Vista do Fórum Social Mundial, a crise do Norte de África significa o colapso da segunda fronteira da Europa desenvolvida. A primeira é constituída pela Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. Com as duas fronteiras em crise, o centro torna-se frágil.
Por Boaventura Sousa Santos
Manifestação de abertura do XI Fórum Social Mundial, Dacar. Foto deharris/Flickr. Está a realizar-se em Dakar o XI Fórum Social Mundial (FSM). É a segunda vez que se reúne em África (a primeira foi em 2007, em Nairobi), o que revela o interesse dos seus organizadores em chamar a atenção para os problemas africanos e para o impacto que eles terão no mundo. Mal podiam supor que, ao tempo da realização do Fórum, o Norte de África estivesse no centro dos noticiários mundiais e os protestos sociais contra a crise económica e as ditaduras apoiadas pelo Ocidente fossem tão vigorosos, tão contagiantes e tão assentes num dos princípios básicos do FSM, o da radicalização da democracia como instrumento de transformação social.
A solidariedade do FSM com as lutas sociais no Norte de África tem raízes e razões que escapam aos media ocidentais ou que estes abordam em termos que revelam a dupla dificuldade do Ocidente de aprender com as experiências do mundo e de ser fiel aos princípios e valores de que se diz guardião. O FSM tem vindo a alertar, desde a sua criação, para a insustentabilidade económica, social, política, energética e ambiental do actual modelo económico neoliberal, dominado pelo capital financeiro desregulado, e para o facto de os custos mundiais daqui decorrentes não se confinarem aos países menos desenvolvidos.
A agitação social no Norte de África tem uma das suas raízes na profunda crise económica que a região atravessa. Os protestos sociais das últimas semanas no Egipto não se podem compreender sem as greves no sector têxtil dos últimos três anos, as quais, apesar de violentamente reprimidas, não mereceram a atenção mediática ocidental. Dez anos depois de o FSM ter alertado para a situação, o Fórum Económico Mundial (FEM), reunido há semanas em Davos, veio declarar que o agravamento das desigualdades sociais é o risco mais grave (mais grave que o risco da degradação ambiental) que o mundo corre nas próximas décadas. O que o FEM não diz é que tal risco decorre das políticas económicas que ele defendeu, ao longo de toda a década. Como um bom clube de ricos, pode ter assomos de má consciência, mas não pode pôr em causa a sua escandalosa acumulação de riqueza.
Vista do FSM, a crise do Norte de África significa o colapso da segunda fronteira da Europa desenvolvida. A primeira é constituída pela Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. Com as duas fronteiras em crise, o centro torna-se frágil e o "material" do eixo franco-alemão pode passar em breve do aço ao plástico. Mais profundamente, a História mostra que a estabilidade e a prosperidade da Europa começa e acaba no Mediterrâneo. Porque é que o Ocidente (Europa e América do Norte) não aprende com a História e os factos? Para o FSM, o Ocidente só aprenderá quando o que se passa nas periferias se parecer demasiado com o que se passa no centro. Talvez não tarde muito, e o problema é que pode ser então demasiado tarde para aprender.
A solidariedade do FSM com o Norte de África tem uma outra raiz: o respeito incondicional pela sua aspiração democrática. Neste domínio, a hipocrisia do Ocidente não tem limites. O seu objectivo é garantir a transição pacífica de uma ditadura pró-americana, pró-israelita, a favor da ocupação colonial da Palestina por parte de Israel, anti-iraniana, a favor da livre circulação do petróleo, pró-bloqueio à faixa de Gaza, anti-Hamas, a favor da divisão Fatah/Hamas para uma democracia com as mesmas características. Só assim se explica a obsessão em detectar fundamentalistas nos protestos e em falsificar a natureza política e social da Irmandade Islâmica. Os interesses de Israel e do petróleo não permitirão ao Ocidente ser alguma vez coerente nesta região do mundo com os princípios que proclama. Não aprendeu com os 100 mil mortos que resultaram da anulação (a que deu entusiástico apoio) da vitória democrática da Frente de Salvação Islâmica, nas eleições da Argélia, em 1991. Nem aprendeu com a conversão da faixa de Gaza no mais repugnante campo de concentração, em resultado do não reconhecimento da vitória eleitoral do Hamas, em 2006. Será que o Ocidente só aprenderá quando for pós-ocidental?
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Artigo publicado na Revista Visão, 10 de Fevereiro de 2011.
Fonte: Esquerda.net
Carlos Augusto de Araujo Dória, 82 anos, economista, nacionalista, socialista, lulista, budista, gaitista, blogueiro, espírita, membro da Igreja Messiânica, tricolor, anistiado político, ex-empregado da Petrobras. Um defensor da justiça social, da preservação do meio ambiente, da Petrobras e das causas nacionalistas.
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domingo, 13 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
FSM - Falhas em Dacar ajudam a candidatura de Porto Alegre.
A 11ª edição do Fórum Social Mundial (FSM), que se encerra nesta sexta-feira, em Dacar, no Senegal, marcou o retorno do maior evento de movimentos sociais do planeta à África. Mas o encontro, que começou no domingo, representou também um caos organizacional para os participantes.
A reportagem é publicada pelo Jornal do Comércio, 11-02-2011.
Na quarta-feira, por exemplo, o evento enfrentou falta de salas de aula para reuniões, cancelamentos e transferências de palestras, tudo com nível de informação mínimo.
Desde antes de seu início, o FSM 2011 em Dacar já gerava expectativas mais modestas em termos de organização. Participantes vindos da Europa para a África demonstravam tolerância em relação à estrutura disponível.
Mas com o passar dos dias a situação se mostrou ainda mais preocupante. Já no domingo, jornalistas de todo o mundo chegaram a passar quatro horas à espera de credenciais para a cobertura. E os problemas de logística foram se multiplicando. Falta de cumprimento dos horários e déficit de informação foram problemas crônicos.
A isso se somou a falta de entendimento com a reitoria da Universidade Cheikh Anta Diop, que retomou as aulas após um período de greve, ignorando o acerto prévio para a realização do fórum. A paciência de alguns participantes começou a se esgotar gradativamente.
"Por causa das dificuldades que estamos enfrentando com a organização, duas atividades foram marcadas simultaneamente com o mesmo convidado", explicou a brasileira Rita Freire, editora para o FSM da ONG Ciranda, pedindo desculpas à plateia pelo atraso de quase duas horas na palestra do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos ideólogos do fórum.
A desorganização fortaleceu a candidatura de Porto Alegre, que pretende voltar a sediar o evento, que já recebeu em 2001, 2002, 2003 e 2005. A Capital gaúcha recebeu até o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Acho bom", afirmou em Dacar, ao ser questionado sobre a candidatura. "Porto Alegre já tem know-how para fazer o fórum." Lula, inclusive, antecipou sua participação se a candidatura se mantiver. "Eu vou, claro."
A disputa se dá em torno da próxima edição centralizada, que acontecerá em 2013. Montreal e cidades europeias estão na disputa pelo FSM em 2013. Seria a primeira edição do fórum realizada no Hemisfério Norte.
Mas os ativistas de entidades gaúchas estão otimistas e organizados por Porto Alegre. O Conselho Internacional do FSM vai avaliar uma carta assinada por lideranças de ONGs e representantes governamentais oferecendo apoio da cidade.
Já é certo que a Capital gaúcha terá atividades na edição descentralizada do FSM 2012, a exemplo do que ocorreu no ano passado, quando Canoas, Gravataí, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Sapucaia do Sul e Sapiranga também promoveram o evento.
Fonte:IHU
A reportagem é publicada pelo Jornal do Comércio, 11-02-2011.
Na quarta-feira, por exemplo, o evento enfrentou falta de salas de aula para reuniões, cancelamentos e transferências de palestras, tudo com nível de informação mínimo.
Desde antes de seu início, o FSM 2011 em Dacar já gerava expectativas mais modestas em termos de organização. Participantes vindos da Europa para a África demonstravam tolerância em relação à estrutura disponível.
Mas com o passar dos dias a situação se mostrou ainda mais preocupante. Já no domingo, jornalistas de todo o mundo chegaram a passar quatro horas à espera de credenciais para a cobertura. E os problemas de logística foram se multiplicando. Falta de cumprimento dos horários e déficit de informação foram problemas crônicos.
A isso se somou a falta de entendimento com a reitoria da Universidade Cheikh Anta Diop, que retomou as aulas após um período de greve, ignorando o acerto prévio para a realização do fórum. A paciência de alguns participantes começou a se esgotar gradativamente.
"Por causa das dificuldades que estamos enfrentando com a organização, duas atividades foram marcadas simultaneamente com o mesmo convidado", explicou a brasileira Rita Freire, editora para o FSM da ONG Ciranda, pedindo desculpas à plateia pelo atraso de quase duas horas na palestra do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos ideólogos do fórum.
A desorganização fortaleceu a candidatura de Porto Alegre, que pretende voltar a sediar o evento, que já recebeu em 2001, 2002, 2003 e 2005. A Capital gaúcha recebeu até o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Acho bom", afirmou em Dacar, ao ser questionado sobre a candidatura. "Porto Alegre já tem know-how para fazer o fórum." Lula, inclusive, antecipou sua participação se a candidatura se mantiver. "Eu vou, claro."
A disputa se dá em torno da próxima edição centralizada, que acontecerá em 2013. Montreal e cidades europeias estão na disputa pelo FSM em 2013. Seria a primeira edição do fórum realizada no Hemisfério Norte.
Mas os ativistas de entidades gaúchas estão otimistas e organizados por Porto Alegre. O Conselho Internacional do FSM vai avaliar uma carta assinada por lideranças de ONGs e representantes governamentais oferecendo apoio da cidade.
Já é certo que a Capital gaúcha terá atividades na edição descentralizada do FSM 2012, a exemplo do que ocorreu no ano passado, quando Canoas, Gravataí, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Sapucaia do Sul e Sapiranga também promoveram o evento.
Fonte:IHU
FSM - "O FSM é sempre duro e difícil, mas as coisas acontecem."
A vida não está fácil pra quem está trabalhando neste Fórum Social Mundial. E isso não se deve ao fato de o pessoal da organização local ter feito um esforço imenso para que tudo desse certo. Os países africanos, em geral, têm problemas estruturais que dificultam deslocamento, comunicação, alimentação etc. Num evento do porte do FSM essas dificuldades se tornam ainda maiores.
Mas aliado a isso, há algo que às vezes não é considerado pelos participantes do evento e que faz toda a diferença quando o Fórum é organizado, por exemplo, na África. Aqui os governos locais não apóiam a realização do FSM e isso faz muita diferença.
A organização local do FSM, por exemplo, teve um pepino de última hora que acabou sendo fatal para que as atividades se tornassem ainda mais desorganizadas do que já costumeiramente são nos FSMs. A universidade onde o Fórum está sendo realizado teve troca de direção um pouco antes do evento começar. E o novo reitor diminuiu pela metade o número de salas que estavam disponibilizadas para o encontro.
Isso, entre outras coisas, fez com que a programação não pudesse ser fechada e passasse a ser divulgada apenas pela internet no dia do seu acontecimento. Evidente que muitas atividades acabaram sendo canceladas e várias das que acontecerem ficaram esvaziadas.
Muita gente se irrita com isso, principalmente os participantes de fora do continente. Este blogueiro, porém, prefere tratar esse tipo de acontecimento como algo que faz parte do processo de construção do Fórum.
É fundamental que outros encontros altermundistas sejam organizados na África, tanto para que os movimentos sociais locais consigam com esses processos ganhar mais força e unidade quanto para que os movimentos sociais da Europa, das Américas e da Ásia passem a conhecer melhor os desafios e os problemas deste continente profundo.
Há muito o que se aprender na África. E para isso é fundamental que se ampliem as conexões com dos movimentos sociais de outras partes com os locais.
Ontem, por exemplo, visitamos a União Nacional para o Desenvolvimento do Senegal, que atua com desenvolvimento sustentável de projetos principalmente agrícolas a partir de auto-financiamento.
Foi uma visita emocionante. Aproximadamente 60 homens e mulheres esperavam o presidente da Fundação Banco do Brasil, Jorge Streit para discutir parcerias que pudessem levá-los a instalar Produção Agroecológica Integrada e Social (PAIS) seus empreendimentos.
Metade do grupo era de mulheres. Aliás, elas têm um protagonismo impressionante no movimento social local.
A jornalista Adriana Delorenzo está escrevendo uma reportagem para a o site sobre essa visita que vou lincar daqui a pouco aqui.
O FSM é também muito isso. Conhecer os movimentos sociais de outras partes do planeta e construir novas redes.
Deste FSM, por exemplo, deve sair a decisão de se organizar, muito provavelmente no Brasil, no ano que vem, à época do Rio + 20, o II Fórum Mundial de Mídia Livre.
Já realizamos uma atividade durante todo o dia de ontem onde trocamos experiências sobre a situação do midialivrismo em diferentes países e onde também discutimos o assunto.
Este blogueiro é um dos que está defendendo a proposta de o evento ser no Rio de Janeiro no ano que vem, inclusive, porque após os acontecimentos do Egito e da Tunísia se torna mais do que estratégico discutir essa nova comunicação.
A Assembléia que deve aprovar esse evento vai começar amanhã as 10h daqui, ou seja, 8h do Brasil. Quando ela acabar, postarei sobre o que foi definido.
Outras muitas articulações estão acontecendo nesses dias em Dacar. E isso que faz o FSM, mesmo acontecendo em condições duras e difíceis, ser tão importante para o fortalecimento das lutas mundo afora.
Fonte: Blog do Rovai.
Mas aliado a isso, há algo que às vezes não é considerado pelos participantes do evento e que faz toda a diferença quando o Fórum é organizado, por exemplo, na África. Aqui os governos locais não apóiam a realização do FSM e isso faz muita diferença.
A organização local do FSM, por exemplo, teve um pepino de última hora que acabou sendo fatal para que as atividades se tornassem ainda mais desorganizadas do que já costumeiramente são nos FSMs. A universidade onde o Fórum está sendo realizado teve troca de direção um pouco antes do evento começar. E o novo reitor diminuiu pela metade o número de salas que estavam disponibilizadas para o encontro.
Isso, entre outras coisas, fez com que a programação não pudesse ser fechada e passasse a ser divulgada apenas pela internet no dia do seu acontecimento. Evidente que muitas atividades acabaram sendo canceladas e várias das que acontecerem ficaram esvaziadas.
Muita gente se irrita com isso, principalmente os participantes de fora do continente. Este blogueiro, porém, prefere tratar esse tipo de acontecimento como algo que faz parte do processo de construção do Fórum.
É fundamental que outros encontros altermundistas sejam organizados na África, tanto para que os movimentos sociais locais consigam com esses processos ganhar mais força e unidade quanto para que os movimentos sociais da Europa, das Américas e da Ásia passem a conhecer melhor os desafios e os problemas deste continente profundo.
Há muito o que se aprender na África. E para isso é fundamental que se ampliem as conexões com dos movimentos sociais de outras partes com os locais.
Ontem, por exemplo, visitamos a União Nacional para o Desenvolvimento do Senegal, que atua com desenvolvimento sustentável de projetos principalmente agrícolas a partir de auto-financiamento.
Foi uma visita emocionante. Aproximadamente 60 homens e mulheres esperavam o presidente da Fundação Banco do Brasil, Jorge Streit para discutir parcerias que pudessem levá-los a instalar Produção Agroecológica Integrada e Social (PAIS) seus empreendimentos.
Metade do grupo era de mulheres. Aliás, elas têm um protagonismo impressionante no movimento social local.
A jornalista Adriana Delorenzo está escrevendo uma reportagem para a o site sobre essa visita que vou lincar daqui a pouco aqui.
O FSM é também muito isso. Conhecer os movimentos sociais de outras partes do planeta e construir novas redes.
Deste FSM, por exemplo, deve sair a decisão de se organizar, muito provavelmente no Brasil, no ano que vem, à época do Rio + 20, o II Fórum Mundial de Mídia Livre.
Já realizamos uma atividade durante todo o dia de ontem onde trocamos experiências sobre a situação do midialivrismo em diferentes países e onde também discutimos o assunto.
Este blogueiro é um dos que está defendendo a proposta de o evento ser no Rio de Janeiro no ano que vem, inclusive, porque após os acontecimentos do Egito e da Tunísia se torna mais do que estratégico discutir essa nova comunicação.
A Assembléia que deve aprovar esse evento vai começar amanhã as 10h daqui, ou seja, 8h do Brasil. Quando ela acabar, postarei sobre o que foi definido.
Outras muitas articulações estão acontecendo nesses dias em Dacar. E isso que faz o FSM, mesmo acontecendo em condições duras e difíceis, ser tão importante para o fortalecimento das lutas mundo afora.
Fonte: Blog do Rovai.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
FSM - O sonho altermundista nas ruas de Dakar.
Da grande mesquita à maior universidade pública da África Ocidental, Dacar viveu hoje o sonho dos altermundistas numa das marchas mais bonitas da história do FSM.
Uma macha predominantemente preta.
Uma marcha majoritariamente africana.
Uma marcha colorida, ao som de tambores e cantos de protesto.
Uma marcha com 50 mil pessoas.
Uma marcha com 123 países.
Uma marcha com milhares de organizações.
Uma marcha com sol forte na cabeça, tão forte quanto o da primeira edição naquele 2001 de Porto Alegre.
É preciso ter muita tranquilidade, calma e cuidado ao se viver um momento como esse.
Não é algo que se consiga facilmente extrair da lembrança.
Não é um momento que se apaga na próxima esquina.
Uma marcha no Fórum é emoção na veia.
É um abraço apertado do mundo que ama o planeta, que ama a justiça, que defende a solidariedade, que quer paz, que busca o consenso, que defende a vida, que se indigna com a exploração, que não aceita a dominação, que não abre mão de lutar por outro mundo possível.
A marcha do Fórum Social Mundial é sempre um momento especial.
Nesta edição ela pode ter começado a contar uma nova história da sociedade civil africana.
A marcha de hoje foi muito diferente da do Quênia.
Foi mais livre, alegre, festiva, sensível.
Tudo que se espera da África.
E isso pode significar muita coisa.
Muito mais do que se possa racionalizar num momento em que a história acontece na nossa frente.
Leia a matéria da Adriana Delorenzo sobre a marcha na home da Fórum.
Fonte: Blog do Rovai
Uma macha predominantemente preta.
Uma marcha majoritariamente africana.
Uma marcha colorida, ao som de tambores e cantos de protesto.
Uma marcha com 50 mil pessoas.
Uma marcha com 123 países.
Uma marcha com milhares de organizações.
Uma marcha com sol forte na cabeça, tão forte quanto o da primeira edição naquele 2001 de Porto Alegre.
É preciso ter muita tranquilidade, calma e cuidado ao se viver um momento como esse.
Não é algo que se consiga facilmente extrair da lembrança.
Não é um momento que se apaga na próxima esquina.
Uma marcha no Fórum é emoção na veia.
É um abraço apertado do mundo que ama o planeta, que ama a justiça, que defende a solidariedade, que quer paz, que busca o consenso, que defende a vida, que se indigna com a exploração, que não aceita a dominação, que não abre mão de lutar por outro mundo possível.
A marcha do Fórum Social Mundial é sempre um momento especial.
Nesta edição ela pode ter começado a contar uma nova história da sociedade civil africana.
A marcha de hoje foi muito diferente da do Quênia.
Foi mais livre, alegre, festiva, sensível.
Tudo que se espera da África.
E isso pode significar muita coisa.
Muito mais do que se possa racionalizar num momento em que a história acontece na nossa frente.
Leia a matéria da Adriana Delorenzo sobre a marcha na home da Fórum.
Fonte: Blog do Rovai
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
FSM - A crise pode dar à luz o outro mundo possível.
Nas sociedades futuras, os jovens não trabalharão antes dos 25 anos de idade e terão educação plena com a graduação universitária como piso, e não como meta final, enquanto as jornadas de trabalho para todos poderão ser reduzidas para 12 horas semanais. A construção dessa “sociedade superior” imaginada por Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), seria financiada com fundos públicos provenientes do imposto sobre os lucros financeiros mundiais, que hoje correspondem a dez vezes a riqueza da economia real.
A reportagem é de Mario Osava, da IPS e publicada pela Agência Envolverde, 28-01-2010.
É que o adiamento da entrada dos jovens no mercado de trabalho, para permitir que estudem, já é uma prática comum nas famílias ricas e agora deve ser generalizada, reduzindo a oferta de mão-de-obra e o desemprego, disse este especialista em Economia do Trabalho. Essa reorganização social nascerá de lutas e pressões que exigem novas formas de associação além da sindical, acrescentou Pochmann, ao falar no seminário “Progresso para quê e para quem”, no Fórum Social Mundial Grande Porto Alegre, que começou segunda-feira e terminará amanhã em vários locais da região metropolitana da capital do Rio Grande do Sul.
De todo modo, a nova civilização será necessária porque o atual modelo de consumo é insustentável, disse, e deu como exemplo as novas moradias, maiores, mas onde vive um terço das pessoas que abrigavam há um século. “Em Barcelona, em um terço das casas vive uma única pessoa”, acrescentou Pochmann. Mas é esse consumo que se tenta manter com as medidas adotadas, liberando bilhões de dólares para salvar grandes corporações e bancos para evitar o aprofundamento da crise financeira internacional, que "é sistêmica mas não tão intensa como previsto" e será prolongada como a recessão japonesa dos anos 90, previu.
As variadas problemáticas, como a climática, a financeira e a hídrica, estão convergindo para uma crise global da civilização, que abre oportunidades e exigem mudanças, disse, por sua vez Ladislau Dowbor, professor de Economia da Universidade Católica de São Paulo. Dowbor assumiu as 12 propostas do estudo “Crises e oportunidades”, que escreveu em conjunto com o “ecossocioeconomista” franco-polonês Ignacy Sachs e o diretor-executivo do Instituto das Nações Unidas para a Formação Profissional e Pesquisas, Carlos Lopes, originário da Guiné-Bissau.
Entre as primeiras sugestões destes especialistas, que buscam alternativas “viáveis” à irracionalidade do atual sistema, estão o resgate da dimensão pública do Estado – mudando o sistema de eleição de governantes com dinheiro das grandes empresas –, bem como a possibilidade de revisar as contas do produto interno bruto, que cresce com o desmatamento e aumento da mortalidade infantil, já que madeira, remédios e serviços médicos são produtos de mercado. Também assegurar o direito à vida, com uma renda básica e fontes de renda para todos, mudar o estilo de vida, tomar o controle público das finanças taxando as operações especulativas, revisar a lógica tributária e orçamentária, facilitar o acesso a tecnologias sustentáveis.
Dowbor, autor do livro “Democracia econômica”, está ligado a um grupo de economistas de diferentes países que pensam o “pós-desenvolvimentismo”. A economia social, que no Brasil tem uma vertente mais limitada, chamada “solidária”, está crescendo e pode se fazer predominante logo, sucedendo a baseada na produção material, disse Dowbor à IPS. Saúde, educação e serviços variados, “intangíveis ou imateriais”, já representam grande parte da economia em muitos países, afirmou.
Por isso, entende que deixar o estilo de vida consumista é possível. Na França, foram desenvolvidos edifícios que consomem um décimo da energia de que necessitam os convencionais, disse como exemplo. Em Utah, Estados Unidos, o tempo semanal de trabalho diminuiu quatro dias, uma tendência que pode crescer sem que isso implique diminuir a economia, mas fazendo emigrar atividades para outras áreas, como a cultural, destacou.
Por sua vez, o indiano Prabir Purkayastha defendeu o “conhecimento livre”, abolindo a propriedade intelectual, porque deve “pertencer a todos e é infinito”, já que não se gasta com o uso. A reorganização da economia exige novas tecnologias adequadas, inclusive na pequena produção que deve ser fortalecida, no que China e Índia acumulam numerosas experiências, afirmou. Ao falar no debate “Progresso para quê e para quem”, este economista e ativista pela paz enfatizou o “consumo e desenvolvimento excessivos” de alguns países.
Destacou que a brutal desigualdade persistente no mundo também é insustentável. Na Índia, metade das casas não tem ligação elétrica e a pobreza absoluta afeta uma proporção semelhante da população, alertou. O desafio, então, é combater a pobreza sem promover o mesmo tipo de consumo adotado nos países industrializados.
Na Bolívia, o governo de Evo Morales, aproveitando o acúmulo de forças da sociedade, obteve avanços impressionantes, com a inclusão na Constituição do conceito de “bem viver”, originado na cultura indígena aymara, bem como dar poder aos povos com os princípios ambientalistas fundamentais. Mas suas políticas econômicas se baseiam na Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), do velho espírito “desenvolvimentista”, em frontal contradição com as conquistas constitucionais, questionou Gustavo Soto, do Centro de Estudos Aplicados em Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da Bolívia.
Fonte:IHU
A reportagem é de Mario Osava, da IPS e publicada pela Agência Envolverde, 28-01-2010.
É que o adiamento da entrada dos jovens no mercado de trabalho, para permitir que estudem, já é uma prática comum nas famílias ricas e agora deve ser generalizada, reduzindo a oferta de mão-de-obra e o desemprego, disse este especialista em Economia do Trabalho. Essa reorganização social nascerá de lutas e pressões que exigem novas formas de associação além da sindical, acrescentou Pochmann, ao falar no seminário “Progresso para quê e para quem”, no Fórum Social Mundial Grande Porto Alegre, que começou segunda-feira e terminará amanhã em vários locais da região metropolitana da capital do Rio Grande do Sul.
De todo modo, a nova civilização será necessária porque o atual modelo de consumo é insustentável, disse, e deu como exemplo as novas moradias, maiores, mas onde vive um terço das pessoas que abrigavam há um século. “Em Barcelona, em um terço das casas vive uma única pessoa”, acrescentou Pochmann. Mas é esse consumo que se tenta manter com as medidas adotadas, liberando bilhões de dólares para salvar grandes corporações e bancos para evitar o aprofundamento da crise financeira internacional, que "é sistêmica mas não tão intensa como previsto" e será prolongada como a recessão japonesa dos anos 90, previu.
As variadas problemáticas, como a climática, a financeira e a hídrica, estão convergindo para uma crise global da civilização, que abre oportunidades e exigem mudanças, disse, por sua vez Ladislau Dowbor, professor de Economia da Universidade Católica de São Paulo. Dowbor assumiu as 12 propostas do estudo “Crises e oportunidades”, que escreveu em conjunto com o “ecossocioeconomista” franco-polonês Ignacy Sachs e o diretor-executivo do Instituto das Nações Unidas para a Formação Profissional e Pesquisas, Carlos Lopes, originário da Guiné-Bissau.
Entre as primeiras sugestões destes especialistas, que buscam alternativas “viáveis” à irracionalidade do atual sistema, estão o resgate da dimensão pública do Estado – mudando o sistema de eleição de governantes com dinheiro das grandes empresas –, bem como a possibilidade de revisar as contas do produto interno bruto, que cresce com o desmatamento e aumento da mortalidade infantil, já que madeira, remédios e serviços médicos são produtos de mercado. Também assegurar o direito à vida, com uma renda básica e fontes de renda para todos, mudar o estilo de vida, tomar o controle público das finanças taxando as operações especulativas, revisar a lógica tributária e orçamentária, facilitar o acesso a tecnologias sustentáveis.
Dowbor, autor do livro “Democracia econômica”, está ligado a um grupo de economistas de diferentes países que pensam o “pós-desenvolvimentismo”. A economia social, que no Brasil tem uma vertente mais limitada, chamada “solidária”, está crescendo e pode se fazer predominante logo, sucedendo a baseada na produção material, disse Dowbor à IPS. Saúde, educação e serviços variados, “intangíveis ou imateriais”, já representam grande parte da economia em muitos países, afirmou.
Por isso, entende que deixar o estilo de vida consumista é possível. Na França, foram desenvolvidos edifícios que consomem um décimo da energia de que necessitam os convencionais, disse como exemplo. Em Utah, Estados Unidos, o tempo semanal de trabalho diminuiu quatro dias, uma tendência que pode crescer sem que isso implique diminuir a economia, mas fazendo emigrar atividades para outras áreas, como a cultural, destacou.
Por sua vez, o indiano Prabir Purkayastha defendeu o “conhecimento livre”, abolindo a propriedade intelectual, porque deve “pertencer a todos e é infinito”, já que não se gasta com o uso. A reorganização da economia exige novas tecnologias adequadas, inclusive na pequena produção que deve ser fortalecida, no que China e Índia acumulam numerosas experiências, afirmou. Ao falar no debate “Progresso para quê e para quem”, este economista e ativista pela paz enfatizou o “consumo e desenvolvimento excessivos” de alguns países.
Destacou que a brutal desigualdade persistente no mundo também é insustentável. Na Índia, metade das casas não tem ligação elétrica e a pobreza absoluta afeta uma proporção semelhante da população, alertou. O desafio, então, é combater a pobreza sem promover o mesmo tipo de consumo adotado nos países industrializados.
Na Bolívia, o governo de Evo Morales, aproveitando o acúmulo de forças da sociedade, obteve avanços impressionantes, com a inclusão na Constituição do conceito de “bem viver”, originado na cultura indígena aymara, bem como dar poder aos povos com os princípios ambientalistas fundamentais. Mas suas políticas econômicas se baseiam na Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), do velho espírito “desenvolvimentista”, em frontal contradição com as conquistas constitucionais, questionou Gustavo Soto, do Centro de Estudos Aplicados em Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da Bolívia.
Fonte:IHU
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
FSM - O que Lula falou no FSM e a Big Mídia não ouviu.
Blog do Rovai
O que Lula falou no FSM e a Big Mídia não ouviu
Estive ontem no Gigantinho assistindo a intervenção do presidente Lula no Fórum Social Mundial que acontece aqui em Porto Alegre. Fiz a cobertura ao vivo pelo meu twitter (renato_rovai). Hoje lendo a cobertura dos portais e de alguns jornais vi que só uma pequena parte do que foi dito ali está publicado. Então, complemento por aqui a cobertura, digamos, um tanto míope da nossa Big Mídia, filha adotiva da lógica Big Mac (todos os veículos que tratam informação como mercadoria são iguais em qualquer parte do mundo).
Para fazer diferente da Big Mídia, vou contar a história de traz pra frente. Começando pelas despedidas e terminando pela primeira fala do presidente.
Não, amigos, não busco imitar Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas, que começou o contar da novela pelo cabo e não pelo intróito. Sei que Machado é inimitável.
1 - Lula acabou o discurso agradecendo ao movimento social pela solidariedade que teve com ele e com o governo dele.
2 - Lula diz que o Fórum deve continuar lutando pela utopia do impossível. “Porque a única coisa impossível para quem crê em Deus é Ele pecar”
3 - Lula diz que vai tornar o processo das conferências em lei. “Farei isso para que a sociedade continue sendo ouvida. “Porque tem político que parece ter três bocas e um ouvido só. Eles não querem ouvir a sociedade.”
4 - Lula recorda de quando recebeu portadores de hanseniase no Paláciodo Planalto e da emoção que foi beijar cada um dos 100 que lá estavam.
5 - Lula diz que tem muito orgulho de ter colocado todos os movimentos sociais no Palácio do Planalto.
6 - Lula diz que no próximo FSM estará nele, como ex-presidente.
7 - Lula fala da Conferência da Comunicação e diz que teve empresário que não foi. Mas os que foram viram que “lá ninguém morde ninguém”.
8 - Lula pede que este FSM aprove como deliberação 1 ano inteiro de solidariedade do movimento altermundista ao Haiti.
9 – “Não vamos aceitar que ninguém mais coloque seu dedo sujo de óleo diesel no nosso combustível limpo para nos dizer o que devemos fazer.”
10 - Ninguém precisa nos ajudar a limpar a nossa sujeira. Cada um que trate de limpar a sua.”
11 – “Não é justo que um país que está poluindo o mundo há 200 anos pague da mesmo forma que outro que polui há 2 anos.”
12 - Lula diz delegação brasileira foi pra Copenhagem com a proposta mais séria de todas as delegações. E pegou países ricos de surpresa
13 - Lula lembra que a Embrapa foi para Gana, na África, e hoje já se sabe que o solo africano é semelhante ao do Centro Oeste brasileiro. Que pode produzir soja, por exemplo.
14 - Lula diz que a solidariedade brasileira não é só ao Haiti. Que o Brasil também tem hoje outra política com a África.
15 - Lula diz que é enorme o número de brasileiros querendo ir como voluntários ao Haiti. Mas que não há como liberar a ida deles por conta da situação.
16 –“No Haiti estamos ensinando ao mundo como uma força de paz deve atuar, sem ingerência no governo local.”
17 - Lula diz que vai a Davos dizer que depois de seu governo o país não deve mais pro FMI. Ao contrário, o FMI é que deve 14 bi ao Brasil 18 - Lula diz que Davos não tem o mesmo glamour, mas que vai lá pq tem o que dizer pra eles.
19 - Lula fala das conferências, cita a do LGBT e diz que tem gente que acha que democracia é um pacto de silêncio, quado é pra ouvir todos.
20 – “Quanto mais a gente fizer, mas as pessoas reivindicam. Tem gente que acha isso ruim. Eu acho que esse é o nosso papel no governo.”
21 - Lula diz que no primeiro FSM ele não sabia, mas hj sabe que há grande diferença entre o sonho possível e o que é possível fazer no governo.
O que Lula falou no FSM e a Big Mídia não ouviu
Estive ontem no Gigantinho assistindo a intervenção do presidente Lula no Fórum Social Mundial que acontece aqui em Porto Alegre. Fiz a cobertura ao vivo pelo meu twitter (renato_rovai). Hoje lendo a cobertura dos portais e de alguns jornais vi que só uma pequena parte do que foi dito ali está publicado. Então, complemento por aqui a cobertura, digamos, um tanto míope da nossa Big Mídia, filha adotiva da lógica Big Mac (todos os veículos que tratam informação como mercadoria são iguais em qualquer parte do mundo).
Para fazer diferente da Big Mídia, vou contar a história de traz pra frente. Começando pelas despedidas e terminando pela primeira fala do presidente.
Não, amigos, não busco imitar Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas, que começou o contar da novela pelo cabo e não pelo intróito. Sei que Machado é inimitável.
1 - Lula acabou o discurso agradecendo ao movimento social pela solidariedade que teve com ele e com o governo dele.
2 - Lula diz que o Fórum deve continuar lutando pela utopia do impossível. “Porque a única coisa impossível para quem crê em Deus é Ele pecar”
3 - Lula diz que vai tornar o processo das conferências em lei. “Farei isso para que a sociedade continue sendo ouvida. “Porque tem político que parece ter três bocas e um ouvido só. Eles não querem ouvir a sociedade.”
4 - Lula recorda de quando recebeu portadores de hanseniase no Paláciodo Planalto e da emoção que foi beijar cada um dos 100 que lá estavam.
5 - Lula diz que tem muito orgulho de ter colocado todos os movimentos sociais no Palácio do Planalto.
6 - Lula diz que no próximo FSM estará nele, como ex-presidente.
7 - Lula fala da Conferência da Comunicação e diz que teve empresário que não foi. Mas os que foram viram que “lá ninguém morde ninguém”.
8 - Lula pede que este FSM aprove como deliberação 1 ano inteiro de solidariedade do movimento altermundista ao Haiti.
9 – “Não vamos aceitar que ninguém mais coloque seu dedo sujo de óleo diesel no nosso combustível limpo para nos dizer o que devemos fazer.”
10 - Ninguém precisa nos ajudar a limpar a nossa sujeira. Cada um que trate de limpar a sua.”
11 – “Não é justo que um país que está poluindo o mundo há 200 anos pague da mesmo forma que outro que polui há 2 anos.”
12 - Lula diz delegação brasileira foi pra Copenhagem com a proposta mais séria de todas as delegações. E pegou países ricos de surpresa
13 - Lula lembra que a Embrapa foi para Gana, na África, e hoje já se sabe que o solo africano é semelhante ao do Centro Oeste brasileiro. Que pode produzir soja, por exemplo.
14 - Lula diz que a solidariedade brasileira não é só ao Haiti. Que o Brasil também tem hoje outra política com a África.
15 - Lula diz que é enorme o número de brasileiros querendo ir como voluntários ao Haiti. Mas que não há como liberar a ida deles por conta da situação.
16 –“No Haiti estamos ensinando ao mundo como uma força de paz deve atuar, sem ingerência no governo local.”
17 - Lula diz que vai a Davos dizer que depois de seu governo o país não deve mais pro FMI. Ao contrário, o FMI é que deve 14 bi ao Brasil 18 - Lula diz que Davos não tem o mesmo glamour, mas que vai lá pq tem o que dizer pra eles.
19 - Lula fala das conferências, cita a do LGBT e diz que tem gente que acha que democracia é um pacto de silêncio, quado é pra ouvir todos.
20 – “Quanto mais a gente fizer, mas as pessoas reivindicam. Tem gente que acha isso ruim. Eu acho que esse é o nosso papel no governo.”
21 - Lula diz que no primeiro FSM ele não sabia, mas hj sabe que há grande diferença entre o sonho possível e o que é possível fazer no governo.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL - Balanço do "outro mundo possível"
Emir Sader
Aos dez anos de Seattle e do primeiro Fórum Social Mundial, o balanço que é preciso fazer é da luta pelo “outro mundo possível”. Um balanço do FSM deve ser não o balanço dos Fóruns, mas dos objetivos a que se propôs, quando começamos a organizá-los, há uma década. A avaliação do FSM ter que ser feita em função das suas contribuições à construção de alternativas ao neoliberalismo. A análise é de Emir Sader.
Emir Sader
Aos dez anos de Seattle e do primeiro Fórum Social Mundial, o balanço que é preciso fazer é da luta pelo “outro mundo possível”. Um balanço do FSM deve ser não o balanço dos Fóruns, mas dos objetivos a que se propôs, quando começamos a organizá-los, há uma década.
Uma outra ótica seria vítima do corporativismo, da crença que a evolução interna de uma organização é a história política dessa organização. A história e o balanço de um partido político deve ser o balanço dos objetivos a que esse partido se propõe. Um balanço do FSM não é um balanço da situação das ONGs ou dos movimentos sociais. Ao contrário, estes devem ser avaliados em função da contribuição que tenham feito à construção do “outro mundo possível”.
Por isso, a referência a estabelecer como parâmetro de avaliação é a situação de criação do “outro mundo possivel”. Há uma década o neoliberalismo ainda reinava soberanamente como modelo hegemônico, seja em escala mundial, seja na América Latina. Na sucessão da primeira geração de mandatários que o personificavam – Reagan, Thatcher -, para a segunda – Clinton, Blair – se ampliava o consenso da extrema direita para forças originariamente alternativas a ela: os democratas norteamericanos, os trabalhistas ingleses. Enquanto que no continente, ao extremismo de direita de Pinochet se somavam formas nacionalistas – como o peronismo de Menem e os governos do PRI mexicano -, assim como social democratas, como os socialistas chilenos, AD da Venezuela, os tucanos brasileiros.
Nossas sociedades foram profunda e extensamente transformadas conforme esse receituário, os Estado nacionais enfraquecidos, os patrimônios públicos privatizados, os direitos sociais recortados, o capital especulativo incentivado, resultando no aumento brutal da desigualdades, da concentração de renda, da exclusão dos direitos à massa da população, do empobrecimento generalizado das sociedades e dos Estados.
Passados dez anos, o mundo continua sob hegemonia conservadora, mesmo se debilitado na sua legitimidade, o modelo neoliberal segue hegemônico. A diferença substancial vem da América Latina, onde um conjunto de governos, mesmo se diferenciados entre si, passaram a colocar em prática políticas contrapostas ao modelo neoliberal, depois de ter sido a região privilegiada de dominação neoliberal, com a maior quantidade e as modalidades mais radicais de governos neoliberais.
A região apresenta hoje os mais importantes processos de integração regional em contraposição aos Tratados de Livre Comércio propostos pelo neoliberalismo. O grande projeto norteamericano, que buscava estender a livre comércio a todo o continente, a Alca, foi derrotado e, no seu espaço, se fortaleceu o Mercosul, se desenvolveram o Banco do Sul, Unasul, o Conselho Sulamericano de Defesa, a Alba – entre outras iniciativas. São espaços alternativos, em que se desenvolvem, em distintos níveis, formas de intercambio privilegiado entre os países da região, acompanhadas da diversificação do comércio internacional dos países que participam dela.
Ao mesmo tempo, em alternativa ao privilégio dos ajustes fiscais, se desenvolveram políticas sociais que melhoraram significativamente o nível de vida e diminuíram os graus de desigualdade no continente de maior desigualdade no mundo. Os mercados internos de consumo popular se ampliam e se aprofundam.
A combinação desses três elementos – diversificação do comércio internacional, com diminuição do peso do centro do capitalista e aumento importante do peso dos intercâmbios do Sul do mundo; intensificação substantiva do comércio entre os países da região; expansão, inclusive durante a crise, do mercado interno de consumo popular – fez com que os países incorporados aos processos de integração regional, resistiram muito melhor aos duros efeitos da crise e vários deles voltaram a crescer.
Por outro lado, projetos como os de alfabetização – que fizeram com que a Venezuela, a Bolívia e o Equador tenham se somado a Cuba, como os territórios livres de analfabetismo nas Américas -, de formação de várias gerações de médicos pobres no continente, pelas Escolas Latinoamericanas de Medicina, em Cuba e na Venezuela - de recuperação da visão de mais de 2 milhões de pessoas, na Operação Milagre – demonstram como a recuperação de direitos essenciais tem que se fazer na esfera pública e não na mercantil.
Os intercâmbios solidários dentro da Alba são exemplos concretos do “comércio justo”, pregado pelo FSM desde seus inícios, em espaços com critérios das possibilidades e das necessidades de cada país, em contraposição clara às normas do mercado, do livre comércio e da OMC.
Sem ir mais longe, a avaliação do FSM ter que ser feita em função das suas contribuições à construção de alternativas ao neoliberalismo, do “outro mundo possível”. Sem uma compreensão concreta da força e da abrangência da hegemonia neoliberal, assim como das condições inéditas concretas em que se constroem alternativas, o debate passaria longe da realidade concreta de luta contra o neoliberalismo.
É também indispensável compreender que esse movimento passou da fase de resistência, predominante na ultima década do século passado, e a fase de construção de alternativas. A visão da “autonomia dos movimentos sociais” teve vigência na primeira etapa, porém quando pretenderam estendê-la para a década seguinte, cometeram equívocos fundamentais. O movimento mais significativo – e que, não por acaso, se dá no processo mais importante de construção de alternativas atualmente, o de Bolívia – foi o da fundação do MAS pelos movimentos sociais bolivianos, a partir da consciência de que, depois de derrubar vários presidentes, sucessivamente, constituíram um partido, disputaram as eleições e elegeram a Evo Morales presidente do país. Retomaram laços com a esfera política, de outra forma, convocando a Assembléia Constituinte e passando à refundação do Estado boliviano.
Outros movimentos, que mantiveram a visão equivocada e corporativa da “autonomia” ou se isolaram ou praticamente desapareceram da cena política. Essa “autonomia”, se fosse – como ocorria anteriormente – em relação a políticas de subordinação de classes, tinha um sentido. Mas se se trata de autonomia em relação à política, ao Estado, à luta por uma nova hegemonia, é um conceito corporativo, adaptado às condições de resistência, mas completamente equivocado quando se trata de construir condições de construção de hegemonias alternativas.
No FSM de Belém foi possível constatar, com a presença de cinco presidentes latinoamericanos comprometidos, de formas distintas, com a construção de alternativas ao neoliberalismo, quanto avançou e tem reconhecimento da luta iniciada há 10 anos. Já o FSM decepcionou. Não foram elaboradas propostas de enfrentamento da crise econômica. Não se fizeram balanços e discussões com esses e outros governos, junto aos movimentos sociais, para discutir as contribuições que tenham e os problemas pendentes.
Em suma, ao ter ainda ONGs como protagonistas centrais, ao auto-limitar-se à esfera social, ao fechar os olhos para os governos que estão avançando em projetos de superação do neoliberalismo, ao não encarar o tema das guerras – e, com elas, do imperialismo -, o FSM foi perdendo transcendência, tornando-se um encontro para intercâmbio de experiências – concepção pregada pelas ONGs, que o tornam intranscendente.
O balanço, pelo menos na América Latina, da luta por um “outro mundo possível”, é muito positivo, ainda mais se considerarmos o entorno conservador predominante no mundo. Já o FSM, ficou girando em falso, sem capacidade de acompanhar esses avanços e os temas da hegemonia imperial no mundo, entre eles o dos epicentros de guerra imperial no mundo – Iraque, Afeganistão, Palestina, Colômbia.
Fonte:Agência Carta Maior.
Aos dez anos de Seattle e do primeiro Fórum Social Mundial, o balanço que é preciso fazer é da luta pelo “outro mundo possível”. Um balanço do FSM deve ser não o balanço dos Fóruns, mas dos objetivos a que se propôs, quando começamos a organizá-los, há uma década. A avaliação do FSM ter que ser feita em função das suas contribuições à construção de alternativas ao neoliberalismo. A análise é de Emir Sader.
Emir Sader
Aos dez anos de Seattle e do primeiro Fórum Social Mundial, o balanço que é preciso fazer é da luta pelo “outro mundo possível”. Um balanço do FSM deve ser não o balanço dos Fóruns, mas dos objetivos a que se propôs, quando começamos a organizá-los, há uma década.
Uma outra ótica seria vítima do corporativismo, da crença que a evolução interna de uma organização é a história política dessa organização. A história e o balanço de um partido político deve ser o balanço dos objetivos a que esse partido se propõe. Um balanço do FSM não é um balanço da situação das ONGs ou dos movimentos sociais. Ao contrário, estes devem ser avaliados em função da contribuição que tenham feito à construção do “outro mundo possível”.
Por isso, a referência a estabelecer como parâmetro de avaliação é a situação de criação do “outro mundo possivel”. Há uma década o neoliberalismo ainda reinava soberanamente como modelo hegemônico, seja em escala mundial, seja na América Latina. Na sucessão da primeira geração de mandatários que o personificavam – Reagan, Thatcher -, para a segunda – Clinton, Blair – se ampliava o consenso da extrema direita para forças originariamente alternativas a ela: os democratas norteamericanos, os trabalhistas ingleses. Enquanto que no continente, ao extremismo de direita de Pinochet se somavam formas nacionalistas – como o peronismo de Menem e os governos do PRI mexicano -, assim como social democratas, como os socialistas chilenos, AD da Venezuela, os tucanos brasileiros.
Nossas sociedades foram profunda e extensamente transformadas conforme esse receituário, os Estado nacionais enfraquecidos, os patrimônios públicos privatizados, os direitos sociais recortados, o capital especulativo incentivado, resultando no aumento brutal da desigualdades, da concentração de renda, da exclusão dos direitos à massa da população, do empobrecimento generalizado das sociedades e dos Estados.
Passados dez anos, o mundo continua sob hegemonia conservadora, mesmo se debilitado na sua legitimidade, o modelo neoliberal segue hegemônico. A diferença substancial vem da América Latina, onde um conjunto de governos, mesmo se diferenciados entre si, passaram a colocar em prática políticas contrapostas ao modelo neoliberal, depois de ter sido a região privilegiada de dominação neoliberal, com a maior quantidade e as modalidades mais radicais de governos neoliberais.
A região apresenta hoje os mais importantes processos de integração regional em contraposição aos Tratados de Livre Comércio propostos pelo neoliberalismo. O grande projeto norteamericano, que buscava estender a livre comércio a todo o continente, a Alca, foi derrotado e, no seu espaço, se fortaleceu o Mercosul, se desenvolveram o Banco do Sul, Unasul, o Conselho Sulamericano de Defesa, a Alba – entre outras iniciativas. São espaços alternativos, em que se desenvolvem, em distintos níveis, formas de intercambio privilegiado entre os países da região, acompanhadas da diversificação do comércio internacional dos países que participam dela.
Ao mesmo tempo, em alternativa ao privilégio dos ajustes fiscais, se desenvolveram políticas sociais que melhoraram significativamente o nível de vida e diminuíram os graus de desigualdade no continente de maior desigualdade no mundo. Os mercados internos de consumo popular se ampliam e se aprofundam.
A combinação desses três elementos – diversificação do comércio internacional, com diminuição do peso do centro do capitalista e aumento importante do peso dos intercâmbios do Sul do mundo; intensificação substantiva do comércio entre os países da região; expansão, inclusive durante a crise, do mercado interno de consumo popular – fez com que os países incorporados aos processos de integração regional, resistiram muito melhor aos duros efeitos da crise e vários deles voltaram a crescer.
Por outro lado, projetos como os de alfabetização – que fizeram com que a Venezuela, a Bolívia e o Equador tenham se somado a Cuba, como os territórios livres de analfabetismo nas Américas -, de formação de várias gerações de médicos pobres no continente, pelas Escolas Latinoamericanas de Medicina, em Cuba e na Venezuela - de recuperação da visão de mais de 2 milhões de pessoas, na Operação Milagre – demonstram como a recuperação de direitos essenciais tem que se fazer na esfera pública e não na mercantil.
Os intercâmbios solidários dentro da Alba são exemplos concretos do “comércio justo”, pregado pelo FSM desde seus inícios, em espaços com critérios das possibilidades e das necessidades de cada país, em contraposição clara às normas do mercado, do livre comércio e da OMC.
Sem ir mais longe, a avaliação do FSM ter que ser feita em função das suas contribuições à construção de alternativas ao neoliberalismo, do “outro mundo possível”. Sem uma compreensão concreta da força e da abrangência da hegemonia neoliberal, assim como das condições inéditas concretas em que se constroem alternativas, o debate passaria longe da realidade concreta de luta contra o neoliberalismo.
É também indispensável compreender que esse movimento passou da fase de resistência, predominante na ultima década do século passado, e a fase de construção de alternativas. A visão da “autonomia dos movimentos sociais” teve vigência na primeira etapa, porém quando pretenderam estendê-la para a década seguinte, cometeram equívocos fundamentais. O movimento mais significativo – e que, não por acaso, se dá no processo mais importante de construção de alternativas atualmente, o de Bolívia – foi o da fundação do MAS pelos movimentos sociais bolivianos, a partir da consciência de que, depois de derrubar vários presidentes, sucessivamente, constituíram um partido, disputaram as eleições e elegeram a Evo Morales presidente do país. Retomaram laços com a esfera política, de outra forma, convocando a Assembléia Constituinte e passando à refundação do Estado boliviano.
Outros movimentos, que mantiveram a visão equivocada e corporativa da “autonomia” ou se isolaram ou praticamente desapareceram da cena política. Essa “autonomia”, se fosse – como ocorria anteriormente – em relação a políticas de subordinação de classes, tinha um sentido. Mas se se trata de autonomia em relação à política, ao Estado, à luta por uma nova hegemonia, é um conceito corporativo, adaptado às condições de resistência, mas completamente equivocado quando se trata de construir condições de construção de hegemonias alternativas.
No FSM de Belém foi possível constatar, com a presença de cinco presidentes latinoamericanos comprometidos, de formas distintas, com a construção de alternativas ao neoliberalismo, quanto avançou e tem reconhecimento da luta iniciada há 10 anos. Já o FSM decepcionou. Não foram elaboradas propostas de enfrentamento da crise econômica. Não se fizeram balanços e discussões com esses e outros governos, junto aos movimentos sociais, para discutir as contribuições que tenham e os problemas pendentes.
Em suma, ao ter ainda ONGs como protagonistas centrais, ao auto-limitar-se à esfera social, ao fechar os olhos para os governos que estão avançando em projetos de superação do neoliberalismo, ao não encarar o tema das guerras – e, com elas, do imperialismo -, o FSM foi perdendo transcendência, tornando-se um encontro para intercâmbio de experiências – concepção pregada pelas ONGs, que o tornam intranscendente.
O balanço, pelo menos na América Latina, da luta por um “outro mundo possível”, é muito positivo, ainda mais se considerarmos o entorno conservador predominante no mundo. Já o FSM, ficou girando em falso, sem capacidade de acompanhar esses avanços e os temas da hegemonia imperial no mundo, entre eles o dos epicentros de guerra imperial no mundo – Iraque, Afeganistão, Palestina, Colômbia.
Fonte:Agência Carta Maior.
domingo, 24 de janeiro de 2010
FSM TEMÁTICO BAHIA: seminário debaterá crise civilisatória.
FSM Temático Bahia: seminário debaterá crise civilizatória
Seminário "Crises e Oportunidades" debaterá a crise civilizatória, no Fórum Social Mundial Temático Bahia, de 29 a 31 de janeiro. Para o professor Ladislau Dowbor, um dos participantes do evento, o planeta está sendo destruído em benefício de apenas um terço da população mundial. “Os Estados Unidos, que possuem apenas 4% da população terrestre, contribuem com 25% das emissões de gases estufa". Balanços do Banco Mundial, acrescenta, apontam que quatro bilhões de pessoas não são beneficiadas pela globalização, o que representa quase dois terços da população mundial.
Redação
A participação de cientistas de várias partes do mundo e que trabalham na identificação de problemas e construção de agendas está confirmada para o Fórum Social Mundial Temático Bahia (FSMT-BA), em Salvador (BA), de 29 a 31 de janeiro. A discussão do tema "crise civilizatória" tem atraído para o evento da Bahia nomes de peso como o cientista político e professor Ladislau Dowbor. Ele ressalta que a participação de governos no FSMT-BA funciona no sentido de tratar de questões fundamentais para o futuro da humanidade.
O professor alerta que são inúmeros os problemas do planeta e que a capacidade de governo está fragmentada em 192 países. “É necessário pensar um governo mundial. O planeta Terra conta hoje com aproximadamente sete bilhões de habitantes. A cada ano, esse número aumenta em 75 milhões. Todos querem consumir mais”, observa.
Para Dowbor, do ponto de visa ambiental também é preciso repensar a forma da gestão do planeta, pois algumas questões têm impacto não apenas no clima, mas também na biodiversidade e na degradação do solo. “Há uma liquidação da cobertura florestal do planeta. Estamos transformando água em ouro azul. É preciso estar atento para a vida nos mares, os lençóis freáticos, a poluição generalizada da água doce, o petróleo e o paradigma energético”, afirma.
Entre os aspectos sociais, o professor reclama que o planeta está sendo destruído em benefício de apenas um terço da população mundial. “Os Estados Unidos, que possuem apenas 4% da população terrestre, contribuem com 25% das emissões de gases estufa. Balanços do Banco Mundial (BM) apontam que existem quatro bilhões de pessoas que não são beneficiadas pela globalização, o que representa quase dois terços da população mundial. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) informa que dobrou de um para dois milhões os desnutridos no planeta. O UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) diz que temos dez milhões de crianças morrendo anualmente de causas banais como não acesso a comida, saúde e água limpa”, diz.
Perfil
Ladislau Dowbor, formado em economia política pela Universidade de Lausanne, Suiça; Doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia (1976). Atualmente é professor titular no departamento de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, nas áreas de economia e administração. Continua com o trabalho de consultoria para diversas agencias das Nações Unidas, governos e municípios, bem como do Senac.
Atua como Conselheiro na Fundação Abrinq, Instituto Polis e outras instituições. Juntamente com Ignacy Sachs e Carlos Lopes, articularam o Fórum Crise e Oportnidades, reunindo intelectuais, atore sociais e governantes de várias partes do mundo, os quais participarão de mesas de debates no FSMT-Bahia. Mais informações estão disponíveis no site http://criseoportunidade.wordpress.com/.
Fonte:Agência Carta Maior.
Seminário "Crises e Oportunidades" debaterá a crise civilizatória, no Fórum Social Mundial Temático Bahia, de 29 a 31 de janeiro. Para o professor Ladislau Dowbor, um dos participantes do evento, o planeta está sendo destruído em benefício de apenas um terço da população mundial. “Os Estados Unidos, que possuem apenas 4% da população terrestre, contribuem com 25% das emissões de gases estufa". Balanços do Banco Mundial, acrescenta, apontam que quatro bilhões de pessoas não são beneficiadas pela globalização, o que representa quase dois terços da população mundial.
Redação
A participação de cientistas de várias partes do mundo e que trabalham na identificação de problemas e construção de agendas está confirmada para o Fórum Social Mundial Temático Bahia (FSMT-BA), em Salvador (BA), de 29 a 31 de janeiro. A discussão do tema "crise civilizatória" tem atraído para o evento da Bahia nomes de peso como o cientista político e professor Ladislau Dowbor. Ele ressalta que a participação de governos no FSMT-BA funciona no sentido de tratar de questões fundamentais para o futuro da humanidade.
O professor alerta que são inúmeros os problemas do planeta e que a capacidade de governo está fragmentada em 192 países. “É necessário pensar um governo mundial. O planeta Terra conta hoje com aproximadamente sete bilhões de habitantes. A cada ano, esse número aumenta em 75 milhões. Todos querem consumir mais”, observa.
Para Dowbor, do ponto de visa ambiental também é preciso repensar a forma da gestão do planeta, pois algumas questões têm impacto não apenas no clima, mas também na biodiversidade e na degradação do solo. “Há uma liquidação da cobertura florestal do planeta. Estamos transformando água em ouro azul. É preciso estar atento para a vida nos mares, os lençóis freáticos, a poluição generalizada da água doce, o petróleo e o paradigma energético”, afirma.
Entre os aspectos sociais, o professor reclama que o planeta está sendo destruído em benefício de apenas um terço da população mundial. “Os Estados Unidos, que possuem apenas 4% da população terrestre, contribuem com 25% das emissões de gases estufa. Balanços do Banco Mundial (BM) apontam que existem quatro bilhões de pessoas que não são beneficiadas pela globalização, o que representa quase dois terços da população mundial. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) informa que dobrou de um para dois milhões os desnutridos no planeta. O UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) diz que temos dez milhões de crianças morrendo anualmente de causas banais como não acesso a comida, saúde e água limpa”, diz.
Perfil
Ladislau Dowbor, formado em economia política pela Universidade de Lausanne, Suiça; Doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia (1976). Atualmente é professor titular no departamento de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, nas áreas de economia e administração. Continua com o trabalho de consultoria para diversas agencias das Nações Unidas, governos e municípios, bem como do Senac.
Atua como Conselheiro na Fundação Abrinq, Instituto Polis e outras instituições. Juntamente com Ignacy Sachs e Carlos Lopes, articularam o Fórum Crise e Oportnidades, reunindo intelectuais, atore sociais e governantes de várias partes do mundo, os quais participarão de mesas de debates no FSMT-Bahia. Mais informações estão disponíveis no site http://criseoportunidade.wordpress.com/.
Fonte:Agência Carta Maior.
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL- O mundo de ponta-cabeça.
O mundo de ponta-cabeça
Dez anos depois, o Fórum se tornou uma referência internacional consagrada do esforço de revirar de ponta-cabeça um mundo que, do contrário, tende a desperdiçar suas chances de por seus povos de pé. Neste ano, o Fórum tem particular importância, para além do fato de estar completando uma década. Será a oportunidade de refletir sobre o quadro internacional, as grandes transformações em curso e as alternativas que podem tornar possível um novo mundo, mais democrático, livre e igualitário do que o foi o do século que passou. O artigo é de Antonio Lassance.
Antonio Lassance
O início deste século tem sido marcado por transformações profundas e aceleradas. Há um século atrás, não foi diferente. A década de 10 teve dois acontecimentos angulares para o século XX: a I Guerra (1914-1918) e a Revolução Russa (1917). O mundo tinha uma nova geografia, com países recém unificados, outros que acabavam de surgir (África do Sul, 1910) e alguns que mudavam de regime – como Portugal, que aboliu sua secular monarquia e instaurou a república, também em 1910. Populações migravam em grande escala para as Américas. As cidades ganhavam contornos horizontais e verticais inimagináveis e sua paisagem passaria a ser definitivamente associada ao automóvel e à eletricidade.
A produção industrial começara a utilizar a linha de montagem, nas fábricas da Colt (de armas) e da Singer (máquinas de costura), mas foi a partir da década de 10, com o modelo T, da Ford, quando ela se tornaria o padrão de organização do trabalho mais comum no século XX. A cultura seria radicalmente modificada com a dimensão que alcançariam o rádio e o cinema, no que viria a ser chamado de “cultura de massa”. As mulheres intensificavam sua luta por igualdade de direitos civis e políticos. No México, explodia a Revolução Zapatista e, no Brasil, a Revolta da Chibata, ambas em 1910.
Comparativamente, a profundidade e rapidez das transformações que se vive atualmente não parecem ter impactos menos sensíveis. Muitas das alterações em curso ocorrem de maneira frenética, com desdobramentos que ainda estão por serem completamente compreendidos. Outras são lentas, graduais, mas solapam sorrateiramente o mundo tal como o conhecemos até agora, até que, no futuro, ele não existirá mais.
Assim como o século XX marcou a passagem do ciclo hegemônico inglês para o americano, há sinais contundentes de um processo de transição que pode resultar em uma nova hegemonia no sistema mundial de produção de mercadorias. A substituição do G-8 pelo G-20 e o desenvolvimento econômico das economias do hemisfério Sul (e do que era identificado como o “Terceiro Mundo”) marcam um novo cenário da economia internacional.
Novos padrões tecnológicos de produção e consumo se apresentam, baseados na nanotecnologia, na manipulação genômica, no uso de biocombustíveis. Surgirão novas corporações globais – oriundas de países diferentes daqueles que dominaram o século XX. Ao mesmo tempo, os requisitos de sustentabilidade e igualdade de oportunidades, trazidos à cena pela luta social, abrem espaço para o avanço de alternativas de economia solidária, tecnologias sociais, produção de alimentos orgânicos e valorização dos conhecimentos de comunidades tradicionais.
Uma nova configuração demográfica decorrerá do processo mundial de envelhecimento da população nos países mais ricos e em desenvolvimento, das migrações impulsionadas por problemas climáticos ou conflitos regionais e das novas formas de organização familiar, que ampliarão este conceito para abranger relações que estiveram desabrigadas de seu manto.
As grandes catástrofes deste início de século, como o Tsunami do Índico (2004), o furacão Katrina (2005) e o terremoto do Haiti (2010), além das inundações constantes, das nevascas e das secas rigorosas, colocaram a questão ambiental como um dos pontos mais críticos da agenda mundial e requisito básico para as chances de sobrevivência ou desenvolvimento da maioria dos países.
Em termos culturais, ocorre a mudança do paradigma televisivo para o informacional, com a internet tomando progressivamente o espaço ocupado antes pelo rádio e pela TV. Os antigos meios, incluindo-se aí os jornais, são por ela incorporados. Tal processo acelerou o declínio de muitos dos mais tradicionais meios de comunicação e dos grupos empresariais a eles associados. Seu lugar tem sido tomado pelos grandes conglomerados da comunicação e corporações dedicadas à transmissão de dados e organização de conteúdos. Ao mesmo tempo, abriu-se uma janela para a democratização do acesso à informação e para a ampliação da prestação de serviços, por meio do uso das plataformas eletrônicas. Permitiu-se, também, a multiplicação extraordinária do fenômeno das comunidades de relacionamento, verdadeiras “polis” do ciberespaço.
Em termos políticos, há um aprofundamento da crise histórica dos partidos socialdemocratas europeus, o surgimento de referências políticas de novo tipo, na América Latina (em especial, o Brasil e, cada vez mais, a Bolívia) e em inúmeros governos subnacionais. Há uma maior dimensão dos movimentos de contestação ao neoliberalismo e antiglobalização. Por outro lado, ressurge uma ultradireita que combina racismo, xenofobismo e sensacionalismo midiático.
Fortalece-se o conflito entre religiões que, em muitos casos, tornou-se o principal cimento ideológico da disputa por territórios e pelo destino de milhões de pessoas. Um dos resultados perversos do fim da Guerra Fria foi o de que o preconceito passou a tomar conta do debate ideológico e a definir muitos dos campos em disputa.
Há dez anos, uma das formas mais efetivas e bem organizadas da discussão da transição que se atravessa para este outro mundo é Fórum Social Mundial. Graças à diversidade e multiplicidade de pontos de vista que promove, com pessoas de vários países e continentes, atores de origens sociais e políticas distintas e agentes de processos políticos bastante diferenciados, o Fórum se permite à ousadia de abraçar pelo menos três objetivos: servir de ponto de encontro, servir de espaço de reflexão e servir de base para a mudança.
Em meio a um turbilhão de fatos de grande repercussão atual e histórica, as chances de mudança política dependem exatamente de encontros, de reflexões e de inflexões na prática política. O encontro que o Fórum proporciona diz respeito a quatro atores políticos historicamente fundamentais aos processos transformadores: os movimentos sociais, os partidos, os intelectuais e os governos. A relação que estes quatro atores estabelecem em torno das instituições do Estado e das políticas públicas tem dado origem a experiências políticas diversas e que ainda aguardam um inventário mais sistemático. Os avanços possíveis dependem justamente de um novo desenho na relação histórica entre tais atores.
Neste ano, o Fórum tem particular importância, para além do fato de estar completando uma década. Nas cidades de Porto Alegre-RS, Salvador-BA, Santa Maria e Canoas (no Rio Grande do Sul), Madri e Barcelona, se terá a oportunidade de refletir sobre o quadro internacional, as grandes transformações em curso e as alternativas que podem tornar possível um novo mundo, mais democrático, livre e igualitário do que o foi o do século que passou.
Um dos pontos centrais de discussão será sobre os impactos atuais e futuros da grande crise econômica de 2008/2009, que ainda se arrasta em vários países. A crise tem acelerado a configuração de uma nova trajetória global. Em primeiro lugar, ela acelerou os sinais de que estamos à beira de um novo ciclo hegemônico, liderado pela China, associado às demais economias que lhes são vizinhas (no Sudeste Asiático e Oceania), e que eleva a importância de algumas economias emergentes.
A crise deu força a que este novo pólo dinâmico da produção de mercadorias, a China, fosse capaz, no intervalo de um ano, de produzir duas alterações de magnitude assombrosa: ultrapassar a Alemanha como maior exportadora mundial (fato já ocorrido, no ano passado) e tornar-se a segunda maior economia mundial, suplantando o Japão, evento altamente provável de ocorrer neste ano. Projeções para mais uma década já supõem que o PIB do E7, aquelas consideradas como as sete principais economias emergentes (China, Índia, Brasil, Rússia, México, Indonésia e Turquia), podem superar em 2020 o PIB do conjunto do G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá). A crise fez ainda que as projeções a respeito dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) avançassem em 10 anos. Eles podem estar à frente dos países do G7 não em 2050, mas em 2040.
Transformações dessa magnitude e as perspectivas que temos diante delas são discussões de peso que o Fórum Social Temático da Bahia (Salvador, dias 29, 30 e 31 de janeiro), com o apoio do Governo da Bahia, vai capitanear. Para tanto, conta com pensadores de grande importância para a reflexão de esquerda. Desde os grandes expoentes da teoria do sistema-mundo (Immanuel Wallerstein e Samir Amin), afeiçoados à discussão dos fenômenos de longa duração, até os que, no Brasil, são referências essenciais do debate sobre desenvolvimento econômico e inclusão social, como Paul Singer, Ladislau Dowbor e Tânia Bacelar.
Os painéis recepcionados pelo Fórum permitem justamente o encontro entre representantes de governos, partidos, movimentos sociais e intelectuais, todos eles militantes da causa da transformação da sociedade e mergulhados na busca por projetos que representem alternativas viáveis, nascidos da experiência local, mas que podem alcançar dimensão global.
Dez anos depois, o Fórum se tornou uma referência internacional consagrada do esforço de revirar de ponta-cabeça um mundo que, do contrário, tende a desperdiçar suas chances de por seus povos de pé.
Antonio Lassance, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), cientista político, professor do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF).
Dez anos depois, o Fórum se tornou uma referência internacional consagrada do esforço de revirar de ponta-cabeça um mundo que, do contrário, tende a desperdiçar suas chances de por seus povos de pé. Neste ano, o Fórum tem particular importância, para além do fato de estar completando uma década. Será a oportunidade de refletir sobre o quadro internacional, as grandes transformações em curso e as alternativas que podem tornar possível um novo mundo, mais democrático, livre e igualitário do que o foi o do século que passou. O artigo é de Antonio Lassance.
Antonio Lassance
O início deste século tem sido marcado por transformações profundas e aceleradas. Há um século atrás, não foi diferente. A década de 10 teve dois acontecimentos angulares para o século XX: a I Guerra (1914-1918) e a Revolução Russa (1917). O mundo tinha uma nova geografia, com países recém unificados, outros que acabavam de surgir (África do Sul, 1910) e alguns que mudavam de regime – como Portugal, que aboliu sua secular monarquia e instaurou a república, também em 1910. Populações migravam em grande escala para as Américas. As cidades ganhavam contornos horizontais e verticais inimagináveis e sua paisagem passaria a ser definitivamente associada ao automóvel e à eletricidade.
A produção industrial começara a utilizar a linha de montagem, nas fábricas da Colt (de armas) e da Singer (máquinas de costura), mas foi a partir da década de 10, com o modelo T, da Ford, quando ela se tornaria o padrão de organização do trabalho mais comum no século XX. A cultura seria radicalmente modificada com a dimensão que alcançariam o rádio e o cinema, no que viria a ser chamado de “cultura de massa”. As mulheres intensificavam sua luta por igualdade de direitos civis e políticos. No México, explodia a Revolução Zapatista e, no Brasil, a Revolta da Chibata, ambas em 1910.
Comparativamente, a profundidade e rapidez das transformações que se vive atualmente não parecem ter impactos menos sensíveis. Muitas das alterações em curso ocorrem de maneira frenética, com desdobramentos que ainda estão por serem completamente compreendidos. Outras são lentas, graduais, mas solapam sorrateiramente o mundo tal como o conhecemos até agora, até que, no futuro, ele não existirá mais.
Assim como o século XX marcou a passagem do ciclo hegemônico inglês para o americano, há sinais contundentes de um processo de transição que pode resultar em uma nova hegemonia no sistema mundial de produção de mercadorias. A substituição do G-8 pelo G-20 e o desenvolvimento econômico das economias do hemisfério Sul (e do que era identificado como o “Terceiro Mundo”) marcam um novo cenário da economia internacional.
Novos padrões tecnológicos de produção e consumo se apresentam, baseados na nanotecnologia, na manipulação genômica, no uso de biocombustíveis. Surgirão novas corporações globais – oriundas de países diferentes daqueles que dominaram o século XX. Ao mesmo tempo, os requisitos de sustentabilidade e igualdade de oportunidades, trazidos à cena pela luta social, abrem espaço para o avanço de alternativas de economia solidária, tecnologias sociais, produção de alimentos orgânicos e valorização dos conhecimentos de comunidades tradicionais.
Uma nova configuração demográfica decorrerá do processo mundial de envelhecimento da população nos países mais ricos e em desenvolvimento, das migrações impulsionadas por problemas climáticos ou conflitos regionais e das novas formas de organização familiar, que ampliarão este conceito para abranger relações que estiveram desabrigadas de seu manto.
As grandes catástrofes deste início de século, como o Tsunami do Índico (2004), o furacão Katrina (2005) e o terremoto do Haiti (2010), além das inundações constantes, das nevascas e das secas rigorosas, colocaram a questão ambiental como um dos pontos mais críticos da agenda mundial e requisito básico para as chances de sobrevivência ou desenvolvimento da maioria dos países.
Em termos culturais, ocorre a mudança do paradigma televisivo para o informacional, com a internet tomando progressivamente o espaço ocupado antes pelo rádio e pela TV. Os antigos meios, incluindo-se aí os jornais, são por ela incorporados. Tal processo acelerou o declínio de muitos dos mais tradicionais meios de comunicação e dos grupos empresariais a eles associados. Seu lugar tem sido tomado pelos grandes conglomerados da comunicação e corporações dedicadas à transmissão de dados e organização de conteúdos. Ao mesmo tempo, abriu-se uma janela para a democratização do acesso à informação e para a ampliação da prestação de serviços, por meio do uso das plataformas eletrônicas. Permitiu-se, também, a multiplicação extraordinária do fenômeno das comunidades de relacionamento, verdadeiras “polis” do ciberespaço.
Em termos políticos, há um aprofundamento da crise histórica dos partidos socialdemocratas europeus, o surgimento de referências políticas de novo tipo, na América Latina (em especial, o Brasil e, cada vez mais, a Bolívia) e em inúmeros governos subnacionais. Há uma maior dimensão dos movimentos de contestação ao neoliberalismo e antiglobalização. Por outro lado, ressurge uma ultradireita que combina racismo, xenofobismo e sensacionalismo midiático.
Fortalece-se o conflito entre religiões que, em muitos casos, tornou-se o principal cimento ideológico da disputa por territórios e pelo destino de milhões de pessoas. Um dos resultados perversos do fim da Guerra Fria foi o de que o preconceito passou a tomar conta do debate ideológico e a definir muitos dos campos em disputa.
Há dez anos, uma das formas mais efetivas e bem organizadas da discussão da transição que se atravessa para este outro mundo é Fórum Social Mundial. Graças à diversidade e multiplicidade de pontos de vista que promove, com pessoas de vários países e continentes, atores de origens sociais e políticas distintas e agentes de processos políticos bastante diferenciados, o Fórum se permite à ousadia de abraçar pelo menos três objetivos: servir de ponto de encontro, servir de espaço de reflexão e servir de base para a mudança.
Em meio a um turbilhão de fatos de grande repercussão atual e histórica, as chances de mudança política dependem exatamente de encontros, de reflexões e de inflexões na prática política. O encontro que o Fórum proporciona diz respeito a quatro atores políticos historicamente fundamentais aos processos transformadores: os movimentos sociais, os partidos, os intelectuais e os governos. A relação que estes quatro atores estabelecem em torno das instituições do Estado e das políticas públicas tem dado origem a experiências políticas diversas e que ainda aguardam um inventário mais sistemático. Os avanços possíveis dependem justamente de um novo desenho na relação histórica entre tais atores.
Neste ano, o Fórum tem particular importância, para além do fato de estar completando uma década. Nas cidades de Porto Alegre-RS, Salvador-BA, Santa Maria e Canoas (no Rio Grande do Sul), Madri e Barcelona, se terá a oportunidade de refletir sobre o quadro internacional, as grandes transformações em curso e as alternativas que podem tornar possível um novo mundo, mais democrático, livre e igualitário do que o foi o do século que passou.
Um dos pontos centrais de discussão será sobre os impactos atuais e futuros da grande crise econômica de 2008/2009, que ainda se arrasta em vários países. A crise tem acelerado a configuração de uma nova trajetória global. Em primeiro lugar, ela acelerou os sinais de que estamos à beira de um novo ciclo hegemônico, liderado pela China, associado às demais economias que lhes são vizinhas (no Sudeste Asiático e Oceania), e que eleva a importância de algumas economias emergentes.
A crise deu força a que este novo pólo dinâmico da produção de mercadorias, a China, fosse capaz, no intervalo de um ano, de produzir duas alterações de magnitude assombrosa: ultrapassar a Alemanha como maior exportadora mundial (fato já ocorrido, no ano passado) e tornar-se a segunda maior economia mundial, suplantando o Japão, evento altamente provável de ocorrer neste ano. Projeções para mais uma década já supõem que o PIB do E7, aquelas consideradas como as sete principais economias emergentes (China, Índia, Brasil, Rússia, México, Indonésia e Turquia), podem superar em 2020 o PIB do conjunto do G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá). A crise fez ainda que as projeções a respeito dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) avançassem em 10 anos. Eles podem estar à frente dos países do G7 não em 2050, mas em 2040.
Transformações dessa magnitude e as perspectivas que temos diante delas são discussões de peso que o Fórum Social Temático da Bahia (Salvador, dias 29, 30 e 31 de janeiro), com o apoio do Governo da Bahia, vai capitanear. Para tanto, conta com pensadores de grande importância para a reflexão de esquerda. Desde os grandes expoentes da teoria do sistema-mundo (Immanuel Wallerstein e Samir Amin), afeiçoados à discussão dos fenômenos de longa duração, até os que, no Brasil, são referências essenciais do debate sobre desenvolvimento econômico e inclusão social, como Paul Singer, Ladislau Dowbor e Tânia Bacelar.
Os painéis recepcionados pelo Fórum permitem justamente o encontro entre representantes de governos, partidos, movimentos sociais e intelectuais, todos eles militantes da causa da transformação da sociedade e mergulhados na busca por projetos que representem alternativas viáveis, nascidos da experiência local, mas que podem alcançar dimensão global.
Dez anos depois, o Fórum se tornou uma referência internacional consagrada do esforço de revirar de ponta-cabeça um mundo que, do contrário, tende a desperdiçar suas chances de por seus povos de pé.
Antonio Lassance, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), cientista político, professor do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF).
terça-feira, 3 de novembro de 2009
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL - FSM fará balanço da última década.
A capital gaúcha e sete cidades da Região Metropolitana receberão, entre 25 e 29 de janeiro de 2010, o Fórum Social 10 Anos Grande Porto Alegre. Além de celebrar os 10 anos de atividades do FSM, o encontro fará um balanço deste período de lutas em defesa de um modelo de globalização alternativo ao construído nas últimas décadas.
A notícia é da Carta Maior, 02-11-2009.
O Fórum Grande Porto Alegre será o primeiro de vários eventos programados em diversos países ao longo de 2010, quando o FSM terá, mais uma vez um formato descentralizado. Entre as atividades já definidas para o encontro no Rio Grande do Sul, está o Seminário FSM 10 Anos, promovido pelo Grupo de Apoio ao Fórum Social Mundial. A idéia é debater não só a experiência passada do Fórum, mas principalmente seu futuro.
O evento está sendo organizado por entidades gaúchas com o apoio dos governos dos sete municípios onde ocorrerão as atividades (Porto Alegre, Canoas, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Campo Bom e Sapiranga).
Além do seminário de avaliação do FSM, que ocorrerá em Porto Alegre, também estão confirmados o Acampamento Intercontinental da Juventude, entre 18 e 28 de janeiro, em Novo Hamburgo, o I Fórum Mundial de Economia Solidária e a I Feira Mundial de Economia Solidária, de 22 a 24 de janeiro, em Santa Maria. Ainda em Porto Alegre, de 25 a 29 de janeiro de 2010, será realizada uma grande oficina sobre o mundo do trabalho. Esse encontro debaterá o impacto da crise econômica internacional sobre o trabalho e a qualidade dos empregos e dos ambientes de trabalho hoje em dia.
Da Bahia a Dakar
Logo após o encontro no RS, ocorrerá em Salvador, entre 29 e 31 de janeiro, o Fórum Social da Bahia. O tema central do evento, construído em conjunto com o FSM 10 Anos, será “Da Bahia a Dakar: enfrentar a crise com integração, desenvolvimento e soberania”. “Esta passagem do FSM por Salvador será uma contribuição muito preciosa para o Fórum de Dakar, no Senegal, em 2011, pois esta foi a principal porta de entrada de africanos, vítimas da escravidão. A idéia é estabelecer um diálogo entre cidades com culturas semelhantes”, explica José Luiz Del Roio, representante do Fórum Mundial de Alternativas à Crise.
Representantes de governos e movimentos sociais da América Latina e da África participarão, em Salvador, do Fórum de Diálogos e Controvérsias, que discutirá novas políticas econômicas, sociais e ambientais.
Fonte:IHU
A notícia é da Carta Maior, 02-11-2009.
O Fórum Grande Porto Alegre será o primeiro de vários eventos programados em diversos países ao longo de 2010, quando o FSM terá, mais uma vez um formato descentralizado. Entre as atividades já definidas para o encontro no Rio Grande do Sul, está o Seminário FSM 10 Anos, promovido pelo Grupo de Apoio ao Fórum Social Mundial. A idéia é debater não só a experiência passada do Fórum, mas principalmente seu futuro.
O evento está sendo organizado por entidades gaúchas com o apoio dos governos dos sete municípios onde ocorrerão as atividades (Porto Alegre, Canoas, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Campo Bom e Sapiranga).
Além do seminário de avaliação do FSM, que ocorrerá em Porto Alegre, também estão confirmados o Acampamento Intercontinental da Juventude, entre 18 e 28 de janeiro, em Novo Hamburgo, o I Fórum Mundial de Economia Solidária e a I Feira Mundial de Economia Solidária, de 22 a 24 de janeiro, em Santa Maria. Ainda em Porto Alegre, de 25 a 29 de janeiro de 2010, será realizada uma grande oficina sobre o mundo do trabalho. Esse encontro debaterá o impacto da crise econômica internacional sobre o trabalho e a qualidade dos empregos e dos ambientes de trabalho hoje em dia.
Da Bahia a Dakar
Logo após o encontro no RS, ocorrerá em Salvador, entre 29 e 31 de janeiro, o Fórum Social da Bahia. O tema central do evento, construído em conjunto com o FSM 10 Anos, será “Da Bahia a Dakar: enfrentar a crise com integração, desenvolvimento e soberania”. “Esta passagem do FSM por Salvador será uma contribuição muito preciosa para o Fórum de Dakar, no Senegal, em 2011, pois esta foi a principal porta de entrada de africanos, vítimas da escravidão. A idéia é estabelecer um diálogo entre cidades com culturas semelhantes”, explica José Luiz Del Roio, representante do Fórum Mundial de Alternativas à Crise.
Representantes de governos e movimentos sociais da América Latina e da África participarão, em Salvador, do Fórum de Diálogos e Controvérsias, que discutirá novas políticas econômicas, sociais e ambientais.
Fonte:IHU
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