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quarta-feira, 10 de maio de 2017

SÍRIA e a geopolítica do petróleo.

A Síria nas lentes da geopolítica do petróleo: eu sou você amanhã?

Data: 09/05/2017
Fonte: PCB Autor: Marco Aurélio Cabral Pinto
A expansão do sistema de suprimento de gás à Europa está por trás do tabuleiro de forças na região. O ataque do governo Trump se explica mais por questões de política interna nos EUA, já que a Rússia, aliada da Síria, é parceira na solução de suprimento via Irã-Catar.
O recente ataque desferido unilateralmente pelos EUA à Síria teve como justificativa suposto uso de armas químicas pelo governo Assad contra civis. Não foi a primeira vez. Em 2013, o governo Assad já havia sido acusado pelos EUA de utilizar armas químicas contra rebeldes financiados com recursos ocidentais[1].
Desta vez, os EUA avisaram previamente o governo Putin sobre o ataque. Há relatos de evacuação de material sírio e russo dias antes do bombardeio. Mesmo após o ataque, as pistas encontravam-se já operacionais, tendo-se destruído apenas conjunto de galpões vazios nos arredores.
Os russos vêm expandindo desde 2015 o número de unidades aéreas (aviões e helicópteros) e de artilharia (fixa e móvel) em operação na base síria de Shayat, bombardeada pelos EUA. O contingente militar russo se soma às forças armadas sírias no combate ao Estado Islâmico, que controla parte importante dos poços de petróleo ao norte da Síria.
O objetivo do presente artigo é elucidar: Por que os EUA teriam interesse em atacar uma base aérea que combate os principais inimigos dos próprios EUA – o Estado Islâmico e, ao mesmo tempo, cuidar para que não houvesse baixas materiais ou humanas?
A Rússia na geopolítica do petróleo para a Europa
A Europa não possui reservas de hidrocarbonetos significativas, o que implica a necessidade de importação de energia. O gás natural, considerado como energia limpa, vem sendo demandado em larga escala. Esta importação é hoje proveniente majoritariamente da Rússia. A Gazprom respondeu em 2013 por 30% dos 541 bilhões de m3 de gás natural consumidos na Europa.
imagemCerca de metade do gás proveniente da Rússia para Europa cruza a Ucrânia. A posição ambígua do país em relação ao Ocidente tem levado a consolidação de interesses comuns entre a Rússia e a Turquia. Esta última patrocinou ramal exclusivo para suprimento de gás russo através do Mar Cáspio em 2003.
Da mesma maneira, a Alemanha ampliou linha dedicada pelo Báltico em 2013. Não obstante, a Ucrânia ainda hoje possui importância como território de passagem de gás natural em direção ao velho continente.
Neste contexto, Inglaterra e França são supridas majoritariamente pelos dutos provenientes dos campos noruegueses. Da mesma maneira, Espanha, Portugal e Itália são abastecidos por campos situados no norte da África, dependendo-se pouco ou nada do suprimento russo através da Ucrânia.
A Síria como entroncamento de rotas para o gás natural
A expansão do sistema de suprimento de gás à Europa encontra-se atualmente em impasse. Encontram-se sobre o tabuleiro duas alternativas de traçado, conforme a seguir (Figura 1):
1.gasoduto proveniente do Irã atravessa o Iraque e o Líbano até a Síria, sendo então comercializado para a Europa. Esta alternativa tem recebido apoio do Irã e da Rússia.
2.gasoduto proveniente dos poços no Catar e no Irã atravessando a Arábia Saudita, Jordânia e Síria em direção a Turquia, a qual se beneficiará de parte do suprimento em direção à Europa. Esta alternativa tem o apoio da UE, dos EUA e da Turquia.
Os interesses da União Europeia e dos EUA fundamentam-se na independência da influência russa no tabuleiro energético da região. Por outro lado, à Rússia interessa diminuir a dependência da Ucrânia. A Turquia, neste contexto, tem se apresentado como país-chave no traçado das novas linhas de suprimento.
O Catar, por outro lado, possui reservas gigantes e tem investido em plantas de liquefação, o que permite transporte naval através do estreito de Ormuz e do Canal de Suez até a Europa. A principal empresa petrolífera do Quatar é uma sociedade entre o governo local e a Exxon Mobil.
Finalmente, o Irã passou a ser percebido como fonte de suprimento barata e abundante. A exportação de gás iraniano tornou-se possível a partir do Acordo de Viena, celebrado em julho de 2015 sobre a questão atômica com países ocidentais.
imagemO fiel da balança na escolha entre as rotas alternativas tem sido a posição da Síria. Dada sua importância geoestratégica na passagem do gás, o apoio do governo Assad ao trajeto russo praticamente exclui as reservas do Catar em favor do Irã. Com isso, tem justificado firme apoio militar da potência asiática no combate aos opositores do regime sírio.
A geopolítica do gás explica ainda a origem norte-americana dos recursos materiais que alimentaram, durante o mandato B. Obama, a guerra civil entre o governo sírio e rebeldes da “irmandade Muçulmana”, leais ao Ocidente.
Explica ainda porque interessa aos russos conter a expansão do Estado Islâmico nos territórios do Iraque e da Síria. Trata-se de mais um obstáculo à construção do gasoduto para o gás iraniano.
Finalmente, entende-se que o Governo Trump se esforça para construir saída negociada para o mix de suprimento Irã-Catar, o que irá, caso bem-sucedido, alavancar largos volumes de investimento e emprego na região. Este esforço passa por convergência de esforços com os russos no combate ao Estado Islâmico. Ou seja, o ataque norte-americano à base síria não faz o menor sentido sob o ponto de vista das relações internacionais.
Em contrapartida, com o ataque, D. Trump afasta a ameaça, promovida pelos interesses financeiros derrotados na eleição, de construção de uma tese de impedimento para D. Trump. O enfrentamento nos EUA entre interesses polarizados em complexos arranjos organizacionais: (i) industrial-militar-acadêmico e (ii) financeiro-midiático-jurídico, parece ter justificado o recente ataque à Siria. Com os mísseis, D. Trump reconquista a opinião pública norte-americana, na mesma medida em que ganha tempo para negociar, com Putin e demais líderes, uma saída que aponte para aumento de investimentos, emprego e renda na região.
Notas:
1. Inspetores da ONU constataram emprego de agente Sarin no sítio objeto de ataques situado na zona rural de Damasco. Não se provou, contudo, se o agente químico foi dispersado a partir de armas manufaturadas ou de dispositivos artesanais. O que não exclui a hipótese de sabotagem por parte dos EUA.
2. Crédito da Tabela 1: Defense& Foreign Affairs Strategic Policy; 2016, Vol. 44 Issue 1, p6-16
*Professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, mestre em administração de empresas pelo COPPEAD/UFRJ, doutor em economia pelo IE/UFRJ. Engenheiro no BNDES e Conselheiro na central sindical CNTU. É colunista do Brasil Debate.
http://brasildebate.com.br/a-siria-nas-lentes-da-geopolitica-do-petroleo-eu-sou-voce-amanha/

domingo, 1 de novembro de 2015

SÍRIA - Entrevista com James Petras.

“Washington não tem nenhum interesse em uma solução para a guerra na Síria”, afirma James Petras


“Eu acredito que a razão é que Washington não tem nenhum interesse em uma solução, quer continuar a guerra, destruir a Síria, quer provocar uma crise com a Rússia”, afirmou o sociólogo norte-americano, professor James Petras, em uma entrevista concedida à Rádio CX36. Também mencionou as eleições na Argentina, a situação na Palestina, as futuras eleições parlamentares na Venezuela e Grécia.
A entrevista é de Efrain Chury Iribarne, publicada no sítio da Rádio CX36 Centenário, de Montevidéu, Uruguai, 29-10-2015. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Bom dia, James Petras. Como você está?
Estamos bem e vocês? Como vai a primavera?
Digamos que hoje é um dia muito parecido com uma primavera, com uma temperatura que certamente deve estar no eixo dos 20, 21 graus.
Que bom, desfrutem, aproveitem o bom tempo.
Pedimos a você um panorama inicial. Você sabe que há uma grande quantidade de notícias que se aglutinam, são muitas, mas para interpretar realmente o que aconteceu na última semana, no Oriente Médio e nessa região, naturalmente com ênfase nos ataques de Israel contra a Palestina e todas essas coisas.
Em primeira instância, devemos reconhecer que a Rússia e o governo da Síria, Bashar Al Assad, declararam a disposição em convocar eleições para determinar a vontade dos sírios e evitar a saída, derrotar os terroristas e buscar uma forma de conciliação entre os combatentes não extremistas e o governo. No entanto, nem Washington, nem os países da Europa e nem a oposição supostamente moderada aceitaram esta oferta de acabar a guerra ao menos entre estas forças e buscar uma conciliação. A razão é que Washington não tem nenhum interesse em uma solução, quer continuar a guerra, destruir a Síria. Quer provocar uma crise com a Rússia e tudo mais. Tudo o que lemos e escutamos nestes dias aponta para o fato de que em Washington nada mudou em sua política. Continua buscando a dominação, continua provocando guerras, continua apoiando Israel, continua aliado com os extremistas monarquistas da Arábia Saudita, etc. Não vimos nenhuma mudança, inclusive, ainda não acabaram as sanções contra o Irã, que podem prejudicar o acerto conjuntural que negociaram com o governo de Teerã. Em outras palavras, podemos dizer que a continuidade define a situação. Mais que um reajuste, uma aceitação que as soluções não são absolutistas, que os Estados Unidos têm que aceitar algumas realidades, que para uma transição na Síria deve permanecer o governo de Al Assad até que as próprias eleições determinem a composição de um novo governo. Além disso, Israel continua matando palestinos, segue a política de desapropriação dos palestinos, mata jornalistas, mata médicos e mata ativistas pacifistas, que protestam contra a ocupação. Washington timidamente disse que devem acabar com a violência, mas ninguém leva a sério as intervenções de Washington, razão pela qual todos entendemos que Washington e Israel são duas partes do mesmo problema palestino.
Petras, por aí, quais repercussões tiveram a afirmação sobre o holocausto feita por Netanyahu, recentemente?
Em muitas partes do mundo, há grupos de direitos humanos que começaram uma ação penal contra Netanyahu por crimes de guerra e é um processo judicial que querem prosseguir contra ele por uma razão óbvia: cometeu muitos crimes internacionais. Mas, os governantes procuram proteger Netanyahu, como o governo de Merkel, o governo de Cameron e os governantes da França, Holanda que fazem um bloqueio, fazem uma política de proteção para evitar as ações iniciadas pelos cidadãos e as organizações de direitos humanos. É reconhecido mundialmente que Netanyahu e o governo israelense são criminosos, que cometem crimes diariamente, de grande escala e a longo prazo. No entanto, os governantes políticos utilizam seus poderes para evitar um julgamento e Netanyahu continua viajando e conversando com os diferentes governantes, apesar de permanecer pendentes julgamentos que o condenam.
Petras, não muito distante do que serão as eleições legislativas na Venezuela, como se nota através das notícias, que não sei se são legítimas, acredito que o clima segue bastante agitado, particularmente pelos elementos de ultradireita da Venezuela, com o apoio americano. Como enxerga isto, a partir daí?
Devemos reconhecer que Washington nunca suspendeu sua campanha de desestabilização, nunca deixou de financiar as oposições, canalizando o dinheiro às ONGs apoiadas pela direita. Infelizmente, na Venezuela não há nenhuma diferença entre a direita e a ultradireita, são a mesma coisa. Entre os violentos e os eleitoralistas existem muitas vinculações, a longo prazo. Então, para qualquer processo político as duas coisas se misturam, a direita obviamente violenta e a direita dura e compraram muitos ex-chavistas, particularmente oficiais. São utilizados para fazer denúncias falsas. Por exemplo, um promotor que estava de alguma forma vinculado ao governo, que partiu por ser um juiz incapaz, incompetente e vigarista. Agora, declara que o processo contra López, o terrorista encarcerado por onze anos, era um julgamento falso, testemunhas e provas falsificadas, mas não mostram nenhuma evidência, não mostram nenhuma coisa concreta para justificar a denúncia. Porém, os meios de comunicação de massas, inclusive a BBC e outros, repetem que o ex-promotor como dava seguimento ao julgamento, não é promotor há tempo. Não só que não é promotor, mas também está condenado e se foi do país para evitar o processo. É citado como uma testemunha contra o governo. E há muitos casos assim, falam de militares quando são militares aposentados ou militares destituídos do poder por algumas ofensas. Então, a campanha segue se intensificando e as pressões econômicas continuam, continuam sendo um fator importante. Os grandes capitais que controlam as importações e a circulação de mercadorias seguem atuando de alguma forma para prejudicar o governo. Sobem os preços de forma arbitrária. Estão em um grande processo de evasão de impostos. Continuam especulando com a moeda e fazendo tudo o que é possível para prejudicar a economia. Eu garanto que se houver uma mudança de governo rapidamente, vão aparecer muitas mercadorias, vão baixar a taxa de inflação, etc. Todo um mecanismo político para prejudicar o governo atual. O problema é que o governo trata a oposição com muita gentileza, ao invés de lhe dar golpes nocaute, continuam tolerando. Alguns setores governamentais estão procurando uma conciliação, sendo que em tais tipos de conflitos não há forma de constituir pontes com a oposição: trata-se de tudo ou nada. Ou seja, é preciso buscar transformar o país ou aceitar a derrota. O problema da Venezuela é que o governo não decidiu tomar medidas decisivas e vai às eleições com uma mão controlando e outra mão brigando, e não é mais possível ganhar eleições desta forma.
Faz algumas semanas que não conversamos. Após as últimas eleições, como estão as coisas, as negociações de Tsipras e tudo isso? Como está a Grécia?
Muito mal. Começaram as privatizações e começaram a impor medidas de austeridade. Apesar de todas as rejeições que o governo recebeu do público, estão determinados a provocar um decrescente padrão de vida para o povo grego. Já começam as demissões em algumas emissoras públicas e há uma greve geral provocada entre os trabalhadores. E há um expurgo de oficiais que são críticos do governo e não são da direita, são pessoas honradas que refletem a política anterior, algo progressista. Então, os expurgos estão em processo para a implementação de medidas repressivas. O governo segue mostrando um servilismo na política externa, buscando se aliar com Israel, buscando se aliar com a OTAN. Busca se subordinar aos Estados Unidos. É um governo completamente à direita e os poucos que o apoiam, recentemente decidiram que é um projeto para esquecer. O Syriza é um novo partido da direita e não há nada que possa salvá-lo de um último destino, o de acabar no lixo da história.
Petras, como sempre, depois desta séria de perguntas que formulamos, deixamos você com algum dos temas que ocupam sua atenção e seu trabalho.
O grande tema de hoje são as eleições deste fim de semana na Argentina, Polônia, Guatemala, Colômbia e Ucrânia. Devemos dizer que a tendência é mais que tudo um aumento da direita, extrema. Na Argentina, o candidato à presidência da ultradireita, o senhor Mauricio Macri, está a um ponto do candidato de centro-esquerda, Scioli. Isto porque, ultimamente, nos últimos dois anos, o kirchnerismo esgotou as medidas progressistas dos primeiro anos, não estimulou as pessoas que tinham compromissos com a esquerda a seguir com este projeto. Então, o candidato Scioli consegue algo mais de 36% dos votos, Macri 34, 35%. A ultradireita sempre teve muita força entre os portenhos e em Buenos Aires em particular. Agora, eles não têm contrapeso entre os setores populares, nos bairros, nas vilas, etc. Deixaram de popularizar o país. A esquerda ganha quando pode popularizar o país, porque a maioria apoia as medidas progressistas. Entretanto, o kirchnerismo, que domina a esquerda deixou de adotar medidas populares, prejudicaram setores ambientalistas, prejudicaram atores sindicais, prejudicaram trabalhadores independentes. É possível que nas eleições finais a direita tome o poder. Enquanto isso, o setor marxista, FIT, Frente de Esquerda, só consegue 3,4% dos votos, segue marginalizado, por muitas razões, mas principalmente porque a maioria popular continua pensando no kirchnerismo e quando o krichnerismo começa a se deteriorar, a FIT não tinha uma inserção para receber e aproveitar. O descontentamento se desloca à direita, para Macri, Massa ou para outros grupos. Isto é uma tragédia. Se Macri chegar ao poder, podemos esperar um retrocesso total em todas as frentes sociais, econômicas e na política exterior. Em outra situação, podemos ver um processo semelhante na Polônia, onde a ultradireita, Lei e Justiça, mal chamado um partido da ultradireita consegue 40% contra 23% da oposição. Agora, neste caso, temos uma combinação de clericalismo (fundamentalistas católicos) e medidas populistas. A direita dura ascende justamente porque adotaram medidas de bem-estar social e antineoliberais, junto com políticas direitistas, perseguição da esquerda, sentimento ultranacionalista, ultra anti-Rússia, ultramilitar. É uma tragédia que a força antineoliberal esteja dominada pela direita.
Agora, na Guatemala é pouco o que se pode dizer. Um comediante consegue 73%, o social-democrata consegue algo de vinte e poucos por cento. É outro caso da despolitização da política. O povo só pensa em derrotar os que apoiam aos esquadrões da morte, que eram presidentes anteriores. O comediante se chama Jimmy Morales e não tem nenhuma perspectiva progressista, mas como representa uma suposta alternativa aos generais, aos comandantes assassinos, as pessoas pensam que é o mal menor. E algo semelhante acontece na Colômbia, onde a esquerda perde Bogotá, o candidato da direita, Enrique Peñalosa vence e a candidata da esquerda, Clara López, só consegue um quinto do eleitorado. A única coisa positiva é que o candidato dos esquadrões da morte, Álvaro Uribe, só consegue 12% do eleitorado. Outra vez o eleitorado rechaça aos esquadrões da morte, mas não opta pela esquerda, buscam um candidato mais próximo do presidente Santos, que é Peñalosa. Em outras palavras, o mal menor é a opção.
Em geral, é o que podemos dizer do processo eleitoral que mencionamos, com exceção da Ucrânia, que devo destacar que é onde a esquerda começa a escalar uma força para além das províncias do leste... Em geral, há um processo eleitoral favorecendo a direita e devemos dizer que os governantes progressistas não tomaram medidas suficientemente duras para fragilizar o capital, o grande capital e os meios de comunicação controlados pelos conglomerados. Então, a partir das posições econômicas, a partir dos controles dos meios de comunicação, podem se manter e aproveitar a fragilização da centro-esquerda. Na medida em que a centro-esquerda começa a se fragilizar, a esquerda consequente fica à margem do processo. Não criou uma base para aproveitar a desintegração da centro-esquerda. Agora, na Ucrânia temos um caso especial que vai contra esta corrente. Podemos dizer que o governo de Petro Poroshenko consegue só 12% do eleitorado, ou seja, 88% do eleitorado rejeitam a junta. Pior, nas pesquisas, 99% do eleitorado rejeitam o primeiro-ministro. O primeiro-ministro é tão odiado que não apresentou sua candidatura, nem de seu partido. Decide no último momento, evitar o escândalo, apresentar-se e se retirar do processo eleitoral, porque 99% do eleitorado em Kiev e arredores eram contra o governo... O governo favorecido por toda a imprensa ocidental, o Fundo Monetário, por implementar medidas econômicas que prejudicam 90% do eleitorado. Derrubaram os salários em 50%, acabaram com as subvenções para mercadorias básicas da cesta do consumidor, prejudicaram a seguridade do país, etc. Em outras palavras, poderíamos dizer que onde a direita dura neoliberal manda há uma forte rejeição. Porém, quando a centro-esquerda está no poder e pensa em se acomodar com o capitalismo, eles são prejudicados. Em outras palavras, a luta entre a centro-esquerda e a direita depende de quem governa. Se a direita governa são atacados, se a centro-esquerda está governando, eles são prejudicados. E a esquerda ainda não encontrou o caminho para construir uma alternativa a este binômio. No único caso, na Ucrânia, em que a esquerda tinha alguma presença, a máfia de Kiev anulou as eleições. Dizem que as cédulas dos eleitores não eram apropriadas. Porém, a realidade é que as duas cidades onde anularam as eleições são cidades fortemente de oposição ao governo de Petro Poroshenko e seu primeiro-ministro. Com isso, terminamos dizendo que não há evidência de que a esquerda esteja avançando e há muitas indicações de que a esquerda está em retrocesso ou pelos menos estagnada.
Muito bem, Petras, apresentou-nos um completíssimo panorama. Agradecemos muito e nos comprometemos a conversarmos novamente na próxima segunda-feira, na (Rádio) Centenario. Um grande abraço.
Muito obrigado, um abraço aos ouvintes.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

SÍRIA - Mentiras "jornalísticas"

As 3 principais mentiras “jornalísticas” sobre a Síria



Sobe a temperatura da guerra de propaganda

24-26/1/2014, [*] Shamus Cooke, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Abertura da Conferência Genebra-2 em Montreux, Suiça (22/1/2014)
A máquina jornalística de espalhar mentiras está outra vez trabalhando em alta rotação, perfeitamente cronometrada para acompanhar as conversações de paz para a Síria chamadas “Genebra-2”, embora aconteçam em Montreux. As mentiras são necessárias para garantir que o governo Obama continue a jogar com as cartas que esconde na manga, nas conversações, as quais não estão sendo conduzidas para gerar paz alguma, mas, isso sim, para que levem ao sucesso o plano de “mudança de regime” do governo Obama para a Síria.

Aqui, listo as três principais mentiras que se espalham pelo mundo graças à contribuição da empresa-imprensa ocidental e de seus jornalistas e “especialistas” empregados, sobre as conversações de “Genebra-2”.

Mentira 1: A saída do presidente Bashar al-Assad do governo sírio teria sido “precondição” discutida e aprovada em Genebra-1, para Genebra-2.

Essa informação tem sido repetida pelo governo Obama e pelos veículos da imprensa-empresa ocidental. É total mentira. Sem nenhum fundamento. O governo Obama inventou que essa “precondição” teria sido registrada no “Comunicado de Genebra”, que foi um mapa do caminho redigido para orientar as conversações de paz de Genebra-2, discutido e aceito por alguns dos principais envolvidos nas negociações, inclusive pela Rússia.

O Comunicado fala, sim, de uma transição política negociada, mas NÃO diz, em lugar algum, que essa transição não poderia incluir o presidente Assad (e qualquer cláusula dessa natureza teria sido imediatamente rejeitada pela Rússia).

A verdade é que, sim, o Comunicado de Genebra inclui a seguinte cláusula:

“[um governo de transição] poderá incluir membros do atual governo sírio e da oposição, além de outros grupos; e terá de ser constituído por consentimento mútuo”.

Bashar al-Assad saúda a multidão na saída do palácio presidencial em Beirute em 12/1/2014
Nada, em local algum daquele documento, menciona ou implica diretamente o presidente Assad.

Recentemente, o Los Angeles Times pisou fora da linha e expôs, clara e completamente a mentira:

“[John] Kerry tem citado repetidas vezes o “Comunicado de Genebra”, espécie de mapa do caminho redigido em junho de 2012, durante reunião organizada pela ONU. Mas esse documento absolutamente não exige a saída de Assad”.

A incansável repetição dessa mentira, pelo governo Obama, só provoca divisões e dificuldades para o processo de paz, enquanto vai minando qualquer chance de alcançar-se alguma paz.


O governo Obama tem batido o pé a respeito dessa pré-condição “Assad tem de sair”, porque sabe que, em eleições limpas, livres e justas que se disputem na Síria – como parte de um “processo transicional” apoiado pela ONU – o presidente Assad será, praticamente com certeza, reeleito. Esse é o resultado da união de várias minorias étnicas e religiosas sírias no apoio ao presidente, apoio cada vez mais assumido e declarado, desde que começaram a testemunhar as atrocidades sectárias diárias cometidas por “rebeldes” apoiados pelos EUA (atrocidades que a imprensa-empresa dos EUA existe para fazer ignorar e impedir de ver).

Assad provavelmente será eleito, se houver eleições, dado que simplesmente não há qualquer outro nome, no governo ou na oposição, que se compare a ele no reconhecimento que merece dos sírios e na popularidade. Os “rebeldes” apoiados pelos EUA que estão fazendo guerra contra a Síria fortaleceram a imagem política do presidente Assad – mas essa é informação que ninguém jamais obterá da imprensa-empresa ocidental, monoliticamente contra os sírios.

“Exigir” a saída de Assad tampouco tem qualquer sentido, se se considera a situação em campo. Os “rebeldes” apoiados pelos EUA jamais conseguiram controlar mais que uma única cidade síria, de nome Raqaa, a qual é dominada pela al-Qaeda e governada sob uma interpretação à moda dos Talibã da lei islâmica, e que inclui, dentre outros, o banimento de qualquer tipo de música. Os “rebeldes” não têm poder em campo que os autorize a exigir seja o que for, muito menos que “Assad tem de sair”.

Mentira 2: As milícias “rebeldes” apoiadas pelos EUA seriam grupos terroristas islamistas “moderados”

O simples fato de alguém dizer publicamente tal absurdo, sem provocar gargalhadas, é prova do grande sucesso da propaganda que se faz pela empresa-imprensa jornalística ocidental. A narrativa jornalística ocidental pinta os rebeldes financiados pelos EUA como “bons”, em luta contra, ao mesmo tempo, o governo sírio e os “maus” rebeldes associados à al-Qaeda.

Frente al-Nusra "rebelde" na Síria, note a bandeira da al--Qaeda à direita da foto
Mas os tais “bons” terroristas que integram a Frente Islâmica apoiada pelos EUA partilham a mesma visão quanto ao futuro da Síria que os rebeldes da al-Qaeda: todos defendem uma versão fundamentalista da lei da Xaria, segundo a qual as mulheres vivem praticamente em prisão domiciliar e minorias religiosas são cidadãos de segunda classe (grupos muçulmanos não sunitas seriam massacrados na Síria, como já estão sendo, nas áreas das quais o governo sírio ainda não conseguiu varrer os terroristas – mais um fato minimizado ou apagado do noticiário pela imprensa-empresa jornalística ocidental).

A mentira sobre os “rebeldes moderados” foi também exposta recentemente, quando um alto comandante da mais poderosa das milícias em guerra contra o governo sírio, o grupo Ahrar al Sham, integrante da Frente Islamista e apoiado pelos EUA, declarou que seu grupo é o único “verdadeiro” representante da al-Qaeda na Síria.

O grupo Ahrar al Sham é conhecido há muito tempo como grupo extremista terrorista do tipo al-Qaeda; a imprensa-empresa jornalística ocidental simplesmente apagou essa informação. Mas quando essa associação foi divulgada e “oficializada”, os jornais, televisões e jornalistas norte-americanos optaram por ignorar a evidência, porque noticiar o fato destruiria a mentira sobre “terroristas moderados”. Jornais, televisões e jornalistas ocidentais também continuaram a ignorar o fato de que a Frente Islâmica “moderada” apoiada pelos EUA lançou, ela própria, um manifesto no qual se filia às ideias extremistas do grupo Ahrar al Sham, a al-Qaeda “autêntica”.

Mentira 3: Haveria novas provas de que o governo sírio pratica tortura “em escala industrial”

Recentemente, a empresa-imprensa ocidental apareceu com “plantão de notícias” no qual se “informava” sobre novas provas que mostrariam “tortura e assassinatos em massa ao estilo nazista”, pelo governo sírio [dessa vez, na CNN, matéria da sempre serviçal, facinorosa, Amanpour (NTs)], matéria divulgada exatamente no início das conversações de paz de Genebra-2. Não se sabe se o governo sírio mata ou não mata. E continua-se sem saber depois do “noticiário”, porque não há ali sequer uma prova válida de coisa alguma. A mentira, nesse caso, é que o “jornalismo” ocidental apresentou como verdade indiscutível o que nada assegura que não seja, do começo ao fim, só mentiras.

Todos nós sabemos que há centenas de fotos de pessoas mortas que alguma “fonte confiável” diz que foram mortas pelo governo sírio. A tal fonte confiável sempre é assim qualificada por intelectuais pró-ocidente que conquistaram “credibilidade” midiática porque ajudaram a condenar criminosos de guerra na Corte Internacional Criminal [orig. International Criminal Court (ICC)]. Mas, como escreveu Diane Johnstone em seu excelente livro Fools Crusade, sobre a guerra contra a Iugoslávia – e também em vários artigos – a Corte Internacional Criminal tem sido, há muito tempo, usada como ferramenta das potências ocidentais para criar pretexto para uma ou outra guerra, ou como ferramenta para justificar uma guerra, depois do fato.

As “provas” das atrocidades “de estilo nazista” foram escritas em estudo pago pelo governo do Qatar, o qual há muito tempo mobiliza dinheiro, armas, jihadistas [e por que não mobilizaria também... jornalistas?! (NTs)] para ajudar os rebeldes anti-Assad na Síria.

A seguir vemos que quem pratica tortura e assassinatos, inclusive canibalismo, são os "rebeldes" sírios apoiados pelos EUA... (redecastorphoto)


Mais uma vez, não se pode saber se a história é verdadeira ou falsa. Mas investigação dessa magnitude e importância teria de ser feita pela ONU ou por outra instituição mais respeitável [que um escritório privado de advocacia]. A mesma dinâmica enviesada viu-se no caso do ataque com armas químicas, do qual jamais apareceu qualquer prova, embora longa fila de “especialistas” tenham sido vistos e ouvidos na televisão ou citados em longas matérias jornalísticas, todos “comprovando” a culpa do governo sírio. Até que, afinal, Seymour Hirsch jornalista premiado com o Pulitzer, desmontou as “versões” dos “especialistas” e demonstrou que o governo Obama mentira sobre os rebeldes não terem capacidade para executar ataque químico daquele tipo. As empresas-imprensa do “jornalismo” ocidental ignoraram o trabalho de Hirsh.

Como essas mentiras implantam-se a ponto de se tornarem traços permanentes na imprensa-empresa ocidental? Artigo excelente publicado no The Guardian recentemente discutiu em profundidade as principais fontes de que se serviu a imprensa-empresa ocidental para compreender o conflito sírio.

O artigo expôs o quase inacreditável viés de algumas das principais fontes ouvidas pelas empresas de jornalismo ocidentais sobre a Síria, e o motivo pelo qual se escolheram sempre fontes “especializadas”: para assegurar que as fontes tivessem agendas políticas alinhadas com as decisões da política externa dos EUA. O outro lado do conflito permaneceu completamente ignorado nos veículos da grande imprensa-empresa, exceto quando foi tomado como alvo a ser ridicularizado. Por isso, norte-americanos e europeus têm visão completamente tendenciosa, quando não completamente irreal e fantasiosa, sobre o que está acontecendo na Síria. E foi assim sistematicamente, desde o início do conflito – exatamente como aconteceu nas guerras da Iugoslávia, Afeganistão, Iraque e Líbia. 

Resultado da ignorância construída por empresas-imprensa e seus jornalistas foi mais mortes num país que, hoje, já tem milhões de refugiados e mais de 100 mil mortos.

Obama parece decidido a explorar o atual momento exclusivamente para fazer crer que, se as conversações de paz fracassarem, a culpa terá sido do governo sírio.

Sem ter conseguido derrotar Assad em campo e em guerra à distância, guerreada por seus prepostos, o governo Obama tenta, agora, vencer a guerra de propaganda. Assim, se as conversações pró-paz fracassarem, Obama poderá reiniciar suas conversações pró-guerra, “porque” “todas as demais opções fracassaram”.




[*] Shamus Cooke é trabalhador de Serviço Social, sindicalista e escritor ligado a Workers Action.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

SÍRIA - Curdos entre "dois fogos".

Em um hospital público na província de Urfa, no sudeste da Turquia, fileiras de guerrilheiros de oposição sírios fitam o teto por horas a fio. Alguns afirmam que eles foram feridos em uma sangrenta (e pouco notada) batalha contra os curdos, povo que é reprimido pelos sírios há muito.
Os curdos, que assumiram o controle de várias cidades e vilas no nordeste da Síria após os homens de Bashar Assad, o presidente do país, as abandonarem há um ano, insistem no fato de que são vítimas de uma guerra colateral que está sendo orquestrada pela Turquia por meio do apadrinhamento de rebeldes sírios. Estes supostamente incluem guerrilheiros estrangeiros do Jabha al-Nusra, “A Frente de suporte para o povo da Síria” e do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, a milícia radical islâmica que conquistou notoriedade global devido a seus métodos brutais.
“Os turcos removeram as minas, cortaram as cercas de arame farpado e permitiram que essas gangues armadas cruzassem a fronteira turca”, reclama Saleh Muslim, líder do Partido da Unidade Democrática, o grupo curdo-sírio que administra o enclave, na prática autônomo, curdo. Um rebelde sírio que batalha os curdos contou ao nosso correspondente “Alá seja louvado, a Turquia está nos dando algumas armas” embora tenha acrescentado que a França e a Arábia Saudita são muito mais generosas.
Líderes turcos negam ter qualquer coisa a ver com a batalha e dizem que as afirmações de Muslim de que o seu grupo está lutando contra extremistas muçulmanos têm a intenção de conquistar a simpatia do Ocidente. No entanto alegações de cumplicidade da Turquia estão se espalhando pela região de fronteira.
Medidas do Governo
O primeiro-ministro da Turquia anunciou nesta segunda-feira um aguardado pacote de propostas destinado a reformas democráticas, incluindo a suspensão de algumas restrições no uso da linguagem curda e na vestimenta islâmica.
O anúncio do pacote de reformas foi adiado inúmeras vezes enquanto os diálogos com a minoria curda estão paralisados.  Os grupos curdos exigem que Erdogan vá mais longe na suspensão de restrições do uso de sua linguagem, para que as crianças curdas possam ter o direito de ser educadas em sua língua nativa.
A proposta de Erdogan permitiria que escolas privadas tivessem algumas aulas em curdo. As reformas também permitiriam que as letras “q”, “w” e “x”, que fazem parte do alfabeto curdo mas não do turco, fossem usadas em documentos oficiais.
Era esperado que Erdogan, por exemplo, anunciasse a reabertura do seminário grego ortodoxo Halki, em Istambul, que foi fechado por autoridades turcas há mais de 40 anos. A escola, localizada em uma ilha do Mar de Marmara, treinou gerações de patriarcas ortodoxos gregos até seu fechamento em 1971.
A manutenção do fechamento do seminário, apesar de ser uma questão com pouca repercussão doméstica, é um problema que deverá provocar repercussões na Europa e nos EUA. O presidente Barack Obama, deputados dos EUA e da União Europeia, que pressionam a Turquia para melhorar seus direitos religiosos, pediram ao governo turco que permitissem que o seminário voltasse a funcionar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

SÍRIA - Um contraponto à posição americana.

Ocidente ignora reunião de líderes de países com mais a perder na Síria


Enquanto os chanceleres russo e americano discutiam como desarmar a Síria em Genebra, em Bishek, capital do Quirguistão, os presidentes russo, chinês e iraniano faziam um contraponto ao posicionamento americano




No último fim de semana, ficou de fora do noticiário ocidental uma notícia importante sobre um encontro entre os líderes dos países mais interessados em restabelecer a ordem na Síria. Em meio a um fluxo constante de notícias sobre as discussões em Genebra para desarmar a Síria entre o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e seu homólogo russo, Sergei Lavrov, passou despercebida uma reunião que acontecia simultaneamente na remota Bishek, capital do Quirguistão, entre os presidentes russo, Vladmir Putin, chinês, Xi Jinping, o recém-eleito iraniano, Hassan Rouhani , além dos líderes dos países da Ásia Central Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Cazaquistão.
A reunião marcou o encontro anual da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), integrada pelos países mencionados acima (O Irã é apenas observador, mas pleiteia uma vaga permanente). O objetivo declarado dessa cúpula é formar as bases para uma nova ordem eurasiana, estimulando a cooperação política e econômica entre os países da região. Entretanto, o foco da última reunião não pôde deixar de ser a Síria. O conjunto de chefes ali reunidos se opõe à dominação norte-americana do conflito sírio, acredita que os EUA declararam a morte política do presidente sírio Bashar al Assad de forma apressada, unilateral e arrogante, sem levar em conta os interesses de países aliados, vizinhos ou até mesmo da própria população síria.

Neste encontro, os líderes assinaram a Declaração de Bishek, documento que esclarece o posicionamento conjunto do grupo com relação aos assuntos mais prementes da política mundial, entre os quais a guerra síria e o programa nuclear iraniano. Os líderes declararam que consideram inaceitável uma intervenção estrangeira contra um país soberano sem autorização da ONU. Eles acreditam que a população síria deve ser dada uma oportunidade para resolver seus conflitos internos por conta própria, uma vez que a necessidade de uma operação militar perdeu urgência quando o país concordou em aderir à Convenção de Armas Químicas.
“As últimas medidas diplomáticas reduziram a ameaça de intervenção militar direta”, disse Putin na sexta-feira, 13, durante a cúpula. “Uma questão importante neste contexto agora é a iniciativa de estabelecer controle internacional sobre as armas químicas da Síria.”


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

SÍRIA - Vitória da diplomacia russa.



Desde segunda-feira, quando o chanceler russo ofereceu um plano de fiscalização internacional dos arsenais de armas químicas da Síria, começou o inferno astral de Barack Obama. E seu projeto de organizar uma expedição punitiva contra Bashar al-Assad passou a ser visto como agressivo e extemporâneo diante do novo cenário criado pela jogada inteligente e oportuna de Serguei Lavrov.
Obama, que já tinha anunciado sua opção pela ação militar, ficou “pendurado na brocha”,  como se diz popularmente em nosso país.  Atacar ele não pode mais, eis que a solução diplomática passou a ser o alvo e o desejo de todos, até dos eternos aliados estadunidenses. Recuar, aceitando de imediato a proposta russa, será uma demonstração de fraqueza para seu público interno e para a comunidade internacional. E é o que deve acontecer.
Para Obama, o pior é ter que enfrentar a partir desse episódio o fortalecimento da liderança russa com seu líder falando em paz e amor enquanto ele fala em bombas e foguetes.
À medida que a liderança de Obama se apequena, em sentido inverso cresce a força de Putin. Na mesa de negociações ele estará em condições de exigir mais do que oferecer. Ele já adiantou que nenhum acordo será firmado enquanto as forças estadunidenses se mantiverem em posição de ataque. Ele quer eliminar todo e qualquer risco de um ataque de surpresa para então começar a negociar.
A pá de cal em cima de Obama, Putin jogou nesta quarta-feira quando o New York Times, em um gesto altamente elogiável,  publicou um artigo do presidente russo Vladimir Putin em sua página de opinião.
Putin afirma que sua intenção é a de falar diretamente ao povo americano e seus líderes políticos.  O artigo do líder russo, que é na verdade uma resposta ao discurso de Obama na terça-feira à noite, está causando as mais diferentes reações nos EUA, alguns indignados e outros surpresos e confusos.
O foco do artigo está na “excepcionalidade dos americanos”,  destacada por Obama em seu discurso na terça-feira à noite:
“Os ideais e princípios americanos estão em jogo na Síria...Isso é o que torna a América diferente, isso é o que nos torna excepcionais. Com humildade, mas com determinação, nunca vamos perder de vista que esta é uma verdade essencial".
Em seu artigo, Putin questiona essa excepcionalidade ao afirmar:   "É extremamente perigoso incentivar as pessoas a se considerarem excepcionais, seja qual for a motivação".  E mais adiante: "Há países grandes e pequenos,  países ricos e pobres, aqueles com longa tradição democrática e aqueles que ainda estão encontrando seu caminho para a democracia. Suas políticas são diferentes também".
E encerrou com uma paulada  na cabeça de Obama:  "Somos todos diferentes, mas quando pedimos as bençãos do Senhor, não devemos esquecer que Deus nos criou iguais".
A saída diplomática foi realmente um golpe de mestre de Vladimir Putin e seu chanceler Sergei Lavrov. Aproveitaram-se das trapalhadas do secretário de Estado John Kerry para aplicar um xeque-mate na administração Obama, que está agora num beco sem saída.  
Se sair um acordo definitivo das negociações que começaram nesta quinta-feira, entre os chanceleres dos EUA, John Kerry, e da Rússia, Sergei Lavrov, que ponha fim à ameaça de uma ação militar na Síria, Obama certamente vai respirar aliviado. Ele se livra de uma derrota vergonhosa no Congresso e do dedo da opinião pública, que o elegeu para acabar com as guerras, não para começá-las. Mas do fracasso na condução da crise síria, disso ele não se livra.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

SÍRIA - Carta ao presidente francês.

Síria: Carta de um antigo embaixador francês a François Hollande

por Pierre Charasse [*]

Pierre Charasse.México, 2 de Setembro de 2013

Senhor Presidente da República

Na provação que padece actualmente a humanidade devido à presença de armas químicas na Síria, haveis tomado a dianteira de um grande movimento mundial em nome da "obrigação de proteger" as populações civis ameaçadas. Haveis muito bem explicado no vosso discurso de 27 de Agosto diante dos vossos Embaixadores que esta era a vocação da França, tal como a exerceu na Líbia recentemente, e que ela não falharia no seu dever. Vossa determinação exemplar deveria rapidamente convencer vossos parceiros europeus hesitantes e as opiniões públicas relutantes, em França, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e por toda a parte do mundo, da boa fundamentação de uma intervenção militar cirúrgica na Síria.

Naturalmente, como haveis recordado em 27 de Agosto, "a obrigação de proteger" inscreve-se num procedimento muito regulamentado pelas Nações Unidas e cabe em primeiro lugar aos Estados afectados proteger a sua própria população. Em caso de fracasso da sua parte, é ao Conselho de Segurança que cabe decidir modalidades de execução deste princípio. Sob a vossa condução, a França será honrada se fizer respeitar à letra este avanço importante do direito internacional. Estou certo de que o Presidente Putine será sensível aos vossos argumentos assim como o Presidente Xi Jiping e que não constituirão obstáculo ao vosso projecto opondo-lhe um veto no Conselho de Segurança. Pouco importa que o objectivo final ainda seja um pouco impreciso, o que conta é a defesa enérgica de princípios claros.

Do mesmo modo, estou certo que outros países seguirão a França na sua intenção de entregar armas aos rebeldes sírios, apesar dos riscos que isso implica. O sr. Laurent Fabius, ministro dos Negócios Estrangeiros, anunciou que exigiria dos destinatários das armas francesas que assinassem um "certificado de utilizador final". Com uma tal firmeza teremos a garantia de que nossas armas não cairão nas mãos dos combatentes jihadistas da Frente Al Nusra-Al Qaeda, que fazem parte da Coligação rebelde (ainda muito heteróclita mas que tem o mérito de querer unificar-se, boa sorte!) e não se voltarão contra os países ocidentais que os têm ajudado ou seus rivais no seio da Coligação, ou até mesmo das populações civis.

Eis-nos reconfortados. A Al Qaeda deveria compreender a mensagem forte que vós lhe enviais. É importante explicar bem que nosso inimigo continua a ser o Terrorismo Internacional, mesmo que de tempos em tempos seja preciso mostrar-se pragmático, como dizem nossos amigos anglo-saxões, e estender a mão àqueles que querem a nossa perda. Estes não deveriam ser insensíveis a nossos gestos amistosos. Vossos serviços deveriam poder sem dificuldade desmentir a informação difundida pela agência Associated Press segundo a qual armas químicas entregues pela nossa aliada Arábia Saudita (o Príncipe Bandar Bin Sultan, chefe dos serviços sauditas de informação) à Frente Al Nusra-Al Qaeda teriam sido manipuladas desajeitadamente por estes aprendizes de feiticeiro.

Uma vez esclarecido este ponto tereis as mãos livres para agir na base das informações fornecidas pelos Estados Unidos e Israel que merecem toda a vossa confiança. Entretanto, não seria inútil evitar que se reproduzisse o cenário de 2003 nas Nações Unidas quando Colin Powell exibiu fotos manipuladas e um frasco de pó de pirilimpimpim como provas irrefutáveis da presença de armas de destruição maciça no Iraque! Princípio de precaução elementar. Confia-se em vós, é a credibilidade da França que está em jogo.

Quanto aos objectivos militares desta operação, parece evidente que devem ser prioritariamente destruir por meios aéreos os depósitos de armas químicas sem os fazer explodir no nariz da população civil, o que seria um verdadeiro desastre, e neutralizar todos os engenhos que permitem a sua utilização (mísseis, carros, lança-foguetes, etc), sem por em perigo a vida de nossos soldados sobre um terreno incerto. Se os americanos têm dificuldade em identificar os alvos, os serviços franceses de informação terão prazer em lhes fornecer todas as informações de que dispõem, de tal modo que a operação seja curta e incisiva e que graças a vós as armas químicas sejam definitivamente erradicadas do planeta.

As populações que vamos proteger terão um preço a pagar pelo serviço prestado e devem aceitar antecipadamente algumas centenas ou milhares de mortos que os efeitos colaterais desta operação podem provocar, bem como suas consequências em cascata. Mas é para o seu bem. Se vós tomais a dianteira da manobra em lugar de vossos colegas Obama e Cameron, que parecem andar para trás antes mesmo de o pontapé de saída ter sido dado, Bashar Al Assad compreenderá muito rapidamente com quem tem de tratar. O Ocidente não deve amolecer, isto seria um mau sinal para o resto do mundo, conta-se convosco para controlar o leme com firmeza.

Quando esta missão humanitária estiver terminada e Bashar Al Assad tiver pedido perdão e prometido emendar-se após a surra que se lhe vai infligir, deixando-o sempre no poder, vós tereis a satisfação de ter contribuído para aplicar na Síria a teoria do "caos construtivo" elaborada por think tanksamericanos na época de George Bush, esperando que as grandes empresas americanas, principais beneficiárias do caos, terão a bondade de deixar às empresas francesas a possibilidade de tirar algumas vantagens da desordem institucionalizada que doravante tem a vocação de se substituir a Estados forte como é o caso no Iraque ou na Líbia. Alguns contratos petrolíferos fariam bem para nossos grandes grupos.

Após esta vitória, praticamente garantida por antecipação, caberá a vós levar alhures a mensagem humanitária universal da França. As crises são numerosas no mundo, a lista dos ditadores sanguinários é longa e milhões de homens, mulheres e criança esperam com alegria que a França possa protegê-los, conforme a missão que ela se atribuiu. Pensa-se sempre na África, que está na primeira linha das nossas preocupações. Mas há fogo em numerosas regiões do mundo. Uma intervenção militar na Palestina seria bem vinda, vós sonhais com isso certamente.

No México, estima-se em 70 mil as mortes provocadas pela violência dos grupos criminosos e das forças de segurança e em 26 mil os desaparecidos durante o sexénio do Presidente Calderón (2006-2012). Depois do primeiro ano do mandato do Presidente Peña Nieto, contam-se já 13 mil mortes. Com toda lógica, com tais números, a população civil mexicana deveria ser elegível para os benefícios do programa "operação de proteger" concebido pela "comunidade internacional", mesmo se esta está hoje está reduzida apenas à França. No ponto em que estamos, é preciso certamente que um país se devote a ser a vanguarda que age de uma comunidade internacional amorfa e irresponsável, "conjunto gasoso e incerto" como disse Hubert Védrine a propósito da União Europeia. Mais vale estar só do que mal acompanhado. Tratando-se do México, poder-se-á tirar as lições da intervenção militar francesa de 1862 e não repetir o erro que conduziu à frustração os exércitos de Napoleão III: desencadear operações militares injustificadas e longínquas que ultrapassam as nossas forças.

Para isso será preciso, mas vós o haveis previsto evidentemente, programar mais meios orçamentais, por exemplo para a construção de novos porta-aviões nucleares, dos aviões e mísseis que nele vão. O "Charles de Gaulle" presta brilhantes serviços quando não está imobilizado nos nossos arsenais para demasiado longos períodos de revisão, mas ele terá dificuldade em responder só a todos os pedidos de intervenção sobretudo quando deverá sulcar mares longínquos, exóticos e perigosos. Estou certo de que vós sabereis persuadir nossos compatriotas de que nas circunstâncias actuais o mundo ocidental, para prosseguir sua missão civilizadora, pilar da globalização, deverá dotar-se dos meios orçamentais.

Recordam-se constrangimentos que impediram as forças francesas de atingir a Líbia ainda mais maciçamente. Seus stocks de mísseis esgotaram-se rapidamente o orçamento da Defesa não havia previsto que o abominável Kadafi, contudo amigo íntimo do vosso antecessor, seria tão pouco sensível a nossos problemas orçamentais opondo uma resistência tão feroz quanto inútil. A população, se estiver bem informada, certamente aceitará de bom grado o aumento dos impostos e os cortes nas despesas públicas, nomeadamente as sociais, assim como das bolsas escolares para os franceses do estrangeiro, e ainda a redução dos meios da rede diplomática, consultar, educativa e cultural francesa no mundo se este for o preço a pagar para que a França mantenha seu estatuto de grande potência mundial. Tudo é questão de pedagogia.

Senhor Presidente, vós sabeis que nossos amigos e aliados americanos nem sempre têm uma imagem muito boa no mundo. A França, com os Presidentes De Gaulle, Mitterrand e Chirac, desfrutou de um grande prestígio internacional, exactamente porque falava com uma voz diferente daquela dos seus aliados ocidentais. O Presidente Sarkozy acabou esta tradição diplomática, pensando que a França tinha todo interesse, no contexto da mundialização e face à importância crescente de novos actores, a fundir-se na "família ocidental" e a reintegrar o aparelho militar da NATO, ou seja, a colocar suas forças convencionais sob o comando americano.

"O tempora! O mores!" como disse Cícero no seu tempo. Mas vossos Embaixadores já tiveram de vos assinalar que doravante em numerosos países a França é percebida como um relé servil da política americana. Episódios recentes, como o caso Snowden com a intercepção do Presidente Evo Morales aquando do seu sobrevoo da Europa, puderam dar esta impressão lamentável, mas estou convencido que não tereis nenhuma dificuldade em persuadir vossos interlocutores do mundo inteiro de que esta percepção é errónea, pois foi com toda independência que haveis confirmado a ancoragem da França na sua "família ocidental".

Finalmente, penso que haveis reflectido na melhor maneira de proteger as populações mundiais das catástrofes humanitárias provocadas pelo capitalismo mafioso e predador na origem das últimas crises económicas e financeiras. Está provavelmente nas vossas intenções propor a vossos colegas do G7 e do G20, que ireis encontrar na Cimeira de São Petesburgo, mudar de rumo a fim de por um fim à economia de casino e ao império da finança sem controle. A opinião pública mundial, os desempregados na Grécia, em Portugal, na Espanha, em França e alhures, provavelmente apreciariam ataques cirúrgicos contra o FMI, o Banco Central Europeu, a City de Londres, alguns paraísos fiscais "não cooperativos" ou improváveis agências de notação que fazem dobrar os governos.

Uma tal coerência na aplicação da "obrigação de proteger" honrará a França e seu Presidente. E continuando sem descanso nesta via e defendendo como fazeis o direito internacional e as normas fixadas pelas Nações Unidas, não há nenhuma dúvida de que antes do fim do vosso mandato vos juntareis ao vosso colega e amigo Barack Obama no clube muito selecto dos Prémio Nobel da Paz. Vós o tereis bem merecido.

Queira aceitar, Senhor Presidente, a garantia da minha muito alta e respeitosa consideração.

Pierre Charasse, Francês do estrangeiro, contribuinte e eleitor.
[*] Diplomata de carreira de 1972 a 2009. Foi embaixador no Paquistão, no Uruguai e no Peru. Representou a França em numerosas instâncias internacionais. Actualmente está reformado e reside no México.

O original encontra-se em www.legrandsoir.info/... 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .