Mostrando postagens com marcador AMÉRICA LATINA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador AMÉRICA LATINA. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de março de 2016

AMÉRICA LATINA - O papel dos militares.


FORÇAS ARMADAS

O papel dos militares na América Latina

As Forças Armadas perderam influência após os golpes do século XX e países da região não sabem o que fazer com seus militares

 
O papel dos militares na América Latina
Brasil é um dos países que tem colaborado mais com as missões de paz da ONU (Foto: Wikipédia)
Tanques nas ruas fizeram parte da política da América Latina durante boa parte do século XX, mas hoje é difícil imaginar as Forças Armadas retomando o poder. Em uma região livre de guerras, os governos latino-americanos ainda não resolveram como empregar seus militares.
As Forças Armadas perderam influência política rapidamente nas últimas décadas. Em apenas dois países – Venezuela e Cuba – militares continuam a desempenhar um papel político importante. O atual presidente de Cuba, Raul Castro, foi durante muitos anos o general mais poderoso do país, e as Forças Armadas ainda controlam pelo menos metade da economia cubana.
Leia também: Motivos para apoiar a desmilitarização da Polícia Militar no Brasil
Na Venezuela, Chávez transformou o exército em uma filial do seu movimento político. Sob seu sucessor, Nicolás Maduro, oficiais militares mantêm muitos cargos no governo, e as Forças Armadas construíram um império de negócios. Mas há sinais de que o exército está recuando para uma posição mais institucional.
A principal ameaça à segurança da região é o crime organizado. Vários governos enviam tropas para combater traficantes e outros criminosos comuns. Mal preparados para a tarefa, eles muitas vezes acabam matando inocentes. Os militares também estão respondendo a catástrofes naturais, que estão acontecendo com mais frequência devido às mudanças climáticas. Há, também, missões de paz da ONU, com as quais a região está colaborando mais.
Mas os exércitos estão inchados demais para esse papel limitado. O crescimento econômico acelerado da década de 2000 inflou orçamentos de defesa. Para reforçar sua imagem de potência mundial, o Brasil embarcou numa farra de gastos que incluiu a compra de submarinos e caças sofisticados. Agora, seu orçamento está pressionado.
Os latino-americanos querem policiais mais bem equipados e remunerados. Já é tempo de um ajuste das prioridades e das despesas na área da segurança.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Para onde vai a América Latina?

AS tempestades que rondam a América Latina.

As tempestades que rondam a América Latina


"Vai terminando a primeira grande onda de governos populares. Retrocessos começaram, mas haverá resistência". O comentário é de Raul Zibechi em artigo publicado por CartaCapital, 09-12-2105. Tradução de Gabriel Filippo Simões.
Eis o artigo.
O fim do ciclo progressista implica na dissolução de hegemonias e no início de um período de dominação, de maior repressão aos setores populares organizados. Até agora, temos comentado as causas do fim desse ciclo; agora é preciso começar a compreender as consequências – tremendas, pouco atraentes, demolidoras em muitos casos.
A recente eleição de Mauricio Macri na Argentina é uma guinada à direita que reacende a chama do conflito social. A resposta dos editores do conservador jornal La Nación, na forma de um editorial que defende abertamente o terrorismo de Estado é uma amostra do que está por vir, mas também das resistências que o projeto da direita tradicional terá de enfrentar.
Não estamos diante de um retorno aos anos 1990, marcados pelo neoliberalismo e privatizações, pois os de baixo estão numa situação diferente: mais organizados, com maior autoestima e mais entendimento do modelo que os oprime. Acima de tudo, com maior capacidade de confrontar os poderosos. Experiências coletivas não acontecem em vão – deixam marcas profundas, sabedoria e modos de fazer que neste novo estágio irão desempenhar um papel decisivo, na necessária resistência às novas direitas.
O período que se inicia em toda a América do Sul, quando o presidente Rafael Correa já anunciou que não pretende se reeleger [presidente do Equador], será de forte instabilidade econômica, social e política; de crescente interferência militar do Pentágono; de novas dificuldades para a integração regional, que já passa por sérios problemas; de deterioração nas condições de vida dos setores populares, cujos rendimentos começaram a se corroer nos últimos dois anos.
Nesta nova conjuntura, penso que algumas questões são centrais:
A primeira é que não haverá forças políticas capazes de gerar um mínimo de consenso em torno dos governos, tal como os governos progressistas conseguiram obter em sua primeira fase. Não haverá consenso em governos como o de Macri; mas convém lembrar que a hegemonia de Lula foi quebrada durante o segundo mandato de Dilma Rousseff. O mesmo ocorreu nos governos de Tabaré Vázquez, Rafael Correa e Nicolas Maduro, embora com causas diferentes.
Quando a hegemonia se esvai, a lógica de dominação se impõe, o que nos leva diretamente à exacerbação dos conflitos de classe, gênero, geração e étnico-raciais. A tríade dominação-conflitos-repressão vai afetar (já está afetando) as mulheres e os jovens dos setores populares, as principais vítimas da guinada sistêmica à direita.
A segunda questão a ser considerada é que o modelo político-econômico é mais importante e decisivo do que as pessoas que o conduzem e administram. Nas esquerdas, ainda temos uma cultura política muito centrada nos caudilhos e líderes – que sem dúvida são importantes, mas que não são capazes de ir além dos limites estruturais que o modelo impõe sobre eles. O extrativismo é o grande responsável pela crise que assola a região, pelo desgaste que os governos sofrem e, grosso modo, é o fator principal que explica a guinada à direita das sociedades.
Ao contrário do modelo industrial de substituição de importações, que gerou inclusão e promoveu o desenvolvimento social, o atual modelo extrativista gera polarização social e econômica e conflitos nas comunidades, além de destruir o meio ambiente. Portanto, é um modelo que produz violência, criminalização da pobreza e militarização das sociedades e dos territórios de resistência.
A incapacidade dos governos progressistas de abandonar o modelo extrativista e a vontade expressa das neodireitas de aprofundá-lo anuncia tempos dolorosos para os povos. A recente tragédia em Mariana (Minas Gerais) causada pela ruptura de duas barragens da mineradora Vale, provocando um gigantesco tsunami de lama que cobriu campos cultivados e vilarejos inteiros, é uma pequena amostra do que nos espera caso um limite não seja colocado ao modelo mineração-soja-especulação.
Em terceiro lugar, o fim do ciclo progressista supõe o retorno de movimentos antissistêmicos ao centro do cenário político, do qual eles haviam sido deslocados pela centralidade da disputa entre governos e oposição conservadora. Mas os movimentos que estão sendo ativados não são os mesmos, nem possuem os mesmos modos de organização e prática, dos que encabeçaram as disputas dos anos 1990.
Na Argentina, o movimento dos piqueteros não existe mais, embora tenha deixado profundos vestígios e lições, além de um setor organizado que trabalha nas villas das grandes cidades, com novos tipos de iniciativas tais como as casas populares de mulheres e secundaristas. Os movimentos camponeses, como o dos Sem Terra, transformaram-se devido à expansão geométrica da soja. Mas novos atores, mais complexos e diversos, emergem; deles participam, entre outros, os afetados pela mineração ou agrotóxicos, bem como ampla gama de profissionais de saúde, educação e mídia.
A impressão é de que estamos assistindo a novas articulações, acima de tudo nas grandes cidades, onde os protestos contra a desigualdade e por mais democracia extravasam as trincheiras de partidos e sindicatos e também dos movimentos da década neoliberal das privatizações.
Por fim, o ciclo progressista deve se fechar com uma análise clara dos erros cometidos pelos movimentos. Seria desmoralizante para os mesmos que no próximo ciclo de lutas se repetissem os mesmos erros que afetaram sua autonomia nos últimos anos. É provável que a maior dificuldade para o enfrentamento consista em saber como acomodar a dupla atividade dos movimentos: as lutas contra o modelo (a defesa de espaços próprios, mobilização e formação) e a criação do novo em cada espaço e tema possível (saúde, produção, habitação, terra e educação).
Enquanto ações nas ruas nos permitem impedir ataques vindos de cima, a criação do novo é caminhar na direção da autonomia. Estas são maneiras que aprendemos de continuar navegando em meio às tempestades.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

AMÉRICA LATINA - Uma eterna desconhecida.


O que o brasileiro médio sabe da América Latina?
Carta Maior
Adital
Por Wagner Iglecias

No ofício de professor universitário e ligado a um programa de pós-graduação sobre Integração da América Latina sempre que posso recomendo à garotada de graduação que assim que tiverem tempo e algum dinheiro metam uma mochila nas costas e saiam pelo nosso continente.

Nunca vi nenhuma pesquisa sobre o que e o quanto de América Latina o brasileiro médio sabe. Mas posso apostar que é muito pouco. Provavelmente menos até do que nossos vizinhos conhecem sobre o nosso país. E de maneira ainda mais superficial. E isso é sim um problema. Num mundo globalizado e dividido em grandes blocos como hoje, nada mais estratégico do que a aproximação com as nações com as quais um país tem identidades históricas, geográficas, culturais e econômicas.

Suponho que os séculos em que América hispânica e a América lusitana estiveram mutuamente de costas uma para a outra colaboraram para nossa ignorância sobre o que se passa aqui pertinho da gente.

Aliás o próprio termo América Latina é invenção forânea, européia. Coisa de franceses, no início do século XIX. Dizem que Napoleão III desejava assenhorar-se desta parte do mundo recém-liberto do jugo espanhol e português. Queria impedir que a Inglaterra, anglo-saxônica, o fizesse. Daí o recurso napoleônico à nossa latinidade em comum, entre nossos jovens países desta parte do mundo com a França.

Mas bote-se aspas nesse "em comum”, já que naquela altura do campeonato por essas bandas talvez só a pequena elite branca descendente de espanhóis e portugueses tivesse alguma identidade cultural e linguística com a nobreza europeía. De resto, éramos nações predominantemente indígenas, negras ou mestiças.

A França, a bem da verdade, chegou até a emplacar um governo no México já independente. Botou no poder Maximiliano de Habsburgo, um nobre austríaco, que governou aquele país entre 1864 e 1867, mas que acabou deposto e assassinado por nacionalistas mexicanos. Foi um projeto frustrado, e quem na verdade conseguiu levar a América Latina para sua área de influência foi a Inglaterra, e, mais tarde, os EUA.

A elite brasileira, portanto, há muito tempo tem parte nessa nossa ignorância sobre a vizinhança. Mas para além de séculos de História olhando pro Atlântico e de costas para a América Latina, nossa escola e nossa imprensa também têm suas parcelas no desconhecimento quase completo que o brasileiro médio tem sobre nossos vizinhos. É pouquíssimo o que se ensina sobre América Latina para nossas crianças e adolescentes. Provavelmente o assunto mais abordado seja a Guerra do Paraguai, sempre naquela versão oficial de que Solano Lopez era um terrível ditador que pôs em risco a soberania de três jovens nações democráticas como Argentina, Brasil e Uruguai.

Heróis de esquerda ou de direita da libertação da América Latina, como San Martin, Sucre, Hidalgo, Artigas, O´Higgins ou Simón Bolívar, provavelmente jamais foram citados na maioria das nossas escolas. Bolívar, aliás, que mais do que um brilhante militar foi um pensador com sólida formação intelectual, passa inclusive em brancas nuvens em muitos cursos de Ciência Política das universidades brasileiras, os mesmos nos quais Jay, Madison e Hamilton, pais fundadores dos EUA, são leitura obrigatória.

E a imprensa? Quantos correspondentes do jornalismo pátrio temos na América Latina? Muito poucos. Dizem que no passado foram até mais, não sei. Quais os temas historicamente recorrentes nas nossas tevês, revistas e jornais sobre nossos vizinhos? Copa Libertadores da América de futebol, crise econômica argentina, o regime cubano, o comércio popular na fronteira paraguaia, o tráfico de drogas, a Copa do Mundo de 1970 no México...e vamos parando por aí. O brasileiro médio conhece quais personagens latino-americanos? Maradona, Fidel Castro, Hugo Chávez e o Cháves, do SBT. E tirando este último, provavelmente odeia os outros três.

Fato é que não sabemos quase nada da região do mundo na qual estamos inseridos. Nossa elite branca e endinheirada sempre olhou para a Europa (primeiro Lisboa, depois Paris e Londres), e de algumas décadas pra cá tem Nova York e Miami como parâmetros. Não que as elites argentina, venezuelana ou mexicana, ou qualquer outra, sejam muito diferentes. Mas enfim, nossa elite tem como modelo os países ricos, e nutre ódio mortal por Cuba e seu regime socialista.

Detesta também governos de esquerda mais recentes da região, como nos casos de Venezuela e Argentina. Os termos venezuelização e argentinização, cada vez mais usados em nosso país, que o digam. Nossa elite talvez até nutra alguma simpatia pelo uruguaio Mujica, que apesar de esquerdista tem sua agenda liberal de governo, calcada em direitos civis como união homoafetiva e legalização da maconha. E nossa elite não tem formação e informação suficientes para compreender outros governos de esquerda do continente, como a Bolívia ou o Equador. Na dúvida, porém, dá-lhe adjetivos como populistas e caudilhos a quaisquer governantes nacionalistas que surjam na vizinhança.

Para a grande maioria de nós, brasileiros, seja nossa elite, seja o cidadão médio influenciado por ela, países como a Bolívia e o Peru são no máximo destinos turísticos exóticos. Colômbia e Venezuela, para além dos estereótipos propagados na imprensa, seriam apenas rota de passagem nas viagens aos EUA. O Equador e os países da América Central são tão conhecidos entre nós quanto a Tailândia, Moçambique ou a Bulgária. E o que dizer de Guiana e Suriname, que a rigor não são latino-americanos culturalmente falando, mas que se proclamam cada vez mais sul-americanos? Bem, para o brasileiro médio talvez a Guiana e o Suriname sejam tão familiares quanto Netuno e Plutão. É uma pena!

(*) Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP.

segunda-feira, 25 de março de 2013

AMÉRICA LATINA - Comissão Interamericana de Direitos humanos


Para entender a luta travada em torno das mudanças na CIDH-OEA

Bastante noticiadas pelos jornais - principalmente por O Globo e também, ainda que em menor escala, pelo Estadão -, as mudanças na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) escondem a disputa política sobre o papel e o controle politico da Comissão.

De um lado temos os Estados Unidos e de outro os países bolivarianos, sem Cuba que não integra a OEA desde 1962, quando foi excluída na conferência continental de Punta Del Leste e os EUA decretaram o mais longo e cruel bloqueio econômico a um país (a Ilha), e sem a Venezuela, que abandonou o sistema de direitos humanos da entidade.

Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Nicarágua, Peru, e Uruguai ficaram entre as duas posições buscando uma solução, uma saída que contornasse o impasse e o risco da retirada de mais três países do sistema, que inclui a CIDH-OEA e o Tribunal Penal Internacional (TPI) do continente, em San José na Costa Rica.

Países reclamam com razão do uso político da entidade


Os países sob risco de sair do sistema reclamam com razão do uso politico da Comissão a partir de ordens de Washington. Que, aliás, faz o mesmo em relação a toda a OEA. Daí a proposta de mudança da sede de funcionamento da CIDH-OEA, hoje na capital norte-americana. Os países denunciam, também, que os financiamentos externos comprometem a independência da Comissão e a submetem aos interesses norte-americanos.

Mas a principal questão e impasse nesta discussão em torno das mudanças é a relatoria especial sobre liberdade de expressão. Esta relatoria hoje é controlada e  vive a serviço dos donos da mídia da região (Américas do Sul e Central), apoiados pelos Estados Unidos, e da entidade que congrega estes barões empresários de comunicações, a velha Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).

A batalha principal, então, é o monopólio e o papel político da mídia contra os governos desses países, exercido por esta mídia associada à SIP. A batalha é contra a oposição que esta imprensa e seus donos fazem à democratização e à regulação da mídia, o que, repito, não tem nada a ver com censura ou restrição à liberdade de imprensa.

Pelo contrário, tem a ver, sim - e tudo a ver -, com a sua ampliação e a garantia da liberdade de imprensa, hoje ameaçada pelo controle monopolista e político que alguns grupos econômicos e políticos têm sobre os meios de comunicação no continente. A propósito dessa batalha na CIDH-OEA, leiam no portal Opera Mundi o texto América Latina defende menor influência dos EUA na comissão de direitos humanos da OEA.

sexta-feira, 8 de março de 2013

"UMA AMÉRICA LATINA MAIS INDEPENDENTE...."

Mark Weisbrot: “Uma América Latina mais independente dos EUA e o legado de Chávez”

redecastorphoto

6/3/2013, Mark Weisbrot, Commondreams

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Mark Weisbrot

Bertrand Russell escreveu, sobre o revolucionário norte-americano Thomas Paine, que “tinha defeitos, como qualquer homem; mas foi por suas virtudes que foi odiado e caluniado com sucesso”.

Não poderia ser mais verdadeiro, dito de Hugo Chávez Frias, que foi provavelmente mais demonizado que qualquer outro presidente eleito na história do mundo. Mas continuou a ser reeleito por amplas maiorias, e foi chorado hoje, não só pelos venezuelanos, mas por muitos latino-americanos capazes de avaliar o que fez pela região.

Chávez sobreviveu a um golpe de Estado patrocinado por Washington e a greves das petroleiras que por pouco não destruíram a economia da Venezuela, mas obteve afinal o controle sobre a indústria do petróleo, seu governo reduziu a pobreza à metade e a extrema pobreza a menos de 30% do que era ao chegar à presidência. Milhões de pessoas ganharam acesso à assistência gratuita à saúde pela primeira vez na vida, e o acesso à educação aumentou muito, com o número de matriculados nas universidades duplicado e cursos absolutamente gratuitos para muitos. O número de aposentados triplicou. Chávez cumpriu promessa de campanha, de partilhar com a maioria dos venezuelanos a riqueza do petróleo do país. E tudo isso é apenas uma parte de seu legado.
Venezuelanos lamentam a morte de Hugo Chávez em frente ao Hospital Militar, em Caracas, onde ele morreu na terça-feira (5/3/2013).

Chávez deixa também, como legado seu, a segunda independência da América Latina, sobretudo da América do Sul, que é hoje mais independente dos EUA que a Europa.

Sim, nada disso teria acontecido sem os amigos próximos e aliados de Chávez: Lula no Brasil, os Kirchners na Argentina, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correano Equador e outros. Mas Chávez foi o primeiro presidente que a esquerda elegeu nos últimos 20 anos, e teve papel muito importante; assistam ao que dirão dele todos esses presidentes, e todos perceberão que essas falas serão mais significativas e muito mais importantes que a maioria dos obituários, antiobituários e comentários de “especialistas”. Todos esses governos do campo da esquerda obtiveram avanços notáveis na redução da pobreza, no aumento do emprego e na melhoria das condições gerais de vida, especialmente para as vastas maiorias mais pobres – e seus partidos também foram repetidas vezes eleitos e reeleitos.
Presidentes latino-americanos continuamente eleitos e reeleitos

Para esses outros presidentes democráticos, Chávez é visto como parte dessa revolta continental que se fez pelas urnas e que transformou a América do Sul e aumentou a participação política e as oportunidades para maiorias e minorias sempre, antes, excluídas.

É altamente provável que esse processo prossiga na Venezuela depois da morte de Chávez. Seu partido tem mais de 7 milhões de filiados e já mostrou competência para vencer eleições, mesmo sem contar com Chávez em campanha nas eleições locais de dezembro passado, quando os chavistas venceram em cinco governadoratos e em 20 de 23 estados.

As relações com os EUA dificilmente melhorarão. O Departamento de Estado e o próprio presidente Obama distribuíram várias declarações hostis durante os meses da doença de Chávez, o que indica que, faça o que fizer o próximo governo (sob a provável presidência de Nicolas Maduro), Washington continuará sem trabalhar para melhorar essas relações. 

domingo, 2 de maio de 2010

AMÉRICA LATINA - Entrevista com Hugo Chaves.

Do blog TIJOLAÇO, do Brizola Neto.

Chavez, o polêmico, fala hoje na Rede TV

Reproduzo abaixo, para conhecimento de todos, o resumo da entrevista que o presidente venezuelano Hugo Chávez concedeu a Kennedy Alencar, que vai ao ar na madrugada (0h15min) de amanhã, no programa É Notícia, da Rede TV. Chávez é hoje o personagem mais polêmico da América. Latina.

Na entrevista que concedeu à Folha, bem mais completa que este resumo, Chávez diz que o setor estatal da economia do seu país não chega a 30% e que ele está muito longe de pretender o fim da inciativa privada. fala sobre liberdade dew imprensa e sobre as concessões não-renovadas de canais de televisão. Acho imperdível para que quer saber mais sobre este personagem que mobiliza ódios e amores. E um fenômeno de comunicação que, em três dias e meio , quase sem mandar mensagens, passou de 165 mil seguidores no Twitter, como você vê aí ao lado.

Vou tentar gravar para colocar aqui, amanhã, mas não prometo. Não tenho muita habilidade nisso, muito menos estrutura. Mas tentar a gente tenta.

Chávez se revela um homem crente e fala do dia mais difícil de sua vida

KENNEDY ALENCAR
da Sucursal de Brasília

Em entrevista concedida ao repórter da Folha na Embaixada da Venezuela, em Brasília, na última quarta-feira, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, relembrou a sua infância, se revelou um homem crente e contou que o momento mais difícil da sua vida foi o dia em que participou de uma rebelião contra o governo venezuelano, em 1992, e teve de deixar a família para trás –acabaria preso por dois anos.

Amante do beisebol, esporte preferido dos venezuelanos, o presidente revela que torcerá para o Brasil na Copa do Mundo da África do Sul.

A íntegra da entrevista, dada ao programa “É Notícia”, da RedeTV!, vai ar nesta noite às 0h15.

A infância

“Ah, as lembranças estão aqui na alma. Sabaneta [onde nasceu] é uma cidadezinha rural, hoje é um pouco maior. Era uma vila, e eu nasci numa casa com teto de palma, as paredes de barro, o piso de terra. No meio do inverno, enquanto caía um pé d’água, segundo a minha mãe. De madrugada, ao amanhecer, em 28 de julho de 1954. À beira de um rio, o rio Boconó, que desce da montanha. Sabaneta está na planície, na Grande Planície Venezuelana, mas fica ao pé da montanha.”

“Vivi lá durante 12 anos, uma infância que foi muito feliz. Se tivesse que nascer de novo, pediria ao bom Deus para me mandar para o mesmo lugar. Fui uma criança feliz: cantava, pintava, trabalhava, éramos trabalhadores rurais.”

A avó

“Ela era a mãe do meu pai, e tanto a minha mãe quanto o meu pai eram professores no meio do mato, numa vila que não tinha nem os mínimos serviços. Então, minha mãe nos deixou na casa da minha avó e ficamos lá, ela criou a gente. Rosa Inés. Ela era uma mulher maravilhosa. Nos ensinou a conhecer a vida, a amar, a amar a natureza, a trabalhar, a sermos responsáveis. Por exemplo, foi ela quem me ensinou a ler e escrever. Ela me ensinou a vida.”

A minha avó tinha um amor infinito pelos outros, uma solidariedade infinita para com os outros, e também para com aqueles que mais sofrem, os mais pobres. Eu até fui coroinha! Quando era criança, ficava na igreja espalhando o incenso, tocando os sinos da igreja. Minha mãe é muito católica, muito mais do que a minha avó, embora minha avó também fosse católica. Mas minha mãe é mais praticante. Ela queria que eu fosse padre”.

Santa de devoção

“A Virgem do Carmo. Eu carrego um escapulário dela no peito, que tem mais de 150 anos em batalhas. Era do meu tataravô guerreiro, que foi um coronel revolucionário lá por volta de 1858. Depois foi levado pelo avô de minha mãe, um general venezuelano rebelde, nas guerrilhas contra a ditadura de 100 anos atrás. Então eu a levo aqui, é a Virgem do Carmo, a Virgem dos guerreiros.”

Comida em viagens

“Não só por motivos de segurança [leva a própria comida nas viagens internacionais]. Além disso, é uma dieta. É preparada segundo um controle médico, com as proteínas e as calorias reguladas. Mas também por motivos de segurança.”

Exército

“Só entrei no Exército porque pensava passar ali apenas um ano ou dois e depois ficar em Caracas, porque éramos muito pobres, e o meu pai não podia pagar para eu estudar em Caracas. Eu queria ir para Caracas para jogar beisebol profissionalmente, esse era o meu sonho da adolescência. Fiz meus planos: vou entrar no Exército, passo um ou dois anos lá, e depois fico em Caracas. Mas gostei do Exército, gostei da escola militar, da academia militar, me senti na minha própria essência, senti que seguia a minha vocação de soldado, de soldado patriota, é claro.”

Momento mais difícil antes do poder

“Antes de 1998? Houve momentos difíceis, mas o mais difícil foi, e eu ainda sinto uma dor aqui quando falo nisso… Uma vez eu disse para alguém muito querido da minha família: eu acho que, se depois de ter sido sepultado passassem cinco séculos e alguém abrisse o meu caixão e visse o meu cadáver, talvez a ferida ainda estivesse ali, latejando. É muito difícil deixar a família, deixar os filhos, uma menina de 12 anos, outra de 11, um menino de 8, uma mulher a qual eu amava, a mãe dos meus três filhos, e um lar muito humilde. Uma madrugada, quando fomos para a rebelião, eu senti que estava indo embora fisicamente, mas que o meu coração era arrancado e ficava naquelas três caminhas, naquele quartinho e naquela casa humilde. Foi muito difícil, e doeu muito.”

“Sim, era como uma morte. Alguém disse que a gente morre várias vezes e depois vive. Para mim, aquela noite foi uma espécie de morte, e depois, nada foi igual.”

Golpe de 1992

“Não, nunca [demos um golpe]. Nós somos revolucionários. A nossa rebelião não poderá ser entendida se não for contextualizada e se o observador ou o analista não perceber que, apenas três anos antes, houve um massacre na Venezuela promovido pelo mesmo Exército [o chamado Caracazo], no qual morreram milhares de pessoas, inclusive crianças, idosos, para defender um governo tirânico, democraticamente eleito, mas que estava aplicando as políticas de choque do Fundo Monetário Internacional num país cheio de riqueza e de petróleo, que alcançou 70% de pobreza e 25% de miséria, de pobreza extrema. Nesse contexto pré-revolucionário ocorreu a revolução popular de 1989 e, depois, a revolução militar da juventude em 1992. Ou seja, isso não foi um golpe de Estado, foi muito diferente de tudo que aconteceu na América Latina. Nós somos antigolpistas, anti-imperialistas, somos revolucionários.”

A prisão

“A prisão foi uma escola, na verdade. Foi um forno. Abençoado o dia em que fomos para aquela prisão, porque lá amadurecemos, analisamos as ideias, analisamos e amadurecemos o espírito, endurecemos a alma. Dois anos depois, quando saímos à rua, graças à pressão popular e ao apoio popular, saímos sabendo claramente para onde íamos, com passo firme e já amadurecidos, e com o rumo muito mais claro. Aquela prisão foi uma escola e uma forja. Mais do que uma prisão, eu nunca sofri por ela, na verdade. Eu nunca sofri na prisão, apenas na parte familiar, de novo a parte familiar. Mas, do ponto de vista político, como soldado revolucionário, a prisão foi um passo necessário para esta longa batalha.”

Copa da África do Sul

“Eu sempre torci pelo Brasil. Não estou dizendo isso porque estou no Brasil, é desde a minha infância. Eu gosto muito de beisebol, essa é a minha paixão, mas o futebol vem depois. Sempre, desde os dias do rei Pelé, depois pela Venezuela, agora que o futebol ressuscitou no país. Eu disse para o Lula hoje, que me deu de presente a camisa do Brasil com o número 6, do Roberto Carlos, assinada pela seleção, eu disse a ele: bom, Lula, o Brasil deu sorte que a Venezuela não se classificou para a África do Sul, mas na próxima Copa vamos nos classificar. Mas eu sempre, sempre torço pelo Brasil. Sempre vou com essa camisa verde e amarela.”

sábado, 24 de abril de 2010

AMÉRICA LATINA - Parlamento do Mercosul.

Do blog do LUIS NASSIF.

Parlamento do Mercosul e a declaração de Serra

Por Germano

Sou editor de um jornal díário na cidade do Rio Grande, no RS. Aqui, a cidade passa por um boom histórico, impulsionada pelo polo naval, tornando realidade a promessa de campanha de Lula de nacionalizar a frota de embarcações da Petrobras.

Pois bem, nesta quinta e sexta-feiras (22 e 23), realizou-se aqui o Pré-Fórum do Corredor Bioceânico Central, iniciativa de parlamentares do Mercosul com fins de aumentar a integração, sobretudo com respeito à logística e comércio. O grupo RBS ignorou o evento. Mas o jornal em que trabalho cobriu.

Compareceram em torno de 150 pessoas, vindas do Paraguai, da Argentina, do Uruguai e do Chile, que conheceram a cidade e, principalmente, nosso porto, chamado de Porto do Mercosul.

Mas o principal deste contato com você é para falar sobre uma posição tirada ao final do evento, na qual a UPM (União dos Parlamentares do Mercosul) repudiou a declaração de Serra, de que o Mercosul seria uma “farsa”. “Se o Mercosul é uma farsa, então nós aqui somos todos uns farsantes?”, me questionou um dos parlamentares. Segue cópia da matéria a ser publicada neste sábado no Jornal Agora, aqui de Rio Grande (www.jornalagora.com.br), na qual há no final menção a este repúdio:

Pré-Fórum do CBC fortalece a união entre os países

No segundo dia do evento, participantes discutiram questões ambientais e conheceram a região

Os conflitos entre o interesse de desenvolvimento econômico e a necessidade de proteção ambiental foram abordados no último dia do Pré-Fórum do Corredor Bioceânico Central (CBC), na Câmara de Vereadores do Rio Grande, na manhã de ontem, 23. Conforme o engenheiro civil especializado em gestão ambiental, Antônio Baptiston, diante da ação humana “o planeta está mostrando com mais ênfase os seus limites”. Ele apontou a necessidade da legislação ambiental ser melhorada em todos os países do Mercosul.

O evento foi promovido pela Comissão do Mercosul e Assuntos Internacionais, presidida pelo deputado Paulo Azeredo (PDT), que representou a presidência do Parlamento gaúcho no encontro que reuniu representantes de diversos países do Mercosul. Participaram também o Gabinete da Presidência da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Foro CBC e União de Parlamentares Sul-Americanos e do Mercosul (UPM).

No período reservado às perguntas, a preocupação com a proteção e uso do aquífero Guarani mereceu destaque. “O meio ambiente não obedece à divisa entre países. Os recursos hídricos não podem ser tratados levando em consideração divisas políticas”, ponderou o palestrante. Segundo Baptiston, a legislação dos países ainda precisa ser melhorada quanto à finalidade de uso e proteção das reservas do aquífero. “Há situações em que o sistema de gestão precisaria ser internacional, como no caso dos países possuírem rio em limite de fronteira”, acrescentou.

Bastiston apresentou dados da degradação do meio ambiente, dentre eles, da extinção de um quarto da fauna do mundo desde 1970. A previsão é de que até 2050 a metade esteja extinta. “Estamos extinguindo espécies mesmo antes de conhecê-las”, lamenta. Quanto às divergências sobre dimensões das áreas de preservação permanente (APPs), afirma que o Projeto de Lei 154/2009, que tramita na AL-RS, está sendo melhor discutido com a sociedade, ao contrário do que ocorreu em Santa Catarina “Espera-se que com isto a legislação estabeleça o uso racional e sensato dos recursos naturais no Rio Grande do Sul, visando à sustentabilidade”.

Após o debate na Câmara de Vereadores, os participantes do Pré-Fórum seguiram em visita ao Porto do Rio Grande, almoçaram na cidade vizinha, São José do Norte, e encontraram-se novamente à noite em um jantar na Churrascaria Leão.

Manifesto pelo Mercosul

Unidos durante estes dois dias em Rio Grande , os parlamentares dos países do Mercosul que participaram do Pré-Fórum do Corredor Bioceânico se manifestaram em repúdio às afirmações do pré-candidato à Presidência da República, José Serra, sobre o bloco econômico ser “uma farsa”. “Mercosul é uma barreira para o Brasil fazer acordos comerciais. A união aduaneira é uma farsa, exceto quando serve para atrapalhar”, afirmou Serra, esta semana, a empresários em São Paulo.

Reunidos para dialogar sobre a consolidação do corredor que, além de uma via de transporte, pretende ser um marco para a integração socioeconômica e cultural entre os países, os parlamentares manifestaram descontentamento com a declaração de Serra, que contraria frontalmente a ideia de integração. No encerramento do evento, os participantes deram as mãos e se abraçaram, como representação da união entre os países e o fortalecimento dos projetos de desenvolvimento do bloco

Um abraço

Germano S. Leite
Editor Jornal Agora

domingo, 4 de abril de 2010

AMÉRICA LATINA - OEA, herança maldita da Guerra Fria.

A existência de uma organização como a OEA é um fator inibidor para a unificação latino-americana. Não tem qualquer serventia positiva um organismo que historicamente se apresentou como guarda pretoriana de interesses imperiais.

A recondução do chileno José Miguel Insulza à secretaria-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) normalmente seria fato de pouca monta. Afinal, trata-se de uma relíquia da Guerra Fria. Qualquer que seja seu dirigente, essa entidade tem em seu código genético o papel de articular a supremacia geopolítica dos Estados Unidos abaixo do rio Bravo.

Sua nova assembléia geral, convocada para reeleger o atual secretário-geral, chama atenção apenas porque ocorre em um cenário no qual muitos países latino-americanos parecem dispostos a superar o antigo modelo de associação continental.

A ampliação do Mercosul, o nascimento da Alba, a criação da Unasul e, mais recentemente, a fundação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac) são sinais de que amadurece um forte sentimento autonomista na região. Por maiores que sejam as dificuldades, ganha força a percepção de que não é satisfatória a condição de quintal do vizinho ao norte, historicamente guarnecida pela OEA.

A pia batismal dessa instituição foi o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), assinado no Rio de Janeiro em 1947. Esse documento adotava um sistema de segurança coletiva no qual qualquer ataque a uma das nações do continente seria respondido pelos demais países signatários. Expressava, na prática, um contrato de adesão à hegemonia militar dos Estados Unidos na disputa contra a União Soviética e o campo socialista.

De nada serviu quando a Argentina, em 1982, foi atacada pela Inglaterra, depois de recuperar provisoriamente o controle das Ilhas Malvinas. A Casa Branca, mais do que cruzar os braços, colocou seus serviços de inteligência para auxiliar a marinha inglesa. Mas essa é outra história, fica aqui apenas um retrato da hipocrisia reinante nas tais “relações interamericanas”.

A criação da OEA
A submissão dos governos sulistas ao TIAR animou Washington a novos passos. Na 9ª Conferência Internacional dos Estados Americanos, realizada em Bogotá entre março e abril de 1948, o general George Marshall, então secretário de Estado, convocou os países presentes a um “compromisso de luta contra o comunismo”. Levou para casa uma nova organização continental, oficialmente fundada no dia 30 de abril de 1948 através de uma declaração, a Carta da OEA, que contou com a assinatura de 21 países e passou a vigorar a partir de dezembro de 1951.

A intenção dos norte-americanos, para além de estabelecer sua direção sobre questões de defesa, era criar um novo instrumento jurídico, político e econômico com o qual pudessem construir laços de subordinação que não reproduzissem o velho e fracassado colonialismo europeu. Suas ambições hegemônicas deveriam se realizar a partir da renúncia voluntária de países formalmente independentes a porções de sua soberania.

O recurso à violência viria a assumir um caráter punitivo e de ação política, respaldando oligarquias nacionais contra forças insurgentes ou governos populares, mas sem a lógica da ocupação permanente ou da anexação territorial. Uma estratégia na qual a OEA, nas palavras de Fidel Castro, desempenharia o papel de “ministério das colônias” dos Estados Unidos.

Cuba, aliás, seria a primeira vítima do tacape da entidade sediada na capital norte-americana. Acusada de se aliar ao bloco socialista, teve sua participação suspensa em 1962. Logo depois, em 1965, foi a vez da República Dominicana. Quando forças leais ao presidente constitucional Juan Bosh estavam a um passo de derrotar grupos civis e militares que tinham realizado um golpe de Estado, o país foi invadido por tropas conjuntas dos EUA e da OEA, com vergonhosa participação brasileira.

As ditaduras do continente, a propósito, sempre puderam desfilar livremente pelos corredores e encontros da instituição. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, mui seletivamente, só tinha olhos para governos que rompessem o alinhamento com a Casa Branca.

Nenhuma dessas informações consta do sítio eletrônico da organização liderada pelo socialista Insulza. Devidamente submetida a uma cirurgia plástica quando se esgotou o ciclo dos militares, no final dos anos 80, a OEA foi reinventada como articuladora de iniciativas integracionistas. Foram forjados, em seu âmbito, projetos como o da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), que buscavam redesenhar os mercados e Estados nacionais como espaços acessórios da economia norte-americana.

Giro à esquerda
Mas essas tentativas acabaram frustradas ou comprometidas pela ascensão de forças progressistas em alguns dos principais países da região, especialmente no Brasil, na Venezuela e na Argentina. A primeira década do século XXI significou um importante giro à esquerda no continente.

Ao contrário de velhos governos oligárquicos e conservadores, as novas correntes se propunham a uma estratégia de fortalecimento do poder público, expansão do mercado interno de massas, distribuição de renda e ampliação dos direitos sociais. Ainda que com fortes diferenças em cada experiência local, esse caminho colocou em cheque o modelo privatista e desnacionalizante, base fundamental para a associação subordinada desejada pelos Estados Unidos.

O novo ciclo político, acoplado ao retumbante fracasso de países que embarcaram nos tratados de livre-comércio com Washington, cujo caso mais emblemático é o México, recolocou o tema da integração. O velho programa das plutocracias latino-americanas, verticalizado pela ambição de se tornarem sócias minoritárias e lucrativas do empreendimento norte-americano, veio sendo substituído pela defesa de um bloco autônomo, amparado sobre redes comuns de infra-estrutura, fontes de financiamento, fluxos comerciais e instituições políticas, além de planos ambiciosos para unificação da moeda e do sistema de defesa.

Mesmo nações dirigidas por partidos direitistas foram levadas, em alguma medida, a se juntar a essa onda, motivadas pela propulsão econômica da área latino-americana, no contexto de um mundo em crise e repartido por grandes alianças regionais. Essa tem sido a base objetiva, afinal, para o associativismo crescente entre os países do subcontinente.

Entulho neocolonial
Apesar de seu relativo enfraquecimento no jogo regional, a Casa Branca segue com cartas poderosas nas mãos. O cerne de sua contra-ofensiva, no terreno diplomático, é o bilateralismo. Dividir para reinar. Impedir ou atenuar as iniciativas autonomistas. Atrapalhar ou minimizar a construção de espaços sem sua participação. A OEA, para essa estratégia, segue com uma função relevante, que inclui a pressão sobre governos que aceleram seu distanciamento dos interesses norte-americanos, claro que sempre em nome da democracia e dos direitos humanos.

O mesmo não pode ser dito, quanto à pertinência dessa instituição, na perspectiva dos governos progressistas e da unificação latino-americana. A existência de uma organização dessa natureza é um fator inibidor. Não tem qualquer serventia positiva um organismo que historicamente se apresentou como guarda pretoriana de interesses imperiais.

Tampouco faz sentido no próprio aprimoramento das relações com os Estados Unidos. Quanto mais freqüentes e robustas forem as negociações em bloco, maior será o poder de pressão dos países ao sul. Quanto menor for a presença político-militar de Washington no subcontinente, mais amplas serão as possibilidades de integração e soberania.

A OEA, de fato, não passa de um entulho neocolonial. Seu esvaziamento progressivo, acompanhado pela denúncia do TIAR, significaria um avanço notável no processo democrático e independentista.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

AMÉRICA LATINA - Mujica prefere Dilma.

Em entrevista, presidente eleito do Uruguai diz que gosta de mulheres no poder

José Mujica durante entrevista neste domingo

Mujica concedeu entrevista um dia antes de sua posse

O presidente eleito do Uruguai, José Mujica, declarou neste domingo o que seria sua preferência pela candidata de Luiz Inácio Lula da Silva para as próximas eleições no Brasil, Dilma Roussef.

Durante uma entrevista aos correspondentes estrangeiros presentes em Montevidéu para a cerimônia que o empossará como novo presidente do Uruguai na segunda-feira, José Mujica afirmou que tem apreciado a ideia de mulheres no poder.

"A decisão compete ao povo brasileiro, o que não quer dizer que eu não tenha meu coraçãozinho", disse, entre sorrisos. "Ultimamente tenho gostado das mulheres no poder", afirmou à BBC Brasil ao ser perguntado sobre a eleição brasileira de outubro.

Acompanhado por seu vice-presidente, Danilo Astori - ex–ministro de Economia da gestão anterior, de Tabaré Vázquez - , Mujica falou ainda dos desafios que seu país enfrenta em relação ao comércio no âmbito do Mercosul - "cheio de defeitos" - e não deixou de fazer críticas ao comportamento brasileiro dentro do bloco, especificamente no que diz respeito à "indústria paulista", antes de passar a palavra a Astori, para que se pronunciasse mais "diplomaticamente" sobre o tema.

"Para ser líder, é necessário ser reconhecido como líder, e reconhecemos a liderança natural do Brasil", afirmou o Astori, que relembrou ainda a "importância essencial" do país, "sócio comercial número um do Uruguai".

"Agora, para ser líder, é necessário exercer a liderança, e para exercer a liderança é necessário ter generosidade. Os grandes líderes da Europa têm sido muito generosos quanto à possibilidade de desenvolvimento de países menores."

Presidente e vice falaram ainda sobre a ausência de Estados Unidos e Canadá da comunidade de países latino-americanos e caribenhos gestada durante cúpula do Grupo do Rio.

"O objetivo não é excluir Estados Unidos e Canadá, mas dotar a América Latina de instituições que, tomara, funcionem solidamente e que permitam aos países operar cada vez mais entre eles", disse Astori. "O Uruguai quer ter a melhor relação possível com os Estados Unidos", acrescentou.

Sobre o conflito que a Argentina mantém com o Uruguai há mais de três anos, por conta da instalação da fábrica de celulose finlandesa Botnia no Rio Uruguai (que divide os dois territórios), a meta da gestão que se inicia é "começar um período de franca negociação" com o país governado por Cristina Fernández de Kirchner, de acordo com o novo presidente.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

AMÉRICA LATINA - Ilhas Malvinas.

Cinco motivos para a soberania argentina sobre as Malvinas

O anúncio dos trabalhos de prospecção petrolífera inglesa na placa continental das Ilhas Malvinas reacendeu o debate sobre a posse do arquipélago. O Reino Unido recusa-se a negociar com os argentinos e, apesar de descartar um conflito armado, a presidente argentina Cristina Kirchner busca o apoio internacional para pressionar a Grã-Bretanha.

Por Cláudia Macedo, em Opera Mundi

Trinta e dois países da América Latina e do Caribe, inclusive o Brasil, apóiam o país vizinho. Há diversos motivos para que a Argentina recupere a soberania sobre a região. Para resumir as razões pelas quais os argentinos têm direito sobre o território, seguem cinco argumentos:

1 – É inadmissível haver, nos dias de hoje, um território colonial. O arquipélago malvino, chamado pelos ingleses de Falkland Islands, não é mais do que a negação do direito soberano de um povo. Quando a Inglaterra se apossou das ilhas, em 1833, a Argentina era um país recém-independente. Não tinha como enfrentar um Estado tão poderoso, ainda mais por haver uma dependência econômica em relação a ele. Contudo, desde a ocupação inglesa, o vizinho sul-americano, sistematicamente, reivindicou seus direitos sobre o território.

Alega-se que, devido ao princípio de autodeterminação dos povos, os habitantes do local deveriam escolher a que país ficar atrelados. Tenta-se demonstrar que a Inglaterra está no seu direito, apoiada pelo povo, e a Argentina tem pretensões expansionistas. Contudo, os ingleses, desde a ocupação à força, enviaram colonos para povoar as terras, negaram-se ao longo dos anos a dialogar e, dessa forma, puderam cada vez mais utilizar o argumento que compete a eles governar a região, visto que os habitantes assim o querem. É uma inversão de papéis.

Com todos os avanços promovidos na década de 1960, como os movimentos de independência das nações africanas, a consolidação internacional do princípio da não intervenção e o crescimento da participação das nações menos desenvolvidas nas instituições internacionais, como é possível ainda existirem colônias no mundo?

2 – O pleito argentino é legítimo e reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Na Resolução 1514, de 1960, é definido o status colonial das Malvinas. Cinco anos depois, na resolução 2065, o Reino Unido e a Argentina foram convidados a negociarem sobre a posse do arquipélago. Após três anos de negociações diplomáticas secretas, a Inglaterra concordou em devolver as ilhas. Voltou atrás, entretanto. E, novamente, a Assembleia Geral formulou uma Resolução, 3160 de 1973, convidando os dois países ao diálogo.

Dessa vez, os países da região resolveram, conjuntamente, repudiar a atitude inglesa. Nesta semana, em Cancún, os 32 Estados participantes da Cúpula da Unidade da América Latina e do Caribe entraram em consenso para manifestar apoio oficial à reinvidicação argentina. Pode, por pertencer ao Conselho de Segurança, a Inglaterra negar-se a atender essa ideia aceita internacionalmente? Atitudes como essa apenas reforçam a necessidade de reforma dos organismos internacionais, para que se tornem mais representativos e democráticos.

3 - A situação atual é bastante diferente daquela de 1982, quando a Argentina entrou em guerra com a Grã-Bretanha em disputa pelo arquipélago. Havia um governo militar, opressor, liderado pelo general Leopoldo Fortunato Galdieri, que tentava por meio do conflito desviar a atenção dos problemas políticos internos.

Devido à “tática” de Galtieri, foram mortos 655 soldados argentinos, 255 britânicos e três malvinos. Em um pouco mais de dois meses, as forças militares do governo de Margareth Tatcher recuperaram a capital, Stanley. A presidente argentina, Cristina Kirchner, já descartou a possibilidade de um conflito armado. Continua, entretanto, a pressão para os dois países sentarem à mesa de negociações. Não há mais ameaça de guerras, o que podem os ingleses alegar para não estabelecer diálogo com os argentinos?

4 – É preciso assegurar o direito argentino aos recursos naturais da região. Devido à recusa inglesa de negociar e à falta de entendimento político, a Convenção da ONU sobre Direito do Mar (Convemar) afirmou não poder realizar uma avaliação técnica sobre o território marítimo reivindicado pela Argentina. De acordo com estudos geológicos preliminares recentes, especula-se que há mais de seis bilhões de barris de petróleo na plataforma continental das ilhas. A informação que empresas britânicas vão realizar trabalhos de prospecção no local é preocupante para todos os países sul-americanos.

Suponha-se que a situação envolvesse o Brasil, por exemplo. Em meados do século 19, a Inglaterra ocupou a Ilha da Trindade, no Oceano Sul Atlântico, no paralelo de Vitória, Espírito Santo. Após a ruptura de relações diplomáticas e forte pressão comandada pelo prestigiado imperador D. Pedro II, o Brasil conseguiu o retorno da posse sobre a região. Caso a reivindicação não tivesse sido atendida e, como nas Malvinas, houvesse um processo de ocupação de britânicos da Ilha, estariam agora os ingleses tentado apoderar-se do Pré-Sal?

5 – Inglaterra adota postura incoerente. Levem-se em consideração dois territórios: Gibraltar e Malvinas. Pelos mesmos tratados de Utrecht de 1713, ficaram estabelecidas as posses sobre essas duas regiões. A primeira, uma rocha contígua ao território espanhol, foi concedida à Inglaterra. A segunda, situada no Atlântico Sul, voltou ao domínio espanhol. Esses acordos encerraram o conflito acerca da sucessão espanhola, quando um membro da família dinástica francesa bourbônica assumiu o trono da Espanha.

Gilbratar continua pertencendo à Inglaterra. Houve, inclusive, dois plebiscitos, no qual a população confirmou seu interesse em manter seu status. As Malvinas, entretanto, foram aviltadas do domínio argentino. O que permite aos ingleses manterem apenas parte do pacto? Deve ser admitido que as regras só sejam cumpridas quando de acordo com a vontade dos poderosos?

São por esses motivos que as Ilhas Malvinas devem retornar ao controle da Argentina. Que o direito de explorar as prováveis riquezas petrolíferas deve pertencer aos argentinos. Que os países da região - inclusive o Brasil - negam-se a apoiar um domínio colonial no continente. Que não se pode admitir que continue o predomínio dos interesses de alguns países em detrimento da opinião da maioria dos povos do globo.

*Cláudia Macedo, jornalista, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-graduada em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Fonte: Opera Mundi.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

AMÉRICA LATINA - "Ricos estão de olho em recursos latinoamericanos".

América Latina

Para Nobel da Paz argentino, ricos estão de olho em recursos latinoamericanos

Adolfo Perez Esquivel

Esquivel disse que a disputa não é ideológica mas econômica

A exploração britânica de petróleo nas Ilhas Malvinas confirma o "interesse das grandes potências pelos recursos naturais" dos países da América Latina, segundo disse à BBC Brasil o Prêmio Nobel da Paz de 1980, o ativista argentino Adolfo Perez Esquivel.

"As grandes potências têm interesse nos nossos recursos naturais. E não só pelo petróleo, mas também pela água, minerais e pela Amazônia", disse.

Segundo ele, a instalação de uma plataforma petroleira no arquipélago do Atlântico Sul é "uma ameaça à Argentina e aos seus recursos naturais" que, em sua avaliação, pertencem aos povos locais.

Malvinas

Perez Esquivel afirmou ainda que as grandes potências estão de olho nos recursos naturais da região porque já não contariam com estas reservas em seus territórios.

"Por quê os Estados Unidos instalaram sete bases militares Colômbia, por quê estão presentes na Tríplice Fronteira e por que a Amazônia aparece como sendo dos americanos em documentos dos Estados Unidos?", pergunta ele.

"Eles têm interesse nos nossos recursos naturais porque os deles, dos americanos, dos europeus e canadenses já estão esgotados", disse o Prêmio Nobel.

Perez Esquivel apoiou a "unidade latino-americana", anunciada durante reunião do Grupo do Rio, esta semana, frente a "esta grave situação das Malvinas".

Ele disse estar "preocupado" com o desenrolar desta nova escalada na disputa entre Argentina e Grã Bretanha pelas Ilhas Malvinas, que acredita na via diplomática para uma solução, mas sugeriu que as Nações Unidas não resolveriam o embate entre os dois países.

"Essa conversa da Argentina com as Nações Unidas é necessária mas o organismo deveria ser reformulado urgentemente. Hoje, somente um pequeno grupo, entre eles Grã Bretanha, tem direito a veto apesar de o organismo ter começado com 49 países (em 1945) e hoje eles serem 192, no total", disse.

Segundo Esquivel, este não é um debate "ideológico", mas "econômico".

Na sua opinião, os países da América Latina devem ter "uma voz unificada" na defesa dos recursos naturais.

"Ou os países da América Latina se unem ou ela será recolonizada".

domingo, 14 de fevereiro de 2010

AMÉRICA LATINA - A mulher latinoamericana.

Do BLOG DO SARAIVA.

Escrito por Leda Ribeiro.

A mulher latinoamericana

“A semente brota, apesar das pedras”.

( Maria do Carmo Castro)

A mulher latinoamericana é, acima de tudo, uma lutadora. Impossível negar. Ela sempre se destacou nos vários campos do conhecimento humano. Basta um pequeno olhar na História dos países da América Latina e lá encontraremos sua presença marcante. Seja nos postos mais elevados seja nos postos mais humildes. A que ocupa os postos mais humildes, traz nas mãos calejadas e, à flor da pele, o sentimento da América oprimida por séculos de dominação , imposta pelos colonizadores, cuja crueldade foi inimaginável.

Infelizmente, ainda hoje, em pleno século XXI, esta mentalidade do atraso persiste. É só observar no nosso Congresso Nacional a postura truculenta de certos deputados e senadores, do sexo masculino e feminino, no que se refere à questão agrária. É um horror!...

Desde pequena e vivendo sempre sob o jugo da opressão machista, a mulher latinoamericana sente, desde cedo, o desejo ardente da liberdade. Quem não sonha com a liberdade?... Quem sabe se não foram os ventos das cordilheiras que trouxeram a semente da inconformação e a fizeram ir à luta?... Utopia?... Sim. Mas, possível. O fato é que ela se rebelou contra muita coisa, inclusive contra tudo que entorpece as consciências e impede de enxergar a realidade. A luta foi grande e valeu a pena.

Temos no Brasil o exemplo da nossa Ministra Dilma Rousseff que sofreu horrores por desejar um Brasil soberano, não serviçal e subserviente às conveniências imperialistas.

Em nosso País, ainda hoje, para alguns, é um pecado mortal falar em consciência crítica. Muitos preferem viver no oba-oba da vida e na aparência do que procurar a essência, que ajudaria na construção de uma Verdadeira Nação onde caberiam todos, sem exceção.

Esta semente e este desejo de libertação não são fantasias. Foram os anseios e a saga do Che. São agora da Ministra Dilma, sobrevivente de um período insano da nossa América Latina. Ele não conseguiu, mas, apontou o caminho. Hoje, os tempos são outros e, infelizmente, às custas de muitos mártires. Dilma vai conseguir concretizar estes sonhos porque o POVO BRASILEIRO assim o quer.

É preciso, no entanto, que esta semente de libertação, habite o peito de cada cidadão latinoamericano, porque, só assim, a América será liberta.

Escrito por Leda RibeiroColaboradora do Blog

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

AMÉRICA LATINA - Boaventura prevê década mais problemática para América Latina.

Os avanços políticos conquistados na última década na América Latina podem receber um freio nos próximos anos, na avaliação do sociólogo e jurista português Boaventura de Sousa Santos. Ele encerrou, neste domingo, (24) as discussões do 6º Fórum Mundial de Juízes, na capital gaúcha. O evento antecede o Fórum Social Mundial (FSM), que começa hoje (25), na mesma cidade.
De acordo com o professor da Universidade de Coimbra, a instalação de uma base militar norte americana na Colômbia e a eleição de um candidato de direita no Chile, Sebastián Miguel Piñera, no último dia 18, são sinais de que a região passará por mudanças.

“Penso que a próxima década será mais problemática que a década passada”, disse. “Os Estados Unidos estão a olhar com muito mais atenção para a América Latina. As bases na Colômbia, obviamente, são um novo sinal do que está a passar”, afirmou.

Na opinião do sociólogo, embora se acreditasse que o neoliberalismo estava “enterrado”, a América Latina convive com problemas que ainda não foram resolvidos, como o trabalho escravo, a criminalização de movimentos sociais e a emergência de grupos paramilitares.

“A questão paramilitar ocorre não só na Colômbia, mas na Venezuela, Bolívia e Equador. Acabo de vir do Equador e constatei assassinatos em série nas comunidades afroequatorianas. São as forças da direita que não aceitam mudanças”, destacou Boaventura, que foi consultor da reforma constitucional equatoriana, em 2008.

Durante a palestra, o sociólogo falou sobre a “promiscuidade” que surgiu com a influência do neoliberalismo sobre a economia e a política, sobre o privado e o público.

“Isso se transformou na privatização do Estado de tal modo que o controle do Estado se tornou uma luta tida como anti-democrática”. Como exemplo, citou a pressão de alguns segmentos, nos Estados Unidos, contra a aprovação de um sistema de saúde público naquele país, derrubada pelo Congresso.

“Não é possível que a maioria da população norte-americana seja contra o sistema público, mas neste momento não haverá mais sistema público porque foram gastos mais de U$ 50 bilhões pelo lobistas para que a proposta fosse retirada”.

O sistema de saúde norte-americano é um dos mais caros do mundo. Estimativas revelam que cerca de 16% da população ou 50 milhões de pessoas não têm cobertura nem do governo nem dos planos privados.

“O fim do século mostrou que os conflitos individuais são sintomas dos conflitos coletivos. As desigualdades são estruturantes”, afirmou antes de destacar o papel do judiciário na solução dos desses problemas.

“Os juízes das próximas décadas terão que ser objetivos, mas não podem ser neutros. Neutralidade é tomar posição dos poderosos, principalmente, quando a direita está no poder. Os juizes precisam saber se estão do lado dos oprimidos ou dos opressores”, completou.

Para o professor, que acompanha a instalação do Observatório da Justiça Brasileiro, uma das transformações necessárias nos países é uma mudança na “cultura judicial” desde a educação básica, passando pela mídia até o ensino superior.

“As faculdades de direito são as mais reacionárias, se mantêm como no tempo das ditaduras”, disse Boaventura, que acredita no direito como instrumento contra-hegemônico e ressaltou o papel de advogados que trabalham em favor de movimentos sociais mesmo ameaçados de morte.

Em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Boaventura esclareceu os principais pontos da palestra, explicando porque a próxima década deve ser mais problemática. Falou sobre as transformações pelas quais passa a região, inclusive, com alguns países revendo o passado de regimes de exceção e os impactos da colonização sobre a diversidade racial.

Boaventura defende a “descolonização” da América Latina, com o enfrentamento do racismo contra afrodescendentes e indígenas, por meio de políticas de reconhecimento como as ações afirmativas, acesso à terra e aos recursos naturais. “A democracia racial é uma tarefa e não uma realidade. Basta olhar para esse auditório e ver que falta muito”.

Agência Brasil: Por que a previsão é de que os conflitos tendem a se acirrar na próxima década?

Boaventura de Sousa Santos: Essa última década foi de muitas conquistas. Governos progressistas chegaram ao poder, o caso do Brasil é um desses, assim como Venezuela, Equador, Bolívia, Nicarágua, El Salvador. Mas há grandes avanços políticos que não sabemos se são sustentáveis na próxima década. Aliás, as eleições no Chile são a primeira nota em que o candidato de direita ganhou as eleições. Também não sabemos o futuro da Venezuela, portanto, há nuvens no horizonte.

Também estou preocupado com essa emergência e fortalecimento de grupos paramilitares, que estão aparecendo em várias partes do continente e, portanto, com ataques aos direitos humanos, já não propriamente aos direitos econômicos e sociais, mas aos mais elementares: o direito à vida, o direito cívico, político.

Ainda vejo com preocupação a presença norte-americana nesse continente para evitar que seus interesses estratégicos sejam postos em causa, nomeadamente, no que diz respeito aos recursos naturais. Tudo isso me faz pensar que será uma década mais complicada.

ABr: Quais as transições que ocorrem na sociedade e merecem atenção?

Boaventura: Estão em curso, em muitos países da América Latina três tipos de transição. Uma, que é a transição da ditadura à democracia. Aqui, como me referi à questão da Lei da Anistia, se ela atinge ou não crimes de tortura, crimes contra a humanidade. Quer dizer, em que medida que a ditadura permanece.

Depois, há uma transição do capitalismo para o socialismo e outra, que também aparece na região, é a transição do colonialismo para o fim do racismo. A descolonização, feita por meio das ações afirmativas, das lutas dos afrodescendentes, dos povos indígenas é lenta.

ABr: O Supremo Tribunal Federal (STF) analisa neste ano uma ação de inconstitucionalidade contra as cotas nas universidades, outra contra o decreto que regulamenta as terras quilombolas e pode voltar a debater questões indígenas. Qual sua expectativa em relação à Justiça brasileira?

Boaventura: Estou preocupado. Neste momento, não sabemos nada. Temos apenas uma informação do presidente da Corte, o ministro Gilmar Mendes, com uma certa opinião que pode levar o tribunal a um certo sentido... Mas, obviamente, é um conjunto de magistrados que vai decidir (…) Não sabemos.

O certo é que há uma grande preocupação dos movimentos sociais, quilombolas e de parte do movimento indígena de que ocorra um certo retrocesso no reconhecimento de terras, inclusive, com alguma criminalização do protesto social. É uma decisão importante [a do STF], que a sociedade brasileira deve ficar atenta, sobretudo, para manter as ações afirmativas, as lutas dos quilombolas. O que está em causa é acabar com o reconhecimento.

ABr: Pontos polêmicos do 3° Plano Nacional de Direitos Humanos, lançado recentemente pelo governo federal, foram citados indiretamente durante sua palestra, como a impunidade de agentes do Estado que cometeram crimes durante a ditadura e a influência da concentração dos meios de comunicação sobre a população. Qual impacto dessas propostas?

Boaventura: Não conheço o documento do governo federal. Em relação aos meios de comunicação, [o impacto da concentração] não é tão simples como poderia ser na medida em que, se o impacto fosse total, por exemplo, os governos progressistas não ganhariam eleições.
Caso conseguissem dominar a tal ponto a opinião pública nem Chávez [Hugo Chávez, presidente da Venezuela], nem Correa [Rafael Correa, presidente do Equador], nem Morales [Evo Morales, presidente da Bolívia] tinham sido eleitos. Acho que o impacto é em outro nível. É aproveitar a debilidade dos presidentes e dos governos progressistas, magnificando [ampliando] alguns dos seus fracassos, limites e, por vezes, influenciando, de fato, os tribunais, coisa que fazem com muita força.

ABr: Qual exemplo dessa influência dos veículos de comunicação sobre o Judiciário?

Boaventura: Basta ver qual foi a posição da imprensa brasileira em relação à revisão da Lei de Anistia. Não é de maneira nenhuma uma posição equilibrada. Conheço o grupo da Comissão de Anistia da Secretaria Especial de Direitos Humanos e eles fazem um trabalho notável.

ABr: Como evitar essas influência sobre o Judiciário?

Boaventura: A partir da escola. Penso que a formação tem que ser outra. A partir das próprias faculdades de direito. É preciso sensibilizar os alunos para a justiça social. Isso obriga as grandes escolas a não ensinar apenas as técnicas jurídicas, mas o conhecimento social, cultural, para que haja um entendimento de que as sociedades são interculturais, mas muito desiguais. Esses são, portanto, problemas jurídicos e não apenas políticos.

Fonte: Agência Brasil

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

AMÉRICA LATINA - Da igualdade entre as nações.


Da igualdade entre as nações

Por Mauro Santayana


O orgulho nacional é sentimento que se funda na consciência da igualdade entre os seres humanos. Quando partimos da ideia de que não somos superiores, assiste-nos a certeza de que tampouco somos inferiores. As vicissitudes históricas, assim como as limitações da natureza, podem fazer-nos conjunturalmente mais pobres ou mais ricos, mas não nos convertem em melhores ou piores.

A imprensa do mundo se tem dedicado aos êxitos conjunturais do Brasil com elogios que nos alegram. O presidente Lula é visto como a Personalidade do Ano pelo conceituado Le Monde, e outras publicações. Chefes de Estado a ele se referem com admiração, não só pelos resultados de sua política interna como também por sua capacidade de convencimento na diplomacia direta que vem exercendo, nestes meses de desafios internacionais.

Esse reconhecimento externo tem tido leituras divergentes em nosso país. Para muitos adversários do governo, trata-se de engodo. A oposição quer mostrar o presidente da República como um parvo, que se deixa dominar pela lisonja. É uma leitura, essa, sim, de néscios. O governo brasileiro tem, nestes anos e meses, afirmado, sem jactâncias, seu direito soberano de opinar nas questões internacionais que lhe dizem respeito, como as do aquecimento global, da paz no Oriente Médio, do comércio internacional e do equilíbrio geopolítico na América Latina. Quanto ao problema da preservação ecológica, nenhum outro país do mundo tem a autoridade de que dispomos para dizer o que pensamos. A História nos fez possuidores da maior biodiversidade tropical do planeta, que soubemos preservar com diplomacia, mas também com imensos sacrifícios humanos, e a cuja soberania não podemos renunciar.

Queremos parceiros no comércio internacional, com vantagens e concessões em rigorosa reciprocidade. Quanto à América Latina, não podemos aceitar a subgerência imperial que alguns nos pretendem impor. Não somos o “cachorro grande” do quarteirão, como certos ex-diplomatas se referem à posição econômica, geográfica e política do Brasil. Somos vizinho privilegiado, com fronteiras pacíficas com quase todos os países da América do Sul e não temos problemas com o resto do Hemisfério.

O embaixador Rubens Barbosa, que, ao se afastar compulsoriamente do Itamaraty, se dedica hoje a assessorar a Fiesp, assinou artigo sobre a Argentina em que trata do declínio do grande vizinho do Sul. Há, em seu texto – ainda que dissimulado em linguagem diplomática – referência à superioridade brasileira, o que não é bom para nós. Temos que entender as circunstâncias da Argentina que, a partir da queda de Hipólito Irigoyen, em 1930, vem passando por dificuldades institucionais, em situação pendular entre o peronismo e seus adversários, agravada com a tragédia dos governos militares, estimulados pelos norte-americanos.

Tanto como o nosso, o povo argentino tem direito à autoestima. Seu sistema educacional, reconhecidamente superior, sua cultura, seu desenvolvimento técnico e científico, são motivos de justo orgulho. Suas dificuldades são políticas, e serão resolvidas com a mobilização da cidadania. Rubens Barbosa diz que a Argentina pode escolher entre ser – diante do Brasil – o Canadá ou o México. É melhor que ela continue sendo a Argentina do Pacto ABC, a Argentina do Mercosul, a Argentina das mães da Praça de Maio, de Borges e Bioy Casares, de Cortazar e Carlos Gardel; a Argentina de San Martin, de Urquiza e de Mitre. E de Evita. O México é outra referência infeliz do embaixador. Seu povo é uma vítima histórica, de Cortez ao presidente Polk, e de Polk a Bush, com o Nafta. Sua tragédia é estar, como dizia Cárdenas, “tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos”.

O ministro Nelson Jobim prevê represálias contra o Brasil pelos países preteridos na compra de caças para a FAB. Temos o direito soberano de comprar o que nos interessa e onde nos interessa. Sua excelência, no entanto, disse que “corremos o risco de país grande”. Se ele nos adverte que devemos nos preparar contra isso, é porque tem razão. Mas convém observar que nossa grandeza está dentro das fronteiras nacionais e no convívio amistoso com os outros povos. É esse convívio, sereno, sem ser subalterno, firme, sem ser arrogante, que está sendo reconhecido no mundo inteiro. Dessa postura, que o Itamaraty expressa, não nos devemos afastar.

domingo, 27 de dezembro de 2009

AMÉRICA LATINA - A década da América Latina.


A década de 1990 foi das piores que a América Latina já viveu. A crise da dívida – com suas conseqüências: FMI, cartas de intenção, ajustes fiscais, etc. – e as ditaduras militares abriram o caminho para que se impusessem governos neoliberais em praticamente todo o continente. Passamos a ser a região do mundo com a maior quantidade de governos neoliberais e com suas modalidades mais radicais.

A capacidade de reação da América Latina se revelou na sua capacidade de reverter radicalmente esse quadro: passamos a ser a região que concentra aos governos eleitos pela rejeição do neoliberalismo, que abriga processos de integração regional independentemente dos EUA, que promove formas inovadoras de integração fora da lógica mercantil.

Lideres latinoamericanos como Lula, Hugo Chavez, Evo Morales, Rafael Correa, entre outros, se projetaram internacionalmente, por sua capacidade de encarnar as necessidades dos seus povos. A Bolívia, o Equador e a Venezuela se somaram a Cuba, com os países que - conforme a Unesco - , terminaram com o analfabetismo.

Os países que optaram pela integração regional e não por Tratados de Livre Comércio, expandiram suas economias, distribuíram renda, avançaram nos direitos sociais da sua população, extenderam notavelmente o mercado interno de consumo popular, diversificaram seu comércio exterior, aumentaram significativamente o comércio entre eles.

Na década anterior, a América Latina havia sido reduzida à intranscendência. Governantes subalternos – Menem, Fujimori, FHC, Carlos Andrés Perez, Carlos Salinas de Gortari – tinham aplicado mecanicamente o mesmo modelo neoliberal, enfraquecido o Estado, a soberania, as economias nacionais. Os governos dos países que assumiram os programas neoliberais não incomodavam ninguém, havia reduzido nossos Estados a subseqüentes perdedores da globalização, que a aplaudiam, às custas da deteriorização ainda maior da situação dos povos dos nossos países.

A primeira década do novo século apresenta uma nova América Latina, com a maior quantidade de governos progressistas que o continente jamais teve. Com processos de integração regional fortalecidos – do Mercosul à Alba, do Banco do Sul à Unasul, do Conselho Sulamericano de Segurança ao Parlamento do Mercosul, entre outras iniciativas. Desenvolveu-se a Operação Milagre, que já permitiu recuperar a visão a mais de 2 milhões de pessoas, que de outra maneira não teriam possibilidade de recuperar a vista. Formaram-se novas gerações de médicos pobres na melhor medicina social do mundo – a cubana – nas Escolas Latinoamericanas de Medicina.

As crises econômicas da década anterior, típicas do neoliberalismo, que debilitaram a capacidade de defesa dos Estados nacionais diante do capital especulativo, que promoveu, entre tantas outras crises, as do México de 1994, do Brasil de 1999 e da Argentina de 2001-02, devastaram as economias desses países. O Brasil de FHC deixou um país em recessão prolongada e profunda para Lula, a quem coube superar a crise com políticas de desenvolvimento econômico.

Na década que termina, os países latinoamericanos que participam dos processos de integração regional – com destaque para o Brasil, a Bolívia, o Uruguai, o Equador – superaram a crise, desatada pelos países centrais do capitalismo, que ainda estão em recessão, que deverá se prolongar ainda por um bom tempo. Revelou a capacidade desses países de diversificar seu comércio exterior, de intensificar o comercio intraregional e de seguir expandindo o mercado interno de consumo popular.

A América Latina mostra hoje ao mundo a cara – imposta pela predominância de governos progressistas – de um continente em expansão econômica, afirmando sua soberania – em questões econômicas, políticas e de segurança regional -, melhorando a situação social do povo, consolidando políticas internacionais que intervêm na decisão dos grandes temas mundiais. Foi, sem dúvida, esta primeira década do novo século, a década da América Latina, que se projeta para a segunda década como um dos exemplos de luta na superação do neoliberalismo e de construção de sociedades mais justas e solidárias.

Postado por Emir Sader