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sábado, 16 de maio de 2020

CHINA - Chineses aprenderam com sua rica história.

Saiba por que Xi Jingping não repetirá erros cometidos pela China durante dinastia Ming

O que os chineses aprenderam com sua rica história e como estão aplicando essas lições como uma grande potência reemergente no século XXI

PEPE ESCOBAR
São Paulo (SP) (Brasil)
Com a guerra híbrida 2.0 contra a China atingindo o auge da febre, as Novas Estradas da Seda, ou Iniciativa Belt and Road, continuarão a ser demonizadas 24 horas por dia, 7 dias por semana, como a proverbial trama comunista do mal para a dominação econômica e geopolítica do mundo "livre", impulsionada por uma sinistra campanha de desinformação.
É ocioso discutir com simplórios. No interesse de um debate informado, o que importa é encontrar as raízes mais profundas da estratégia de Pequim – o que os chineses aprenderam com sua própria história rica e como estão aplicando essas lições como uma grande potência reemergente no jovem 21St Século.
Vamos começar com como Ocidente e Ocidente se posicionam no centro do mundo.



A primeira enciclopédia histórico-geográfica chinesa, a 2Nd século A.C. Clássico das Montanhas e dos Mares, nos diz que o mundo era o que estava sob o sol (tienhia). Composto por "montanhas e mares"(shanhai), o mundo foi disposto entre "quatro mares"(shihai). Só há uma coisa que não muda: o centro. E seu nome é "Reino Médio"(Zhongguo), ou seja, China.
Claro, os europeus, nos 16th século, descobrindo que a terra era redonda, virou a centralidade chinesa de cabeça para baixo. Mas, na verdade, não muito (ver, por exemplo, este 21St século Mapa sino cêntrico publicado em 2013).
O princípio de um enorme continente cercado por mares, o "oceano exterior", parece ter derivado da cosmologia budista, na qual o mundo é descrito como um "lótus de quatro pétalas". Mas o espírito sino cêntrico era poderoso o suficiente para descartar e prevalecer sobre cada cosmogonia que poderia tê-lo contrariado, como o budista, que colocou a Índia no centro.
Agora compare a Grécia Antiga. Seu centro, baseado em mapas reconstituídos por Hipócrates e Heonto, é um composto no Mar Egeu, com a tríade Delfos-Delos-Ionia. A maior divisão entre o Oriente e o Ocidente remonta ao império romano no 3Rd Século. E começa com Diocleciano, que fez tudo sobre geopolítica.
Aqui está a sequência: Em 293, ele instala um tetrarchy, com dois Augustus e dois Césares, e quatro prefeituras. Maximiano Augusto é acusado de defender o Ocidente (Occidens), com a "prefeitura da Itália" tendo Milão como capital. Diocleciano se cobra para defender o Oriente (Oriens), com a "prefeitura do Oriente" tendo Nicomedia como capital.
A religião política é adicionada a este novo complexo político-militar. Diocleciano inicia as dioceses cristãs (dioquesis, em grego, após seu nome), doze no total. Já existe uma diocese do Oriente – basicamente o Levante e o norte do Egito.
Não há diocese do Ocidente. Mas há uma diocese da Ásia: basicamente a parte ocidental da Turquia mediterrânea hoje em dia, herdeira das antigas províncias romanas na Ásia. Isso é muito interessante: o Oriente é colocado a leste da Ásia.
O centro histórico, Roma, é apenas um símbolo. Não há mais centro. na verdade, o centro está se inclinando em direção ao Oriente. Nicomedia, capital de Diocleciano, é rapidamente substituída pelo vizinho Bizâncio sob Constantino e rebatizada como Constantinopla: ele quer transformá-la em "a nova Roma".
Quando o império romano ocidental cai em 476, o império do Oriente permanece.
Oficialmente, ele se tornará o império bizantino apenas no ano de 732, enquanto o Sacro Império Romano-Germânico – que, como sabemos, não era santo, nem romano, nem império – ressuscita com Carlos Magno em 800. De Carlos Magno em diante, o Ocidente se considera "Europa", e vice-versa: o centro histórico e o motor deste vasto espaço geográfico, que eventualmente alcançará e incorporará as Américas.
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Xi Jinping e a atual liderança fizeram seu dever de casa. Por que a China não vai puxar um remix ming e recuar novamente

Almirante superstar

Ainda estamos imersos em um debate oceânico entre historiadores sobre as inúmeras razões e o contexto que levou todos e seu vizinho a irem freneticamente para os mares a partir do final de 15th século – de Colombo e Vasco da Gama a Magalhães.



Mas o Ocidente geralmente esquece o verdadeiro pioneiro: o icônico Almirante Zheng He, nome original Ma He, um eunuco e hui muçulmano da província de Yunnan.
Seu pai e seu avô tinham sido peregrinos para Meca. Zheng He cresceu falando mandarim e árabe e aprendendo muito sobre geografia. Quando ele tinha 13 anos, ele foi colocado na casa de um príncipe Ming, Zhu Di, membro da nova dinastia que chegou ao poder em 1387.
Educado como diplomata e guerreiro, Zheng He converteu-se ao budismo sob seu novo nome, embora sempre tenha permanecido fiel ao Islã. Afinal, como eu mesmo vi quando visitei as comunidades hui em 1997 quando me ramifiquei da Rota da Seda, a caminho do mosteiro labrang em Xiahe, hui islam é um sincretismo fascinante incorporando o budismo, o Tao e o Confucionismo.
Zhu Di derrubou o Imperador em 1402 e tomou o nome de Yong Le. Um ano depois, ele já havia encomendado Zheng He como almirante, e ordenou que supervisionasse a construção de uma grande frota para explorar os mares ao redor da China. Ou, para ser mais preciso, o "Oceano Ocidental"(Xiyang):ou seja, o Oceano Índico.
Assim, de 1405 a 1433, cerca de três décadas, Zheng He liderou sete expedições através dos mares até a Arábia e África Oriental, saindo de Nanjing, no Yangtzé, e se beneficiando dos ventos das monções. Atingiram Champa, Bornéu, Java, Malaca, Sumatra, Ceylon, Calicut, Hormuz, Aden, Jeddah/Meca, Mogadíscio e a costa leste africana ao sul do Equador.
Eram armadas reais, às vezes com mais de 200 navios, incluindo os 72 principais, transportando até 30.000 homens e grandes quantidades de mercadorias preciosas para o comércio: seda, porcelana, prata, algodão, produtos de couro, utensílios de ferro. A nave líder da primeira expedição, com Zheng He como capitão, tinha 140 metros de comprimento, 50 metros de largura e transportava mais de 500 homens.
Esta foi a Rota da Seda Marítima original, agora revivida no 21St Século. E foi acoplado a outra extensão da Rota da Seda terrestre: depois de todos os temidos mongóis estarem em retirada, havia novos aliados até a Transoxiana, os chineses conseguiram chegar a um acordo de paz com o sucessor de Tamerlane. Então as Rotas da Seda estavam crescendo novamente. A corte ming enviou diplomatas por toda a Ásia - Tibete, Nepal, Bengala, até mesmo o Japão.
O principal objetivo do pioneirismo do mar chinês sempre intrigou os historiadores ocidentais. Essencialmente, era uma mistura diplomática, comercial e militar. Era importante ter a suzerainidade chinesa reconhecida – e materializada através do pagamento de um tributo. Mas, acima de tudo, era sobre o comércio; não admira que os navios tinham cabines especiais para comerciantes.
A armada foi designada como a Frota do Tesouro – mas denotando mais uma operação de prestígio do que um veículo para captura de riquezas. Yong Le era forte em soft power e economia – como ele assumiu o controle do comércio exterior, impondo um monopólio imperial sobre todas as transações. Então, no final, essa foi uma aplicação inteligente e abrangente do sistema tributário chinês – nas esferas comercial, diplomática e cultural.
Yong Le estava de fato seguindo as instruções de seu antecessor Hongwu, o fundador da dinastia Ming ("Luzes"). A lenda diz que Hongwu ordenou que um bilhão de árvores fossem plantadas na região de Nanjing para abastecer a construção de uma marinha.
Em seguida, houve a transferência da capital de Nanjing para Pequim em 1421, e a construção da Cidade Proibida. Isso custou muito dinheiro. Por mais que as expedições navais fossem caras, seus lucros, é claro, eram úteis.
Yong Le queria estabelecer estabilidade chinesa – e pan-asiática – através de uma verdadeira Pax Sinica. Isso não foi imposto pela força, mas sim pela diplomacia, juntamente com uma sutil demonstração de poder. A Armada era o porta-aviões da época, com canhões à vista – mas raramente usados – e praticando a "liberdade de navegação".
O que o imperador queria, eram governantes locais aliados, e para isso ele usou intriga e comércio em vez de choque e temor através de batalhas e massacres. Por exemplo, Zheng He proclamou suzerainty chinês sobre Sumatra, Cochin e Ceylon. Ele privilegiou o comércio equitativo. Então isso nunca foi um processo de colonização.
Pelo contrário: antes de cada expedição, à medida que seu planejamento prosseguia, emissários de países a serem visitados foram convidados para a corte ming e tratados, bem, reais.

Saqueando europeus

Agora compare isso com a colonização européia liderada uma década depois pelos portugueses através dessas mesmas terras e desses mesmos mares. Entre (um pouco) cenoura e (muito) pau, os europeus impulsionaram o comércio principalmente através de massacres e conversões forçadas. Postos de negociação logo foram transformados em forts e instalações militares, algo que as expedições de Zheng He nunca tentaram.
Na verdade, Zheng He deixou tantas boas lembranças que foi adivinhado sob seu nome chinês, San Bao, que significa "Três Tesouros", em lugares no sudeste da Ásia como Malaca e Ayutthaya do Sião.
O que só pode ser descrito como sadomasoquismo judaico-cristão focado em impor o sofrimento como virtude, o único caminho para chegar ao Paraíso. Zheng He nunca teria considerado que seus marinheiros – e as populações com quem ele fez contato – tinham que pagar esse preço.
Então por que tudo acabou, e de repente? Essencialmente Yong Le fica sem dinheiro por causa de suas grandiosas aventuras imperiais. O Grande Canal – que liga o Rio Amarelo e as bacias de Yangtzé – custou uma fortuna. O mesmo para construir a Cidade Proibida. A receita das expedições não foi suficiente.
E assim que a Cidade Proibida foi inaugurada, pegou fogo em maio de 1421. Mau presságio. De acordo com a tradição, isso significa desarmonia entre o Céu e o soberano, um desenvolvimento fora da norma astral. Os confucionistas usaram-na para culpar os conselheiros eunucos, muito próximos dos comerciantes e das elites cosmopolitas ao redor do imperador. Além disso, as fronteiras do sul estavam inquietas e a ameaça mongol nunca foi realmente embora.
O novo imperador Ming, Zhu Gaozhi, estabeleceu a lei: "O território da China produz todos os bens em abundância; então por que devemos comprar bugigangas no exterior sem qualquer interesse?
Seu sucessor Zhu Zanji era ainda mais radical. Até 1452, uma série de decretos imperiais proibia o comércio exterior e viagens ao exterior. Todas as infrações foram consideradas pirataria suscadas pela morte. Pior, estudar línguas estrangeiras foi banido, assim como o ensino de chinês para estrangeiros.
Zheng He morreu (no início de 1433? 1435?) em verdadeiro caráter, no meio do mar, ao norte de Java, quando ele estava voltando da sétima e última expedição. Os documentos e os gráficos usados para as expedições foram destruídos, assim como os navios.
Assim, os Ming abandonaram o poder naval e reabraçaram o velho confucionismo agrário, que privilegia a agricultura sobre o comércio, a terra sobre os mares e o centro sobre terras estrangeiras.

Chega de retirada naval

A questão é que o formidável sistema tributário naval insuionado por Yong Le e Zheng He foi vítima do excesso – gastos excessivos do Estado, da turbulência dos camponeses – bem como do seu próprio sucesso.
Em menos de um século, das expedições de Zheng He ao retiro de Ming, isso acabou por ser um grande divisor de águas na história e na geopolítica, prefigurando o que aconteceria imediatamente depois nos longos 16 anos.th século: a era em que a Europa começou e eventualmente conseguiu governar o mundo.
Uma imagem é gritante. Enquanto os tenentes de Zheng He navegavam pela costa leste da África até o sul, em 1433, as expedições portuguesas estavam apenas começando suas aventuras no Atlântico, também navegando para o sul, pouco a pouco, ao longo da costa ocidental da África. O mítico Cabo Bojador foi conquistado em 1434.
Após as sete expedições ming cruzando o Sudeste Asiático e o Oceano Índico a partir de 1403 por quase três décadas, apenas meio século depois Bartolomeu Dias conquistaria o Cabo da Boa Esperança, em 1488, e Vasco da Gama chegaria a Goa em 1498.
Imagine um histórico "e se?": os chineses e os portugueses se esbarrando em terra suaíli. Afinal, em 1417 foi a vez de Hong Bao, o eunuco muçulmano que era tenente de Zheng He; e em 1498 foi a vez de Vasco da Gama, guiado pelo "Leão do Mar" Ibn Majid, seu lendário mestre navegador árabe.
Os Ming não eram obcecados por ouro e especiarias. Para eles, o comércio deve ser baseado na troca equitativa, no âmbito do tributo. Como Joseph Needham provou conclusivamente em obras como Ciência e Civilização na China,os europeus queriam produtos asiáticos muito mais do que os orientais queriam produtos europeus, "e a única maneira de pagá-los era o ouro".
Para os portugueses, as terras "descobertas" eram todos territórios de colonização em potencial. E para isso os poucos colonizadores precisavam de escravos. Para os chineses, a escravidão equivalia a tarefas domésticas, na melhor das hipóteses. Para os europeus, era tudo sobre a exploração maciça de uma força de trabalho nos campos e nas minas, especialmente no que diz respeito às populações negras na África.
Na Ásia, ao contrário da diplomacia chinesa, os europeus foram para o massacre. Através de torturas e mutilações, Vasco da Gama e outros colonizadores portugueses lançaram uma verdadeira guerra de terror contra populações civis.
Essa diferença estrutural absolutamente importante está na raiz do sistema mundial e da organização geo-histórica do nosso mundo, como analisado por geógrafos de crack como Christian Grataloup e Paul Pelletier. As nações asiáticas não tinham que administrar – ou sofrer – as dolorosas repercussões da escravidão.
Assim, no espaço de apenas algumas décadas, os chineses abdicaram de relações mais próximas com o Sudeste Asiático, a Índia e a África Oriental. A frota Ming foi destruída. A China abandonou o comércio exterior e retirou-se para se concentrar na agricultura.
Mais uma vez: a conexão direta entre o retiro naval chinês e a expansão colonial europeia é capaz de explicar o processo de desenvolvimento dos dois "mundos" – o Ocidente e o centro chinês – desde os 15th Século.
No final do 15th século, não havia arquitetos chineses capazes de construir grandes navios. O desenvolvimento de armas também foi abandonado. Em apenas algumas décadas, crucialmente, o mundo sinizado perdeu seu vasto avanço tecnológico sobre o Ocidente. Ficou mais fraco. E mais tarde pagaria um preço enorme, simbolizado na inconsciência chinesa pelo "século da humilhação".
Tudo isso explica algumas coisas. Como Xi Jinping e a atual liderança fizeram seu dever de casa. Por que a China não vai puxar um remix ming e recuar novamente. Por que e como a Estrada da Seda e a Rota da Seda Marítima estão sendo revividas. Como não haverá mais humilhações. E acima de tudo, por que o Ocidente – especialmente o império americano – se recusa absolutamente a admitir o novo curso da história.

Pepe Escobar, jornalista

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CHINA - Transição em modelo de desenvolvimento.

Jabbour: China vive transição em modelo de desenvolvimento

Dados divulgados nesta segunda (4) apontam que a atividade industrial da China encolheu pelo décimo mês seguido em dezembro. A notícia frustrou expectativas de analistas, causou tensão no mercado financeiro e reacendeu o debate sobre os impactos da desaceleração do crescimento da segunda maior economia do mundo.



  
Segundo o professor de Economia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Elias Jabbour, além de sofrer as consequências da desaceleração da economia internacional, o gigante asiático vivencia o esgotamento de uma dinâmica de crescimento muito pautada nos investimentos e nas exportações.

O país - que passou as últimas décadas comprando commodities de países como o Brasil e exportando produtos industrializados - agora tem o desafio de transitar dessa dinâmica para outra, que privilegia o consumo interno. Especialista em China, Jabbour avalia que este será um processo longo, amparado por uma decisão política.

Ao comparar a postura da China diante da crise com a de outros países, o professor destaca que o país asiático tem sob controle do Estado todos os mecanismos necessários à elevação da demanda. “Seu sistema financeiro é estatizado, suas grandes empresas agem em combinação com os interesses do Estado. Ao contrário de muitos países europeus e dos EUA, onde o problema crônico de demanda é aprofundado pela manutenção no poder dos mesmos que criaram a crise global”, aponta.

Depois de colecionar taxas anuais de crescimento em torno de 10% durante as últimas décadas, a China deverá crescer 6,9% em 2015, segundo relatório de pesquisadores do banco central chinês (PBoC), publicado no mês passado. Questionado se é possível ao país retomar a crescimento de dois dígitos, Jabbour responde que não.

“Crescimento de dois dígitos somente em países muito pobres, onde pouco capital é suficiente para aumentar geometricamente a produtividade do trabalho. A China já passou deste estágio. A manutenção de um patamar de 6% a 7% nos próximos anos já é algo de bom tamanho”, diz.

Os impactos do crescimento mais lento da China afetam especialmente países periféricos, que dependem do mercado chinês para absorver a venda de matérias-primas. A China é hoje o maior parceiro comercial brasileiro e a desaceleração daquele país é apontada como uma das causas das dificuldades atuais na economia do Brasil.

De acordo com Jabbour, o Brasil hoje está “vulnerável às turbulências não somente chinesas, mas também da política de juros interna dos EUA”. Para ele, contudo, poderia ser pior. “Ao menos acumulamos reservas cambiais nos últimos anos”, salienta.

O professor defende que, para se proteger da redução no ritmo de crescimento chinês, o país precisa “resolver o problema político, acelerar os acordos de leniência e as concessões das infraestruturas, baixar os juros e manter a taxa de câmbio no mesmo patamar que o atual”. Mesmo assim, adverte, trata-se de atacar “somente os sintomas, não a doença”.

Para ele, “o nível do debate econômico brasileiro nunca esteve tão baixo”. Enquanto, a partir da escolha pela “estabilidade econômica”, se discute câmbio e juros, Jabbour avalia que o centro da questão deveria ser outro.

“Um país com metas de inflação anuais e abertura da conta de capitais não tem muita margem de manobra. Ou se colocam esses reais problemas em debate ou continuaremos dependendo de outro boom das commodities que, infelizmente, nunca mais ocorrerá”, opina.

Em relação ao Brics, o professor mostra-se otimista. Avalia que o atual momento econômico da China terá pouco efeito sobre o bloco. E defende a relevância do Banco do Brics. “Diante da chantagem aberta da grande finança internacional, aprofundada com a última capa da revista The Economist, empresas como a Petrobras devem olhar com mais atenção as oportunidades abertas por este banco”, sugere, referindo-se à edição da revista que tece críticas ao atual cenário brasileiro.

Leia abaixo a íntegra da entrevista, concedida ao Portal Vermelho por e-mail, nesta terça (5):

Portal Vermelho: O que tem levado a economia chinesa à desaceleração?
Elias Jabbour: Trata-se de um quase esgotamento de uma dinâmica de crescimento muito pautada nos investimentos e nas exportações. O desafio deles é transitar desta dinâmica a outra onde o peso do fator consumo seja maior, essa é a preocupação essencial que o 13º Plano Quinquenal deve dar respostas. Evidente que a desaceleração da economia internacional também afeta o ritmo de crescimento, e a entrada do país neste jogo da “grande finança global” enseja instabilidades a serem enfrentadas e bem enfrentadas até aqui, diga-se de passagem.

O que a China está fazendo para se recuperar e neutralizar riscos?
Certamente os mecanismos de controle sobre seu mercado de capitais deverão passar por aperfeiçoamentos. Esse é um ponto interessante diante do sobe e desce das bolsas de Xangai e Shenzen. Reformas como as ocorridas no sistema financeiro chinês em 1994, 1997 e 1999 quando o governo absorveu uma montanha de “créditos podres” e preparou o sistema bancário à abertura de seus capitais deverão ocorrer de novo no momento. O alvo deverá ser tanto o sistema financeiro “sombra”, que se alastrou nos últimos anos, quanto o que me referi mais acima sobre os mecanismos de controle de operações de seu mercado de capitais. O consumo deverá ser estimulado, como já vem ocorrendo. O problema é a transferência de recursos do investimento ao consumo. Esse será um processo longo, um verdadeiro drama. Ainda mais quando o país precisa lançar mão de mais pacotes de investimentos para segurar a demanda e manter alto o nível da capacidade produtiva instalada.

Quais as diferenças entre as bolsas chinesas e as ocidentais?
O próprio Estado é acionista na China. O próprio Estado controla a hora que começa e a hora que termina um pregão. Tem instrumentos de contenção de bolhas e tem uma dívida pública baixa em relação ao nível internacional, proporcionando maior capacidade de absorção de dívidas, por exemplo.

Que avaliação você faz da estratégia chinesa de se voltar mais para o mercado interno?
É um estágio de desenvolvimento amparado por uma decisão política. Ao mercado interno já estão voltados há certo tempo, desde o lançamento do Programa de Desenvolvimento do Oeste em 1999. O problema hoje não é uma “volta ao mercado interno”. E sim de transitar de uma dinâmica de desenvolvimento a outra, cujo sucesso encetará a própria capacidade de governança do Partido Comunista da China. É um processo tão duro quanto a própria implantação do próprio programa de reformas de 1978.

Que comparação podemos fazer em relação à postura de outros países diante da crise?
A China tem sob controle do Estado todos os mecanismos necessários à elevação da demanda. Seu sistema financeiro é estatizado, suas grandes empresas agem em combinação com os interesses do Estado. Ao contrário de muitos países europeus e dos EUA, onde o problema crônico de demanda é aprofundado pela manutenção no poder dos mesmos que criaram a crise global. É o que tenho dito, “na Europa e nos Estados Unidos a preferência pela liquidez é uma instituição política, enquanto que na China o governo age em função da demanda efetiva”.

Que impactos a desaceleração da China tem sobre a economia global e, em especial, sobre os países emergentes como o Brasil?

O impacto é diferenciado para cada caso. Países com estrutura industrial pronta, sofrem menos. Países periféricos que dependem do mercado chinês para soja, minério de ferro, petróleo, etc , tendem a sofrer mais. A atual taxa de câmbio praticada no Brasil é boa neste aspecto, sem dúvidas.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil hoje. O país está muito dependente do gigante asiático? Está mais vulnerável às turbulências chinesas?
Evidente que o Brasil é vulnerável às turbulências não somente chinesas, mas também da política de juros interna dos EUA. Ao menos acumulamos reservas cambiais nos últimos anos. Poderia ser pior.

O que o Brasil pode fazer para se proteger da desaceleração chinesa?
É muita coisa. Resolver o problema político é essencial, acelerar os acordos de leniência e as concessões das infraestruturas, baixar os juros e manter a taxa de câmbio no mesmo patamar que o atual. Mas mesmo assim estaremos atacando somente os sintomas, não a doença. E viramos experts em atacar somente sintomas, convenhamos. O nível do debate econômico brasileiro nunca esteve tão baixo. A ortodoxia e a heterodoxia (desde a década de 1950, lembremos) se engalfinham para discutir duas coisas: juros e câmbio. Não se discute a funcionalidade destes dois preços da economia a partir do momento em que o país fez – em alto e bom som – uma escolha estratégica (na década de 1990) pela “estabilidade monetária”, onde quase todos concordaram, inclusive no campo progressista. Eu pessoalmente não quero discutir juros e câmbio. Quero discutir o próprio Plano Real e a política de metas de inflação. Um país com metas de inflação anuais e abertura da conta de capitais não tem muita margem de manobra. Ou se colocam esses reais problemas em debate ou continuaremos dependendo de outro boom das commodities que, infelizmente, nunca mais ocorrerá.

Que prejuízos uma redução do crescimento chinês pode acarretar para o Brics? Iniciativas como o Novo Banco do Desenvolvimento podem ser afetadas?
Do ponto de vista estratégico, há pouco prejuízo. Os países precisam se preparar internamente às fases mais recessivas do ciclo econômico e da queda do preço de commodities. Só gente louca e despreparada para acreditar que os termos de troca aos países periféricos em relação à demanda chinesa iriam durar para sempre. Existem arranjos e rearranjos cíclicos a serem feitos em concordância com o ambiente externo. É só ter gente interessada em estudar um pouco de teoria dos ciclos e estatística. Sobre o Novo Banco de Desenvolvimento, não haverá nenhum impacto. Ao contrário, uma grande oportunidade de financiamento de grandes obras, como aqui no Brasil. Não somente isso. Diante da chantagem aberta da grande finança internacional, aprofundada com a última capa da revista The Economist, empresas como a Petrobras devem olhar com mais atenção às oportunidades abertas por este banco.

Você acredita que a China possa voltar a crescer como no passado?
Não, impossível. Crescimento de dois dígitos somente em países muito pobres, onde pouco capital é suficiente para aumentar geometricamente a produtividade do trabalho. A China já passou deste estágio. A manutenção de um patamar de 6% a 7% nos próximos anos já é algo de bom tamanho.


Por Joana Rozowykwiat, do Portal Vermelho

sábado, 26 de dezembro de 2015

CHINA - O ano 2015 em retrospectiva.

Economia chinesa: O ano de 2015 em retrospectiva

O ano de 2015 foi um ano de fundamental para a China na sua jornada rumo ao melhoramento da sua estrutura econômica e lançamento de bases para o 13º plano quinquenal (2016-2020).



Cédulas de iuanes e dólares
O Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (AIIB) foi estabelecido, o programa internet+ foi iniciado, e a divisa chinesa, o RMB, passou a ser incluída no cabaz de moedas do Fundo Monetário Internacional.

Pequim deu continuidade à sua campanha anti-corrupção e o Banco Popular da China, o banco central do país, reduziu o índice de depósitos e taxas de base.

Na terceira sessão do 12ª Assembleia Popular Nacional (topo da legislatura chinesa) a 5 de março, o Primeiro-ministo Li Keqiang propôs o internet+ para favorecer o “empreendedorismo e inovação das massas” e elevar a eficiência econômica chinesa.

Até 2018, a internet deverá ser mais utilizada para serviços públicos, e fundida com todas as dimensões da economia e sociedade chinesa. O programa internet+ deverá ser um dos pilares do desenvolvimento da economia e da sociedade chinesas até 2025.

Em 1º de dezembro o FMI passou a incluir o renminbi (RMB) no seu cabaz de divisas, cuja validação deverá ser efetivada a 1 de outubro de 2016. Esta é a 5ª moeda a integrar o cabaz, juntamente com o dólar, euro, libra e o iene japonês.

O RMB passará a ter uma maior aceitação internacional, facilitando o comércio internacional e os investimentos transfronteiriços para as empresas chinesas. Os chineses passarão a poder viajar, estudar e fazer compras no exterior mais facilmente.

Esta medida irá contribuir para a aceleração da internacionalização do RMB, aprofundando a reforma financeira interna nas taxas de câmbio e taxas de juro. Pequim irá, contudo, permanecer vigilante face à política cambial para reduzir os riscos financeiros globais.


Fonte: Diário do Povo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

CHINA - Replanejando seu futuro.


Como a China replaneja seu futuro

CHINA
Sonhos de ser “a fábrica do mundo” são fase encerrada. Governantes querem ampliar serviços públicos, enfrentar crise ambiental e reduzir excesso de investimento. Transição incluirá sobressaltos
A abertura financeira é uma manobra de alto risco em sua fase inaugural. Uma comunicação desajeitada do governo chinês esquentou as coisas e tumultuou as finanças internacionais. Mas essa visão “curto prazista” dos mercados não permite compreender o que se passa na China
Por Michel Aglietta, no Le Mondo Diplomatique | Ilustração: Alves
Em novembro de 2013, durante a sessão do Comitê Central, o Partido Comunista Chinês (PCC) anunciou as diretrizes que definem suas prioridades de reforma por um período de vinte anos. Estas foram aprovadas pelo Congresso Nacional do Povo em março de 2014. Na China, os objetivos políticos são guiados por uma visão de longo prazo. A reforma da economia entrou em uma nova era, que deverá levar a transformações econômicas e sociais fundamentais. Ela se desenvolve em fases de cinco anos, orientadas por planos estratégicos. O 13º plano quinquenal, para o período 2016-2020, foi apresentado ao público durante a sessão de outubro de 2015, detalhando sua estratégia.
Interpretar o balanço dessa reforma após dezoito meses é um desafio para os observadores ocidentais. Por várias razões profundas. Em primeiro lugar, eles não têm o mesmo referencial intelectual que os chineses. A maioria pensa que a economia de mercado é o fundamento de uma sociedade democrática. Fazer reformas estruturais consiste, portanto, em remover os obstáculos ao funcionamento do mercado, o que levaria automaticamente ao melhor dos mundos possíveis. Para a China, não é nada disso. A reforma econômica é uma ferramenta para objetivos políticos: a unidade da nação, dominando suas forças de ruptura, e a legitimidade do poder centralizado do Partido Comunista Chinês (PCC). A realização dessa finalidade suprema passa pela elevação do bem-estar do povo. Além disso, o presidente Xi Jinping tem uma intenção geopolítica que não se via desde as reformas lançadas por Deng Xiaoping em 1979. Ele quer que a China recupere seu lugar histórico no mundo, o de Império do Meio. Para isso, é necessário integrar a Ásia em torno do yuan; portanto, dissociar a moeda chinesa do dólar e torná-la uma divisa internacional de pleno direito. Embora deem uma visão coerente e unificada a longo prazo, esses objetivos múltiplos tornam difícil entender os eventos atuais.
A reforma é, de fato, um processo contraditório. Ela concretiza oportunidades, mas enfrenta obstáculos. Nos últimos vinte anos, a transformação da sociedade tirou 400 milhões de pessoas da pobreza, mas o rápido crescimento permitido por esse desempenho extraordinário aumentou a desigualdade e a degradação ambiental, que se tornaram insustentáveis.
Entre 1993 e 2012, a expansão da indústria foi o motor do crescimento. A China tornou-se a fábrica do mundo, utilizando ao máximo seu principal trunfo: uma mão de obra pouco qualificada, jovem e muito abundante no campo, que podia ser transferida a baixo custo para as cidades e não contava com serviços sociais básicos. Foi necessário também investir em infraestrutura para garantir o desenvolvimento rápido. Assim se deu uma acumulação excessiva de capital, sobretudo na indústria pesada, o que foi agravado pelo pacote de estímulo de 2009-2010 para enfrentar a crise financeira global.1 Esse regime criou gigantescas desigualdades sociais e enriqueceu uma elite cujos interesses poderiam opor-se à nova orientação.
No entanto, as condições de viabilidade desse regime de crescimento desapareceram. A mão de obra escasseou, com o envelhecimento da população.2 O mercado de trabalho tornou-se favorável a um aumento duradouro dos salários, assentado em reivindicações, elevando fortemente os custos de produção das empresas chinesas. A demanda estrangeira desacelerou. Além disso, o crescimento furioso da indústria ao custo mais baixo explorou ao máximo os recursos naturais, deteriorando de maneira grave o ambiente. Há, portanto, ao mesmo tempo, um obstáculo absoluto para continuar seguindo pelo caminho anterior e uma oportunidade de mudar o regime de crescimento graças à ascensão da classe média.
O desafio é passar de fábrica do mundo a uma sociedade de “prosperidade média”, mais inclusiva e eficaz quanto ao uso dos meios de produção. O trunfo da China está no dinamismo do setor privado, sob a forma de dezenas de milhões de empresas inovadoras, bem equipadas para adaptar as tecnologias avançadas à demanda em expansão dos consumidores urbanos.
O grande desafio reside na transição de um tipo de economia para outro, porque a mudança foi brutal. O crescimento da indústria passou de 12%, em 2012, para 6%, na previsão para 2015. Ela deixou um enorme superinvestimento; portanto, capacidade de produção excedente na indústria pesada. A taxa de utilização da capacidade produtiva foi de 71% na indústria do aço, 70% na de alumínio e cimento, e 72% na de vidro. No setor automobilístico, caiu para 76%. Os especialistas consideram que o limite normal de rentabilidade nessas indústrias fica entre 78% e 80%. A consequência foi um colapso da rentabilidade – a tal ponto que empresas públicas, de grande porte e altamente endividadas pelo esforço de investimento anterior, estão em condições financeiras perigosas, o que afeta os bancos que emprestaram a elas.
No total, considera-se que, para absorver a capacidade de produção excedente, é preciso que a taxa de investimento passe para 35% do PIB, contra os 50% atuais. Se a redução de investimento fosse realizada rapidamente, sob a ameaça de restrições financeiras sem compensação, haveria uma ruptura no crescimento, que poderia cair para menos de 5% ao ano. É o temido pouso forçado (hard landing). Haveria grandes consequências sociais e políticas para a legitimidade do poder político. Na verdade, como os sistemas de proteção social ainda não estão desenvolvidos, a sociedade urbana chinesa não tolera o desemprego. A economia deve ser capaz de criar, na média, pelo menos 10 milhões de empregos urbanos por ano – embora exista uma queda da população ativa, 100 milhões de habitantes migrarão do campo para as cidades até 2020. Em 2014, apesar da desaceleração da indústria, ela criou 13,2 milhões de ocupações. É por isso que o governo se empenha em manter um crescimento em torno dos 7%, com o difícil objetivo de conseguir um pouso suave (soft landing).
Até agora, vem dando certo. A contribuição do consumo para o crescimento do PIB ultrapassa a do investimento.3 Em 2012, ela representava 4%, em uma taxa de crescimento de 7,8%; em 2013, 3,9% sobre 7,7%; em 2014, 5,6% sobre 7,3%. Desse modo, a participação do consumo no PIB aumenta, enquanto a do investimento diminui. Em termos de estrutura setorial, a participação dos serviços tornou-se dominante, com 46,1% do PIB, contra 43,9% para a indústria. Também é necessário que esse processo não seja interrompido por um infarto financeiro.
Mais liberalização
TEXTO-MEIO

A dívida chinesa é sustentável? A dívida total dos agentes não financeiros atingiu 220% do PIB no final de 2013, sendo 150% para as empresas (contra, por exemplo, 317% nos Estados Unidos, 331% na França, 431% no Japão e 120% na Índia). Vimos que a capacidade de produção excedente explica a fragilidade dos balanços das empresas estatais na indústria pesada. Os empreendedores imobiliários que têm estoques de moradia não vendidos nas cidades de segunda e terceira categoria sofrem do mesmo mal.4
A queda da inflação agrava a situação financeira das empresas com sobrecapacidade. De fato, os preços globais de venda por atacado dos produtos dessas indústrias estão em queda. As empresas sofrem deflação. Segue-se que a taxa de juros real sobre sua dívida – ou seja, considerada em relação à variação dos preços de venda – aumenta. Assim, sua vulnerabilidade financeira se agrava.
É por isso que o governo tomou medidas de reestruturação, ostentando a absorção das sobrecapacidades, de modo a não provocar rupturas no tecido industrial: consolidação das empresas, ou seja, fusão, além de desmembramento e remembramento para eliminar acúmulo de atividade nos mesmos ramos, injeção de capital privado em estruturas de propriedade mista, transferência de ações detidas pelo Estado a holdings financeiras a fim de tornar a gestão das empresas mais eficiente. Os bancos comerciais foram instruídos a renovar os empréstimos às empresas que chegam à data de vencimento, mas a não fazer nenhum novo empréstimo a empresas que não reduzam sua sobrecapacidade em uma porcentagem definida segundo sua vulnerabilidade e setor.
Por fim, a dívida das coletividades locais inchou a partir do plano de estímulo de 2009, atingindo 33% do PIB no segundo semestre de 2013, de acordo com uma auditoria exaustiva do Tribunal de Contas chinês,5 e resulta da desigualdade dos recursos fiscais nas diferentes regiões e territórios. Os governos locais lançaram-se ao endividamento com a ajuda de obscuras empresas criadas especialmente para contrair empréstimos – uma forma de shadow banking (sistema bancário paralelo) – e refinanciadas pelos bancos oficiais. Aguardando a reforma fiscal prometida, que deve aumentar os recursos dos governos locais, 1 trilhão de yuans (R$ 620 bilhões) estão sendo reescalonados pela emissão de títulos garantidos pelo governo central, o que ajuda a se desembaraçar desses expedientes.
Entre a multiplicidade de mudanças institucionais necessárias para concluir a transformação, os líderes chineses optaram por priorizar a reforma financeira por duas razões principais. A primeira é quebrar a resistência à reforma sujeitando as empresas estatais do setor comercial à concorrência e, assim, forçando as instituições financeiras a avaliar corretamente os riscos. A segunda é elevar o yuan à categoria de moeda internacional de reserva – portanto, plenamente conversível até 2020. Nessa perspectiva, o governo quer aproveitar a oportunidade para introduzi-lo na cesta de direitos especiais de saque (DES)6 no fim de 2015. Desse modo, é preciso dissociar o yuan do dólar e afirmar a independência monetária da China; daí a decisão de 11 de agosto de 2015 de desvalorizar o yuan 3% em relação ao dólar, após ter ampliado diversas vezes as margens de flutuação diária das taxas de câmbio. Ao contrário do que foi relatado no breve pânico que assaltou as finanças internacionais, essa decisão não é de modo algum uma política de desvalorização competitiva: a queda de 3% é puramente simbólica e, obviamente, não tem nenhum efeito significativo sobre o comércio exterior, comparada à depreciação de 20% do euro desde julho de 2014. Mas ela sinaliza a disposição do Conselho de Estado (governo) de dissociar o yuan do dólar; portanto, de continuar a liberalização financeira.
Em última análise, essa decisão é compatível com a reforma do sistema financeiro interno. Na verdade, liberalizar as finanças é liberalizar as taxas de juros bancários e criar instrumentos financeiros de mercado (ações, títulos, derivativos), de modo que uma estrutura completa das taxas de juro por períodos de vencimento e categorias de títulos possa ser determinada de forma endógena, sem intervenção direta da administração.7Nesse contexto, o papel das autoridades públicas não é mais fixar diretamente as taxas de juros e dizer aos bancos a quem e quanto eles devem emprestar, e sim estabelecer regras prudenciais para incentivar os atores financeiros a adotar meios para avaliar os riscos, fornecer aos detentores de poupança os meios para diversificar seus investimentos e manter balanços sólidos para absorver os choques.
É nesse contexto político que ocorrem as mudanças, primeiro com a abertura dos mercados de ações pela conexão entre as bolsas de Hong Kong e Xangai, em meados de 2014; depois com as medidas de liberalização do mercado de câmbio.
Que essas inovações institucionais criem perturbações financeiras não é algo que deva surpreender. Todos os países que liberalizaram abruptamente seus sistemas financeiros passaram por crises financeiras mais ou menos intensas e extensas: os países anglo-saxões – nas décadas de 1970, no caso do Reino Unido, e 1980, no caso dos Estados Unidos e outros países –, os escandinavos, a França e o Japão na virada da década de 1990, e até a Alemanha, em 2002. Esses redemoinhos acalmam-se quando os governos adaptam sua regulamentação prudencial e quando o Banco Central ajusta os instrumentos de ação de sua política monetária. É isso que as autoridades chinesas tentam fazer agora. Se os preços dos ativos financeiros tiverem uma margem razoável de flutuação no segundo semestre de 2015, o governo poderá abordar em 2016 o cerne da transição: a reforma das empresas estatais, a reforma fiscal, a dos direitos da população rural sobre o uso das terras e a da padronização e ampliação dos sistemas sociais.
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Michel Aglietta é professor de Economia na Universidade Paris Ouest Nanterre La Défense e conselheiro científico no Centro de Estudos Prospectivos e Informações Internacionais (Cepii) e no organismo governamental France Stratégie.
(1) Esse plano atingiu o equivalente a US$ 700 bilhões, dirigidos principalmente para a construção civil e a infraestrutura, por iniciativa dos governos locais, com participação estatal de apenas 25%.
(2) A população ativa diminuiu em 2,44 milhões de pessoas em 2013 (–1,6%), pelo segundo ano consecutivo. Cf. “Chine: la population active enregistre une deuxième année consécutive de baisse” [China: população ativa registra segundo ano consecutivo de queda], Xinhua, Pequim, 21 jan. 2014.
(3) O crescimento do PIB para um ano é dividido entre as três fontes de demanda: consumo (público e privado), investimento total (incluindo variação dos estoques) e exportações líquidas (exportações – importações). O total das contribuições é igual ao crescimento do PIB.
(4) Há quatro cidades de primeira categoria – Pequim, Xangai, Guangzhou e Shenzhen –, e trinta de segunda – capitais de províncias e cidades muito importantes (Chongqing, Chengdu, Wuhan, Tianjin, Xiamen…). As cidades de terceira categoria são aquelas com mais de 1 milhão de habitantes. A lista não está fechada, mas seriam entre cem e 150 cidades.
(5) Trata-se da dívida total (coletividades locais, organismos públicos…). A do governo central é modesta (23% do PIB no final de 2013), bem inferior às reservas internacionais do Banco Central e dos fundos soberanos.
(6) O valor dos DES é determinado por uma cesta de moedas: dólar, euro, libra, iene.
(7) Ler Ding Yifan, “En Chine, une réforme financière à haut risques” [Na China, uma reforma financeira de alto risco] e “Bientôt des yuans dans toutes les poches?” [Logo o yuan estará no bolso de todo mundo?], Le Monde diplomatique, jul. 2015.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CHINA - Ausência de líderes ocidentais em Pequim.

Ausência de líderes ocidentais em Pequim é uma "estupidez diplomática"

A decisão da mais alta liderança política dos EUA e de países líderes da União Europeia, bem como do Japão, em não comparecerem ao desfile comemorativo dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial é uma “estupidez diplomática”, acredita e correspondente da Asia Times e observador da RT Pepe Escobar.



  
"É difícil avaliar a grande importância dessa parada para a China e para a diáspora chinesa em todo o mundo. Se ausentar a esse evento pode ser tratado como um ato simbólico e levar um grande significado, já que Pequim estuda com atenção todos os nuancesas diplomáticos relacionados a esse acontecimento", acredita Escobar.

A parada militar de Pequim contará com a presença do presidente da Rússia, de diversos líderes de países da Ásia Central que fazem parte da Organização para a Cooperação de Xangai, bem como dos presidentes da Coreia do Sul, África do Sul e Paquistão.

Milos Zeman, presidente da República Checa, será o único chefe de Estado europeu a comparecer às celebrações em Pequim. França e Itália enviaram para o evento apenas seus ministros de Relações Exteriores e os EUA, Alemanha e Canadá, apenas funcionários de suas embaixadas. Já primeiro-ministro do Japão foi oficialmente convidado para o desfile, mas se recusou a comparecer, destacou Escobar.

Na opinião do jornalista, diante dessa situação, o Ocidente demonstra a sua “insensibilidade cultural e histórica”. A publicação britânica The Economist escreveu em um editorial que a parada “transtornará” os vizinhos da China, enquanto esta estará “interpretando o tema da vitimação histórica”. Uma declaração bastante patética, segundo Escobar, levando em conta que o objetivo da parada na praça de Tiananmen trata de uma lembrança das pessoas, dos milhões de veteranos chineses e dos papéis que eles desempenharam na luta contra o fascismo.

Em contrapartida, destaca o jornalista, a Rússia não esqueceu das vítimas da China na luta contra o fascismo. Dessa forma, a falta de líderes ocidentais num evento de tamanha importância apenas atestará a força da parceria estratégica russo-chinesa, conclui Escobar.




Fonte: Agência Sputnik

terça-feira, 1 de setembro de 2015

CHINA - Crise na China?


Crise na China? Especialista explica porque não é bem assim

Crise-em-Chinês
Publico abaixo um artigo - exclusivo para o Cafezinho - de Elias Jabbour, um dos maiores especialistas em China no Brasil.
Jabbour já esteve inúmeras vezes na China, já escreveu livros sobre a China, integra a Executiva Nacional do Partido Comunista do Brasil, e é professor de economia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
Já teve muitos artigos publicados na grande imprensa (Valor, etc), e agora estreia no blog como um colunista eventual sobre a China.
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Crise na China? Que crise é essa mesmo?
Elias Jabbour*, exclusivo para o Cafezinho.
Há quase um mês a China virou manchete dos editoriais dos principais periódicos de economia do mundo. Não mais noticiando recordes de crescimento. Ao contrário, as preocupações giram em torno da sustentabilidade do crescimento, para quanto mesmo irá cair seu crescimento e quanto o mundo sentirá esta queda de índice. A presente instabilidade no gigante devolve ao centro do debate a sustentabilidade, de fato, do chamado “modelo chinês”. Não demorou muito para que o debate tomasse contornos ideológicos com os ortodoxos colocando a cabecinha de fora, opinando como se o problema do mundo fosse o excesso de Estado na China e não o contrário (falta de Estado) em outros países, inclusive o Brasil.
Evidente que a questão a ser respondida é se o país continuará a crescer ou não. Ou até onde vai a capacidade do Estado chinês em continuar dando as rédeas do processo e até onde deverá ser encaminhada uma reversão de papéis interna com o mercado tomando posições. Daí a vaticinar uma nova crise financeira tendo como epicentro a China é um exagero razoável. Mais honesto seria colocar os olhos sobre a quantas andam as operações de derivativos no sistema financeiro norte-americano, pois é de lá que os podres do padrão financeirizado de acumulação continuarão a brotar, não na China. É do mercado autorregulado que devemos ter medo. E desde 1929 é isso o que a história tem demonstrado.
A China decide em 1978 implementar uma política de profundas reformas econômicas e de abertura à tecnologia exterior, mantendo o caráter socializando do regime. Esse movimento não se deu isoladamente. Motivos de ordem externa e interna aceleraram esta opção. A decadência do fordismo, levando consigo seus clones socialistas, na década de 1970 acrescido pelo surgimento de um novo paradigma tecnológico no Japão, a ascensão dos Tigres Asiáticos às suas portas e com performance econômica capaz de demonstrar a iniquidade do modelo soviético e a suposta superioridade do socialismo. Afora isso, persistiam pendências históricas não solucionadas (Taiwan, Hong-Kong, Macau), além – internamente – dos dissabores de um modelo de crescimento marcado por desiguais relações entre campo e cidade (modelo soviético) e suas imensas repercussões, entre elas o da sustentação política de uma força que chega ao poder em 1949 como expressão de uma grande revolta camponesa.
Em mais de 35 anos, pode-se dizer que a China enfrentou com sucesso grande parte de todos os desafios elencados acima. Sua produção agrícola continua a crescer, camponeses enriqueceram, o país se transformou numa potência financeira capaz de proscrever os imperativos de dominação intrínsecos às instituições forjadas no âmbito de Bretton Woods. A fusão, em 1978, do Estado Revolucionário fundado por Mao Tsétung em 1949 e o Estado Desenvolvimentista de tipo asiático internalizado por Deng Xiaoping, tem determinado o poder de transformação e desafio aos paradigmas impostos pelo Consenso de Washington.
Porém, o peso da indústria nacional (oficina do mundo) e de seu respectivo efeito demanda sobre economias de todo planeta, um crescimento pautado por altas taxas de investimento e, consequentemente, com variável consumo sobre o PIB muito baixa, além de uma crescente interação financeira com o resto do mundo têm posto o país diante de óbices nada pequenos: o momento é de mudança de modelo. O consumo deverá tomar a dianteira do processo. Não somente isso, o próprio mercado deverá tender a ganhar mais peso e importância na alocação de fatores de produção e determinação de preços. Evidente que uma transição deste nível não ocorrerá sem grandes percalços, afinal o próprio desenvolvimento soluciona e engendra contradições. Ninguém cresce durante 35 anos consecutivos, “impunemente”, ainda mais num modelo onde a prática de tentativa e erro é parte essencial da metodologia.
A crescente internacionalização da economia do país coloca no centro da agenda a conversibilidade de sua moeda, além disso os efeitos de um pacote de US$ 600 bilhões implementado em 2009 para enfrentar os efeitos domésticos da crise financeira internacional provocaram injeção demasiada de liquidez na economia doméstica, além de forte endividamento interno no nível provincial. Ao adentrar na era do mercado de capitais é preciso saber que é no mercado de capitais onde estas contradições se esgarçam, o que não significa que esteja ocorrendo uma grave crise financeira por lá (o alcance de mercado de capitais ainda é muito pequeno em comparação com as congêneres europeias e norte americana), porém é sugestivo o desafio da nova era à governança chinesa e mesmo aos países dependentes de seu mercado doméstico, incluindo o Brasil.
Não vejo uma crise na China. O país deverá cumprir sua meta de crescimento aos próximos anos de algo entre 6,5% e 7%. Também se foi o tempo do crescimento quantitativo, aquela loucura de dois dígitos. O país está diante do desafio de trânsito de modelo, justamente num país em que o investimento é quase um vício, não somente isso: o próprio investimento é elemento de avaliação política e ascensão de dirigentes municipais e provinciais na hierarquia do PCCh. Num ambiente deste é muito difícil uma transição, mesmo que suave, pois demanda profunda mudança de mentalidade política e empresarial. Além do mais, o sucesso da transição demanda imensa mobilização das maiores taxas de poupança represada do mundo, ao consumo. O que significa, na outra ponta, o desafio de construção de um poderoso Welfare State, cujo sucesso de implementação poderá ser principal objeto de comparação entre o sucesso e, real, superioridade do socialismo ante um capitalismo em estado rápido de putrefação.
Por fim, o desafio do Estado e do mercado. Um processo de liberalização financeira está na ordem do dia das autoridades de Pequim, o que não redunda na adoção de uma noção neoclássica de autorregulação mercantil, longe disso. Na outra ponta está o desafio do Estado Nacional chinês de ampliar o alcance de seu próprio Estado e do papel do planejamento, muito além do planejamento soviético e das novas formas surgidas no âmbito das reformas econômicas. Formas superiores de planejamento como instrumento de relação com as instabilidades anexas aos mercados financeiros. Nunca o exercício da estratégia foi tão necessário quanto na China de nossos dias, sentindo as dores do parto de um complexo e difícil processo de mudança de modelo e paradigma internos.
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* Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE-UERJ) e autor de “China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (Anita Garibaldi/EDUEPB, 2012)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

CHINA - Políticas atuais agravarão a crise.

Políticas atuais agravarão crise, não culpe a China

Estamos vivendo o que sempre ocorre quando muito dinheiro está em busca de poucas oportunidades de investimento, e a austeridade vai piorar tudo.


Paul Krugman, no site Outras Palavras
CCO domínio Público
Que está causando as quedas abruptas das bolsas de valores? O que elas significam para o futuro? Ninguém tem muitas respostas.

Tentativas de explicar as oscilações diárias nos mercados são normalmente insanas: uma pesquisa em tempo real sobre o crash de 1987 da bolsa de Nova York não encontrou evidência alguma para nenhuma das explicações que os economistas e jornalistas ofereceram para o fato. Descobriram, ao invés disso, que as pessoas estavam vendendo ações porque – você adivinhou! – os preços caíam. E o mercado de ações é um péssimo guia sobre o futuro da economia. Paul Samuelson brincou, certa vez, que os mercados haviam previsto nove das cinco recessões anteriores, e nada havia mudado a este respeito…

De qualquer forma, os investidores estão claramente nervosos – e têm boas razões para isso. Nos EUA, as notícias econômicas mais recentes são boas (ainda que não ótimas), mas o mundo como um todo parece muito propenso a acidentes. Há sete anos, vivemos numa economia global que tropeça de crise em crise. Cada vez que uma parte do mundo finalmente parece colocar-se em pé, outra despenca.

Mas por que a economia mundial continua capengando?

Na superfície, parece uma sucessão incomum de azares. Primeiro, o estouro da bolha imobiliária e a crise bancária desencadeada em consequência. Então, quando o pior parecia haver passado, a Europa mergulhou numa crise de dívidas e numa recessão em dois mergulhos. A Europa ao fim alcançou uma estabilidade precária e começou a crescer de novo – mas agora, assistimos a grandes problemas na China e em outros mercados emergentes, que haviam sido pilares de força.

Contudo, não se trata de acidentes sem relação entre si. Estamos, na verdade, vivendo o que sempre ocorre quando muito dinheiro está em busca de poucas oportunidades de investimento

Mais de uma década atrás, Ben Bernanke, então o presidente do banco central dos EUA (FED), argumentou que a disparada do déficit comercial norte-americano não era o resultado de fatores domésticos, mas de uma “abundância global de poupança”. Um volume de poupança muito maior que o de investimentos – na China e em outras nações em desenvolvimento, provocado em parte pelas políticas adotadas em reação à crise asiática dos anos 1990 – estava deslocando-se para os EUA, em busca de lucros. Ele alertou levemente para o fato de que o capital que entrava não estava sendo canalizado para investimentos produtivos, mas para imóveis. É claro que o alerta deveria ter sido muito mais forte (alguns de nós o fizemos). Mas a sugestão de que o boom imobiliário dos EUA era em parte causado por fraqueza em economias de outros países permanece válido.

É claro que o boom converteu-se numa bolha, que provocou enorme estrago ao estourar. E não foi o fim da história. Houve também uma inundação de capitais, da Alemanha e outros países do norte da Europa, para a Espanha, Portugal e Grécia. Isso também provocou a formação de uma bolha, cujo estouro, em 2009-2010 precipitou a crise do euro.

E ainda não acabou. Quando os EUA e a Europa deixaram de ser destinos atraentes para o capital [devido à redução das taxas de juro a quase zero], a abundância global saiu em busca de novas bolhas a inflar, levando moedas como o real brasileiro a altas insustentáveis. Não poderia durar e agora estamos em meio a uma crise de mercados emergentes que faz alguns observadores lembrarem-se da Ásia nos anos 1990 – lembre-se, onde tudo começou.

Portanto, para onde o fluxo cambiante da abundância aponta agora? Talvez, de novo para os EUA, onde um novo fluxo de capitais externos provoca a alta do dólar e pode tornar a indústria novamente não-competitiva.

O que provoca a abundância global? Provavelmente, uma soma de fatores. O crescimento populacional está arrefecendo em todo o mundo e, apesar de toda a fanfarra com as últimas tecnologias, elas não parecem criar nem um grande aumento de produtividade, nem demanda para investimentos. A ideologia da austeridade, que conduziu a um enfraquecimento sem precedentes dos gastos públicos, ampliou o problema. E a inflação baixa, em todo mundo, que significa taxas de juros baixas, mesmo quando as economias estão crescendo aceleradamente, reduziu o espaço para cortar estas taxas, quando as economias se contraem. Qualquer que seja o mix preciso das causas, o importante agora é que os governos assumam seriamente a possibilidade – eu diria probabilidade – de que excesso de poupança e fraqueza econômica global tenha se tornado a nova normalidade.

Minha percepção é de que há, hoje, uma profunda falta de vontade política, mesmo entre governantes sofisticados, para aceitar esta realidade. Em parte, é devido a interesses especiais: Wall Street e os mercados não gostam de ouvir que um mundo instável requer regulação financeira, e os políticos que desejam matar o estado de bem-estar social não querem ouvir que os gastos governamentais não são um problema, no cenário atual.

Mas há também, estou convencido, uma espécie de preconceito emocional contra a própria noção de abundância global. Políticos e tecnocratas gostam de se enxergar como pessoas sérias, que tomam decisões difíceis – como cortar programas populares e elevar taxas de juros. Eles não querem ser informados de que estamos num mundo em que políticas aparentemente rigorosas irão tornar as coisas piores. Mas nós estamos, e elas vão.

Tradução de Antonio Martins