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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A DOENÇA DO FUNDAMENTALISMO - Frei Leonardo Boff.

 
A doença do fundamentalismo
 
Leonardo Boff *
Tudo o que é sadio pode ficar doente. A religião, ao contrário do que dizem seus críticos como Freud, Marx, Dawkins e outros, se inscreve dentro de uma realidade sadia: a busca do ser humano pela Última Realidade que confere um sentido derradeiro à história e ao universo. Essa busca é legítima e se encontra atestada nas mais antigas expressões do homo sapiens/demens. Mas ela pode conhecer expressões doentias. Uma delas, hoje a mais frequente, é o fundamentalismo religioso. Mas ele se manifesta também onde reina o pensamento único em política.
O fundamentalismo não  é uma doutrina em si, mas uma atitude e uma forma de  entender e de  viver a doutrina. A atitude fundamentalista surge quando a verdade de sua igreja ou de seu grupo é entendida como a única legítima com a exclusão de todas outras, tidas como errôneas e por isso destituídas do direito de existir. Quem imagina ser seu ponto de vista o único válido está condenado a ser intolerante. Esta atitude fechada leva ao desprezo, à discriminação e à violência  religiosa ou política.
O nicho do fundamentalismo se encontra, historicamente no protestantismo norte-americano no final do século XIX, quando irrompeu a modernidade não apenas tecnológica, mas também nas formas democráticas de convivência política e na liberalização dos costumes. Neste contexto surgiu forte reação por parte da tradição protestante, fiel aos ideais dos “pais fundadores”, todos vindos do rigorismo da ética protestante. O termo fundamentalismo se prende a uma coleção de livros publicados pela Universidade de Princeton pelos presbiterianos que levava como título Fundamentals. A Testimony of Truth (1909-1915: “Os fundamentos, o testemunho da verdade”).  
Nesta coleção se propunha um antídoto à modernização: um cristianismo rigoroso, dogmático, fundado numa leitura literalista da Bíblia, considerada infalível e inerrante em cada uma de suas palavras, por ser considerada Palavra de Deus. Opunham-se a toda interpretação exegético-crítica da Bíblia e da atualização de sua mensagem para os contextos atuais.
Esta tendência fundamentalista, desde então, sempre esteve presente na sociedade e na política norte-americana. Ganhou expressão religiosa nas chamadas “electronic Churches”, aquelas igrejas que se valem dos modernos meios televisivos de comunicação que cobrem o país de costa a costa e que tem similares no Brasil e na América Latina. Eles combatem os cristãos liberais, os que praticam uma interpretação científica da Bíblia e aceitam os movimentos modernos das feministas, dos homoafetivos dos que defendem a descriminalização do aborto. Tudo isso é interpretado por eles como obra de Satanás.   
A vertente política assimilou a religiosa, unindo-a à ideologia política do “destino manifesto”, criada após a incorporação de territórios do México por parte dos EUA segundo a qual os norte-americanos têm o destino divino de levar o esclarecimento, os valores da propriedade privada, do livre mercado, da democracia e dos direitos a todos os povos como o afirmou o segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams. Como rezava a versão popular e política, os americanos são “o novo povo escolhido” que vai levar a todos à “Terra de Emanuel, sede daquele Reino novo e singular, que será concedido aos Santos do Altíssimo” (K. Amstrong, Em nome de Deus, Companhia das Letras, São Paulo 2001).    
Essa amálgama religioso-política deu origem à arrogância e ao unilateralismo nas relações internacionais da política externa norte-americana que perdura também sob Barack Obama.
Tipo semelhante de fundamentalismo encontramos em grupos católicos extremamente conservadores que ainda sustentam que “fora da Igreja não há salvação”. Afanam-se em converter pessoas o mais que podem para liberá-las do inferno. Em grupos evangélicos, especialmente, em setores das igrejas carismáticas com seus programas de TV revelam discursos fundamentalistas, particularmente face às religiões afrobrasileiras, pois consideram suas celebrações como obras de Satanás. Dai os frequentes exorcismos e até invasão de terreiros para “purificá-los” do Exu.
O fundamentalismo mais visível tanto em grupos  católicos quanto o em grupos  evangélicos se mostra nas questões morais: são inflexíveis face aos problemas do aborto, às uniões dos homoafetivos, ao empenho das mulheres por sua liberdade de decisão. Movem verdadeiras guerras ideológicas pelas redes sociais e meios de comunicação a todos aqueles que discutem tais questões, embora pertençam à agenda de todas as sociedades abertas.
 Infelizmente tínhamos uma candidata à presidência da República, Marina Silva, que manifesta um tipo de fundamentalismo que é o biblicismo. Faz uma leitura literalista da Bíblia, como se nela se encontrasse a solução para todos os problemas. Como disse bem o Papa Francisco, a Bíblia antes de ser um repositório de verdades é uma fonte inspiradora para as iniciativas humanas benfazejas. Ela deve ser posta atrás da cabeça para iluminar a realidade e não diante dos olhos, escondendo assim a realidade.
O Estado brasileiro é laico e pluralista. Acolhe todas as religiões sem aderir a nenhuma. Pela constituição não é lícito que uma determinada religião imponha a toda a nação seus pontos de vista. Uma autoridade pode ter suas convicções religiosas mas não é por elas, mas pelas leis e pelo espírito democrático que deve governar. Existem quatro evangelhos e não um só. E todos eles convivem entre si na diversidade das interpretações que dão da mensagem de Jesus. É um exemplo da riqueza da diversidade. O próprio Deus é a convivência eterna de Três Divinas Pessoas que pelo amor formam um só Deus. Fecunda é a diversidade.

* teólogo e escritor

terça-feira, 29 de julho de 2014

ARTIGO DO LEONARDO BOFF.

As ameaças da Grande Transformação (I)

"A vida corre risco e a espécie humana pode, seja pelas armas de destruição em massa existentes, seja pelo caos ecológico, desaparecer da face da Terra. Seria a consequência de nossa irresponsabilidade e da total falta de cuidado por tudo o que existe e vive", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
Eis o artigo.
A Grande Transformação consiste na passagem de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. Ou em outra formulação: de uma sociedade com mercado para uma sociedade só de mercado. Mercado sempre existiu na história da humanidade, mas nunca uma sociedade só de mercado. Quer dizer, uma sociedade que coloca a economia como o eixo estruturador único de toda a vida social, submetendo a ela a política e anulando a ética. Tudo é vendável, até o sagrado.
Não se trata de qualquer tipo de mercado. É o mercado que se rege pela competição e não pela cooperação. O que conta é o benefício econômico individual ou corporativo, e não o bem comum de toda uma sociedade. Geralmente este benefício é alcançado às custas da devastação da natureza e da gestação perversa de desigualdades sociais. Nesse sentido a tese de Thomas Piketty em O capital no século XXI é irrefutável.
O mercado deve ser livre, portanto, recusa controles e vê o Estado como seu grande empecilho, cuja missão, sabemos, é ordenar com leis e normas a sociedade, também o campo econômico e coordenar a busca comum do bem comum. A Grande Transformação postula um Estado mínimo, limitado praticamente às questões ligadas à infraestrutura da sociedade, ao fisco, mantido o mais baixo possível, e à segurança. Tudo o mais deve ser buscado no mercado, pagando.
O gênio da mercantilização de tudo penetrou em todos os setores da sociedade: a saúde, a educação, o esporte, o mundo das artes e do entretenimento e até grupos importantes das religiões e das igrejas. Estas incorporaram a lógica do mercado: a criação de uma massa enorme de consumidores de bens simbólicos, igrejas pobres em espírito, mas ricas em meios de fazer dinheiro. Não raro no mesmo complexo funciona um templo e junto a ele um shopping. Enfim, se trata sempre da mesma coisa: auferir rendas seja com bens materiais, seja com bens “espirituais”.
Quem estudou em detalhe este processo avassalador foi um historiador da economia, o húngaro-norte-americano Karl Polanyi (1886-1964). Ele cunhou a expressão A Grande Transformação, título do livro escrito antes do final da Segunda Guerra Mundial em 1944. No seu tempo a obra não mereceu especial atenção. Hoje, quando suas teses se veem mais e mais confirmadas, tornou-se leitura obrigatória para todos os que se propõem entender o que está ocorrendo no campo da economia com repercussão em todos os âmbitos da atividade humana, não excluída a religiosa. Desconfia-se que o próprio Papa Francisco tenha se inspirado en Polanyi para criticar a atual mercantilização de tudo, até do ser humano e órgãos.
Essa forma de organizar a sociedade ao redor dos interesses econômicos do mercado cindiu a humanidade de cima a baixo: um fosso enorme se criou entre os poucos ricos e os muitos pobres. Gestou-se uma espantosa injustiça social com multidões feitas descartáveis, consideradas óleo gasto, não mais interessante para o mercado: produzem irrisoriamente e consomem quase nada.
Simultaneamente, a Grande Transformação da sociedade em mercado criou também uma iníqua injustiça ecológica. No afã de acumular, foram explorados de forma predatória bens e serviços da natureza, devastando inteiros ecossistemas, contaminando os solos, as águas, os ares e os alimentos, sem qualquer outra consideração ética, social ou sanitária.
Um projeto desta natureza, de acumulação ilimitada, não é suportado por um planeta limitado, pequeno, velho e doente. Eis que surgiu um problema sistêmico, do qual os economistas deste tipo de economia raramente se referem: foram atingidos os limites físico-químicos-ecológicos do planeta Terra. Tal fato dificulta senão impede a reprodução do sistema que precisa de uma Terra, repleta de “recursos” (bens e serviços ou ‘bondades’ na linguagem dos indígenas).
A continuar por esse rumo, poderemos experimentar, como já o estamos experimentando, reações violentas da Terra. Como é um Ente vivo que se autorregula, reage para manter seu equilíbrio afetado através de eventos extremos, terremotos, tsunamis, tufões e uma completa desregulação dos climas.
Essa Transformação, por sua lógica interna, está se tornando biocida, ecocida e geocida. Destrói sistematicamente as bases que sustentam a vida. A vida corre risco, e a espécie humana pode, seja pelas armas de destruição em massa existentes, seja pelo caos ecológico, desaparecer da face da Terra. Seria a consequência de nossa irresponsabilidade e da total falta de cuidado por tudo o que existe e vive.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

LEONARDO BOFF - O tempo das utopias mínimas viáveis.

O tempo das utopias mínimas viáveis
Leonardo Boff
 
Adital
 
Não é verdade que vivemos tempos pós-utópicos. Aceitar esta afirmação é mostrar uma representação reducionista do ser humano. Ele não é apenas um dado que está ai fechado, vivo e consciente, ao lado de outros seres. Ele é também um ser virtual. Esconde dentro de si virtualidades ilimitadas que podem irromper e concretizar-se. Ele é um ser de desejo, portador do princípio esperança (Bloch), permanentemente insatisfeito e sempre buscando novas coisas. No fundo, ele é um projeto infinito, à procura de um obscuro objeto que lhe seja adequado.
É desse transfundo virtual que nascem os sonhos, os pequenos e grandes projetos e as utopias mínimas e máximas. Sem elas, o ser humano não veria sentido em sua vida e tudo seria cinzento. Uma sociedade sem uma utopia deixaria de ser sociedade, lhe faltaria um fator de coesão interna, um rumo definido pois afundaria no pântano dos interesses individuais ou corporativos. O que entrou em crise não são as utopias, mas certo tipo de utopia, as utopias maximalistas vindas do passado.
Os últimos séculos foram dominados por utopias maximalistas. A utopia iluminista que universalizaria o império da razão contra todos os tradicionalismos e autoritarismos. A utopia industrialista de transformar as sociedades com produtos tirados da natureza e da invenções técnicas. A utopia capitalista de levar progresso e riqueza para todo mundo. A utopia socialista de gerar sociedades igualitárias e sem classes. As utopias nacionalistas sob a forma do nazi fascismo que, a partir de uma nação poderosa, de "raça pura”, redesenharia a humanidade, impondo-se a todo mundo. Atualmente a utopia da saúde total, gestando as condições higiênicas e medicinais que visam a imortalidade biológica ou o prolongamento da vida até a idade das células (cerca de 130 anos). A utopia de um único mundo globalizado sob a égide da economia de mercado e da democracia liberal. A utopia de ambientalistas radicais que sonham com uma Terra virgem e o ser humano totalmente integrado nela.
Essas são as utopias maximalistas. Propunham o máximo. Muitas deles foram impostas com violência ou geraram violência contra seus opositores. Temos hoje distância temporal suficiente para nos confirmar que estas utopias maximalistas frustraram o ser humano. Entraram em crise e perderam seu fascínio. Daí falarmos de tempos pós-utópicos. Mas o pós se refere a este tipo de utopia maximalista. Elas deixaram um rastro de decepção e de depressão, especialmente, a utopia da revolução absoluta dos anos 60-70 do século passado como a cultura hippie e seus derivados.
Mas a utopia permanece porque pertence ao ânimo humano. Hoje a busca se orienta pelas utopias minimalistas, aquelas que, no dizer de Paulo Freire, realizam o "possível viável” e fazem a sociedade "menos malvada e tornam menos difícil o amor”. Nota-se por todas as partes a urgência latente de utopias do simples melhoramento do mundo. Tudo o que nos entra pela muitas janelas de informação nos levam a sentir: assim como o mundo está não pode continuar. Mudar e se não der, ao menos melhorar.
Não pode continuar a absurda acumulação de riqueza como jamais houve na história (85 mais ricos possuem rendas correspondentes a 3,57 bilhões de pessoas, como denunciava a ONG Oxfam intermón em janeiro deste ano em Davos). Para esses, o sistema econômico-financeiro não está em crise; ao contrário, oferece chances de acumulação como nunca antes na história devastadora do capitalismo. Há que se pôr um freio à ferocidade produtivista que assalta os bens e serviços da natureza em vista da acumulação, produz gases de efeito estufa que alimenta o aquecimento global. Se não for detido, poderá produzir um armagedon ecológico.
As utopias minimalistas, a bem da verdade, são aquelas que vêm sendo implementadas pelo governo atual do PT e seus aliados com base popular: garantir que o povo coma duas ou três vezes ao dia, pois o primeiro dever de um Estado é garantir a vida dos cidadãos; isso não é assistencialismo mas humanitarismo em grau zero. São os projeto "minha casa-minha vida”, "luz para todos”, o aumento significativo do salário mínimo, o "Prouni” que permite o acesso aos estudos superiores a estudantes socialmente menos favorecidos, os "pontos de cultura” e outros projetos populares que não cabe aqui elencar.
Na perspectiva das grandes maiorias, são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda às necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não lhe tire tanto tempo de vida, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e com uma aposentadoria digna para enfrentar os achaques da velhice.
A consecução destas utopias mínimas cria a base para utopias mais altas: que tenhamos uma verdadeira democracia participativa de base popular, aspirar que os povos se abracem na fraternidade, que não se guerreiem, se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma utopia máxima ou mínima pode ser projetada. O primeiro ofício do ser humano é viver livre de necessidades e gozar um pouco do reino da liberdade. E por fim poder dizer: "valeu a pena”.
[Leonardo Boff é teólogo e escreveu Virtudes para um outro mundo possível, 3 vol. Vozes, 2005]

sexta-feira, 7 de março de 2014

A SABEDORIA CHINESA DO CUIDADO.


A sabedoria chinesa do cuidado: o Feng Shui.
 
 Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor.
 
Uma das vantagens da globalização, que não é só econômico-financeira, mas também cultural, é permitir-nos colher valores pouco desenvolvidos em nossa cultura ocidental. No caso, temos a ver com o Feng-Shui chinês. Literalmente significa vento (feng) e água (shui). O vento leva o Chi, a energia universal, e a água o retém. Personalizado significa “o mestre das receitas”: o sábio que, a partir de sua observação  da natureza e da fina sintonia com o Chi,indicava o rumo dos ventos e o veios d’água e, assim, como bem montar a moradia.
         Beatriz Bartoly, em sua brilhante tese em filosofia na UERJ, da qual fui orientador, escreve: “o Feng Shui nos remete para uma forma de zelo  carinhoso” –nós diríamos cuidadoso e terno– “com o banal de nossa existência, que no Ocidente, por longo tempo, tem sido desprestigiado e menosprezado: cuidar das plantas, dos animais, arrumar a casa, cuidar da limpeza, da manutenção dos aposentos, preparar os alimentos, ornamentar o cotidiano com a prosaica e, ao mesmo tempo, majestosa beleza da natureza. Porém mais do que as construções e as obras humanas é a sua conduta e a sua ação que é o alvo maior desta filosofia de vida,  pois mais do que os resultados, o Feng-Shui visa o processo. É o exercício de embelezamento que importa, mais do que o belo cenário que se quer construir.  O valor está na ação e não no seu efeito, na conduta e não na obra.”     
         Como se depreende, a filosofia Feng-Shui visa antes o sujeito que o objeto,  mais a pessoa do que ambiente e a casa em si.  A pessoa precisa envolver-se no  processo, desenvolver a percepção do ambiente, captar os fluxos energéticos e os ritmos da natureza. Deve assumir uma conduta em harmonia com os outros, com o cosmos e com os processos rítmicos da natureza. Quando tiver criado essa ecologia interior, estará capacitado para organizar, com sucesso, sua ecologia exterior.
      Mais que uma ciência e uma arte, o Feng Shui é fundamentalmente uma sabedoria, uma ética ecológico-cósmica de como cuidar da correta distribuição do Chi em nosso ambiente inteiro.
          Nas suas múltiplas facetas o Feng Shui representa uma síntese acabada do cuidado na forma como se organiza o jardim, a casa ou o apartamento, com harmoniosa integração dos elementos presentes. Podemos até dizer que os chineses, como os gregos clássicos, são os incansáveis buscadores do equilíbrio dinâmico em todas as coisas.
         O supremo ideal da tradição chinesa, que encontrou no   budismo e no taoismo sua melhor expressão,  representada por Lao-Tse (do V-VI século A.C.)  e por  Chuang-Tzu (século IV-V A.C.), consiste em procurar a unidade mediante um processo de integração  das diferenças, especialmente das conhecidas polaridades deyin/yang, masculino/feminino, espaço/tempo, celestial/terrenal, entre outras. O Tao representa essa integração, realidade inefável com a  qual a pessoa busca se unir.
         Tao significa caminho e método, mas também aEnergia misteriosa e secreta que produz todos os caminhos e projeta todos os métodos. Ele é inexprimível em palavras,  diante dele vale o nobre silêncio. Subjaz na polaridade do yine do yang  e através deles se manifesta. O ideal humano é chegar a uma união tão profunda  com o Tao que se produza o satori, a iluminação. Para os taoistas o bem supremo não se dá no além morte, como para os cristãos, mas ainda no tempo e na história, mediante uma experiência de não-dualidade e de integração no Tao. Ao morrer a pessoa mergulha no Tao e se uni-fica  com ele.
        Para se alcançar esta união,  faz-se imprescindível a sintonia  com  a energia vital que perpassa o céu e a terra: o Chi.  Chi é intraduzível, mas equivale ao ruah  dos judeus, aopneuma dos gregos,  ao spiritus dos latinos e ao axé  dos yoruba/nagô, ao vácuo quântico dos cosmólogos: expressões  que designam a Energia suprema e cósmica que subjaz e sustenta todos os seres.
         É por força do Chi que todas as coisas se transformam (veja o livro I Ching, o livro das mutações) e se mantém permanentemente em processo. Flui no ser humano através dos meridianos da acupuntura. Circula na Terra  pelas veias telúricas subterrâneas, compostas pelos campos eletromagnéticos distribuídos ao longo dos meridianos daacupuntura, que entrecruzam a superfície terrestre. Quando o Chi se expande significa vida; quando se retrai, significa morte. Quando ganha peso, apresenta-se como matéria; quando se torna sutil, apresenta-se como espírito. A natureza é a combinação sábia dos vários estados do Chi, desde os mais pesados até os mais leves.
         Quando o Chi emerge num determinado lugar, surge uma paisagem aprazível com brisas suaves e águas cristalinas, montanhas sinuosas e vales verdejantes.  É um convite para o ser humano instalar ai  sua morada. Ou encontra um apartamento no qual se sente “em casa”.
         A visão chinesa  do mundo privilegia o espaço, à diferença do Ocidente que privilegia o tempo. O espaço, para o taoismo, é o lugar do encontro, do convívio, das interações de todos com todos, pois todos são portadores da energia Chi que empapa o espaço. A suprema expressão do espaço se realiza na casa, no jardim, ou no apartamento bem cuidado.
         Se o ser humano quiser ser feliz, deve desenvolver atopofilia, o amor ao lugar onde mora e onde constrói sua casa e seu jardim, ou mobilia seu apartamento. O Feng Shui é a arte e a  técnica de bem construir a casa, o jardim e decorar o apartamento com sentido de harmonia e beleza.
         Face ao desmantelamento  do cuidado e à grave crise ecológica atual, a milenar sabedoria  do Feng-Shui nos ajuda a refazer a aliança de simpatia e de amor para com a natureza. Essa conduta  reconstrói a morada humana (que os gregos chamavam de ethos), assentada sobre o cuidado e a suas múltiplas ressonâncias como a ternura, a carícia e a cordialidade.
Leonardo Boff escreveu: Virtudes para um outro mundo possível,3 voll., Vozes 2006.

sábado, 25 de janeiro de 2014

LEONARDO BOFF E OS ROLEZINHOS.



Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista

Por Leonardo Boff
O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.
Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras.
Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:
Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.
Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressupsto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para ve-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.
Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desperezados e mantidos longe, na margem.
Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.
Artigo escrito primeiramente para o JB on-line

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

LEONARDO BOFF: Estamos num voo cego.


Estamos num voo cego: para onde vamos?

"Somos ungidos a mudar de rumo, vale dizer, assumir novos princípios e valores, capazes de organizar de forma amigável nossa relação para com a natureza e para com a Casa Comum. O documento mais inspirador é seguramente a Carta da Terra, nascida de uma consulta mundial que durou oito anos, sob a inspiração de Michail Gobachev e aprovada pela UNESCO em 2003", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
Eis o artigo.
Quem leu meus dois artigos anteriores O funesto império mundial das corporações e Uma governança global da pior espécie: os mercadores terá seguramente concluído que na única nave espacial - Terra, seus passageiros viajam em condições totalmente diferentes. Um pequeno grupo de super ricos ocuparam para si a primeira classe com um luxo escandaloso; Outros felizardos ainda viajam na classe econômica e são servidos razoavelmente de comida e bebida. O resto da humanidade, aos milhões, viaja junto às bagagens sujeita ao frio de dezenas de graus abaixo de zero, semimortos de fome, de sede e no desespero. Esmurram as paredes dos de cima, gritando: ou repartimos o que temos nesta única nave espacial ou, num certo momento, acabará o combustível e pouco importa as classes, morreremos todos. Mas quem os escutará? Impassíveis dormem depois de um lauto jantar.
Metaforicamente esta é a situação real da Humanidade. Na verdade, estamos perdidos e num voo cego. Como chegamos a esta situação ameaçadora?
Temos experimentado dois modelos de produção e de utilização dos bens e serviços naturais para atender as demandas humanas: o socialismo e o capitalismo. Ambos fracassaram. Não cabem detalhes os dados. O sistema do socialismo real era de economia de planejamento estatal centralizado.
Chegou a níveis razoáveis de igualdade-equidade nos campos da educação, da saúde e da moradia mas, por razões internas e externas, especialmente por seu caráter ditatorial não conseguiu resolver suas contradições e ruiu.
O sistema capitalista neoliberal de mercado livre com parco controle do Estado também fracassou em razão de sua lógica interna, a de acumular de forma ilimitada bens materiais sem qualquer outra consideração. Produziu duas injustiças graves: uma social a ponto de 20% dos mais ricos controlarem 82,4% das riquezas das Terras e os 20% mais pobres devendo-se contentar com 1,6%; e outra injustiça ecológica devastando inteiros ecossistemas e eliminando espécies de seres vivos na ordem entre 70-100 mil por ano. Este sistema quebrou em 2008 exatamente no coração dos países centrais.
O comunismo chinês é sui generis: pragmaticamente combina todos os modos de produção, desde o uso da força física das pessoas, dos animais, até a mais alta tecnológica, articulando a propriedade estatal com a privada ou mixta, desde que o resultado final seja uma maior produção com mínimo sentido de justiça social e ecológica.
Mas importa reconhecer que está crescendo o convencimento bem fundado de que o sistema-Terra limitado em bens e serviços, pequeno e superpovoado já não suporta um projeto de crescimento ilimitado. Ele perdeu as condições de repor o que lhe tiramos, por isso se torna cada vez mais insustentável. Mas por ser uma super entidade viva, a Terra reage de forma cada vez mais violenta: mudanças climáticas bruscas, furacões, tsunamis, degelo, desertificação espantosa, erosão da biodiversidade e um aquecimento global que não para de aumentar. Quando vai parar esse processo? Se continuar para onde nos vai levar?
Somos ungidos a mudar de rumo, vale dizer, assumir novos princípios e valores, capazes de organizar de forma amigável nossa relação para com a natureza e para com a Casa Comum. O documento mais inspirador é seguramente a Carta da Terra, nascida de uma consulta mundial que durou oito anos, sob a inspiração de Michail Gobachev e aprovada pela UNESCO em 2003. Ela incorpora os dados mais seguros da nova cosmologia que mostram a Terra como um momento de um vasto universo em evolução, viva e dotada de uma complexa comunidade de vida. Todos os seres vivos são portadores do mesmo código genético de base de sorte que todos são parentes entre si.
Quatro princípios axiais estruturam o documento: o respeito e o cuidado pela comunidade de vida (1); a integridade ecológica (2); a justiça social e econômica (3); a democracia, a não violência e a paz (4). Com severidade adverte: ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos a nossa destruição e a da diversidade de vida (preambulo).
As palavras finais do documento apelam para uma retomada da humanidade: como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a um novo começo. Isso requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Só assim alcançaremos um modo de vida sustentável nos níveis local, regional, nacional e global (Conclusão).
Repare-se que não se fala de reformas, mas de um novo começo. Trata-se de reinventar a humanidade. Tal propósito demanda um novo olhar sobre a Terra (mente), vista como um ente vivo, Gaia, e uma nova relação de cuidado e de amor (coração), obedecendo à lógica universal da interdependência de todos com todos e da responsabilidade coletiva pelo futuro comum.
Este é o caminho a seguir que servirá de carta de navegação para a nave-Terra aterrissar segura num outro tipo de mundo.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O PAPA NÃO É VATICANOCÊNTRICO.

O Papa não é vaticanocêntrico. Artigo de Leonardo Boff. 
 
“O Papa Francisco não conheceu o capitalismo central e triunfante da Europa, mas o capitalismo periférico, subalterno, agregado e sócio minoritário do grande capitalismo mundial. O grande perigo nunca foi o marxismo, mas a selvageria do capitalismo não civilizado. Este tipo de capitalismo tem gerado, em nosso Continente latino-americano, uma escandalosa acumulação de riqueza para poucos à custa da exclusão e pobreza para a grande maioria do povo”, escreve Leonardo Boff , teólogo, filósofo e escritor. O artigo é publicado no sítio Religión Digital, 03-01-2014. A tradução é do Cepat.
Fonte:http://goo.gl/8H0VAA
Eis o artigo.
Quem escuta as diferentes intervenções do bispo de Roma e atual papa sente-se em casa, e na América Latina. O Papa não é eurocêntrico, nem romântico e muito menos vaticanocêntrico. É um pastor “vindo do fim do mundo”, da periferia do velho cristianismo europeu, decadente e agônico (hoje apenas 24% dos católicos são europeus); proveniente de um cristianismo novo que tem sido elaborado ao longo de 500 anos na América Latina, com uma cara própria e com sua teologia.

O Papa Francisco não conheceu o capitalismo central e triunfante da Europa, mas o capitalismo periférico, subalterno, agregado e sócio minoritário do grande capitalismo mundial. O grande perigo nunca foi o marxismo, mas a selvageria do capitalismo não civilizado. Este tipo de capitalismo tem gerado, em nosso Continente latino-americano, uma escandalosa acumulação de riqueza para poucos à custa da exclusão e pobreza para a grande maioria do povo.

Seu discurso é direto, explícito, sem o álibi das metáforas frequentemente usadas no discurso oficial e “equilibrista” do Vaticano, que acaba por enfatizar mais a segurança e a equidistância do que a verdade e a clareza de sua própria posição.
A posição do Papa Francisco pelos pobres excluídos é muito clara: “Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem” visto que “existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” (Exortação nº48). De forma contundente faz a denúncia: “o sistema social e econômico é injusto na sua raiz” (nº59); “devemos dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. “Esta economia mata (...) O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois jogar fora. (...) Os excluídos não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’”. (nº53)
Além disto, não se pode negar que estas formulações do Papa Francisco lembram o magistério dos bispos latino-americanos de Medellín (1968), Puebla (1979) e de Aparecida (2005), assim como o pensamento comum da teologia da libertação, que tem como eixo central a opção pelos pobres, o fim da pobreza e a favor da vida e da justiça social.
Há uma perceptível afinidade com o economista húngaro-norteamericano Karl Polanyi, o primeiro a denunciar a “Grande Transformação” (título do seu livro de 1944), que transforma a economia de mercado em uma sociedade de mercado. Nela tudo passa a ser uma mercadoria, até mesmo as coisas mais sagradas e mais vitais. Tudo é objeto de lucro. Tal sociedade se rege estritamente pela competição, pelo prevalecimento do individualismo e pela ausência de qualquer limite. Por isto não respeita nada e cria um caldo de violência, intrínseco à forma como ela se constrói e funciona. Duramente criticada pelo Papa Francisco (nº53), ela tem tido um efeito atroz. Nas palavras do Papa: “desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem dar-nos conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer e ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos em cuidar deles” (nº54).  Em uma palavra, vivemos tempos de grande desumanidade, impiedade e crueldade. Será que podemos nos considerar realmente civilizados, se entendermos por civilização a humanização do ser humano? Na verdade, trata-se de um retorno as formas primitivas de barbárie.
A conclusão final que o Pontífice decorre deste investimento é a de que “não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado” (nº204). E, desta maneira, ataca o coração ideológico e falso do sistema que impera.
E onde buscará por alternativas? Não irá beber da esperada Doutrina Social da Igreja. Respeita-a, mas observa: “não podemos evitar em ser concretos – sem pretender entrar em detalhes – para que os grandes princípios sociais não fiquem em meras generalidades que não interpelam ninguém”. (nº182). Buscará na prática humanitária do Jesus histórico. Não entende sua mensagem como uma regra petrificada no passado, mas como uma inspiração aberta para a história em constante mudança.  Jesus é alguém que nos ensina a viver e a conviver, a “reconhecer o outro, a curar as feridas, a construir pontes, a estreitar laços e a nos ajudar ‘a carregar as cargas uns dos outros’” (mº67).  Ao personalizar seu propósito disse: “A mim, interessa-me apenas procurar por aqueles que vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, para que possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra” (nº 208). Esta intenção assemelha-se a Carta da Terra que aponta para valores e princípios de uma nova humanidade, que habita com cuidado e com amor o planeta Terra.
O sonho de Papa Francisco atualiza o sonho de Jesus histórico, o do Reino da justiça, do amor e da paz. Não estava na intenção de Jesus criar uma nova religião, já que eram muitas as que existiam em seu tempo, mas pessoas que amam, solidarizam-se, mostram misericórdia, e tomam a todos como irmãos e irmãs, porque todos são filhos e filhas para o Filho.
Este tipo de cristianismo não tem nada de proselitismo, mas conquista pela atração de sua bela e profunda humanidade. Tais valores são os que podem dar outro rumo à sociedade mundial.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

LEONARDO BOFF - "A vontade de condenar e atingir letalmente o PT."

 
  Do Brasil 247 
O animus condemnandi (a vontade de condenar) e de atingir letalmente o PT é inegável nas atitudes açodadas e irritadiças do Ministro Barbosa

LEONARDO BOFF 

Leonardo BoffTradicionalmente a Justiça é representada por uma estátua que tem os olhos vendados para simbolizar a imparcialidade e a objetividade; a balança, a ponderação e a equidade; e a espada, a força e a coerção para impor o veredito.

Ao analisarmos o longo processo da Ação Penal 470 que julgou os envolvidos na dita compra de votos para os projetos do governo do PT, dentro de uma montada espetacularização mediática, notáveis juristas, de várias tendências, criticaram a falta de isenção e o caráter político do julgamento.
Não vamos entrar no mérito da Ação Penal 470 que acusou 40 pessoas. Admitamos que houve crimes, sujeitos às penas da lei.

Mas todo processo judicial deve respeitar as duas regras básicas do direito: a pressunção da inocência e, em caso de dúdiva, esta deve favorecer o réu.

Em outras palavras, ninguém pode ser condenado senão mediante provas materiais consistentes; não pode ser por indícios e ilações. Se persistir a dúvida, o réu é beneficiado para evitar condenações injustas. A Justiça como instituição, desde tempos imemoriais, foi estatuída extamente para evitar que o justiciamento fosse feito pelas próprias mãos e inocentes fossem injustamente condenados mas sempre no respeito a estes dois princípios fundantes.

Parece não ter prevalecido, em alguns Ministros de nossa Corte Suprema esta norma básica do Direito Universal. Não sou eu quem o diz mas notáveis juristas de várias procedências. Valho-me de dois de notório saber e pela alta respectabilidade que granjearam entre seus pares. Deixo de citar as críticas do notável jurista Tarso Genro por ser do PT e Governador do Rio Grande do Sul.

O primeiro é Ives Gandra Martins, 88 anos, jurista, autor de dezenas de livros, Professor da Mackenzie, do Estado Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra. Politicamente se situa no pólo oposto ao PT sem sacrificar em nada seu espírito de isenção. No da 22 de setembro de 2012 na FSP numa entrevista à Mônica Bérgamo disse claramente com referência à condenação de José Direceu por formação de quadrilha: todo o processo lido por mim não contem nenhuma prova. A condenação se fez por indícios e deduções com a utilização de uma categoria jurídica questionável, utilizada no tempo do nazismo, a “teoria do domínio do fato.” José Dirceu, pela função que exercia “deveria saber”.

Dispensando as provas materiais e negando o princípio da presunção de inocência e do “in dubio pro reo”, foi enquadrado na tal teoria. Claus Roxin, jurista alemão que se aprofundou nesta teoria, em entrevista à FSP de 11/11/2012 alertou para o erro de o STF te-la aplicado sem amparo em provas. De forma displicente, a Ministra Rosa Weber disse em seu voto:” Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”. Qual literatura jurídica? A dos nazistas ou do notável jurista do nazismo Carl Schmitt? Pode uma juiza do Supremo Tribunal Federal se permitir tal leviandade ético-jurídica?

Gandra é contundente: “Se eu tiver a prova material do crime, não preciso da teoria do domínio do fato para condenar”. Essa prova foi desprezada. Os juízes ficaram nos indícios e nas deduções. Adverte para a “monumental insegurança jurídica” que pode a partir de agora vigorar. Se algum subalterno de um diretor cometer um crime qualquer e acusar o diretor, a este se aplica a “teoria do domínio do fato” porque “deveria saber”. Basta esta acusação para condená-lo.

Outro notável é o jurista Antônio Bandeira de Mello, 77, professor da PUC-SP na mesma FSP do dia 22/11/2013. Assevera:”Esse julgamento foi viciado do começo ao fim. As condenações foram políticas. Foram feitas porque a mídia determinou. Na verdade, o Supremo funcionou como a longa manus da mídia. Foi um ponto fora da curva”.

Escandalosa e autocrática, sem consultar seus pares, foi a determinação do Ministro Joaquim Barbosa. Em princípio, os condenados deveriam cumprir a pena o mais próximo possível das residências deles. “Se eu fosse do PT” – diz Bandeira de Mello – “ou da família pediria que o presidente do Supremo fosse processado. Ele parece mais partidário do que um homem isento”.

Escolheu o dia 15 de novembro, feriado nacional, para transportar para Brasília, de forma aparatosa num avião militar, os presos, acorrentados e proibidos de se comunicar. José Genuino, doente e desaconselhado de voar, podia correr risco de vida.

Colocou a todos em prisão fechada mesmo aqueles que estariam em prisão semi-aberta. Ilegalmente prendeu-os antes de concluir o processo com a análise dos “embargos infringentes”.

O animus condemnandi (a vontade de condenar) e de atingir letalmente o PT é inegável nas atitudes açodadas e irritadiças do Ministro Barbosa. E nós tivemos ainda que defendê-lo contra tantos preconceitos que de muitas partes ouvimos pelo fato de sua ascendência afrobrasileira. Contra isso afirmo sempre: “somos todos africanos” porque foi lá que irrompemos como espécie humana. Mas não endossamos as arbitrariedades deste Ministro culto mas raivoso. Com o Ministro Barbosa a Justiça ficou sem as vendas porque não foi imparcial, aboliu a balança porque ele não foi equilibrado. Só usou a espada para punir mesmo contra os princípios do direito. Não honra seu cargo e apequena a mais alta instância jurídica da Nação.

Ele, como diz São Paulo aos Romanos: “aprisionou a verdade na injustiça”(1,18). A frase completa do Apóstolo, considero-a dura demais para ser aplicada ao Ministro.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A IMPORTÂNCIA DA ESPIRITUALIDADE PARA A SAÚDE DOS SERES HUMANOS.

Copiado da Tribuna da Internet




01Leonardo Boff
Via de regra, todos os operadores de saúde foram moldados pelo paradigma científico da modernidade, que operou uma separação drástica entre corpo e mente e entre ser humano e natureza. Criou as muitas especialidades que tantos benefícios trouxeram para o diagnóstico das enfermidades e também para as formas de cura. Reconhecido esse mérito, não se pode esquecer que se perdeu a visão de totalidade: o ser humano inserido no todo maior da sociedade, da natureza e das energias cósmicas, a doença como uma fratura nessa totalidade e a cura como uma reintegração nela.
Há uma instância em nós que responde pelo cultivo dessa totalidade, que zela pelo eixo estruturador de nossa vida: é a dimensão do espírito.
Neurobiólogos e estudiosos do cérebro identificaram a base biológica da espiritualidade. Ela se situa no lobo frontal do cérebro. Verificaram empiricamente que sempre que se captam os contextos mais globais ou ocorre uma experiência significativa de totalidade, ou também quando se abordam de forma existencial (não como objeto de estudo) realidades últimas, carregadas de sentido e que produzem atitudes de veneração, de devoção e de respeito, se verifica uma aceleração das vibrações em hertz dos neurônios aí localizados. Chamaram esse fenômeno de “ponto Deus” no cérebro ou de emergência da “mente mística” (Zohar, Q. S., “Inteligência Espiritual”, 2004). Trata-se de uma espécie de órgão interior pelo qual se capta a presença do Inefável dentro da realidade.
Esse “ponto Deus” se revela por valores intangíveis, como mais compaixão, mais solidariedade, mais sentido de respeito e de dignidade. No termo, espiritualidade não é pensar Deus, mas sentir Deus mediante esse órgão interior e fazer a experiência de sua presença e atuação a partir do coração. Ele é percebido como entusiasmo (em grego, significa ter um deus dentro) que nos toma e nos faz saudáveis e nos dá a vontade de viver e de criar continuamente sentidos de existir.
Que importância emprestamos a essa dimensão espiritual no cuidado da saúde e da doença? A espiritualidade possui uma força curativa própria. Não se trata de forma nenhuma de algo mágico e esotérico. Trata-se de potenciar aquelas energias que são próprias da dimensão espiritual, tão válidas como a inteligência, a libido, o poder e o afeto, entre outras dimensões do humano.
ENERGIAS REGENERATIVAS
A espiritualidade reforça na pessoa, em primeiro lugar, a confiança nas energias regenerativas da vida, na competência do médico e no cuidado diligente da enfermeira. Sabemos pela psicologia do profundo e do transpessoal o valor terapêutico da confiança na condução normal da vida.
Não raro, os próprios médicos se surpreendem com a rapidez com que alguém se recupera, ou mesmo como situações, normalmente dadas como irreversíveis, regridem e acabam levando à cura. No fundo, é crer que o invisível e o imponderável são parte do visível e do previsível.
Pertence também ao mundo espiritual a esperança imorredoura de que a vida não termina na morte, mas se transfigura através dela.
Força maior, entretanto, é a fé de sentir-se na palma da mão de Deus. Entregar-se, confiadamente, à sua vontade, desejar ardentemente a cura, mas também acolher serenamente sua vontade de chamar-nos para si: eis a presença da energia espiritual. Não morremos, Deus vem nos buscar e nos levar para onde pertencemos desde sempre, para a sua Casa e para o seu convívio. Tais convicções espirituais funcionam como fontes de água viva, geradoras de cura e de potência de vida. É o fruto da espiritualidade. (transcrito de O Tempo)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

POLÍTICA - Porque admiro Leonardo Boff.

LEONARDO BOFF: '...Por isso, as demonstrações devem continuar na rua contra as tramóias da direita....'

PORQUE ADMIRO LEONARDO BOFF

Este é parte de um artigo deste pensador...

"É sabido que com a vitória do capitalismo sobre o socialismo estatal do Leste europeu em 1989, o Presidente Reagan e a primeira ministra Tatscher inauguraram uma campanha mundial de desmoralização do Estado, tido como ineficiente e da política como empecilho aos negócios das grandes corporações globalizadas e à lógica da acumulação capitalista. Com isso visava-se a chegar ao Estado mínimo, debilitar a sociedade civil e abrir amplo espaço às privatizações e ao domínio do mercado, até conseguir a passagem de uma sociedade com mercado para uma sociedade de puro mercado no qual tudo, mas tudo mesmo, da religião ao sexo, vira mercadoria. E conseguiram. O Brasil sob a hegemonia do PSDB se alinhou ao que se achava o marco mais moderno e eficaz da política mundial. Protagonizou vasta privatização de bens públicos que foram maléficos ao interesse geral.
Que isso foi uma desgraça mundial se comprova pelo fosso abissal que se estabeleceu entre os poucos que dominam os capitais e as finanças e a grandes maiorias da humanidade
. Sacrifica-se um povo inteiro como a Grécia, sem qualquer consideração, no altar do mercado e da voracidade dos bancos. O mesmo poderá acontecer com Portugal, com a Espanha e com a Itália.
A crise econômico-financeira de 2008 instaurada no coração dos países centrais que inventaram esta perversidade social, foi consequência deste tipo de opção política. Foram os Estados que tanto combateram que os salvaram da completa falência, produzida por suas medidas montadas sobre a mentira e a ganância (greed is good), como não se cansa de acusar o prêmio Nobel de economia Paul Krugman. Para ele, estes corifeus das finanças especulativas deveriam estar todos na cadeia como criminosos. Mas continuam aí faceiros e rindo.
Então, se devemos criticar a nossa classe política por ser corrupta e o Estado por ser ainda, em grande parte, refém da macro-economia neoliberal, devemos fazê-lo com critério e senso de medida. Caso contrário, levamos água ao moinho da direita. Esta se aproveita desta crítica, não para melhorar a sociedade em benefício do povo que grita na rua, mas para resgatar seu antigo poder político especialmente, aquele ligado ao poder de Estado a partir do qual garantia seu enriquecimento fácil. Especialmente a mídia privada e familiar, cujos nomes não precisam ser citados, está empenhada fevorosamente neste empreitada de volta ao velho status quo.
Por isso, as demonstrações devem continuar na rua contra as tramóias da direita. Precisam estar atentas a esta infiltração que visa a mudar o rumo das manifestações. Elas invocam a segurança pública e a ordem a ser estabelecida. Quem sabe, até sonham com a volta do braço armado para limpar as ruas." (LEONARDO BOFF)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

LEONARDO BOFF - " Não seria a refundação do Brasil?"

| 29/07/2013 | Copyleft

O sentido das manifestações não seria a refundação do Brasil?

Efetivamente, até hoje o Brasil foi e continua sendo um apêndice do grande jogo econômico e político do mundo. Mesmo politicamente libertados, continuamos sendo reconolizados, pois as potências centrais, antes colonizadoras, nos querem manter ao que sempre nos condenaram: a ser uma grande empresa neocolonial que exporta commodities. Por Leonardo Boff



O que o povo que estava na rua no mês de junho queria, em último término, de forma consciente ou inconsciente? Para responder me apoio em três citações inspiradoras.

A primeira é de Darcy Ribeiro no prefácio ao meu livro O caminhar da Igreja com os oprimidos((1998):”Nós brasileiros surgimos de um empreendimento colonial que não tinha nenhum propósito de fundar um povo. Queria tão somente gerar lucros empresariais exportáveis com pródigo desgaste de gentes”.

A segunda é de Luiz Gonzaga de Souza Lima na mais recente e criativa interpretação do Brasil: ”A refundação do Brasil: Rumo à sociedade biocentrada (São Carlos, 2011): ”Quando se chega ao fim, lá onde acabam os caminhos, é porque chegou a hora de inventar outros rumos; é hora de outra procura; é hora de o Brasil se refundar; a Refundação é o caminho novo e, de todos os possíveis, é aquele que mais vale a pena, já que é próprio do ser humano não economizar sonhos e esperanças; o Brasil foi fundado como empresa. É hora de se refundar como sociedade” (contracapa).

A terceira é do escritor francês François-René de Chateaubriand (1768-1848): ”Nada é mais forte do que uma ideia quando chegou o momento de sua realização”.

Minha impressão é que as multitudinárias manifestações de rua que se fizeram sem siglas, sem cartazes dos movimentos e dos partidos conhecidos e sem carro de som, mas irrompendo espontaneamente, queriam dizer: estamos cansados do tipo de Brasil que temos e herdamos — corrupto, com democracia de baixa intensidade, que faz políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres, no qual as grandes maiorias não contam e pequenos grupos extremamente opulentos controlam o poder social e político; queremos outro Brasil que esteja à altura da consciência que desenvolvemos como cidadãos e sobre a nossa importância para o mundo, com a biodiversidade de nossa natureza, com a criatividade de nossa cultura e com o maior patrimônio que temos que é o nosso povo, misturado, alegre, sincrético, tolerante e místico.

Efetivamente, até hoje o Brasil foi e continua sendo um apêndice do grande jogo econômico e político do mundo. Mesmo politicamente libertados, continuamos sendo reconolizados, pois as potências centrais, antes colonizadoras, nos querem manter ao que sempre nos condenaram: a ser uma grande empresa neocolonial que exporta commodities, grãos, carnes, minérios, como o mostra em detalhe Luiz Gonzaga de Souza Lima e o reafirmou Darcy Ribeiro citado acima. Desta forma nos impedem de realizarmos nosso projeto de nação independente e aberta ao mundo.

Diz com fina sensibilidade social Souza Lima: ”Ainda que nunca tenha existido na realidade, há um Brasil no imaginário e no sonho do povo brasileiro. O Brasil vivido dentro de cada um é uma produção cultural. A sociedade construíu um Brasil diferente do real histórico, o tal país do futuro, soberano, livre, justo, forte mas sobretudo alegre e feliz” (pág. 235). Nos movimentos de rua irrompeu este sonho exuberante de Brasil.

Caio Prado Júnior em sua A revolução brasileira (Brasiliense, 1966) profeticamente escreveu: ”O Brasil se encontra num daqueles momentos em que se impõem de pronto reformas e transformações capazes de reestruturarem a vida do país de maneira consentânea, com suas necessidades mais gerais e profundas e as espirações da grande massa de sua população que, no estado atual, não são devidamente atendidas” (pág. 2). Chateaubriand confirma que esta ideia acima exposta madurou e chegou ao momento de sua realização. Não seria sentido básico dos reclamos dos que estavam, aos milhares, na rua? Querem um outro Brasil.

Sobre que bases se fará a Refundação do Brasil? Souza Lima diz que é sobre aquilo que de mais fecundo e original temos: a cultura brasileira. ”É através de nossa cultura que o povo brasileiro passará a ver suas infinitas possibilidades históricas. É como se a cultura, impulsionada por um poderoso fluxo criativo, tivesse se constituído o suficente para escapar dos constrangimentos estruturais da dependência, da subordinação e dos limites acanhados da estrutura socioeconômica e política da empresa Brasil e do Estado que ela criou só para si. A cultura brasileira então escapa da mediocridade da condição periférica e se propõe a si mesma com pari dignidade em relação a todas as culturas, apresentando ao mundo seus conteúdos e suas valências universais” (pág. 127).

Não há espaço aqui para detalhar esta tese original. Remeto o leitor/a a este livro, que está na linha dos grandes intérpretes do Brasil, a exemplo de Gilberto Freyre, de Sérgio Buarque de Hollanda, de Caio Prado Jr, de Celso Furtado e de outros. A maioria destes clássicos intérpretes olhou para trás e tentou mostrar como se construíu o Brasil que temos. Souza Lima olha para a frente e tenta mostrar como podemos refundar um Brasil na nova fase planetária, ecozoica, rumo ao que ele chama de “uma sociedade biocentrada”.

Não serão estes milhares de manifestantes os protagonistas antecipadores do ancestral e popular sonho brasileiro? Assim o queira Deus e o permita a história.

*Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é também escritor. É dele o livro ‘Proteger a Terra e cuidar da vida: Como evitar o fim do mundo (Record, 2010).

LEONARDO BOFF E O PAPA


‘Enquanto Ratzinger viver, não é bom que Francisco me receba em Roma’, diz Leonardo Boff

Francho Barón (El País)
Genézio Darci Boff, ou Leonardo Boff (nascido em Santa Catarina em 1938), teólogo da Libertação, foi condenado ao ostracismo por Joseph Ratzinger em 1985, depois da publicação de seu livro “Igreja, Carisma e Poder”, um torpedo contra o “establishment” do Vaticano nos últimos dois papados. Ele volta à cena para anunciar a chegada da igreja do terceiro milênio, liderada por Francisco. Segundo Boff, uma instituição “com cheiro de ovelhas, e não flores de altar”.
El País: O que o mundo pode esperar do papa Francisco?
Leonardo Boff: Vem um papa cujo nome, Francisco, não é um nome, mas um projeto de igreja. Uma igreja pobre, humilde, despojada do poder, que dialoga com o povo. Temos muita esperança de que ele inaugure a igreja do terceiro milênio. Também creio que se criará uma dinastia de papas do Terceiro Mundo.
El País: O senhor foi uma grande voz dissidente na Igreja Católica e um dos mais críticos com os dois papas anteriores. O que o faz ser tão otimista quando fala do novo pontífice?
Boff: Creio que é muito corajoso. Situou-se ao lado dos pobres e contra a injustiça. Temos uma igreja que tem hábitos palacianos e principescos. Este papa mandou sinais de que quer outro estilo de igreja, dos pobres para os pobres, e essa é a grande herança da Teologia da Libertação. Vai pôr em xeque os hábitos tradicionais de cardeais e bispos.
El País: A igreja brasileira sofre uma sangria de fiéis há anos. O senhor pensa que a chegada de Francisco ao Brasil poderá ser crucial para reverter essa tendência?
Boff: Certamente, muitos protestantes vão participar dos atos desta Jornada Mundial da Juventude. Por outro lado, não considero uma desgraça que haja muitas igrejas cristãs. Em grande parte é culpa da Igreja Católica, porque, de fato, para o número de católicos que temos no Brasil, deveríamos ter 120 mil sacerdotes e temos somente 17 mil. Em nível institucional, a igreja fracassou.
El País: O senhor considera a possibilidade de voltar à Igreja Católica com este novo papa?
Boff: Sempre me considerei um teólogo católico que nunca abandonou a igreja. Sempre disse que mudei de trincheira, mas não de batalha. Portanto, meu trabalho eclesiástico continua, mas com uma diferença: casei-me. Se o papa acabasse com o celibato obrigatório, voltaria ao caminho comum da igreja.
El País: O senhor acredita que Bergoglio poderia abolir o celibato obrigatório?
Boff: Creio que existe essa possibilidade, porque Francisco traz a experiência do Terceiro Mundo, onde o celibato nunca foi uma virtude especial. Vejo que pode dar dois passos: primeiro, reconhecer que há 100 mil sacerdotes casados na igreja e permitir que voltem a seu trabalho. Segundo, que se institua o celibato opcional. Todas as igrejas já fizeram isso e a única que resiste é a católica. E com isso se causa muito dano.
El País: O senhor pretende se encontrar com o Papa?
Boff: Não quero forçar essa situação. Ele já disse que gostaria de me receber em Roma, mas antes tem que reformar a Cúria. E, enquanto Bento 16 viver, não seria bom para Francisco que eu, que tive um confronto doutrinário com ele [Ratzinger], seja recebido em Roma. Mas ele está aberto a me receber, inclusive trocamos correspondência.
El País: O senhor pensa que a Teologia da Libertação pode viver um novo apogeu a partir de agora?
Boff: Creio que sim. A Teologia da Libertação nasceu como uma tentativa de escutar o grito do oprimido. A maneira de atuar do novo papa favorece essa doutrina. E seria melhor que nem a mencionasse, porque poderia criar polêmica.
El País: Como o senhor vê o futuro do catolicismo na América Latina?
Boff: Creio que o futuro da América Latina não será um futuro de cristianismo. Será uma religião nova, na qual haverá muitos elementos cristãos, especialmente os santos, a missa, os ritos como o batismo, a eucaristia e o matrimônio, mas também com elementos da tradição indígena e das religiões afro-americanas.