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terça-feira, 15 de novembro de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - Cinismo genocida.

NENHUMA pessoa sã, especialmente aquelas que tiveram acesso aos conhecimentos elementares que se adquirem em uma escola primária, estaria de acordo com que nossa espécie, de modo particular as crianças, os adolescentes ou jovens, sejam privados hoje, amanhã e para sempre do direito de viver. Jamais os seres humanos, ao longo de sua turbulenta história, como pessoas dotadas de inteligência, conheceram experiência semelhante.

Sinto-me no dever de transmitir àqueles que se ocupam em ler estas reflexões, o critério de que todos, sem exceção, estamos na obrigação de criar consciência acerca dos riscos que a humanidade está correndo de forma inexorável, rumo a uma catástrofe definitiva e total, em consequência das decisões irresponsáveis de políticos a quem o acaso, mais que o talento ou o mérito, pôs em suas mãos o destino da humanidade.

Sejam ou não os cidadãos de seu país portadores de uma crença religiosa ou céticos com relação ao tema, nenhum ser humano, em seu juízo são, estaria de acordo com que seus filhos, ou familiares mais próximos, pereçam de forma abrupta ou vítimas de atrozes e torturantes sofrimentos.

Depois dos crimes repugnantes que, com frequência crescente, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, sob a égide dos Estados Unidos e dos países mais ricos de Europa, vem cometendo, a atenção mundial se concentrou na reunião do G20, onde se devia analisar a profunda crise econômica que hoje afeta todas as nações. A opinião internacional, e particularmente a europeia, esperava respostas à profunda crise econômica que, com suas profundas implicações sociais, e inclusive climáticas, ameaça todos os habitantes do planeta. Nessa reunião se decidia se o euro podia manter-se como a moeda comum da maior parte da Europa e, inclusive, se alguns países poderiam permanecer dentro da comunidade.

Não houve resposta nem solução alguma para os problemas mais sérios da economia mundial, apesar dos esforços da China, Rússia, Indonésia, África do Sul, Brasil, Argentina e outros de economia emergente, desejosos de cooperar com o resto do mundo na busca de soluções aos graves problemas econômicos que o afetam.

O insólito é que logo que a OTAN desse por concluída a operação na Líbia – depois do ataque aéreo que feriu o chefe constitucional desse país, destruiu o veículo que o transportava e o deixou à mercê dos mercenários do império, que o assassinaram e o exibiram como troféu de guerra, ultrajando costumes e tradições muçulmanas – a Agência Internacional da Energia Atômica (AIEA), órgão das Nações Unidas, uma instituição que deveria estar a serviço da paz mundial, lançou um informe político, carimbado e sectário, que põe o mundo à beira da guerra com o emprego de armas nucleares que o império ianque, em aliança com a Grã-Bretanha e Israel, vem preparando minuciosamente contra o Irã.

Depois do "Veni, vidi, vici" do famoso imperador romano há mais de dois mil anos, traduzido para o "vim, vi e morreu" transmitido à opinião pública através de uma importante rede de televisão logo que se tomou conhecimento da morte de Gadafi, as palavras são desnecessárias para qualificar a política dos Estados Unidos.

O que importa agora é a necessidade de criar nos povos uma consciência clara do abismo para onde a humanidade está sendo conduzida. Duas vezes nossa Revolução conheceu riscos dramáticos: em outubro de 1962, o mais crítico de todos, em que a humanidade esteve à beira do holocausto nuclear; e em meados de 1987, quando nossas forças enfrentavam as tropas racistas sul-africanas, dotadas com as armas nucleares que os israelenses as ajudaram a criar.

O xá do Irã também colaborou junto a Israel com o regime racista e fascista sul-africano.

O que é a ONU? – uma organização impulsionada pelos Estados Unidos antes do final da Segunda Guerra Mundial. Essa nação, cujo território estava consideravelmente distante dos cenários de guerra, tinha-se enriquecido enormemente; acumulou 80% do ouro do mundo e, sob a direção de Roosevelt, sincero antifascista, impulsionou o desenvolvimento da arma nuclear que Truman, seu sucessor, oligarca e medíocre, não vacilou em usar contra as cidades indefesas de Hiroshima e Nagasaki, no ano de 1945.

O monopólio do ouro mundial na posse dos Estados Unidos e o prestígio de Roosevelt permitiram o acordo de Bretton Woods, que atribuiu aos Estados Unidos o papel de emitir o dólar como única divisa que se utilizou durante anos no comércio mundial, sem outra limitação que seu respaldo em ouro metálico.

Os Estados Unidos, ao finalizar aquela guerra, eram também o único país que possuía a arma nuclear, privilégio que não vacilou em transmitir a seus aliados e membros do Conselho de Segurança: Grã-Bretanha e França, as duas mais importantes potências coloniais do mundo naquela época.

À URSS, Truman nem sequer informou uma palavra sobre a arma atômica antes de usá-la. A China, então governada pelo general nacionalista, oligárquico e pró-ianque Chiang Kai-shek, não podia ser excluída daquele Conselho de Segurança.

A URSS, golpeada duramente pela guerra, a destruição e a perda de mais de 20 milhões de seus filhos pela invasão nazista, consagrou ingentes recursos econômicos, científicos e humanos para equiparar sua capacidade nuclear com a dos Estados Unidos. Quatro anos depois, em 1949, testou sua primeira arma nuclear; a de hidrogênio, em 1953; e em 1955 seu primeiro megaton. A França dispôs de sua primeira arma nuclear em 1960.

Eram apenas três os países que possuíam a arma nuclear em 1957, quando a ONU, sob a égide ianque, criou a Agência Internacional da Energia Atômica. Alguém imagina que esse instrumento dos Estados Unidos fez algo para advertir o mundo sobre os terríveis riscos a que se exporia a sociedade humana quando Israel, aliado incondicional dos Estados Unidos e da OTAN, situado em pleno coração das mais importantes reservas do mundo em petróleo e gás, se constituía em perigosa e agressiva potência nuclear?

Suas forças, em cooperação com as tropas coloniais inglesas e francesas, atacaram Port Said quando Abdel Nasser nacionalizou o canal de Suez, propriedade da França, o que obrigou o primeiro-ministro soviético a transmitir um ultimato, exigindo o cessar daquela agressão, que os aliados europeus dos Estados Unidos não tiveram outra alternativa senão acatar.

Para termos uma ideia do potencial da URSS em seus esforços para manter a paridade com os Estados Unidos nesta esfera, basta assinalar que quando se produziu sua desintegração, em 1991, na Bielorrúsia havia 81 ogivas nucleares, no Cazaquistão 1.400 e na Ucrânia aproximadamente 5 mil, as quais passaram à Federação Russa, único Estado capaz de sustentar seu imenso custo, para manter a independência.

Em virtude dos tratados START e SORT sobre a redução de armas ofensivas, assinados entre as duas grandes potências nucleares, o número destas se reduziu para vários milhares.

Em 2010, foi assinado um novo Tratado deste tipo entre ambas as potências.

Desde então, os maiores esforços foram consagrados ao aperfeiçoamento dos meios de direção, alcance, precisão e engano da defesa adversária. Imensas quantias são investidas na esfera militar.

Muito poucos no mundo, salvo raros pensadores e cientistas, se dão conta e advertem de que bastaria a explosão de 100 armas nucleares estratégicas para pôr fim à existência humana no planeta. A imensa maioria teria um fim tão inexorável como horrível, em consequência do inverno nuclear que seria gerado.

O número de países que possuem armas nucleares, neste momento se eleva a oito, cinco deles são membros do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, e China. Índia e Paquistão adquiriram o caráter de países possuidores de armas nucleares, em 1974 e 1998, respectivamente. Os sete mencionados reconhecem esse caráter.

Israel, ao avesso, nunca reconheceu seu caráter de país nuclear. Contudo, calcula-se que possui entre 200 e 500 armas desse tipo, ficando indiferente quando o mundo se inquieta pelos gravíssimos problemas que ocorreriam, em decorrência da eclosão de uma guerra, na região onde se produz grande parte da energia que move a indústria e a agricultura do planeta.

Graças à posse das armas de destruição em massa é que Israel pôde desempenhar seu papel como instrumento do imperialismo e do colonialismo, nessa região do Oriente Médio.

Não se trata do direito legítimo do povo israelense a viver e trabalhar em paz e liberdade, se trata precisamente do direito dos demais povos da região à liberdade e à paz.

Enquanto Israel criava aceleradamente um arsenal nuclear, atacou e destruiu, em 1981, o reator nuclear iraquiano de Osirak. Fez exatamente o mesmo com o reator sírio, em Dayr az-Zawr, no ano de 2007, um fato sobre o qual estranhamente a opinião pública mundial não foi informada. As Nações Unidas e a AIEA conheciam perfeitamente o ocorrido. Tais ações contavam com o apoio dos Estados Unidos e da Aliança Atlântica.

Nada tem de estranho que as mais altas autoridades de Israel proclamem agora sua intenção de fazer o mesmo com o Irã. Esse país, imensamente rico em petróleo e gás, tinha sido vítima das conspirações da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, cujas empresas petrolíferas saqueavam seus recursos. Suas forças armadas foram equipadas com o armamento mais moderno da indústria bélica dos Estados Unidos.

O xá Reza Pahlevi também aspirava a dotar-se de armas nucleares. Ninguém atacava seus centros de pesquisas. A guerra de Israel era contra os muçulmanos árabes. Os do Irã não, porque tinham se transformado em um baluarte da OTAN, que apontava suas armas para o coração da URSS.

As massas dessa nação, profundamente religiosas, sob a direção do aiatolá Khomeini, desafiando o poder daquelas armas, desalojaram o xá do trono e desarmaram um dos exércitos melhor equipados do mundo sem disparar um tiro.

Por sua capacidade de luta, o número de habitantes e a extensão do país, uma agressão ao Irã não guarda semelhança com as aventuras bélicas de Israel no Iraque e na Síria. Uma sangrenta guerra se desencadearia inevitavelmente. Sobre isso não deve haver nenhuma dúvida.

Israel dispõe de um elevado número de armas nucleares e da capacidade de fazê-las chegar a qualquer ponto da Europa, Ásia, África e Oceania. Eu me pergunto: A AIEA tem o direito moral de sancionar e asfixiar um país, se tenta fazer em sua própria defesa o que Israel fez no coração do Oriente Médio?

Penso realmente que nenhum país do mundo deve possuir armas nucleares e que essa energia deve ser posta a serviço da espécie humana. Sem esse espírito de cooperação a humanidade marcha inexoravelmente rumo a sua própria destruição. Entre os próprios cidadãos de Israel, um povo sem dúvida laborioso e inteligente, muitos não estarão de acordo com essa disparatada e absurda política que também os leva ao desastre total.

De que se fala hoje no mundo acerca da situação econômica?

As agências internacionais de noticias informam que "O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e seu par chinês, Hu Jintao, apresentaram agendas comerciais divergentes […] ressaltando as crescentes tensões entre as duas maiores economias do mundo."

"Obama usou seu discurso ― afirma a agência Reuters ― para ameaçar a China com sanções econômicas, a menos que comece a ‘jogar segundo as regras do jogo’…". Tais regras são, sem dúvida, os interesses dos Estados Unidos.

"Obama ― afirma a agência ― está envolvido na batalha pela reeleição, no próximo ano, e seus opositores republicanos o acusam de não ser suficientemente severo com a China."

As notícias publicadas na quinta-feira e sexta-feira últimas, refletiam muito melhor as realidades que estamos vivendo.

A agência estadunidense AP, a melhor informada desse país, comunicou: "O líder supremo iraniano advertiu os Estados Unidos e Israel de que a resposta do Irã será enérgica se seus arqui-inimigos lançarem um ataque militar ao Irã…"

A agência noticiosa alemã informou que a China tinha declarado que, como sempre, acreditava que o diálogo e a cooperação eram a única forma de aproximação ativa para resolver o problema.

A Rússia se opôs igualmente às medidas punitivas contra o Irã.

A Alemanha rechaçou a opção militar, mas se mostrou partidária de fortes sanções contra o Irã.

O Reino Unido e a França defendem fortes e enérgicas sanções.

A Federação Russa assegurou que fará todo o possível para evitar uma operação militar contra o Irã e criticou o informe da AIEA.

"‘Uma operação militar contra o Irã pode acarretar graves consequências e a Rússia terá que fazer tudo de sua parte para aplacar os ânimos’, afirmou Contantín Cosakov, chefe da comissão das Relações Exteriores da Duma" (Parlamento) e criticou, segundo a agência Efe, "as afirmações por parte dos Estados Unidos, França e Israel sobre o possível uso da força e de que o lançamento de uma operação militar contra o Irã está cada vez mais próxima".

O editor da revista estadunidense Executive Intelligence Review, Edward Spannaus, declarou que o ataque contra o Irã desencadeará a Terceira Guerra Mundial.

O próprio secretário da Defesa dos Estados Unidos, depois de viajar a Israel, há alguns dias, reconheceu que não pôde obter do governo israelense um compromisso de se consultar previamente com os Estados Unidos sobre um ataque contra o Irã. Chegou-se a esses extremos.

O subsecretário de Assuntos Políticos e Militares dos Estados Unidos desvelou cruamente os obscuros propósitos do império:

"Israel e Estados Unidos se envolverão nas manobras conjuntas ‘mais importantes’ e ‘de maior transcendência’ da história dos aliados, declarou no sábado (12) Andrew Shapiro, subsecretário dos Assuntos Políticos e Militares dos Estados Unidos".

"…no […] Instituto Washington para a Política do Oriente Médio, Shapiro anunciou que participarão nas manobras mais de 5 mil efetivos das forças armadas estadunidenses e israelenses e simularão a defesa de mísseis balísticos de Israel".

"‘A tecnologia israelense é essencial para melhorar nossa segurança nacional e proteger nossas tropas’, acrescentou…"

"Shapiro destacou o apoio do governo de Obama a Israel, apesar dos comentários da sexta-feira por parte de um alto funcionário estadunidense que expressou sua preocupação de que Israel não avisasse os Estados Unidos, antes de levar a cabo uma ação militar contra as instalações nucleares do Irã."

"Nossa relação com a segurança de Israel é mais ampla, mais profunda e mais intensa do que nunca antes."

"‘Apoiamos Israel porque é de nosso interesse nacional fazê-lo’ […] É a pura força militar de Israel o que dissuade os possíveis agressores e ajuda a fomentar a paz e a estabilidade."

Hoje, 13 de novembro, a embaixadora norte-americana na ONU, Susan Rice, disse à rede BBC que a possibilidade de uma intervenção militar no Irã não só não está fora da mesa, mas é uma opção real que está crescendo, por culpa do comportamento iraniano.

Ele insistiu em que a administração norte-americana está chegando à conclusão de que será necessário acabar com o atual regime do Irã para evitar que este crie um arsenal nuclear. "Estou convencida de que a mudança de regime vai ser a nossa única opção aqui", reconheceu Rice.

Não é necessário nem uma palavra mais.



Fidel Castro Ruz
13 de novembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - A reunião do G - 20

AMANHÃ, começa a reunião do G-20, isto é, a dos países mais desenvolvidos e ricos do planeta: de um lado da mesa os Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália e a União Européia, como entidade à parte, com direito de participar; são os baluartes fundamentais da OTAN mais seus aliados do Japão, a Coréia do Sul, Austrália e a Turquia, em seu duplo aspecto de país em desenvolvimento e membro da OTAN, bem como Arábia Saudita ― um gigantesco depósito de petróleo leve, nas mãos das multinacionais do Ocidente, que tiram dali 9,4 milhões de barris diários, cujo valor ao preço atual ascende a um bilhão de dólares cada dia. E no outro lado da mesa, um grupo de países com crescente peso econômico e político que, de fato, se convertem, pelo número de seus habitantes e seus recursos naturais, em expressão dos interesses da maioria de nosso sofrido e pilhado mundo: a República Popular da China, a Federação Russa, Índia, Indonésia, África do Sul, o Brasil, Argentina e o México.

A Espanha, também aliada da OTAN, apenas é um "país convidado".

Trata-se duma reunião entre os grandes produtores de maquinarias e artigos industriais e os grandes fornecedores de matérias-primas que, ao longo de meio milênio, depois da conquista, foram colônias europeias e no último século forneciam produtos agrícolas, minérios e recursos energéticos, vítimas de uma desapiedada troca desigual.

Este escuro período da história vem se produzindo desde que os descendentes das tribos bárbaras que povoaram a Europa, "descobriram" e conquistaram este hemisfério, armados de espadas, balestras e arcabuzes.

"Os descobridores", tão apologizados pelo chamado mundo ocidental, como se no continente não estivesse vivendo uma parte da humanidade 40 mil anos antes, albergavam o propósito de procurar uma rota mais curta para o comércio com a China.

Naquele país, do qual possuíam antecedentes através dos comerciantes da seda e de outros valiosos produtos cobiçados pela aristocracia e pela nascente burguesia européia, teriam achado uma fabulosa civilização, possuidora da linguagem escrita, arte requintada, agricultura, metais, pólvora e avançados princípios de organização política e militar, incluídos exércitos com dezenas ou talvez centenas de milhares de soldados de cavalaria.

Estavam a ponto de soçobrar quando, nas proximidades de Cuba, acharam terra. Pouco depois, Colombo tomou posse de nossa Ilha, em nome do rei da Espanha. Teria podido fazer isso se realmente tivesse chegado à China, como era seu propósito? Seu erro custou a este hemisfério milhões de vidas, que se perderam em conseqüência da partilha da América entre dois reinos da península Ibérica, em virtude de uma bula papal, sinal dos constantes conflitos da nobreza medieval.

A conquista e a procura de ouro e prata custou, como apontava o genial pintor indígena Oswaldo Guayasamín, 70 milhões de vidas aos que habitavam o hemisfério, berço de importantes civilizações.

África negra também pode falar do que significou aquela conquista para milhões de seus filhos, arrancados e vendidos como escravos neste hemisfério.

A oligarquia multimilionária, cujos chefes de Estados ou de governo se reunirão em Cannes com os representantes de quase seis bilhões de habitantes, que aspiram a uma existência digna para seus povos, deveria meditar sobre estas realidades.

Aqueles países pretendem monopolizar as tecnologias e os mercados, através das patentes, dos bancos, dos meios mais modernos e custosos de transporte, da dominação cibernética dos processos produtivos complexos, do controle das telecomunicações e da mídia, com o objetivo de enganar o mundo.

Agora que os habitantes do planeta somam sete bilhões, os Estados que representam só uma em cada sete pessoas, as quais, julgando pelos protestos em massa na Europa e nos Estados Unidos, não estão muito felizes, colocam em risco a sobrevivência da nossa espécie.

Será que alguém pode esquecer que os Estados Unidos foram o país que impediu o Acordo de Kyoto, quando dispúnhamos de um pouco mais de tempo para impedir uma catástrofe, com a mudança climática que se está produzindo a olhos vistos?

Nos dias 28 e 29 do mês de outubro que acaba de transcorrer, houve outra reunião de chefes de Estado e de governo, que integram a Comunidade dos Países Ibero-americanos. Entre as calamidades que tiveram que suportar os povos de fala espanhola e portuguesa, está o fato de ser a região do mundo com mais desigualdade na distribuição das riquezas.

O chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla viajou da reunião da ONU, em Nova York sobre o bloqueio a Cuba, para a capital do Paraguai, onde essa outra reunião foi realizada. Ali foram ditas coisas de muita importância, acerca da crise que abala a Comunidade Europeia.

O novo primeiro-ministro de Portugal verteu sua amargura para com a União Europeia, quando afirmou que ela ficou exausta e sem fundos, logo após o resgate de magnitude recorde destinado à Grécia. Ela poderia encarar uma crise em Portugal, mas cairia na falência, impossibilitada de socorrer a Itália, a sétima economia mundial, o que arrastaria a França, em cujos bancos se acumula a maior parte da dívida italiana.

Os líderes ibéricos duvidam que o compromisso assumido com a Grécia seja cumprido, e caso não ser cumprido, auguram uma crise mais prolongada que a de 1929.

Hoje de manhã, as notícias informavam das duras conseqüências das chuvas, nunca vistas na Tailândia, o maior exportador de arroz, cujas vendas se reduzirão de 25 milhões de toneladas para 19.

Em troca, notícias de que a China incrementava para quase cinco milhões de toneladas a produção de cobre metálico, teve efeitos consideráveis.

Contudo, enquanto os Estados Unidos conservam intato o poder de veto no Fundo Monetário Internacional, à China lhe é negado, nesse organismo, o simples direito de aprovar o yuan como moeda conversível. Quanto tempo durará essa tirania?

É através desse prisma que devemos examinar cada palavra que seja proferida na Cúpula do G-20.



Fidel Castro Ruz
2 de novembro de 2011
20h54.

- REFLEXÕES DO FIDEL

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O PAPEL GENOCIDA DA OTAN.

ESSA brutal aliança militar se converteu no mais pérfido instrumento de repressão conhecido pela história da humanidade.

A OTAN assumiu o papel repressivo global, depois que a URSS, que tinha servido aos Estados Unidos de pretexto para criá-la, deixasse de existir. Seu propósito criminal se tornou patente na Sérvia, um país de origem eslava, cujo povo lutou heroicamente contra as tropas nazistas, na Segunda Guerra Mundial.

Quando, em março de 1999, os países dessa nefasta organização, em seus esforços por desintegrarem a Iugoslávia, depois da morte de Josip Broz Tito, enviaram suas tropas em apoio dos secessionistas kosovares, depararam-se com uma forte resistência daquela nação, cujas experientes forças estavam intatas.

A administração ianque, aconselhada pelo governo da direita espanhola de José María Aznar, atacou as emissoras de televisão da Sérvia, as pontes acima do rio Danúbio e Belgrado, a capital desse país. A embaixada da República Popular da China foi destruída pelas bombas ianques, vários dos funcionários morreram, e não podia haver erro possível, como alegaram os autores. Inúmeros patriotas sérvios perderam a vida. O presidente Slobodan Milosevik, abrumado pelo poder dos agressores e pelo desaparecimento da URSS, cedeu às exigências da OTAN e admitiu a presença das tropas dessa aliança em Kosovo, sob mandato da ONU, o que finalmente conduziu a sua derrota política e seu julgamento posterior pelos tribunais nada imparciais de Haia. Morreu raramente na prisão. Caso o líder sérvio tivesse resistido uns dias mais, a OTAN teria entrado numa grave crise, que esteve a ponto de estourar. O império dispôs, assim, de muito mais tempo para impor sua hegemonia entre os cada vez mais subordinados membros dessa organização.

Entre 21 de fevereiro e 27 de abril do presente ano, publiquei no site Cubadebate nove Reflexões sobre o tema, nas quais abordei amplamente o papel da OTAN na Líbia e o que em minha opinião ia acontecer.

Vejo-me na obrigação de fazer uma síntese das ideias que expus, e dos fatos que foram acontecendo, tal qual foram previstos, agora que um personagem central de tal história, Muamar Kadafi foi ferido de gravidade pelos mais modernos caças-bombardeiros da OTAN, os que interceptaram e inutilizaram seu veículo, capturado ainda vivo e assassinado pelos homens armados por essa organização militar.

Seu cadáver foi sequestrado e exibido como trofeu de guerra, uma conduta que viola os princípios mais elementares das normas muçulmanas e de outras crenças religiosas prevalecentes no mundo. Anunciou-se logo que a Líbia será declarada "Estado democrático e defensor dos direitos humanos".

Vejo-me na obrigação de dedicar várias Reflexões a estes importantes e significativos fatos. Prosseguirá proximamente.



Fidel Castro Ruz
23 de outubro de 2011
18h10

terça-feira, 10 de maio de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - O assassinato de Bin Laden.

• AQUELES que se ocupam desses temas sabem que, em 11 de setembro de 2001, nosso povo se solidarizou com o dos Estados Unidos e deu a modesta cooperação que podíamos oferecer no campo da saúde às vítimas do brutal atentado às torres gêmeas do World Trade Center de Nova York.

Oferecemos também, de imediato, as pistas aéreas de nosso país para os aviões norte-americanos que não tivessem onde aterrissar, dado o caos reinante nas primeiras horas depois daquele golpe.

É conhecida a posição histórica da Revolução Cubana, que se opôs sempre às ações que puseram em perigo a vida de civis.

Partidários decididos da luta armada contra a tirania batistiana, éramos, por outro lado, opostos por princípios a todo ato terrorista que conduzisse à morte de pessoas inocentes. Tal conduta, mantida ao longo de mais de meio século, nos dá o direito de expressar um ponto de vista sobre o delicado tema.

No ato público de massas efetuado na Cidade do Esporte expressei, naquele dia, a convicção de que o terrorismo internacional jamais se resolveria mediante a violência e a guerra.

Osama Bin Laden foi, certamente, durante anos, amigo dos Estados Unidos, que o treinou militarmente, e adversário da URSS e do socialismo, mas qualquer que fossem os atos atribuídos a ele, o assassinato de um ser humano desarmado e acompanhado de familiares constitui um fato nojento. Aparentemente, foi isso que fez o governo da nação mais poderosa de todos os tempos.

O discurso elaborado com esmero por Obama para anunciar a morte de Bin Laden afirma: "…sabemos que as piores imagens são aquelas que foram invisíveis para o mundo. O lugar vazio na mesa. As crianças que se viram forçadas a crescer sem sua mãe ou seu pai. Os pais que nunca voltarão a sentir o abraço de um filho. Cerca de 3 mil cidadãos se foram para longe de nós, deixando um enorme buraco em nossos corações".

Esse parágrafo encerra uma dramática verdade, mas não pode impedir que as pessoas honestas recordem as guerras injustas desencadeadas pelos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão, as centenas de milhares de crianças que se viram forçadas a crescer sem sua mãe ou seu pai e os pais que nunca voltariam a sentir o abraço de um filho.

Milhões de cidadãos se foram para longe de seus povos no Iraque, Afeganistão, Vietnã, Laos, Cambodja, Cuba e outros muitos países do mundo.

Da mente de centenas de milhões de pessoas não se apagaram tampouco as horríveis imagens de seres humanos que em Guantánamo, território ocupado de Cuba, desfilam silenciosamente submetidos durante meses e inclusive anos a insuportáveis e enlouquecedoras torturas; são pessoas sequestradas e transportadas a prisões secretas, com a cumplicidade hipócrita de sociedades supostamente civilizadas.

Obama não tem como ocultar que Osama foi executado na presença de seus filhos e esposas, agora em poder das autoridades do Paquistão, um país muçulmano de quase 200 milhões de habitantes, cujas leis foram violadas, sua dignidade nacional ofendida, e suas tradições religiosas ultrajadas.

Como impedirá agora que as mulheres e os filhos da pessoa executada sem lei nem julgamento expliquem o ocorrido, e as imagens sejam transmitidas ao mundo?

Em 28 de janeiro de 2002, o jornalista da CBS Dan Rather, difundiu por meio dessa emissora de televisão que em 10 de setembro de 2001, um dia antes dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, Osama Bin Laden foi submetido a uma hemodiálise do rim em um hospital militar do Paquistão. Não estava em condições de esconder-se nem de proteger-se em cavernas profundas.

Assassiná-lo e enviá-lo às profundezas do mar demonstra medo e insegurança, convertem-no em um personagem muito mais perigoso.

A própria opinião pública dos Estados Unidos, depois da euforia inicial, terminará criticando os métodos que, longe de proteger os cidadãos, terminam multiplicando os sentimentos de ódio e vingança contra eles.



Fidel Castro

REFLEXÕES DE FIDEL - Mentiras e incógnitas sobre a morte de Bin Laden.

OS homens que executaram Bin Laden não agiram por sua conta: cumpriam ordens do governo dos Estados Unidos. Tinham sido rigorosamente selecionados e treinados para missões especiais. Sabe-se que o presidente dos Estados Unidos pode, inclusive, comunicar-se com um soldado em combate.

Horas depois de ter sido realizada a operação na cidade paquistanesa de Abbotabad, sede da mais prestigiosa academia militar desse país e importantes unidades de combate, a Casa Branca ofereceu à opinião mundial uma versão cuidadosamente elaborada sobre a morte do chefe de Al-Qaeda, Osama Bin Laden.

Como é lógico, a atenção do mundo e da imprensa internacional se focaram no tema, deslocando as outras notícias do âmbito público.

As cadeias de televisão norte-americanas divulgaram o discurso esmeradamente elaborado do presidente, e mostraram imagens da reação pública.

Era óbvio que o mundo se apercebia da delicadeza do assunto, visto que o Paquistão é um país de 171,8 milhões de habitantes — onde os Estados Unidos e a OTAN levam a cabo uma devastadora guerra que dura já dez anos— possuidor de armamento nuclear e aliado tradicional dos Estados Unidos.

Sem dúvida, o país muçulmano não pode concordar com a sangrenta guerra que os Estados Unidos e seus aliados vêm travando contra o Afeganistão, outro país muçulmano com o qual partilha a complicada e montanhosa fronteira, traçada pelo império colonial inglês, onde tribos comuns moram a ambos os lados da linha divisória.

A própria imprensa dos Estados Unidos compreendeu que o presidente ocultava quase tudo.

As agências de notícias ocidentais: ANSA, AFP, AP, Reuters e Efe, a imprensa escrita e importantes sites refletem interessantes informações sobre o fato.

O The New York Times assegura "que os fatos diferem significativamente da versão oficial apresentada, na terça-feira, pela Casa Branca e altos funcionários de inteligência, segundo os quais a morte de Bin Laden — que finalmente reconheceram não estava armado embora garantissem que se ‘resistiu’— acontecera no meio de um intenso tiroteio.

"Mas segundo o jornal nova-iorquino, a operação, ‘embora caótica e sangrenta, foi extremamente unilateral com uma força de mais de 20 membros dos Seals, que despachou rapidamente o punhado de homens que protegia Bin Laden’."

"…o ‘Times’ assegura agora que ‘os únicos disparos feitos pelos que se encontravam no complexo residencial aconteceram no início da operação’.

"Exatamente, ocorreram ‘quando o mensageiro de confiança de Bin Laden, Abu Ahmed al Kuwaiti, abriu fogo de atrás da porta da casa de hóspedes adjacente à casa onde Bin Laden se escondia’.

"‘Depois que os Seals mataram Kuwaiti e uma mulher na casa de hóspedes, os estadunidenses não foram atacados com disparos nem uma vez mais’, sustenta o jornal, baseado nas referidas fontes, cuja identidade não revela…"

"Na terça-feira, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, tinha garantido numa ‘narrativa’ dos acontecimentos da madrugada de domingo para segunda-feira, que o comando estadunidense sofreu um tiroteio ‘ao longo da operação’.

"Também o diretor da CIA, Leon Panetta, tinha falado de ‘alguns tiroteios’, enquanto os militares de elite estadunidenses iam despejando os pisos da residência onde se escondia Bin Laden."

"Doutro lado, no entanto, o jornal assegura que embora Bin Laden não tivesse empunhado uma arma quando foi abatido, os comandos que o localizaram em um dos quartos viram que o líder de Al-Qaeda tinha uma ‘AK-47 e uma pistola Makarov ao alcance da mão’."

Hoje, 6 de maio, continuam as notícias.

De Washington uma das agências informa que apenas um homem disparou contra as forças estadunidenses. A seguir narra que "em plena noite de domingo, vários helicópteros com 79 membros de um comando estadunidense a bordo se aproximam da residência de Osama Bin Laden em Abbotabad, ao norte de Islamabad. Tinham partido de um lugar não especificado e voavam baixo para evitar ser detectados por radar, visto que o Paquistão não fora informado da operação.

"- Dois helicópteros descarregam a mais de 20 efetivos Seals da Marinha no recinto da residência, que tem paredes de quatro a seis metros de alto cobertas com arame farpado. Um dos helicópteros, um MH-60 Blackhawk, aparentemente modificado para evitar radares, aterra bruscamente por causa de uma "falha mecânica" e fica fora de uso, conforme um primeiro relatório de funcionários estadunidenses.

"- Um grupo de efetivos se dirige rumo a um prédio anexo à residência principal. O mensageiro de Bin Laden o vê, abre fogo contra os membros do comando e é abatido junto de sua mulher. Este homem é o único ocupante da residência que dispara contra os estadunidenses. Esta afirmação contrasta com um primeiro relatório de Washington em que era descrita uma troca de tiros nos 40 minutos que a operação durou."

"…outra equipe entra à casa principal de três andares."

"…topa-se com o irmão do mensageiro que também resulta abatido, segundo um funcionário estadunidense que não deu mais detalhes. Segundo a cadeia de televisão NBC, o homem tinha uma mão em suas costas quando o comando entrou ao quarto onde ele se achava. Por isso os efetivos acreditaram que tinha uma arma, ainda que não era o caso.

"- As forças estadunidenses sobem as escadas, e num dos quartos encontram um filho adulto de Bin Laden, Khalid, que também é abatido…"

"- No último andar, os efetivos encontram Osama Bin Laden e sua esposa no dormitório. Sua esposa tenta se interpor e é ferida em uma perna. Bin Laden não dá sinais de se render e recebe um disparo na cabeça e, de acordo com alguns meios estadunidenses, também no peito. As primeiras versões da batida indicaram que Bin Laden ‘resistiu’ e que tinha usado sua mulher como escudo humano, mas esta informação foi desmentida mais tarde pela Casa Branca.

"- O presidente Barack Obama, que acompanhou os acontecimentos da Casa Branca, é informado de que o comando identificou Bin Laden. Uma informação da revista Time, baseada em uma entrevista com o diretor da CIA, Leon Panetta, sugere que Bin Laden foi assassinado menos de 25 minutos depois de ter começado a operação.

"- No quarto de Bin Laden, os Navy Seals encontram um fuzil de assalto soviético AK-47 e uma pistola russa de 9 mm. Também encontram outras armas na residência, mas não difundem pormenores.

"- As forças especiais também encontram dinheiro e números de telefones costurados nas roupas do chefe de Al-Qaeda…"

"- O comando apanha tudo que pode servir como fonte de informação: cadernos de notas, cinco computadores, dez discos rígidos e uma centena de dispositivos de armazenamento (CD’s, DVD’s, USB)."

"…trasladam para um lugar seguro umas vinte mulheres e crianças presentes na residência e depois destroem o helicóptero acidentado.

"…38 minutos após o início da operação, os helicópteros partem com o cadáver de Bin Laden.

A AP publica dados de interesse político e também humanos:

"Uma das três esposas que moravam com Osama Bin Laden disse a seus interrogadores paquistaneses que permaneceu durante cinco anos na moradia onde se escondia o foragido e poderia ser uma importante fonte de informação sobre como evitou a captura durante tanto tempo, disse na sexta-feira um funcionário da espionagem paquistanesa."

"A esposa de Bin Laden, Amal Ahmed Abdullfattah, nascida no Iêmen, disse que nunca abandonou os pisos altos da casa, nos cinco anos que residiu nela.

"Ela e as outras duas esposas de Bin Laden estão sendo interrogadas no Paquistão, após terem sido detidas no assalto de segunda-feira, perpetrado por comandos navais estadunidenses, contra a residência de Bin Laden, na aldeia de Abotabad. As autoridades paquistanesas mantêm detidas também oito ou nove crianças encontradas na moradia quando se retiraram os comandos.

"Devido aos relatos cambiantes e incompletos dos funcionários estadunidenses sobre o acontecido no assalto, as declarações das esposas de Bin Laden talvez dêem pormenores da operação.

"Além disso, seus relatos poderiam ajudar a ilustrar como passava o tempo Bin Laden e conseguia permanecer oculto numa moradia grande, próxima de uma academia militar numa cidade aquartelada, a duas horas e meia de carro da capital, Islamabad.

"O funcionário paquistanês disse que agentes da CIA não tiveram acesso às mulheres detidas."

"A proximidade do esconderijo de Bin Laden à guarnição militar e à capital paquistanesa levantou suspeitas em Washington de que o foragido foi protegido talvez pelas forças de segurança do Paquistão."

A agência Efe indaga sobre o que pensam os habitantes do Paquistão:

"Os 66% dos paquistaneses não acreditam que as forças especiais dos EUA matassem o líder de Al-Qaeda, Osama Bin Laden, mas outra pessoa, segundo uma sondagem conjunta do instituto demoscópico britânico YouGov e de Polis, da Universidade de Cambridge.

"A sondagem foi realizada entre usuários de internet, que soem ter maior cultura, de três grandes cidades, Karachi, Islamabad e Lahore, com exclusão de grupos demográficos rurais, o que faz com que os resultados sejam mais surpreendentes, segundo os pesquisadores.

"Além disso, os 75% dizem reprovar a violação da soberania paquistanesa pelos EUA, na operação para capturar e dar morte a Bin Laden.

"Menos de três quartas partes dos inquiridos não acredita que Bin Laden autorizasse os ataques de 9/11 contra os Estados Unidos, que justificaram a invasão norte-americana do Afeganistão e a luta contra o terrorismo islâmico.

"Os 74% opina que o governo de Washington não respeita o Islã e se considera em guerra com o mundo islâmico e 70% reprova a política paquistanesa de aceitar ajuda econômica dos EUA.

"Os 86 % se opõe também a que o governo paquistanês permita no futuro ou critica que tenha autorizado antes ataques com aviões não pilotados contra grupos militantes.

"Os 61% dos paquistaneses interrogados diz simpatizar com os talibãs ou achar que estes representam pontos de vista respeitáveis, face a só 21% que se mostra radicalmente contra."

A agência Reuters contribui igualmente com dados interessantes:

"Uma das esposas de Osama Bin Laden disse a seus interrogadores paquistaneses que o líder de Al-Qaeda e sua família moraram durante cinco anos na vila onde ele foi abatido por comandos estadunidenses nesta semana, disse na sexta-feira um funcionário de segurança.

"A fonte, que identificou a mulher como Amal Ahmed Abdulfattah, disse à Reuters que a mais nova das três esposas de Bin Laden foi ferida na operação.

"Segundo o funcionário, Abdulfattah disse aos investigadores paquistaneses que ‘havia cinco anos que morávamos ali’."

"As forças de segurança paquistanesas detiveram entre 15 e 16 pessoas que moravam no complexo, depois que os comandos estadunidenses levaram o corpo de Bin Laden, disse o funcionário. Entre os detidos se acham as três esposas de Bin Laden e várias crianças."

Um avião ianque sem piloto matou hoje não menos de 15 pessoas em Waziristan, ao norte do Paquistão, segundo a agência ANSA. Outras pessoas sofreram feridas graves. Mas, quem vai se encarregar desses assassinatos diários naquele país?

No entanto, faço-me uma pergunta: Por que tanta coincidência entre o assassinato realizado em Abbotabad e a tentativa de assassinar Kadafi simultaneamente?

Um dos filhos mais novos dele, que não se metia nos assuntos políticos, Saif al Arab, estava reunido na casa onde residia com um filho pequeno e dois primos menores; Kadafi e sua esposa o tinham visitado até pouco antes do ataque dos bombardeiros da Otan. A casa foi destruída; morreram Saif al Arab e as três crianças; Kadafi e a esposa tinham se retirado pouco antes. Era um fato sem precedentes. Mas o mundo apenas soube disso.

Foi por acaso uma simples casualidade a coincidência desse fato e o ataque contra o refúgio de Osama Bin Laden, que o governo dos Estados Unidos conhecia perfeitamente e o vigiava com todos os detalhes?

Hoje uma notícia procedente da Cidade do Vaticano informava:

"Maio 6 (Ansa)- Giovanni Innocenzo Martinelli, o vigário apostólico de Trípoli, disse hoje à agência vaticana Fides que não tem intenção de ‘interferir na atividade política de ninguém’, mas encara o dever de advertir que os bombardeamentos à Líbia ‘são imorais’.

"‘Surpreende-me que tenham sido feitas declarações sobre o fato de que deveria me ocupar só de questões espirituais, e que os bombardeios fossem autorizados pela ONU. Mas isto não significa que a ONU, a OTAN ou a União Europeia tenham a autoridade moral para decidir bombardeios, acrescentou.

"‘Gostaria de sublinhar — acrescentou — que bombardear não é um ato ditado pela consciência civil e moral de Ocidente, ou mais em geral da humanidade. Bombardear é sempre um ato imoral’."

Outro telex da agência ANSA informa sobre a posição da China e da Rússia.

"Moscou, Maio 6.— Os governos da China e da Rússia se declararam hoje ‘extremamente preocupados’ pela guerra na Líbia e disseram que agiriam de conjunto para reclamar o cessar-fogo."

"‘Nossa convicção é que o objetivo mais importante é obter o cessar-fogo imediato’, declarou Yang Jiechi, chanceler chinês".

Estão acontecendo fatos verdadeiramente preocupantes.



Fidel Castro Ruz

domingo, 3 de abril de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL -.A visita de um amigo.

HOJE, tive o gosto de cumprimentar Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981 e o único, segundo minha opinião, com suficiente serenidade e valor para abordar o tema das relações de seu país com Cuba.

Carter fez quanto pôde para reduzir as tensões internacionais e promover a criação das repartições de interesses de Cuba e dos Estados Unidos. Sua administração foi a única que deu passos para atenuar o criminoso bloqueio imposto a nosso povo.

As circunstâncias não eram certamente propícias em nosso complexo mundo. A existência de um país verdadeiramente livre e soberano em nosso hemisfério não se conciliava com as ideias da extrema direita fascista dos Estados Unidos, que fez tudo para fazer fracassar os propósitos do presidente Carter, que o fizeram credor do prêmio Nobel da Paz. Ninguém lhe deu esse prêmio gratuitamente.

A Revolução sempre apreciou seu gesto valente. No ano 2002 foi recebido calorosamente. Agora, lhe reiterou seu respeito e apreço.

Será que a oligarquia que governa essa superpotência poderá realmente abrir mão de seu afã de impor sua vontade ao resto do mundo? Poderá fazer jus a esse propósito um sistema que gera, com crescente freqüência, presidentes como Richard Nixon, Ronald Reagan e George W. Bush, cada vez com maior poder de destruição e menos respeito pela soberania dos povos?

A complexidade do mundo atual, não deixa muita margem a recordações que são relativamente recentes. A despedida de Carter, hoje, quarta-feira, coincidiu com notícias preocupantes do acidente nuclear desatado pelo sismo e o tsunami no Japão, que continuam chegando e não podem ser ignoradas, não só pela sua importância, mas também pela repercussão prática e quase imediata que delas deriva para a economia mundial.

Hoje, a agência de notícias AP informa do Japão que:

"A crise na usina nuclear japonesa, avariada pelo tsunami, se agravou na quarta-feira, depois que a água do mar próxima mostrasse os teores de radiação mais elevados até o momento".

"Em Fukushima, a radiação filtrada penetrou na terra e no mar e se introduziu em hortaliças, leite não pasteurizado e, inclusive, na água corrente, até Tóquio, 220 quilômetros para o sul".

"Entretanto, o imperador Akihito e a imperatriz Michiko visitaram durante uma hora um grupo de evacuados em Tóquio".

A Reuters, por seu lado, informa de Tóquio, que:

"O Japão atualizou, na quarta-feira, seus padrões para usinas de energia nuclear, o primeiro reconhecimento oficial de que suas normas eram insuficientes quando um terremoto avariou uma de suas instalações, desencadeando a pior crise atômica, desde Chernobil, em 1986".

"O anúncio foi tornado público depois de o governo ter reconhecido que não existe um final claro para o fim da crise e que um salto nos níveis de iodo radioativo na água do mar se acrescentou às evidencias de filtrações nos reatores em torno do complexo e mais para lá".

"Achados de plutônio no solo da usina fizeram disparar o alarme público sobre o acidente, que ocultou o desastre humanitário provocado pelo terremoto e o tsunami de 11 de março, que deixaram 27.500 mortos ou desaparecidos".

"Antes do desastre, os 55 reatores nucleares do Japão forneciam cerca de 30% da energia elétrica do país. Esperava-se que a porcentagem se elevasse para 50% em 2030, dentre as maiores do mundo".

"Novas leituras mostraram um salto no iodo radioativo de 3.355 vezes o limite legal, indicou a agência estatal de segurança nuclear, embora o organismo minimizasse seu impacto, dizendo que as pessoas haviam abandonado a área e que tinha sido parada a atividade da pesca".

"Centenas de engenheiros vêm lutando durante semanas para arrefecer os reatores da usina e evitar uma catastrófica fusão das barras de energia, embora a situação pareça ter deixado atrás esse cenário de pesadelo".

"O diretor de pesquisa de valores da JPMorgan Securities em Tóquio, Jesper Koll, disse que uma dilatada batalha para controlar a usina e parar as fugas de radioatividade perpetuaria a incerteza e agiria como um lastro para a economia".

"’O pior cenário possível é que o problema se alongue não um, dois ou seis meses, mas sim durante dois anos ou indefinidamente’, declarou".

"O plutônio, um subproduto das reações atômicas, que pode ser empregado nas bombas nucleares, é altamente carcinogênico e uma das substâncias mais perigosas do planeta", indicaram os especialistas".

Uma terceira agência, a DPA, de Tóquio, assinala que:

"Os técnicos japoneses continuam sem poder parar a crise nuclear, após três semanas depois dos acidentes na usina atômica de Fukushima. Portanto, o governo de Tóquio começa a estudar medidas extraordinárias para deter a emissão de radioatividade das instalações".

"A ideia é cobrir os reatores com uma espécie de tecido. As recentes altas medições de íodo 131 no mar são um sinalo de uma crescente radiação. A organização ecologista Greenpeace adverte, ainda, de sérios riscos para a saúde dos moradores após medições próprias".

"Peritos consideram que o processo para descartar definitivamente uma possível fusão do núcleo pode demorar meses. Tepco prometeu melhorar as condições trabalhistas dos técnicos, cada vez mais nervosos e esgotados".

Enquanto estes sucessos têm lugar no Japão, o presidente bolivariano da Venezuela visita a Argentina, Uruguai e viaja à Bolívia, promovendo acordos econômicos e estreitando laços com países de nosso hemisfério decididos a serem independentes. Na universidade de La Plata, onde a tirania promovida pelos Estados Unidos fez sumir, entre muitos milhares de argentinos, a mais de 700 estudantes — 40 deles da Escola de Jornalismo — Chávez recebeu o prêmio Rodolfo Walsh, que honra um dos heróicos jornalistas revolucionários assassinados.

Já não é só Cuba; são muitos os povos dispostos a lutar até a morte por sua Pátria.

domingo, 27 de março de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - Entre a emigração e o crime.

Nesta nova Reflexão, o comandante da Revolução cubana, Fidel Castro, aborda o complexo problema do tráfico de drogas e o fluxo migratório de países latino-americanos, especialmente da América Central, para os Estados Unidos. E discorre sobre as posições assumidas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em sua última viagem a El Salvador.
Os latino-americanos não são criminosos natos nem inventaram as drogas.

Os Aztecas, os Mayas e outros grupos humanos pré-colombianos do México e da América Central, por exemplo, eram excelentes agricultores e nem sequer conheciam o cultivo da coca.

Os Quechuas e Aymaras foram capazes de produzir nutritivos alimentos em perfeitos terraços que acompanhavam as curvas de nível das montanhas. Em planaltos que às vezes ultrapassavam os três e quatro mil metros de altura, cultivavam a quinua, um cereal rico em proteínas, e a batata.

Conheciam e cultivavam também a planta de coca, cujas folhas mastigavam desde tempo imemoriais para mitigar o rigor das alturas. Tratava-se de um costume milenar que os povos praticam com produtos como o café, o tabaco, a aguardente e outros.

A coca era originária dos abruptos declives dos Andes amazônicos. Seus povoadores a conheciam desde muito antes do Império Inca, cujo território, em seu máximo esplendor, se estendia no espaço atual do sul da Colômbia, todo o Equador, Peru, Bolívia, o leste do Chile e o noroeste da Argentina, que somava cerca de dois milhões de quilômetros quadrados.

O consumo da folha de coca se converteu em privilégio dos imperadores Incas e da nobreza nas cerimônias religiosas.

Com o desaparecimento do Império depois da invasão espanhola, os novos senhores estimularam o hábito tradicional de mastigar a folha para aumentar as horas de trabalho da mão de obra indígena, um direito que perdurou até que a Convenção Única sobre Entorpecentes proibiu o uso da folha de coca, exceto com finalidades médicas ou científicas.

Quase todos os países a assinaram. Pouco se discutia qualquer tema relacionado com a saúde. O tráfico de cocaína não alcançava então a enorme magnitude atual. Nos anos transcorridos se criaram gravíssimos problemas que exigem análises profundas.

Sobre o espinhoso tema da relação entre a droga e o crime organizado a própria ONU afirma delicadamente que “A América Latina é ineficiente no combate ao crime.”

A informação que distintas instituições publicam varia devido a que o assunto é sensível. Os dados às vezes são tão complexos e variados que podem induzir à confusão. Do que não cabe a menor dúvida é que o problema se agrava aceleradamente.

Há quase um mês e meio, em 11 de fevereiro de 2011, um informe publicado na Cidade do México pelo Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça desse país, oferece interessantes dados sobre as 50 cidades mais violentas do mundo, pelo número de homicídios ocorridos no ano de 2010. Nele se afirma que o México reúne 25% delas. Pelo terceiro ano consecutivo a número um é Cidade Juárez, na fronteira com os Estados Unidos.

Em seguida o informe expõe que “…naquele ano a taxa de homicídios dolosos de Juárez foi 35% superior à de Kandahar, no Afeganistão ― a número dois no ranking― e 941% superior à de Bagdá…”, quer dizer, quase dez vezes superior à capital do Iraque, cidade que ocupa o 50º lugar da lista.

Quase de imediato acrescenta que a cidade de San Pedro Sula, em Honduras, ocupa o terceiro lugar com 125 homicídios por cada 100 mil habitantes, sendo superada apenas por Ciudad Juárez, no México, com 229, e Kandahar, Afeganistão, com 169.

Tegucigalpa, Honduras, ocupa o sexto lugar, com 109 homicídios por cada 100 mil habitantes.

Deste modo, pode-se avaliar que Honduras, da base aérea ianque de Palmerola, onde se produziu um golpe de Estado já sob a presidência de Obama, tem duas cidades entre as seis em que se produzem mais homicídios no mundo. Cidade da Guatemala alcança 106.

De acordo com o referido informe, a cidade colombiana de Medelin, com 87,42, figura também entre as mais violentas da América e do mundo.

O discurso do presidente norte-americano Barack Obama em El Salvador e sua posterior coletiva de imprensa, me levaram ao dever de publicar estas linhas sobre o tema.

Na Reflexão de 21 de março critiquei sua falta de ética ao não mencionar no Chile sequer o nome de Salvador Allende, um símbolo de dignidade e valentia para o mundo, que morreu em consequência do golpe de Estado promovido por um presidente dos Estados Unidos.

Como sabia que no dia seguinte visitaria El Salvador, um país centro-americano símbolo das lutas dos povos de nossa América que mais sofreu como consequência da política dos Estados Unidos em nosso hemisfério, disse: “Ali terá que inventar bastante, porque nessa nação centro-americana irmã, as armas e os treinadores que recebeu dos governos de seu país derramaram muito sangue.”

Desejava-lhe boa viagem e “um pouco mais de sensatez.” Devo admitir que em seu longo périplo, foi um pouco mais cuidadoso no último trecho.

O Monsenhor Oscar Arnulfo Romero era um homem admirado por todos os latino-americanos, crentes ou não, assim como os sacerdotes jesuítas covardemente assassinados pelos esbirros que os Estados Unidos treinaram, apoiaram e armaram até os dentes. Em El Salvador, a FMLN, organização militante de esquerda, travou uma das lutas mais heróicas de nosso continente.

O povo salvadorenho deu a vitória ao partido que emergiu do seio desses gloriosos combatentes, cuja história profunda não é ainda o momento de construir.

O que urge é enfrentar o dramático dilema que vive El Salvador, do mesmo modo que o México, o resto da América Central e a América do Sul.

O próprio Obama expressou que cerca de 2 milhões de salvadorenhos vivem nos Estados Unidos, o que equivale a 30% da população daquele país. A brutal repressão desencadeada contra os patriotas e o saque sistemático de El Salvador, imposto pelos Estados Unidos, obrigou centenas de milhares de salvadorenhos a emigrar para esse território.

O novo é que, à desesperada situação dos centro-americanos, une-se o fabuloso poder dos bandos terroristas, as sofisticadas armas e a demanda de drogas, originadas pelo mercado dos Estados Unidos.

O presidente de El Salvador em breve discurso que precedeu ao do visitante, expressou textualmente: “Insisti que o tema do crime organizado, o narcotráfico, a insegurança cidadã não é um tema que ocupe somente El Salvador, Guatemala, Honduras ou Nicarágua e nem sequer México ou Colômbia; é um tema que nos ocupa como região, e nesse sentido estamos trabalhando na construção de uma estratégia regional, através da Iniciativa CARFI.”

“… insisti em que este é um tema que não só deve ser abordado desde a perspectiva da perseguição ao delito, através do fortalecimento de nossas polícias e nossos exércitos, mas também dando ênfase às políticas de prevenção do delito e que, portanto, a melhor arma para combater em si a delinquência na região é investindo em políticas sociais.”

Em sua resposta o mandatário norte-americano disse: “O presidente Funes se comprometeu a criar mais oportunidades econômicas aqui em El Salvador para que as pessoas não sintam que devem tomar o rumo do norte para manter sua família.”

“Sei que isto é especialmente importante para os aproximadamente 2 milhões de salvadorenhos que estão vivendo e trabalhando nos Estados Unidos.”

“…pus o presidente a par das novas medidas de proteção ao consumidor que promulguei, que proporcionam às pessoas mais informação e asseguram que suas remessas cheguem efetivamente aos seus entes queridos em casa.

“Hoje, também estamos lançando um novo esforço para fazer frente aos narcotraficantes e bandos que têm causado tanta violência em todos os países, especialmente aqui na América Central.”

“…dedicaremos 200 milhões de dólares a apoiar os esforços aqui na região, o que inclui fazer frente [...] às forças sociais e econômicas que impulsionam os jovens para a criminalidade. Ajudaremos a reforçar os tribunais, os grupos da sociedade civil e as instituições que defendem o Estado de direito.”

Não necessito de nem mais uma palavra para expressar a essência de uma situação dolorosamente triste.

A realidade é que muitos jovens centro-americanos têm sido levados pelo imperialismo a cruzar uma rígida e cada vez mais intransponível fronteira, ou prestar serviços nos bandos milionários dos narcotraficantes.

Não seria mais justo ― me pergunto ― uma Lei de Ajuste para todos os latino-americanos, como a que se inventou para castigar Cuba há quase meio século? Continuará crescendo até o infinito o número de pessoas que morrem cruzando a fronteira dos Estados Unidos e as dezenas de milhares que já estão morrendo a cada ano nos povos aos quais você oferece uma “Aliança Igualitária”?


Fidel Castro Ruz
25 de março de 2011, 20h46
Fonte: Cubadebate
Tradução de José Reinaldo Carvalho, editor do Vermelho

terça-feira, 22 de março de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - "Os sapatos me apertam".

Em mais uma de suas Reflexões, o comandante da Revolução cubana, Fidel Castro, comenta com fina ironia o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos no Chile, na última segunda-feira (21). Aproveitou para comentar sobre o papel que desempenhou à frente de seu país e reiterou: " Continuarei sendo um soldado das ideias, enquanto possa pensar e respirar".


Enquanto os reatores sinistrados despejam fumaça radiativa no Japão, e aviões de monstruosa aparência e submarinos nucleares lançam mortíferas cargas teleguiadas sobre a Líbia, um país norte-africano do Terceiro Mundo com apenas seis milhões de habitantes, Barack Obama contava aos chilenos uma fábula parecida com as que eu escutava quando tinha quatro anos: “Os sapatos me apertam, as meias fazem calor; e o beijinho que me deste levo no coração”.

Alguns de seus ouvintes ficaram pasmos naquele “Centro Cultural” em Santiago do Chile.

Quando o presidente mirou ansioso o público depois de mencionar a pérfida Cuba, esperando uma explosão de aplausos, houve um silêncio glacial. Às suas costas – Ah! Feliz coincidencia! – entre as demais bandeiras latino-americanas, estava exatamente a de Cuba.

Se por um segundo desse uma volta sobre seu ombro direito, teria visto, como uma sombra, o símbolo da Revolução na Ilha rebelde que seu poderoso país quis, mas não pôde, destruir.

Qualquer pessoa seria, sem dúvida, extraordinariamente otimista se espera que os povos de Nossa América aplaudam o 50º aniversário da invasão mercenária de Giron, 50 anos de cruel bloqueio econômico de um país irmão, 50 anos de ameaças e atentados terroristas que custaram milhares de vidas, 50 anos de projetos de assassinato dos líderes do histórico processo.

Senti-me aludido em suas palavras.

Prestei, efetivamente, meus serviços à Revolução durante muito tempo, mas nunca eludi riscos nem violei princípios constitucionais, ideológicos ou éticos; lamento não ter tido mais saúde para seguir servindo-a.

Renunciei sem vacilação a todos os meus cargos estatais e políticos, inclusive ao de Primeiro Secretário do Partido, quando adoeci e nunca tentei exercê-los depois da Proclamação de 31 de julho de 2006, nem quando recuperei parcialmente minha saúde mais de um ano depois, embora todos continuassem intitulando-me afetuosamente dessa forma.

Mas sigo e seguirei sendo como prometi: um soldado das ideias, enquanto possa pensar e respirar.

Quando perguntaram a Obama sobre o golpe de Estado contra o heróico presidente Salvador Allende, promovido como outros muitos pelos Estados Unidos, e a misteriosa morte de Eduardo Frei Montalva, assassinado por agentes da Dina, uma criação do governo norte-americano, perdeu sua presença de espírito e começou a tartamudear.

Foi certeiro, sem dúvida, o comentário da televisão do Chile ao final de seu discurso, quando expressou que Obama já não tinha nada que oferecer ao hemisferio.

De minha parte, não quero dar a impressão de que experimento ódio a sua pessona, e muito menos ao povo dos Estados Unidos, a cujos muitos de seus filhos reconheço o aporte à cultura e à ciência.

Obama tem agora pela frente uma viagem a El Salvador nesta terça-feira. Ali terá que inventar bastante, porque nessa nação centro-americana irmã, as armas e os treinadores que recebeu dos governos de seu país, derramaram muito sangue.

Desejo-lhe boa viagem e um pouco mais de sensatez.

Fidel Castro Ruz
21 de março de 2011, 21h32
Fonte: Cubadebate
Tradução da Redação do Vermelho

Fonte: O Vermelho.

segunda-feira, 21 de março de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - A aliança igualitária.

Ao anoitecer do sábado (19), depois de farto banquete, os líderes da Otan ordenaram o ataque contra a Líbia. Desde então, nada poderia ocorrer sem que os Estados Unidos reclamassem seu papel irrenunciável de chefe máximo. Desde o posto de comando dessa instituição na Europa, um oficial superior proclamou que se iniciava a “Odisseia do Amanhecer”.

Por Fidel Castro Ruz

A opinião pública mundial estava comovida com a tragédia do Japão. O número de vítimas do terremoto, do tsumani, do acidente nuclear, não parou de crescer. São dezenas de milhares de pessoas mortas, desaparecidas e irradiadas. Também crescerá consideravelmente a resistência ao uso da energia nuclear.

O mundo está sofrendo as consequências das mudanças climáticas; a escassez e o preço dos alimentos, os gastos militares e o desperdício dos recursos naturais e humanos crescem. Uma guerra era o mais inoportuno que poderia ocorrer nestes momentos.

O giro de Obama pela América Latina passou para segundo plano. No Brasil, se tornaram evidentes as contradições de interesses entre os Estados Unidos e esse país irmão. Não se pode esquecer que o Rio de Janeiro competiu com Chicago pela sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Obama quis cortejar o gigante sul-americano. Falou da “extraordinária ascensão do Brasil” que tem chamado a atenção internacional e elogiou sua economia como uma das que crescem mais rapidamente no mundo, mas não se comprometeu nem um pouco em apoiar o Brasil como membro permanente do privilegiado Conselho de Segurança.

A presidente brasileira não vacilou em expressar sua inconformidade com as medidas protecionistas aplicadas pelos Estados Unidos ao Brasil, por meio de tarifas e subsídios, que têm constituído um forte obstáculo à economia desse país.

O escritor argentino Atilio Boron afirma que para Obama:

“…o que (…) mais interessa em sua qualidade de administrador do império é avançar para o controle da Amazônia. O requisito principal desse projeto é entorpecer, já que não pode deter, a crescente coordenação e integração política e econômica em curso na região e que foi tão importante para fazer naufragar a Alca em 2005 e frustrar a conspiração secessionista e golpista na Bolívia (2008) e no Equador (2010). Também deve tratar de semear a discórdia entre os governos mais radicais da região (Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador) e os governos ‘progressistas’ – principalmente Brasil, Argentina e Uruguai…”

“Para os mais ousados estrategistas estadunidenses, a região amazônica, assim como a Antártida, é uma área de livre acesso, onde não se reconhecem soberanias nacionais…”

Amanhã, Obama viajará ao Chile. Chegará precedido de uma entrevista que concedeu ao diário El Mercurio, publicada ontem, domingo (20), na qual confessa que o “Discurso para as Américas” – assim o qualifica – se fundamenta em uma “aliança igualitária” com a América Latina, que quase nos deixa sem fôlego ao relembrar “A Aliança para o Progresso” que precedeu a expansão mercenária de Playa Girón.

Obama confessa textualmente:

“Nossa visão para o hemisfério (…) se baseia no conceito de aliança igualitária que tenho perseguido desde que assumi a Presidência dos Estados Unidos.

“Também terei como foco áreas específicas nas quais podemos trabalhar juntos, como o crescimento econômico, a energia, a segurança cidadã e os direitos humanos”.

"Essa visão", pontuou, tem por objetivo "melhorar a segurança comum, expandir oportunidades econômicas, assegurar um futuro energético limpo e apoiar os valores democráticos que compartilhamos”.

(...) “promover um hemisfério seguro, estável e próspero, no qual os Estados Unidos e nossos aliados compartilhem responsabilidades em assuntos chave, tanto em nível regional como global.”

Tudo como se pode apreciar maravilhosamente belo, digno de se enterrar como os segredos de Reagan, para publicar em 200 anos. O problema é que, como informa a agência DPA, segundo sondagem realizada pelo diário La Tercera, “em 2006, 43% da população chilena rechaçava as centrais nucleares”.

“Dois anos depois do rechaço, subiu para 52% e em 2010 chegou a 74%”. Hoje, depois do que aconteceu no Japão, alcança “86% dos chilenos…”

Faltaria fazer somente uma pergunta a Obama. Levando em conta que um de seus ilustres antecessores, Richard Nixon, promoveu um golpe de Estado e a morte heroica de Salvador Allende, as torturas e o assassinato de milhares de pessoas, o senhor Obama pedirá desculpas ao povo do Chile?

Fidel Castro Ruz
20 de março de 2011
20h14

Fonte: CubaDebate
Tradução de Fabíola Perez

terça-feira, 15 de março de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - Os dois terremotos.

• Um forte terremoto de magnitude 8,9 estremeceu hoje o Japão. O mais preocupante é que as primeiras notícias falavam de milhares de mortos e desaparecidos, números realmente inusitados em um país desenvolvido, onde tudo se constrói à prova de terremotos. Inclusive, falava-se de um reator nuclear fora de controle. Horas depois, se informou que as quatro usinas nucleares próximas da região mais afetada estavam sob controle. Informava-se igualmente sobre um tsunami de dez metros de altura, que provocou alerta de maremoto em todo o Pacífico.
O sismo se originou a 24,4 quilômetros de profundidade e a 100 quilômetros da costa. Caso se tivesse produzido a menos profundidade e distância, as consequências teriam sido mais graves.

Houve deslocamento do eixo do planeta. Foi o terceiro fenômeno de grande intensidade em menos de dois anos: Haiti, Chile e Japão. Não se pode culpar o homem por tais tragédias. Cada país, seguramente, fará o que estiver a seu alcance para ajudar esse povo laborioso que foi o primeiro a sofrer um desnecessário e desumano ataque nuclear.
Segundo o Colégio Oficial de Geólogos da Espanha, a energia liberada pelo abalo sísmico equivale a 200 milhões de toneladas de dinamite.
Uma informação de última hora, transmitida pela AFP, expressa que a companhia elétrica japonesa Tokyo Electric Power comunicou : "De acordo com as instruções governamentais, liberamos parte do vapor que contém substâncias radiativas…" "Acompanhamos a situação. Até o momento não há problema…"

"Também se assinalavam desarranjos relacionados com o resfriamento em três reatores de uma segunda usina próxima, Fukushima 2".

"O governo ordenou a evacuação das regiões circundantes, em um raio de 10 quilômetros, no caso da primeira usina; e de 3 quilômetros no caso da segunda."
Outro terremoto, de caráter político, potencialmente mais grave, é o que tem lugar em torno da Líbia, e afeta de um modo ou outro todos os países.
O drama que vive esse país está em pleno auge, e seu desenlace ainda é incerto.
Ontem aconteceu um grande corre-corre no Senado dos Estados Unidos quando o diretor nacional de Inteligência, James Clapper, afirmou no Comitê de Serviços Armados: "Não creio que Kadafi tenha alguma intenção de ir-se embora. Pelas evidências de que dispomos, parece que se está instalando um processo de longa duração."
Acrescentou que Kadafi conta com duas brigadas que "são muito leais" . Assinalou que "os ataques aéreos do exército fiel a Kadafi destruíram ‘principalmente’ edifícios e a infraestrutura, mais do que causar baixas entre a população".
O tenente-general Ronald Burgess, diretor da Agência de Inteligência de Defesa, na mesma audiência ante o Senado disse: "Parece que Kadafi ‘vai seguir no poder, a menos que outra dinâmica mude o momento atual’."
"A oportunidade que os rebeldes tiveram no começo do levantamento popular ‘começou a mudar’", assegurou.
"Não tenho nenhuma dúvida de que Kadafi e a direção líbia cometeram um erro ao confiarem em Bush e na Otan, como se pode deduzir do que escrevi na Reflexão do dia 9".
"Tampouco duvido das intenções dos Estados Unidos e da Otan de intervierem militarmente na Líbia e abortarem a onda revolucionária que estremece o mundo árabe".
"Os povos que se opõem à intervenção da Otan e defendem a ideia de uma solução política sem intervenção estrangeira, têm a convicção de que os patriotas líbios defenderão sua Pátria até o último alento".

Fidel Castro Ruz

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - "É difícil que Deus possa abençoar tantas mentiras".

Fidel Castro: O Estado da União.

Era esperado com interesse o discurso do presidente sobre o assunto, depois de suas palavras em 12 de janeiro na Universidade de Tucson, Arizona, sobre o massacre que havia ocorrido naquela cidade quatro dias antes.

Por Fidel Castro, em Cuba Debate.

Seis pessoas morreram e 14 ficaram feridas, incluindo a jovem congressista democrata Gabrielle Giffords, eleita pela terceira vez para o Congresso dos Estados Unidos, e que se opôs à lei anti-imigrante daquele Estado, que foi parte do território arrebatado do México na injusta guerra de 1848.

O Tea Party, a direita fascista do Partido Republicano, tinha conseguido um notável êxito entre os eleitores que se preocuparam em exercer o direito de voto nas eleições deste país. A população do Arizona, como a do resto dos Estados Unidos, reagiu com indignação. Sua conduta foi, sem dúvida, correta, e expressei isso.

Nunca duvidei dos fatores éticos que parecem ser características dos povos, independentemente da política e dos governos.

Se aquele discurso de Obama foi omisso, quanto à incrível mostra de primitivismo que reflete o uso generalizado e praticamente irrestrito de mortíferas armas de fogo, a mensagem sobre o Estado da União merece uma análise política e ética, já que os EUA são uma superpotência da qual, independentemente do presidente e do Congresso, depende, entre outros fatores importantes, o destino da espécie humana.

Nenhum país isolado tem ou pode ter uma resposta para os problemas que o mundo enfrenta hoje.

Obama, em primeiro lugar, está envolvido em um processo eleitoral. Tem que falar com os democratas e republicanos, os que votam e os que não votam, os milionários e os mendigos, os protestantes e os católicos, cristãos e muçulmanos, crentes e não crentes, negros e brancos, aqueles que apóiam e os que não suportam a pesquisa com células tronco, homossexuais e heterossexuais, cada cidadão e o seu oposto, para terminar clamando que todos eles são americanos, como se os 95,5%, ou seja, 6,9 bilhões de habitantes do resto do planeta, não existisse.

Nas primeiras página de seu discurso de uma hora, passou a afirmar:

"Neste momento, o que está em jogo não é quem vai ganhar a próxima eleição [...] O que está em jogo é se serão criados novos empregos e indústrias [...] se podemos manter a liderança que fez dos EUA não apenas um ponto no mapa, mas uma luz no mundo."

"Estamos prontos para o progresso. [...] a bolsa recuperou-se com fervor. Os lucros das empresas são maiores. A economia está crescendo novamente. "

Imediatamente após estas palavras, trata de nos comover com uma passagem que parece tirada de um conhecido filme norte-americano, que as pessoas da minha geração recordam: "E o vento levou", relacionado com a terrível guerra civil entre o norte industrial e o sul escravagista e agrário nos anos do homem excepcional que foi Abraham Lincoln.

"O mundo mudou. E para muitos, a mudança tem sido dolorosa", disse Obama."Vi nas janelas tapadas de fábricas outrora prósperas e nas vitrines vazias em ruas principais antes concorridas. Ouvi a frustração de estadunidenses que viram o declínio de seus salários ou o desaparecimento de seus empregos; homens e mulheres orgulhosas de seu trabalho que pensam que mudaram as regras no meio do jogo".

"As siderúrgicas, que chegaram a precisar de mil trabalhadores, agora podem fazer o mesmo trabalho com cem."

"Enquanto isso, países como a China e a Índia perceberam que, com algumas mudanças, podiam competir neste novo mundo. [...] Recentemente, a China se tornou a sede da maior unidade privada de pesquisa solar no mundo e do computador mais rápido do mundo. "

"Mas os EUA ainda têm a maior e mais próspera economia do mundo."

"Sabemos o que é preciso para competir por empregos e indústrias dos nossos tempos. Precisamos de mais inovação, educar melhor e construir mais que o resto do mundo. Devemos fazer dos Estados Unidos o melhor lugar do mundo para fazer negócios. [...] E esta noite gostaria de falar sobre como chegar lá."

Obama não fala nunca das grandes empresas monopólicas que hoje controlam e saqueam os recursos do planeta. Não menciona jamais o acordo de Bretton Woods, o sistema imposto a um mundo devastado pela guerra, no qual os Estados Unidos assumiram o controle das instituições financeiras e do Fundo Monetário Internacional, onde detêm ferreamente o poder de veto.

Jamais disse uma palavra sobre a colossal fraude de Nixon em 1971, quando suspendeu unilateralmente a conversão do dólar em ouro, imprimiu notas norte-americanas sem limite algum e adquiriu incontáveis bens e riqueza no mundo, que pagou principalmente com papéis, cujo valor, em 40 anos, foi reduzido para 2,5% do que era então.

Obama gosta de narrar, no entanto, histórias líricas sobre pequenos empresários que supostamente deslumbram, cativam e comovem os ouvintes que não estão cientes da realidade. Sua oratória, seu estilo e seu tom parecem desenhados para que se escutem, como crianças disciplinadas, suas histórias comoventes.

"Robert e Gary Allen são irmãos que têm uma pequena empresa de construção, em Michigan. Depois de 11 de setembro, ofereceram seus melhores funcionários para ajudarem a reparar o Pentágono. Mas a recessão os afetou muito, e sua fábrica estava operando com metade da capacidade. Hoje, com a ajuda de um empréstimo do governo, este espaço está sendo usado para fabricação de telhas fotovoltaicas que estão sendo vendidas em todo o país. Nas palavras de Robert, "nos reinventamos."

"Estamos lançando um desafio. Estamos dizendo para cientistas e engenheiros dos EUA que se constituírem equipes são os melhores cérebros em sua área e se concentrarem nos problemas mais difíceis de energia limpa, financiaremos os projetos Apollo da nossa era. "

Imediatamente, nos deixa sem respiração:

"No Instituto de Tecnologia da Califórnia estão desenvolvendo uma maneira de converter energia solar e água em combustível para nossos veículos."

Salvou-se o planeta! Ou pelo menos ele não morrerá popr excesso de CO2 ou por falta de energia. Me traz à mente uma história de mais de 40 anos, quando um grupo empreendedor de jovens cientistas me falou com grande entusiasmo dessa mesma ideia, a partir de princípios teóricos, e, em minha fé cega na ciência, tratei de conseguir tudo o que solicitaram, incluindo uma instalação isolada, onde passaram anos com tal ânimo que até explodiram um motor que quase matou um grupo deles, e ainda assim continuaram a tarefa.

Não nego nada, muito menos a um super instituto da Califórnia, mas, por favor, senhor presidente, informe ao mundo sobre essa possibilidade para que muitos outros cientistas trabalham nessa mesma direção. Não se trata de lucro, a humanidade estará disposta a pagar tudo o que os seus cientistas queiram, e eu tenho certeza que até Michael Moore aplaudiria que lhe concedessem 10 prêmios Nobel.

Imediatamente, e após outro comentário encorajador sobre Oak Ridge National Laboratory, e supercomputadores para que instalações nucleares produzam mais energia, o presidente nos garante: "Com mais pesquisas e incentivos, podemos acabar com nossa dependência do petróleo, com os biocombustíveis, e nos converter no primeiro país a ter um milhão de veículos elétricos em marcha em 2015. (Aplausos) "

Destemido, o presidente continua:

"Coloquem-se a pensar. Nos próximos dez anos, quase metade de todos os novos empregos exigirão educação superior, não apenas estudos secundários. No entanto, até um quarto dos nossos estudantes não estão sequer terminando o colegial. A qualidade do nosso ensino de matemática e ciência é inferior à de muitos outros países. Os Estados Unidos se tornou o nono em termos da proporção de jovens com um diploma universitário. Portanto, a pergunta é se nós, como cidadãos e como os pais, estamos dispostos a fazer o que é necessário para dar a cada criança a oportunidade de ter sucesso. "

"Alcançaremos a meta que tracei, há dois anos: que, para fins desta década, os Estados Unidos tenham a mais alta proporção de graduados do mundo. (Aplausos) "

"Outros vêm do exterior para estudar em nossas escolas e universidades. Mas apenas obtêm seu título, nós os enviamos de volta ao seu país para que possam competir contra nós. Não faz nenhum sentido. "

Claro que este roubo insólito e confesso de cérebros, que a nosso amigo Obama nem sequer interessa dissimular, devemos desculpar em consideração à sua paixão pela ciência e pela competição saudável.

"O terceiro passo para conquistarmos o futuro é reconstruir os Estados Unidos. Para atrair novos negócios para as nossas costas, precisamos das vias amias rápidas para transportar pessoas, mercadorias e informações, desde trens de alta velocidade até Internet de alta velocidade.

"Nossa infra-estrutura parecia ser a melhor, mas já não somos os primeiros. As casas da Coreia do Sul agora têm melhor acesso à Internet que as nossas. A Rússia e os países europeus investem mais em suas estradas e ferrovias que nós. A China constrói trens mais rápidos e aeroportos mais novos."

"Nos últimos dois anos, começamos a reconstruir para o século XXI um projeto que tem gerado milhares de empregos bem remunerados no gravemente afetado setor da construção. E esta noite proponho redobrar esses esforços ".

"Nos próximos 25 anos, nosso objetivo é dar a 80% dos americanos acesso aos trens de alta velocidade."

"Nos próximos cinco anos, faremos o possível para que as empresas façam chegar a próxima geração de tecnologia de alta velocidade sem fios a 98% dos americanos. [...] Isso significa que, a partir de uma comunidade rural do Iowa ou Alabama, os trabalhadores e as pequenas empresas poderão vender seus produtos em todo o mundo. "

".Farão com que os Estados Unidos sejam um lugar melhor para se fazer negócios e criar empregos."

"Um exército de lobistas fez com que o código tributário favoreça determinadas empresas e indústrias."

"Nos colocamos uma meta de duplicar as nossas exportações para 2014, porque quanto mais nós exportamos, mais empregos são criados no país. [...] Recentemente, assinamos acordos com a Índia e a China que vão respaldar mais de 250 mil empregos aqui nos Estados Unidos. "

"Deixei claro que [...] só subscreveria acordos que beneficiem os trabalhadores americanos e promovam emprego nos Estados Unidos. [...] É o que eu pretendo fazer ao buscar acordos com o Panamá e a Colômbia ... "

Algumas das coisas que Obama narra dão uma ideia dos dramáticos sofrimentos que, em pleno século XXI, têm que suportar os mais pobres no seu próprio país. Por exemplo, ele nos diz:

"Não estou disposto a dizer a James Howard, paciente do Texas com câncer no cérebro, que é possível que seu tratamento não seja coberto."

"Vivemos com um legado de gasto em déficit que começou há quase uma década. E depois da crise financeira, algo disso era necessário para manter o fluxo de crédito, para preservar os empregos e colocar dinheiro nos bolsos das pessoas ".

"Esta noite proponho que, a partir deste ano, congelemos o gasto nacional anual durante os próximos cinco anos".

"O secretário de Defesa também concordou em cortar dezenas de bilhões de dólares em despesas que ele e seus generais acreditam que podem prescindir"

"E se realmente nos importa o nosso déficit, simplesmente não podemos nos darmos ao luxo de uma extensão permanente de recortes tributários para os 2% mais ricos dos norte-americanos. Antes de tomar o dinheiro de nossas escolas ou bolsas de estudo para os alunos, temos que exigir que os milionários renunciem a seu corte de impostos. "

"Já que vocês merecem saber quando seus funcionários públicos se encontram com lobistas, vou pedir ao Congresso para fazer o que a Casa Branca já fez: colocar essa informação na internet"

Eu acho que a mera presença de um exército de lobistas trabalhando e negociando com os membros do Congresso é um fato vergonhoso para qualquer país civilizado.

"O exemplo moral dos Estados Unidos deve brilhar sempre para todos aqueles que anseiam por liberdade, justiça e dignidade", disse Obama, e, imediatamente, passou para um outro tópico.

"Considerem o Iraque, onde cerca de 100 mil de nossos bravos homens e mulheres têm saído de cabeças erguidas".

Missão cumprida, recordei.

"Graças à aprovação por republicanos e democratas do Nova Tratado START, continuou Obama-, serão colocadas muito menos armas e lançadores nucleares"

"Devido a um esforço diplomático de insistir para que o Irã cumpra as suas obrigações, o governo do Irã tem agora de enfrentar sanções mais duras, sanções mais rigorosas que nunca. E na península coreana, apoiamos nosso aliado Coreia do Sul e insistir que a Coreia do Norte cumpra seu compromisso de abandonar as armas nucleares. "

O Presidente, como se pode ver, não menciona uma só palavra sobre o assassinato seletivo de cientistas iranianos realizado pelas agências de inteligência dos Estados Unidos e seus aliados, que ele conhece perfeitamente bem.

Em vez disso, nos amplia a informação:

"Estas são apenas algumas das maneiras com que nós estamos forjando um mundo que favorece a paz e a prosperidade. Com nossos aliados na Europa, revitalizamos a Otan e aumentamos a nossa cooperação em tudo, desde o antiterrorismo até a defesa antimísseis ".

Naturalmente, o nosso ilustre amigo não diz uma só palavra sobre a necessidade urgente de evitar que o aquecimento global prossiga seu incremento acelerado, ou das chuvas catastróficas e das nevadas que acabam de golpear o mundo, nem da crise alimentar que ameaça agora 80 países do Terceiro Mundo e, claro, das dezenas de milhões de toneladas de milho e soja que as grandes empresas dos EUA estão a dedicar à produção de biocombustíveis, enquanto a população mundial, que já alcança 6,9 bilhões de habitantes, será equivalente a 7 bilhões em 18 meses.

"Em março viajarei para Brasil, Chile e El Salvador para forjar novas alianças em todo continente americano".

No Brasil, dese já, poderá apreciar os estragos e os mortos e desaparecidos provocados pelas chuvas sem precedentes que acabam de ter lugar no Rio de Janeiro e em São Paulo. Será, sem dúvida, ocasião propícia para uma auto-crítica pelo fato de que os EUA se recusaram a assinar o acordo de Kyoto e impulsionaram, já sob seu próprio governo, a política suicida de Copenhague.

No Chile, a política agora se complica. É de supor que alguém deve prestar homenagem a Salvador Allende, e aos milhares de chilenos assassinados pela ditadura de Pinochet, que os Estados Unidos impuseram ao Chile. Esta situação é agravada pelo que explico mais adiante. Outra situação constrangedora deve ocorrer em El Salvador, onde as armas fornecidas pelos Estadosa Unidos e as forças treinadas e educadas em escolas militares de contra-insurgência dos EUA torturaram e cometeram crimes horríveis contra os combatentes da FMLN, cujo partido obteve o voto da amioria em eleições recentes.

Apenas é possível acreditar no que se lê em seguida, quando o presidente diz:

"Em todo o mundo, estamos a apoiar aqueles que assumem responsabilidade, ajudando os agricultores a produzir mais alimentos; apoiando os médicos para que cuidem dos doentes ...."

Muitas pessoas sabem o que os Estados Unidos fizeram com os nossos médicos na Venezuela e outros países latino-americanos, construindo até planos para promover deserções e oferecendo vistos e dinheiro nos Estados Unidos para que abandonem sua dura e abnegada tarefa.

Ninguém ignora tampouco os acordos de livre comércio e os enormes subsídios aos produtos agrícolas dos EUA para arruinar os produtores de cereais e grãos na América Latina. Com estas práticas, arruinaram a prozução de milho e outros cereais no México, tornando-o dependente da agricultura dos EUA.

Em países tão pobres como o Haiti, que quase se autoabastecia de arroz, as transnacionais arruinaram a produção à base de excedentes subsidiados e impediram que o país se abastecesse dessa linha e oferecesse crescente emprego aos milhares de trabalhadores haitianos. Agora, de acordo com o discurso de Obama, os Estados Unidos são o campeão olímpico da assistência médica e da honradez administrativa do mundo. Estes temas são extensos e difíceis de abordar em uma única reflexão.

Queremos recordar que os países industrializados são os principais saqueadores de médicos e cientistas do Terceiro Mundo. O orçamento militar dos EUA ultrapassa o de todos os outros países juntos; suas exportações de armas são o dobro ou o triplo dos demais estados; seus arsenais arsenais nucleares implantados somam mais de 5 mil armas estratégicas; suas bases militares no exterior superam as 500; seus porta-aviões nucleares e frotas navais dominam os mares do planeta. Acaso o sonho americano pode ser modelo para o mundo? A quem pretende enganar o presidente dos Estados Unidos, com esse discurso?

Nas páginas finais de sua mensagem delirante, disse:

"É por esse sonho que estou diante de vocês esta noite. É por esse sonho que um garoto da classe trabalhadora de Scranton pode sentar-se atrás de mim. É por esse sonho que alguém que começou varrendo o chão do bar de seu pai em Cincinnati pode ser presidente da Câmara dos Representantes no país mais grandioso do mundo ".

"E esse sonho é o caso de um pequeno empresário chamado Brandon Fisher".

"Brandon abriu uma empresa em Berlim, na Pensilvânia, que se especializa em um novo tipo de tecnologia de perfuração. E um dia no verão passado vi a notícia de que no outro lado do mundo, 33 homens foram presos em uma mina no Chile e que ninguém sabia como salvá-los.

"Mas Brandon pensou que sua empresa podia ajudar. E então, formulou um resgate que veio a ser conhecido como Plano B. Seus funcionários trabalharam dia e noite para fazer o equipamento de perfuração necessário. E Brandon partiu para o Chile.

"Junto com os outros, começou a perfurar no solo um buraco de 2 mil metros, trabalhando três ou quatro horas - três ou quatro dias às vezes sem dormir. Trinta e sete dias depois, o Plano B teve êxito, e os mineiros foram resgatados. (Aplausos) Mas, porque não queria toda essa atenção, Brandon não estava lá quando os mineiros saíram à superfície. Já havia retornado para casa para trabalhar em seu próximo projeto.

"E, mais tarde, um de seus empregados disse sobre o resgate: 'Provamos que Center Rock é uma empresa pequena, mas que fazemos grandes coisas'(Aplausos). "

Obama falou na noite de 25 para 26. Hoje, 27 de janeiro, a agência de notícias norte-americana AP comunicou à imprensa mundialo segue:

"O chefe da equipe de resgate que recuperou com viva os 33 mineiros, presos por 69 dias no fundo de uma mina no Chile, corrigiu o presidente Barack Obama sobre o papel dos EUA no resgate.

"'Crer que foram eles unicamente os partícipes do êxito, acho que é exagerado. Não em parece correto', disse ao jornal El Mercurio, o engenheiro chileno Jorge Sougarret, que liderou o resgate dos mineiros, em outubro."

"Obama disse Brandon Fisher "viu uma história que veio do outro lado do mundo, 33 homens foram presos em uma mina no Chile e que ninguém sabia como poderiam salvá-los. "

"Fisher 'escolheu um projeto de resgate, conhecido como Plano B. Seus funcionários trabalharam dia e noite para fabricar o equipamento necessário para o salvamento. Trinta e sete dias depos, o Plano B teve êxito e os mineiros foram resgatados. "

"Sougarret disse que Fisher não desenhou o plano de resgate, um dos três que foram usados para trazer à superfície os mineiros, mas que a sua empresa colocou os martelos usado pelas perfuradoras. E que lhe pagaram US $ 100 mil pelos martelos.

"O que eles fizeram foi colocar à nossa disposição uma técnica, como houve outras mais. Não foi exclusiva. Por isso se chamou Plano B. E o Plano A e C continuaram funcionando. Portanto, não é uma operação exclusiva o que eles fizeram. Não há dúvida de que a sua equipe completa teve participação que permitiu finalmente que chegássemos ao sucesso ", disse Sougarret.

"O chefe da equipe de resgate, gerente de um dos cinco grandes depósitos de cobre de propriedade estatal, disse que a equipe técnica integrada pela estatal Codelco e duas grandes mineiras privadas decidiu a implementação do Plano B, que culminou com êxito em 13 de outubro, com o resgate por meio de uma sonda introduzida pela perfuração"

Depois de elogiar a proeza da pequena empresa Center Rock, independentemente dos méritos pessoais e da capacidade que possa ter o jovem Brandon Fisher, Obama, em sua desenfreada apologia que o levou nem sequer mencionar os esforços dos resgatistas chilenos que levaram semanas trabalhando arduamente para salvar os mineiros presos, terminou seu incendiado discurso:

"A idéia dos Estados Unidos continua. Nosso destino segue sendo o que nós decidimos que seja. E esta noite, mais de dois séculos mais tarde, é graças à nossa gente que o nosso futuro está cheio de esperança, nossa travessia continua e o estado de nossa nação é sólido.

"Obrigado, que Deus abençoe vocês e que Deus abençoe os Estados Unidos da América. (Aplausos) "

É difícil que Deus possa abençoar tantas mentiras.

Fidel Castro

domingo, 23 de janeiro de 2011

REFLEXÕES DE FIDEL - É hora de fazer alguma coisa.

VOU contar um pouco de história.

Quando os espanhóis "nos descobriram", há cinco séculos, o número estimado da população da Ilha não ultrapassava os 200 mil habitantes, os quais viviam em equilíbrio com a natureza. Suas fontes principais de alimentos procediam dos rios, lagos e mares ricos em proteínas; adicionalmente praticavam uma agricultura rudimentar que lhes fornecia calorias, vitaminas, sais minerais e fibras.

Nalgumas regiões de Cuba ainda existia o hábito de produzir casabe (um tipo de pão elaborado com mandioca). Determinados frutos e pequenos animais silvestres complementavam sua dieta. Fabricavam alguma bebida com produtos fermentados e transmitiram à cultura mundial o costume de fumar, muito daninho para a saúde.

A população atual de Cuba é, possivelmente, 60 vezes maior da que existia naquela época. Embora os espanhóis se misturassem com a população autóctone, essa população praticamente foi exterminada com o trabalho semi-escravo no campo e com a garimpagem de ouro nas areias dos rios.

A população indígena foi substituída pela importação de africanos, capturados à força e escravizados, uma prática cruel aplicada durante séculos.

De muita importância para nossa existência foram os hábitos alimentares criados. Fomos convertidos em consumidores de carne suína, bovina, ovina, consumidores de leite, queijo e outros derivados; trigo aveia, cevada, arroz, grão-de-bico, feijão, ervilha e outras leguminosas procedentes de climas diferentes.

Originariamente, dispunhamos do milho, e foi introduzida a cana-de-açúcar entre as plantas mais ricas em calorias.

O café foi trazido pelos conquistadores da África; o cacau possivelmente foi trazido do México. Estes dois produtos, juntamente com o açúcar, o fumo e outros produtos tropicais, viraram enormes fontes de recursos para a metrópole, depois do levante dos escravos no Haiti, ocorrido no início do século 19.

O sistema de produção escravista perdurou até a transferência da soberania de Cuba para os Estados Unidos pelo colonialismo espanhol que, em guerra cruenta e extraordinária, foi derrotado pelos cubanos.

Quando a Revolução triunfou, em 1959, nossa Ilha era uma verdadeira colônia ianque. Os Estados Unidos enganaram e desarmaram nosso Exército Libertador. Não se podia falar duma agricultura desenvolvida, mas sim de imensas plantações, exploradas com o trabalho manual e animal que, em geral, não utilizavam fertilizantes nem maquinarias. As grandes usinas de açúcar eram de propriedade norte-americana. Várias delas tinham mais de cem hectares de terra; outras dezenas de milhares. No total eram mais de 150 usinas açucareiras, incluídas as dos cubanos, que trabalhavam menos de quatro meses cada ano.

Os Estados Unidos receberam os fornecimentos açucareiros de Cuba nas duas grandes guerras mundiais, e tinham concedido a nosso país uma cota de venda nos seus mercados, associada a compromissos comerciais e a limitações da nossa produção agrícola, apesar de que o açúcar era, em parte, produzida por eles. Outros setores decisivos da economia, como os portos e refinarias de petróleo, eram propriedade norte-americana. Suas empresas possuiam grandes bancos, centros industriais, jazidas, cais, linhas marítimas e ferrovias, além de serviços públicos tão vitais como os elétricos e telefônicos.

Para aqueles que desejem entender não é necessário nada mais.

Apesar de que as necessidades de produção de arroz, milho, óleo, sementes e outros alimentos era importante, os Estados Unidos estabeleciam determinados limites a tudo o que concorresse com sua produção nacional, incluído o açúçar subsidiado de beterraba.

Logicamente, quanto à produção de alimentos é um fato real que dentro dos limites geográficos dum país pequeno, tropical, chuvoso e ciclônico, desprovido de maquinaria agrícola, de sistemas de barragens, de irrigação e do equipamento adequado, Cuba não podia dispor de recursos, nem estava em condições de concorrer com as produções mecanizadas de soja, girassol, milho, leguminosas e arroz dos Estados Unidos. Algumas delas, como o trigo e a cevada, não podiam ser produzidas em nosso país.

Certo é que a Revolução cubana não teve um minuto de paz. Apenas foi decretada a Reforma Agrária, antes de completar-se o quinto mês do triunfo revolucionário, começaram os planos e ações de sabotagem, incêndios, obstruções e emprego de meios químicos daninhos contra o país. Estes incluíram pragas contra produções vitais e, inclusive, contra a saúde humana.

Ao subestimar o nosso povo e sua decisão de lutar por seus direitos e sua independência, os EUA cometeram um erro.

Claro que nenhum de nós tinha, nesse então, a experiência atingida durante muitos anos; atuávamos a partir de ideias justas e de uma concepção revolucionária. Talvez o principal erro de idealismo cometido foi pensar que no mundo havia uma determinada quantidade de justiça e respeito ao direito dos povos quando, certamente, não existia. Contudo, disso não dependeria a decisão de lutar.

A primeira tarefa que ocupou nosso esforço foi a preparação para a luta que se aproximava.

A experiência adquirida na batalha heróica contra a tirania batistiana, é que o inimigo, qualquer que fosse sua força, não podia vencer o povo cubano.

A preparação do país para a luta virou esforço principal do povo, e nos levou a episódios tão decisivos como a batalha contra a invasão mercenária, promovida pelos Estados Unidos, em abril de 1961, desembarcada na Baía dos Porcos e escoltada pela marinha ianque e pela aviação ianque.

Incapaz de resignar-se à independência e ao exercício dos direitos soberanos de Cuba, o governo desse país adotou a decisão de invadir nosso território. A URSS não teve absolutamente nada a ver com o triunfo da Revolução cubana. Esta não assumiu o caráter socialista devido ao apoio da URSS, foi no avesso: o apoio da URSS foi oferecido pelo caráter socialista da Revolução cubana. Tal é assim que, apesar do colapso da URSS, Cuba continua sendo socialista.

Por alguma via a URSS soube que Kennedy tentaria utilizar com Cuba o mesmo método que ela aplicou na Hungria. Isso levou aos erros que Jruschov cometeu, a respeito da crise dos mísseis, que fui obrigado a criticar. Mas não só foi Jruschov que errou, também Kennedy. Cuba não tinha nada a ver com a história da Hungria, nem a URSS teve nada a ver com a Revolução em Cuba.

Esta foi fruto, apenas, da luta do nosso povo. Jruschov somente teve o gesto solidário de enviar armas a Cuba, quando foi ameaçada pela invasão mercenária que os Estados Unidos organizaram, treinaram, armaram e transportaram. Sem as armas enviadas a Cuba, nosso povo teria derrotado as forças mercenárias como derrotou o exército de Batista, ocupando-lhe o equipamento militar que possuia: 100 mil armas. Se a invasão direta dos Estados Unidos contra Cuba se tivesse produzido, nosso povo teria estado lutando até hoje contra seus soldados, que com certeza, também teriam que lutar contra milhões de latino-americanos.

Os Estados Unidos teriam cometido o maior erro de sua história, e a URSS talvez ainda existiria.

Horas antes da invasão, depois do ataque arteiro a nossas bases aéreas, por aviões dos Estados Unidos que levavam bandeiras cubanas, foi declarado o caráter socialista da Revolução. O povo cubano combateu pelo socialismo, naquela batalha que se registrou na história como a primeira vitória contra o imperialismo na América.

Passaram dez presidentes dos Estados Unidos, está passando o undécimo, e a Revolução Socialista se mantém em pé. Também passaram todos os governos que foram cúmplices dos crimes dos Estados Unidos contra Cuba, e nossa Revolução se mantém em pé. A URSS sumiu e a Revolução continuou adiante.

Não se levou a cabo com permissão dos Estados Unidos, mas sim sob um bloqueio cruel e desapiedado; com ações terroristas que mataram ou feriram milhares de pessoas, cujos autores hoje desfrutam de total impunidade; enquanto lutadores antiterroristas cubanos são condenados à prisão perpetua; uma chamada Lei de Ajuste Cubano concede entrada, residência e emprego nos Estados Unidos. Cuba é o único país do mundo a cujos cidadãos se aplica esse privilégio, que é negados aos do Haiti, depois do terremoto que matou mais de 300 mil pessoas, e ao resto dos cidadãos do hemisfério, aos que o império persegue e expulsa. Contudo, a Revolução cubana continua em pé.

Cuba é o único país do planeta que não pode ser visitado pelos cidadãos estadunidenses; mas Cuba existe e continua em pé, a só 90 milhas dos Estados Unidos, travando sua luta heróica.

Os revolucionários cubanos temos cometido erros e os seguiremos cometendo, porém jamais cometeremos o erro de ser traidores.

Jamais elegemos a ilegalidade, a mentira, a demagogia, o engano ao povo, a simulação, a hipocrisia, o oportunismo, o suborno, a ausência total de ética, os abusos de poder, inclusive o crime e as torturas nojentas, que com óbvias, embora sem dúvida meritórias exceções, têm caracterizado a conduta dos presidentes dos Estados Unidos.

Neste momento, a humanidade enfrenta problemas sérios e sem precedentes. O pior é que em grande parte as soluções dependerão dos países mais ricos e desenvolvidos, que chegarão a uma situação que realmente não estão em condições de enfrentar, sem que se derrube o mundo que estiveram tentando moldar a favor de seus interesses egoístas, e que inevitavelmente leva ao desastre.

Não estou falando de guerras, de cujos riscos e consequências já falaram pessoas sábias e brilhantes, incluídas muitas norte-americanas.

Estou falando de uma crise dos alimentos, causada por fatos econômicos e mudanças climáticas que, aparentemente, já são irreversíveis, em consequência da ação do homem mas, que de todas formas, a mente humana está no dever de enfrentar com urgência. Durante anos, que em realidade foi tempo perdido, se falou do assunto.

Porém, o maior emissor de gases poluentes do mundo, Estados Unidos, se negava sistematicamente a levar em conta a opinião mundial. Deixando de lado o protocolo e outras bobagem habituais nos homens de Estado das sociedades de consumo, que após galgarem o poder costumam ficar atordoados pela influência da mídia, a realidade é que não prestaram atenção ao assunto. Um homem alcoolizado, cujos problemas eram conhecidos, e não preciso dizer o nome, impôs sua linha à comunidade internacional.

Os problemas ganharam força, agora, de súbito, mediante fenômenos que se estão repetindo em todos os continentes: muito calor, incêndios de florestas, perdas de colheitas na Rússia, com numerosas vítimas; mudança climática na China, chuvas excessivas ou secas; perdas progressivas das reservas de água no Himalaia, que ameaça a Índia, China, Paquistão e outros países; chuvas excessivas na Austrália, que alagaram quase um milhão de quilômetros quadrados; ondas de frio insólitas e fora de época na Europa, com afetações consideráveis à agricultura; secas no Canadá; ondas inusuais de frio nesse país e nos Estados Unidos; chuvas sem precedentes na Colômbia, que afetaram milhões de hectares de culturas; precipitações jamais vistas na Venezuela; catástrofes por excessivas chuvas nas megacidades do Brasil e secas no sul. Praticamente, não existe região no mundo onde estes fatos não tenham ocorrido.

As produções de trigo, soja, milho, arroz e outros cereais e leguminosas, que constituem a base alimentar do mundo — cuja população atinge hoje, segundo cálculos, quase 6,9 bilhões de habitantes, já se aproxima da cifra inédita de 7 bilhões, e onde mais de 1 bilhão sofre fome e desnutrição — estão sendo afetadas seriamente pelas mudanças climáticas, criando um problema grave no mundo. Quando as reservas não foram recuperadas totalmente, ou só em parte para alguns tópicos, uma grave ameaça está criando problemas e desestabilização em numerosos estados.

Mais de 80 países, todos eles do Terceiro Mundo, com dificuldades reais, são ameaçados pela fome.

Vou limitar-me a citar estas declarações e relatórios, de maneira sintetizada, que estão sendo publicados nos últimos dias:

"A ONU adverte do risco de uma nova crise alimentar". 11 de janeiro de 2011 (AFP).

"Estamos ante uma situação muito tensa..."Coincidiu a FAO.

"Uns 80 países enfrentam um déficit de alimentos..."

"O índice global dos preços dos produtos agropecuários de base (cereais, carne, açúcar, oleaginosas, lacticínios) situa-se atualmente em seu nível máximo desde que a FAO começou a elaborar esse índice, há 20 anos".

"NAÇÕES UNIDAS, janeiro (IPS)".

"A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), com sede em Roma, alertou que os preços mundiais do arroz, do trigo, do açúcar, da cevada e da carne (...) terão aumentos significativos em 2011..."

"PARIS, 10 de janeiro (Reuters).— O presidente da França, Nicolas Sarkozy, apresentará esta semana, em Washington, sua campanha para enfrentar os altos preços globais dos alimentos..."

"Basileia, Suíça, 10 de janeiro (Efe).— O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean Claude Trichet, porta-voz dos governadores dos bancos centrais do G-10, alertou hoje sobre a o aumento do preço dos alimentos e sobre a amaeaça de inflação nas economias emergentes".

"Banco mundial teme uma crise no preço dos alimentos, 15 de janeiro (BBC)".

"O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, informou à BBC que a crise seria mais profunda do que a de 2008".

"MÉXICO DF, 7 de janeiro (Reuters)".

"Em novembro, o ritmo anual da inflação dos alimentos triplicou no México, em comparação com os dois meses anteriores..."

"Washington, 18 de janeiro (EFE)".

"A mudança climática agravaria a falta de alimentos, segundo um estudo realizado".

"Há mais de 20 anos, os cientistas alertaram sobre o impacto da mudança climática, mas nada mudou, a não ser o aumento das emissões que provocam o aquecimento global", disse à Efe a diretora executiva da filial estadunidense desta organização, Liliana Hisas.

Osvaldo Canziani, Prêmio Nobel da Paz em 2007 e assessor científico do relatório, indicou que "no mundo todo serão registrados fenômenos meteorológicos e condições climáticas extremas, e o aumento da temperatura média superficial incrementará a intensidade desses fenômenos".

"(Reuters), 18 de janeiro.— A Argélia compra trigo para evitar escassez e distúrbios".

"A agência estatal de grãos da Argélia comprou alrededor de 1 milhão de toneladas de trigo, nas últimas duas semanas, para evitar a escassez, caso houverem distúrbios", disse à Reuters uma fonte do Ministério da Agricultura.

"(Reuters), 18 de janeiro.— O preço do trigo aumenta em Chicago, após compra da Argélia".

"O Economista, 18 de janeiro de 2011".

"Alerta mundial por aumento dos alimentos".

"Entre as principais causas estão as enchentes e períodos de seca provocados pela mudança climática, o uso de alimentos para produzir combustível e a especulação no preço dos conmodities".

Os problemas são dramaticamente sérios. Contudo, nem tudo está perdido.

A produção atual de trigo calculada atingiu o volume de quase 650 milhões de toneladas.

A produção de milho ultrapassa esse número e se aproxima dos 770 milhões de toneladas.

A soja poderia aproximar-se dos 260 milhões, dos quais Estados Unidos calcula 92 milhões e o Brasil, 77. Estes países são os dois maiores produtores.

Em geral, os dados de gramineas e leguminosas disponíveis em 2011 são conhecidos.

O primeiro assunto a resolver pela comunidade mundial seria selecionar entre alimentos e biocombustíveis. O Brasil, um país em desenvolvimento, com certeza, deveria ser compensado.

Se os milhões de toneladas de soja e milho que serão investidos em biocombustíveis fossem destinados à produção de alimentos, o aumento inusitado dos preços poderia parar, e os cientistas do mundo poderiam propôr fórmulas que, de alguma maneira, possam deter e inclusive, reverter a situação.

Perdeu-se muito tempo. É hora de fazer alguma coisa.



Fidel Castro Ruz

19 de janeiro de 2011