN tem impacto adverso na percepção, entre os afegãos, de qual é o objetivo das forças estrangeiras no país. E já está comprometendo a credibilidade de nosso governo, ao qual cabe proteger os cidadãos nessa sempre prolongada guerra ao terror” – disse Pariani Nazari, editor-chefe do jornal afegão Daily Mandegar.
Residentes em Shalton, no distrito de Shigal na província de Kunar, onde as 11 crianças foram mortas, levaram os cadáveres para o centro administrativo do distrito, semana passada. Exigiam que o governo levasse a julgamento os responsáveis pela carnificina.
ERRO DE ESTRATÉGIA
Karzai tem dito em várias ocasiões que a guerra contra terroristas nas vilas afegãs não é abordagem acertada, dado que, segundo o presidente afegão, os verdadeiros esconderijos e santuários dos Talibãs e outros grupos insurgentes armados não estão em território afegão, mas nas áreas de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. O Paquistão porém negou que haja bases dos Talibã em solo paquistanês.
Em março, o principal porta-voz de Karzai, Aimal Faizy, criticou a guerra ao terror liderada pelos militares de EUA-OTAN no Afeganistão, como “pouco inteligente e sem objetivo claro”; disse também que a maioria dos afegãos querem o fim dos ataques que se fazem como parte daquela “guerra ao terror”.
Ao longo de todo o ano passado, funcionários do Afeganistão e dos EUA tentaram alinhavar um Acordo do Estado das Forças [ing. State of the Forces Agreement, SOFA], até agora sem terem chegado a coisa alguma. Washington insiste em que o acordo assegure plena imunidade aos militares norte-americanos que cometerem crimes de guerra.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

AFEGANISTÃO - Matança de crianças no Afeganistão.



Aviões dos EUA mataram centenas de crianças no Afeganistão


As Nações Unidas responsabilizaram os Estados Unidos por matar centenas de crianças durante os ataques de aviões das forças norte-americanas no Afeganistão, segundo um relatório divulgado nesta sexta-feira (8) em Nova York, local que sedia a organização.


A ONU expressou seu alarme pela "morte de centenas de crianças em resultado de ataques e bombardeios aéreos das forças militares estadunidenses no Afeganistão e devido a uma notável falta de medidas preventivas e do uso indiscriminado da força".

O comentário foi realizado nesta semana pelo Comitê dos Direitos das Crianças, um órgão de 18 especialistas independentes que supervisiona a aplicação da Convenção existente nessa matéria.

Esse comitê acaba de realizar o segundo período de análise do cumprimento do Protocolo Opcional da Convenção sobre os Direitos das Crianças com relação à participação de crianças em conflitos armados.

No caso dos Estados Unidos, o comitê advertiu que a quantidade de baixas infantis causadas pelos efetivos desse país no Afeganistão duplicou entre 2010 e 2011, apesar das autoridades de Washington informaram uma queda nos dois últimos anos.

Além disso, assinalou que "os membros das forças armadas responsáveis pela morte de crianças nem sempre prestam contas" e criticou que as queixas dos familiares das vítimas não sejam ouvidas.

Os especialistas da ONU fizeram questão do dever dos Estados Unidos de protegerem os civis, em particular os menores de idade, como uma prioridade de todas suas operações militares e de prevenir baixas entre a população.

Ambas as questões se correspondem com os princípios estabelecidos de distinção, proporcionalidade, necessidade e precaução, agregaram.

Os especialistas recomendaram às autoridades estadunidenses a adoção de medidas preventivas concretas para evitar o uso indiscriminado da força e garantir que não se repetirão mais as mortes ou mutilações de civis ou de crianças.

Da mesma forma, exigiram que sejam investigadas todas as denúncias de violações a crianças cometidas pelas forças militares norte-americanas e que seus autores sejam processados e punidos.

O tema do assassinato de crianças pelos militares dos Estados Unidos no Afeganistão foi mencionado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em um relatório apresentado em abril passado ao Conselho de Segurança e à Assembleia Geral.

Esse texto revelou que o número de crianças mortas no Afeganistão por ataques aéreos da força internacional de ocupação (encabeçada pelos Estados Unidos) duplicou em 2011.

Fonte: Prensa Latina

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

AFEGANISTÃO - Documentário sobre a guerra.



Assista este documentário se quiser entender a Guerra do Afeganistão

Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)
O jornalista afegão Najibullah Quraishi não vive em seu país, por razões óbvias. Faz nove anos que o Afeganistão está em guerra. Ele conseguiu escapar do inferno que é viver sob bombas, em meio a cadáveres e cenários de destruição. Mas ele às vezes volta a sua terra para fazer jornalismo.
Nenhum jornalista estrangeiro cobre tão bem o Afeganistão quanto ele. Porque ninguém a conhece e a entende tão bem. Não faz muito tempo, ele fez para a emissora inglesa Channel 4 um documentário sobre os afegãos que lutam contra as forças ocidentais. O objetivo era mostrar ao público da Inglaterra quem estava do outro lado em um conflito que tem cobrado vidas de jovens soldados britânicos.
Quraishi é respeitado jornalisticamente porque faz um trabalho sério. Não é panfletário. Não é fanático islâmico e nem um fanático dos Estados Unidos.
Ele se tornou conhecido da comunidade internacional jornalística quando foi um dos coautores do documentário “O Comboio da Morte”. Nele, é reconstruído um episódio nebuloso de novembro de 2001 no norte do Afeganistão. Um grupo de soldados do Talibã rendera-se às tropas do general Abdul Rashid Dostum , um aliado dos Estados Unidos. Eram 8 mil soldados, e a condição era que fossem poupados.
ASFIXIADOS
Eles foram colocados em caminhões blindados, cada qual com 150 ou 200 presos. Quando o comboio chegou ao destino, pouco mais de 3 mil dos presos estavam vivos. Quraishi ouviu e filmou pessoas que participaram do comboio. Essa foi a base do documentário. Um dos entrevistados lembrou que, para abrir pontos de respiro num caminhão, um soldado do general Dostum abriu fogo contra a parte de trás. Os tiros mataram alguns presos dentro do caminhão. Soldados americanos que acompanhavam o transporte dos presos nada fizeram para impedir o massacre.
O documentário — cuja íntegra aconselho você a ver — passou em vários países, contra a vontade dos Estados Unidos, e provocou desconforto por causa do sofrimento afegão. Não foi exibido na tevê americana. A mídia americana ignorou o documentário. O Pentágono, num primeiro momento, negou que tivessem ocorrido irregularidades no comboio.
Em sua ida mais recente ao Afeganistão, a serviço do Channel 4, Quraishi notou a mudança no estado de espírito dos afegãos médios. “Em 2001, eles viram os Estados Unidos como o país que iria libertá-los do Talibã”, escreveu ele. “Agora enxergam neles um invasor.” Várias pessoas que ele entrevistou coincidiram em afirmar que para elas a prioridade, neste momento, é que os exércitos liderados pelos Estados Unidos vão embora. Isto feito, será então a hora de lidar com os extremistas religiosos.
Obama assumiu com a ambição de melhorar a imagem dos Estados Unidos no mundo. Chamar de volta quanto antes os soldados americanos, objeto de ódio intenso no Afeganistão, era um passo para realizar a ambição. Mas nada. Obama continuou todas as guerras de Bush.
Há poucos dias, uma manifestação de civis na capital Cabul trazia cartazes em que se lia: “Americanos: vão para o inferno!” Não é o caso de irem para o inferno. Basta que retornem a seu país.
http://www.youtube.com/watch?v=TWPDZhgISdw&feature=player_embedded

domingo, 7 de agosto de 2011

AFEGANISTÃO - Traição teria sido a causa da derrubada do helicópero americano.

Do blog Sem Fronteiras.

Traição teria sido a causa da morte no Afeganistão de membros da unidade que matou Bin Laden.

–1. Depois das manchetes dos jornais informarem mundo afora sobre a derrubada, no sábado 6, do helicóptero de transporte de tropas CH-47Chinook na cidade afegã de Sayyedabad- província de Wardak-, com 38 militares carbonizados (31 norte-americanos e 7 afegãos), começaram a vazar informações até então secretas.

Esse tipo de vazamento decorreu do inconformismo com o falimento de uma “missão militar” de alto risco e que deveria contar com o denominado “elemento supresa”.

Os norte-americanos envolvidos no Afenaistão desde outubro de 2001 falam em “traição” de informantes ou de oficiais militares das novas forças militares afegãs, estas formadas pela Nato-Otan.

O contingente de talebans que estavam em Sayyedabad teriam recebido a informação sobre a operação norte-americana e aguardavam o ataque. O helicóptero restou atingido por um velho lançador de granadas tipo Rpg: o armamento é empregado contra tanques e, na falta, acabou utilizado para abater o helicóptero Chinook.

Os talebans, e o mula Omar ( Bin Laden foi casado com uma das suas filhas), estão a vibrar com o feito. A operação em Sayyedabad contou com militares da Navy Seal. E 22 das vítimas fatais (fala-se também em 18) pertenciam à unidade denominada “Team 6”, da força especial dos Navy Seals.

Dessa unidade, “Team6” foram escolhidos os integrantes da Operação Jerônimo, que esteve sob o comando do vice almirante William McRaven. Em 2 de maio passado, os militares tirados da unidade “Team 6” para fazer parte da Operação Jerônimo localizaram e eliminaram Osama bin Laden, líder alqaedista.

A falida operação em Sayyedabad fora classificada como de grande importância em face do início, em duas semanas, da retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, com conclusão estabelecida para 2014.

Com datas fixadas e inúmeras falas do presidente Barack Obama a garantir a retirada das tropas que invadiram o Afeganistão em outubro de 2001, os talebans prepararam ações pontuais voltadas a desacreditar promessas de Karzay, difundir o medo na população e eliminar os oficiais das novas forças armadas do Afeganistão, que assumiriam, com a retirada das tropas da coalizão, postos controlados pela Nato-Otan. O governo do presidente Karzai empenha, com apoio das forças coordenadas pela Nato-Otan, em criar um sistema de segurança apto a garantir o poder e suportar as ofensivas dos talebans.

Vários oficiais e políticos comprometidos pós saída norte-americana com um sistema confiável de segurança acabaram eliminados. Os talebans, nessas supracitadas ações pontuais, assassinaram o prefeito de Kandahas e o governador da província de Uruzgan. Até o irmão adotivo do presidente Karzai restou assassinado. Cerca de 15 novos oficiais foram mortos.

Segundo relatório da Organização das Nações Unidas, nos primeiros seis meses de 2011 foram mortos 1.462 civis, sendo 80% deles em decorrência de ataques promovidos pelos talebans. Ainda consoante relatório da ONU, o número de mortos neste semestre é 15% superior ao havido em 2010, no mesmo semestre.

Após a conclusão de que os talebans estavam empenhados em desmoralizar o novo sistema de segurança e os que tinham a ele aderido, é que se preparou a operação na cidade de Sayyedabad. Tudo distante apenas duas semanas do início da retirada das tropas norte-americanas. Uma operação especial com a convocação dos militares da Navy Seals (tropa da marinha), conforme já destacado.

Para os 007 da CIA, alguém deu com a língua nos dentes, como já aconteceu, por exemplo, na operação Khost. E o difícil é s identificar o “traidor” (na visão norte-americano) ou o “ infiltrado” (no conceito europeu).

Sobre a presença de contingente de talebans em Sayyedabad alguém informou os norte-americanos. Pelo que corre teriam sido líderes de grupos tribais de etnia pastum. Como bem sabe o general Petraeus, hoje no comando da Cia, os informantes locais são pouco confiáveis, ou melhor, podem apunhalar pelas costas, apesar da “grana” recebida ou do poder de influência prometido.

–Wálter Fanganiello Maierovitch–

sábado, 26 de março de 2011

AFEGANISTÃO - Morlock, o soldado repugnante.

Ria inclinado sobre o corpo do rapaz e com uma mão torcia o rosto ensangüentado para as câmeras. O cabo Jeremy Morlock ostentava seu troféu de caça, um civil afegão inocente, como costumava exibir os dos alces que caçava em seu pago do Alasca. As fotos deste militar de 23 anos tratando um ser humano como se fosse um animal, foram publicadas na semana passada pela revista alemão Der Spiegel. Até o exército dos Estados Unidos, uma instituição pouco dada a desculpas, disse que as imagens eram “repugnantes”.

A reportagem é de Guy Adams e publicado no jornal Página/12, 25-03-2011. A tradução é do Cepat.

Esta semana, Morlock foi condenado a 24 anos de prisão por um tribunal militar na base Lewis-McChord, perto de Seattle, no estado de Washington. O cabo se havia declarado culpado de ser o líder de um “pelotão de execução” de soldados rasos que mataram três civis ao acaso, por esporte, durante seus 12 meses de serviço na província de Kandahar entre 2009 e 2010. Morlock não foi condenado à morte ou prisão perpétua porque aceitou declarar contra seus camaradas “esportistas”.

Este caso, que já é chamado de “Abu Ghraib afegão”, promete deixar muitas perguntas sem resposta: os seus superiores sabiam do esporte que os soldados praticavam? Atentavam para a saúde mental dos homens sob seu comando? Não seriam os acusados apenas a ponta de um iceberg muito maior? O que se sabe de Morlock não ajuda a acalmar estas preocupações.

Terceiro de oito filhos de uma família de classe operária da minoria indígena Athabaska, Morlock nasceu em Wasilla, Alasca. No ensino médio jogou hockey sobre gelo com seu amigo Track Palin, na equipe treinada por sua mãe, a agora famosa ex-governadora Sarah Palin. Em 2006, terminou a graduação e entrou no exército, que o enviou à Quinta Brigada de Ataque da Segunda Divisão de Infantaria. Durante seu treinamento, Morlock relatou episódios de depressão agravados pela inesperada morte de seu pai, que se afogou em 2007.

Em meados de 2009, Morlock foi transferido para o sul do Afeganistão, por um ano, e de imediato se encontrou sob fogo. Participou de quatro “contatos” com o inimigo e em três deles sofreu concussões. Em uma carta à sua mãe disse: “há apenas três meses que cheguei e já não creio que alguma vez possa falar das coisas que estão acontecendo comigo”. Na mesma carta, confessava que não conseguia dormir e se sentia “traumatizado”.

Morlock começou a fumar maconha, que se cultivava em Kandahar, e lhe receitaram 10 medicamentos diferentes, incluindo analgésicos, antidepressivos e comprimidos para dormir. Após sua prisão, os médicos militares informaram que sofria de síndrome pós-traumática, era usuário de drogas e sofria de desordem de personalidade. Nenhum destes sintomas fez com que o enviassem para a retaguarda.

Em seus interrogatórios, o cabo contou que começou a matar civis desarmados junto com seus colegas depois do Natal de 2009, segundo ele com o apoio de seu sargento, Calvin Gibbs. Este suboficial, aparentemente, tem o hábito de cortar os dedos dos inimigos que mata e disse que havia matado por esporte durante seu rodízio no Iraque. “Se Gibbs soubesse que estou contando isso a vocês, certamente me faria merda”, disse Morlock aos interrogadores em uma conversa que parou no YouTube. Os advogados do sargento negam furiosamente que isto seja verdade.

Os três assassinatos pelos quais Morlock foi condenado ocorreram em janeiro, fevereiro e maio do ano passado. Não são conhecidos todos os detalhes, mas o acusado disse que haviam acomodado os corpos de tal maneira que parecessem baixas legítimas de guerra.

O que está ficando claro é que a Quinta Brigada de Ataque tem um problema. Seu comandante, o coronel Harry Tunnell, foi subidamente removido em meados do ano passado e esta semana foi acusado pela corte marcial de comandar uma brigada “disfuncional”. Um psicólogo da defesa disse que sua cadeia de comando “criou um ambiente propício para estes crimes”. Vários soldados disseram que falaram com seus superiores sobre problemas de abuso de autoridade e uso de drogas, mas que foram ignorados e, num caso, atacados para que se calassem. Os familiares de um soldado, que revelou em uma mensagem postada no Facebook que civis inocentes estavam sendo mortos, fizeram contatos com o comando da Brigada em Seattle, mas nunca receberam resposta.

Morlock foi preso em julho do ano passado e desde então está numa solitária. Teve um filho que ainda não conhece. Nos interrogatórios anteriores ao julgamento, chamou a atenção que nunca tentava culpar as drogas ou o estresse por seus atos. “Perdi meu norte moral”, foi sua explicação. Sua mãe já gastou 5.000 dólares com sua defesa legal e disse à imprensa que seu filho foi condenado para cobrir um problema maior. “Acho que o ordenaram a fazer o que fez”, disse a mulher. “Creio que seus superiores estão envolvidos e eles estão pagando. Ali acontece de tudo...”.

sábado, 28 de agosto de 2010

AFEGANISTÃO - "Ladrões durante o dia, terroristas à noite".

Do blog Dialógico.

Hoda Abdel-Hamid, Al-Jazeera, Qatar

Por todos os lados para onde se olhe, em Cabul, capital do Afeganistão, só se veem paredes derrubadas, ruínas e grupos de guardas de segurança armados: são os funcionários das empresas privadas contratadas pelos EUA para fazer a segurança dos prédios onde circulam diplomatas, representantes de organizações não-governamentais e funcionários de grandes empresas norte-americanas.

Os mesmos guardas têm acompanhado comboios militares em deslocamento – quase sempre dirigindo em alta velocidade, causando pânico e gerando caos nas estradas. De fato, esses guardas privados armados, sejam afegãos, norte-americanos ou quaisquer outros, são odiados no Afeganistão. Vários deles têm-se envolvido em acidentes e outros eventos violentos, sempre com mortes de civis inocentes. O último desses casos envolveu funcionários da empresa Dyncorps (EUA), na estrada do aeroporto, em Cabul: quatro civis afegãos foram mortos num acidente de carro; os funcionários da Dyncorps fugiram do local do acidente, e uma multidão enfurecida incendiou os carros e atacou policiais afegãos.

O comportamento desses soldados mercenários há tempos preocupa o presidente afegão Hamid Karzai que, recentemente, se referiu a eles como “ladrões durante o dia, terroristas à noite”. Agora, ao que parece, Karzai decidiu fechar o cerco contra as empresas de segurança privada.

Decreto de Karzai

Decreto do presidente Karzai, dessa semana, exige que todas as empresas de segurança que contratam guardas armados no país sejam extintas, no prazo de quatro meses. Para o governo afegão, esses mercenários agem como exército paralelo e são causa de instabilidade no país.

Até o início do próximo ano, esses “geradores de confusão e instabilidade” deverão ser desmobilizados. Todos os vistos para permanência no país serão revogados.

Poucas horas depois de o decreto ser divulgado, conversei com um dos empresários estrangeiros encarregados daqueles funcionários – para saber se estavam preocupados com o risco de perderem os empregos em poucos meses.

A resposta foi um claro “Não”. E acrescentou: “Se sairmos, esse país mergulhará no caos completo”. É possível que tenha alguma razão.

O que dizem os militares

Há cerca de 40 mil guardas privados armados em operação no Afeganistão. Mais da metade, empregados por empresas contratadas pelo exército e pelo Departamento de Estado dos EUA.

Para os militares, são indispensáveis, porque liberam os soldados regulares para as missões de combate. As empresas de segurança privada cumprem várias das tarefas que, sem eles, caberiam aos soldados – segurança das bases, prédios e instalações, segurança pessoal e, sobretudo, a proteção armada aos comboios militares nas rotas de suprimento das bases e acampamentos militares. E é nas estradas que ocorrem a maioria dos confrontos que sempre fazem grande número de vítimas civis.

Recentemente, o governo decidiu que a segurança dos comboios passará a ser feita por soldados do exército afegão – empreitada difícil, se se considera que os soldados afegãos ainda estão pouco treinados, não dispõem de armas adequadas e não têm experiência.

Os comboios de suprimento são alvos preferenciais dos Talibã e de outros grupos de guerrilheiros e milícias armadas que proliferam no país, e não se acredita que os militares norte-americanos aceitem entregar a segurança de seus comboios aos afegãos. Para dificultar ainda mais, aumentam as notícias de que o exército afegão já estaria infiltrado de militantes da resistência afegã. E, isso, ainda sem considerar que as estradas que cortam o país são controladas por diferentes senhores-da-guerra locais, e acredita-se que as empresas privadas de segurança pagam regularmente a vários desses senhores-da-guerra, em troca do direito de circular pelas estradas – recurso ao qual nem o exército dos EUA nem o exército afegão podem recorrer diretamente, pelo menos em teoria.

Os contatos de Karzai

Outro motivo pelo qual o empresário com quem conversei não acredita que as empresas privadas de segurança armada venham a ser de fato expulsas do Afeganistão é que várias delas pertencem, totalmente ou em parte, a famílias influentes no país.

“Será que o irmão do presidente fechará sua empresa?”, perguntou ele, referindo-se a Ahmed Wali Karzai, meio-irmão de Hamid Karzai e temido governador da província de Candahar.

O que se diz no país é que Wali Karzai controlaria várias das empresas privadas de segurança na área crucial de Candahar, apesar de jamais se haver provado qualquer conexão financeira entre ele e as empresas de segurança.

Os mais cínicos – muitos, nas ruas em torno do Capitólio – garantem que o decreto servirá apenas para entregar à família do próprio Karzai o monopólio da segurança privada no país, depois de expulsas as empresas estrangeiras, quase todas norte-americanas. Para outros, seria golpe de propaganda que Karzai estaria tentando, em busca de maior apoio popular, com vistas às eleições previstas para meados de setembro.

Num ponto, todos concordam: os mercenários armados são força de desestabilização ativa no Afeganistão – ideia que se encontra até no último relatório do Congresso dos EUA.

De fato, vai-se firmando a ideia de que as milícias mercenárias constituem hoje uma ameaça ao sucesso da estratégia dos EUA no Afeganistão, exatamente como aconteceu no Iraque, antes. Mas não se sabe se a expulsão seria a melhor solução com vistas ao futuro do Afeganistão.

Há quem diga que a expulsão das milícias privadas mercenárias criaria um vácuo de segurança, que os militares dos EUA – já sobrecarregados –, dificilmente conseguiriam preencher.

Tradução Vila Vudu

AFEGANISTÃO - A matança americana no Afeganistão.

Do Blog Vi o Mundo.

A partir dos relatórios secretos vazados por WikiLeaks.

EUA: o programa de “assassinatos seletivos”

A Força-tarefa 373, no Afeganistão

19/8/2010, Pratap Chatterjee, TomDispatch

Pratap Chatterjee recomenda que os interessados em conhecer o conteúdo dos arquivos WikiLeaks Afghan War Diary visitem o blog DiaryDig [1], para entender melhor aquele banco de dados e facilitar a pesquisa. O autor recebe e-mails sobre problemas relacionados à leitura daqueles arquivos em pchatterjee@igc.org.

“Localizar, deter, eliminar e impedir que recomece” [ing. “Find, fix, finish, and follow-up”] é como o Pentágono descreve a missão das equipes militares clandestinas que operam no Afeganistão na perseguição de todos os que se suspeite que sejam membros dos Talibã ou da al-Qaeda, onde quer que estejam. Outros falam de operações de “caça humana”, e de equipes cuja missão é “capturar/matar”.

Seja qual for a terminologia, os detalhes de dúzias dessas operações – e de como deram errado repetidas vezes – foram afinal revelados pela primeira vez, na massa de documentos secretos, dos militares e da inteligência dos EUA, que a página Wikileaks [2] vazou em julho, e que foi objeto de uma tempestade de protestos oficiais.

Agentes de um tipo de guerra clandestina que os EUA praticam cada dia mais amplamente, essas equipes militares fazem sempre muito mais inimigos que amigos e destroem todo o sentimento de boa-vontade em relação aos EUA que resulte dos projetos de reconstrução e ajuda econômica.

Quando Danny Hall e Gordon Phillips, respectivamente diretores civil e militar da equipe norte-americana que trabalha na reconstrução, na província de Nangarhar, Afeganistão, chegaram para uma reunião com Gul Agha Sherzai, governador local, em meados de junho de 2007, sabiam que tinham muito o que explicar e do que pedir desculpas. Caberia a Philips explicar por que uma equipe militar clandestina norte-americana de “capturar/matar”, designada como “Força-tarefa [ing. task force] 373”, à caça de Qari Ur-Rahman, suposto comandante Talibã, codinome “Carbon”, aparecera de repente, a bordo de um helicóptero armado AC-130 Spectre, e matara sete oficiais da polícia afegã, no meio da noite.

O incidente mostra claramente o conflito absoluto entre duas doutrinas que regem a guerra dos EUA no Afeganistão: de um lado, a doutrina da contraguerrilha [ing. counterinsurgency], que visa a “proteger a população”; de outro lado, a doutrina do contraterrorismo, que visa a exterminar terroristas e supostos terroristas. Apesar de o governo Obama ter-se empenhado, nos discursos, a favor da doutrina da contraguerrilha, o contraterrorismo foi, é e continua a ser a principal doutrina que orienta sua [de Obama] guerra no Afeganistão.

Para Hall, funcionário do Serviço Diplomático, que deixara há menos de dois meses um posto em Londres, o serviço associado aos militares provou-se muito mais difícil do que havia esperado. Em artigo publicado na revista Foreign Service Journal poucos meses antes daquela reunião, Hall escrevera, “Sentia-me como se nunca soubesse, de fato, o que estava acontecendo, onde eu deveria estar, o que deveria fazer, qual o meu papel; de fato, sem nem saber se havia algum papel para mim. Para piorar, eu não falava nem a língua pashtun nem a língua militar, as duas únicas que circulavam por ali.”

Para Phillips, a situação não era menos espinhosa. Um mês antes, entregara pessoalmente os pagamentos solatia – indenização, prevista na legislação militar, paga no caso de morte de civis provocada por erro das Forças norte-americanas – em presença do governador Sherzai, ao mesmo tempo em que condenara o ato de um homem-bomba Talibã que matara 19 civis, com o que se deu por encerrado o incidente. “Vimos agora como convidados à sua casa”, disse Phillips aos parentes dos mortos, “convidados para ajudar a reconstruir, com melhores condições de segurança e governança, a sua província de Nangarhar, para oferecer-lhes vida melhor e futuro mais luminoso, aos senhores e seus filhos. Hoje, choro com os senhores a morte de seus entes queridos.”

Hall e Phillips tinham sob sua responsabilidade um portfólio de 33 projetos ativos de reconstrução coordenados pelos EUA, no valor total de $11 milhões, em Nangarhar, de construção de estradas, fornecimento de equipamento escolar e um programa agrícola orientado para a exportação, pela província, de frutas e legumes.

Apesar disso, a missão da “equipe de reconstrução provincial” de Hall e Phillips (constituída de especialistas civis, funcionários do Departamento do Estado e soldados) parecia estar em conflito direto com a equipe de operações especiais encarregada dos serviços de “capturar/matar” (Seals da Marinha, Rangers do Exército e os “Boinas Verdes”, associados a agentes da Divisão de Atividades Especiais da CIA), cujo trabalho era caçar afegãos suspeitos de serem terroristas e líderes guerrilheiros. Essa equipe deixava uma trilha de cadáveres de civis e de ódio contra os norte-americanos, por onde passasse.

Detalhes de algumas das missões da Força-tarefa 373 vieram a público, pela primeira vez, como resultado da divulgação de mais de 76 mil relatórios de incidentes, vazados pela página Wikileaks – que recebe e divulga pela internet, material que lhe seja enviado para divulgação sem identificar fontes. – Alguns daqueles documentos foram analisados pelos jornais Guardian [3] e New York Times e pela revista Der Spiegel. E relatório completo de todas as depredações e assassinatos praticados pela Força-tarefa 373 pode ainda vir a público.

Simultaneamente, o governo Obama recusa-se a comentar as missões de assassinatos autorizados, que continuam em andamento no Afeganistão e no Paquistão. Pode-se, contudo, desde já, extrair, da leitura cuidadosa dos documentos já vazados pela página WikiLeaks, uma breve história daquela força-tarefa, que se pode complementar com o que já se sabia, de relatórios não-secretos da atividade do exército dos EUA no Afeganistão.

Segundo os dados que se leem na página Wikileaks, havia 2.058 nomes, numa lista secreta chamada “Joint Prioritized Effects List” (JPEL), de alvos para “capturar/matar” no Afeganistão. Em dezembro de 2009, havia um total de 757 prisioneiros – provavelmente nomes que aparecem naquela lista secreta – na Bagram Theater Internment Facility (BTIF), prisão norte-americana incluída no complexo conhecido como “Base Aérea de Bagram”.

Operações “capturar/matar”

A ideia de equipes “mistas”, formadas de membros de diferentes ramos da organização militar, em colaboração com membros da CIA, foi concebida em 1980, depois da desastrada Operation Eagle Claw [Operação Garra de Águia], quando Força Aérea, Exército e Marinha uniram-se numa muito mal planejada e mal-sucedida operação para resgatar reféns norte-americanos no Irã, com a ajuda da CIA. Morreram oito soldados, quando dois helicópteros colidiram sobre o deserto iraniano. Depois, uma comissão de alto nível, de seis membros, sob a coordenação do almirante James L. Holloway III recomendou que se criasse um comando para operações especiais conjuntas [ing. Joint Special Forces], forças armadas e CIA, de modo a garantir melhor coordenação de planejamento e execução nas operações futuras.

Depois do 11/9, o processo foi acelerado. Naquele mês, uma equipe da CIA chamada “Quebra-queixo” [ing. Jawbreaker] partiu para o Afeganistão, para planejar no local a invasão liderada pelos EUA. Pouco depois, uma equipe de Boinas Verdes, do Exército, criou a Força-tarefa Dagger, com idêntico objetivo. Apesar da rivalidade inicial entre os comandantes das duas equipes, acabaram por integrar-se num único grupo.

A primeira equipe clandestina “mista” da qual participaram a CIA e várias forças especiais militares, para operações no Afeganistão foi a Força-tarefa 5, para a missão de capturar ou matar “alvos de alto valor”, como Osama bin Laden e outros altos comandantes da al-Qaeda, e Mullah Mohammed Omar, chefe dos Talibã. Uma organização gêmea, criada para operar no Iraque, recebeu o nome de Força-tarefa 20. As duas acabaram por unir-se e constituíram a Força-tarefa 121, comandada pelo general General John Abizaid, então comandante do Comando Central dos EUA.

Em livro a ser lançado ainda nesse mês de setembro de 2010 – Operation Darkheart [Operação Coração Escuro], o tenente-coronel Anthony Shaffer narra as atividades dessa Força-tarefa 121 em 2003, quando o autor foi membro de uma subequipe chamada Jedi Knights [Cavaleiros Jedi]. Trabalhando sob o codinome Major Christopher Stryker, Shaffer participou de operações conduzidas pela Agência de Inteligência da Defesa (equivalente militar da CIA), fora da base aérea de Bagram.

Numa noite de outubro, Shaffer desceu de um helicóptero MH-47 Chinook sobre uma vila próxima de Asadabad, na província de Kunar, para integrar-se a uma equipe “mista”, composta de Rangers do Exército (divisão das forças especiais) e soldados da 10ª Divisão de Montanhas. A missão: capturar um dos subcomandantes do grupo de Gulbuddin Hekmatyar, conhecido senhor-da-guerra aliado dos Talibã. A missão fora organizada a partir de informações oferecidas pela CIA.

Não foi fácil. “O trabalho daquela equipe deu certo, mas só enquanto puderam atacar o coração dos Talibã e um de seus paraísos seguros do outro lado da fronteira do Paquistão. Por um momento, Shaffer anteviu o que poderia ser a vitória dos EUA, naquela guerra” – lê-se no material de divulgação do livro. “Mas, então, os altos escalões militares intrometeram-se na operação. A política à qual servem as altas patentes militares não era nem realista nem racional. Shaffer e sua equipe foram obrigados a parar e a assistir, sentados, o crescimento da guerrilha – bem ali, do outro lado da fronteira do Paquistão.”

Quase 25 anos depois da Operação Garra de Águia, Shaffer, que foi membro do grupo Able Danger que caçou a Al-Qaeda nos anos 1990s, descreve a dura, amarga disputa, a guerra interna, subterrânea, entre as equipes da CIA e das Forças Especiais militares, sobre como gerir o sombrio mundo dos assassinos norte-americanos autorizados a matar clandestinamente no Afeganistão e no Paquistão.

A Força-tarefa 373

Avancemos fast forward, até 2007, ano da primeira referência à Força-tarefa 373, nos documentos vazados por Wikileaks.

Não se sabe se o número que identifica essa Força-tarefa teria algum outro significado; por coincidência ou não, o capítulo nº 373 do “Código 10 dos EUA” – a lei aprovada no Congresso, que estabelece as competências dos militares norte-americanos – é o capítulo que estabelece a competência do secretário da Defesa para “autorizar qualquer empregado civil” que preste serviços ao exército, a “executar mandatos judiciais e a efetuar prisões sem mandato”. Seja ou não essa a inspiração para o nome que recebeu a Força-tarefa 373, tudo que diga respeito a ela foi absoluta e totalmente classificado como material de alta segurança e protegido por segredo total. Foi assim e ainda é assim. Apenas que, hoje, depois de Wikileaks ter vazado aqueles documentos, já se sabe, com certeza, que o grupo existe, ou, pelo menos, que existiu.

Analistas dizem que a Força-tarefa 373 complementa a Força-tarefa 121 usando “forças brancas”, como os Rangers e os Boinas Verdes, diferentes da força mais secreta Delta Force. A Força-tarefa 373, conforme o pouco que se sabe, é comandada a partir de três bases militares – em Cabul, capital do Afeganistão; em Candahar, segunda maior cidade do país; e na cidade de Khost, próxima das áreas tribais no Paquistão. É possível que algumas de suas operações partam de Camp Marmal, base alemã ao norte, na cidade de Mazar-e-Sharif. Fontes familiarizadas com o programa dizem que a Força-tarefa tem seus próprios helicópteros e aviões, dentre os quais os helicópteros armados AC-130 Spectre, usados exclusivamente por ela.

Tudo leva a crer que tenha sido comandada pelo general-brigadeiro Raymond Palumbo, e que esteja baseada no Comando Especial de Operações Especiais em Fort Bragg, Carolina do Norte. Mas Palumbo deixou Fort Bragg em meados de julho, logo depois de o general Stanley McChrystal ser substituído por Obama no comando geral da guerra no Afeganistão. E não se conhece o nome do novo comandante da Força-tarefa 373.

Em mais de 100 relatórios de eventos que se leem nos arquivos Wikileaks, descreve-se a Força-tarefa 373 como ativa em numerosas operações de “capturar/matar”, sobretudo nas províncias de Khost, Paktika e Nangarhar, todas na região da fronteira com o Paquistão, nas Áreas Tribais sob Administração Federal. Há alguns relatórios de capturas bem-sucedidas; outros, de eventos em que morreram oficiais da polícia afegã e até crianças pequenas, que enfureceram os moradores da região e levaram a atos de protesto e a alguns ataques contra as forças militares lideradas pelos EUA.

Em abril de 2007, David Adams, comandante da equipe de reconstrução provincial da província de Khost, foi convocado para uma reunião com os anciãos da vila de Gurbuz, na província de Khost, indignados com as operações conduzidas, naquelas comunidades, pela Força-tarefa 373. O relatório que se pode ler nos arquivos vazados por Wikileaks não diz o que a Força-tarefa 373 havia feito, que tanto indignou os anciãos de Gurbuz. Mas o governador da província de Khost, Arsala Jamal, já havia protestado, em dezembro de 2006, contra das operações das Forças Especiais em sua província, que haviam deixado vários civis mortos. Naquela ocasião, foram mortos cinco civis, em ataque contra a vila de Darnami.

“Essa é nossa terra”, dissera então o governador. “Há tempos venho convidando com insistência: temos de sentar juntos e discutir. Nós conhecemos nossos irmãos afegãos, conhecemos nossa cultura. Essas operações não foram planejadas para criar novos inimigos. Temos meios para fazer diminuir o número de operações erradas.”

Como Adams lembraria depois, em coluna publicada no Wall Street Journal, “O número sempre crescente de ataques contra famílias afegãs afastou de nós a maioria dos anciãos das áreas tribais de Khost.”

Dia 12/6/2007, Danny Hall e Gordon Philips, trabalhando na província de Nangarhar, a nordeste e em área próxima de Khost, foi convocado para uma reunião como governador Sherzai, para dar explicações sobre a morte daqueles sete oficiais de polícia afegãos, resultado de uma operação da Força-tarefa 373. Como Jamal, Sherzai declarou, diretamente a Hall e Philips, que “considera absolutamente indispensável melhor coordenação (…)” e que “de modo algum deseja ver repetidos os mesmos erros.”

Menos de uma semana depois, a equipe da Força-tarefa 373 atacou, com cinco mísseis, uma construção em Nangar Khel, na província de Paktika, ao sul de Khost, em atentado para matar Abu Laith al-Libi, líbio, suposto membro da al-Qaeda. Quando os soldados dos EUA chegaram à vila, descobriram que a Força-tarefa 373 havia destruído uma madrassa (escola islâmica), matado seis crianças e ferido gravemente uma sétima, a qual, apesar dos esforços de uma equipe médico-militar dos EUA, morreu pouco depois. (No final de janeiro de 2008, circularam notícias de que al-Libi teria sido morto por um míssil Hellfire lançado de um avião-robô Predator, numa vila próxima de Mir Ali, no Waziristão Norte, no Paquistão.)

Akram Khapalwak, governador da província de Paktika, reuniu-se com militares dos EUA, um dia depois do ataque à madrassa. Diferente dos outros governadores provinciais em Khost e Nangarhar, Khapalwak aceitou apoiar os “itens para discussão” preparados para que a Força-tarefa 373 explicasse – à mídia – o incidente. Segundo os relatórios sobre esse incidente que se leem em Wikileaks, o governador então “reforçou os comentários sobre a tragédia que vitimara as crianças; e ainda acrescentou que a tragédia poderia ter sido evitada, se os moradores da vila tivessem informado sobre a presença de guerrilheiros na área.”

Apesar de tudo, nenhuma espécie de “itens para discussão”, não importa quem os tenha repetido para os jornais, conseguiu fazer diminuir o número de civis mortos, enquanto continuaram os raids da Força-tarefa 373.

Dia 4/10/2007, a Força-tarefa 373 despejou 500 bombas Paveway de 500 pound sobre uma casa na vila de Laswanday, a menos de 10 km de Nangar Khel na província de Paktika (a mesma província onde já haviam sido mortas sete crianças). Dessa vez, morreram quatro homens, uma mulher e uma menina – civis – além de uma mula, um cachorro e várias galinhas. Foram feridos uma dúzia de soldados dos EUA, os quais relataram que “nenhum inimigo foi capturado ou morto”.

A história afegã que ninguém conta

Nem todos os raids resultaram em mortes de civis. Os relatórios militares vazados por Wikileaks sugerem que aquela Força-tarefa 373 teve melhor sorte ao capturar “alvos” vivos e sem mortes de civis, dia 14/12/2007. O 503º Regimento (aerotransportado) da Infantaria foi convocado para dar cobertura à Força-tarefa 373 numa incursão à província de Paktika, à caça de Bitonai e Nadr, dois supostos líderes da Al-Qaeda cujos nomes aparecem na lista JPEL. A operação aconteceu nos arredores da cidade de Orgun, próxima à Base Avançada de Operações dos EUA Harriman [ing. U.S. Forward Operating Base (FOB) Harriman]. Localizada a 7 mil pés de altitude e cercada por montanhas, vivem nessa base cerca de 300 soldados e uma pequena equipe da CIA, e a base é frequentemente visitada por barulhentos helicópteros e cáfilas de sonolentos camelos que pertencem aos pashtuns locais.

Uma equipe de assalto aéreo (codinome “Operation Spartan”) desceu sobre o local onde se supunha que Bitonai and Nadr vivessem, mas não os encontrou. Um informante afegão disse aos soldados das Forças Especiais que suspeitava de que os procurados estivessem escondidos a poucas milhas daquele local; a Força-tarefa 373 encontrou-os e prendeu-os, além de outros 33 homens que os acompanhavam; todos foram levados para a Base Avançada Harriman para interrogatório e possível transferência para a prisão na Base de Bagram.

Mas quando a Força-tarefa 373 estava no comando da operação, todos os civis, pelo que se vê, corriam risco. E, embora houvesse soldados norte-americanos ansiosos por relatar o que viam – como o demonstram os documentos vazados por Wikileaks –, jamais se ouvem as vozes afegãs e a versão afegã dos acontecimentos. Por exemplo, numa 2ª-feira à noite, em meados de novembro de 2009, a Força-tarefa 373 executou operação para prender ou matar um suposto guerrilheiro (codinome “Ballentine”) na província de Ghazni. Um relatório tenso informa que foram mortos uma mulher afegã e quatro “insurgentes”. Na manhã seguinte, uma Força-tarefa “White Eagle” [Águia Branca], unidade de soldados poloneses sob o comando da 82ª Divisão (aerotransportada) dos EUA, relatou que cerca de 80 pessoas reuniram-se em ato de protesto contra as mort es. A janela de um dos veículos blindados foi danificada pelos manifestantes afegãos, mas não há, nos relatórios, qualquer opinião que tivesse sido colhida entre os afegãos, sobre o mesmo incidente.

Ironicamente, um dos últimos incidentes em que houve participação da Força-tarefa 373, dos que se leem nos documentos de Wikileaks, foi praticamente reprise da Operação Garra de Águia original, desastre que levou à criação das equipes “conjuntas” de capturar/matar. Na madrugada de 26/10/2009, dois helicópteros norte-americanos, um UH-1 Huey e um AH-1 Cobra, colidiram perto da cidade de Garmsir, na província de Helmand, ao sul; quatro fuzileiros da Marinha [ing. Marines] morreram.

Aliada muito próxima da Força-tarefa 373 é a unidade britânica Força-tarefa 42, reunião de comandos do Serviço Especial da Força Aérea, Serviço Especial Embarcado e Regimento Especial de Reconhecimento, que operam na província de Helmand e são mencionados em vários relatórios dos que se leem nos documentos Wikileaks.

Caça humana

“Capturar/matar” é elemento chave de uma nova ‘doutrina’ militar desenvolvida pelo comando das Forças Especiais fixada depois do fracasso da “Operação Garra de Águia”. Sob a liderança do general Bryan D. Brown, que assumiu o Comando das Forças Especiais em setembro de 2003, a ‘doutrina’ passou a ser conhecida como “4F” [da expressão “find, fix, finish, and follow-up”, em português, aproximadamente “Localizar, deter, eliminar e impedir que recomece”], mensagem eufemística [4], mas fácil de entender, sobre o modo prescrito para lidar com os supostos terroristas e guerrilheiros.

Nos anos Bush-Rumsfeld (secretário da Defesa), Brown começou a organizar equipes de “forças especiais ‘mistas’” para essas missões 4F fora das zonas de guerra. Receberam o nome anódino de “Elementos de Ligação Militar” [ing. Military Liaison Elements]. Os repórteres Scott Shane e Thom Shanker, do New York Times, relataram pelo menos um assassinato cometido por essa equipe no Paraguai (de um assaltante armado, cujo nome não aparecia em nenhuma lista de ‘procurados’). A equipe norte-americana, cuja presença no Paraguai não fora comunicada ao embaixador dos EUA, recebeu ordens para deixar imediatamente o país.

“A exigência número um é defender a pátria. Às vezes, há ordens para localizar e capturar ou matar em todo o mundo terroristas que tentem agredir essa nação,” disse Brown à Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados, em março de 2006. “Nossos parceiros estrangeiros (…) são nações bem-intencionadas mas incapazes, que querem ajuda para construir suas próprias competências para defender suas fronteiras e eliminar o terrorismo em seus países ou regiões.” Em abril de 2007, o presidente Bush, como prêmio ao trabalho de planejamento de Brown, criou um cargo especial de alto nível no Pentágono, de secretário-assistente de Defesa para operações e conflitos de baixa-intensidade e competências interdependentes.

Michael G. Vickers, que se tornou conhecido no livro e filme Charlie Wilson’s War (2007, port. Jogos do poder [5]), como arquiteto das operações secretas de fornecimento de armas e dinheiro para os mujaheedin na campanha da CIA contra o Afeganistão soviético nos anos 1980s, foi indicado para aquele cargo. Sob sua liderança, reformularam-se as linhas de atuação, em de zembro de 2008, para “desenvolver capacidades para ampliar o alcance dos EUA em áreas nas quais não sejam admitidos, para operar com e mediante forças estrangeiras nativas, ou para conduzir operações de baixa visibilidade”. E assim o programa “capturar/matar” foi institucionalizado em Washington.

“A guerra ao terror é fundamentalmente guerra indireta (…) É guerra de parceiros (…) mas é também em certo sentido guerra nas sombras, seja pela sensibilidade política seja pelo problema de localizar terroristas”, disse Vickers ao Washington Post no final de 2007. “Porisso a CIA é tão importante (…) e nossas forças para Operações Especiais desempenham grande papel.”

A partida de George W. Bush da Casa Branca não diminuiu o entusiasmo geral pelas operações 4F. Aconteceu o contrário: a fórmula 4F foi maquiada, à típica maneira dos militares, e é hoje “find, fix, finish, exploit, and analyze” ou F3EA [port. “Localizar, deter, eliminar, impedir que recomece e análise”], e o presidente Obama, em todos os sentidos, ampliou o alcance das operações militares ‘mistas’ e dos programas “capturar/matar” em todo o mundo – ampliação que acompanha perfeitamente a escalada dos ataques por aviões-robôs comandados pela CIA.

Há bem poucos que apoiem publicamente a ‘doutrina’ do “capturar/matar”. Mas o professor Austin Long, da Columbia University, abraçou a causa dos projetos F3EA. Observando semelhanças entre um programa de assassinatos “Phoenix”, responsável por dezenas de milhares de assassinatos durante a guerra do Vietnã (programa que o professor defende), o professor Austin recomendou que se reduzam “as pegadas” que os militares estão deixando no Afeganistão; para isso, sugere que as Forças Especiais sejam reduzidas para no máximo 13 mil soldados, que se concentrariam exclusivamente em operações de contraterrorismo, especificamente em assassinatos. “Phoenix sugere que a coordenação da inteligência e a integração da inteligência com um braço armado pode ter efeito poderoso inclusive contra grupos extremamente grandes e armados” – escreveram Long e seu co-autor William Rose nau, em monografia publicada em julho de 2009 pelo Rand Institute, intitulado “The Phoenix Program and Contemporary Counterinsurgency” [port. O Programa Phoenix e a contraguerrilha contemporânea].

E há outros, até mais agressivamente empenhados. O tenente George Crawford, que se aposentou no cargo de “estrategista chefe” do Comando das Forças Especiais e passou a trabalhar para a Archimedes Global, Inc., empresa de consultoria em Washington, sugeriu que a sigla F3EA fosse substituída por apenas duas palavras: “Caça humana” [ing. Manhunting]. Em monografia publicada pela Joint Special Operations University [aprox. “Universidade das Operações Especiais Mistas] em setembro de 2009, sob o título “Caça humana: Organização de contrarrede para guerra irregular” [orig. “Manhunting: Counter-Network Organization for Irregular Warfare]” Crawford ensina “como dar conta da missão de desenvolver habilidades para caça humana, entendida como habilidade relevante para a segurança na cional dos EUA.”

“Estamos matando ‘os caras’ errados”

A estranha evolução desses conceitos, a criação de equipes cada vez mais globais de ‘caçadores-assassinos’, cujo trabalho em tempo integral, sete dias por semana é assassinar, e os muitos civis que essas equipes “de Forças Especiais mistas” assassinam regularmente em suas ações contra ‘alvos’ que ninguém sabe quem define têm perturbado até vários especialistas militares.

Por exemplo, Christopher Lamb, atual diretor do Instituto de Estudos Nacionais Estratégicos na Universidade de Defesa Nacional [ing. Institute for National Strategic Studies at the National Defense University, e Martin Cinnamond, ex-funcionário da ONU que serviu no Afeganistão, assinaram estudo para a edição da primavera-2010 da revista Joint Forces Quarterly no qual escreveram: “Há ampla concordância em torno da ideia de que a abordagem indireta da contraguerrilha deve preceder quaisquer operações de matar/capturar. Mas tem ocorrido exatamente o contrário.”

Outros militares têm dito que a abordagem do caçador-matador é precária e contraproducente. “Para mim, a Força-tarefa 373 e outras forças-tarefas assemelhadas tem alguma utilidade, porque mantêm o inimigo sob pressão. Mas essa abordagem não vai às raízes do conflito, de por que a população civil apoia os Talibã,” disse Matthew Hoh, ex-empresário contratado pela Marinha e pelo Departamento de Estado, que renunciou em setembro ao cargo que exercia no governo. Hoh, que várias vezes trabalhou com a Força-tarefa 373, além de outros programas de “capturar/matar” no Afeganistão e no Iraque, acrescenta: “Estamos matando ‘os caras’ errados, gente de nível intermediário no comando dos Talibã, que só nos veem como inimigos porque estamos lá, atacando-os nas terras deles. Se não estivéssemos lá, eles não estariam fazendo guerra contra os EUA.”

A Força-tarefa 373 talvez seja um pesadelo para os afegãos. Para o resto do mundo – agora que Wikileaks nos deu acesso àqueles documentos –, pode ser vista como evidência de desastres políticos muito mais profundos. Em todos os casos, a pergunta que vem à cabeça de quem saiba da atividade dessa Força-tarefa 373 é tão horrível quanto básica: os EUA estarão, mesmo, a caminho de converter-se em alguma espécie de Caçadores de Homens & Cia., empresa global?

[1] DiaryDig.org é um blog independente criado para facilitar a pesquisa nos arquivos do Afghan War Diaries vazados pela página Wikileaks dia 25/7/2010. São m ais de 76 mil relatórios (e outros serão divulgados em breve) de cinco anos (2004-2009) da guerra do Afeganistão. A partir de DiaryDig.org leem-se todos os documentos vazados, organizados por tipo, categoria, data, número de mortos e várias outras classificações. A partir da página de qquer documento, clica-se no texto verde sublinhado para ter acesso a outros documentos que contenham a mesma expressão ou a mesma frase; já há várias conexões criadas entre termos considerados mais importantes, e que poderiam passar despercebidas por leitor menos habituado àquele tipo de discurso. Esperamos que essa ferramenta seja útil a analistas, jornalistas e ao público em geral interessados em conhecer a atuação dos EUA na guerra do Afeganistão e dar bom uso a esse raro e importante banco de dados que WikiLeaks distribuiu. Caso você deseje apoiar esse trabalho, faça uma doação em dinheiro para a página Wikileaks ou para o Fundo criado para pagar os advogados que defendem o soldado Bradley Manning (em http://www.diarydig.org/).

[2] Ver, sobre WikiLeaks, o blog “Redecastorphoto”, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/08/guerra-cibernetica-contra-wikileaks.html e o blog “Outras Palavras”, em http://www.ponto.outraspalavras.net/2010/07/27/wikileaks-e-os-arquivos-secretos-da-guerra-afega/, dentre outros.

[3] Para conhecer a história do vazamento pela página WikiLeaks e a parte do material que foi analisado na primeira publicação, pelo jornal Guardian, ver o blog “Outras Palavras”, 27/7/2010, em http://www.ponto.outraspalavras.net/category/afeganistao/

[4] Há aqui um traço semântico de tradução impossível, em que ficam fortemente sugeridas várias expressões de baixo calão (‘f-words’, ‘4 letters-words’, ‘fuck-words’ dentre outras).

[5] Sinopse e ficha técnica em http://www.imdb.com/title/tt0472062/

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

AFEGANISTÃO - WikiLeaks: desmascarando a guerra de Obama.

Do site do IHU


"Graças ao Wikileaks, o público está conhecendo um retrato da guerra do Afeganistão bem diferente do retocado pelo presidente Obama e seus chefes militares", escreve Luiz Eça, jornalista, no Correio da Cidadania, 23-08-2010.

Eis o artigo.

O Wikileaks, um site de denúncias de fatos escondidos pelos poderosos, estourou na mídia internacional com um vídeo intitulado "Assassinato Colateral", no qual soldados americanos matavam a tiros de metralhadora de um helicóptero mais de 12 civis numa rua do Iraque, sem qualquer indício razoável de que fossem insurgentes. O Pentágono reagiu indignado, tentando justificar a ação, mas não colou, a coisa pegou muito mal no mundo árabe.

Em 25 de julho, o Wikileaks voltou à carga. Desta vez foi ainda mais pesado. Noventa e dois mil documentos escritos por pessoal de campo e da inteligência militar americana - entre janeiro de 2004 e dezembro de 2009, sob o título "Diários da Guerra Afegã" - revelaram que o público americano estava sendo enganado pelos seus líderes civis e militares. Eram documentos qualificados como secretos, proibidos de serem publicados por razões ditas de "segurança nacional". Na verdade, para não chocar o povo com fatos graves, que provavam que estava sendo iludido com mentiras.

O governo, prontamente, ordenou investigações para descobrir a autoria do vazamento. Descobriu e prendeu o soldado Bradley Manning, que, corajosamente, descerrara a cortina que bloqueava a passagem da verdade.

Antes dele, em 1968, um analista militar, Daniel Ellsberg, fez algo parecido. Revelou à imprensa que o general Westmoreland solicitara secretamente mais 206.000 homens para a guerra do Vietnã, com base em falsas informações sobre as forças adversárias. A repercussão foi tão grande que o então presidente Johnson, inicialmente disposto a atender ao general, acabou negando-se. Posteriormente, Ellsberg copiou e publicou os chamados "Papéis do Pentágono", a história secreta de como o Pentágono iludira a opinião pública durante a Guerra do Vietnã, o que fortaleceu a luta para os EUA desistirem dela.

Agora, 40 anos depois, a história se repete. Os novos documentos detalham a ação dos "esquadrões de assassinos", agrupamentos irregulares do Exército, que atacavam talibãs e chefes da Al Qaeda, nas cidades especialmente. Infringiram grandes baixas ao inimigo, porém, ao custo da morte de civis, inclusive crianças, em número muito maior do que o transmitido pelos serviços de informações militares.

A respeito desse assunto, o fundador e editor do Wiki Leaks, Julian Assange, conta: "A maioria das mortes de civis aconteceu em situações em que uma, duas, dez ou vinte pessoas foram assassinadas... O modo de realmente entender esta guerra é vendo que um é assassinado atrás do outro, dia após dia, sem parar..." Essa matança de inocentes, que tinham o azar de estar no lugar errado no momento errado, acentua o crescente antagonismo em relação aos soldados do Ocidente.

Agora se entende porque nos primeiros 10 meses de comando do general McChrystal, quando emitiu normas para reduzir as vítimas civis, elas, pelo contrário, aumentaram. Tais normas deviam ser obedecidas pelos soldados do exército regular, não pelos "esquadrões da morte" que atuavam com liberdade e desembaraço total em suas missões mortíferas, cada vez mais numerosas.

Há, ainda, informes que relatam a cumplicidade entre os serviços de inteligência militar paquistanês e os talibãs. O general Hamid Gul, chefe desses serviços, teria estimulado líderes talibãs a concentrarem suas missões suicidas no Afeganistão em troca de fazer vistas grossas sobre as operações talibãs em território do Paquistão. As conexões entre as lideranças dos dois lados, estabelecidas durante a guerra civil contra o exército soviético, continuam intactas e atuantes. Fica claro que o Paquistão não quer perder esses seus antigos aliados, tendo em vista, inclusive, o infindável conflito com a Índia, sua rival histórica.

Da leitura do "Diário da Guerra do Afeganistão" verifica-se que os talibãs estão potencializando seu arsenal bélico (agora tem até mísseis terra-e-ar); que cada aumento das forças americanas causa o recrutamento de novos militantes pela insurgência. Ou seja: quanto mais forte fica o exército dos EUA, mais forte também a guerrilha talibã.

Os documentos revelam ainda a corrupção das autoridades e da polícia afegãs e a falta de ânimo dos soldados. Dificilmente serão elementos importantes para contribuir à sonhada vitória

Assim, graças ao Wiki Leaks, o público está conhecendo um retrato da guerra do Afeganistão bem diferente do retocado pelo presidente Obama e seus chefes militares. Em vez do otimismo que projeta retirada parcial de tropas já em 2011, a verdade é que um inimigo bem armado, apoiado por amplos setores da população, entrincheirado em terrenos montanhosos que lhes são familiares, tende a oferecer resistência praticamente impossível de vencer, a não ser com o emprego de tropas e armas num nível muitas vezes superior ao atual. E a um custo que os EUA, em termos de dinheiro e vidas, jamais poderia aceitar.

É impossível que os estrategistas da Casa Branca e do Pentágono não estejam a par disso tudo. Afinal foi sua própria gente que escreveu os documentos ora revelados. Fica então uma pergunta: se a guerra vai tão mal, as perspectivas são tão desalentadoras, então por que não se busca um acordo de paz?

O motivo alegado publicamente, garantir a segurança nacional evitando que o Afeganistão se torne uma base para a Al Qaeda promover ataques nos EUA e países aliados, é altamente discutível.

O próprio general James Jones, principal assessor de Obama na região, já afirmou que não há mais de 100 seguidores de Bin Laden atuando em terras afegãs. Episodicamente, na verdade, pois a maioria está entrincheirada no Paquistão em bem ocultos esconderijos nas montanhas. Hoje, a Al Qaeda está muito mais atuante nesse país, no Iraque e especialmente no Iêmen.

Por sua vez, os chefes talibãs estão focados em interesses locais, esqueceram as aventuras internacionais. Sabem, por experiência própria, que apoiar ou proteger a Al Qaeda pode lhes trazer graves problemas com os EUA. Um acordo de paz seria, possivelmente, bem-vindo.

Por que não tentá-lo? Porque as eleições legislativas estão muito próximas. Obama teme que uma eventual saída do Afeganistão possa ser usada pelos republicanos como prova da "fraqueza" dos governos democratas. E tirar votos dos seus candidatos numa eleição que pesquisas sombrias apontam como perigosas.

Já os generais teimosamente se aferram a uma guerra que pode estar perdida para os EUA, mas não para eles. Enquanto houver hostilidades, eles serão essenciais, pois políticos não comandam soldados, nem vencem batalhas, a não ser verbais.

Embora já tenha feito muito para incendiar os ânimos, o Wiki Leaks reserva novas bombas. Assange anuncia a breve publicação de mais 15.000 documentos da guerra, extremamente quentes. O governo americano faz de tudo para detê-lo. Combina ameaças com pressões sobre a Suécia, onde Assange vive, e a imprensa procura até criminalizá-lo perante a opinião pública, enquanto seus advogados ultimam a preparação de uma enxurrada de processos.

Pode até ser que tenha êxito, tornando letra morta um dos mais caros preceitos de sua Constituição, a garantia da liberdade de informar. Mas o Wiki Leaks já conseguiu muito: o povo americano agora sabe que, pelas mãos de George Bush, seu país atolou-se num pântano, donde Barack Obama o está afundando.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

AFEGANISTÃO - Michael Moore paga advogados do soldado espião.

Michael Moore paga advogados do soldado-espião do WikiLeaks.


"É um patriota que teve o mérito de revelar crimes de guerra": com essa frase, o diretor Michael Moore explicou a decisão de oferecer 5 mil dólares como contribuição à defesa de Bradley Manning (foto), o soldado de 22 anos suspeito de ter passado ao site WikiLeaks milhares de documentos "top secret" sobre a guerra do Afeganistão e no Iraque.

A nota é do jornal La Repubblica, 22-08-2010.

Manning, agora na prisão, corre o risco de receber uma condenação de 52 anos. Além do fato de ter repassado a Julian Assange os documentos sobre o Afeganistão, ele é acusado de ter cedido ao WikiLeaks um vídeo militar de 2007, em que se podem ver militares norte-americanos atirar e matar 12 civis no Iraque, dois dos quais eram fotógrafos locais da Reuters.

Em defesa de Manning, surgiu um movimento que está recolhendo milhares de dólares para pagar os custos processuais e os advogados.