Carlos Augusto de Araujo Dória, 82 anos, economista, nacionalista, socialista, lulista, budista, gaitista, blogueiro, espírita, membro da Igreja Messiânica, tricolor, anistiado político, ex-empregado da Petrobras. Um defensor da justiça social, da preservação do meio ambiente, da Petrobras e das causas nacionalistas.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
POLÍTICA EXTERNA - Relatos de Jobim.
Alvo dos mais recentes vazamentos de documentos da diplomacia dos Estados Unidos, pelo site Wikileaks, o ministro da Defesa, Nélson Jobim, irritou a diplomacia brasileira devido à informação de que teria confirmado ao governo americano o diagnóstico de câncer no presidente da Bolívia, Evo Morales. Segundo telegrama de 2009 a Washington, do embaixador Clifford Sobel, Jobim, após um encontro em La Paz entre Morales e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria informado aos EUA que o governo brasileiro até ofereceu tratamento em São Paulo para o presidente boliviano.
A reportagem é de Sérgio Leo e publicada pelo jornal Valor, 01-12-2010.
A transmissão, a outro governo, de um suposto segredo de Estado de um aliado do Brasil é uma falta "grave", na avaliação de um graduado diplomata. No Palácio do Planalto, porém, o caso foi minimizado. Segundo um assessor de Lula com trânsito na equipe da presidente eleita Dilma Rousseff, o governo está decidido a não dar atenção a "telegramas de embaixador", e eventuais comentários de Jobim sobre Morales não teriam poder de afetar a relação com o governo da Bolívia. O governo boliviano negou ontem que Morales tenha tido câncer e informou que ele foi operado por médicos cubanos de um "desvio de septo".
Jobim também divulgou nota negando ter acusado o ex-secretário-geral do Itamaraty Samuel Pinheiro Guimarães de ter "ódio aos EUA", como consta em outro telegrama vazado no Wikileaks. Mas nada falou sobre Morales - que, recentemente, em uma cerimônia em La Paz, com Jobim, acusou os EUA de apoiarem conspirações contra o governo boliviano.
A rivalidade entre o Itamaraty e Jobim, cotado para permanecer ministro no governo Dilma Rousseff, é evidente na leitura dos telegramas confidenciais vazados na internet pelo Wikileaks. Os textos escritos em 2008 e 2009, pelo então embaixador Clifford Sobel, mostram que os americanos viam Jobim como seu maior aliado contra o Ministério de Relações Exteriores, no esforço para firmar acordos na área de Defesa com os EUA.
O acordo, alvo de repetidos contatos e viagens de autoridades dos dois governos, foi firmado apenas em abril de 2010, mas incluiu, discretamente, até permissão para missões de fiscalização em instalações militares e civis dos dois países.
O ministro Jobim é descrito, pelo embaixador, como "talvez um dos mais confiáveis líderes no Brasil". Sobel lembra que o ministro pertenceu ao Supremo Tribunal Federal e afirma que "ele mantém uma forte reputação de integridade que é rara entre os líderes brasileiros". Notando que o Itamaraty procurava encurtar e esvaziar a visita de Jobim aos EUA, onde o ministro queria tratar do acordo de Defesa, Sobel descreveu o ministro da Defesa como um homem decidido a "desafiar a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas de política externa".
Numa avaliação do que significava ter Jobim no ministério, na época, Sobel prevê que Lula teria de dar a última palavra na disputa "entre um ministro da Defesa invulgarmente ativo e interessado em desenvolver laços mais firmes com os EUA e um Ministério de Relações Exteriores que está firmemente comprometido em manter controle sobre todos aspectos da política externa e manter uma distancia calculada entre o Brasil e os Estados Unidos".
Pelo relato de Sobel, Jobim se mostra um ministro afinado com algumas linhas gerais do governo Lula, como a reivindicação de transferência tecnológica no campo militar, a defesa de uma política de contenção, sem hostilidades, do governo de Hugo Chávez na Venezuela, a relutância em aceitar acusações de apoio às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia por parte de governos vizinhos e a crítica aos EUA pelos obstáculos colocados no passado à venda de aviões da Embraer aos venezuelanos.
Mas, enquanto os diplomatas são descritos como um "problema" no esforço por um acordo de Defesa, Jobim foi descrito como um aliado que permitiria uma aliança com o Brasil nesse campo passando por cima do Itamaraty. O acordo assinado somente em 2010, de fato, colocou o ministério da Defesa como único responsável pelas medidas necessárias para por em prática a cooperação entre Brasil e EUA.
O comportamento de Jobim descrito por Sobel nos telegramas confidenciais vazados ontem mostra que, na tentativa de assegurar a confiança dos americanos, o ministro chegou a entrar em detalhes sobre o delicado tema da doença de Evo Morales, tratado com Lula durante visita do brasileiro a La Paz, em janeiro de 2009. Jobim, diz Sobel, teria dito que Lula ofereceu a Morales exames e tratamento em um hospital de São Paulo.
Embora houvesse relatos públicos de que Morales sofria de "sinusite aguda", Jobim, segundo Sobel, teria dito que os problemas sentidos pelo boliviano eram "na verdade, causados por um sério tumor e a cirurgia seria uma tentativa de removê-lo". Jobim teria dito, inclusive, que o tumor poderia explicar por que Morales parecia extraordinariamente distraído nos encontros da época. O tratamento teria sido adiado, porém, segundo o ministro, até o referendo constitucional previsto para o fim daquele mês, na Bolívia. O Ministério da Defesa não quis se pronunciar sobre o relato de Sobel a respeito de Jobim e Morales.
Fonte:IHU
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
POLÍTICA EXTERNA - A imprensa brasileira e resistência ideológica.
Segundo a revista "Foreign Policy", Amorim foi ao lado da ex-ministra do Meio Ambiente e candidata a presidência Marina Silva, listado entre os 100 maiores pensadores globais de 2010. Mais do que estar entre os 100, o recordista em tempo no cargo de ministro das Relações Exteriores aparece em sexto lugar, atrás apenas de personalidades como Bill Gates e Warren Buffett (empatados em 1º) e Barack Obama (3º). Não é pouca coisa.
No entanto nos editoriais dos grandes jornais brasileiros, Amorim é tratado como um bastião do antiamericano quase infantil. Para o Estadão, por exemplo, o Brasil pratica uma "diplomacia da provocação. Para o jornal paulista, "a fixação antiamericana do Itamaraty é um chavismo de segunda."
Não bastasse a megalomania que a orienta, o presidente parece convencido de que a projeção do País no mundo será tanto maior quanto mais a política externa brasileira se caracterizar pelo contencioso com os EUA, para além das divergências normais no relacionamento bilateral. Essa tolice é insuflada por um antiamericanismo reminiscente dos anos Geisel, sob a ditadura militar. Confundindo diplomacia assertiva com a busca de pretextos para criar marola, o Itamaraty só muito raramente se esforça para minimizar ostensivamente os atritos com Washington.
Para o Instituto Millenium, "diferente do que se espera de uma diplomacia madura e verdadeiramente pragmática, a atual postura da política externa brasileira demonstra estar sendo pautada por um evidente antiamericanismo. Não se trata de um posicionamento independente, mas sim de confronto."
Mas pra a "Foreign Policy" não é bem assim. Na contramão do pensamento conservador nacional, para montar seu ranking, a publicação ficou de olho no que chamou de "ascensão do resto" - países que passaram de figurantes a protagonistas na cena global. E a "diplomacia impaciente" do Brasil tem muito a ver com essa promoção, segundo a "FP". O "astuto e urbano" diplomata brasileiro é exaltado por seguir um caminho independente, sem fazer oposição radical aos Estados Unidos, "como a velha esquerda da América Latina", nem abaixar a cabeça para os americanos. Para a "FP", Amorim ajuda a transformar o Brasil em um "global player" e isso parece incomodar muita gente.
David Rothkopf, editor da "FP" já havia escolhido Amorim o melhor chanceler do mundo. Rothkopf destaca entre muitas causas, sua batalha para transformar os BRICs de uma sigla em uma importante colaboração geopolítica, trabalhando com seus colegas da Rússia, da Índia e da China para institucionalizar o diálogo entre os países e coordenar suas mensagens. Além do fortalecimento do G20.
Nada ilustra quanto evoluiu o Brasil ou quão eficaz é o time Lula-Amorim quanto os eventos das últimas semanas. Primeiro, os países do mundo largaram o G8 e abraçaram o G20, garantindo ao Brasil um lugar permanente na mesa mais importante do mundo. Em seguida, o Brasil se tornou o primeiro país da América Latina a ganhar o direito de sediar as Olimpíadas. Ontem o Financial Times noticiou que a "Ásia e o Brasil lideram na confiança do consumidor", um reflexo da reputação que o governo vendeu eficazmente (com a maior parte do crédito indo para o ressurgente setor privado brasileiro).
E nesta semana as notícias sobre o encontro do FMI-Banco Mundial em Istambul mostraram a institucionalização do novo papel do Brasil com um acordo para mudar a estrutura do FMI. De acordo com o Washington Post de hoje: "As nações também concordaram preliminarmente em reestruturar a estrutura de votação do Fundo, prometendo dar mais poder aos gigantes emergentes como o Brasil e a China até janeiro de 2011".
Nada mal para alguns dias de trabalho. E embora seja o ministro da Fazenda que representa o Brasil nos encontros do FMI-Banco Mundial, o arquiteto dessa marcante transformação no papel do Brasil foi Amorim.
A imprensa no Brasil noticia esse reconhecimento internacional com um misto de surpresa e indignação. Tentam falar em nome dos interesses estrangeiros e são abruptamente desmentidos por publicações desses mesmos países, que veem na política externa brasileira um instrumento de afirmação nacional e não de enfrentamento. O Brasil não deve caminhar pelo caminho mais fácil, confortável. Adquiriu nesses últimos anos musculatura para alçar voos mais altos, negociando com os "donos do mundo" como parceiros e não como subordinados.
Marina Silva divide a 32ª colocação com outras três líderes de partidos verdes: Cécile Duflot (França), Monica Frassoni (Bélgica) e Renate Künast (Alemanha). Após o fiasco na cúpula climática em Copenhague, em dezembro passado, "2010 se transformou no ano dos verdes e, mais especificamente, das mulheres verdes", afirma a "FP". Marina teria "surpreendido a todos ao forçar um segundo turno na corrida presidencial de seu país", alcançando a votação mais expressiva do PV no Brasil.
Fonte: Blog do Alê.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
POLÍTICA EXTERNA - A diplomacia da coragem.
Voltam os adversários da política externa do presidente Lula à tentativa de desconstruir os êxitos do Itamaraty nos últimos oito anos. Irrita-os que os nossos representantes tenham deixado de usar os metafóricos punhos de renda, não levem muito a sério os ritos de servir o chá, e não se preocupem em conhecer de vinhos como deles conhecem os sommeliers dos hotéis de Monte Carlo e Deauville. Mas o que mais os incomoda é a conduta apontada por Chico Buarque: o Itamaraty deixou de falar grosso a países como o Paraguai e o Uruguai, e a se dirigir em voz mansa aos Estados Unidos e à Europa. O timbre de voz é o mesmo, com uns e com os outros. Para alguns, devemos nos contentar com as sobras que nos destinem, em lugar de exigir tratamento de igualdade na ocupação dos mercados, na política monetária e na direção dos organismos internacionais.
Agora que novo governo se forma, eles tentam recuperar as posições perdidas, e consideram serôdia (ou terceiro-mundista) a doutrina pragmática do Itamaraty. Como sempre ocorre nesses casos, tentam usar contra os outros os adjetivos que lhes cabem. Segundo dizem, a Doutrina Amorim está ultrapassada, porque se orienta por ideias anteriores à Queda do Muro de Berlim. Ora, o malogro da experiência socialista serviu de pretexto para o fortalecimento da política neoliberal de inspiração neocolonialista, mediante a farsa da globalização. Durante oito anos, a nossa diplomacia se curvou aos que nos exigiram desnacionalizar grande parte da indústria e a valorizar o real artificialmente, o que significou criminoso dumping contra os produtos nacionais, além de entregar setores estatais estratégicos, como os da energia e do sistema de telecomunicações, a investidores estrangeiros, au bon marché, com financiamento do Fundo de Amparo ao Trabalhador.
Incomoda-os que o Itamaraty se democratize, e que acolha hoje jovens nascidos em lares plebeus. Sentem-se constrangidos que nomes comuns se mesclem aos das antigas famílias do Império, antes as únicas a oferecer seus filhos aos quadros diplomáticos, da mesma forma que a guarda do palácio do Itamaraty ainda é confiada aos fuzileiros navais de porte atlético, nascidos no sul e descendentes de imigrantes nórdicos.
Sempre que vemos as fotografias dos encontros internacionais de há 50 anos, e comparamos com as de hoje, percebemos que a diplomacia tirou, literalmente, o paletó. Os fraques e as casacas desapareceram de cena; chefes de Estado dispensam, sabiamente, o uso de gravatas, e os acordos são discutidos diretamente pelos governantes, orientados, como é natural, pelos seus chanceleres.
Com sua forma amena de agir, Celso Amorim conduziu a Secretaria de Estado com a coragem da preservação moral. Ele já anunciara essa doutrina no discurso de posse, quando recomendou aos jovens diplomatas que não tivessem medo. Foi, assim, o chanceler ajustado ao estilo do presidente Lula, da mesma forma que se sentira à vontade como chanceler de Itamar Franco. Mesmo que o Brasil não fosse o que é, em suas dimensões, população, desenvolvimento econômico e intelligentsia (de que se deve orgulhar), sua postura no mundo tinha que ser a da independência.
Nos últimos oito anos, o Brasil teve como prioridade trabalhar pelo fortalecimento do Mercosul, como a primeira etapa em busca da construção de um grande mercado continental, ao mesmo tempo em que se aproximou de nações que emergem, na África e na Ásia, na economia e na política. Ainda bem que conseguimos nos livrar da armadilha do Nafta. Do contrário, estaríamos hoje na situação do México, cujo povo talvez viva os tempos mais trágicos de sua história.
Fonte: JBonline
sábado, 5 de junho de 2010
POLÍTICA EXTERNA - A síndrome de vira-latas.
A SÍNDROME DE VIRA-LATAS.
Circula na internet um excelente artigo de Leonardo Boff, no qual ele trata o comportamento da imprensa brasileira na cobertura da política externa do governo Lula sob a ótica da Fenomenologia do Espírito, de Hegel, que analisa a dialética do senhor e do servo. “O senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o servo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais seu estado de servo.” (*)
Boff identifica este comportamento na imprensa brasileira, que já se revela há muito tempo, mas ficou ainda mais explícito na mediação conduzida por Lula e pelo primeiro-ministro da Turquia da crise nuclear iraniana. O sucesso da missão de Lula, reconhecido na maior parte do mundo, foi negado pela imprensa brasileira, que tentou desqualificá-la com argumentos dignos dos mais raivosos falcões norte-americanos.
Para Boff, as opiniões da imprensa brasileira e da maioria de seus colunistas revelam que essas pessoas “têm saudades deste senhor imperial internalizado” e “não admitem que o Brasil ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante”. “Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata.”
Afinal, onde já se viu um presidente brasileiro não se levantar para o presidente norte-americano, como fez Lula em 2003, durante a reunião do G8, em Evian, na França. Questionado sobre a atitude, já que os demais presentes se levantaram, Lula respondeu singelamente: “Ninguém se levantou quando eu entrei.”
Os nossos colunistas não dispensaram tantas linhas de condenação quanto escrevem agora quando o chanceler brasileiro no governo de Fernando Henrique Cardoso tirou os sapatos para entrar nos Estados Unidos. A atitude de total subserviência já está assimilada no complexo de vira-latas, que perdemos no futebol ao vencermos a Copa de 1958, mas que se mantém na imprensa brasileira em termos de política externa.
O assunto parece não ter fim e foi retomado pelo jornalista Elio Gaspari na coluna que escreve para os jornais O Globo e Folha de S.Paulo. O jornalista classifica a diplomacia de Lula de “amoral”, pelo “beneplácito” que tem com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, e justifica a atitude semelhante do governo turco com o argumento pequeno de ser um país vizinho ao Irã, enquanto Brasília está a 11 mil quilômetros de distância.
Mais uma vez a síndrome de vira-latas se revela. Ao Brasil, cabe cuidar do seu mundinho, quiçá dos seus vizinhos sul-americanos. Por que se meter em questões tão distantes, já que somos um país de terceira? É a lógica do senhor totalmente arraigada e se manifestando sempre que se tenta sair dela.
A cura de síndromes exige tratamentos psicológicos e grandes vitórias. Para superar o medo de passar em túneis é preciso cruzá-los em algum momento para ver que não oferecem perigo. A imprensa brasileira ainda não se livrou do complexo subalterno que o país teve na arena internacional durante grande parte de sua história. Se comporta como alguém psicologicamente abalado que se recusa a enxergar o que está a sua frente.
Do site Direto da Redação/ Mair Pena Netto.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
POLÍTICA EXTERNA - Serra é contra a integração do continente.
|
segunda-feira, 31 de maio de 2010
POLÍTICA EXTERNA - A saudade do servo na velha diplomacia brasileira.
| ||||
Leonardo Boff *
Adital -
As opiniões revelam pessoas que têm saudades deste senhor imperial internalizado, de quem se comportam como súcubos. Não admitem que o Brasil de Lula ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante como o repetiu, há pouco, no Brasil, o Secretário Geral da ONU, Ban-Ki-moon. Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata. Posso imaginar o quanto os donos desses jornais sofrem ao ter que aceitar que o Brasil nunca poderá ser o que gostariam que fosse: um Estado-agregado como é Hawai e Porto-Rico. Como não há jeito, a maneira então de atender à voz do senhor internalizado, é difamar, ridicularizar e desqualificar, de forma até antipatriótica, a iniciativa e a pessoa do Presidente. Este notoriamente é reconhecido, mundo afora, como excepcional interlocutor, com grande habilidade nas negociações e dotado de singular força de convencimento.
O povo brasileiro abomina a subserviência aos poderosos e aprecia, às vezes ingenuamente, os estrangeiros e os outros povos. Sente-se orgulhoso de seu Presidente. Ele é um deles, um sobrevivente da grande tribulação, que as elites, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca o aceitaram porque pensam que seu lugar não é na Presidência mas na fábrica produzindo para elas. Mas a história quis que fosse Presidente e que comparecesse como um personagem de grande carisma, unindo em sua pessoa ternura para com os humildes e vigor com o qual sustenta suas posições.
O que estamos assistindo é a contraposição de dois paradigmas de fazer diplomacia: uma velha, imperial, intimidatória, do uso da truculência ideológica, econômica e eventualmente militar, diplomacia inimiga da paz e da vida, que nunca trouxe resultados duradouros. E outra, do século XXI, que se dá conta de que vivemos numa fase nova da história, a história coletiva dos povos que se obrigam a conviver harmoniosamente num pequeno planeta, escasso de recursos e semi-devastado. Para esta nova situação impõe-se a diplomacia do diálogo incansável, da negociação do ganha-ganha, dos acertos para além das diferenças. Lula entendeu esta fase planetária. Fez-se protagonista do novo, daquela estratégia que pode efetivamente evitar a maior praga que jamais existiu: a guerra que só destrói e mata. Agora, ou seguiremos esta nova diplomacia, ou nos entredevoraremos. Ou Hillary ou Lula.
A nossa imprensa comercial é obtusa face a essa nova emergência da história. Por isso abomina a diplomacia de Lula.
[Leonardo Boff, junto com Mark Hathaway, escreveu o livro The Tao of Liberation. Exploring the Ecology of Transformation, N.Y. 2009].
sábado, 29 de maio de 2010
POLÍTICA EXTERNA - BRASIL/ARGENTINA.
"Não há clima para represálias entre Brasil e Argentina"
O governo brasileiro buscou baixar definitivamente o tom de confronto comercial com a Argentina, gerado a partir de supostas restrições ao ingresso de alimentos importados do Brasil. “Não há clima para represálias. A disputa entre Brasil e Argentina só tem consistência no futebol”, brincou Marco Aurelio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República do Brasil. A matéria é do Página 12.
Página 12
Marco Aurélio Garcia procurou deixar de lado as especulações em torno da possibilidade de o Brasil responder com medidas protecionistas contra as exportações argentinas. A presidenta Cristina Fernández participa do III Foro da Aliança das Civilizações, que acontece no Rio de Janeiro. A respeito de alguma reunião particular com Lula, Marco Aurélio assinalou que “caso se encontrem, abordarão o assunto, mas não há nenhum ânimo de represália”.
Nos últimos dias, altos funcionários do governo Lula da Silva aludiram a possibilidade de “adotar represálias”, mas só em caso de que se efetivasse ou confirmasse a existência de restrições por parte das autoridades argentinas a produtos brasileiros. Inclusive, os dois funcionários que se referiram ao tema na quarta-feira útlima se referiram ao tema – Miguel Jorge, ministro de Desenvolvimento e Welber Barral, secretário de Comércio Exterior – observaram que essa informação só havia chegado dos “meios de imprensa argentinos”, mas eles não tinham denúncias a respeito.
Contudo, a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo foi informada de que numerosas operações de venda de alimentos a Argentina tinham sido canceladas nos últimos dias por seus importadores, dado o temor de que não pudessem passar pela fronteira. Ricardo Martins, diretor executivo da Fiesp, assegurou que “70% dos embarques previstos” não tinham conseguido se concretizar.
A suposta medida em defesa da produção nacional despertou reclamações dos importadores argentinos e pedidos de cautela aos empresários. Héctor Méndez, presidente da Unión Industrial Argentina, assinalou que “há que se ser criterioso, buscar caminhos de equilíbrio, sem ter que se mover de modo exacerbado; tem de resolver os problemas”. Sustentou que “eles se protegem – o Brasil -, e nós nos protegemos, mas isso não tem de ter um perfil de confronto, mas de negócios”.
A aparente restrição às importações de alimentos se atribuiu a uma ordem não escrita do secretário de Comércio, Guillermo Moreno, que tinha manifestado verbalmente a intenção de aplicar a medida a partir de 1º junho próximo. Esta comunicação teria provocado a anulação de operações de importação por parte de grandes cadeias de supermercados, o que motivou a queixa dos empresários de São Paulo. Nas primeiras semanas de maio houve, além disso, certas dificuldades para o ingresso de alimentos no país vizinho (Brasil), por conta de barreiras aparentemente sanitárias, mas esses trâmites foram se flexibilizando nos dias seguintes até alcançarem um nível de aparente normalidade, segundo admitem os mesmos setores importadores do lado argentino.
No dia 26 de maio, Marco Aurélio Garcia enfatizou o aspecto da boa sintonia política entre ambos os governos sobre a disputa comercial. Depois dos festejos do Bicentenário, com Lula da Silva como convidado, e logo em seguida a visita ao Rio de Janeiro da presidenta Cristina Fernández, para o III Foro da Aliança das Civilizações, os brasileiros preferiram baixar o tom do conflito. “Não há clima para represálias. A peleia entre Brasil e Argentina só tem consistência no futebol”, brincou Marco Aurélio. Ele indicou que a reunião em Buenos Aires entre os dois mandatários foi “calorosa” e assegurou que “se amanhã tiverem um novo encontro, abordarão o assunto – o conflito comercial -, mas sem nenhum ânimo de represália”.
“O problema foi uma medida de um funcionário de segundo escalão, que podemos resolver tranquilamente pela via da negociação”, agregou o assessor de Lula, fazendo referência à suposta comunicação verbal de Moreno. “Países que têm uma relação como a Argentina e o Brasil dificilmente vão entrar em crise por conta dessa situação. Não há preocupação alguma, isso não vai afetar as relações”, concluiu.
Até agora, a aplicação da medida não é algo que esteja constatado e houve poucas queixas concretas dos vizinhos. O governo brasileiro teve reuniões em embaixadas, mas admite que por ora se trata majoritariamente de “rumores e malentendidos”. Além disso, negam que as dificuldades de alguns caminhões na fronteira signifiquem que a barreira está em vigor. Por outro lado, importadores locais indicam que pelos rumores algumas compras ao Brasil foram canceladas. Jorge Rodríguez Aparicio, titular da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira, disse que “não temos nenhuma norma, mas os comentários já tiveram repercussão porque ninguém vai comprar produtos se depois, na aduana, sua entrada for restringida”.
A ministra da Indústria, Débora Giorgi, também procurou minimizar o conflito. “Não há nenhuma representação formal realizada pelo Brasil sobre restrições à entrada de alimentos e tampouco temos evidência da existência de caminhões brasileiros impedidos de cruzar a fronteira”, indicou. Por sua vez, o chefe de Gabinete, Aníbal Fernández, assegurou que o conflito “não é um tema grave”. Com mais precisão, a ministra do Interior, Florência Randazzo, disse que “de maneira alguma vamos nos distanciar do Brasil. Há sim uma disputa de interesses, porque nosso governo defende a indústria nacional”.
O governo brasileiro se debate enter o lobby dos poderosos empresários de São Paulo e a preservação de sua aliança regional e da relação comercial com seus sócios do Mercosul. Num momento de campanha política, em que o principal candidato da oposição, José Serra, focou seu ataque no questionamento ao bloco regional, o governo do Brasil parece ter resolvido sair rapidamente da linha cruzada da pressão midiática.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
POLÍTICA EXTERNA - Serra, o exterminador.
Serra é o 'exterminador' da política externa, diz Garcia
O assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, chamou hoje o pré-candidato à Presidência pelo PSDB, José Serra, de "exterminador do futuro" da política externa por sua declaração dada ontem sobre a Bolívia. Serra afirmou que o governo boliviano é cúmplice do tráfico de cocaína para o Brasil. Para Garcia, um aspirante a "primeiro funcionário de governo" deveria ter mais serenidade ao analisar uma situação internacional que envolva o relacionamento entre países vizinhos. Num ato falho, Garcia chegou a chamar Serra de "presidente".
"O presidente Serra está tentando ser o exterminador do futuro da política externa. Já destruiu o Mercosul, quer destruir nosso relacionamento com a Bolívia e (já falou que) o Mahmoud Ahmadinejad é um Hitler", disse Garcia. E completou, em tom irônico: "Acho que talvez ele esteja pensando em uma política de corte de despesas e venha a fechar de 20 a 30 embaixadas nos países que ele está insultando nesse momento."
O assessor especial da Presidência afirmou que Serra deveria ser mais prudente ao tratar temas relacionados à política externa. "Ele está brigando com tanta gente que não há outro caminho a não ser fechar embaixadas." Garcia participou hoje do 3º Foro Brasil - União Europeia, no Rio de Janeiro.
terça-feira, 16 de março de 2010
POLÍTICA EXTERNA - Oposição quer "romper com a política externa brasileira".
Oposição desesperada quer boicotar política externa brasileira
Sem discurso, sem bandeiras e vendo suas chances de voltar ao poder cada vez mais distantes, a oposição de direita no Brasil apela para atos de evidente desespero. É assim que se pode qualificar a decisão do PSDB de "romper com a política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva".
O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgilio (AM), declarou nesta terça-feira (16) em Plenário, durante a votação da indicação de Oto Agripino Maia para o cargo de embaixador do Brasil na Grécia, que o partido toma esta atitude como uma reação aos "equívocos da diplomacia brasileira", que, no seu entender, estariam a ridicularizar o país.Entre as críticas, o senador se referiu ao diálogo do presidente Lula com os governos de Cuba e do Irã. "Me parece que há uma tendência a privilegiarmos regimes de exceção. E isso não é bom para o país", tentou argumentar.
Antes do rompimento, os senadores aprovaram a indicação de Oto Agripino Maia para exercer o cargo de embaixador em Atenas, na Grécia. Ele recebeu 47 votos favoráveis à sua indicação e um contrário, com uma abstenção.
Ao apartear Virgilio, o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), presidente da Comissão de Relações Exteriores (CRE), se declarou solidário à posição da liderança de seu partido e informou a suspensão das sabatinas com autoridades indicadas para representar o Brasil no exterior, até que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, compareça ao colegiado. Na prática, Azeredo instituiu uma espécie de "greve" nos trabalhos da Comissão, partidarizando e prejudicando atividades que são de grande importância para o Estado brasileiro.
Mídia faz coro
A decisão inédita e quase folclórica do PSDB ocorre no mesmo dia em que a mídia escolheu a política externa do governo Lula como alvo preferencial de seus ataques.
Em editorial, o conservador jornal O Estado de S. Paulo diz que "a diplomacia lulista, partidária e eleitoreira, só visa a promover a imagem de seu guia perante o público interno" e que "Lula exibe o grau de exacerbação da sua megalomania".
Já a Folha de S.Paulo, outro front midiático da elite paulista anti-Lula, apela para um artigo igualmente agressivo assinado pelo próprio "dono" do jornal, Otavio Frias Filho, no qual ele qualifica a política externa brasileira de "errática, cheia de distorções seletivas" e acusa o "simplório presidente (Lula) e seu trêfego chanceler (Celso Amorim)" de cometerem, na seara da política externa, "equívocos em cascata e enveredar por um caminho temerário" ao confrontar os interesses de Washigton.
Plano de ataque
O editorial do Estadão, o texto de Otavinho e a decisão do PSDB são todos instrumentos de uma mesma tentativa desesperada de atacar o governo Lula justamente no momento em que os acertos de sua política externa levam o presidente a receber admiração mundial, traduzida em prêmios internacionais, citações honrosas em publicações de vários países e um crescente respeito pelo protagonismo do Brasil nos fóruns internacionais.
A artificialidade destes ataques da oposição podem acabar se transformando num tiro no pé, pois tornam ainda mais evidente a posição submissa destes setores da direita e da mídia em relação aos interesses que emanam da Casa Branca, o que revela um servilismo colonizado a toda prova.
Da redação,
Cáudio Gonzalez