Mostrando postagens com marcador CINEMA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CINEMA. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de dezembro de 2017

CINEMA - "A felicidade não se compra".

A felicidade não se compra – um filme de 1946 para o Natal de 2017

  

A resposta depende, como sempre, e obviamente, de quem o vê. Será afirmativa se, tal como George Bailey, a personagem central da história, o espectador for um idealista formado nos princípios da solidariedade e da partilha com os seus concidadãos. Se, pelo contrário, se tiver rendido à lógica da usura e da procura do lucro a qualquer preço que se tornou a ‘religião’ dos nossos dias então achará este ‘It’s a Wonderful Life’ um filme com um discurso ultrapassado, ao gosto das ‘esquerdas’ mais ou menos radicais ou, com alguma condescendência, uma ‘treta sentimental’ como diz Henry F. Potter, outra personagem da trama.

Em 1947, Frank Capra era uma das grandes figuras do cinema norte-americano. Na década anterior ‘só’ tinha conquistado cinco ‘Oscars’ – dois do melhor filme e três de melhor realizador e em 1943 o ‘Oscar’ para o Melhor Documentário – ’Prelude to War’ – um dos vários retratos que fez da 2ª Guerra Mundial. A abordagem que fez do conflito valeu-lhe as mais altas distinções americanas e britânicas. Italiano, nasceu na Sicília no final do século XIX, no seio de uma família pobre, analfabeta e numerosa, que no início do século passado emigrou para os Estados Unidos. Naturalizado norte-americano, ao mesmo tempo que trabalhava em empregos precários formou-se em Engenharia Química e, em 1922, realizou o seu primeiro filme.

Seguiu para Hollywood na altura já a ‘Meca’ do cinema… ainda mudo. Aí foi ‘pau para toda obra’. Escritor de argumentos trabalhou com Mack Sennet e para a ‘Columbia’, uma produtora quase desconhecida. Em 1934 ganhou dois ‘Oscars’ com ‘It Happened One Night’. Em 1936 o de melhor realizador com ‘Mr. Deeds Goes to Town’ e em 1938 outros dois, com ‘You Can’t Take It With You’. Depois da guerra fundou, com William Wyler e Georges Stevens a sua própria produtora: a ‘Liberty Films’. Foi aí que fez ‘It’s a Wonderful Life’ / A felicidade não se compra, ‘Globo de Ouro’ de 1947 para o melhor realizador. Frank Capra morreu em 1991 com 94 anos.

A felicidade não se compra é a história de um homem, George Bailey, representado por James Stewart, que numa pequena cidade americana se vê à frente de uma empresa fundada pelo pai. Uma espécie de cooperativa na qual as pessoas colocavam as suas economias que serviam para financiar a construção das suas próprias casas. Assim escapavam ao raio de influência de Henry Potter o magnata que dominava a terra e que também construía casas que as pessoas habitavam, mas em troca de rendas exorbitantes.

A oposição entre estas duas figuras, e afinal entre duas concepções do mundo e da vida, é o tema central desta obra, que tem ainda uma componente transcendental ou religiosa: a presença de um anjo caído do céu que vem à terra salvar, na noite de Natal, um George Bailey mergulhado em dificuldades e à beira do suicídio. Mas nem os ateus ou agnósticos mais empedernidos deixarão de sorrir perante a figura de um anjo que tem que cumprir satisfatoriamente a missão que lhe foi confiada e assim e, finalmente, ganhar as asas que espera há duzentos anos.

A felicidade não se compra, eleito em 2006 como o filme americano mais inspirador da História, em votação promovida pelo American Film Institute, é, nos nossos dias, um filme contra a corrente e contra os discursos dominantes. Com setenta anos de antecipação um filme ‘anti-trumpista’. Um hino ao humanismo e à solidariedade e um libelo contra a usura, a especulação e a obsessão pelo lucro. E, ainda por cima feito por um emigrante… Mas não foram emigrantes os grandes nomes do cinema norte-americano durante boa parte do século XX?

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

CINEMA - "O jovem Karl Marx".

[#Rioblogprog] o diretor Raoul Peck sobre e o Filme ‘O Jovem Karl Marx’: “Vou ao passado para compreender a eleição de Trump”




qui 16/11, 13:33

O diretor Raoul Peck e o Filme  ‘O Jovem Karl Marx’: “Vou ao passado para compreender a eleição de Trump”

1 MAIO, 2017 - INSIDER FILM

O Jovem Karl Marx - (Trailer legendado em português PT)

Raoul Peck é um homem deste tempo. Não só da América que deixa de ser de Obama e passa a ser de Trump, mas também da Europa que parece também seduzida por um nacionalismo que poderá rimar com alguns ‘ismos’ nefastos. Em O Jovem Karl Marx, que agora chega às nossas salas, atreve-se a regressar onde tudo começou, ou seja, ao Manifesto do Partido Comunista, um outro ‘ismo’, até à identificação dos princípios capitalistas que Peck considera gerarem nefastas consequências e vícios atuais; mas refletiu também sobre os ecos do seu outro filme, Eu Não Sou o Teu Negro, o tal documentário que foi nomeado ao Óscar (estreia em maio), onde aborda o privilégio de raça através dos textos e persona do ativista político William Baldwin. Na entrevista que fizemos ao realizador haitiano, no passado festival de Berlim, foram passadas em revista as implicações de ambos esses filmes estranhamente orgânicos.
O realizador politicamente implicado aposta num cinema de causas a admitir certos efeitos. Porque, segundo ele, a democracia não é só votar e ficar sentado no sofá a ver reality shows.
Porque decidiu escolher este momento preciso na vida de Karl Marx, durante a sua juventude até à edição do Manifesto do Partido Comunista?Talvez porque este foi talvez o momento que teve mais impacto naquilo que eu queria mostrar, aquele processo de raciocínio e aproximação à sociedade que mudaria todo o mundo. Esta aproximação não foi apenas feita por dois lunáticos (Marx e Engels), foi um processo baseado na realidade, com uma análise da sociedade. Desde logo pelo livro que Engels escreveu sobre os trabalhadores britânicos – e que Marx considerou fenomenal – encarado como um trabalho duro de pesquisa. O Engels passou muito tempo a fazer inquéritos e recolher material empírico. O trabalho de Marx baseou-se sempre no empenho de muitos outros cientistas, economistas ou filósofos. Portanto, para mim, este filme é importante para mostrar todo esse processo.Acha que este tema continua a ser contemporâneo, mesmo depois da anunciada morte do comunismo?Claro que sim. Para mim é a base. Eu sou aquilo que sou hoje devido a essa estrutura que adquiri quando era ainda jovem a estudar o trabalho do jovem Marx. Estudei em Berlim, nos anos 70 e 80, e essas ideias eram necessárias para nos confrontarmos nós próprios e com esses livros. É o nosso passado e o nosso presente. E faz parte do conhecimento geral, até porque permite compreender a sociedade em que vivemos.Em todo o caso, o capitalismo de hoje é bastante diferente do capitalismo do período que retrata o filme…Tomemos então, por exemplo, o Manifesto do Partido Comunista, alguns dos artigos descrevem com detalhe a crise de 2008. É quase um livro para crianças sobre a história e evolução do capitalismo até hoje. Que outras provas necessitamos? Voltando à pergunta inicial e ao momento que escolhi, porque quis regressar aos fundamentos e instrumentos. Talvez essa seja esse o seu maior legado. O instrumento para analisar de forma mais precisa a nossa sociedade. Também como é hoje. Eu não fiz um filme sobre o passado; vou ao passado para buscar instrumentos e compreender porque o Trump foi eleito.
Era precisamente aí que queria chegar. É que este pedaço de história política é particularmente relevante hoje em dia. E ainda mais nos Estados Unidos. Que tipo de impacto espera que o filme possa ter na sociedade?
Espero que muitas pessoas, em particular os jovens, se possam rever nesta procura, que possam encontrar, não uma receita, mas uma resposta para combater aquilo que se passa hoje. Porque estamos exatamente no mesmo tipo de capitalismo, onde o dinheiro e a riqueza ficam cada vez mais nas mãos de poucos ao passo que uma imensa maioria ficará cada vez mais pobre. Isto é a História a repetir-se. O que o Marx nos forneceu foi um instrumento científico para compreender e analisar cada momento desta sociedade. Um momento que começou com a revolução Industrial e que continua até hoje.
De que forma este filme e o documentário Eu Não Sou o Teu Negro se interligam?
Ambos os temas mudaram a minha vida e em épocas próximas. Conheci o trabalho de William Baldwin quando era ainda muito jovem, com 17 anos; e descobri Marx aos 18 anos. Ambos estruturaram a minha mente; de uma forma diferente. São, por assim dizer, as duas pernas com que caminho. No meu filme, Baldwin diz que “o branco é uma metáfora do poder”, o que é uma outra forma de dizer “Chase Manhatan Bank”. Os analistas de Marx não dizem nada de diferente, apenas encaram numa perspetiva semelhante. A raça é apenas uma emanação do capitalismo. É como o tema dos refugiados; não se trata da cor dos refugiados, é o capitalismo a fazer o seu papel, ou seja, a separar pessoas, dividindo-as e uma certa classe a proteger os seus privilégios.
Eu Não Sou o Teu Negro foi nomeado para um Óscar. Qual é a importância que dá a essa distinção?Enquanto cineasta é importante ser reconhecido pelos meus pares, mas ao mesmo tempo já tenho idade para não ser abalado por essa ideia. Foi bom, mas o mais importante é trazer a obra de Baldwin, um autor acutilante, uma mente brilhante, extremamente relevante hoje em dia. Tudo o que ele diz no filme foi escrito há 50 anos atrás. Tem o mesmo peso do que se tivesse escrito hoje essas palavras. Por aí conseguimos analisar toda a situação do que se passa hoje na América. Para mim, foi importante voltar a essas referências fundamentais. Hoje vivemos num mundo estranhamente nublado, onde não sabemos bem o que são notícias ou eventos falsos, o que é opinião, quando um Presidente pode afirmar que o aquecimento global não existe.Em que momento na sua vida decidiu abandonar a agenda de ativismo politico e passar a ser também um cineasta?Eu vim para a Alemanha com 18 anos, que era um país muito político mas também cultural. Não foi imediato que o cinema pudesse ser um veículo político. Entretanto, estudei engenharia industrial e iniciei depois um mestrado. Provavelmente seguiria uma carreira nessa área. Entretanto, decidi fazer um exame na escola de cinema. Mas sempre com a ideia de regressar ao Haiti e usar o cinema não como entretenimento, mas como forma de transmitir conteúdo. E cheguei numa altura após uma geração anterior empenhada num cinema militante.E como eram as coisas no seu pais nessa altura?Nessa altura, vivíamos uma ditadura no Haiti. O Jean-Claude Duvalier, o “baby doc”, era Presidente. Um grupo de estudantes que tinha vindo antes de mim, regressou ao Haiti, mas foram todos mortos. A CIA já tinha informado o governo que era ativista. Eu sabia que teria também de regressar ao Haiti. Regressei um pouco à arena política, na luta contra a ditadura. Muitos dos meus amigos eram pessoas da SWAPO, ANC, da Nicarágua, Brasil, Irão, Turquia. Estávamos todos juntos na rua a lutar contra a política de Reagan. Essa foi a minha educação. Lembro-me quando estava na escola de cinema, de trabalhar na televisão e de me chamarem traidor. Isso foi nos anos 80. Nesses dias, ter um emprego na televisão era considerado um “vendido”. Imaginem agora…
Acha que aquele momento, no filme, em que se preparava uma revolução pode estar também para chegar?
Para quem sabe, a revolução de 1848 acabou em desastre. Foi o acordar de toda a Europa, mas a repressão foi tremenda. É um processo que avança e recua, mas não é sempre retrocesso. Faz parte do processo, mas o processo somos nós. Nós é que decidimos o que fazer. A resposta a Trump é a manifestação, claro, mas passado esse momento, o que podemos fazer? Isso dá trabalho.
Esse é um processo que já dura há algum tempo…
Sim, nos EUA começou em 1973 com a primeira crise do petróleo; a Europa e o mundo ocidental foi abalado, porque foi um ataque a toda esta construção; 80% da produção foi para a Europa e EUA, mas os nativos revoltaram-se. O que acabou em crise económica. Entretanto tivemos Reagan, Thatcher, com a destruição dos sindicatos e organizações progressivas. Tudo isso tem consequência. Por isso, hoje quando os movimentos “Black Lives Matter” ou “Ocuppy Wal Street” iniciam um protesto não têm a mesma liderança, pois os sindicatos não têm a mesma força financeira que antes para assegurar a eficácia desse movimento.
Não deixa de ser curioso o final do filme, em que diversas revoluções se conjugam ao som do tema de Dylan, Like a Rolling Stone. Foi propositado?
Claro. É a mesma História. Está tudo ligado. Eu mostro a crise de 1929, mostro o Vietname, Mandela, Che Guevara, o Muro de Berlim…
Acha que a Presidência de Obama foi um progresso?
Sim. Mas a mudança foi estrutural. O Baldwin tem uma frase sobre o Obama, embora não seja sobre o Obama, claro. O jornalista perguntou-lhe como seria quando tivesse o primeiro Presidente negro. E ele respondeu que a questão não era quando, mas de que país seria esse Presidente. No sentido de saber se as pessoas se levantam par afazer alguma coisa ou se ficam a observar o que se passa. Nos EUA se não tivermos influência sobre os congressistas os “lobbys” terão. A democracia não é votar e ficar no sofá a ver reality shows. Isso não é democracia. A democracia é feita de cidadãos ativos, em que se questiona tudo.
Fala de democracia, mas a televisão, o cinema e até a internet não nos transformam também hoje em meros espetadores?
Isso faz parte da nossa indústria, claro. No meu filme, Baldwin viveu numa altura em que existiam apenas três canais americanos nacionais. Ou seja, a indústria trabalhou da mesma forma que os narcóticos. E isso foi antes de todos os reality shows. É esse o desenvolvimento dos media capitalistas. É o mundo das grandes companhias. Por exemplo, o tipo de liberdade argumentativa que os jornalistas têm hoje já quase não se vê. É esta a realidade. Por isso é mais difícil de lutar. Ficámos mais preguiçosos, mas sabemos que depois a queda do Muro de Berlim, o capitalismo venceu e não há nada a fazer. Não há mais história. Só que a crise de 2008 acordou-nos. Mas também fez com que muitos jornais económicos colocassem Marx na primeira página. Se calhar, ele tinha razão… Agora vem Trump que quer desregulamentar tudo outra vez. Porquê? Porque não demos uma resposta. Ainda estamos letárgicos, sem organização.
Esta entrevista também foi publicada em Insider.


O Jovem Karl Marx - (Trailer legendado em português PT)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

CINEMA - "Garrafas ao mar"


"Garrafas ao mar": um filme imperdível

Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:

Poder falar de notícias boas dois dias seguidos é muito raro, mas acontece. Acabei de assistir agora ao filme Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças, de Geneton Moraes Neto, na Globo News, uma obra-prima de documentário, aula imperdível de jornalismo e de Brasil.

Em 90 minutos, Geneton resume a vida e a obra de Joel Silveira, "a víbora", o maior repórter brasileiro de todos os tempos. É o resultado de um trabalho que durou 20 anos de entrevistas - o repórter mais novo arrancando do repórter mais velho, passo a passo, com paciência e método, as mais incríveis lembranças sobre os personagens que fizeram a história recente do nosso país.

Da primeira à última cena, músicas, imagens, textos (interpretados por Othon Bastos, Carlos Vereza e Fagner) e depoimentos, tudo na medida certa, no ponto certo, vão nos contando o que aconteceu nos últimos 60 anos no Brasil e no mundo, na visão sempre crítica, irônica, implacável e, ao mesmo tempo, bem humorada, de Joel Silveira.

Geneton acompanhou os últimos anos de vida de Joel até a morte, em 2007, resgatando a memória deste fantástico repórter sergipano, desde a sua vinda do Recife para o Rio de Janeiro.

O volume de informações é tamanho, emendando uma história na outra, que você não consegue despregar os olhos da tela nem para buscar um copo d´água.

Ditadura Vargas, Segunda Guerra Mundial, a vida deslumbrada dos ricos paulistas, o golpe de 1964, histórias de papas e de presidentes, de grandes escritores e vítimas anônimas, tudo vai-se sucedendo com a maior naturalidade, como se fosse um papo de boteco sem hora para acabar.

Os grandes filmes costumam passar primeiro nos cinemas e levam tempo para serem exibidos na televisão. Neste caso, acho que o documentário do Geneton sobre o Joel Silveira deveria fazer a trajetória inversa: ser logo programado para exibição nos cinemas, vendido em DVDs, adotado nas escolas de jornalismo como matéria obrigatória.

Como vocês podem perceber, escrevo este texto encantado com o que acabei de ver nesta manhã de domingo, e ainda mais apaixonado pela profissão de repórter, que nunca vai acabar, enquanto existirem jornalistas com a paixão de Joel e Geneton. Embora cada vez mais raros, eles continuam produzindo matéria-prima para os historiadores do futuro.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CINEMA - " O capitalismo nos levou à beira da ruína"

Cineasta João Amorim: 'Capitalismo nos levou à beira da ruína'

Portal Vermelho


"O capitalismo global nos levou à beira da ruína", afirmou o cineasta João Amorim, autor do documentário 2012: Tempo de Mudança, que conta entre seus protagonistas com o cantor Sting e o diretor David Lynch.

O filme, que aposta em uma mudança global no modo de ver o mundo, será exibido na Semana Internacional de Cinema de Valladolid (Seminci), na sessão Tempo de História.

Amorim explicou nesta quinta à Agência Efe que essa mudança deverá ocorrer "por meio de um alinhamento com a natureza e o uso de princípios socialmente mais justos".

O jornalista Daniel Pinchbeck é o narrador do documentário, que também contou com a participação de rostos conhecidos como a atriz Ellen Page.

Para Amorim, indicado aos prêmios Emmy e especialista em animação e documentário, os protestos que estão surgindo em diversas cidades do mundo fazem parte dessas mudanças que deverão surgir devido ao colapso do "capitalismo global".

O financiamento foi um dos impedimentos que seu trabalho enfrentou, já que teve de reduzir "drasticamente seu orçamento" após começar a produzir o filme, afirmou o diretor, que considerou que o atual momento de crise desperta o interesse por seu documentário.

Inspirado no livro 2012, O Retorno de Quetzalcoatl, o projeto nasceu em 2006 quando o diretor leu esta obra escrita por Daniel Pinchbeck.

"No início eu era cético, mas após ler o livro me identifiquei com a ideia de que todas as crises que vivemos – econômica, militar e ambiental – são da consciência humana", concluiu Amorim.

Fonte: UOL

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CINEMA - A volta das patrulhas ideológicas.

Do BLOG DEMOCRACIA&POLÍTICA.

A VOLTA DAS PATRULHAS IDEOLÓGICAS

LUIZ CARLOS BARRETO

"Em vez de falar da obra, os críticos escolheram contestar o direito que todo cineasta tem de fazer um filme sobre o assunto que bem entender

A abertura do Festival de Brasília, 17/11/09, primeira exibição pública de "Lula, o Filho do Brasil". Enquanto o filme se desenrolava na tela, já estava em curso o massacre político promovido por um exército de escribas, comentaristas políticos, colunistas sociais improvisados, ex-militantes políticos de aluguel, cientistas políticos de plantão convocados a se manifestar apenas do ponto de vista especulativo sobre seu potencial político-eleitoral, afirmando que a eleição presidencial de 2010 seria decidida a partir da força emocional do filme.

Além da ingenuidade infantil dessa tese (ou de sua má-fé?), o que eles questionavam era o nosso direito de fazer um filme sobre o assunto que escolhemos. Pode-se fazer filmes sobre Bush, Berlusconi ou Mitterrand pelo mundo afora, como tem acontecido. Pode-se fazer filmes sobre Getúlio, Juscelino, Tancredo, Jânio ou o empresário Boilesen. Mas sobre Luiz Inácio da Silva, não.

Há os que viram (mais de 800 mil pessoas), os que não viram ainda e os que viram, mas não quiseram ver o filme como um filme com todos os seus méritos e valores cinematográficos, como testemunharam e assinaram embaixo Ziraldo ("Uma história bem contada e bem filmada. Impossível não se comover"), Zuenir Ventura ("O filme mexe com a emoção e vai inundar os cinemas de lágrimas") e Cacá Diegues ("A história de vida que esse filme conta com muita emoção nos ajuda a compreender melhor o valor da democracia, do direito de todos à liberdade e oportunidade").

Falar dos méritos e eventuais deficiências desse filme de Fábio Barreto era uma obrigação dos críticos, e é claro que todo mundo tem direito de externar sua opinião, de gostar ou não gostar do filme que viu.

Mas, de tudo que li, poucos tiveram a honestidade intelectual e profissional de criticar o filme como uma obra cinematográfica, escolhendo contestar o direito que qualquer cineasta tem de fazer um filme sobre o assunto que bem entender. A maioria dos que escreveram sobre "Lula, o Filho do Brasil" preferiu este último caminho elitista, censor e autoritário.

Esse processo revela o espírito "patrulheiro" que ainda resta no Brasil como sequela do período autoritário da ditadura militar, quando Cacá Diegues denunciou as patrulhas ideológicas. O espanto é que, em pleno regime democrático que o Brasil vive e respira, haja lugar para esses procedimentos e expedientes antidemocráticos.

A democracia não é o regime que deve silenciar aqueles com os quais não concordamos, eliminá-los ou evitar que eles se manifestem. Na democracia, quando não estamos de acordo com alguma ideia que nos incomoda, produzimos a nossa para que haja um confronto livre entre as duas e a população possa escolher a sua alternativa. Mas os nossos detratores preferiram contestar nosso direito de realizar o filme, manifestando seu desejo antidemocrático de que esse filme jamais fosse feito ou exibido.

Toda a engenharia financeira foi montada às claras e de forma transparente. Desde a partida, decidimos não utilizar nenhuma forma de renúncia fiscal nem buscar o aporte de empresas estatais. Mesmo assim, levantaram-se dúvidas e insinuações de que estávamos utilizando recursos incentivados, acusações que serviam e serviram para provocar antipatia ética pelo filme, pondo em segundo plano suas qualidades cinematográficas.

Agora estamos reformulando algumas estratégias do lançamento comercial, que está iniciando sua sexta semana e já acumula mais de 800 mil espectadores, e sabemos que ainda resta muito chão pela frente, seja no sistema convencional de exibição em salas, seja no sistema alternativo de exibição, que vai levar o filme a uma grande parte de 90% dos municípios do Brasil que não têm cinema.

É lá no Brasil profundo, a preços populares e condizentes com o poder aquisitivo dessas populações, que iremos atingir o público alvo do filme: os Silvas deste país, que precisam e querem conhecer o exemplo de força, persistência e superação de Dona Lindu e seus oito filhos, exemplo que vai correr o mundo em telas de cinema, TV aberta, cabo, DVD e internet.

Nesse sentido, já temos estreias marcadas na Argentina, no Chile, no Uruguai e no Paraguai ainda neste primeiro semestre de 2010, e na Colômbia, no Peru, na Venezuela, no Equador, na Bolívia e no México no segundo semestre de 2010.

Qualquer mudança nessa trajetória do nosso pau de arara cinematográfico, informaremos, na certeza de que não vamos influir nas eleições de nenhum outro país.

Queremos apenas ter o direito de contar e ver acompanhada pelo público uma história que julgamos relevante para a consolidação da autoestima de nosso povo, para a consolidação de nossa democracia e para o progresso do cinema brasileiro como um todo."

FONTE:
escrito por LUIZ CARLOS BARRETO, 81, produtor cinematográfico. Produziu, entre outros filmes, "Lula, o Filho do Brasil", "Dona Flor e seus Dois Maridos" e "O que É Isso, Companheiro?". Publicado hoje (07/02) na Folha de São Paulo.

CINEMA - Filme com Cháves.

Oliver Stone teme censura mídia em filme com Chávez

O blog sobre cinema de O Globo publica hoje uma entrevista de Rodrigo Fonseca com o cineasta americano, vencedor de dois Oscar com “Platoon” e “Nascido em 4 de julho” . Stone diz que está tentando que seu filme South of The Border, lançado este ano no Festival de Veneza, não sofra o mesmo boicote que outros, por não ter uma visão hostil a Chávez.

— Tenho muito carinho por esse documentário. Ele foi feito no espírito de flagrar a cobertura hipócrita que a mídia americana deu a Chávez, chamando-o de ditador. A América Latina hoje tem um time de governantes, Lula entre eles, que se preocupam em ouvir quem passa fome.

Stone fala até sobre a candidatura Dilma, provocado pelo repórter:

— Não conheço a mulher (Dilma Rousseff) que Lula escolheu para concorrer nas eleições. Mas, se foi escolha dele, ela deve ser uma política progressista, e isso é um convite aos ataques dos que detêm o controle bancário no Brasil. O segredo para ela é reconhecer desde já aqueles que podem se tornar seus inimigos.

Ele está finalizando um filme sobre o mundo das finanças – “Wall Street: o dinheiro nunca dorme” - e cuidando do lançamento do documentário sobre a Venezuela:

-É importante o cuidado com “South of the border”, porque eu sofri um boicote cultural nos EUA com um projeto de formato similar, o documentário “Comandante”, no qual filmei Fidel Castro. Ele não foi lançado nos cinemas americanos, e os canais de TV daqui se recusam a exibi-lo. E ainda dizem que este país não tem censura.

A propósito, o repórter comete um ato falho. Ao escrever sobre o filme – de grande sucesso de Stone, JFK, a pergunta que não quer calar, sobre o assassinato de John Kennedy, escreve Chávez, a pergunta que não quer calar.

Tudo bem, não quer calar também a pergunta sobre por que o filme não pode ser visto logo, sem boicotes.

Brizola Neto