Mostrando postagens com marcador Bolivia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bolivia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

BOLÍVIA - Golpe racista.

Bolívia: a anatomia de um golpe. Por Slavoj Žižek



PUBLICADO NO BLOG DA BOITEMPO
POR SLAVOJ ŽIŽEK
Embora eu seja por mais de uma década um firme apoiador de Evo Morales, devo admitir que, depois de ter lido sobre a confusão que se seguiu a controversa vitória eleitoral de Morales, fiquei mergulhado em dúvidas… Teria ele também sucumbido à tentação autoritária, como ocorreu com muitos esquerdistas radicais no poder? Contudo, depois de um ou dois dias, as coisas logo ficaram claras.
Brandindo uma enorme Bíblia encadernada em couro e se autoproclamando presidente interina da Bolívia, Jeanine Añes, a segunda vice-presidente do Senado declarou: “A Bíblia retornou ao palácio do governo.” E emendou: “Queremos ser uma ferramenta democrática de inclusão e unidade”. O recém-empossado gabinete de transição, contudo, não continha uma única pessoa indígena. E isso já diz tudo. Embora a maioria da população da Bolívia seja composta de indígenas ou mestiços, até a ascensão de Morales esses setores eram efetivamente excluídos da vida política, reduzidos à maioria silenciosa daqueles que fazem seu trabalho sujo nas sombras. O que aconteceu com Morales foi o despertar político dessa maioria silenciosa que não se enquadrava na rede de relações capitalistas. Não eram ainda proletários no sentido moderno, permaneciam imersos em suas identidades sociais tribais pré-modernas – foi assim que Álvaro García Linera, o vice de Morales, descreveu a situação:
“Na Bolívia, a comida era produzida por agricultores indígenas, prédios e casas eram construídas por trabalhadores indígenas, as ruas eram limpas por pessoas indígenas, e a elite e as classes médias encarregava a eles o cuidado de seus filhos. No entanto, a esquerda tradicional parecia cega para isso e se ocupava somente com trabalhadores na grande indústria, dando pouca atenção à identidade étnica desses sujeitos.”
Álvaro Garcia Linera, em entrevista a Marcello Musto para a Truth Out, 9 nov. 2019.
Para compreendê-los, precisamos incorporar nesse quadro o peso histórico da condição deles: essas pessoas são os sobreviventes de possivelmente o maior holocausto da história da humanidade, a obliteração das comunidades indígenas pela colonização espanhola e inglesa das Américas.
A expressão religiosa do estatuto pré-moderno deles é a combinação única entre catolicismo e a crença na Pacha Mama, a figura da Mãe Terra. É por isso que, embora Morales tenha se declarado católico, na Constituição Boliviana vigente (promulgada em 2009), a Igreja Católica Romana perdeu seu status oficial. No artigo quarto do documento lê-se: “O Estado respeita e garante a liberdade de religião e de crenças religiosas, conforma as cosmovisões de cada indivíduo. O Estado é independente da religião.” É contra essa afirmação da cultura indígena que o gesto de Añez de exibir a Bíblia é direcionado. A mensagem é clara: uma afirmação aberta de supremacismo religioso branco, e uma tentativa não menos aberta de colocar a maioria silenciosa de volta a seu devido lugar de subordinação. Do México, onde atualmente encontra-se exilado, Morales já apelou ao Papa para que intervenha. A reação do pontífice vai nos dizer muito. Será que Francisco reagirá como um verdadeiro cristão e rejeitará de maneira firme a re-catolicização forçada da Bolívia como aquilo que ela realmente é, a saber, como uma jogada política de poder que trai o núcleo emancipatório do cristianismo?
Se deixarmos de lado o possível papel do lítio no golpe (a Bolívia possui grandes reservas de lítio, matéria-prima das baterias dos carros elétricos), a grande questão é: por que a Bolívia representa, por mais de uma década, um incômodo tão grande ao establishment liberal ocidental? O motivo é muito peculiar: o fato surpreendente de que o despertar político do tribalismo pré-moderno na Bolívia não resultou em uma nova versão do Sendero Luminoso ou do show de horrores do Khmer Rouge. O governo Morales não se enquadra na história conhecida da esquerda radical que, ao tomar o poder, estragou tudo econômica e politicamente, gerando pobreza e passou a manter seu poder por meio de medidas autoritárias. Uma prova do caráter não-autoritário do governo Morales é que ele não expurgou militares e forças policiais de seus opositores (razão pela qual eles se voltaram contra ele).
Morales e seus seguidores, é claro, não eram perfeitos: eles cometeram erros, havia conflitos de interesse no interior de seu movimento. No entanto, o balanço geral é realmente impressionante. Morales não era Chávez, ele não dispunha de recursos do petróleo para debelar seus problemas, de forma que seu governo precisou realizar um trabalho duro e paciente de resolução de problemas no país mais pobre da América Latina. O resultado não foi nada menos do que milagroso: a economia deslanchou, os índices de pobreza caíram e a saúde pública melhorou – e tudo isso garantindo que as instituições democráticas tão caras aos liberais continuaram funcionando. O governo Morales manteve um equilíbrio delicado entre formas indígenas de atividade comunal e política moderna, lutando simultaneamente por tradição e pautas como os direitos das mulheres.
Para que seja contada a história inteira do golpe na Bolívia, precisamos de um novo Assange parra trazer à tona documentos secretos relevantes. O que é possível ver agora é que foi precisamente por terem sido bem-sucedidos que Morales, Linera e seus seguidores representavam um incômodo tão grande ao establishment liberal: por mais de uma década a esquerda radical esteve no poder na Bolívia e o país não “virou uma Cuba ou uma Venezuela”. O socialismo democrático é possível.
Ao lado de García Linera, Evo Morales faz pronunciamento para imprensa após desembarcar no México, país que lhes concedeu asilo político.
* * *
Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015) e O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

sábado, 16 de novembro de 2019

BOLÍVIA - As figuras que deram o golpe.


As figuras que deram o golpe na Bolívia

Por Victor Farinelli, no site Carta Maior:

O golpe de Estado ocorrido na Bolívia no último domingo (10/11) mostrou clara características de racismo e intolerância política. E isso não é um acaso.

O professor José Luis Fiori, um dos maiores intelectuais brasileiros, fez um relato de alguns dos fatos que marcaram aquele início de golpe, e que mostram o tipo atitude que está por trás da avançada golpista:

“Assim como outras tantas, a residência presidencial de Evo foi invadida, depredada e vandalizada. Na parede da sala, uma grande pichação: `Hijo de Puta´. Transmitido pelas TVs um vídeo amador mostrava o ato. Dentro da casa dezenas de jovens de classe média, incluindo muitas meninas adolescentes com casacos do Mickey Mouse. Quem vandalizou a casa de Evo inacreditavelmente foram estudantes de classe média. Mas algo grandioso se revela no próprio vídeo. Se a intenção era depredar a casa de algum político magnata, a surpresa foi geral. Uma casa austera, simples, sem luxo algum. Nenhuma ostentação de nada, nem uma única banheira de hidromassagem, nada. O box onde Evo tomava seus banhos é metade do meu. Ao lado de seu quarto uma salinha minúscula com uma esteira rolante e dois aparelhos de exercício. A mini-academia mais simples que já vi na vida. E é aí que o vídeo acaba mordendo o próprio rabo. Pois ao não encontrarem o luxo que esperavam só restou aqueles jovens mediocrizados pela vida a ridicularização do gosto simplório de seu ex-presidente indígena. E assim ao mirar um par de tênis numa pequena estante um jovem comenta sorrindo: "olha o mal gosto do índio". Eles bem que tentaram. Depredaram, vandalizaram, violentaram. Mas quem saiu digno e erguido, livre de todo aquele lixo que tentaram jogar-lhe, foi um homem nobre e digno chamado Juan Evo Morales Ayma”.

Mas além dos vândalos que destruíram a casa do presidente, o que podemos falar também dos líderes do processo? Falemos sobre os três nomes que são os mais visíveis, e que foram também os que convocaram os grupos causadores de vandalismo: a senadora Jeanine Áñez, autoproclamada presidenta do país, o jornalista Carlos Mesa, que perdeu a eleição presidencial contra Evo Morales no dia 20 de outubro, e o empresário e fundamentalista religioso Luis Fernando Camacho, que invadiu o Palácio Quemado com uma bíblia e lidera os grupos mais racistas de Santa Cruz de la Sierra.

Jeanine Áñez era, até a segunda-feira (11/11), somente a vice-presidenta do Senado. Os golpistas a alçaram como sua representante depois que as Forças Armadas obrigaram a renunciar as únicas quatro pessoas com direito constitucional de estar na linha de sucessão: o presidente Evo Morales, o vice-presidente Álvaro García Linera, a presidenta do Senado Adriana Salvatierra e o presidente da Câmara dos Deputados, Víctor Borda.

Além da cena lamentável de sua autoproblamação, diante de um Senado vazio – a autoproclamação de Áñez se realizou diante de um Senado vazio –, ela tem antecedentes de ser uma das figuras mais racistas da política boliviana. São conhecidas no país as suas críticas a Evo Morales atacando sua origem indígena, e tuítes onde ela crítica a utilização por parte do seu governo de símbolos indígenas, como a bandeira Whipala.

Por sua parte, o jornalista Carlos Mesa, candidato derrotado por Evo Morales nas eleições de outubro, é um ex-presidente do país, que governou entre os anos de 2003 e 2005, depois de ser vice-presidente durante o breve governo de Gonzalo Sánchez de Lozada (2002-2003).

Tanto o seu governo quanto o do seu antecessor foram marcados pela chamada Guerra do Gás, quando a população se revoltou porque o governo passou a priorizar o uso das reservas de gás natural produzido pelo país para as exportações a Brasil, Argentina e Chile, em detrimento das necessidades da população local. A repressão aos movimentos populares ordenada por Mesa e Lozada resultou em mais de 200 pessoas mortas, mais de mil feridos e cerca de 4 mil detenções arbitrárias.

Finalmente, o líder intelectual do golpe, o empresário Luis Fernando Camacho. Se trata de um fundamentalista religioso e figura proeminente da elite de Santa Cruz de la Sierra, reduto político dominado pela direita. Amigo da família Bolsonaro, Camacho chegou a visitar o Itamaraty em maio deste ano, cinco meses antes das eleições presidenciais.

Depois do golpe, Camacho passou a tentar esconder seu racismo, devido às críticas que recebeu por seu gesto de entrar no Palácio Quemado (sede do governo boliviano) com uma bíblia e realizar um culto, mas a verdade é que os grupos que realizaram queimas da bandeira indígena Whipala em vários edifícios governamentais do país no dia do golpe pertencem ao seu partido, o Centro Cívico.

Além disso, Camacho também está ligado ao escândalo internacional Panamá Papers, pelo qual teria sonegado mais de 50 milhões de dólares de suas empresas através de paraísos fiscais na América Central, segundo investigações do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, por sua sigla em inglês).

quinta-feira, 3 de março de 2016

BOLÍVIA - Duas análises.

Desafios para a Bolívia. Duas análises


O presidente Evo Morales não poderá se candidatar nas eleições de 2019, após o triunfo do Não, na consulta de domingo, dia 21. Os fatores locais e regionais que contribuíram com a ajustada vitória da oposição e os desafios que o governante Movimento ao Socialismo (MAS) terá pela frente são debatidos, abaixo, por Oscar Laborde, diretor do Instituto de Estudos da América Latina, e pela cientista política Ayelén Oliva, da Universidade de Buenos Aires. As análises são publicadas por Página/12, 29-02-2016. A tradução é do Cepat.
Tempo para reverter a derrota, por Oscar Laborde
O triunfo do Não no plebiscito na Bolívia, no qual se levou em consideração a possibilidade de que Evo se candidatasse para um novo mandato em 2019, não previsto pela Constituição, traz uma grande apoio para este momento de avanço da direita sobre os processos populares que se iniciaram há alguns anos.
E apesar da particularidade do processo boliviano, a influência do triunfo de Macri, na Argentina, e da oposição a Maduro nas recentes eleições legislativas tiveram sua influência em uma derrota que possui muitas causas.
O presidente do Equador, Rafael Correa, vem falando da tentativa de “restauração conservadora” que levam adiante os Estados Unidos, as direitas locais e os meios de comunicação concentrados, que articulam argumentos, críticas e ataques desestabilizadores. É claro que estes ataques não são de uma elevada discussão acadêmica. São os fundos abutres atacando a Argentina, são os paramilitares colombianos intervindo na Venezuela, são as difamações, é o poder judiciário perseguindo os governos populares com causas sem o mínimo de amparo legal.
Quando ocorre o Não à ALCA, em Mar del Plata, em novembro de 2005, os Estados Unidos imediatamente se colocam em ação para reverter esse triunfo das vontades soberanas de alguns presidentes e de todo o povo latino-americano. Criaram uma proposta de integração alternativa ao Mercosul, a Aliança do Pacífico. Impulsionaram com argumentos, ideias, recursos e articulação uma nova direita que pudesse cumprir o papel que os dirigentes aliados ao império não conseguiam por estarem com sua credibilidade esgotada. Desse modo, atacou, sem piedade, o governo do Brasil, Venezuela e Argentina, considerados os pilares da nova integração com conteúdo regional, soberano e popular.
Contudo, para além das operações e acertos da direita e de seus chefes, os norte-americanos, quais foram as insuficiências e dificuldades do Movimento ao Socialismo e de Evo Morales, que o levaram a sua primeira derrota eleitoral, desde que assumiu em 2006?
Em primeiro lugar, este tipo de consulta reúne todo um arco heterogêneo e contraditório, que soma votos “contra”, desde racistas até setores críticos à falta de aprofundamento do processo indigenista. Por outro lado, há um desgaste da figura de Evo pelos anos de gestão e pela agressão interna e externa. Há críticas de setores internos do MAS a certo personalismo de Evo e a um exagero na centralidade em todos os temas, o que provoca uma excessiva exposição, o pagamento de todos os custos e o ofuscamento de outros dirigentes.
Há também um cansaço dos setores médios da população (originários ou não) diante da reiteração de alguns temas, que embora sejam aceitos, irritam em razão da permanente repetição, como o anti-imperialismo e o indigenismo. A oposição trabalhou com inteligência a ideia do “perigo da eternização” e o medo de que caso o Sim triunfasse, Evo poderia depois querer ficar mais um período.
Por outro lado, gerou-se uma dissidência que militou pelo Não, integrada por agrupamentos juvenis, pensadores de esquerda, dirigentes sociais e políticos que apoiam o processo, que reconhecem o conquistado nestes anos, mas que têm várias críticas, reivindicando mais debate e participação.
A derrota eleitoral está longe de significar o fim do processo revolucionário na Bolívia. Sua fortaleza, suas conquistas e o nível de consciência adquirido permitem pensar em uma recuperação para as eleições presidenciais de 2019.
O sociólogo Salvador Schavetzon expõe que “esta derrota pode significar uma oportunidade para corrigir erros, fortalecer-se e reverter a desconexão do governo com tudo o que representa”. Além disso, será quase impossível à oposição conseguir um só candidato a presidente que represente o heterogêneo, díspar e contraditório concentrado no interior do voto pelo Não.
O MAS e Evo Morales têm o tempo suficiente, a experiência adquirida e o respaldo popular para evitar esta derrota. E estão conscientes de sua responsabilidade histórica.
O fantasma de um país fragmentado, por Ayelén Oliva
Na noite em que Evo Morales foi à sacada do Palácio Quemado para confirmar que por decisão da maioria dos bolivianos estaria na presidência pela terceira vez, cometeu o erro de agradecer ao povo de La Paz pelos próximos nove anos de governo. Rapidamente, corrigiu o engano, não eram nove, mas, sim, cinco, no entanto, a frase já havia caído como a primeira peça de dominó que derruba a seguinte até apresentar, poucos meses depois, uma iniciativa de reforma constitucional para habilitar seu quarto mandato.
A diferença de menos de três pontos alcançada pela rejeição à proposta de reforma, somada ao amplo apoio eleitoral que o MAS recebeu nas últimas eleições gerais, faz com que supomos que o ocorrido no domingo, dia 21, não coloca em risco a governabilidade do presidente da Bolívia, que ainda conta com quatro anos de gestão e uma maioria intacta no parlamento.
Porém, algo valioso se perdeu nesta aposta. O Governo deixou escapar a ilusão do fim do país dividido, a maior conquista simbólica deste último tempo, que o governo soube construir conscientemente e em silêncio, uma meta que nenhum outro governo progressista e de esquerda conseguiu alcançar na América Latina. Enquanto as últimas eleições presidenciais da Venezuela, Brasil e Argentina desenharam paisagens políticas de uma geografia fragmentada, quase sem pontes entre as partes, os resultados das últimas eleições presidenciais na Bolívia, com mais de 60% dos votos a favor do governo, somado à expansão hegemônica que marcou o último triunfo do MAS em oito dos nove departamentos, demonstram que essa ilusão social, contraditória de fato, mas necessária, estava do lado de Evo.
Os resultados do referendo junto à antessala do incêndio na prefeitura de El Alto, que provocou seis mortes, despertam os fantasmas da velha Bolívia fragmentada e violenta que havia sido sepultada. Ainda que esteja distante o empate catastrófico de 2008, os resultados deixam um país partido ao meio, em blocos quase idênticos, ainda que de um lado esteja um grupo organizado, ao passo que do outro lado os atores se mantenham dispersos. Mais uma vez, os eleitores do oriente boliviano, liderado por Santa Cruz e Beni, viraram as costas à consulta, ao mesmo tempo em que as zonas rurais e os departamentos tradicionalmente aliados, como La Paz, foram aqueles que encurtaram a distância.
Provavelmente, a decisão dos eleitores que rejeitaram a proposta de reforma constitucional, mas que elegeram os nomes do MAS na última eleição à presidência, tem menos a ver com o desencanto com a gestão de governo do que com o apoio a uma institucionalidade democrática, cada vez mais parecida com sua gente, que soube exigir a sociedade boliviana, estimular o partido no poder e terminou por formalizar este governo. Essa institucionalidade necessária para criar normalidade dentro da excepcionalidade que envolve todo processo de mudança é também sinônimo da estabilidade política e social da qual fala Evo.
Por outro lado, embora o eleitor do MAS seja disciplinado, também mantém até hoje certas margens de autonomia em relação aos deveres eleitorais demandados pelos líderes políticos, por causa de sua essência de movimento que se diferencia em sua lógica de qualquer dispositivo eleitoral criado por cima. Isso ficou refletido na incongruência eleitoral que se originou em distritos como La Paz, entre os resultados das eleições presidenciais de outubro de 2014, com um apoio ao partido no poder superior a 70% e a surpreendente derrota eleitoral nas eleições departamentais e municipais, em inícios do ano seguinte.
O Movimento ao Socialismo, com Evo Morales à cabeça, arriscou muito mais do que o conveniente com esta aposta, mas mesmo assim conserva uma ampla margem de manobra e tempo suficiente para preparar um candidato para 2020 que emerja como expoente de sua própria força política.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

BOLÍVIA - A histeria da direita.


sábado, 27 de dezembro de 2014

BOLÍVIA - Maior PIB da América Latina.


A nova Bolívia

Publicado no site outras palavras. O autor, Ignacio Ramonet Míguez, é um jornalista e sociólogo espanhol.
Telerico dá ar modernista à Bolívia
Telerico dá ar modernista à Bolívia
Para o viajante que volta à Bolívia depois de alguns anos de ausência, e que caminha lentamente pelas ruas estreitas de La Paz – cidade marcada por ravinas escarpadas a quase quatro mil metros de altitude – as transformações saltam aos olhos: não se veem mais pedintes, nem vendedores informais que lotavam as calçadas. As pessoas se vestem melhor, têm um ar mais saudável. E a capital tem uma aparência mais bem tratada, mais limpa, com muitos espaços verdes. Ressalta também o surgimento de novas construções. Despontaram duas dezenas de grandes imóveis e multiplicaram-se os centros comerciais; um deles tem o maior complexo de cinemas (18 salas) da América do Sul.
Mas o mais espetacular são os teleféricos urbanos, de extraordinária tecnologia futurista, que mantêm, acima da cidade, um balé permanente de cabines coloridas, elegantes e etéreas como bolhas de sabão. Silenciosas e não poluentes. Duas linhas estão funcionando agora, a vermelha e a amarela; uma terceira, a verde, será inaugurada nas próximas semanas, permitindo assim a criação de uma rede interligada de transporte a cabo de 11 km, a maior do mundo. Isso possibilitará a dezenas de milhares de moradores de La Paz economizar em média duas horas de viagem por dia.
“A Bolívia muda. Evo cumpre suas promessas”, afirmam cartazes nas ruas. E pode-se constatar que o país é de fato outro. Muito diferente daquele que conheci há apenas uma década, quando foi considerado “o Estado mais pobre da América Latina depois do Haiti.” Corruptos e autoritários em sua maioria, seus governos passavam os anos a implorar empréstimos aos organismos financeiros internacionais, às principais potências ocidentais ou às organizações humanitárias. Enquanto isso, as grandes mineradoras estrangeiras pilhavam o subsolo, pagando ao Estado royalties de miséria e prolongando a espoliação colonial.
Relativamente pouco povoada (cerca de dez milhões de habitantes), a Bolívia tem superfície de mais de um milhão de quilômetros quadrados (duas Franças, ou Bahia e Minas Gerais somadas). Suas entranhas transbordam de riquezas: prata (faz lembrar Potosí …), ouro, estanho, ferro, cobre, zinco, tungstênio, manganês etc. O sal de Uyuni tem as maiores reservas no mundo de potássio e lítio – considerado a energia do futuro. Mas hoje, a principal fonte de renda é constituída pelo setor de hidrocarbonetos: gás natural (a segunda maior reserva da América do Sul), e petróleo (em menor quantidade, por volta de 16 milhões de barris ao ano).
No decorrer dos últimos nove anos, após a chegada de Evo Morales ao poder, o crescimento econômico da Bolívia foi sensacional, com uma taxa média anual de 5%. Em 2013, o avanço do PIB atingiu 6,8%; em 2014 e 2015, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), será igualmente superior a 5%… É o percentual mais elevado da América Latina. E tudo isso com uma inflação moderada e controlada, inferior a 6%.
Assim, o nível material de vida dobrou. As contas públicas, embora com importantes investimentos sociais, são igualmente controladas, a tal ponto que a balança comercial oferece resultado positivo com excedente orçamentário de 2,6% (em 2014). Embora as exportações, principalmente de hidrocarburetos e de produtos de mineração, desempenhem papel importante nessa prosperidade econômica, é a demanda interna (+5,4%) que constitui o principal motor do crescimento. Finalmente, outro sucesso sem precedentes da gestão do ministro da economia, Luis Arce: as reservas monetárias internacionais da Bolívia agora equivalem a 47% do PIB, colocando pela primeira vez o país em primeiro lugar na América Latina, bem à frente de Brasil, México e Argentina. Evo Morales indicou que a Bolívia pode deixar de ser um país endividado em nível estrutural para tornar-se um país credor. Ele revelou que “quatro Estados da região”, sem especificar quais, já solicitaram crédito ao governo …
Num país onde mais de metade da população é de origem indígena, Evo Morales, eleito em janeiro de 2006, é o primeiro índio a tornar-se presidente no decorrer dos últimos cinco séculos. E, depois que assumiu o poder, esse presidente diverso rejeitou o “modelo neoliberal” e substituiu-o por um novo “modelo econômico social comunitário produtivo”. A partir de maio de 2006, nacionalizou os setores estratégicos (hidrocarburetos, indústria de mineração, eletricidade, recursos ambientais) geradores de excedentes, e investiu parte desse excedente nos setores geradores de emprego: indústria, produtos manufaturados, artesanato, transporte, agricultura e pecuária, habitação, comércio etc. Consagrou a outra parte do excedente à redução da pobreza por meio de políticas sociais (educação, saúde), aumentos salariais (para funcionários e trabalhadores do setor público), estímulos à integração (os bônus Juancito Pinto, a pensão “dignidade”, os bônus Juana Azurduy e subsídios.
Os resultados da aplicação desse modelo não se refletem apenas nas cifras acima, mas também num dado bem explícito: mais de um milhão de bolivianos (10% da população, portanto) saíram da pobreza. A dívida pública, que representava 80% do PIB, diminui e mal chega a 33%. A taxa de desemprego (3,2%) é a mais baixa da América Latina, a tal ponto que milhares de imigrantes bolivianos na Espanha, Argentina e Chile começam a voltar, atraídos pelo pleno emprego e notável aumento do padrão de vida.
Além disso, Evo Morales começou a tornar verdadeiro um Estado que até o presente não era senão virtual. É claro que a vasta e torturada geografia da Bolívia (um terço de altas montanhas andinas, dois terços de planícies tropicais e da Amazônia), assim como a divisão cultural (36 nações etnolinguísticas) nunca facilitaram a integração e a unificação. Mas o que não foi feito em quase dois séculos, o presidente Morales está determinado a colocar em prática, para dar fim ao desmembramento. Isso passa, antes de tudo, pela promulgação de uma nova Constituição, aprovada por referendo, que estabelece pela primeira vez um “Estado plurinacional” e reconhece os direitos de nações diversas que coabitam o território boliviano. Em seguida, passa pelo lançamento de uma série de ambiciosas obras públicas (estradas, pontes, túneis) com o objetivo de conectar, articular, servir áreas dispersas para que seus habitantes sintam que fazem parte de um mesmo conjunto: a Bolívia. Isso nunca havia sido feito. É a razão por que o país teve tantas tentativas de divisão, separatismo e fracionamento.
Hoje, com todos esses êxitos, os bolivianos sentem-se – talvez pela primeira vez – orgulhosos de si. Estão orgulhosos de sua cultura indígena e de suas línguas nativas. Estão orgulhosos de sua moeda, que a cada dia ganha um pouco mais de valor em relação ao dólar. Estão orgulhosos de ter o mais elevado crescimento econômico e as reservas monetárias mais importantes da América Latina. Orgulhosos de suas realizações tecnológicas como a rede de teleféricos de última geração, de seu satélite de telecomunicações Tupac Katari, de sua cadeia de televisão pública Bolivia TV. Essa cadeia, dirigida por Gustavo Portocarrero, deu em 12 de outubro, dia das eleições presidenciais, uma demonstração notória de sua excelência tecnológica ao conectar-se diretamente – durante 24 horas ininterruptas – com seus enviados especiais em cerca de 40 cidades do mundo (Japão, China, Rússia, Índia, Egito, Irã, Espanha etc.), onde bolivianos que vivem no exterior votaram pela primeira vez. Proeza técnica e humana que poucos canais de TV do mundo seriam capazes de conseguir.
Todas essas realizações – econômicas, sociais, tecnológicas – só explicam em parte a vitória esmagadora de Evo Morales e de seu partido (o Movimiento al Socialismo, MAS) nas eleições de 12 de outubro último [11]. Ícone da luta dos povos indígenas e autóctones de todo o mundo, graças a este novo triunfo, Evo conseguiu romper preconceitos importantes. Ele prova que a permanência no governo não causa, necessariamente, desgastes; e que, depois de nove anos no poder, é possível conseguir uma reeleição esmagadora. Prova também que, ao contrário do que afirmam os racistas e colonialistas, “os índios” sabem como governar e podem ser os melhores líderes que o país já teve. Prova que, sem corrupção, com honestidade e eficácia, o Estado poder ser um excelente administrador, e não uma calamidade sistemática, como pretendem os neoliberais. Finalmente, Evo prova que a esquerda no poder pode ser eficaz; que pode gerir políticas de integração e redistribuição de riquezas sem pôr em perigo a estabilidade da economia.
Mas essa grande vitória eleitoral explica-se também, e talvez sobretudo, por razões políticas. O presidente Evo Morales logrou vencer, ideologicamente, seus principais adversários, agrupados no seio da casta de empresários da província de Santa Cruz, principal motor econômico do país. Esse grupo conservador, que tentou tudo contra o presidente – desde o ensaio de divisão do país até o golpe de Estado –, acabou finalmente por submeter-se e render-se ao projeto presidencial, reconhecendo que o país está em plena fase de desenvolvimento.
É uma vitória considerável, que o vice-presidente Álvaro García Linera explica nestes termos: “Conseguimos integrar o leste da Bolívia e unificar o país, graças à derrota política e ideológica de um núcleo político de empresários ultraconservadores, racistas e fascistas, que conspiraram para dar um golpe de Estado e financiaram grupos armados para organizar uma divisão do território oriental. Além disso, esses nove anos têm mostrado às classes médias urbanas e aos setores populares de Santa Cruz, que estavam cautelosos, que temos melhorado suas condições de vida, que respeitamos o que foi construído em Santa Cruz e suas especificidades. Somos evidentemente um governo socialista, de esquerda, e dirigido por indígenas. Mas desejamos melhorar a vida de todos. Enfrentamos as empresas petrolíferas estrangeiras, da mesma forma que as empresas de energia elétrica, e as fizemos dar sua contribuição para depois, com esses recursos, dar poder ao país, principalmente aos mais pobres – mas sem afetar as posses das classes médias ou do setor empresarial. Esta é a razão por que foi possível um reencontro com o governo de Santa Cruz, e tão frutífero. Nós não mudamos de atitude, seguimos dizendo e fazendo as mesmas coisas que há nove anos. Eles é que mudaram de atitude diante de nós. Desde então, começa esta nova etapa do processo revolucionário boliviano, que é a da irradiação territorial e da hegemonia ideológica e política. Eles começam a compreender que não somos seus inimigos, que é do interesse deles praticar a economia sem entrar na política. Mas se, como empresários, tentarem ocupar as estruturas do Estado e quiserem combinar política e economia, eles não conseguirão. Da mesma forma, não pode ser que um militar assuma também o controle civil, político, uma vez que eles já têm o controle das armas.”
Em seu gabinete do Palacio Quemado (palácio presidencial) o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, explica isso em uma frase: “Vencer e integrar”. “Não se trata – diz ele – de derrotar o adversário e abandoná-lo à sua sorte, correndo o risco de que comece a conspirar com o ressentimento do derrotado e embarque em novas tentativas de golpe. Uma vez vencido, é preciso incorporá-lo, dar-lhe oportunidade de juntar-se ao projeto nacional em que todos estão envolvidos, sob a condição de que admitam e se submetam ao fato de que a direção política, pela decisão democrática das urnas, é exercida por Evo e o MAS.”
E agora? O que fazer com uma vitória assim esmagadora? “Temos um programa – afirma tranquilamente Juan Ramón Quintana – queremos erradicar a pobreza, dar acesso universal aos serviços públicos básicos, garantir uma saúde e uma educação de qualidade para todos, desenvolver a ciência, a tecnologia e a economia do conhecimento, estabelecer uma administração econômica responsável, ter uma gestão pública transparente e eficaz, diversificar nossa produção, industrializar o país, alcançar a soberania alimentar e agrícola, respeitar a mãe Terra, avançar em direção a uma maior integração latino-americana e com nosso parceiros do Sul, integrar-nos ao Mercosul e alcançar nosso objetivo histórico, fechar nossa ferida aberta: recuperar nossa soberania marítima e o acesso ao mar.”
Por sua vez, Morales exprimiu seu desejo de ver a Bolívia tornar-se o “coração energético da América do Sul”, graças ao enorme potencial em matéria de energias renováveis (hidroelétrica, eólica, solar, geotérmica, biomassa), ao invés dos hidrocarbonetos (petróleo e gás). Isso, com o complemento da energia atômica civil produzida por uma central nuclear cuja aquisição está próxima.
A Bolívia muda. Avança. E sua metamorfose prodigiosa ainda não acabou de surpreender o mundo.

sábado, 11 de outubro de 2014

BOLÍVIA - Evo vai ganhar as eleições.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

BOLÍVIA - "Recuperamos a pátria".

Compartilhar     
                 

“Recuperamos a pátria”, diz Evo Morales


O presidente da Bolívia destacou que a nacionalização dos hidrocarbonetos, entre outros setores, permitiu ao Estado controlar 34% da economia. Os acertos do seu governo constituem seu melhor spot de campanha.
A reportagem é de Sebastián Ochoa e publicada no jornal argentino Página/12, 23-01-20014. A tradução é de André Langer.
O presidente Evo Morales apresentou as conquistas da sua gestão, que nesta quarta-feira, dia 22, completou oito anos. Falou sobre os bons resultados dos indicadores econômicos e anunciou que o país começará a desenvolver energia atômica, com a colaboração de cientistas da Argentina e da França. “Agora temos pátria, recuperamos a pátria que antes estava nas mãos dos estrangeiros”, disse o líder aimara em referência à influência política que o governo dos Estados Unidos exerceu durante décadas sobre o país.
Em outubro deste ano, haverá eleições presidenciais na Bolívia. Prevê-se que Morales consiga ao menos 50% dos votos para garantir no primeiro turno seu terceiro mandato consecutivo. Os acertos econômicos do seu governo, iniciado em 2006, constituem o seu melhor spot de campanha. Para dimensionar os resultados, comparou os números do atual governo com os anteriores à sua chegada ao Palácio Quemado.
“O PIB per capita era de 1.010 dólares em 2005. No ano passado, chegamos a 2.794 dólares, o que é uma mudança significativa”, destacou o presidente na Assembleia Legislativa Plurinacional em seu discurso de quatro horas.
Segundo Morales, o PIB da Bolívia hoje é de 30,8 bilhões de dólares. São 21,3 bilhões a mais que em 2005, quando chegava a apenas 9,5 bilhões de dólares. O presidente destacou que a nacionalização dos hidrocarbonetos, entre outros setores, permitiu ao Estado controlar 34% da economia do País, frente aos 20% em 2005.
Estes resultados se devem a um “novo modelo econômico-social, comunitário, produtivo, que estabelece uma maior participação do Estado na economia, desestimulando a economia de livre mercado”, disse Morales.
Neste sentido, indicou que em 2014 o investimento estatal será de 6,4 bilhões de dólares, mais de 10 vezes os 629 milhões de dólares utilizados em 2005. Morales ressaltou que os depósitos da população nos bancos são, atualmente, de 15 bilhões de dólares. São algumas notas a mais que os 14,4 bilhões de dólares que há nas reservas internacionais do Banco Central. Em sua mensagem, o presidente comentou que agora alguns países se aproximam da Bolívia para pedir dinheiro emprestado, o contrário do que tradicionalmente acontecia. No final de dezembro passado, a Bolívia lançou no espaço o seu primeiro satélite, o Tupak Katari, que no futuro próximo permitirá reduzir os custos das chamadas telefônicas e melhorará a conexão da internet. “O governo decidiu que a partir de 1º de abril do presente ano a tarifa da Entel para o pré-pago baixará 20%, de 1,50 para 1,20 boliviano o minuto. Rebaixaremos também os custos da internet domiciliar, de 230 bolivianos para 195 bolivianos”, explicou.
O presidente também referiu-se à luta contra a produção de drogas, especialmente a cocaína, feita à base da folha de coca, uma planta sagrada para os indígenas locais e cujo uso é tão popular como o mate na Argentina.
“Até 2008, com a participação da DEA (agência supostamente antidroga dos Estados Unidos), 5,4 mil hectares de coca foram erradicados. No ano passado, 11,4 mil hectares (foram erradicados) sem a participação da DEA”, exemplificou Morales. O governo calcula que a produção destas terras era dirigida exclusivamente à elaboração do narcótico.
“Essa é a coragem, o compromisso não somente com a região, mas também com o povo boliviano. Felizmente, agora já não somos acusados pela comunidade internacional como zona vermelha; isso acabou”, assegurou o presidente.
E anunciou que o país começará este ano a desenvolver energia nuclear. “A Bolívia não pode ficar à margem deste conhecimento que é patrimônio de toda a humanidade. Por isso, tomamos a decisão de criar o programa nuclear boliviano com fins pacíficos. Sabemos que será um longo caminho; calculamos 10 anos para ver os primeiros resultados”, advertiu.