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terça-feira, 17 de novembro de 2009

PITO DE DONA CANÔ DÓI MAIS QUE CASA DE SHOW VAZIA.

Fui ao show de Caetano no último dia 8 em São Paulo. A casa não estava cheia, longe disso, o que obrigou à produção do espetáculo mover para frente quem havia comprado ingresso para mesas mais ao fundo. Óbvio que isso não foi uma reação a nenhuma declaração, mas muita gente como eu não gostou do novo álbum dele, daí a casa a meia carga. A minha esperança eram músicas das antigas, que vieram poucas. Ao final do show, ele fez uma espécie de mea culpa: criticou a mídia por não ter dado tanta atenção a Neguinho do Samba quanto a Claude Lévi-Strauss, apesar de ambos terem morrido na mesma semana. Disse que Neguinho não deu aula na Sorbonne, provavelmente era analfabeto, mas foi uma das grandes influências de sua vida. Impossível, para quem estava lá, não fazer a analogia entre o “analfabeto” e o “professor da Sorbonne”.

Após a polêmica gerada, Caetano chamou a mídia de sensacionalista, artigos foram escritos e por aí vai. Achei que não valeria a pena o registro e deixei para lá.

Mas aí veio Dona Canô, do alto de 102 anos de sabedoria e lucidez. Em declarações à imprensa, a mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, disse que ligaria para Lula para pedir desculpas pela declaração do filho.

“Não vou dizer nada em especial, apenas o que vier do coração. Vou me desculpar e dizer que, pelo que conheço de Caetano, sei que ele não quis ofender o presidente. Não é possível que ele chamasse Lula de analfabeto, aliás, ele nem teria o direito de falar assim. Ele é apenas um cantor”, afirmou à matriarca à repórter do Uol. “Tudo o que Caetano diz vira notícia, ele precisa entender isso. Não pode sair por aí falando o que quer, ele não é doido.”

Caetano correu a ligar para a mãe explicando que não quis dizer aquilo.

“Ele é apenas uma cantor.” Desgosto de Dona Canô deve ser mais doído que casa de show vazia.

domingo, 1 de novembro de 2009

O CASO UNIBAN E A VOLTA TRIUNFANTE DA INQUISIÇÃO.

Blog do Sakamoto, por Leonardo Sakamoto

Muitos leitores me pediram para escrever algo sobre o caso de imbecilidade coletiva ocorrido na Uniban. Outros fizeram comentários que não parecem saídos das mãos de um ser humano – tive, inclusive que deletar alguns porque praticamente incitavam mais violência contra as pessoas que adotam um estilo de vida diferente do deles. O pior não é encontrar comentários com um grau de preconceito, estupidez, machismo e ignorância como esses. Se eles fossem apenas distorções, vá lá. O problema é saber que, infelizmente, essas análises rasas (de homens e mulheres) refletem um naco da sociedade brasileira formado por ricos e pobres, letrados ou não. Que não entendem o que é alteridade, que não conseguem suportar as diferenças, que estão em um degrau abaixo na escala da evolução social humana.

Pesquisas apontam que a violência contra a mulher não é monopólio de determinada classe social e nível de escolaridade. Homofobia e machismo são problemas que ocorrem em toda a sociedade, da norte-americana à brasileira. OK, coloquemos a culpa no processo de formação do Brasil, na herança do patriarcalismo português, nas imposições religiosas, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil atestar que somos frutos de algo, determinados pelo passado, do que tentar romper com uma inércia que mantém homens como cidadãos de primeira classe e mulheres como meros objetos a serem defenestrados quando necessário for. Tem sido uma luta inglória, mas necessária, tentar abrir a cabeça da sociedade para o respeito às diferenças.

Isso inclui uma profunda reflexão com a exposição daqueles que, em funções públicas, rasgam os preceitos básicos dos direitos fundamentais e falam abobrinhas, como também foi o caso na universidade paulista.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

PORQUE NÓS, BRASILEIROS, SOMOS TODOS BOLIVIANOS.

Blog do Sakamoto, por Leonardo Sakamoto

A frase não está errada, meu bisavô é realmente alemão, pai da minha avó italiana que se casou com um grego e teve a minha mãe. O Sakamoto, portanto, é por parte de pai. Felizmente, tive a oportunidade de ser de um lugar e de muitos ao mesmo tempo. Coisas que só um país como o Brasil possibilita. Bem, até agora.

Não faz muito tempo, em um domingo qualquer, vi um grupo de pessoas ridicularizando imigrantes bolivianos que vivem no centro de São Paulo. Jovens, todos brancos, alguns de olhos claros. Índios, portanto não eram. E, dessa forma, desprezavam aquilo que um dia seus pais também já foram: estrangeiros recém-chegados, tentando a sorte.

Não vou aprofundar a discussão com as origens da xenofobia, a relação entre estabelecidos e outsiders, o entendimento da alteridade… enfim. Afinal isto é um post, não uma missa. Mas é ridículo que pessoas da mesma classe média que reclama de ser barrada nos aeroportos aqui na Europa reserve um tratamento preconceituoso como esse aos que vem de fora. Prova de que o ser humano não aprende.

Já havia escrito neste espaço que os latino-americanos não vão para o Brasil atrás das belezas naturais de São Paulo, mas sim de oportunidades de vida melhores, fugindo da miséria. Miséria da qual, muitas vezes, somos co-responsáveis por explorar terra, trabalho e recursos naturais lá. Guardadas as proporções, é a mesma coisa que empresas e governos daqui do hemisfério norte fazem com a gente daí. Reclamamos de empresas estrangeiras operando no Brasil, porém, quando alguém na Bolívia ou no Paraguai pensa em rever contratos para tornar menos dolorosa a exploração, a opinião pública daqui brada aos quatro ventos o absurdo que é essa ousadia.

Uma amiga me mandou o texto de uma campanha que está circulando na Espanha. Apesar de errar um pouco nas referências, acerta na idéia final: “Seu Cristo é judeu, sua escrita é latina, seus números são árabes, sua democracia é grega, seu som é japonês, sua bola é coreana, seu DVD é de Hong Kong, sua camiseta é da Tailândia, seus melhores jogadores de futebol são do Brasil, seu relógio é suíço, sua pizza italiana. E você ainda vê o trabalhador imigrante como um depreciável estrangeiro?”

Afinal, o que é ser “brasileiro”? A história de nosso país é uma história de migrações, de receber gente de todos os cantos (não tão bem, é claro – São Paulo, por exemplo, é a maior cidade nordestina fora do Nordeste e, ao mesmo tempo, ostentamos um preconceito raivoso e irracional). Mas não faz sentido que viremos às costas aos que vêm de fora e adotam o Brasil, mesmo que a contragosto. Eles são tão brasileiros quanto eu e você, trabalham pelo desenvolvimento do país, mas normalmente passam invisíveis aos olhos da administração pública e do resto de nós.

Em menor grau, vivemos um problema parecido ao que a Europa enfrenta. Não, não é a dúvida se haverá trabalho e espaço para todos com os deslocamentos de imigrantes em busca de emprego (ou fugindo de catástrofes naturais), mas se as características que dão humanidade ao ser humano não estarão corroídas até lá.

sábado, 3 de outubro de 2009

OLIMPÍADAS - Já querem cortar a CLT pelas olimpíadas.

Blog do Sakamoto, por Leonardo Sakamoto

Eu tinha certeza! Nem bem as comemorações pela escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016 começavam na praia de Copacabana e arautos do capitalismo salve-se-quem-puder foram à mídia para dizer que o Brasil não conseguirá realizar as obras necessárias com as leis atuais. Na opinião deles, para ter sucesso na “remodelação” urbana, será imprescindível uma reforma trabalhista que torne mais barata a mão-de-obra (tradução: direitos trabalhistas, tchau, tchau) e mudanças urgentes nas leis ambientais para agilizar projetos que podem causar impacto ao meio (tradução: aprovação a toque de caixa, sem intromissão do governo, para a alegria de investidores que querem ver áreas de preservação convertidas em construções).

A cara-de-pau é tamanha que eles nem mais escondem que querem usar as Olimpíadas como justificativa para derrubar dois “entraves” ao “progresso”: o povo e sua qualidade de vida. Afinal, o lucro em primeiro lugar.

Acho sensacional que o Brasil sedie os Jogos. Mas é claro que muita gente vai tentar fazer deles justificativa para tudo e, pior, usá-lo para enriquecimento ilícito. Óbvio que temos desafios importantes como nação, como garantir educação a todos, saúde de qualidade, uma reforma agrária, universalizar direitos. Mas não é fugindo de determinados desafios que vamos conseguir vencer nossos problemas. Da corrupção generalizada aos modelos errados de desenvolvimento, a construção de 2016 será um bom momento para encará-los de frente e mostrar que somos sérios. Um bom começo é deixar as carpideiras do capital falando sozinhas, sem dar peso às suas fúteis palavras.

A guerra de discursos usando as Olimpíadas já começou e vai durar sete anos. Temos que ficar atentos e ir à luta para garantir que a ladainha dos que querem “liberdade total” tendo como justificativa o desenvolvimento não continue sendo entoada. Nossa maior conquista será a de que podemos construir um evento que deixe um legado de dignidade à população e não seja um instrumento de sua exploração.
Blog do Sakamoto

domingo, 23 de agosto de 2009

NÃO PERCEBEU? NO BRASIL, SUA VIDA VALE CADA VEZ MENOS.

Leonardo Sakamoto

Curitiba - Principalmente, se você é pobre. Dois casos demonstram bem isso.

Primeiro: o caso ocorrido em lojas da rede Carrefour. Como relatei aqui, no dia 06, o pedreiro Ademir Peraro havia roubado coxinhas, pães de queijo e creme para cabelo do supermercado Dia%, pertencente à empresa, em São Carlos. O total do furto: R$ 26,00. Por isso, ele foi levado até um banheiro, agredido com chutes, socos e um rodo e deixado trancado, definhando, até às 22h. Depois, buscou socorro, mas já era tarde: acabou morrendo por hemorragia interna e traumatismos. Na delegacia, o segurança confirmou o caso e disse que seu supervisor, que o ajudou na sessão de tortura, havia sido o mais violento. Ninguém foi preso devido à falta de flagrante.

No dia seguinte, seguranças da loja do Carrefour em Osasco, Grande São Paulo, acharam que Januário Alves de Santana estava roubando um automóvel. Por isso, foi submetido a uma sessão de tortura de cerca de 20 minutos. “O que você fazia dentro do EcoSport, ladrão?”, perguntaram, enquanto davam chutes, murros, coronhadas, na sua cabeça, na sua boca. Quando os policias chegaram, mantiveram o terror. Segundo o site Afropress, um teria dito: “Você tem cara de que tem pelo menos três passagens. Pode falar. Não nega. Confessa que não tem problema”. O carro era dele, comprado em suadas 72 vezes de R$ 789,44.

Na cabeça dos seguranças do supermercado, um negro não poderia ter carro de bacana branco. Ambas empresas de segurança envolvidas, tanto no caso do pedreiro quanto no de Januário, que também é segurança, eram terceirizadas.

Segundo: o caso do trabalhador rural Elton Brum da Silva, morto na manhã desta sexta (21), durante uma ação de despejo de sem-terras da fazenda Southall, no município de São Gabriel (RS). A operação foi levada a cabo por 300 policiais da Brigada Militar estadual. Desde que assumiu, a política da governadora Yeda Crusius tem sido de repressão dura, violenta e intransigente contra os movimentos sociais. Seguindo essa toada, virão mais mortes até o final do mandato.

Yeda sustenta-se no cargo, mesmo com quase dois terços da população desaprovando seu governo, mergulhada até o pescoço em denúncias de corrupção que teriam beneficiado ela própria. Vale lembrar que o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul pediu o seu afastamento, pois seria beneficiária de um esquema que desviou R$ 44 milhões do Detran gaúcho. Parte dos recursos teriam sido usados por Yeda para comprar uma casa de cerca de R$ 1 milhão.

Morto a rodo por furtar coxinhas, torturado por ter mais do que “aparentava”, assassinado pelas mãos da polícia por lutar por uma vida melhor. Enquanto isso, uma pessoa rica acusada de desviar recursos públicos para comprar uma casa pode continuar governando o Estado. Ou o Senado.

É por essas e por outras que tenho orgulho de ser brasileiro!
Fonte:Blog do Sakamoto.