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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CRISE EUROPÉIA - Dragui, ou o fracasso da Europa.

Dragui, ou o fracasso da Europa

por Juan Torres López [*]
BCE despeja euros no sumidouro da banca. Quando há pouco mais de dois anos Mario Dragui acabou com a especulação que fazia subir tão perigosamente o prémio de risco de vários países europeus, dentre eles a Espanha, foi aclamado como um herói ao conseguir travá-la com uma simples frase:  "Farei o que for necessário para salvar o euro, e será suficiente". Escrevi neste mesmo diário que em lugar de aplauso merecia ser processado porque acabava de demonstrar que o Banco Central Europeu podia ter evitado o custo financeiro tão impressionante que se estava a gerar para os governos e que toda a Europa se encaminhasse de novo para a recessão e a crise ( Dragui debe ser procesado ).

Agora torna a passar-se praticamente o mesmo. Aplaudem Dragui e o BCE por ser valente e colocar as taxas de juro num nível histórico, supondo que assim vão facilitar que o crédito flua finalmente às empresas e que isso permita levantar a economia europeia. Mas mais uma vez se vão equivocar aqueles que tenham a ingenuidade de acreditar que as coisas vão ser assim.

Na realidade, esta medida in extremis do BCE é a manifestação palpável do seu fracasso e o de toda a Troika na hora de manejar a crise.

A aplicação de políticas de austeridade quando a economia carecia de alimentação nos seus principais motores (o consumo, o investimento privado e as exportações) foi "pro-cíclica", ou seja, agravou a falta de actividade e criou mais encerramentos de empresas, mais paralisação e mais dívida, levando a economias a uma nova fase de recessão. Quiseram aliviar os males do enfermo tirando-lhe a vida e agora percebem que está sem remédio e aplicam uma medida que parece radical e contundente mas que, sem dúvida, vai ser mais uma vez ineficaz. Ou melhor dizendo, favorável só aos grandes fundos especulativos que vêm apostando na baixa de taxas há meses.

Será ineficaz, em primeiro lugar, porque as autoridades europeias não fizeram praticamente nada para resolver o mal de fundo do sistema financeiro europeu que não é outro senão a quebra generalizada dos bancos. Portanto, qualquer dinheiro a mais que estes recebem (tal e como tem sucedido até agora) será utilizado só, na imensa maioria, para tentar sanear seus balanços e aumentar artificialmente suas contas de resultados, tal como têm feito até agora.

Em segundo lugar, porque, ainda que com essas taxas mais baixas se conseguisse que os bancos aumentassem o crédito a empresas e famílias, não se conseguirá que o custo efectivo deste financiamento seja suficientemente baixo quando chegue a eles. Os bancos, graças ao seu impressionante poder de mercado, continuarão a aplicar margens brutais que impedirão que se resolva realmente o problema do financiamento ao conjunto da economia.

Em terceiro lugar, porque a carência de ganhos (de clientes nas empresas e de rendimento disponível nas famílias) obriga-os a dedicarem-se de preferência a reduzir dívida (a "desalavancar-se", como se diz na gíria). De modo que, enquanto não se tomarem medidas que garantam que a actividade real e a procura efectiva aumentem para que assim se encaminhem ganhos suficientes para os bolsos das empresas produtivas e dos consumidores, as políticas de taxas de juro continuarão a ser inúteis para fazer que a economia europeia levante voo. Poderão levar o cavalo à água, talvez, mas não poderão fazer com que beba.

As autoridades europeias afundaram conscientemente a Europa com o único objectivo de salvar bancos e grandes empresas e agora não vão poder levantá-la utilizando o mesmo procedimento.

Albert Einstein dizia que "a loucura é fazer a mesma coisa repetida vezes esperando obter diferentes resultados". E isso é o que se passa com Dragui e o resto das autoridades europeias: estão loucos se acreditam que vão conseguir algo diferente fazendo o mesmo de sempre, por mais lucros na bandeja da banca e das grandes empresas.

A Europa necessita de outra terapia diferente que não cabe no âmbito do capitalismo neoliberal que promovem e impõem (certamente, de modo cada vez mais anti-democrático) as autoridades europeias.

Em primeiro lugar, é prioritário que se resolva o problema da dívida artificialmente gerada pela política do BCE e pela acção especulativa dos fundos financeiros. Todas as instituições e políticas europeias funcionam para criar dívida (desde o momento mesmo em que se impediu que o banco central financie a custo zero os governos – naturalmente sob critérios estritos de estabilidade a médio e longo prazo) e isso – juntamente com o grande poder político acumulado pela banca – é a fonte da crise actual e das que vão continuar a produzir-se.

Em segundo lugar, é imprescindível que se recupere a actividade real, os mercados de bens e serviços, e para isso é obrigatório forçar uma repartição diferente do rendimento para que as empresas (e sobretudo as pequenas e médias) voltem a ter clientes às suas portas e possam contratar novos trabalhadores. A desigualdade crescente é a fonte da recessão actual e não se poderá evitar que seja recorrente enquanto não for combatida com decisão.

Em terceiro lugar, é necessário rectificar a orientação produtiva imposta na Europa nas últimas décadas reconduzindo a actividade sectorial, o modo de produzir e consumir, e reforçando os mercados locais e internos para acabar com a estúpida estratégia de competitividade que, como se vê dia a dia, não é senão uma máquina de empobrecimento mútuo.
08/Setembro/2014
Ver também:
  • BCE passa a conceder empréstimos aos banqueiros privados com juros reais negativos
    [*] Catedrático na Universidade de Sevilha, no Departamento de Teoria Económica e Economia Política.

    O original encontra-se em
    juantorreslopez.com/impertinencias/dragui-o-el-fracaso-de-europa/

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

    CRISE EUROPÉIA - Michel Cialdella, cidadão em cólera.

    CRISE NA EUROPA: Carta à Ministra Francesa do Orçamento

    Data: 05/12/2011
    Fonte:Resistir

    Michel Cialdella é um cidadão francês em cólera, como fez questão de assinar ao final da carta enviada à ministra do Orçamento, Valerie Pécresse. Antigo administrador da Caisse Primaire d'Assurance Maladie (CPAM) de Grenoble, Cialdella questiona a situação da segurança social e desabafa: "A realidade é que vivemos uma enorme crise que lhe serve de pretexto para massacrar as nossas conquistas, que não devem nada à direita, mas apenas às lutas de gerações de trabalhadores. Nem o governo, nem os seus economistas, conseguiram prever esta crise (governar é prever?). Esta crise é a vossa e quer que sejamos nós a pagá-la!". Confira a carta na íntegra:

    Carta à ministra francesa do Orçamento
    (que permite uma leitura portuguesa)

    Michel Cialdella, antigo administrador da
    Caisse Primaire d'Assurance Maladie (CPAM) de Grenoble
    Rua Joseph Bertoin, nº 6
    38600 Fontaine
    michel.cialdella@orange.fr


    Fontaine, 25 de Outubro de 2011

    Senhora Valerie Pécresse
    Ministra do Orçamento
    communication.dgme@finances.gouv.fr

    Senhora Ministra


    Como sempre acontece quando se trata do seu orçamento, os adversários da Segurança Social evocam fraudes que, na sua opinião, seriam maciças. Uma primeira reação é que a ENA e a HEC não contribuem necessariamente para uma melhor compreensão da instituição Segurança Social. O ministro sob cuja responsabilidade foi montada, Ambroise Croizat , era um operário metalúrgico comunista e pertencia à Resistência. A senhora, de calculadora na mão, trata os segurados com um desprezo total. A senhora, e todos os que seguem o seu pensamento, quando evocam a Segurança Social é somente através do que chamam "O buraco", quando, na verdade, ela é um meio de aceder aos cuidados de saúde.

    Saiba, senhora ministra, que se trata em primeiro lugar de uma conquista das forças progressistas contra a direita e o patronato. A CGT e o Partido Comunista Francês, que eram membros do Conselho Nacional da Resistência, tiveram, ainda que esse facto a incomode, um papel determinante na implementação do sistema. Facto que é confirmado por Henry C. Galant, investigador americano: "Os defensores mais ativos do novo plano de segurança social e da sua aplicação eram os comunistas e a CGT... Foi devido aos esforços da CGT que as Caixas ficaram prontas a funcionar na data prevista" [1]

    Pierre Laroque, que era conhecedor da matéria, disse: "Na concepção francesa, a segurança social deve, não apenas dar aos trabalhadores um sentimento de segurança, mas também fazer-lhes compreender que esta segurança é um resultado da sua actividade, que é mérito seu e sua responsabilidade" [2]

    Dizia também em 1946: "O plano de segurança social não pretende apenas melhorar a situação material dos trabalhadores, mas sobretudo criar uma ordem social nova, na qual os trabalhadores assumam a sua plena responsabilidade. Foi isso que levou a conceber o plano de segurança social no quadro de organização única gerida pelos interessados e cobrindo o conjunto da segurança social". [3]

    Em 1995, numa entrevista à revista O Direito Operário, dirá: "Tivemos a sorte, se é que de sorte se trata, de a CGT ser, em 1945, praticamente a única representante do mundo do trabalho, e de nos ter apoiado sem reservas, porque se sentia responsável" [4]

    Ouvi, na RTL, o ministro Xavier Bertrand. Atacava veementemente as faltas ao trabalho, afirmando que seis em cada dez eram ilegais. Estes números são, para mim, fantasistas. Em primeiro lugar porque são os médicos que as prescrevem. Vão portanto dizer-lhes que estão a cometer fraudes. Para além disso, se as pessoas são controladas na véspera da retoma do trabalho (o que acontece frequentemente) parece evidente que o doente está em condições de retomar o seu trabalho. Neste caso, falar de abusos é, no mínimo... abusivo. O senhor Bertrand certamente nunca pôs os pés numa fábrica... para trabalhar, claro. O que é que ele conhece das condições de trabalho que fazem com que um operário tenha uma esperança de vida inferior em sete anos à de um quadro superior? Este discurso reaccionário era já o que os adversários da segurança social pronunciavam desde o início. É preciso dizê-lo com clareza, trata-se de um discurso de luta de classes. Esta luta de classes que só existiria no imaginário dos marxistas é evocada por um dos homens mais ricos do planeta, Warren Buffett, nestes termos: "A guerra de classes existe, é um facto, mas é a minha, a classe dos ricos, que conduz esta guerra, e estamos a ganhá-la" [5]

    Exemplos de 1948: [6] a Câmara de Comércio de Paris, num relatório aprovado em 10 de Novembro de 1948:


    "A segurança social tornou-se para a economia uma carga considerável que... se arrisca a comprometer a recuperação econômica do país".
    "Os trabalhadores... quiseram aproveitar-se de tratamentos de que não tinham necessidade absoluta. A mínima doença foi o pretexto para um repouso mais ou menos prolongado. O absentismo aumentou".
    "... razão deste aumento de despesas: os acidentes insignificantes para os quais outrora as pessoas se limitavam a colocar um simples penso, enquanto que agora vão ao médico".
    "Um médico dará facilmente 15 dias de baixa para uma pequena gripe ou para um pequeno acidente. A fraude é portanto tanto maior quanto mais a Caixa está concentrada".

    Querem dar lições de modernidade e fazem discursos que os reaccionários já faziam há 63 anos!

    É lamentável que um ministro do Trabalho não se debruce com seriedade sobre as razões que fazem com que um trabalhador seja considerado doente. Será que sabe que 70% dos operários trabalham em contacto com produtos tóxicos? Será que sabe que os problemas músculo-esqueléticos (que ele não corre o risco de sofrer) são a maior causa de doença profissional? O que é que faz para que não haja 400 suicídios por ano ligados ao trabalho? É público e notório que há um insuficiente reconhecimento das doenças profissionais. O que é que ele faz? É mais fácil insultar os trabalhadores na Assembleia Nacional do que resolver os problemas de sofrimento no trabalho.

    Afirma que o conjunto das fraudes sociais é "de aproximadamente 20 mil milhões de euros", ou seja, cerca de 10% do orçamento da Segurança Social! Seria interessante saber como é que chega a este número. E depois gostaríamos de o ver, como ministro do Orçamento, atacar a fraude fiscal, que é no mínimo o dobro! Poderíamos evocar os milhares de milhões que concedeu aos banqueiros fraudulentos. E parece pronto para reincidir, com o risco de encorajar a fraude! Antes de dar lições, comece portanto por bater às portas dos seus amigos vorazes por dinheiro. "Mas será que a cobiça basta para explicar o que leva alguém a querer ganhar ainda mais milhões quando já arrecadou milhares de milhões? Talvez estejamos perante algo mais próximo da gula, uma necessidade psicótica de se empanturrar quando já não se tem fome" [7]

    "O défice da Segurança Social deve ou não ser reduzido, e, se sim, em quanto? Não cabe ao economista responder, mas ao cidadão", afirma o professor Albert Jacquard [8] . Também não cabe aos ministros, que são servidores (será que o esqueceram?), mas ao Povo (o soberano) e designadamente aos trabalhadores, que para além disso são maioritários. O senhor não tem qualquer legitimidade para destruir a nossa Segurança Social, ela pertence-nos! Em nome de que é que os que produzem as riquezas do nosso país (que vos paga) deveriam ser espoliados da sua conquista?

    Como escrevia Pierre Laroque em 1946! "Queremos que os trabalhadores, amanhã, considerem as instituições de Segurança Social como instituições suas, geridas por eles e onde se sentem em casa". Que estragos se seguiram!

    A realidade é que vivemos uma enorme crise que lhe serve de pretexto para massacrar as nossas conquistas, que não devem nada à direita, mas apenas às lutas de gerações de trabalhadores. Nem o governo, nem os seus economistas, conseguiram prever esta crise (governar é prever?). Esta crise é a vossa e quer que sejamos nós a pagá-la!

    "Até hoje, a arte de governar foi apenas a arte de espoliar e escravizar a maioria em proveito da minoria, e a legislação o meio de transformar estes atentados numa coisa normal..." afirmou Ropespierre, a quem se chamou o Incorruptível.

    Diríamos que a coisa continua. "Os males da sociedade nunca vêm do povo, mas do governo", disse ainda Ropespierre. [9]

    Michel Cialdella
    cidadão em cólera

    terça-feira, 29 de novembro de 2011

    CRISE EUROPÉIA - Abandonar um navio que afunda?

    Abandonar um navio que afunda? Um plano para sair do euro.

    por Yannis Varoufakis

    Como sabem os visitantes habituais deste blog, considero que o colapso da eurozona será o arauto de uma década de 1930 pós-moderna. Se bem que virulentamente oposto à criação da eurozona, no seu momento de crise tenho estado a fazer campanha pelo salvamento do euro . Naturalmente, como correctamente escreveu aqui Alain Parguez, é impossível salvar alguém, ou alguma coisa, que não queira ser salva. Nesta mensagem, ainda que não recuando no meu compromisso pessoal de continuar a tentar salvar uma união monetária inclinada à auto-destruição, relatarei uma ideia de como um estado membro periférico podia tentar minimizar os (enormes) custos sócio-económicos de uma saída da eurozona que lhe é imposta pela sua franca desintegração.

    O referido plano foi elaborado tendo em mente a Irlanda. Seus autores são Warren Mosler (administrador de investimentos e criador do swap hipotecário e do actual contrato swap Eurofutures) e Philip Pilkington, jornalista e escritor residente em Dublim, Irlanda. O seu ponto de partida é um diagnóstico (perfeitamente correcto): os "programas de austeridade" são "um fracasso abjecto e ainda assim responsáveis europeus consideram-nos como o único jogo possível. Assim, podemos apenas concluir nesta fase, uma vez que os responsáveis europeus sabem que programas de austeridade não funcionam, que eles estão a prossegui-los por razões políticas ao invés de razões económicas".

    Por razões que tenho apresentado reiteradamente , se não derrubado este projecto político conduzirá, talvez não intencionalmente, ao colapso da eurozona. Deveria um país como a Irlanda esperar até a chegada do fim amargo ou deveria ele preparar-se para uma saída antes de ter sido martelado o prego final no caixão do euro? Mosler e Pilkington argumentam em favor de uma saída. Mas como pode a Irlanda, ou a propósito Portugal ou Grécia ou Itália, sair sem que o céu lhes caia sobre as suas cabeças? Aqui está o que eles propõem. Para o texto completo clique aqui .

    1. Ao anunciar que o país está a deixar a Eurozona, o governo daquele país anunciaria que estaria a efectuar pagamentos – a funcionários do governo, etc – exclusivamente na nova divisa. Portanto o governo cessaria de utilizar o euro como um meio de pagamento.

    2. O governo também anunciaria que só aceitaria pagamentos de impostos na nova divisa. Isto asseguraria que a divisa era valiosa e, pelo menos por algum tempo, de oferta muito escassa.

    E isso é quase tudo. O governo gasta para abastecer-se e com isso injecta a nova divisa na economia enquanto a sua nova política de tributação assegura que ela é procurada pelos agentes económico e, portanto, valiosa. O gasto governamental é portanto a torneira através da qual o governo injecta a nova divisa na economia e a tributação é o escoadouro que assegura a procura da nova divisa pelos cidadãos.

    A ideia aqui é adoptar uma abordagem "não interventiva" ("hands off"). Se o governo de um dado país anunciasse uma saída da Eurozona e a seguir congelasse contas bancárias e conversão à força seria o caos. Os cidadãos do país correriam aos bancos e tentariam desesperadamente manter tantos euros em cash quanto fosse possível na previsão de que eles seriam mais valiosos do que a nova divisa.

    De acordo com o plano acima, entretanto, as contas bancárias dos cidadãos seriam deixadas em paz. Isso os prepararia para converterem seus euros na nova divisa a uma taxa de câmbio flutuante estabelecida pelo mercado. Eles, naturalmente, teriam de procurar a nova divisa quanto tivessem de pagar impostos e assim venderiam bens e serviços denominados na nova divisa. Isto "monetiza" a economia na nova divisa enquanto, ao mesmo tempo, ajuda a estabelecer o valor de mercado da dita divisa.

    Minha reacção a este plano é simples: É um roteiro para quem pensa que o sistema euro ultrapassou o ponto de não retorno. Uma vez que esse ponto tenha sido ultrapassado, talvez seja essencial ir nesta direcção suavemente. Contudo, não acredito que a eurozona haja, actualmente, ultrapassado o ponto de não retorno. Ainda é possível salvar a divisa comum por meio de algo afim à nossa Modest Proposal . Isso pode exigir mais intervenção por parte do BCE do que prevê a Modest Proposal (graças ao terrível atraso na implementação de um plano racional, continuando ao invés disso no actual caminho insustentável) mas ainda é, penso, factível.

    A razão porque estou convencido de que isto ainda não é o momento de abandonar o navio é o enorme custo humano da ruptura da eurozona. Considere-se por exemplo o que acontecerá se na verdade adoptarmos o plano de saída acima.

    Todos os contratos do governo com o sector privado (externo e interno) serão renegociados na nova divisa após a depreciação inicial desta última. Por outras palavras, fornecedores internos enfrentarão um grande corte (haircut) instantaneamente. Muitos deles declararão bancarrota, com outra grande perda de empregos.


    Os bancos ficarão a seco e não serão mantidos abertos pelo BCE. O que significa que o único meio para a Irlanda ou a Grécia ou qualquer outro país adoptar este plano e poder manter seus bancos abertos é eles serem recapitalizados na nova divisa interna pelo Banco Central. Mas isto significa que depósitos nas contas bancárias serão, de facto, convertidos dos euros para a nova divisa, anulando portanto a medida benéfica das conversões não compulsórias dos haveres do banco para a nova divisa ( ver acima ).


    Os autores afirmam que os efeitos nefastos acima serão diminuídos pela nova independência monetária do governo a qual lhe permitirá descontinuar programas de austeridade imediatamente e adoptar política fiscal contra-cíclica, como fez a Argentina após o seu incumprimento e o cessamento da ligação peso-dólar. Pode ser assim as todas as comparações com a Argentina devem ser adoptadas com uma grande pitada de sal. Pois a recuperação da Argentina, e das políticas fiscais associadas, foram muito menos devidas à sua independência renovada e muito mais relacionadas a uma inesperada subida na procura de soja pela China.


    Se bem que seja verdadeiro que uma divisa mais fraca promoverá exportações, isso também terá um efeito devastador. A criação de um país de dois níveis. Um que tem acesso a euros entesourados e outro que não tem. O primeiro adquirirá imenso poder sócio-económico sobre o último, forjando portanto uma nova forma de desigualdade que está destinada a operar como uma quebra no desenvolvimento por algum tempo – tal como a desigualdade que se desenvolveu no período pós 1970s fez enorme dano ao desenvolvimento real dos nossos países (em contraste com o crescimento do PIB) na segunda fase do pós guerra.


    Finalmente, mas certamente não o menos importante, mesmo que um país saia da eurozona desta maneira, a eurozona será descosturada (will unwind) dentro de 24 horas. O Sistema Europeu de Bancos Centrais dissolver-se-á instantaneamente, os spreads italianos atingirão níveis gregos, a França tornar-se-á instantaneamente um país classificado como AA ou AB e, antes que possamos assobiar a 9ª Sinfonia, a Alemanha terá declarado a re-constituição do DM. Uma recessão maciça atingirá então os países que comporão a nova zona DM (Áustria, Holanda, possivelmente Finlândia, Polónia e Eslováquia) enquanto o resto da antiga eurozona trabalhará sob estagflação significativa. As novas guerras de divisas intra-europeias suprimirão, em uníssono com a recessão/estagflação em curso, o comércio internacional e europeu e, portanto, os EUA afundarão dentro de uma nova Grande Recessão. A década pós-moderna de 1930, de que continuo a falar, será uma realidade trágica.
    Em suma, este plano pode acabar por ser o único meio de saída para um navio que se encaminha para rochedos. Devemos mantê-lo em mente uma vez que os nossos líderes europeus com propensões sanguinárias colocaram, e mantêm, todo um Continente no caminho pejado de rochas. Mas ainda não é o momento para adoptá-lo. Pois ele virá a um incrível custo humano, um custo que ainda pode ser evitado (assumindo que estou certo ao dizer que o ponto de não retorno não foi alcançado – ainda). Ainda temos uma possibilidade de lançar a ponte e mudar a rota. Se isso falhar, um plano como este de Mosler e Pilkington pode ser o equivalente dos nossos barcos salva-vidas. Deveríamos, contudo, manter sempre em mente que nossos barcos salva-vidas serão lançados em mares gélidos e, enquanto neles desamparados, muito perecerão.


    27/Novembro/2011

    Ver também:

    Acerca das barreiras técnicas para o abandono do euro

    sábado, 29 de outubro de 2011

    CRISE EUROPÉIA - Salvar a Europa sem ter em conta as pessoas?

    O “acordo” da cimeira europeia foi o seguinte: em troca de uma (inevitável e tardia) reestruturação da dívida grega é prometida aos povos a hiper-austeridade. Com todas as dramáticas consequências sociais que já está a provocar e com o risco de ver a Europa cair no círculo vicioso da recessão. Mas também de ver os povos lançarem-se uns contra os outros, sob o pretexto de que uns pagam pelos outros. Comunicado de Attac França


    É cada vez mais urgente tirar a Europa da “armadilha da dívida pública”, como o mostram os e as manifestantes gregos, os indignados espanhóis, italianos ou britânicos. Foto de Occupy Berlin - Germany

    Na noite de 26 para 27 de Outubro, os participantes na cimeira europeia chegaram a um novo acordo, pela enésima vez, tido como para “salvar a Europa”. No comando, Angela Merkel (e Nicolas Sarkozy), Christine Lagarde (pelo FMI) e, surpresa... um representante do sector bancário, Charles Dallara. Então, o que é realmente este acordo – que já impulsionou as bolsas?

    Note-se, em primeiro lugar, que a reestruturação da dívida grega está finalmente na ordem do dia e, apesar das resistências de Nicolas Sarkozy e do sector bancário, os credores deverão desembolsar cerca de 50%, através de um corte nos seus títulos da dívida. Foram necessários dois anos – dois anos de calvário para o povo grego – para que a realidade seja reconhecida em parte pelos dirigentes da zona euro.

    Mas os povos da Grécia e da Europa estão longe de ver as suas dificuldades ultrapassadas. De acordo com as exigências alemãs, a proibição do BCE emprestar dinheiro directamente aos governos não será levantada. O levantamento da proibição permitiria aos governos emancipar-se dos mercados financeiros.

    Em vez disso, os países em dificuldade deverão virar-se para o fundo europeu (FEEF, fundo europeu de estabilização financeira), alavancado pela participação de países emergentes, e colocado sob a supervisão do FMI. Os clientes não deverão tardar a aparecer no guiché do FEEF... Espanha, Portugal, mas também a França, num contexto em que a recapitalização dos bancos pelos fundos públicos pode tornar-se inevitável.

    Em qualquer caso, façam ou não apelo à intervenção do FEEF, os governos europeus concordaram com o aumento da “disciplina”, com o controlo orçamental das despesas públicas e com a inscrição nas suas constituições do grilhão orçamental da “regra de ouro”1 para 2012. Medidas adoptadas sem qualquer debate ou consulta popular, à imagem desta nova “governança” da Europa, perfeitamente anti-democrática. Em nome da qual se anuncia já uma nova modificação dos tratados...

    O “acordo” foi então o seguinte: em troca de uma (inevitável e tardia) reestruturação da dívida grega é prometida aos povos a hiper-austeridade. Com todas as dramáticas consequências sociais que já está a provocar, através dos despedimentos, do abaixamento de salários e pensões de reforma, do desmantelamento do Estado social... e com o risco de ver a Europa cair no círculo vicioso da recessão. Mas também de ver os povos lançarem-se uns contra os outros, sob o pretexto de que uns pagam pelos outros.

    É claro que os povos não querem isto, como o mostram os e as manifestantes gregos, os indignados espanhóis, italianos ou britânicos. É cada vez mais urgente tirar a Europa da “armadilha da dívida pública”.

    A Attac França participa, com outras outras organizações do movimento social, numa auditoria cidadã da dívida (audit-citoyen.org). Esta iniciativa visa dar a conhecer os mecanismos perversos do endividamento público e propor soluções verdadeiras para sair da crise. Apresentada por ocasião da contra cimeira do G20 de Nice que irá decorrer na próxima semana, quando a indignação está mais do que nunca na ordem do dia.

    Comunicado de Attac França, Paris, 27 de Outubro de 2011

    Traduzido por Carlos Santos para esquerda.net
    Fonte: Esquerda.net