Paulo Moreira Leite,
Blog: Paulo Moreira
Leite
"Na década de 1960, quando os generais do regime de 64
multiplicavam provas de submissão perante o embaixador dos Estados Unidos, o
jornalista Paulo Francis cunhou uma frase que ficou famosa: “chega de
intermediários. Lincoln Gordon para presidente.”
Sessenta anos se passaram e o Brasil mudou bastante desde
então. Nas décadas que antecederam sua morte, em 1997, o próprio Paulo Francis
tornou-se um barítono da direita brasileira, servindo de mestre para um
conservadorismo que não conseguia renovar-se por si próprio.
O país se democratizou, os brasileiros fizeram uma
constituição democrática e, dentro de poucas semanas, irão votar para presidente
pela sétima vez consecutiva, em ambiente de paz e plena liberdade de expressão —
isso nunca aconteceu na república brasileira, em período algum. Mas, em 2014,
diante da desenvoltura de Maria Alice Setubal, a Neca, herdeira do Itaú, na
campanha de Marina Silva, talvez tenha chegado a hora de dizer: “Chega de
intermediárias, Neca para presidente!”
Com um histórico de desigualdade e exclusão, na última
década o país conseguiu avanços memoráveis na luta contra a pobreza, por uma
melhor distribuição de renda. É inegável.
Mas nem tudo se modificou, como mostra Fernando Rodrigues, na
Folha de hoje.
A entrevista de Maria Alice Setúbal, que, manda a tradição
aristocrática brasileira, prefere ser tratada em público como Neca, apelido
familiar, é um assombro.
Educadora, por profissão, Neca é, também, bilionária por
herança. Sua conversa não tem rodeios nem inibições. Desde a confirmação da
candidatura Marina, a herdeira do Itaú foi confirmada como coordenadora do
programa de governo. Lembra de Antonio Palocci, que teve um papel essencial na
estruturação do governo Lula, depois da vitória de 2002, inclusive com a Carta
ao Povo Brasileiro? Seu lugar no organograma era o mesmo. Imagine o poder de
Neca.
Maria Alice fala do ponto mais importante: autonomia do
Banco Central, medida que, nós sabemos, concentra a questão fundamental da
campanha de 2014 — permitir ao sistema financeiro recuperar o controle absoluto
da política econômica, definindo a taxa de juros conforme análises e interesses
de instituições privadas que atuam no mercado.
Nós sabemos que, hoje, o governo Dilma procura manter a
inflação sob controle e tem obtido vitórias importantes — há quatro meses os
preços estão em tendência de queda e as projeções indicam um movimento
semelhante no próximo levantamento. Apesar disso, o governo não abre mão de
proteger os salários e de tomar toda medida a seu alcance para manter o emprego,
em seu mais baixo nível da história. Isso só é possível porque, mesmo sem dar
ordens ao Banco Central, a presidência da República tem o poder de indicar e
demitir seu presidente. Isso lhe uma autoridade que não teria caso o BC fosse
uma instituição independente.
A autonomia do BC é a senha para se mudar a situação. Em
vez de deixar a política econômica em mãos de tecnocratas que respondem a uma
autoridade eleita, o que se quer é dar independência aos diretores do banco, que
passam a ter mandato soberano e assim por diante. Independência em relação a
quem? Às autoridades que de uma forma ou outra expressam a soberania
popular.
Eduardo Campos já havia se declarado a favor da autonomia
do BC, postura que causou espanto nos aliados que recordavam a herança do avô
Miguel Arraes. Marina disse na época que não era favorável. Parecia resistir.
“Enfim”, concordou, explica Maria Alice, esclarecendo que se quer definir o
assunto em lei — para não deixar dúvidas e permitir inclusive a punição contra
governantes que tentem se intrometer naquele universo que o mercado gosta de ver
como seu mundo exclusivo.
Criado pela ditadura militar, o Banco Central brasileiro
guarda uma peculiaridade em comparação com originais estrangeiros. O Federal
Reserve Americano, por exemplo, tem o dever de defender a moeda do país — e o
emprego dos cidadãos. Essa missão com duas finalidades equivalentes está lá, em
mármore, na porta da instituição. No Brasil, não há referência ao emprego.
Outros tempos, outros governos. Entendeu, né?
A coordenadora Maria Alice não é uma eleitora
qualquer, cujo voto representará 1/100 milhões na eleição. O Itaú é um gigante
com US$ 468 bilhões de ativos em 2013. É um número respeitável por qualquer
padrão, inclusive internacional. Numa lista com os 15 maiores bancos dos Estados
Unidos, o Itau fica a frente de nove em ativos. Mas não é só.
Se você
comparar a rentabilidade sobre o patrimônio, o banco da coordenadora da campanha
de Marina supera mesmo os maiores bancos da maior economia do planeta. Diz a
consultoria Economática que em 2013, o Itaú teve um rendimento da ordem de
16,70% sobre o patrimônio, algo perto de US$ 70 bilhões, só no ano.
Só
para você ter uma ideia, o US Bancorp, mais lucrativo banco dos Estados Unidos,
teve uma rentabilidade de 15,48%. Os maiores bancos dos EUA estão longe de
exibir um desempenho comparável ao Itaú, no entanto.O Morgan, com um patrimônio
mais de quatro vezes maior do que o Itau, teve um rendimento 50% menor, em
termos relativos. O rendimento do Citi, três vezes maior, teve um rendimento de
equivalente a um quatro daquele auferido pelo Itau, em termos
proporcionais.
O Itau não é o único banco brasileiro nessa posição.
Bradesco e Banco do Brasil sobrevivem em ambiente muito parecido. A diferença é
que os concorrentes não colocaram uma herdeira no comando de uma campanha
presidencial, o que dá um grau de proximidade particularmente perigosa.
O
Banco Central que a coordenadora Maria Alice quer autônomo já define, hoje, a
taxa básica de juros e isso explica a força do setor financeiro no país. Caso
essa situação seja colocada em lei, a situação ficará ainda
pior.
Protegidos por uma taxa de juros que já foi muito mais
alta no governo de Fernando Henrique Cardoso, mas segue uma das maiores do
mundo, os bancos crescem e engordam recebendo rendimentos pelos títulos do
governo. Com os lucros do rentismo, os bancos não tem necessidade de emprestar
ao empresário nem ao consumidor, atividade que está na razão de sua
existência, no mundo inteiro. A taxa média anual de juros nos empréstimos bancários, em 2013, foi de
27,3% no Brasil. Uma barbaridade. Só em Madagascar (60) e Malawi (46%) esse
ganho foi maior. No Canadá ficou em 3%. Na China, em 6%. Na Italia, em 5,1% e na
Suíça, 2,6%. Nos Estados Unidos, ficou em 3,2%, ou oito vezes menor do que no
Brasil. Na Inglaterra, ficou em 0,50%, mais quarenta vezes
menor.
Dá para entender, assim, a desenvoltura de
Maria Alice Setubal.
Pode parecer arrogância, mas não é isso. É pura
expressão de uma realidade política profunda. Alguém reclamava na França do
Século XVII quando o Rei Sol dizia que “o Estado sou eu?” Era natural, vamos
combinar.
Sem demonstrar inibições maiores, a herdeira do Itau faz
críticas diretas ao estilo de Dilma Rousseff. Avançando num argumento que reúne
varias camadas de preconceito, nem sempre invisíveis, falou que a presidente
exerce uma “liderança masculina.” Vinte e quatro horas depois que a candidatura
de Marina provocou a saída de dirigentes históricos do PSB da campanha, ela
achou conveniente definir Dilma como “desagregadora”.
Marina trouxe uma
representante do 1% do PIB mundial para o comando de sua campanha.
É
aquela turma que atua por cima dos estados nacionais e tem ligações frágeis com
as respectivas populações porque seu horizonte é o mercado global. Como se
aprende com o Premio Nobel Joseph Stiglitz, são esses interesses que impedem uma
recuperação firme após a crise de 2009. O povo foi a rua em várias versões de
ocupação e nada acontece. O 1% não quer e não deixa.
As
grandes instituições financeiras seguem dando as cartas do jogo, mesmo depois de
suprimir 60 milhões de empregos e destruir o futuro de várias gerações de
trabalhadores.
O que a turma de 1% quer é eliminar o Estado
de Bem-Estar Social aonde existe, ou impedir seu crescimento, ande está para ser
construído. Isso porque ele funciona como uma garantia contra a reconcentração
de renda e preservação dos direitos democráticos, que nem sempre comovem os
mercados. Em alguns países do mundo, a força destruidora da crise não fez seu
trabalho. Um deles é o Brasil, onde o governo de Luiz Inácio Lula da Silva se
recusou a tomar medidas que criariam uma Grécia infeliz e sem futuro na América
do Sul. Vem daí a campanha de ódio contra seu governo e contra sua
sucessora.
É isso e apenas isso."