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sábado, 26 de abril de 2014

PORTUGAL - As consequências dos 40 anos da Revolução dos Cravos.

As consequências dos 40 anos da Revolução dos Cravos
Por Filipe Rodrigues

No mesmo ano em que no Brasil é lembrado os 50 anos do Golpe de 1964, os portugueses relembram os 40 anos de democracia no 25 de Abril que pôs fim ao Salazarismo no país. Quando a nação portuguesa deixou para trás os mesmos “40 anos” de atraso social, a sustentação do colonialismo e a marca de ser uma das últimas ditaduras europeias (ao lado da Espanha franquista e a Grécia).
Ao contrário das nações latino-americanas, os militares restauraram a democracia em Portugal, fato que mexeu com o imaginário coletivo brasileiro e latino-americano sonhando com o mesmo desfecho por aqui.
Numa época em que militares no poder significava rompimento das regras democráticas (tanto na direita quanto na esquerda), pela 1ª vez desde as grandes navegações e dos descobrimentos Portugal trazia uma importante renovação política que dura até hoje.
O movimento Bolivariano na Venezuela teve como uma de suas inspirações a Revolução dos Cravos, ao lado do governo do general peruano Juan Velasco Alvarado, único militar de esquerda no poder na América do Sul (deu um golpe de estado em 1968 e seria derrubado pela direita/CIA em 1975).
O Caracazo, rebelião popular na Venezuela em 1989 contra as medidas de austeridade despertou o Bolivarianismo assim como a guerra colonial gerou os motins nas forças armadas portuguesas e os Capitães de Abril, ironia do destino que Portugal atualmente também passe por medidas de austeridade.
Darcy Ribeiro assessorou o presidente peruano Alvarado e foi numa conversa com o ex-presidente João Goulart no Uruguai, testemunhada por Glauber Rocha, que o cineasta teria mudado sua opinião sobre o papel dos militares na sociedade, entrevista publicada numa entrevista com Zuenir Ventura que parte da esquerda brasileira nunca o perdoou.
Segundo Glauber o ex-presidente Jango teria feito referências elogiosas ao futuro presidente Geisel. Não foi uma decisão sem pensar, ele próprio havia percebido uma mudança de postura dos militares em suas passagens pelo Peru ao visitar o amigo Darcy e quando documentou a revolução dos capitães em Portugal no filme coletivo (As Armas e o Povo): 
Militares brasileiros também tentaram a via portuguesa quando o MDB lançou o general das alas mais á esquerda (Euler Bentes Monteiro) para concorrer com João Batista Figueiredo, não chega ser igual por ter sido uma disputa travada no Colégio Eleitoral, mas que tem certo simbolismo.
Para o cineasta que sempre debateu a libertação do Brasil e a integração com seus vizinhos, num mundo que se globalizava cada vez mais, o continente latino-americano somente seria soberano quando os militares se aproximassem do povo espoliado e aceitassem o jogo democrático, Glauber que sempre teve um talento profético, também previu Hugo Chávez com 20 anos de antecedência sem saber quem seria e onde. 

domingo, 2 de junho de 2013

PORTUGAL - A luta do Mario Soares.


Mário Soares quer derrubar o governo


Mário Soares, ao exigir a queda do governo, pregou a união das esquerdas e do centro, para recuperar a mensagem da Revolução ocorrida há 39 anos, e da qual é um dos poucos sobreviventes. Trata-se de estabelecer um programa comum de ação, a partir de pontos consensuais, que preservem a democracia e os direitos de todos os cidadãos.


A esquerda europeia retomou ontem as ruas, em protestos convocados pelos portugueses, contra a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu. Ainda que a grande imprensa e as autoridades policiais tenham reduzido a dimensão dos atos, eles foram expressivos. Mas, é natural que tenha sido assim. 

Por mais importante sejam os movimentos de massas, eles, por si sós, não mudam a História. Os protestos são facilmente reprimíveis pela força policial – a menos que os policiais a eles se adiram, como ocorreu na Queda da Bastilha, quando a Guarda Civil de Paris armou o povo, na jornada de 14 de julho de 1789.

O que faz as revoluções é a conjunção entre as ideias bem organizadas e a ação estratégica dirigida pelos líderes populares.

Quinta-feira, Mário Soares – o veterano intelectual e líder civil da Revolução dos Cravos, de 1974 – empolgou as forças de esquerda, ao proferir a aula magna da Universidade de Lisboa. Aos 89 anos, o ex-presidente e ex-primeiro ministro, fustigou a política de “austeridade”, exigida pela troika, ou, melhor, pela trinca, supranacional – o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu - que está asfixiando a Europa e prejudicando o mundo inteiro.

Ao lembrar a Revolução dos Cravos, disse Mário Soares: “Não podemos deixar que tudo isso seja destruído, que o país seja desmantelado e vendido a quem pague mais. Essa austeridade nos leva ao abismo, a ele nos empurra. E tudo, para que? Para enriquecer o mercado. A crise do euro não é só financeira e económica, é também social, política, ética e ambiental. O neoliberalismo, a ideologia que provocou a crise, contra as pessoas e em favor do dinheiro, está moribunda e não vai poder perdurar muito”. O auditório, de pé, repetiu, aos aplausos, a sua frase final: “Contra o medo, e com patriotismo”. Mário pretende criar nova maioria parlamentar e a queda do governo chefiado por Passos Coelho. 

Mário Soares, ao exigir a queda do governo, pregou a união das esquerdas e do centro, para recuperar a mensagem da Revolução ocorrida há 39 anos, e da qual é um dos poucos sobreviventes. Trata-se de estabelecer um programa comum de ação, a partir de pontos consensuais, que preservem a democracia e os direitos de todos os cidadãos. A organização política dos povos massacrados pelo neoliberalismo é o único caminho para impedir a consolidação da ditadura mundial dos banqueiros sob um regime fascista. A direita reforça sua posição no mundo, e a violência dos desesperados, como os atentados recentes de Boston e Londres, em lugar de enfraquecê-la, fortalecem-na. Estamos vivendo situação muito semelhante à dos anos 30, que resultou na tragédia dos campos de concentração e na sangueira da 2ª. Guerra Mundial.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

PORTUGAL- O remédio amargo da austeridade.



Lisboa - "Há mais de dois anos que os líderes europeus têm imposto um coquetel de austeridade orçamentária e de reformas estruturais em países debilitados como Portugal, Espanha e Itália, prometendo que isso será o remédio para curar as maleitas econômicas e financeiras, mas todas as provas mostram que estas doses amargas estão matando o paciente", escreve o Conselho Editorial do jornal norte-americano The New York Times, um dos mais vendidos nos Estados Unidos da América.

O editorial explica que o principal problema de as medidas de austeridade não estarem já a ter o efeito pretendido – crescimento económico – é, para além do aumento do desemprego, a criação de um descontentamento popular que favorece grupos como o Movimento Cinco Estrelas, em Itália.

"O verdadeiro perigo para a Europa é que movimentos como esse aumentem e que os eleitores e os decisores vejam cada vez menos vantagens em permanecer no euro. Se os países começam a sair da moeda única, isso causaria pânico generalizado no Continente e bilhões de dólares em perdas para os governos, os bancos e os investidores na Alemanha e noutros países ricos europeus, já para não falar no resto do mundo", escreve o jornal, sublinhando que "se os líderes europeus deixaram esses grupos políticos ganharem força, todos no Continente, e não apenas os portugueses ou os italianos, ficarão pior".

Numa parte dedicada exclusivamente a Portugal, o jornal escreve que "o governo de Passos Coelho cortou a despesa e aumentou os impostos, tanto que o déficit orçamentário caiu cerca de um terço entre 2010 e 2012", e acrescenta que o resultado destas e de outras reformas é que o desemprego subiu para os 18%. Assim, "os economistas dizem que Portugal vai provavelmente ter um déficit orçamentário, este ano, maior que o acordado com a troika (...) porque as políticas nacionais, sem surpresa, causaram uma recessão mais profunda que o previsto".

O artigo defende, por isso, que líderes como a chanceler Angela Merkel parem de insistir na austeridade e "ajudem a aumentar a procura, por exemplo, permitindo que os países mais frágeis possam emitir dívida pública apoiada pela zona euro", o que, no entender deste Conselho Editorial composto por editores e antigos diretores, e que responde diretamente ao presidente do grupo detentor do The New York Times, ajudaria os países a sair da "espiral recessiva".

"Os decisores políticos em Portugal e em Itália teriam a vida facilitada na defesa da necessidade de reformas se não tivessem de, ao mesmo tempo, cortar programas e apoios sociais", diz o texto, que argumenta que "um crescimento econômico mais rápido e um desemprego mais baixo criariam os recursos que podiam ser usados, mais tarde, para cortar a dúvida e reduzir o déficit".

quarta-feira, 20 de março de 2013

PORTUGAL - Mário Soares: "Portugal um país em demolição".



Portugal, um país em demolição
Em pouco mais de um ano e meio de governo conservador, o desemprego subiu de 11% para 17,6%, o PIB caiu 3,2% em 2012 e há cerca de um milhão de desempregados dos quais quase a metade não tem auxílio-desemprego
Por Mário Soares*, na Envolverde
O atual governo de Portugal é legítimo, porque foi eleito legalmente em junho de 2011. Porém, para vencer as eleições, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, fez promessas que não soube cumprir e aplicou políticas de austeridade extrema que causaram um desastre irreparável aos portugueses.
A percepção da imensa maioria da população é que estamos suportando o governo mais destrutivo da história da nação. E que nos encontramos à beira de uma ruptura social.
Alguns ministros deste governo conservador não podem sair à rua sem serem vaiados e insultados, de norte a sul do país.
Para enfrentar a crise, a administração de Passos Coelho apenas soube aplicar cortes e mais cortes no orçamento, de uma magnitude nunca vista na história portuguesa.
Primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho (www.tugaleaks.com)
Resultados: o aumento galopante do desemprego e as reduções dos salários, das aposentadorias e indenizações em caso de demissão, junto com uma carga fiscal em espiral, causaram perda do poder aquisitivo de aproximadamente 12% nos salários do setor privado e de 25% a 30% no setor público.
Em pouco mais de um ano e meio de governo conservador, o desemprego subiu de 11% para 17,6% da população economicamente ativa, o produto interno bruto caiu 3,2% em 2012 e, neste país de 10,6 milhões de habitantes, há cerca de um milhão de desempregados dos quais quase a metade (480 mil) não tem auxílio-desemprego.
Como se não bastasse, o endividamento da nação, público e privado, está alcançando níveis de catástrofe. Segundo dados de janeiro, a dívida pública, que no quarto trimestre de 2011 era de 107,8% do PIB, chegou a 120,3%, a maior na Europa depois das da Grécia e da Itália.
O endividamento privado é ainda mais alarmante, já que entre 2011 e 2012 subiu de 220% para 280,3% do produto interno bruto.
A queda da renda real afeta o conjunto dos assalariados, com a previsível exceção dos setores economicamente privilegiados, e está destruindo sistematicamente a classe média, o que é gravíssimo para o futuro do país.
As pequenas e médias empresas estão em crise e são numerosas as quebras. Acentua-se a fuga forçada de cérebros acadêmicos, científicos e dirigentes de empresas, e uma das mais penosas consequências é que nossas excelentes universidades enfrentam dificuldades operacionais e sofrem perdas qualitativas.
Ao mesmo tempo, o patrimônio português, desde as propriedades imobiliárias até as empresas, sofrem drástica desvalorização e é vendido a preço vil, agravando o desemprego.
Como mostra a gravidade da situação socioeconômica, hoje nas grandes cidades estamos vendo pessoas remexendo no lixo em busca de comida.
Não chama a atenção que a esmagadora maioria dos portugueses manifeste sua contrariedade com este governo com crescente agressividade. E a maior parte dos economistas, incluídos alguns que no começo apoiavam o governo, reprova as políticas de austeridade.
Ao contrário do que afirma Passos Coelho, os cada dia mais frequentes protestos populares são profundamente representativos do sentimento geral e do estado de desespero que aflige a população.
Há alguns dias, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, fez uma espécie de autocrítica ao reconhecer que suas previsões estavam erradas. Então, o que espera para abandonar o cargo?
Este governo, o pior que os portugueses já tiveram, acabará muito mal. Por isso, é oportuno e necessário que Passos Coelho apresente o quanto antes sua renúncia.
Mário Soares é ex-presidente e ex-primeiro-ministro de Portugal.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

PORTUGAL - Fantasma do neoliberalismo assombra portugueses.

Governo português supera a receita recessiva do FMI e propõe perda de direitos dos trabalhadores e salário mínimo poderá ficar abaixo da linha de pobreza da zona do euro

Milhares de pessoas protestam em Lisboa contra la reforma trabalhista

Lisboa, 11 fev (EFE).- Dezenas de milhares de pessoas se manifestaram neste sábado em Lisboa contra a reforma trabalhista do Governo português convocadas pelo maior sindicato do país, a Confederação Geral de Trabalhadores Portugueses (CGTP).

O protesto se transformou em uma passeata contra o amplo programa de ajustes adotado pelo Executivo português e que supera inclusive as medidas pactuadas com a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) como contrapartida por sua ajuda financeira.

A CGTP, de orientação comunista, estimou que a manifestação de hoje reuniu cerca de 300 mil pessoas e a considerou o maior protesto realizado na capital lusa nos últimos 32 anos.

O projeto de reforma trabalhista do Governo luso foi estipulado em meados de janeiro com a patronal e o segundo maior sindicato luso, a União Geral de Trabalhadores (UGT, socialista), mas com a oposição da CGTP, que considera que o texto representa um 'retorno ao feudalismo'.



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A nova legislação inclui a redução de férias, a supressão de feriados e um rebaixamento do pagamento de horas extras. Também serão cortadas significativamente as indenizações por demissões, que passam de 30 dias por ano trabalhado para entre oito e 12 dias.

O projeto não abrange, no entanto, a ampliação em meia hora diária da jornada de trabalho, como tinha previsto inicialmente o Governo.

O protesto de hoje causou o fechamento do tráfego e percorreu o centro de Lisboa até a Praça do Comércio, às margens do rio Tejo, onde chegaram os sindicalistas com seus cartazes e palavras de ordem contrárias às medidas de austeridade.

O aumento dos preços do transporte público, o aumento das taxas a pagar pela saúde pública, a alta generalizada de impostos e a supressão das circunscrições municipais foram também objeto de seus protestos.

Na Praça do Comércio, o secretário-geral da CGTP, António Carlos tomou a palavra para prometer que a central sindical 'lutará' contra esta reforma trabalhista.

Em seu discurso, exigiu ao Executivo a atualização do salário mínimo, estabelecido agora em 485 euros mensais, quantidade que segundo seus dados recebem cerca de 400 mil trabalhadores portugueses.

'Se levamos em conta os 11% que cada empregado desconta para a Seguridade Social, o salário líquido fica em 432 euros, quando a linha de pobreza se situa em 434 euros', denunciou o sindicalista.

Em declarações aos jornalistas logo após o final do ato, António Carlos não descartou a possibilidade que a CGTP convoque uma nova greve geral - a última foi em novembro do ano passado.

A liberalização do mercado de trabalho é um dos pontos que figura no memorando assinado pelas autoridades lusas com a UE e o FMI em maio de 2011 em troca do resgate financeiro, que concretizou-se em um empréstimo de 78 bilhões de euros.

Portugal seguiu o mesmo caminho que Grécia e Irlanda e acabou por recorrer à ajuda externa devido à asfixiante pressão que exercem os mercados sobre sua dívida desde o final de 2010, sintoma das dúvidas que desperta sua situação econômica no meio da crise que afeta toda Europa.
Agência EFE
Fonte: Blog Palavras Diversas

domingo, 16 de outubro de 2011

PORTUGAL - Militares ameaçam reagir em Portugal.

Enviado por luisnassif


Por Nilva de Souza

A Crise em Portugal

Crise Militares avisam Governo que estão com a população contra a austeridade



Militares admitem endurecer as manifestações de descontentamento e já marcaram um encontro nacional para 22 de Outubro.

A Associação Nacional de Sargentos (ANS) reagiu hoje às novas medidas de austeridade anunciadas ontem pelo Governo e que vão fazer parte do Orçamento do Estado para 2012.

Ao Económico, O presidente da ANS diz que "já há muito tempo" que os militares estão "a preparar uma série de iniciativas". E "se alguma dúvida existia na mente dos mais crédulos, as afirmações de Passos Coelho deitaram abaixo qualquer dúvida".


António Lima Coelho lembra que "há meses atrás, na oposição, Passos Coelho disse a Sócrates, na altura primeiro-ministro, que cortar nos subsídios era um disparate" e acrescenta: "Nós temos de ter memória, não podemos continuar a ser adormecidos com conversas bem ditas".

Por isso, no próximo dia 22, oficiais, sargentos e praças vão realizar um encontro nacional. "E este não é um encontro que se encerra em si mesmo, dado que poderão ser encontrados outros caminhos, quer sejam de demonstração de mau estar quer sejam de reiterar a disponibilidade para com quem está no poder de encontrar soluções para todas as partes", sublinha António Lima Coelho.

É que, segundo o responsável, as novas medidas de austeridade anunciadas ontem por Passos Coelho, "põem em causa os direitos constitucionais e inclusive de soberania" do país, sendo que "o corte dos subsídios é um agravamento de uma situação que já era muito difícil".

"As revoluções não se anunciam"

António Lima Coelho admite que "para o cidadão comum é muito difícil não conseguir cumprir os seus compromissos, mas para um militar que está obrigado a cumprir com as leis da República é muito mais grave".

Os militares garantem assim que "estão ao serviço do povo português e não de instituições particulares", e avisam: "Que ninguém ouse pensar que as Forças Armadas poderão ser usadas na repressão à convulsão social que estas medidas poderão provocar".

Questionada sobre um possível endurecimento dos protestos por parte dos militares, a Associação avança que "as revoluções não se anunciam, quando chegam, chegam porque têm de chegar, mas espero que a bem do Estado de direito que nunca um cenário desses se venha a pôr", conclui.

Recorde-se que no mês passado Passos Coelho fez questão de frisar, no discurso que escolheu para a sessão de encerramento das Festas do Povo, em Campo Maior, que "em Portugal, há direito de manifestação, há direito à greve. São direitos que estão consagrados na Constituição e que têm merecido consenso alargado em Portugal".

No entanto, avisou na altura o primeiro-ministro, "aqueles que pensam que podem agitar as coisas de modo a transformar o período que estamos a viver numa guerra com o Governo", quando o que existe é "uma guerra contra o atraso, a dívida e o desperdício", esses "saberão que nós sabemos dialogar, mas que também sabemos decidir".

quinta-feira, 16 de junho de 2011

PORTUGAL - A crise e a política econômica neoliberal.

A Crise e a política económica.

A agenda neoliberal na sua fase mais virulenta

Rui Namorado Rosa


O memorando da troika FMI/BCE/UE terá consequências devastadoras em todas as áreas da vida nacional. Entretanto, o governo acelerou já a aplicação de cortes e congelamentos do financiamento ao sistema científico e tecnológico nacional. O que significa o prosseguimento do caminho que vinha sendo seguido há já alguns anos, mas precipitando o seu agravamento futuro.

O memorando de “entendimento” que é imposto a Portugal pela troika PS-PSD-CDS coligada com a troika FMI-BCE-CE é gerador de um cenário de desastre, tanto pela evidente penalização social com que atinge a vida da população portuguesa em geral (poupando a grande burguesia que detém as grandes fortunas, os principais meios de produção, e os principais cargos de direcção), como pela regressão económica em que o país se encontra e que a “estruturação” aprofunda ainda mais, como também, por conduzir inevitavelmente (como se fosse o seu propósito) ao incumprimento perante os credores da dívida externa (por força das condições leoninas do empréstimo). A aceitação deste “entendimento” representaria um duro golpe à soberania do país e às suas capacidades e condições socioeconómicas por largos anos.
Não parece crível que os principais actores desta encenação não retirem a mesma conclusão quanto à insolvência do país a prazo, caso este “entendimento” avance. Mas pelos vistos o capital nacional-internacional está mesmo apostado ou é isso mesmo que tem em mente - levar por diante esta agressão ao nosso povo (com as conhecidas conivências políticas nacionais), que significaria um verdadeiro saque de dinheiro (fruto do trabalho e do roubo de direitos constitucionais dos portugueses) e de património (empresas, terras, o que quiserem comprar ou levar por conta, com a cumplicidade do trio PS-PSD-CDS). Deixando o país aprisionado numa dívida ainda maior.

Entretanto, o governo acelerou já a aplicação de cortes e congelamentos do financiamento ao sistema científico e tecnológico nacional, designadamente para Laboratórios de estado, Unidades de investigação universitárias, projectos de investigação científica e desenvolvimento experimental, e bolsas de investigação. O que significa o prosseguimento do caminho que vinha sendo seguido há já alguns anos, mas precipitando o seu agravamento futuro, ilustrando aquilo que o “entendimento” prevê no que toca à redução de “despesas” e do “peso” da administração pública (central e autónoma). Não obstante os slogans do “choque tecnológico”, do “compromisso com a ciência” e outras mais campanhas de relações públicas (depois de já esgotadas também as da “sociedade do conhecimento”, da “paixão pela educação”, etc.).
A desarticulação da capacidade científica e técnica do estado serve bem os interesses do grande capital; reduz a capacidade de intervenção do estado em matéria de planeamento, regulamentação, licenciamento, administração; liberta a decisão política da crítica técnica; facilita o negócio do outsourcing; liberta quadros qualificados para oportunidades de negócio a custos flexibilizados; etc. Os milhares de doutorados, arvorados pelo governo em bandeira da modernidade e da prosperidade do país – mas sacrificados neste pretendido saque de saldo - sabem bem quanto pesa o trabalho precário, as condições de trabalho adversas, a incompetência de gestores por conta de um governo retrógrado e corrompido, a falta de financiamento para produzirem, a falta de oportunidades e a emigração forçada.
A vertente científica e técnica do “estado mínimo” não é nada inocente, é duplamente negativa – para a economia e para a administração pública. A economia nacional (sobretudo as PME) perde apoios especializados da parte do estado. E a população fica exposta à ignorância e a abusos que a fragilizam; desde os riscos naturais, a segurança e protecção quotidianas (obras públicas e edificação, produtos alimentares e farmacêuticos, redes de águas e sanitárias, riscos tecnológicos, etc.). Tudo a favor do grande capital sem escrúpulos.

O “entendimento” poderia fingir fazer sentido se fosse no quadro de um sistema financeiro internacional previsível ou estacionário. Porém, o “entendimento” conduz em linha recta à atrofia do sistema económico nacional, já caracterizado por enormes dependências alimentar e energética, sufocando a sua capacidade de resposta. Então, no quadro externo instável e resvaladiço de crise sistémica, sujeito a rupturas e preços descontrolados de bens alimentares e de combustíveis, um provável agravamento do contexto externo de aprovisionamento terá repercussão catastrófica na economia e nas condições de vida dos portugueses, também inflacionando ainda mais a divida externa. Esta vulnerabilidade não pode ser ignorada, ela é um risco adicional iminente, o do efeito multiplicador da crise internacional para o plano interno.

O capitalismo procede em Portugal (como na Grécia, Irlanda e possivelmente noutros países mais da UE) à sua consabida missão de extracção de mais-valia e de acumulação de capital, mas agora e aqui por outra via, designadamente o negócio do saque financeiro (chantagem e agiotismo).
Tal como na Líbia procede entretanto ao saque (dos valiosos recursos do subsolo – hidrocarbonetos e água potável, e dos fundos e reservas das empresas do estado e do banco central) pela via violenta da guerra (ilegal e não declarada).
O capitalismo é uma máquina de exploração de configuração variável e tentacular. O presente saque e a ameaça do seu aprofundamento, aqui em Portugal, servirá sinistramente como uma fonte de financiamento da actual guerra contra a soberania e o património do povo Líbio?

Esta é a agenda neoliberal na sua fase mais virulenta.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

PORTUGAL - Greve Geral.

Portugueses aderem em massa à greve geral.

Trabalhadores portugueses realizam nesta quarta-feira (24) uma greve geral organizada pelas duas principais centrais sindicais do país: a Confederação Geral de Trabalhadores de Portugal (CGTP) e a União Geral dos Trabalhadores (UGT). A greve, que inclui tanto o setor público como o privado, deve durar 24 horas e tem como objetivo protestar contra um pacote de redução do orçamento nacional, que será votado na sexta-feira (26).

A pauta é o repúdio às medidas de austeridade, anunciadas pelo governo em setembro, entre as quais os cortes de salários dos trabalhadores do Estado, o congelamento das pensões em 2011 e o aumento em dois pontos percentuais do Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Esta é a segunda greve geral marcada conjuntamente pelas duas centrais. A primeira realizou-se há 22 anos contra o pacote laboral.

A última greve geral em Portugal foi realizada em 2007 e foi organizada apenas pela CGPT. A última paralisação conjunta entre as duas centrais sindicais aconteceu em 27 de março de 1988.

O plano prevê corte de empregos, de benefícios sociais e aumento de impostos com objetivo de diminuir o déficit público do país de 7,3% para 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB) até o fim de 2011. Com a crise na Grécia e na Irlanda, aumenta a pressão sobre Portugal para pedir empréstimo à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Outras causas do protesto, explicaram as centrais sindicais, são “a redução do poder de compra dos salários”; “o aumento generalizado do custo de vida”; “as práticas patronais generalizadas de ataque aos direitos”; “o bloqueio da negociação coletiva”; “o congelamento das pensões” e “o empobrecimento”. A aplicação do pacote deve diminuir o poder aquisitivo em um país que tem salário mínimo inferior a 800 euros. Em Portugal, o salário mínimo é de 554 euros desde janeiro de 2010, o equivalente a 1.286 reais.

Foto: João Relvas/Lusa

Carvalho da Silva diz que esta é a luta mais importante da década para os jovens
Grande adesão

A greve paralisou o transporte nas grandes cidades e os serviços públicos em geral.

"Há uma transversalidade nesta greve", o que é um sintoma da insatisfação dos portugueses, diz Manuel Carvalho da Silva, secretário geral da CGTP, explicando que "há adesões de setores operários públicos e privados, mas também de médicos, professores, juízes, há uma transversalidade em termos de classe sociais".

Transporte é setor mais afetado

Os transportes estão sendo mais afetados pela greve, já que 100% dos trabalhadores do metrô de Lisboa aderiram ao protesto à meia-noite, junto com 100% dos trabalhadores de prefeituras de cidades próximas à capital do país, de acordo com um comunicado distribuído por e-mail pela Confederação Geral de Trabalhadores Portugueses (CGTP).

Nenhuma linha de metrô circula em Lisboa e todos os aeroportos estão parados. Nenhum voo de chegada ou partida está previsto. Além disso, estima-se que 75% dos trens e 60% da frota de ônibus deixaram de circular, de acordo com as empresas Comboios de Portugal e Carris. Portos também estão paralisados.

Nos hospitais, apenas os casos de emergência estão sendo atendidos e os correios estão entregando apenas medicamentos. Segundo os sindicalistas, a greve teve forte adesão em empresas privadas como as da indústria automobilística, na qual a paralisação é de 90%.