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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

RELIGIÃO - Está certa a pastora Lusmarina.

Da sempre certeira pastora
Lusmarina Campos Garcia
:
"O escândalo da Flordelis é apenas mais um neste universo vexatório no qual uma parte das igrejas cristãs se lançou. Não podemos dizer que são apenas as igrejas pentecostais e neo-pentecostais que aderiram ao lixo teológico e hermenêutico com aparência de espiritualidade e interioridade fascista; uma porção das igrejas protestantes e católicas também adotou a mediocridade como método e a espiritualidade como disfarce para a adoção de um projeto político baseado no crime. Não dá para simplesmente apontar o dedo para a “pastora” criminosa quando as igrejas históricas e o próprio Estado nada fizeram para impedir que “igrejas” fossem criadas e “pastores” se auto-proclamassem como tal sem nenhuma regulação, formação e critério de funcionamento. Regulamentar o funcionamento das instituições religiosas no país não é interferir na liberdade religiosa, é adotar parâmetros dentro dos quais tais organizações devem funcionar a fim de preservar o bem maior que é o Estado Democrático de Direito e os direitos fundamentais de todos os cidadãos e cidadãs. As igrejas cristãs chegaram ao fundo do poço e junto com elas o Estado brasileiro. Estamos precisando de uma nova Reforma no âmbito do cristianismo no Brasil. Reforma baseada no pensamento crítico, no compromisso com uma sociedade justa e igualitária, numa teologia libertária."

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

RELIGIÃO - A travessia do Mar Vermelho e outras passagens dos Dez Mandamentos que a ciência explica.


A travessia do Mar Vermelho e outras passagens dos Dez Mandamentos que a ciência explica

Cientistas investigam há décadas se episódios bíblicos de fato ocorreram
"Uma das principais figuras religiosas do mundo, o profeta Moisés e sua história fundamentam há séculos a fé de bilhões de pessoas – e intrigam cientistas em igual medida.

Da BBC

A Bíblia diz que Moisés foi escolhido por Deus para liderar a saída dos hebreus do Egito, onde eram escravos, rumo à terra prometida de Canaã. Após o reino ser atingido pelas dez pragas, o faraó Ramsés 2º admite sua libertação, pedida por Moisés.

Durante o êxodo, um dos momentos mais marcantes, segundo o relato bíblico, é a abertura do Mar Vermelho pelo profeta para que seu povo fugisse da perseguição do faraó, que havia se arrependido de sua decisão. É nesta jornada que Moisés recebe de Deus as tábuas dos dez mandamentos.

Após vagar 40 anos no deserto, os hebreus chegam a seu destino, mas Moisés falece no fim do caminho, depois de avistar Canaã ao longe.

Esta história está na base não só do Cristianismo, como também do Judaísmo, e Moisés também é reconhecido pelo Islamismo e outras religiões.

Ela também inspirou diversas interpretações artísticas no cinema, no teatro e na televisão. Entre as produções mais recentes, está o filme Êxodo: Deuses e Reis (2014), dirigido por Ridley Scott. Atualmente no ar, a novela Os Dez Mandamentos, da TV Record, vem atraindo o interesse do público brasileiro e obtendo altos índices de audiência para a emissora.

De forma inédita, o folhetim foi líder de audiência na Grande São Paulo durante a exibição de todo o capítulo em que Moisés abre o Mar Vermelho, na última terça-feira, com pico de 31 pontos no Ibope e média de 28,1 pontos (cada ponto equivale a 67 mil domicílios), tornando-se o programa mais visto no país neste dia.

Estes resultados fizeram a Record anunciar uma segunda novela bíblica para substituir a atual produção e uma continuação de Os Dez Mandamentos para o próximo ano.

Mas seria o texto bíblico ficção ou um reflexo de fatos históricos? Seus acontecimentos têm correspondência em registros históricos desta sociedade antiga? Quais evidências foram encontradas em investigações científicas realizadas ao longo das últimas décadas?

MOISÉS

Moisés era hebreu, mas não escravo, segundo a Bíblia, porque foi encontrado em um cesto em rio pela filha do faraó, que o adotou.

O egiptolólogo Jim Hoffmeier, autor de Israel Antigo no Sinai (Oxford University Press, 2005) explica que esta prática era comum no Egito Antigo e que persiste de certa forma até os dias de hoje.

"Era uma forma antiga de colocar uma criança à mercê do destino determinado pelos deuses. Hoje, colocamos bebês em cestos e os deixamos na porta de igrejas", afirma Hoffmeier.

A história da primeira infância de Moisés ainda compartilha muitas semelhanças com um antigo mito da Babilônia de um rei chamado Sargon, que foi encontrado em um cesto boiando em um rio.

Entre 600 e 300 a.C., escribas judeus em Jerusalém registraram as lendas e histórias antigas de seu povo, para que fossem passadas de geração em geração.

Ilustração do momento em que Moisés foi resgatado do rio pela filha de Ramsés II
Eles teriam se baseado no mito de Sargon para criar a história de Moisés? É uma teoria possível, pois os judeus foram capturados pelos babilônios em 587 a.C e mantidos em exílio por algum tempo. Neste momento, o mito de Sargon poderia ter servido de base para o relato sobre o profeta.

Hoffmeier ainda explica que seria normal a adoção de Moisés pela filha do rei. Registros deixados pelos faraós mostram que os palácios tinham creches onde os filhos da realeza eram educados e que crianças estrangeiras também eram trazidas para participar.

"Nesta época em que supomos que viveu Moisés, crianças que não faziam parte da nobreza passaram a poder integrar estas instituições, assim como os filhos de reis estrangeiros, que eram levados para elas para aprender a ler e escrever", diz Hoffmeier.

Teria sido simples para filha do faraó, segundo o especialista, colocar um bebê encontrado por ela em uma destas creches.

Estudiosos do tema ainda questionam se os hebreus eram de fato escravos neste período do Egito Antigo, pois, além do texto bíblico, não existe provas históricas ou arqueológicas disso.

"Havia semitas, alguns dos quais poderiam chamar a si mesmos de hebreus, que faziam parte de grupos de trabalho. Eles não eram propriedade de um indivíduo. Eles viviam em vilarejos de trabalhadores", afirma Carol Meyes, professora de estudos bíblicos da Universidade Duke, nos Estados Unidos.

O rabino Burton L. Visotzky, professor do Seminário Teológico Judaico, em Nova York, afirma que, apesar da Bíblia determinar claramente que os hebreus eram escravos que foram libertados, "há muito pouca evidência desta escravidão" além deste texto.

"A lição final do (livro bíblico) Êxodo é que a liberdade vem da aceitação da soberania de Deus."

AS PRAGAS
Na Bíblia, as dez pragas são um ato de Deus, que age por meio da natureza. São elas:
  • As águas do rio Nilo viram sangue;
  • Rãs cobrem a terra;
  • Piolhos atormentam a população;
  • Moscas escurecem os céus;
  • O gado morre;
  • Chagas afligem homens e animais;
  • Uma chuva de granizo destrói plantações;
  • Nuvens de gafanhotos consomem cultivos;
  • Trevas encobrem o Sol por três dias;
  • Os primogênitos morrem.
Especialistas de diversas áreas, como climatologistas, oceanógrafos e vulcanólogos, sugerem haver evidências de uma série de eventos naturais que poderiam explicar estas pragas.

O epidemiologista especializado em desastres naturais John Marr, autor de um artigo sobre o assunto publicado nojornal americano New York Times, que que serviu de base para um documentário da BBC, acredita que as pragas podem ter sido causadas pela proliferação de um micro-organismo, o Pfiesteria piscicida, nas águas do Nilo, o que teria envenenado os peixes e levado uma série de eventos trágicos.

Esta teoria explica as seis primeiras pragas. Em 1999, ocorreu uma catástrofe ambiental na cidade americana de New Burn, no Estado da Carolina do Norte. Ao acordar, seus habitantes viram que um rio
local haviam ficado vermelho.
Mais de um bilhão de peixes morreram. Pessoas que trabalhavam próximo do curso d’água ficaram cobertas por feridas.

A causa foi poluição, após milhões de litros de excrementos dos animais serem despejados na água em uma fazenda de porcos localizada à beira do rio. A contaminação causou uma mutação genética no Pfiesteria, que fez com que o micro-organismo passasse de inócuo a letal.

Para Marr, o micro-organismo teria matado os peixes, o que teria feito com que o rio assumisse um tom avermelhado. A poluição teria forçado as rãs a invadir a terra, onde elas morreriam, gerando uma multiplicação de moscas e piolhos – que teriam perdido seus predadores naturais. Por sua vez, as moscas poderiam ter transmitido doenças virais para os animais, levando-os à morte.

O cientista ainda aponta que "pragas" como gafanhotos e chuvas de granizo continuam a assolar o Oriente Médio até hoje. O golpe final – a morte dos primogênitos – poderia ser um resultado direto da combinação da tradição local e tentativas de lidar com as outras pragas.

Os cultivos que resistiram aos gafanhotos e ao granizo poderiam ter sido colhidos e armazenados ainda úmidos, criando as condições perfeitas para a proliferação de toxinas mortais. Em uma posição social privilegiada, os primogênitos teriam sido alimentados com duas porções dos grãos contaminados.

Outra teoria dá conta de que as pragas teriam sido causadas pela erupção de um vulcão. Em maio de 1980, o monte Santa Helena, no noroeste dos Estados Unidos, entrou em erupção, matando tudo em um raio de quase 38 km. As cinzas expelidas na atmosfera ainda escureceram os céus num raio de 160 km.

Marr argumenta que cinzas de um vulcão poderiam ter dado início a uma proliferação de algas, com efeito tóxico, no rio Nilo, desencadeando os mesmos eventos que teriam sido causados pelo Pfisteria.

Erupção em ilha grega teria gerado tempestade de raios que poderia ser vista do Egito

Esta teoria parece frágil diante do fato de não existirem vulcões ativos no Egito, mas a ilha grega de Santorini fica a 800 km ao norte do delta do Nilo. No século 16 a.C., a ilha foi destruída por uma grande erupção, milhares de vezes mais potente que uma bomba nuclear e uma das mais fortes dos últimos 10 mil anos.

Os efeitos deste evento poderiam ter atingido o Egito? Quando a erupção ocorreu, o vento soprava na direção sudeste, rumo ao reino egípcio. Amostras das cinzas foram coletadas do fundo do oceano, e sua maior concentração foi encontrada na direção do delta do Nilo.

O oceanógrafo Jean-Daniel Stanley, do Instituto Smithsonian, em Washington, nos Estados Unidos, coletou amostras de lama e lodo para verificar se as cinzas teriam chegado tão longe e identificou no Egito fragmentos vulcânicos ligados a esta erupção.

"Deve ter sido uma experiência aterrorizante. Primeiro, teria sido ouvida a explosão. Depois, as pessoas teriam sentido a queda das cinzas jogadas no ar", diz ele.

Mas como isso poderia ter levado às pragas? Mike Rampino, especialista em modelos climatológicos da New York University, simulou com a ajuda de um programa de
computador os efeitos da erupção em Santorini.

Suas cinzas teriam bloqueado o Sol e levado a escuridão ao delta do Nilo. Isso teria sido acompanhado por eventos climáticos adversos relacionados a erupções, como tempestades de raios e granizo.

A erupção também teria levado a uma queda de 2ºC na temperatura, o que teria reduzido as chuvas e feito o nível dos rios baixar e sua água se estagnar.

Junto com minerais tóxicos das cinzas trazidos pela chuva, isso teria provocado um grande impacto no Nilo e gerado as condições ideais para a proliferação de pragas.

O ÊXODO
História de Moisés fundamenta a fé cristã e judaica
Segundo a Bíblia, quando os hebreus deixaram o Egito, o faraó mudou de ideia e enviou 600 bigas para perseguir os escravos. Este número seria um exagero bíblico?

Em 1997, no sítio arqueológico onde ficava a cidade de Ramsés 2º, arqueólogos descobriram as fundações de um estábulo, com espaço suficiente para ao menos 500 cavalos e suas bigas.

O texto bíblico diz ainda que Deus guiou os hebreus em sua jornada com uma coluna de fumaça durante o dia e de fogo à noite.

Se este êxodo ocorreu no século 16 a.C., estas colunas poderiam ser explicadas pela erupção em Santorini?

Apesar da ilha grega estar a 800 km de distância, a coluna de fumaça saída do vulcão poderia ter atingido até 64 km de altura acima do nível do mar.

O climatologista Mike Rampino diz que isso permitiria que ela fosse vista desde o Egito. Durante p dia, as cinzas poderiam ter sido confundidas com fumaça e, à noite, a eletricidade estática na atmosfera poderia ter gerado raios no céu.
A TRAVESSIA
Travessia teria ocorrido em um pântano, não no Mar Vermelho
Trata-se do episódio mais famoso – e controverso – do êxodo hebreu.

Ao ler a Bíblia em hebraico, é possível notar que a palavra "vermelho" foi traduzida de forma errada. Nesta versão, Moisés e seu povo cruzam o "yam suph", ou "mar de junco (tipo de planta)".

"Esta é uma história estranha. Você pode imaginar que cruzar o Mar Vermelho seria uma tarefa muito difícil, mas fazer o mesmo em um mar de junco seria algo bem diferente. Esta é uma área de pântano e é provavelmente o local da travessia", diz o egiptólogo David Rohl, ex-diretor do Instituto de Estudos de Ciências Interdisciplinares e autor de Êxodo: Mito ou História (Thinking Media Man, 2015).

Mas como explicar o relato de que o mar teria retornado a seu estado original e afogado os soldados do faraó?

"Se estamos falando de um pântano raso composto por juncos, haveria ali no máximo dois ou três metros de profundidade. Então, este tipo de fenômeno seria fisicamente possível", afirma Rohl.

"Na verdade, isso já foi testemunhado nos últimos cem anos. O exército egípcio pode não ter sido completamente dizimado. Muitos cavalos teriam morrido e as bigas ficado presas na lama."

Mas e quanto à famosa
imagem do cânion formado pela elevação da água? Isso teria qualquer correspondência na realidade?

Simulações da erupção de Santorini mostram que o colapso da ilha gerou um enorme tsunami de 182 metros de altura, que viajou a 640 km/h.

O geólogo e especialista em tsunamis Floyd McCoy, da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, diz que essa foi uma das maiores ondas já registradas na história e provavelmente atingiu o Egito.

"Acredite ou não, encontramos evidências dela no fundo do oceano. Tsunamis de fato rasparam o fundo do Mediterrâneo e moveram sedimentos. Podemos encontrar estes sedimentos – e isso nos dá uma ideia de sua direção", diz McCoy.

"Um modelo computacional nos mostrou ondas irradiando por todo o Mediterrâneo e atingindo o delta do Nilo."

Esse tsunami poderia ter dividido as águas do "mar de juncos"? Ao analisar as ondas pouco antes de quebrarem, percebemos que a água se retrai da costa.
Um mega tsunami teria feito o mesmo com bilhões de litros de água – não apenas da costa, mas de rios e lagos
conectados ao litoral – fazendo com que a terra "secasse" por até duas horas.

"Um tsunami de dois metros provoca uma mudança rápida do nível do mar de mesma proporção e viaja por vários quilômetros terra adentro", diz Costas Synolakis, especialista neste fenômeno da Universidade da Califórnia do Sul. "A força destrutiva de um mega tsunami seria mais do que suficiente para destruir um exército."

Outra evidência torna esta teoria plausível. Em 1994, a ilha de Mindoro, nas Filipinas, foi atingida por um tsunami e um terremoto. O tremor abrir uma grande rachadura no fundo de um lado localizado a 1,5 km da costa.
Uma testemunha contou na época que viu a água do lago escorrer como em uma cachoeira, sendo tragada até revelar o fundo.

O tsunami ainda percorreu 1,5 km de um rio, levando consigo uma embarcação de 6 mil toneladas. A mega onda que atingiu o delta do Nilo foi mil vezes mais devastadora do que este fenômeno recente.

Outra teoria formulada por cientistas americanos ainda dá conta que o movimento dos ventos poderia ter aberto uma
passagem de terra nas águas, o que permitiria a travessia.

Os resultados,
divulgados na publicação científica Plos One, foram baseados em simulações de computador, nas quais os pesquisadores mostram como um vento forte vindo do leste e soprando ao longo da noite poderia ter provocado a retração das águas no local onde um rio antigo se encontrava com uma lagoa costeira no delta do Nilo. Quando o vento perdeu força, as águas teriam voltado ao normal.

"A simulação vai de encontro ao relato do êxodo", diz o líder do estudo, Carl Drews, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos Estados Unidos.
A pesquisa faz parte de um projeto científico mais amplo que avalia o impacto de ventos em corpos de água e, ao identificar o local no sul do Mediterrâneo onde a travessia teria ocorrido, pode ajudar arqueólogos na busca por novas evidências."

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

RELIGIÃO - Pós-1980: uma geração sem Deus.

Aumentam os italianos no Colégio Cardinalício, mas a fé se enfraquece com um crescimento impressionante da indiferença religiosa entre os jovens e as mulheres.

A reportagem é de Marco Rizzi, publicada no caderno La Lettura do jornal Corriere della Sera, 15-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Itália ainda tem um arraigada alma católica? O "sim" pareceria óbvio se considerássemos as nomeações cardinalícias recém-anunciadas pelo Papa Ratzinger (dos futuros 22 cardeais, dos quais 18 eleitores, sete, todos eleitores, são italianos, mesmo que apenas um não pertença à Cúria Romana) ou a ênfase da mídia sobre o renascido protagonismo dos católicos que acompanhou a formação do governo Monti. Porém, se deslocarmos a atenção da crônica imediata para tentar entender quais são as tendências em curso no país, a resposta torna-se menos óbvia. Três recentes pesquisas oferecem indicações inesperadas e permitem algumas hipóteses de perspectiva.

Todos concordam em identificar três rupturas que atravessam a Itália católica. A primeira, evidenciada particularmente por Roberto Cartocci, é de caráter geográfico: enquanto abaixo de uma hipotética linha traçada entre Roma e Pescara persiste um catolicismo de traços fortemente tradicionais, no Centro Norte o processo de secularização experimentou nos últimos 20 anos uma fortíssima aceleração, que levou uma significativa proporção da população, especialmente nos maiores centros habitados, a se afastar da Igreja e da prática religiosa em seus vários aspectos. Deve-se enfatizar que uma área anteriormente solidamente católica como o Nordeste está agora mais próxima de outras áreas da região toscana-emiliana, historicamente a mais secularizada do país.

A segunda ruptura refere-se à relação entre os fiéis e o ensinamento da Igreja. Difunde-se uma religiosidade genérica, desconectada de conteúdos doutrinais e éticos específicos: se cerca de 73% dos italianos, segundo Franco Garelli, consideram que cabe à consciência individual estabelecer o que é certo e que, por exemplo, é possível ser um bom católico mesmo sem se conformar aos preceitos da moral sexual, mais de um italiano em cada dois nega que exista uma única religião verdadeira e deseja um substancial sincretismo entre as grandes tradições religiosas do mundo. Se o adversário a ser combatido é o relativismo, para a Igreja Católica a batalha já parece estar, portanto, comprometida pela metade.

A terceira ruptura é menos visível, mas parece ser mais decisiva: os nascidos a partir dos anos 1980 são mais indiferentes à religião do que qualquer outra geração anterior, na medida de 15%. Chega-se a 20% de jovens que não têm nenhuma confiança na Igreja Católica nem consideram válida a identificação entre "católico" e "italiano". Também se desfaz a maior religiosidade das mulheres, que, entre as nascidas depois de 1980, mostram as mesmas atitudes dos seus pares masculinos.

O único dado em contratendência, mesmo que bem distante de compensar a tendência geral, é a inversão da atitude masculina com relação à religião segundo o nível de educação: agora a indiferença cresce entre os menos escolarizados, e diminui entre os que estudaram mais. Como observam Gianfranco Brunelli e Paolo Segatti, estamos diante de um verdadeiro salto geracional, não simplesmente de uma aceleração no processo de secularização.

Essa última ruptura induz a que se dê um passo a mais, só indicado pelas pesquisas que se limitam a falar de uma "religião à italiana" ou de uma Itália "genericamente cristã e não mais católica". Pode-se supor que aquelas 15-20% de jovens pós-1980 que não manifestam nenhum interesse pelo catolicismo e que estão agora começando a ter filhos não terão nenhum interesse em batizá-los nem a lhes oferecer uma educação religiosa, ainda mais que o tradicional canal feminino para a transmissão da fé também parece estar, como visto, em declínio.

Pode-se argumentar, portanto, que, dentro de não muito tempo, mesmo na Itália, haverá uma componente visível de crianças não batizadas, que, juntamente com aqueles 5% da população que pertencem a outras fés (entre os quais os cristãos não católicos são apenas uma parte), tornará cada vez mais difícil falar de uma Itália pura e simplesmente católica, mesmo que apenas em termos socioculturais – e, por exemplo, justificar a manutenção da aula de religião, assim como é atualmente entendida.

Tudo isso apresenta grandes desafios à Igreja italiana. Acima de tudo, repensar canais eficazes de transmissão da fé e as próprias estratégias da sua presença na sociedade, se se quiser impedir que a Itália se assemelhe rapidamente às sociedades europeias mais secularizadas. De fato, para compensar o abandono da fé não parece ser suficiente a maior propensão à natalidade dos fiéis, como observou Rodney Stark nestas páginas. Os seus estudos sobre a difusão do cristianismo primitivo mostram justamente que também são importantes a mediação feminina e, sobretudo, a permeabilidade e o intercâmbio com a sociedade circundante.

Agora, a partir dos anos 1980, a Igreja italiana liderada pelo cardeal Camillo Ruini buscou um projeto de forte compactação interna e de direta ação no cenário político e legislativo, contando com o protagonismo de movimentos como o Comunhão e Libertação ou a Comunidade de Santo Egidio. No entanto, para preservar compactação, os movimentos tendem a estabelecer fortes fronteiras com o exterior e a favorecer a endogamia. Passado o boom inicial, o seu crescimento numérico e geográfica para, e o número dos aderentes se estabiliza, como é fácil constatar. Assim, criou-se uma evidente contradição entre um catolicismo comprometido cada vez mais com minorias e a pretensão de representar a alma do país, em nome da intrínseca catolicidade da Itália.

Sem dúvida, resultados significativos – em especial do lado do peso político da instituição – foram alcançados. No entanto, isso parece ter ocorrido a despeito dos conteúdos específicos da fé e da sua própria difusão. Insistir no projeto de uma renovada presença política dos católicos poderá sanar essa contradição, ou – para além dos resultados estritamente político-administrativos alcançados – contribuirá para agravá-la, a partir do momento em que todas as pesquisas confirmam que o fator religioso não é mais discriminatório para as escolhas políticas?

Ampliando o olhar, o que está acontecendo na Itália talvez deveria induzir a Igreja Católica a balancear melhor a sua própria atenção entre Europa – que, segundo o pontífice, "navega à vista, sem uma direção" – e os outros continentes, especialmente a África, a América Latina e a Ásia, onde, por causa das dinâmicas demográficas, estará em jogo grande parte do futuro.

Seguramente, como observou Alberto Melloni, não conta tanto o lugar de nascimento da elite eclesiástica, mas sim a sua disponibilidade para ouvir as diversas Igrejas. Além dos complexos equilíbrios curiais, sobre os quais Massimo Franco forneceu interessantes indicações no Corriere della Sera do dia 12 de janeiro, devemos nos perguntar se ainda não tem o seu peso uma visão eurocêntrica, para a qual as Igrejas da África, da Ásia e da América Latina continuam sendo, mesmo que apenas inconscientemente, "terras de missão" como há 30 anos, e não a fronteira decisiva para o catolicismo, em competição com a forte presença evangélica.

No fundo, o crescimento na América do Norte revelada por Stark também é devedora da imigração, hoje hispânica, e, há cem anos, italiana e irlandesa.
Fonte: IHU

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

RELIGIÃO - "Putinização" da igreja católica.

Em entrevista, teólogo suiço fala sobre a ''putinização'' da Igreja católica

Na quinta-feira, o papa Bento XVI chega à Alemanha para uma visita há muito esperada. O teólogo suíço proeminente Hans Küng explica à revista “Spiegel” por que a visita papal pouco fará para reverter a crise na Igreja e compara Bento XVI a Vladimir Putin na forma como centraliza o poder.

A entrevista, publicada pela revista semanal alemã Der Spiegel, foi traduzida e reproduzida pelo Portal Uol, 22-09-2011.

EIs a entrevista.

Professor Küng, o seu ex-colega de faculdade Joseph Ratzinger está vindo para a Alemanha nesta semana para uma visita de Estado. O senhor tem alguma audiência marcada com ele?

Não requisitei uma audiência. Estou fundamentalmente mais interessado em conversas do que em audiências.

Bento XVI ainda conversa com o senhor?

Após sua eleição como papa, ele me convidou a sua residência de verão, o Castelo Gandolfo, onde tivemos uma conversa amigável de quatro horas. Na época, eu esperava que aquele momento fosse o início de uma nova era de abertura. Mas essa esperança não foi realizada. De vez em quando, trocamos correspondências. As sanções contra mim – a suspensão de minha permissão para ensinar - ainda existem (nota do editor: o Vaticano revogou a permissão de Küng para ensinar teologia católica em 1979, após ele ter publicamente rejeitado o dogma da infalibilidade papal.)

Quando foi a última vez que Bento lhe escreveu?

Por meio de seu secretário particular (Georg) Gänswein, ele me agradeceu por enviar-lhe meu mais recente livro e me desejou boa sorte.

Em seu polêmico livro, “Ist die Kirche noch zu retten” (a Igreja ainda pode ser salva?), que foi publicado no início do ano, o senhor critica duramente o papa por sua política anti-reformista.

Acho muito gratificante que ele não tenha terminado nosso relacionamento pessoal, apesar de minhas críticas.

Muitos católicos acham que a Igreja está em um estado desolado. O abafamento dos casos de abuso sexual de crianças por padres levou muitos fiéis a se afastarem da Igreja. O que está errado?

Como você está dando uma descrição simples, darei uma resposta simples. O predecessor de Ratzinger, João Paulo II, lançou um programa de restauração política e eclesiástica que ia contra as intenções do Concílio Vaticano II. Ele queria uma re-cristianização da Europa. E Ratzinger foi seu assistente mais leal, até mesmo no início. Poderíamos chamar de período de restauração do regime pré-conciliar.

Por que esses problemas estão emergindo subitamente, 50 anos após o Vaticano II, que ocorreu entre 1962 e 1965?

Os problemas vêm cozinhando na Igreja há algum tempo, como revelou o acobertamento de décadas de abuso sexual. Em algum ponto, o problema dos abusos no mundo todo não pôde mais ser negado. Mas essa não é a única coisa que a hierarquia católica esconde. Ela esconde também as condições lastimáveis da Igreja.

O que o senhor quer dizer com isso?

Ou seja, que a vida da Igreja no nível da paróquia praticamente desintegrou-se em muitos países. Em 2010, pela primeira vez, houve mais pessoas deixando a Igreja do que sendo batizadas na Alemanha. Desde o Concílio, perdemos dezenas de milhares de padres. Centenas de paróquias estão sem pastores, e as ordens masculinas e femininas estão morrendo porque não conseguem noviços. O número de pessoas participando das missas está caindo gradativamente. Mas a hierarquia da Igreja não teve coragem de admitir, honesta e francamente, a verdadeira situação. Fico me perguntando aonde isso vai dar.

Quando o papa vem para a Alemanha, dezenas de milhares de pessoas vão recebê-lo em grandes eventos. Os líderes da Igreja não vão interpretar isso exatamente como sintoma de crise.

Eu não teria nada contra tais eventos se eles verdadeiramente ajudassem a Igreja local. Mas há uma enorme discrepância entre a fachada, que agora está sendo erguida novamente para a visita papal à Alemanha, e a realidade. Cria a impressão que esta é uma igreja poderosa e saudável. Certamente é poderosa, mas saudável? Sabemos agora que esses eventos não fazem quase nada pelas paróquias locais. Eles não levam mais pessoas às missas; não inspiram mais pessoas a se tornarem padres ou menos pessoas deixarem a Igreja.

Ainda assim, cerca de 70.000 pessoas são esperadas na missa no Estádio Olímpico de Berlim.

Não são todos fiéis; a multidão inclui muitos curiosos. Os fiéis que participarão são, na maior parte, católicos conservadores sem interesse em reformas. Há também fãs beneditinos notórios e histéricos que sempre estão presentes nos principais eventos papais. A maior parte deles são recrutados de grupos estritamente conservadores. Para muitas pessoas, o papa ainda é, até certo ponto, um exemplo de comportamento e de força moral, apesar de outros acharem que este aspecto sofreu gravemente.

O senhor também critica a visita do papa ao parlamento alemão, o Bundestag? Vários políticos da oposição disseram que vão boicotar o discurso dele.

Eu não faço objeções à visita. Mas eu espero que os políticos que vão recebê-lo deixem claro que há católicos na Alemanha que discordam com as atuais posições papais. De acordo com pesquisas conduzidas nesta primavera, 80% dos alemães querem reformas.

Mas será que os outros grupos –inclusive grupos políticos- não se distanciaram tanto que chegam ao ponto de não darem a mínima sobre as condições na Igreja Católica?

Somente quando não estão pensando nos eleitores. Os eleitores se tornaram muito sensíveis neste quesito. As pessoas estão prestando muita atenção ao que o presidente do Bundestag, Norbert Lammert, católico corajoso e forte, dirá ao papa.

O que o senhor está dizendo parece muito pessimista. Será que, como pergunta o título de seu livro, é tarde demais para salvar a Igreja?

Em minha opinião, a Igreja Católica como comunidade de fé será preservada, mas apenas se abandonar o sistema do regime romano. Conseguimos nos virar sem esse sistema absolutista por 1.000 anos. Os problemas começaram no século XI, quando os papas afirmaram seu controle absoluto sobre a Igreja, aplicando uma forma de clericalismo que privou a laicidade de todo poder. A regra do celibato também vem dessa era.

Em entrevista à respeitada revista alemã “Die Zeit”, o senhor criticou duramente o papa Bento, dizendo que nem o rei Luis XIV foi um líder tão autocrático quanto o líder da Igreja católica, com seu estilo absolutista de governo. Bento XVI poderia de fato mudar o sistema romano, se quisesse?

É verdade que esse absolutismo é um elemento essencial do sistema romano. Mas nunca foi um elemento essencial da Igreja Católica. O Concílio Vaticano II fez tudo para se afastar dele, mas infelizmente não foi suficiente. Ninguém ousou criticar o papa diretamente, mas houve uma ênfase no relacionamento colegial do papa com os bispos, criado para reintegrá-lo na comunidade.

E teve sucesso?

Não diria que sim. A falta de vergonha com a qual a política do Vaticano simplesmente calou e negligenciou o conceito de colegiado desde então é sem precedentes. Um culto à personalidade sem paralelos prevalece novamente hoje, que contradiz todo o Novo Testamento. Neste sentido, pode-se afirmar isso muito claramente. Bento XVI até aceitou a tiara, uma coroa papal, símbolo medieval do poder papal absoluto, que um papa anterior, Paulo VI, escolheu entregar. Acho isso revoltante. Ele poderia mudar isso tudo da noite para o dia, se quisesse.

Mas ele não quer?

Não quer. Estou absolutamente convencido disso, porque ele tem a autoridade necessária. Ele meramente teria que fazer uso dela, no espírito do Evangelho.

O senhor não quer apenas reduzir o poder do papa. O senhor também está pedindo um fim ao celibato; o senhor quer que as mulheres sejam ordenadas e que a Igreja suspenda sua proibição de controle de natalidade. Os católicos leais ao papa dizem que esses elementos fazem parte dos valores centrais da Igreja Católica. Se o senhor retirar isso, o que restará da Igreja Católica?

O que restará será a mesma Igreja Católica que costumava existir – e que era melhor. Não estou dizendo que o papado deva ser abolido. Mas precisamos de escritórios que sirvam às congregações, precisamos do tipo de papado que era praticado por João XXIII. Ele não queria dominar. De fato, ele simplesmente demonstrava que estava lá disponível para todos, inclusive outras igrejas. Ele estabeleceu a base para o Concílio e um novo despertar do cristianismo ecumênico. Ele permitiu o surgimento de uma nova igreja.

Muitos na Igreja Católica dizem que, se todas as reformas que o senhor propõe fossem implementadas, a Igreja ficaria mais Protestante e abandonaria sua natureza Católica.

A Igreja sem dúvida se tornaria mais protestante. Mas sempre preservaremos nossa natureza única. Nossa forma global de pensar, nossa universalidade nos diferenciam de certa estreiteza nas igrejas regionais Protestantes. Isso deve continuar, assim como o escritório (do papa) deve ser preservado. Mas se tudo for concentrado no escritório, vamos terminar com um vigário medieval, um príncipe-bispo e o papa como absoluto monarca, que simultaneamente personifica o executivo, o legislativo e o judiciário –em contradição com a democracia moderna e o Evangelho.

O senhor e Bento XVI estão em caminhos diferentes. O senhor quer reformar a Igreja para mantê-la viva. E o papa está tentando selar a Igreja do mundo externo e cada vez mais restringi-la a seu centro conservador, que poderia sobreviver.

De fato. No passado, o sistema romano foi comparado com o sistema comunista, no qual uma pessoa mandava. Hoje, eu me pergunto se não estamos talvez na fase de “Putinização” da Igreja Católica. É claro que não quero comparar o Santo Padre, como pessoa, ao profano estadista russo. Mas há muitas similaridades estruturais e políticas. Putin também herdou um legado de reformas democráticas. Mas ele fez tudo o que pôde para revertê-las. Na Igreja, tivemos o Conselho que iniciou a renovação e a compreensão ecumênica. Nem os pessimistas teriam imaginado que tais retrocessos seriam possíveis depois disso. A política de restauração do papa polonês, a partir dos anos 80, tornou possível para o diretor da altamente sigilosa Congregação da Doutrina da Fé, que era conhecida como Congregação da Inquisição Romana e Universal - e ainda é uma inquisição, apesar do novo nome - a ser eleito papa.

Essa é uma comparação audaciosa.

Não deve ser tirada de suas proporções, é claro. Infelizmente, mesmo que admitamos as coisas positivas, os desdobramentos negativos que estão ocorrendo não podem ser negligenciados. Praticamente falando, tanto Ratzinger quanto Putin colocaram seus antigos associados em posições chave e colocaram de lado aqueles que eles não gostavam. É possível traçar outros paralelos: o enfraquecimento do parlamento russo e do Sínodo dos Bispos do Vaticano; a degradação dos governadores provincianos russos e dos bispos católicos, que faz deles meros cumpridores de ordens; uma “nomenclatura” conformista e uma resistência a verdadeiras reformas. Ratzinger promoveu seu assistente dos tempos de diretor do CDF a cardeal secretário de Estado, o que o torna vice do papa.

E o que há de errado nisso?

O fato que, sob o papa alemão, uma pequena claque de seguidores, primariamente italiana, sem simpatia alguma pelos pedidos de reforma, subiu ao poder. Eles em parte são responsáveis pela estagnação que abafa toda tentativa de modernização do sistema da Igreja.

O que as condições no Vaticano têm a ver com o estado da Igreja na Alemanha?

Um enorme sistema de política de poder está por trás de toda a amabilidade romana, as demonstrações litúrgicas de esplendor e de pseudo-Estado. O Vaticano controla a nomeação de bispos e de professores de teologia, somente permitindo os que se conformam com suas políticas a obterem essas posições. Seus núncios monitoram as conferências dos bispos e constantemente enviam relatórios à sede. Os dedos-duros voltaram neste sistema. Todo pastor reformista na Alemanha, todo bispo, deve temer ser denunciado em Roma.

Qual é o papel do cardeal de Colônia, Joachim Meisner, famoso linha dura, nessa luta pelo poder dentro da Igreja?

É um segredo aberto que a Conferência Nacional dos Bispos da Alemanha está cada vez mais sob influência de Meisner, o que alguns não pensavam ser possível. Acontece que Meisner tem uma linha direta com o centro de poder romano. Seu séquito inclui jovens bispos como Franz-Peter Tebartz-van Elst de Limburg. O novo arcebispo em Berlim, Rainer Woelki também é protegido de Meisner. Está havendo uma tentativa de obter o controle das posições mais estrategicamente importantes. Estão fazendo todo o possível para fortalecer o sistema de dominação.

Seu prognóstico é sombrio.

Acho muito importante que não afundemos em pessimismo. Mas meu diagnóstico mostrou que a Igreja está doente, e é a doença do sistema romano. Sob essas circunstâncias, não posso simplesmente me comportar como um médico ineficaz e dizer que tudo vai ficar bem.

Qual seria o tratamento?

A base deve reunir forças e se fazer ouvir, para que o sistema não possa mais driblá-la. Eu apresentei uma lista ampla de medidas em meu livro.

Mais de um ano atrás, o senhor escreveu uma carta aberta a todos os bispos do mundo, na qual o senhor ofereceu uma explicação detalhada de suas críticas ao papa e ao sistema romano. Qual foi a resposta?

Há cerca de 5.000 bispos no mundo, mas nenhum deles ousou comentar publicamente. Isso claramente mostra que algo não está certo. Mas se você conversa com os bispos individualmente, muitas vezes você ouve: “O que o senhor descreve é fundamentalmente verdade, mas nada pode ser feito”. Seria maravilhoso se um bispo proeminente dissesse: “Isso não pode continuar assim. Não podemos sacrificar toda a Igreja para agradar os burocratas romanos”. Mas até agora ninguém teve coragem de fazer isso. A situação ideal, em minha opinião, seria uma coalizão de teólogos reformistas, pessoas laicas e pastores abertos à reforma, e bispos preparados a apoiar a reforma. É claro que entrariam em conflito com Roma, mas eles teriam que aguentar isso, em um espírito de lealdade crítica.

Foi isso que levou à Reforma 500 anos atrás. Mas na época, o sistema romano foi incapaz de entender críticas de dentro de suas fileiras.

Após 500 anos, estamos surpresos que os papas e bispos de então não tenham compreendido que uma reforma era necessária. Lutero não queria dividir a Igreja, mas o papa e os bispos foram cegos. Parece que uma situação similar se aplica hoje.

Outro concílio como o Vaticano II ajudaria a Igreja?

Espero que haja um concílio, ou ao menos uma assembleia representativa da Igreja Católica.

O senhor acredita que vai viver para ver tal concílio?

Não se deve estabelecer limites para a graça de Deus. Certamente seria um sinal de esperança se o papa anunciasse, durante sua visita à Alemanha: “Apesar de eu não concordar com esses pedidos de reforma, como papa alemão, quero trazer algo como presente: no futuro, aqueles que se divorciarem e os que voltarem a se casar terão permissão de receber os sacramentos católicos”.
Fonte:IHU

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

RELIGIÃO - Queda de católicos atinge todas as classes.

De 2003 a 2009, a queda na proporção de brasileiros que se dizem católicos, de 74% para 68%, ocorreu em todas as classes sociais. Ao mesmo tempo, aumentou a porcentagem dos sem religião em todos os grupos de renda.

Esses são dados de um estudo divulgado ontem pelo economista Marcelo Neri, da FGV, feito a partir da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), do IBGE.

A reportagem é de Antonio Gois e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 24-08-2011.

Pelas contas de Neri, houve também uma diminuição no ritmo de crescimento dos evangélicos pentecostais de igrejas como Assembleia de Deus, Universal do Reino de Deus ou Congregação Cristã do Brasil. No período analisado, a proporção de pentecostais variou de 12,5% para 12,8% no total da população.

A tendência da década passada só será mais bem conhecida quando o IBGE divulgar os dados do Censo de 2010 sobre religião. Para Neri, porém, a POF indica que os pentecostais, que na década de 90 praticamente dobraram de proporção, podem estar perdendo fôlego.

Segundo o economista, uma possível explicação para esse crescimento menor é o fato de o período entre 2003 e 2009 ter sido marcado por forte crescimento na renda, sobretudo dos mais pobres.

"Em pesquisas anteriores, nós verificamos que os pentecostais cresciam principalmente em setores onde havia maior desemprego e menor renda. Como este período de 2003 a 2009 foi de crescimento a favor dos pobres, isto pode ter influenciado este crescimento menor", afirma.

Ao fazer a divisão por classes, o estudo da FGV mostra que os pentecostais estão mais concentrados nas classes C, D e E, com proporções que variam de 13% a 15%.

Nas classes A e B, de renda domiciliar maior que R$ 6.745, a proporção deste grupo religioso cai para 6%. O inverso ocorre com os espíritas kardecistas. Nas classes D e E, com renda domiciliar inferior a R$ 1.200, eles são menos de 1%. No topo da distribuição de renda (classes A e B), representam 6% do total.

domingo, 14 de agosto de 2011

RELIGIÕES - Religião pode deixar de existir em importantes países.

Pesquisa mostra que a religião pode praticamente deixar de existir em importantes países. E a população no Ocidente só tende a diminuir. Enquanto isso, o islamismo...

Carlos Newton

Sempre atento com as notícias do Brasil e do mundo, o comentarista Mario Assis, ex-secretário de Administração do governo do Estado do Rio de Janeiro (e responsável pelo último aumento real dos servidores, acima da inflação), envia ao blog uma pesquisa, baseada em dados dos respectivos recenseamentos, mostrando projeções em nove importantes países, onde o sentimento religioso caminha para a extinção.

Analisando censos colhidos desde o século 19, o estudo identificou uma tendência de aumento no número de pessoas que afirma não ter religião na Austrália, Áustria, Canadá, República Checa, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça.

Através de um modelo de progressão matemática, o estudo, divulgado em um encontro da American Physical Society, na cidade americana de Dallas, indica que o número de pessoas com religião vai praticamente deixar de existir nestes países. A análise projetou que na Holanda, por exemplo, até 2050, 70% dos habitantes não estarão seguindo religião alguma.

”Em muitas democracias seculares modernas, há uma crescente tendência de pessoas que se identificam como não tendo uma religião; na Holanda, o índice foi de 40%, e o mais elevado foi o registrado na República Checa, que chegou a 60%”, afirmou Richard Wiener, da Research Corporation for Science Advancement, do departamento de física da Universidade do Arizona.

A notícia é importante, porque a população dos países do Ocidente diminui cada vez mais, enquanto aumenta o número de islâmicos no mundo, unidos e entusiasmados com a possibilidade de uma guerra santa. Hoje, 75% dos europeus vivem em países com taxa de natalidade abaixo de 1,5 filho por mulher, bem inferior ao índice de 2,1, necessário apenas para manter a população. O Brasil segue pelo mesmo caminho e nossa população ficará estagnada por volta de 2040.

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POPULAÇÃO DO OCIDENTE DIMINUI

De acordo com o número de nascimentos, a Europa está dividida em dois grupos. Os países com taxas acima de 1,7 filho por mulher (já bem abaixo do índice de manutenção do número de habitantes) são França, Reino Unido, Irlanda e Escandinávia, com médias entre 1,8 e 2,0. As taxas de fecundidade dos demais países europeus, inclusive os de língua alemã, são ainda menores e variam entre 1,3 e 1,5 filho por mulher, segundo estudo do renovado Instituto Max Planck, da Alemanha.

Um dos principais fatores para a redução do nível de nascimentos foi o fato de pessoas jovens dedicarem mais tempo aos estudos. Entre 1998 e 2006, a percentagem média de jovens de 18 anos em formação profissional cresceu de 68% para 77% nos 27 países-membros da União Europeia. No mesmo período de tempo, o número de estudantes do ensino superior subiu de 15 milhões para 19 milhões.

A crescente inserção feminina no mercado de trabalho também é apontada como fator para o adiamento da constituição familiar, devido à incompatibilidade entre carreira e família. Entre 1997 e 2007, a média de participação feminina no mercado de trabalho dos 27 Estados-membros da União Europeia cresceu de 51% para 58% entre mulheres de 15 a 64 anos.

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NA RÚSSIA, CAI MUITO A NATALIDADE

Segundo estudos do Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social, a Rússia enfrenta uma queda preocupante na taxa de natalidade. O número médio de filhos por família russa é 1,59, bem inferior ao índice 1,9 em 1990. O pior: a Rússia está entre os líderes mundiais no número de abortos, com 60% de gestações interrompidas.

Pesquisas do governo mostram que aproximadamente 30% dos russos não querem ter filhos, por causa das dificuldades financeiras e pela falta de apoio do governo às famílias. Somente 3% de todos os casais russos têm mais de dois filhos e 48% não têm nenhum.

Outro dado importante: 75% dos casamentos não dão certo. Cada vez um maior número de casais vivem juntos em vez de se casarem, e preferem isso ao registro de matrimônio, algo que era impensável durante os anos soviéticos. Assim, mais de 30% das crianças russas nascem de mães solteiras.

No desespero com a derrocada populacional, o governo tenta incentivar as famílias jovens a terem mais filhos, oferecendo um bônus equivalente a R$ 21 mil, concedido no nascimento do segundo e do terceiro filho. As medidas levaram ao aumento de 22% na taxa de natalidade desde 2006, mas não são suficientes para resolver a crise demográfica.

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MAS OS ISLAMISTAS CRESCEM SEM PARAR

Enquanto isso, há mais de 1,1 bilhão de muçulmanos no mundo. O islamismo ultrapassou o catolicismo em número de fiéis em 1986 e continua a crescer. O número de adeptos aumenta inclusive em áreas tradicionalmente cristãs, como na Europa, África Ocidental, Estados Unidos e até no Brasil.

Polêmico e adorado, o Islã inspira 41 países e uma multidão de tendências, escolas e movimentos. E se expande cada vez mais. Nos Estados Unidos, o fundamentalismo inspirou o “nacionalismo negro” do líder Malcolm X (1925-1965), influenciando o movimento pelos direitos civis e atraindo celebridades como Mohamed Ali (ex-Cassius Clay) e Mike Tyson. Na França, expande-se entre trabalhadores imigrantes e desempregados; os muçulmanos franceses já são 4 milhões, 7% da população. Na Alemanha, eles são 2,5 milhões, 3% da população, em sua maioria imigrantes turcos

Graças à liberalização da política chinesa em relação à liberdade de culto religioso, o islamismo vive hoje um renascimento na China. As informações sobre o número real de muçulmanos no país variam muito, já que não existem estatísticas oficiais. Calcula-se que no país já existam entre 20 e 130 milhões de muçulmanos, a maioria deles no oeste da China.

As taxas de natalidade nos países islâmicos são altas. Depois, o materialismo crescente da civilização moderna intensifica a busca de espiritualidade e transcendência, multiplicando seitas e religiões – desde as evangélicas à islâmica. Mas, em contradição com sua doutrina, o islamismo também cresce com a intolerância, prejudicando sua própria imagem. Em vários países, multiplicam-se as correntes radicais fundamentalistas que rejeitam violentamente os valores modernos e estimulam movimentos terroristas.
Fonte: Tribuna da Internet.